Born to Die
17 Elephant Gun
Notas iniciais
– Isobel –
Let the seasons begin
It rolls right on
Let the seasons begin
Take the big king down
– Você está bem, Iz?
Eu beberiquei meu chá enquanto fazia um sinal de positivo. Papai estava preocupado com todas as minhas olheiras e sustos repentinos, apesar de eu estar, nas palavras dele “cheia de novos amigos” e, inclusive, com “um potencial amoroso”. Ele estava fascinado com Potter desde que o mesmo assinou uma requisição para se matricular tardiamente nas aulas de Runas. A verdade é que ele me ouvira resmungar sobre a dificuldade que eu tinha na matéria de papai e se voluntariara para me ajudar. Alvo gostava de ser esse cara recém-saído de um livro água com açúcar da mesma maneira que eu gostava de ser a pessoa que ignorava esse fato.
– Você parece preocupada.
– Não é nada. – Tentei tranquilizá-lo. – Estou com um pouco de matéria acumulada. – Menti e terminei minha xícara antes que ele pudesse fazer uma objeção. Na ponta dos pés, eu beijei sua testa, me despedindo. – Preciso ir agora. Não se preocupe. Sério.
Ele me fitou por um instante e eu fingi estar distraída recolhendo minhas coisas.
– Se cuide, Izzie. E volte mais tarde. Vamos fazer uma breve visita a sua mãe durante o jantar.
Eu pisquei e saí pela porta, tocando minha pulseira enquanto andava. Louis havia enfeitiçado aquilo para que agisse de acordo com as nossas emoções, felizmente. Assim, a pulseira foi mudando de cor à medida que eu ia me afastando da sala pessoal do meu pai e eu sabia que em algum momento um dos integrantes do grupo, o que estivesse mais próximo fisicamente, apareceria para me escoltar.
Nós vínhamos fazendo isso desde a confissão de Abbie, que, de um jeito tão repentino quanto Louis, tinha se tornado minha amiga. Não andávamos por mais do que cinco minutos sozinhos. Era nossa única medida cautelar contra Pontius.
– Hey. – Alvo apareceu, o que não era uma surpresa. Ele vinha se sentindo particularmente responsável por mim desde o incidente na floresta. Eu não sabia quanto daquilo era hormônio e quanto era medo, mas me sentia grata independente da razão.
Eu me virava bem sozinha, mas não podia bancar a orgulhosa. Sabia quais eram minhas chances sozinha contra um professor doente que podia fazer magia. Alem do mais, eu havia me acostumado com a presença de Potter. Ele havia se estabelecido lentamente na minha rotina e agora eu sentia um principio de ansiedade quando não o via por muito tempo.
– Hey. – Esbocei um sorriso, socando-o de leve no ombro. Tenho jeitos estranhos de demonstrar afeto, eu sei.
– Como vai o seu pai?
– Bem. Preocupado comigo. Acha que estou escondendo algo dele, mas ao mesmo tempo espera que seja sobre você.
– Eu não me importaria se fosse sobre mim. – Eu ri por um instante.
– Estou certa de que não.
Alvo segurou minha mão de uma maneira despretensiosa e eu fingi que esse era um ato completa e genuinamente amigável. A essa altura, estava claro que nós acabaríamos nos envolvendo um com o outro. Eu estava perfeitamente bem com esse futuro. Só precisava ter certeza de que eu também ficaria bem caso as coisas não funcionassem. Não estava muito acostumada com relacionamentos sérios de qualquer espécie. Gosto de manter uma distancia segura de outros seres humanos. Acho mais fácil gostar deles assim. É menos decepcionante e perigoso.
Embora a minha ascendência seja anglo-brasileira, eu não poderia ter um espírito mais britânico nesse aspecto.
– Por favor, arrumem um quarto. – Louis disse ao nos encontrar.
Eu sorri, puxando-o para perto também.
No momento em que o assassino de Ethan adquiriu um rosto, Louis guardou o luto e a tristeza dentro de si e substituiu-a por uma raiva que fervia a fogo brando, uma obstinação e uma concentração impar.
– Eu não queria ser a pessoa que joga esse tipo de carta, mas vocês estão vivos. Saudáveis. Todas essas coisas que possibilitam uma pessoa de, sabe como é, beijar outra. Eu vou me retirar agora e se vocês não resolverem isso imediatamente, serei obrigado a bater nos dois assim que os vir de novo.
– Lou – Eu chamei, ignorando-o. – Não vamos deixar você zanzar por aí sozinho.
– Isobel está certa.
Louis girou os olhos.
– Vocês realmente vão apenas ignorar o que eu disse?
– Não. – Alvo respondeu antes que eu pudesse pensar em algo. – Mas vamos deixá-lo em algum lugar relativamente seguro antes.
Louis pareceu satisfeito com o primo. Eu me mantive em silencio até Alvo cumprir sua palavra. Quando ficamos a sós novamente, eu pensei em como relações humanas podem ser constrangedoras.
– Nós não precisamos resolver nada. – Al me tranquilizou, soltando minha mão e me abrindo um sorriso gentil. – Um pequeno blefe não vai matá-lo.
Eu senti vontade de abraçá-lo por me poupar de decisões que eu não sabia se estava disposta a tomar. Eu vinha sentindo isso com muita frequência.
Ao invés disso, surpreendi a nós dois ao dizer:
– Na verdade, precisamos.
Ele me olhou surpreso. Eu respirei fundo.
– Al, você quer dar uma volta comigo?
– Tantas quantas minhas pernas pouco atléticas aguentarem.
Eu sorri e nós dois fomos andando em direção a Floresta. Dessa vez, eu não estava assustada como da ultima, nem desesperada para arrumar um esconderijo seguro para os pertences que Ethan tinha me confiado. Alvo e eu já havíamos dado um jeito nisso: ele colocara muitos feitiços de proteção na minha maleta e agora eu não sentia como se precisasse ficar entocada no meu dormitório o dia inteiro, protegendo os livros.
Alem do mais, era dia e o sol brilhava, mesmo que fraco. Não parecia assustador. Muitos alunos estavam do lado de fora fazendo guerrinha de neve, patinando no lago congelado, rindo alto, completamente alheios ao fato de que havia um cara que matava pessoas dentro do castelo. O time da minha casa, inclusive, treinava no campo de quadribol.
– Eu não sabia que Hugo treinava hoje!
– É. Eu sim. Lily me lembrou apenas cem milhões de vezes.
– Por que você não está lá?
Alvo encolheu os ombros, em silencio. Eu não ousei insistir. A resposta era óbvia. Nós adentramos a floresta e paramos sob uma arvore cuja raiz alta e saliente podia servir como assento.
Nós nos acomodamos e nossos joelhos se tocaram.
– Parece que faz uma vida desde que estivemos aqui pela ultima vez. – Al disse, concentrado em olhar para os próprios pés.
– O tempo tem corrido de um jeito estranho desde que Ethan morreu. – Concordei.
– Izzie... – Ele murmurou, ainda sem me encarar. – Eu realmente gosto de você. E com tudo que vem acontecendo e a maneira como vem acontecendo, eu só não vejo ponto em esconder. Se a situação fosse qualquer outra, nós provavelmente nunca falaríamos sobre isso. – Daí ele finalmente me olhou. Eu adorava como seus olhos verdes podiam mudar de cor, a depender da luz e da maneira como ele estava se sentindo. — O que eu estou querendo dizer é que você não precisa ter certeza de nada só porque eu tenho. E se de alguma maneira eu estiver te deixando desconfortável, eu...
Alvo nunca teve tempo de concluir a frase, porque minha mão se precipitou em direção ao seu rosto e eu acariciei a bochecha vermelha dele antes de experimentar afundar os dedos pelo cabelo escuro.
Al era bonito, mas diferente da maioria dos caras bonitos, ele não parecia ter consciência disso, o que lhe acrescentava um charme ingênuo e adorável. Eu, assim como uma porção garotas na escola, já havia notado isso muito antes de ele desenvolver qualquer tipo de interesse por mim. Muito antes do grupo ou das coisas terríveis que nos aconteceram, mas eu jamais havia divagado sobre como seria beijá-lo antes.
Mesmo assim, ali, prestes a fazê-lo, pareceu por um instante que eu nunca tinha desejado outra coisa na vida.
Quando eu encostei meus lábios nos dele, soube que seria duro parar de fazer isso. A boca de Potter era quente e convidativa. Eu já havia beijado outros caras, mas foi só com Al que eu entendi o conceito de manter os olhos fechados. Parecia a única maneira de absorver toda a avalanche de sensações e sentimentos difusos. Tinha algo de glorioso em estar ali com Alvo, de sentir minha pulsação ficar esquisita e de querer rir descontroladamente de felicidade.
Eu acho que ele se sentia da mesma forma, porque sorriu para mim com todos os dentes quando nos separamos.
– E eu achando que você me levaria para jantar primeiro, Dawson.
Eu ri e me afastei um pouco dele, instintivamente. Alvo rodeou minha cintura com um dos braços e acho que o termo certo para usar aqui é: nós namoramos por um tempo, até Chewie chegar miando e reinvidicando atenção. Ele não gostava muito de Al e fazia questão de demonstrar isso, mas sua pose não impedia Alvo de fazer carinho nele.
Quando o gato continuou reclamando, mesmo que estivéssemos prestando atenção nele e fazendo suas vontades, fiz uma careta.
– Acho que ele está com fome.
– Bom, ou isso ou ele pretende me vencer pelo cansaço.
Eu lhe beijei uma ultima vez e então coloquei Chewbacca no colo. Quando deixamos as ultimas arvores para trás, me virei para Alvo.
– Você deveria ir ver o final do treino. Provavelmente vai ser mais emocionante do que assistir Chewie beber leite. E vai evitar que sua irmã ralhe com você mais tarde.
Ele olhou de esguelha para o campo, tentado.
– Eu não me importo de fazer uma ou outra análise sobre degustação felina, desde que eu esteja perto da minha namorada.
Eu corei como uma idiota e sorri da mesma forma.
– Chewie ficará desapontado por perder alguns minutos de ódio profundo por você, mas estou confiante de que ele resistirá bravamente até te ver de novo. – Eu insisti e Al colocou as mãos na minha cintura. Um lampejo de preocupação perpassou seu rosto e eu entendi seu receio. – Alvo, nós ficaremos bem! Tem um monte de gente aqui fora. O castelo também está apinhado de adolescentes. Não vai acontecer nada.
Não é bom dizer “não vai acontecer nada” quando uma série de coisas estranhas está acontecendo sem que você tenha o menor controle sobre. E digo isso porque sempre existe a possibilidade da frase se transformar em uma ironia dramática.
Eu descobri isso pouco depois dessa parte da narrativa, mas ali, olhando para Alvo contra o por do sol, tão leve quanto apenas uma pessoa de dezesseis anos pode ser, eu estava certa de que o acaso estava nos dando uma trégua.
Ele me depositou um beijo gentil nos lábios e pediu para que eu o encontrasse depois de deixar Chewie ainda mais obeso. Eu disse que tudo bem e corri para o castelo com meu gato entre os braços.
O dormitório, como eu já imaginava, estava vazio. Artemis era batedora e estava no treino. As outras garotas provavelmente estavam assistindo-a. Por um minuto – minuto esse em que sorri e tapei a boca vezes seguidas, sem acreditar no que acabara de acontecer e ao mesmo tempo repassando tudo na minha mente enquanto me jogava na minha cama e suspirava – foi legal estar sozinha, porque pude reagir ao meu estado de alegria com todas essas atitudes clichês e vergonhosas, mas no instante seguinte, quando me acalmei e inclinei a cabeça para debaixo do colchão no intuito de ver as tigelas de Chewie e pegá-las, senti um calafrio estranho.
Sentei-me reta em um piscar e analisei o quarto de forma minuciosa. Não havia nada de errado com ele. Ainda assim eu me sentia incomodada. Depois de colocar a comida para Chewbacca, decidi checar a maleta e foi com o coração aos pulos que percebi que sua trava estava destrancada. O medo dilacerou todos os meus sentimentos bons e eu abri a mala com cuidado, apenas para constatar o que eu já vinha temendo.
Os livros haviam sumido.
No lugar deles, um bilhete:
Isobel A. Dawson,
Você é uma garota corajosa. Se tivesse passado pelo chapéu seletor como todos os outros alunos dessa escola, tenho duvidas se usaria essa gravata amarela. Mas isto não importa, a menos que alguém esteja preparando uma armadilha para você.
Este bilhete é apenas para dizer que tomei a liberdade de pegar teus estimados livros emprestados. Creio que me serão uteis. Caso você precise urgentemente deles, você pode tê-los de volta, seguindo as seguintes instruções:
Vá ao terceiro andar.
Encare a estátua da bruxa corcunda e diga Dissendium quando ninguém estiver por perto.
Siga a passagem que se abrirá. Sua caminhada durará em torno de uma hora. Você saberá o que fazer ao final, pois encontrará uma nova pista.
E mais importante: não pense em fazer nada estúpido como pedir ajuda ou ignorar este bilhete. Conheço o pequeno e promissor Seth Dawson e seu profundo encantamento com quadribol e cervejas amanteigadas. Odiaríamos que algo de horrível acontecesse com ele como aconteceu à Dean Collins, não odiaríamos?
Boa sorte. Nos vemos em breve.
Eu retirei a pulseira rapidamente, antes que ela atraísse a atenção dos outros. Meu estomago se revirou e engoli o choro algumas vezes antes de me erguer novamente e caminhar em direção ao terceiro andar.
Pensei em Al, me esperando na arquibancada. Pensei em papai, horas mais tarde, me esperando para o jantar. Pensei em como existia a chance de que eu nunca mais voltasse a vê-los.
Chewie miou preocupado quando paramos em frente à estátua da bruxa corcunda e caolha. Era uma estátua grotesca. Fez com que eu me arrepiasse. O senso de decoração dos fundadores de Hogwarts era muito contestável.
Eu encarei meu gato e me abaixei para lhe fazer um carinho.
– Você fica, tudo bem? Seja um bom menino.
Ele miou mais uma vez, claramente contrário a minha decisão e eu o espantei, com indicio de lágrimas nos olhos. Quando ele correu para longe, ressentido comigo, eu limpei o rosto e sibilei:
Dissendium.
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