Born to Die

15 It's Hard To Get Around The Wind


Notas iniciais
Musica do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=gshSu0CTaAw

– Scorpius –

It's like you're trying to get to heaven in a hurry

And the queue was shorter than you thought it would be

And the doorman says, "You need to get a wristband"

You got a lift between the pitfalls

But you're looking like you're low on energy

Did you get out and walk to ensure you'd miss the quicksand

“Hogwarts, 16 de Janeiro de 2023.

Draco,

James está na enfermaria outra vez.

Estou certo de que quando ele planejou fazer de seu ultimo ano inesquecível, não contava com essas duas baixas. O Sr. e a Sra. Potter vieram imediatamente e estão com ele desde então. Ninguém além deles e da Madame Snicket estão autorizados a vê-lo, mas recebemos noticias de que ele já está bem e em repouso. Eu gostaria de poder dizer o mesmo sobre mim, mas estou assustado pra caralho. Meu único amigo de infância morreu, minha namorada está sendo ameaçada por um sádico assassino e o animal do meu melhor amigo mal consegue se manter a salvo e em pé por mais de três dias.

Sei que seu sexto ano foi horrível porque você ainda tem pesadelos a respeito. Estou começando a achar que ficarei igual a você. É um pouco irônico.

Me pergunto o tempo inteiro se poderíamos conversar sobre isso.

Mas não se preocupe.

Você me criou bem. Somos igualmente covardes.

Um abraço,

Scorpius”

Depois de guardar o meu material de escrita eu bati a cabeça na mesa três vezes enquanto grunhia coisas incompreensíveis e praguejava mentalmente. Quando me recuperei, amassei o pergaminho que continha a carta passivo-agressiva para Draco e a queimei com um meneio de varinha.

Meu pai, embora eu não tenha deixado nenhuma pista sobre isso, era um homem razoável. Eu não saberia dizer se “decente” ou “bom” se aplicavam a ele, porque para isso eu precisaria conhecê-lo direito. Eu o amava – obviamente – mas o fato de termos uma relação baseada em silêncios e amenidades me fazia nutrir certa raiva. Raiva por não sermos íntimos. Raiva por ele nunca se defender das coisas que sussurravam sobre ele, ou me dar sua versão dos fatos. Draco era um homem reservado e eu respeitava isso tanto quanto odiava.

– Hey. — Rose me chamou com suavidade. — Tudo bem?

Eu fiz que sim com a cabeça e ela comprou a pequena mentira bem intencionada sem contestar.

– Jones está convocando o pessoal. A coitada da menina parece desolada.

Eu encarei minha namorada e seu tom escarlate oscilante e senti vontade de bater minha cabeça novamente. O dia estava com cheiro de planta-raiz desde a noticia da overdose de James e eu sei bem que não há nada de bom em um dia com um cheiro desses.

Me levantei sem vontade e dei a mão para Rose, mais porque eu precisava sentir alguma espécie de segurança do que por qualquer outra razão. Ela entrelaçou os dedos longos e finos entre os meus e nós andamos apressados até a sala oficial do clube. Felizmente, fomos os últimos a aparecer, assim não precisamos esperar em agonia até que todos estivessem presentes.

Abigail estava no lugar que geralmente pertencia ao Louis, o que significava que ela estava no comando daquela vez. E, assim como mandava a tradição, ela estava cumprindo bem o pré-requisito para ocupar tal posto: seu desespero impregnava cada canto da sala exatamente como as toxinas cancerígenas dos cigarros de Rose.

– Não pude ver o James — Ela começou com voz e mãos tremulas. — Então eu pensei nas alternativas. Andar de um lado para o outro funcionou por quinze minutos, rir de nervoso até parecer louca também cumpriu seu propósito, embora por uma quantidade de tempo menor e depois... Depois eu só não soube o que fazer. Por isso pedi para que vocês viessem. Porque não sei o que fazer. E quando eu não sei o que fazer, eu falo. Na verdade, isso é o que eu faço o tempo inteiro. — Ela tomou fôlego. — Mas eu quase nunca falo sério.

– Ham... Abbie... — Dawson interrompeu-a de maneira gentil e preocupada.

– Espera. — Ela pediu. — Eu vou chegar ao ponto. O ponto é que eu conheço um contingente de pessoas. Ethan era uma delas. Ele era um cara gente boa, mas talvez eu nunca teria pisado aqui se só tivesse essa razão para acreditar que ele não se suicidaria. As vezes pessoas aparentemente felizes se matam. A vida é uma droga assim. Ned Vizzini, que é um autor trouxa que eu gosto muito, pulou do telhado da casa dos pais depois de escrever livros realmente brilhantes sobre como enfrentar doenças sérias como depressão. As vezes, eu mesma penso em coisas assim. — Fechando os olhos e respirando fundo, Jones continuou — Então é isso. Tinha esse cara, o Dean, e ele era meu melhor amigo. Por muito tempo, Dean foi, pra mim, a personificação do que Hogwarts tem de melhor. E ai ele morreu de um jeito louco e improvável e na minha cabeça, aquilo não podia estar certo. Então eu passei um bom tempo procurando uma explicação alternativa. Até me deparar com Ageratina Libitina, o que me fez pensar...

– Que talvez Dean tenha sido envenenado. – Rose murmurou ao meu lado.

Jones concordou.

– Mas se você sabia disso o tempo todo... – Rose tornou a falar, um pouco irritada, parando de súbito ao perceber que a situação de Abigail poderia ser igual a dela.

– Porque eu não contei? – Abigail perguntou por ela, respondendo logo em seguida. – Bom, eu venho sendo ameaçada desde então. E o engraçado sobre ameaças é que elas funcionam. Às vezes por muito tempo. As vezes, até fazerem seu namorado sofrer uma overdose, eu diria. Nesse momento você fica muito nervosa e decide fazer o que sabe fazer de melhor. Falar. Então essa sou eu falando: Dean era meu melhor amigo. Ele era alegre e era um adolescente comum. E gay. E provavelmente tinha um caso com o Professor Pontius. O que, vocês sabem, é um tanto quanto coincidente, se pararmos para pensar que esse é o nosso professor de poções e que se um escândalo desses vazasse, ele estaria destruído.

Quando alguém te diz algo muito absurdo, existe uma lista infindável de atitudes que você pode ou não tomar, dependendo do tipo de pessoa que você. Algumas das atitudes mais comuns são rir, ficar espantado, gritar o óbvio: “isso é um absurdo!”, ou balançar a cabeça como se o interlocutor estivesse padecendo de doenças mentais. Correr também funciona, para alguns.

Mas quando alguém te diz algo absurdo que faz sentido, como “houve uma explosão há muito tempo atrás e isso gerou muitas coisas, inclusive o nosso planeta”, “seu pai era um comensal da morte sim, você pode comprovar isso pela marca que ele leva no pulso” ou “sabe aquele nosso professor que tem um vasto conhecimento sobre poções? Acho que ele envenenou uma pessoa, utilizando-se desse conhecimento” você não ri. Você não fica espantado, nem grita o óbvio, porque de repente não é tão mais óbvio assim. Você fica sentado na sua cadeira, encarando todos os seus novos colegas, ponderando sobre essa informação e deixando-a se assentar no fundo do seu estomago, bem ali onde já estão pesando o medo e a raiva.

Pelo menos, foi isso que aconteceu comigo.

– Ethan saia com alguém. – Dawson disse em um fiozinho de voz. – Antes de começar a namorar Lou. Ele me disse que era um cara mais velho, mas eu supus que ele estivesse saindo com um dos veteranos. Eu... – Seu rosto estava petrificado. – Eu nunca insistia nesses assuntos porque Ethan gostava de preservar a identidade dos rapazes com quem ele saia, a menos que a pessoa estivesse bem e resolvida com a própria sexualidade. Daí então ele me contava.

Eu mirei Louis de esguelha e me pareceu que seu rosto estava atingindo uma cor esverdeada e doente. Pensei que ele fosse vomitar na nossa frente, mas ao invés disso, ele pediu licença e saiu da sala.

Não acho que foi intenção dele, mas isso meio que fez com que a reunião acabasse.

Nós estávamos todos muito abalados para dizer qualquer coisa que fosse e eu me limitei a lançar um olhar solidário para Abigail. Isobel Dawson e Alvo haviam se levantado para falar com a garota, então Rose e eu apenas nos despedimos de maneira silenciosa de Roxanne e John e nos dirigimos em silencio até a sala comunal, onde ficamos aninhados em um sofá de canto. Demorei a perceber que tremíamos.

– O que nós vamos fazer, Scar?

Eu gostaria de poder responder “roubar alguns doces da cozinha” como eu sempre fazia quando achava que ela estava se preocupando demais com alguma coisa. Mas não era o caso e roubar doces não faria com que a gente se sentisse melhor.

Ao perceber que eu não iria respondê-la, ela me lançou outra pergunta difícil:

– O que você acha que aconteceu?

Eu pensei um pouco sobre a questão.

– Acho que eles se desentenderam. Não tenho ideia de como Ethan descobriu sobre Dean, mas isso explica porque ele parecia tão ansioso e agitado nos dias anteriores à sua morte. Ethan o entregaria para o Conselho, tenho certeza disso. Acho que foi por isso que ele morreu. Nós deveríamos falar com o professor Longbottom.

– Só temos prova substancial de que Ethan não cometeu suicídio. – Rose me lembrou. — Para acusar Pontius precisaríamos de algo concreto. Se chegarmos para Longbottom e dissermos apenas que achamos que nosso professor de poções é um psicopata, ele vai rir e dizer que achava o mesmo sobre o professor da época dele.

– Mas ele teria que abrir uma investigação, Rosie.

– Sim, de fato. E nesse meio tempo, o que você acha que aconteceria conosco? – Seus olhos estavam cheios de terror. – Precisamos encurralá-lo.

Nós temos dezesseis anos. – Murmurei.

– Com dezesseis anos nossos pais também estavam atrás de um psicopata.

– Você quer dizer os seus pais. O meu pai estava prestando serviços para o psicopata.

– Scorpius...

– Não quero conversar sobre isso. – Me levantei. – Você está certa. Precisamos encurralá-lo. Mas enquanto não descobrimos como fazer isso, poderíamos burlar uma regra ou outra e dar um jeito de visitar James.

Seu rosto ainda estava com aquele misto de preocupação e compaixão que eu odiava, mas ela disse “sim” e isso foi o suficiente para que eu me recomposse. Parecia fazer séculos desde que Rose, James e eu tivemos um dia juntos. Quando tudo estava bem, nós costumávamos nos sentar perto do lago, ou dentro de alguma sala vazia, e passar horas falando sobre coisas idiotas e filmes trouxas, hábito que eu havia adquirido exclusivamente por conta deles.

Eu não tinha noção do quanto eu estava desesperado para retomar pelo menos uma parcela dessa normalidade até conseguir me enfiar na enfermaria com Rosie e encarar Potter.

– Qual de nós é o doente agora, ham? – Eu o acordei, me sentando ao seu lado.

James abriu os olhos com dificuldade e então sorriu daquela maneira estúpida e divertida que só ele sorria.

– Você. – Sua voz estava fraca e preocupante e ele estava visivelmente grogue.

Os olhos de Rose se encheram de lágrimas e ela segurou as mãos do primo, como se assim ela pudesse garantir que nada de ruim fosse tornar a acontecer com ele.

– É bom ver vocês. – Seu sorriso ainda pendia frouxo e ele estava sendo tão sincero que me deixou desconcertado.

– É bom ver você também, cara.

– Nós temos tanta coisa para te contar. Acabamos de sair de uma das reuniões. – Rose disse.

Ele fechou os olhos e meneou a cabeça.

– Abbie está bem?

Rose e eu trocamos um olhar e decidimos em silencio que ela deveria ser a pessoa a falar.

– Fisicamente? Sim. Psicologicamente? Ela está uma bagunça.

– Acho que ela me ama. – James sorriu de novo.

– Nós não duvidamos disso.

– Podem ser as poções que eles me deram para dormir... Mas estou com um bom pressentimento. Acho que conseguiremos resolver isso logo.

Rose e eu nos olhamos mais uma vez.

Eu coloquei uma mão sobre o ombro de James e Rose permaneceu segurando seus dedos. Não haveria mais conversas depois disso. Potter apagou novamente, segundos depois. Acho que ele não estava brincando sobre as poções de sono, afinal de contas. Mas nós estávamos juntos, nós três, como sempre tinha sido, e como sempre seria de algum modo, e isso para mim já era um bom sinal.

Ficamos conversando em silencio. Sei que isso não é muito lógico, visto que James estava desacordado, mas ainda assim. Era o que estávamos fazendo. Foi o que fizemos por um longo tempo até sentir os corações desacelerarem um pouco, exatamente como quando assistíamos o desenrolar do clímax de um filme bom e víamos a história escorrer lentamente rumo a um desfecho iminente.