Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=KI0I1jGQpwg Estamos atoladas, mas em breve responderemos os comentários! :D Ah, e Ingrid, bem vinda! ♥ Esperamos que você continue gostando da historinha.

– John –

Your lion's heart will protect you under stormy skies

And I will always be listening for your laughter and your tears

And as soon as I can hold you once again I won't let go of you, I swear

We lived through scars this time, but I've made up my mind

We can't leave us behind anymore

Eu aprecio literatura clássica, fantasia e ficção científica. Porem reservo, sobretudo, boa parte do meu tempo para algo que costumava me dar prazer: clássicos de Stephen King, o mestre do suspense e terror. Há algumas semanas, no entanto, olhar para a pilha de livros gastos pelo manuseio constante, não apenas me embrulhava o estomago como me trazia um desconforto geralmente acompanhado por arrepios.

Quando o seu professor de poções se torna o principal alvo da investigação de seus colegas e seu maior objeto de medo, você se sente fora de órbita. Era como se existisse uma problemática de causas desconhecidas no equilíbrio cósmico desse nosso universo: parecia que tínhamos perdido a rota definitivamente.

De repente eu não gostava mais de terror ou de suspense, porque eu de fato sabia o que era sentir medo.

A frequência exorbitante na qual ele se materializava nos corredores enquanto nos movimentávamos sempre em grupo e varinhas em punhos, era assustadora assim como tudo sobre sua figura: algumas pessoas diziam que ele era bonito. Era sem dúvidas simpático quando lhe convinha e temperamental quando lhe pisavam os calcanhares, seu pescoço era envergado para o alto para acompanhar a altitude da ponta de seu nariz.

Não gostava de falar seu nome, era como se ele se personificasse em questão de instantes. Uma vez Anne se referiu a ele como nosso Everest, como se fosse um desafio e um obstáculo a ser superado nesse percurso de nossas vidas. Mas ele era Pennywise, ele era a coisa e todas as vezes que nos via juntos se alimentava do nosso medo e sorria, como um demônio ou um dementador humano. Não me importava se ele não fosse o culpado, apesar de minha nova e forte certeza, apenas o odiava.

Não tinha certeza se estava mais em nossa alçada provar sua culpa. Parecia que seria impossível escaparmos com vida de um embate com o sociopata que assim como A Coisa de Stephen encontra prazer em matar pessoas em teoria mais fracas que ele.

Seria mais prudente que não fossemos vistos juntos, sabíamos disso. Sabíamos também que James frequentara a enfermaria mais que Corey Frye, o garoto hipocondríaco mais famoso de Corvinal. Existiam ameaças, sectumsempra, overdoses de estimulantes e mortes, não apenas a morte de um como acreditávamos desde o princípio.

A diferença entre as mortes de Dean e Ethan era que uma fora planejada e a outra não. Assim como ele encontrara a fraqueza de James que estaria morto se não tivesse sido seguido de perto por Alvo sob sua capa, ele encontraria cada uma das nossas assim que ele descobrisse que sabíamos a verdade e dessa vez não seria descuidado como fora com Ethan, seríamos todos Deans e sabíamos disso.

– Vocês não acham estranho? – Nos perguntou James, enquanto sentados em nossa sala comunal. Olhávamos uns para os outros.

O som da madeira queimando naquela noite gélida combinado aos nossos olhos inquisitivos e nosso psicológico abalado, não eram as únicas particularidades da noite. Estávamos sentados em círculo em nossa sala comunal: Alvo, James, Abigail e eu, numa situação que jamais seria imaginada por mim há algumas semanas.

– Se você está falando sobre esse pequeno clube dos amedrontados, sim. Muito estranho. – Abigail fora quem respondera. – O que um psicopata uniu ninguém jamais separará.

– Vocês têm um senso de humor esquisito. – Comentei, o que fez que Abbie sorrisse e James tentasse gargalhar.

Se não fosse o estúpido – porém necessário – horário de recolher, estaria com Roxanne agora. A certeza de que ela estava com o nariz enfiado em algum daqueles livros de herbologia que não tinham sido devolvidos a biblioteca em busca de qualquer detalhe que ajudasse Rose a entender a poção que envenenara Dean me trazia algum tipo de tranquilidade. Rose estava obcecada, andava por aí com o nariz em suas notas e dedos sujos de grafite, mas não estou certo de que aquela seria exatamente a prova que precisávamos para leva-lo ao conselho.

Tudo era circunstancial.

– Estamos perto de algo, eu posso sentir. – James fora quem quebrara o silêncio novamente. – Eu sei que vocês me acham um louco quando afirmo isso, porque as coisas parecem desesperadoras agora.

– James, isso é um discurso motivacional? Porque você deveria guarda-lo para a próxima reunião. – Alvo disse em um tom rabugento, com os pés cruzados sobre a mesa de centro.

– Poderia ser um se eu quisesse, quase morri duas vezes nas últimas semanas e tenho direito a uma regalia ou outra. – Existia algo de irritante na maneira como James sempre torcia tudo e terminava suas frases com um sorriso estranho. Sobretudo agora que sua pele não tinha o tom amarelado que ele jurava que era bronze e seus lábios possuíam nenhuma cor.

– Isso não tem a mínima graça, James. – Alvo disse. – Por que você tem essa necessidade de ser...

– Um babaca? – James completou erguendo a sobrancelha.

Os dois se encararam por alguns segundos e eu me senti extremamente desconfortável. Um intruso em um caso de família entre o irmão irritado e o irmão irritante, com a cunhada de um e namorada do outro como testemunha e eu – quem eu seria nessa história? De certo alguém que não gostaria de estar ali.

– Do que você tem raiva, Alvo? – Não era o que eu esperava que ele fosse perguntar. Seu tom de voz era brando e ele tinha parado de sorrir, era uma daquelas raras ocasiões que falava sério. – Eu não quase morri de propósito.

Ás vezes em cômodos tensos e silenciosos reflito sobre minha própria vida. Pode parecer que não há sentido em minhas palavras nesse instante, mas existia algo sobre nossas existências e as situações que nos condicionam a vive-las da melhor ou pior maneira que nos transformam em frutos do acaso, mesmo que sob nossas próprias decisões. Até que ponto James era o culpado por ter ingerido os remédios que o levaram a overdose? Qual seria nossa parcela de culpa por não termos acordado dez segundos antes que Ethan fosse empurrado pela janela? Abigail deveria ter informado ao diretor que recebia ameaças regularmente?

Parecia uma conversa que eu não tinha o direito de participar, porém não queria me mover dali. Troquei um olhar com Abigail, porque mais cedo quando ela conversava com Isobel, falava que se tivesse contado a diretoria sobre os bilhetes anônimos talvez nem Ethan tivesse morrido. Ela não sabia que eu tinha escutado, mas quis dizer que talvez as circunstâncias fizessem a história criar um novo rumo, porém que esse novo curso não garantiria que fôssemos nós mesmos de novo.

Provavelmente eu apenas gostaria de fazer aquele velho discurso de que não adiantava procurar culpados pela decisão de um assassino psicótico. Discursos são especialidades de James, fora o que o fizera capitão do time de quadribol, por exemplo. Eu procurei culpados por minha situação de vida por um bom tempo até Roxanne me dizer que em um mundo ideal não existiam problemas, porém que nossa força em resolvê-los e superá-los ao invés de atribuir culpas e lamentações que determinavam nossa felicidade nessa vida e nas próximas.

Todos temos nossas cruzes.

Percebi pelo olhar de James que ele entendia isso. Que seus discursos motivacionais eram ruins, mas que ele preferia resolver do que se lamentar e percebi que o problema de Alvo com isso é que nessa analogia terrível de cruzes, ele sentia-se magoado por James não ter partilhado a dele.

– Por que você não me contou? – Perguntou, então fiz menção de me levantar, porque não parecia justo ficar ali. – Fiquem, os dois.

Existia um tom autoritário em sua voz e pela primeira vez pude notar nuances de raiva. Abigail obedeceu prontamente, dessa vez sentando-se afastada de James.

– Não acho que essa seja uma conversa que eu precise participar. – Respondi educadamente, tirando meu relógio de bolso de seu costumeiro lugar. – E já está ficando bem...

– Sobre as pílulas? Sobre as ameaças? Sobre o que exatamente? – James inquiriu, também me olhando em seguida e me forçando a servir de testemunha para a discussão familiar. – Nós somos irmãos, Al e você é uma das pessoas que eu mais amo nesse mundo e eu já sou um motivo de decepção constante para você. Não precisava te dar mais uma razão.

– Mas eu...

– Você não poderia ter feito nada diferente. Você não poderia ter feito mais do que fez e eu já me sinto grato por isso. – James levantou-se para abraçar seu irmão relutante, até que este aceitasse o abraço.

Eu e Abigail nos levantamos ao mesmo tempo e caminhamos em direção as prateleiras.

– Quando eu olho para os dois ás vezes sinto falta de ter irmãos, ás vezes agradeço por não ter nenhum ou não saber quem são, pelo menos. – Confessei para Abigail que me olhou surpresa, acho que nunca conversamos nada além de trivialidades.

– Eu tenho dois irmãos trouxas que eu vejo apenas no verão. – Falou novamente com o sorriso no rosto. Depois olhou para baixo. – Não tive coragem de contar aos meus pais sobre minha estadia na enfermaria, porque eles não teriam dinheiro ou magia para suprir o desespero de não poder me visitar.

– Acredito que não teria muito a quem avisar, caso acontecesse comigo. – Encolhi os ombros, talvez eu não saiba como ajudar pessoas.

– Sabe, John? Existe algo estranho em tragédias. – Abigail sempre falava alto e de maneira expansiva como se quisesse sempre ser ouvida, porém ali apenas estava concentrada que sua mensagem chegasse a mim. – Coisas surpreendentes acontecem.

Sentamos no chão e ela pegou um livro e folheou, voltou a primeira página e leu a dedicatória.

– Estamos às duas e meia da manhã conversando sobre coisas que nunca teríamos conversado há meses. – Me entregou o exemplar, com um sorriso que garantia que era muito bom. – Penso que vai gostar desse, sinto falta de te ver pendurado em um livro madrugada afora nessa sala comunal.

Agradeci com o olhar e segurei Viagem ao Centro da Terra.

– É meu, cuide bem dele. – Ela respirou fundo e sorriu novamente. – Enfim, o que eu estou tentando dizer é que você vai ter sua própria família. Seus filhos vão brigar entre si em frente a pessoas que não tem nada a ver com o assunto e deixa-las desconfortáveis; sua esposa, que eu presumo que será Roxanne, os ensinará sobre astronomia e incentivá-los a plantar árvores e não a abraça-las, como eu julgava que pessoas que realmente gostam de herbologia faziam. E enquanto você não tiver isso tudo, mesmo que não nos consideremos amigos ainda a essa altura da vida, saiba que para mim você não é invisível.

Ia lhe dizer que para mim ela também não era, pelo menos não agora que a vira quando ela não estava tentando se fazer visível, porém Abigail já tinha se levantado. Já tinha beijado o rosto de James e o tirado da conversa menos tensa com Al que agora ria de algo.

– Não se esqueça de falar que ela tem olhos bonitos. – James disse mais alto enquanto a namorada o arrastava para o dormitório. – Faz você parecer menos pervertido por ter encarado a bunda dela.

– Merlin! Alguém já te disse o quão idiota você é? – Abigail bufou.

Abri o livro gasto de Jules Verne, nos lugares que vivi antes de Hogwarts não tínhamos muito acesso a literatura. Lembro-me de que meus primeiros exemplares de Stephen King ou Edgar Allan Poe tinham sido emprestados e que eu gostara tanto que me presentearam. Nunca tive oportunidade de ler algumas das histórias que certamente me fascinariam e Abigail acertou na casualidade que talvez nos aproximaria em algum ponto da vida se houver algum amanhã.

Meus olhos se focaram diretamente a dedicatória do livro:

“Enquanto houver vida, haverá esperança.” Faço minhas as palavras de Jules Verne e enquanto, nossa amizade existir eu viverei na sua memória e você viverá na minha. Enquanto vivermos, mesmo que apenas um para o outro, teremos esperanças de um futuro melhor.

Feliz Natal, Abs.

Dean.

ps: que você não se esqueça de quem passava os natais com você quando tiver uma mansão com Potter, haha.”

Dean devia ser uma boa pessoa. Sempre pensei nisso enquanto o via fazendo palhaçadas e inventando competições natalinas com Abigail nas nossas estadias em Hogwarts para o natal. Eram mais velhos que eu e eu não sei o que eu falaria com pessoas divertidas, então ficava no meu canto. Apenas soube seu nome quando morreu, na enfermaria da escola, apenas o conheci como pessoa através dos relatos de Abigail e agora por essa dedicatória. Me sentia invadindo a privacidade da monitora chefe lendo-a, ao mesmo tempo que parecia agradecê-la por partilhar palavras esperançosas de um futuro melhor.

Meus pensamentos se dissiparam quando com um ar cansado, Roxanne se sentou ao meu lado no chão. Antes de me dar boa noite ou me dizer olá, me deu um longo beijo com sabor de café forte, urgência e saudades.

Nunca tive um relacionamento com outra pessoa e constantemente me surpreendia com o pensamento de que não gostaria de ter um com qualquer outra pessoa. Roxanne entendia quem eu era, sem esforço algum e eu a compreendia. Não era como se nos completássemos, porque essa noção de que ela precisaria de alguma metade para viver era ridícula. Ficávamos bem juntos e isso me trazia felicidade.

– No que está pensando? – Perguntou quando se separou dos meus lábios.

– Futuro. – Respondi de maneira simples. – Eu e você.

– O que sobre o futuro? – Se aninhou em mim com um sorriso no rosto.

– Nada em específico, apenas você nele. – Anne tirou a cabeça de meu peito para me olhar, subitamente me deu mais um ou talvez vinte outros beijos. Era a garota mais bonita de todas as galáxias que já tinham nomeado e das que ainda não tinham conhecimento, a maneira como me olhava nos olhos antes de dizer que me amava era a ideia mais próxima de felicidade e taquicardia do universo, era capaz de experimentar todas as sensações de adrenalina no meu corpo com o simples toque dos seus lábios nos meus.

Não sabia o que faria após Hogwarts, ainda que não soubesse se sobreviveríamos a esse ano sinistro e depois a mais um, uma vez que o perigo parece nos perseguir de alguma maneira. Apenas sabia que a queria comigo e ela me queria com ela.

Enquanto houvesse vida, haveria esperança.