Notas iniciais
Musica do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=MTj3MP1EpW0 (também recomendamos esse vídeo por motivos de Brandon Lindo haha)

– James –

I got this feeling that they're gonna break down the door

I got this feeling they they're gonna come back for more

See I was thinking that I lost my mind

But it's been getting to me all this time

And it don't stop dragging me down

A notícia de que quase morri é velha. Recebi muitos abraços, felicitações pelo ar ainda existente em meus pulmões e discursos substanciais daqueles meus amigos da escola que declamavam o quanto eu faria falta se de fato me fosse. Tudo quase tão emocionante quanto seus olhares ansiosos por qualquer detalhe que fosse do atentado a nossa vida.

Em determinado momento, descobriram que jamais abriria a boca para falar disso. Não depois de ver Abigail quase morrendo, após vê-la dormindo por dois dias direto porque tinha perdido tanto sangue que a doparam com poções sem fim para que ela dormisse até que seu fluxo sanguíneo se normalizasse depois de umas transfusões ou sei lá o que.

Os próximos três dias seriam tortuosos se eu não quisesse saber todas as coisas do mundo sobre Abigail, que não se preocupava o suficiente com o tremor das minhas mãos para soltá-las por aquelas 72 horas. Eu pensava em anfetaminas quando fechava os olhos, por isso os mantinha bem abertos assistindo-a. De alguma maneira estava feliz, mesmo sob aquelas condições. Talvez fosse apenas pelo fato de ela estar viva e ali comigo, dividindo a mesma maca quando não tinha nenhuma enfermeira por perto, propondo os jogos mais idiotas nos quais apenas ela tinha reais chances de ganhar por inventar as próprias regras e me beijando. Eu gostava especialmente da parte da maca combinada aos beijos.

Era nossa última noite na enfermaria quando, com as pernas sobre as minhas, me disse:

– Não ache que eu estou te pedindo em casamento. – Começou, fazendo uma careta bonitinha no rosto pálido. Sem os óculos eu conseguia ver seus olhos melhor: eram marrons cor de avelã, grandes e adornados por cílios escuros e longos. Pode parecer exagero descrevê-la como linda com os lábios cheios descascados e sem cor, com os cachinhos presos no alto e aquele rosto cansado, mas eu ainda a achava mais bonita que qualquer veela que já conheci. – Pare de me olhar como se eu fosse um gremlin.

– Grem-quem? – Falei, aproximando meu rosto do dela, subindo e descendo meus dedos por suas coxas. Gostava de sentir as irregularidades de sua pele arrepiada em contato com a minha e ela parecia saber, já que na primeira oportunidade entrelaçava as pernas as minhas. Queria que não estivéssemos em uma enfermaria, meu pensamento mais frequente.

– Eu estava prestes a dizer algo e você estragou, me encarando como um esquisito. – Ela girou os olhos. – Psico.

– Você ia dizer finalmente que quer sair daqui de mãos dadas como dois namoradinhos? – Beijei a ponta do nariz dela.

– E se eu quiser? – Girou os olhos novamente. – Daqui a uns meses você vai reclamar da minha falta de romantismo.

– Você quer de verdade? – A analisei, difícil descrever os meus olhos, porém se eles transpareciam toda minha expectativa, deveriam estar parecendo desesperados de maneira patética.

– Por que não? – Ela sorriu, olhando para baixo. – Você deixou claro que me quer demais e que me acha a pessoa mais incrível do mundo mil vezes.

– E você me recusou o dobro. – Ergui uma sobrancelha.

– Por isso está me dando um fora agora? – Abigail tinha um jeito de me fazer querer beijá-la a todo instante, tinha a ver com os olhos com formato de amêndoas grandes e aquela mordida leve no lábio inferior. Ou aquele sorrisinho que eu sempre quis tirar de sua boca para que ela me desse um verdadeiro, como nos últimos dias.

– Eu não estou. Só quero saber o que mudou. – Pensei em cachoeiras, em vassouras e em qualquer coisa que não fosse aquela boca macia que eu queria beijar.

– Você quer uma declaração de afeto, não é? – Me desafiou com o olhar e eu sorri.

– Você adora que eu encha sua bola o tempo inteiro. – Mordi seu queixo de leve, sem tirar meus dedos de suas coxas. Gostei do suspiro que ela tentou disfarçar. – Nada mais justo.

– O que mudou é que eu me sinto segura com você. – Abbie resolveu me olhar nos olhos, com um sorriso lindo. – Nós somos amigos, sempre fomos mesmo se considerarmos o fato de que você sempre olhou mais para meus peitos que para meus olhos, enfim, agora o que eu sinto por você não pode ser classificado apenas como amizade.

– Gosto do rumo dessa conversa. – Ela riu, roçando os lábios nos meus.

– Gosto de você. – Ela me beijou finalmente, apertando minhas mãos em suas coxas. – Confio em você, por algum motivo só penso em você e, apenas Merlin sabe como quero ter um relacionamento monogâmico sensual com você.

– Acho que isso vai ser o suficiente, Srta. Jones. – A beijei novamente, antes de morder seu queixo e selar meus lábios de seu pescoço até sua clavícula, deslizando meus dedos pelo seu corpo de um metro e meio. Seus pijamas eram larguinhos, porém curtos e não me impediam de imaginar o que veria se não existissem. Eu poderia culpar hormônios da adolescência, mas não eram os únicos culpados pelo meu desejo em vê-la nua.

– Dois minutos de namoro e já quer me ver sem roupa? – Fingiu um tom de voz indignado, antes de me puxar para perto com as mãos sob minha camiseta.

– Como você sabe? – Tentei ignorar a sensação de suas unhas fazendo espirais nas minhas costas.

– Ás vezes pensamos exatamente igual. – Riu e me beijou novamente, enquanto eu pensava que se existia alguém perfeito para mim no universo, ela seria esse alguém.

Se as enfermeiras não tivessem um senso de oportunidade incrível, talvez eu tivesse concretizado meus planos nem tão abstratos. Ela ainda estaria movimentando seu corpo sobre o meu enquanto minha mão se preocupava em conhecer cada pedaço daquele corpo por baixo de sua camisola de estrelinhas, ao mesmo tempo em que ela suspirava coisas agradáveis no meu ouvido e eu só pensava no quanto precisava finalmente ser capaz de ver tudo aquilo que estava tocando.

Após esse lampejo de vida e circulação sanguínea que tivemos por alguns minutos, fomos obrigados a nos separar ao sermos interrompidos rudemente pela chegada da Madame Binochet, a enfermeira da noite que administraria nossos remédios. Abigail esticou a mão em direção a minha e eu empurrei silenciosamente minha maca para a dela, separados por um criado-mudo.

– Quando a gente sair daqui amanhã, as coisas vão voltar a ser perigosas e eu sinto muito por isso. – Abigail falou, com o corpo virado em direção ao meu. – Sei que é minha culpa estarmos aqui nesse inferno de enfermaria.

– Não fale mal do lugar em que você me pediu em namoro! – Falei naquele tom de James-que-não-leva-nada-a-sério. – É especial!

– Haha. – Ela girou os olhos e apertou minha mão.

– Não é sua culpa. – Falei, querendo que Madame Binochet saísse da enfermaria deserta enfim para que eu pudesse abraçar minha namorada. – Você me salvou e foi mais do que eu consegui fazer por você.

– Nós salvamos um ao outro. – Ela encolheu os ombros.

– O meu ponto é: nós confiamos um no outro e estamos juntos nessa. – Sorri para ela, que me brindou com um sorriso incrível de volta. – E eu quero que você considere, caso algo aconteça novamente, a contar para o grupo sobre Dean.

– Voltaríamos para a enfermaria ou iriamos para o cemitério. – Pareceu mais pálida do que já estava, soltou uma risada nervosa. – É muito perigoso.

– Mesmo assim, você deveria pensar sobre o assunto. – Pedi, espiralando meus dedos em sua mão pequena. – Se mais pessoas soubessem talvez pegaríamos esse babaca mais rápido.

Quem nos atacou era o mesmo desgraçado que tinha matado Dean, isso era sem dúvida alguma. Nunca poderia ser coincidência o fato de que segundos após me contar toda a história de seu melhor amigo, que por acaso tinha sido (um pouco mais que) amigo de Ethan e suas suspeitas de assassinato, além de toda sua investigação sobre o assunto aliados às ameaças, tenhamos sido atacados. Não fazia menor sentido desconsiderar que havia um psicopata cercando minha namorada por aí e a ameaçando porque ela sabia demais e isso me deixava mais preocupado que antes, nem tão preocupado comigo mesmo que agora sabia a história toda, apenas com ela. Não queria sair de seu lado jamais.

– Quando você faz essa cara de quem tá preocupado demais comigo, me dá vontade de te beijar um milhão de vezes, deitada aí na mesma maca que você. – Ela desviou o assunto, através de ações implicitamente libidinosas, como se oferecer para dividir a cama comigo. Abigail sabe o que faz. – A culpa é inteiramente sua por eu gostar dessa sua cara de idiota e seu sorrisinho convencido.

Ela ficou me provocando até cair finalmente no sono. Eu nunca consigo dormir, estou acostumado a não conseguir, de qualquer maneira. Ficava a olhando dormir, cochilava por alguns segundos e depois acordava novamente. Estava mais magro que de costume, talvez porque meu corpo pedia minhas pílulas e por mais que meu novo vício afastasse esse pensamento, meu sangue ainda implorava por anfetaminas. Ás vezes de uma maneira tão brusca que parecia estar vendo coisas.

O que não foi o caso daquela noite.

A princípio achei que fosse algum tipo de alucinação que acontecia sempre a noite após Abigail dormir. Mas naquele dia, meu estado de espírito estava diferente, eu estava tão feliz e pensando em todas as coisas – não apenas sexuais – que gostaria de fazer com minha namorada quando saíssemos dali que eu não tive vontade de dormir, apenas de fechar os olhos e imaginar.

Provavelmente pensaram que eu estava dormindo, porém eu conseguia ouvi os passos pesados da pessoa que estava ali: eram definitivamente os mesmos daquela noite nos corredores da escola. Tenho certeza que já os tinha escutado antes daquilo, porque o barulho de solas gastas de botas (aquelas que não tem um solado reto, sim uma pequena plataforma de três centímetros de espessura, como em um salto) tinham um som característico que eu certamente conhecia. E não apenas porque minha mente sempre viajava àquela noite que fomos perseguidos em uma tentativa sempre válida de me amedrontar e me conceder pesadelos completos com som de morte, mas porque estava claro que aqueles passos firmes e irritantes já me aborreciam há anos. Só não conseguia lembrar sua fonte.

Meu coração se acelerou quando eu ouvi o rangido das botas em um lugar próximo ao que estava, tentei resistir ao impulso de abrir os olhos, entretanto outro par de sapatos se encontrou com as botas e eles se afastaram. Ouvi uma voz feminina sussurrando:

– Eu não entendo como isso seria parte do meu trabalho. – Sua voz era claramente tensa, quase tão tensa quanto o ritmo aperiódico de minha respiração. Cheguei perto de Abigail o mais silenciosamente possível, ainda que de maneira rápida demais para quem não deveria fazer muito esforço.

Não era possível ouvir a outra voz.

Por isso, contra meus instintos de proteção, saí do lado de Abbie e procurei algo com que pudesse me defender porque não seria pego de surpresa dessa vez. Tiram as varinhas de nós quando somos internados na enfermaria, então apenas tinha um vaso de cerâmica com uma planta esquisita como defesa. Fui andando devagar em direção ao som das botas irritantes: estavam ali para terminar o serviço, talvez agora teriam coragem e decência o suficiente de me amaldiçoarem de uma vez, de maneira rápida e indolor para que eu morresse enfim.

Melhor que assistir a garota que eu amo sangrar sem que eu possa fazer nada.

Conseguia ouvir o ritmo descompassado das minhas batidas cardíacas que faziam parecer que meus órgãos sairiam pela boca a qualquer momento. Se eu apenas conseguisse colocar os olhos em quem estava nos atormentando... Naquele que matou Dean, que empurrou Ethan de uma torre e que me fez passar por uma das maiores dores que já senti na vida.

Contudo, o barulho das botas sumiu enquanto eu vasculhava silenciosamente cada canto da enfermaria. Consternado, voltei para minha maca, tinha certeza que não tinha passado mais de três minutos fora dali, por mais que minhas mãos suadas dissessem o contrário.

– Abbie, acorda. – Estava desesperado, mas ela dormia pacificamente.

Perto de seu travesseiro tinha uma rosa vermelha cor de sangue e um bilhete:

“Todas as rosas morrem, ás vezes suas pétalas caem uma por uma, ás vezes alguém as corta pela raiz e as assistem murchar até não sobrar nenhuma beleza nelas. Qual pétala preferes perder primeiro, Abbie? Ou será que antes de tudo perderás a raiz?”

Precisava conferir que estava tudo bem com ela. Senti seu pulso e até medi sua temperatura, insisti que ela acordasse, tentei contrafeitiços em caso de azaração.

– Está tudo bem? – Me disse com voz sonolenta. – O que está acontecendo?

A apertei em um abraço, ela parecia estar bem. Fora apenas uma ameaça dessa vez não cumprida.

– O que é aquilo? – Ela olhou para o criado mudo que separava nossas macas. Pela primeira vez notei algo que não estava ali antes.

– Não é meu, eu juro. – Tinha prometido que não procuraria mais remédios, que a partir daquele dia em que quase morremos ficaria limpo. Mesmo assim ela encarava o frasco laranja das minhas pílulas prescritas já conhecidas.

Talvez isso te ajude a se concentrar e tomar decisões melhores no futuro. – Abigail recitou o bilhete que vinha junto ao frasco. – Aproveite.

Apontei para a rosa e o bilhete ao lado de seu travesseiro. E assisti petrificado sua reação horrorizada, suas mãos trêmulas e seu choro terrivelmente sonoro misturado aos soluços amedrontados da minha sempre forte e agora vulnerável namorada. Eu também precisava do abraço que trocamos, eu fiquei com tanto medo de quase perde-la de novo que esqueci de temer pela minha vida. Eu parecia ser bem corajoso ao ponto de levantar da minha cama com cerâmica e tentar acertar um assassino, mas eu não sei onde essa “audácia” inconsequente iria parar se ela não estivesse mais aqui.

Saímos da enfermaria quando todos foram para as aulas, não podíamos chamar atenção, de acordo com Neville: era perigoso andar pelos corredores da escola antes que não descobrissem quem tinha cometido tamanha atrocidade. “São duas crianças de dezessete anos, isso não está certo” diziam os professores nos corredores.

Eu e Abbie ficamos grudados até o momento de sairmos escondidos para a reunião, ela tinha se enfurnado no meu dormitório no momento em que todos saíram da sala comunal. Não tínhamos muito o que dizer, nem vontade de brincar ou sermos nós mesmos como estávamos sendo na enfermaria, estávamos tensos mesmo sabendo que tínhamos um ao outro, mesmo eu tendo dito de maneira audível e vergonhosa para menos de vinte e quatro horas de namoro que eu amava.

Parecia justo que ela soubesse que eu a amava se algo acontecesse comigo.

Voltar a atividades normais era estranho, no dia seguinte a reunião, Scorpius me olhava como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Como eu não conseguia me afastar de Abbie, esta foi obrigada a conviver com Scorpius e Rose em um grupo mais silencioso que o normal até Rose começar a falar em um ritmo frenético sobre física e números que jamais entenderíamos. Queria confiar que as paredes não tinham ouvidos em Hogwarts para contar nosso terror aos meus amigos, principalmente a Scorpius que sabia tudo sobre minha vida desde sempre.

Ele sempre sabe quando estamos escondendo algo, tanto eu quanto Rose. É quase como um dom.

Ao contrário do que as pessoas pensam, eu ainda penso nos outros, ás vezes mais que em mim mesmo. Não tinha nenhum tipo de força para ver meus melhores amigos deitados em uma enfermaria e descobri que se visse Abbie em uma maca mais uma vez era capaz de tentar matar o dono das botas infernais com minhas próprias mãos e ele parecia saber disso.

Havia dois dias desde a reunião. Prometemos um ao outro que não andaríamos sozinhos pela escola, por isso caminhei para o meu quarto após procurar Abbie por toda parte. Em algum momento no meio da noite ela apareceria para me dar boa noite, devia estar com sua nova colega de abraço Izzie. Sorri com o pensamento de beijar minha namorada sob as cobertas.

Nada de Abbie.

Deitado na minha cama, encarei o teto até tirar o frasco de adderall do bolso e jogá-lo de uma mão para a outra. Se eu tomasse um não faria diferença, certo? Quer dizer, eu de fato tenho uma doença e preciso dos efeitos desse negócio no meu sistema nervoso. Não é como se fosse fácil ficar sem: eu estou ouvindo os passos das pessoas e misturando-os a sons que já conheço, como aquele som de botas gastas que ouvi em uma aula de hoje mas não consigo identificar qual, não consigo manter o foco e estou dormindo mais que cinco horas por noite em dias de semana.

Aquele frasco foi prescrito a “James Morrison”. Todas as pessoas familiares ao rock trouxa antigo sabiam quem era Jim Morrison e, quando eu consegui descobrir quem era, tive que dar um certo crédito ao psicopata por achar alguém com o meu nome que morreu por abuso de substâncias. O apreço do assassino por rock me deixou admirado, ele era vocalista de uma banda legal de qualquer maneira com nome pouco criativo.

Estava escapando da tentação de tomar a “última pílula” quando um dos infames bilhetes que eu e Abbie recebíamos com frequência desde que saímos da enfermaria adentrou a janela do meu dormitório. Coloquei o frasco no bolso e li:

Procurando sua namorada? Talvez eu possa ajudá-lo. Contudo, terás que se concentrar bastante".

Um péssimo dia para jogos mentais, pensei. Porém, eu não tinha a encontrado em parte alguma.

– Onde você está indo? – Al parecia estar me vigiando nos últimos dias, sempre na sala comunal fingindo fazer algo interessante.

– Mãe? É você? – Respondi, girando os olhos. As pessoas precisam entender que comentários cínicos saem mais fáceis que a verdade, como explicaria para meu irmão que lançaria um feitiço no bilhete e tentaria segui-lo com o objetivo de encontrar o remetente das mensagens que ele nunca nem ouvira falar?

– Não, mas posso fazê-la aparecer agora mesmo se você quiser. – Ele também girou os olhos, mas estava de braços cruzados, como se fosse o irmão mais velho. E talvez seja, em questão de maturidade pelo menos. É possível que Gina tenha mentido para nós a vida inteira e se aproveitado do fato de que eu cresci mais rápido. – James, me escutar não faz parte da sua gama de atividades, mas por favor. Você mal voltou da enfermaria.

Alvo é mais sério que eu, mais compenetrado, mais organizado e todas as coisas que o fazem parecer infinitamente mais inteligente que eu. Vê-lo preocupado comigo, quando deveria ser o contrário, fazia com que eu quisesse me sentar ao lado dele e perguntar como andava o relacionamento dele com a menina esquisita de olhos grandes, os planos dele – que eram vários, claro­ – para o futuro. Eu deveria ser a pessoa que ele admirava e não o contrário.

– Eu só preciso ir. – Tentei me explicar, sem mencionar as ameaças, os bilhetes e os vidros de adderall. – Acho que Abbie precisa de mim.

– Vou com você. – Meu irmão mais novo me disse. – É mais seguro assim.

– Não. Absolutamente não. – Quase ri da cara dele. Por achar algo engraçado? Não. Mas por nervoso, pânico e milhares de sentimentos de pessoa responsável que eu não sabia que tinha. – Você é meu irmão do meio e não o contrário, você não se arrisca por mim, eu me arrisco por você e o mundo funciona assim.

– Não. Não mesmo. – Ele me encarou, de pé. Nunca tinha percebido o quanto ele tinha crescido até ver seus olhos na altura do meu nariz.

– Você fica. Fim da discussão. – Falei, apertando os olhos e caminhando em direção a porta. Antes, lhe lancei um sorriso, algumas pessoas sempre serão quem elas são. – Se eu não voltar em vinte minutos, você pode fazer um pequeno grupo de busca.

Ás vezes eu me sinto mal por ser quem eu sou.

Enfim, era um feitiço simples, porém, uma vez que o assassino não foi cuidadoso ao escrever a carta de suicídio de Ethan, talvez não tivesse sido com o bilhete.

Sequitur Mittente. – Murmurei para o pedaço de pergaminho que flutuou duas vezes no ar e voltou para minha mão. Acho que não estava a fim de me levar para o remetente e ainda me trazia uma mensagem.

Vou te falar em uma língua que você me entende: quatro comprimidos para a direita, depois mais três a esquerda.”

Piadista.

Quatro metros a direita e três a esquerda e eu estava em frente a um quadro. Sir Bartolomeu Mercury, um quadro até recente para os parâmetros de Hogwarts, me encarava enquanto o mirava de volta: um olho de vidro e um avermelhado, como um vampiro pirata. Outro bilhete flutuou até minha mão, psicopata devia estar por perto.

“Um desafio para você: James tomava 500mg de Adderall por dia, a dose recomendada é não mais de 70mg. Mas a vida é pregou lhe uma peça e James passou 5 dias sem tomar nenhum, quantos ele vai precisar para se concentrar e encontrar a namoradinha?”

– Nenhum. – Falei em voz audível o suficiente.

– Resposta errada. – Disse o quadro. Sua voz era grave e sua rouquidão era tão desagradável quanto unhas se arrastando em quadro negro. Era possível enfeitiçar quadros? – Se você quer vê-la novamente seria interessante abrir o seu presente. Você sabe o preço desses vidrinhos, recusá-lo é apenas rude.

Permaneci irredutível encarando o quadro até ouvir a voz dela. “James, ele está comigo, por favor James!”. Poderia não ser a voz dela, eu só estava em pânico, porque e se fosse? Estava falando James, chamando por mim, pedindo ajuda e eu nem imaginei que fosse um possível truque: sem pensar duas vezes, obedeci e tomei meus 500mg de adderall.

Nos minutos que se seguiram ouvi uma risada, mas estava perdido no espaço. O quadro talvez estivesse rindo da minha cara, como se eu fosse uma grande piada. A voz não estava vindo da minha cabeça, tenho quase certeza. Dizia que Abigail já tinha perdido um e perguntando quem seria o próximo. Estava me chamando de alvo fácil declarando que agora eu morreria por confiar em estranhos e me apaixonar por garotinhas intrometidas. Estava debochando de mim e aquelas seriam as últimas palavras que eu escutaria, porque eu não tinha mais certeza de quem eu era.

Primeiro eu senti meu coração acelerar e depois meus dedos ficaram dormentes. Eu queria sacudi-los, estala-los ou qualquer coisa que fizesse aquela sensação passar, mas era impossível me mover. Eu escutei meu corpo caindo no chão e talvez eu estivesse tendo alguns ataques epiléticos, não sei. Era como se eu não estivesse mais no meu corpo, como se eu estivesse assistindo-o se convulsionar e se remexer no chão. Porém o sentimento de que haviam mil insetos se agarrando e se movendo, rastejando e escalando cada centímetro sob minha pele de maneira agonizante era tão real que eu sentia a necessidade de arrancá-la fora até me ver em carne viva.

Então o pânico se instalara e eu não conseguia respirar, era como se um mamute tivesse se sentado em meu peito e eu tivesse milagrosamente parado até de hiperventilar.

A última coisa que vi antes de fechar os olhos pelo que espero que seja para sempre, se significa que essa dor vai passar, foi Alvo. Ele dizia algo e eu não escutava, ele gritava pelos corredores e eu não escutava, ele me carregava até a enfermaria e eu morria.

Queria ter escolhido minhas últimas palavras. Mas estava tudo bem, todos nascemos para morrer.