Born to Die
18 Crying Lightning
Notas iniciais
– Abigail -
And your past-times consisted of the strange
And twisted and deranged
And I hate that little game you had called
Crying Lightning
Atravessei aquele beco em tempo recorde de trinte e sete minutos, meu namorado estava na minha cola e corríamos como se não houvesse amanhã.
Pontius estava com Rose. Soubemos através de um de seus bilhetes que diziam que ao invés de uma pétala, agora eu perderia toda uma flor – não demorou muito para que pudéssemos deduzir que se tratava da melhor amiga de James.
A sensação de que estávamos sendo seguidos sempre era constante e assustadora.
O beco escuro que servia de passagem até Hogsmeade nunca parecera tão assustador enquanto nos encaminhávamos apressados para a morte. Era a concretização de meu presságio e parecia que nada iria bem.
De longe, a famosa Casa dos Gritos – nosso local de destino – aparentava ser aterrorizante. Diziam que era assombrada há dezenas de anos, mais para afastar crianças de suas frágeis estruturas que para dar continuidade a lenda urbana antiga de que lobisomens habitavam a casa. Ainda assim, a construção irregular feita em madeira provavelmente embolorada continuava bem frequentada por colegas que não ligavam para decoração de ambientes e queriam dar amassos de maneira saliente sem serem vistos.
Obviamente não nos depararíamos com nenhum casal naquela noite.
Estava tão frio que a neve branca de Janeiro cobriria todo e qualquer rastro de nossas pegadas.
Nossa presença foi denunciada pelos pisos de madeira que rangiam sob os nossos passos. Era aquele som fantasmagórico de quando a protagonista loira de um terror trash está no telefone e só nota que o assassino está prestes a lhe enfiar uma faca ao ouvir esse barulho. Um agouro da morte.
Essa devia ser a sensação de caminhar voluntariamente para sua própria execução. Qualquer barulho se assemelhava de alguma maneira ao fim da vida: o som da gota de suor frio encontrando o chão era capaz de provocar tremores e arrepios.
James e eu nos escondemos com as varinhas em punho. Da mesma maneira que a madeira rangeu para nós, rangeu para nosso capataz. Nosso exterminador nos seguia, mas não estávamos prontos para nos render ainda. Jay apontou para o armário de vassouras que ficava meio corredor a frente e nos esforçamos para nos mover silenciosamente.
Achei que seria prudente camuflar minha varinha agora em seu esconderijo costumeiro, James estava com a dele e poderia nos defender caso algo acontecesse. Escondidos no armário de vassouras, James me imprensou contra a parede, sussurrou que me amava tão simples e sinceramente que meu coração pulou algumas batidas e doeu de uma maneira que eu jamais havia sentido antes. Acho que nunca me acostumei ao amor e a vontade que tinha de continuar amando. Ele tocou os lábios nos meus antes de invadir minha boca com sua língua, como se fosse a última vez que me beijaria. Eu sei que isso soa mais dramático que o necessário, mas quando encarei os olhos castanhos tão claros de James nessa uma semana de namoro que levou cinco anos para acontecer, pensei que eu vivi e vi coisas boas.
Ele precisou fazer leitura labial para descobrir que eu o amava também, porque eu não tinha voz.
Nos instantes seguintes prendemos nossa respiração, porque escutamos a madeira rangendo em nossa direção, assistimos seus passos tranquilos pelas frestas da porta e perdemos o ar quando ele nem precisou abrir a porta para nos derrubar de uma vez.
Quando abri os olhos, pensei: fudeu. Sabia apenas que não podia me mexer.
Concentrei-me nas boas notícias que tinha para mim mesma.
Era verdade que eu estava amordaçada, com os pulsos atados e que James estava ao meu lado e não em segurança como deveria estar e pedi para que ficasse, era mais que óbvio que não me escutaria, só escutava uma pessoa: ele mesmo. Se Pontius não nos matasse ali mesmo, ele sofreria depois. Também era verdade que minha nova amiga, a única pessoa que parecia nutrir afeto por mim apesar de sermos opostos completos e faltar paciência por parte dela para lidar com minhas divagações e questões sobre o universo, tinha acabado de chegar por livre e espontânea vontade (que acredito que venha de uma mensagem parecida com aquelas famosas ameaças que recebo desde que resolvi ser alguém de Grifinória). Alem disso, desacordada no outro lado estava Rose, a prima e melhor amiga do meu namorado.
De acordo com meu professor favorito e, por favor, notem meu sarcasmo característico, faltava apenas um convidado para que nossa festa começasse.
Eu ainda tinha minha varinha: essa era única notícia boa que tinha para mim mesma. Estar com meu namorado não me trazia nenhuma segurança, porque meu sonho era que ele ficasse pelo menos dez dias longe da enfermaria. Para ser justa, não era como se tivessem nos dado escolhas, já que Pontius nos forçara a encontra-lo em Hogsmeade: ameaçara a mim com a vida de James, porque descobrira que eu o amava, me lembrou o quão perto da morte já o colocara há poucos dias e me disse que por mais que eu já tenha deixado claro que não me importava em ser sua próxima vítima, me importaria com a vida do meu namorado. A verdade é que eu iria encontra-lo naquele lugar assustador se ele tivesse ameaçado até Roxanne, que é uma pessoa com a qual mantenho contato nulo. Porque sou idiota.
Na verdade não sou – e não era — idiota não. Eu era uma pessoa irritada, uma pessoa ameaçada há meses. Uma pessoa que sobreviveu a uma porra de um ataque e que teve que ir visitar o namorado na enfermaria porque um lunático o fez ter uma overdose cinco dias depois de ele ter perdido muito sangue e estar sofrendo de severa abstinência: eu estava cansada de ser medrosa. Estava cansada de tremer cada vez que recebia um daqueles pergaminhos em letra elaborada e tinteiro importado, eu gostaria que ele enfiasse esse tinteiro e essa fonte eterna de pergaminhos onde fosse mais doloroso.
Eu estava morrendo de medo, obviamente. Porém a adrenalina estava correndo em minhas veias, e já não era sem tempo. Eu queria não estar amarrada, queria acertá-lo e queria mata-lo.
– Bem vindos. – Com auxílio da varinha, prendeu Rose na parede. Atou seus braços com amarras invisíveis, esticados de maneira dolorosa na parede de madeira gasta e velha. – Já não era sem tempo, Srta. Weasley. Ah, Louis, não precisa se esconder.
Alguns segundos se passaram até que Louis caminhara em direção ao centro da sala. Conseguíamos ver que seus olhos mantinham-se fixos nos de Pontius.
– Sente-se. – Falou rispidamente, convocando a cadeira e mais uma vez, impossibilitando a movimentação de mais uma de suas vítimas. – Estamos todos aqui para discutir nosso futuro.
Observei todos os olhares aterrorizados em direção ao nosso professor de poções. Será que alguém já tinha notado o quão sádico ele era antes disso tudo ou apenas eu nutri esse ódio por ele e por suas botas barulhentas que se arrastavam pelo corredor de Hogwarts de maneira onipresente? Eu queria conseguir sair dessa parede cheia de farpas e pregos repletos de ferrugem e tétano, queria dar a ele o que ele merecia. Queria enfiar 1000mg de adderall na sua garganta, queria lançar sectumpsempra em sua pele e assisti-lo sangrar até morrer, queria empurra-lo de uma janela e envenenar alguém que ele amasse para que pudesse fingir que este morreu de causas naturais.
Não sentia nenhum tipo de remorso por pensar assim.
– Abigail é a única amordaçada por falar demais. – Ele anunciou com um sorriso falsamente cordial. – Vocês não detestam essas pessoas que parecem não ter botão de pausa ou que não conseguem manter um segredo?
– Por que estamos aqui? – Louis perguntou, num tom parecido com o que usaria se sua voz não parecesse que fosse falhar a qualquer momento.
– Disse anteriormente: para discutir nosso futuro. – Sentou-se, de braços cruzados. – Vejam, não posso deixar com que destruam minha carreira, meu futuro promissor e minhas chances de sucesso por causa de um ou outro adolescente que morreriam muito bem de suicídio se vocês não fossem tão egoístas.
Queria rir de sua cara, jogar a cabeça para trás e xingá-lo de todos os nomes que conhecia, trouxas ou bruxos, mas não podia nem falar – o que é o pior castigo para alguém como eu. O sádico sabe das coisas.
– Enfim, para eu ter um futuro vocês não podem ter um. – Disse de maneira didática, como se estivesse falando a cor do céu em dias chuvosos para crianças de cinco anos. – Então os reuni aqui para contar que a lendária Casa dos Gritos sofrerá um incêndio por causas acidentais: Rose esqueceu de apagar um de seus cigarros e todos os amigos dela morreram queimados. Adolescentes e suas fases rebeldes...
Sentado encarou nossos rostos assustados um a um e gargalhou.
– Vejam, eu tentaria chegar a um acordo. – Colocou as duas mãos no peito, com uma expressão de quem lutara muito contra a sua mente e gostaria de seguir os caminhos do coração, como as heroínas de novelas Mexicanas que vovó Soledad me fazia assistir nas férias. – Porém eu tentei a história de manter segredos com Abigail-
– Você a ameaçou diariamente, a aterrorizou em todos os sentidos e a feriu. – James foi em frente para me defender, já que estava impossibilitada. – Se esse é seu conceito de acordo...
– Ah, rapaz James, você entrou na brincadeira tanto tempo depois que não entende a adrenalina do jogo. – Seus olhos pareciam brilhar enquanto ele gesticulava efusivamente. – Confesso que fui um pouco longe com os cortes, não eram parte do meu plano original. Gostaria apenas de mostrar a Abigail que ela não sairia impune por ter mudado as regras do meu jogo! Ela não poderia escolher quem sabia de nossa história, ela era apenas um peão como Rose que fumara cada um dos presentes que recebera de mim nas últimas semanas. Formamos elos, meu jovem e eu os manteria se elas não fossem tão... Intrometidas.
– Você está apenas ultrajado porque eu levei pouco tempo para descobrir a poção que matou Dean. – Rose o desafiou com o olhar, conseguia ver seus pulsos vermelhos pelas amarras fortes. Os dedos dela tremiam, por isso os cerrara em punho. – Você está com medo que eu consiga provar para todos a fraude que você é.
– Fraude é um pouco pesado. – Falou, ignorando as outras palavras propositalmente. – Nós somos bem parecidos, Weasley: ambiciosos, inteligentes e bonitos. Nós dois sempre fizemos o que podíamos para sobreviver.
– Não tenho nada a ver com-
– Seus amigos sabem que você estava lá no dia que Ethan acidentalmente foi empurrado de maneira proposital da janela de seu dormitório? – Ele examinou nossos olhares surpresos em direção a Rose, todos tentamos disfarçar, mas olhos imensos como o de Izzie não eram fáceis de passar imperceptíveis. – Não? Veja, Louis, sua prima foi testemunha ocular da morte do seu namorado e nunca disse uma palavrinha sequer sobre isso.
Louis e Rose se encararam por alguns minutos. Acredito que Rose não tinha muita coisa a dizer, entretanto já estive no outro lado, já recebi bilhetes e ordens, já fui ameaçada e as pessoas não entenderiam como as coisas funcionam nessa margem: o medo constante, a sensação de que cada instante seria seu último, a certeza de que um dia alguma das ameaças sairia do papel. Talvez ela quisesse pedir desculpas por não ter dito nada, talvez ela quisesse que ele a entendesse, porém ele desviou o olhar do dela de modo impassível.
– Não se sinta mal, Louis, não havia nada que ela pudesse fazer por ele. Eram mais de vinte metros. – Falou, cada vez mais perto do Weasley que o olhava raivosamente. – Contudo, tenho certeza que morreu pensando em você.
– O que você ganha atormentando e abalando o psicológico das pessoas que você disse há menos de 10 minutos que mataria? – As veias de James faltavam saltar-lhe a testa. – Você não disse que nos mataria? Vamos, faça isso logo! Melhor que assisti-lo em suas tentativas de manipulações mentais.
– Eu diria que estou sendo bem sucedido, caro James Potter. – Sorriu torto, tenho certeza que o veria como uma pessoa muito bonita se a máscara de psicopata não fizesse com que eu sentisse uma ânsia de vômito enorme só em olhar para aquele cabelo penteadinho. – Não que eu tivesse algo a dizer sobre você, já que agora todos sabem sobre o drogadinho que você é, dessa vez nem precisei de alguém para deixar drogas no seu criado-mudo. Como papai e mamãe reagiram a notícia?
– A que eu quase morri? Não muito bem. – Respondeu sustentando o olhar, a maneira como cruzou os braços demonstrou que Pontius detestou essa reação. – Entretanto, sobre os remédios eles já sabiam, nós Potters temos uma péssima mania de nos meter nas coisas, entrar em confusões e no fim das contas resolver os problemas.
– Isso me soou como uma ameaça, Potter.
– Como seria? Estou amarrado aqui nessa parede. – Encolheu os ombros e continuou a usar aquele tom jocoso que todos sabemos o quão irritante é.
– Esse seu tom é quase tão desprezível quanto você. Se Abbie não tivesse decidido te colocar na história como extra, acredito que eu teria uma vida bem mais agradável. – Pontius parecia estressado, pela maneira com a qual movia-se pela sala. – Eu entendo porque Ethan não gostava de você, aliás, você tem sorte por alguém gostar.
– Chega dessa conversa sem finalidade, você poderia nos matar em qualquer lugar. Por que nos trouxe aqui? – Louis perguntou em voz alta, tom solene e raiva.
– É porque ele não tem ninguém para conversar. – James falou, como se fosse uma grande piada e Pontius se irritou tanto que com a varinha apertou as amarras de seu pulso até que ele estivesse prestes a urrar de dor. Ele ainda não estava cem por cento recuperado, ainda estava magro e sem cor, mas lutava bravamente contra o instinto de gritar, conseguia ver seu rosto vermelho e o suor em sua testa. Suas pernas se debatiam contra a parede.
Meus olhos não conseguiam foco o suficiente para que eu chorasse, eu gritei tanto por trás da mordaça que meus olhos arregalados por trás dos óculos doíam.
– Respondendo a sua pergunta, Louis. – Quando o maníaco olhou para meu rosto, sentiu-se satisfeito e parou de torturar James. – Eu vim falar sobre Ethan já que parece que é o que você gostaria de fazer, achei que seria bom se você pudesse fazê-lo com alguém que o conhecia como você.
– Eu não acredito que você possa-
– Falta de educação me interromper quando estou fazendo um discurso pesaroso, será que precisarei amordaçá-lo também? – Semicerrou os olhos em direção a Louis. – Enfim, quando Dean se mostrou uma decepção para mim, Ethan me veio como alívio. Até que se tornou o próximo a me desapontar... Por sua causa, Weasley. Ás vezes me ocorre que você era a pessoa que deveria ter morrido, você que tem o talento de destruir sentimentos e relações boas.
Voltou a se sentar na posição privilegiada em que podia avistar a todos. Com a varinha, tirou minha mordaça, sabia que agora era vez de fazer Louis sofrer e não havia nada que eu pudesse dizer que fosse de alguma maneira pará-lo.
– Já que você se importa tanto que não poderia deixar o rapaz morrer em paz, seria injusto falar sobre Ethan sem começar com Dean. – Olhou diretamente para mim, que recuperava o movimento do maxilar. Sorriu, olhando para o alto. – Vocês precisam entender que eu não perambulo por Hogwarts procurando estudantes que gostariam de dormir comigo, nossos relacionamentos simplesmente acontecem. Dean era um garoto doce, divertido e aventureiro, era tão inocente que acreditava de verdade quando eu o contava histórias de praias caribenhas e pôr do sol prometendo leva-lo comigo nos próximos verões. Eu gostava dele, que gostava de rir e falar sobre todas as paisagens dos livros que lia, me convidando a ir com ele à todas elas. E então ele imaginou estar apaixonado por Leo Hayes e disse que deveríamos por um fim ao nosso caso. Respeitei sua decisão, é claro, prometeu não contar nada a ninguém até que Leo Hayes preferiu ficar com o rapaz mais novo, Ethan.
Eu não sabia o que sentir e nem o que dizer. Apenas queria demandar que ele parasse de falar sobre Dean. Ele não tinha o direito de mencionar seu nome!
– Abigail, Dean queria te contar tudo sobre nós dois o tempo inteiro. Mas nós dois sabemos como você é com segredos. – Ele sorriu para mim inclinando a cabeça, como se partilhássemos confidências e piadas internas. – Quando Dean viu que não daria certo com Hayes e mesmo assim não quis voltar para mim, confesso que fiquei arrasado, pois para mim não fazia sentido. Foi quando os jogos começaram, Dean achou que era uma perseguição, mas era apenas uma aventura: mensagens, tarefas... O básico. Então ele tinha provas que ficamos juntos e disse que me entregaria a direção. E não se enganem, eu sou Pontius, obviamente poderia dar um jeito em suas tais provas, entretanto, tamanha ingratidão não deveria ficar impune e Dean tinha que morrer. Foi uma decisão que me deprimiu por meses... Pensei em dar um jeito em Leo Hayes também, já que ele causou essa confusão, mas Ethan fez isso ao terminar com ele de maneira arrasadora.
– Leo Hayes não era o culpado por ninguém te amar! Você já parou para pensar que tem a ver com sua personalidade e com o fato de que você é o maior desgraçado da face-
– Abigail. – Disse com tom de advertência. – Você quer ser amordaçada novamente?
Os pulsos de Louis lutavam para se soltarem da cadeira.
– E então, porque Ethan puniu Hayes o suficiente por mim, pensei que talvez ele fosse um rapaz interessante e ele era. Tinha uma aparência encantadora, olhos bonitos e personalidade intrigante de quem sabia o que queria e quem o queria, fazendo todo o desafio tornar-se mais que excitante para mim. – Respirou fundo ao sorrir ferinamente para Louis, com as mãos no colo e tom cruel de divertimento. – Ele me provocou até conseguir que eu estivesse onde ele queria e depois me disse que por mais que a história de relacionamento proibido fosse excitante, esse não era seu plano. Achei um tanto desumano de sua parte me provocar e me levar até certo ponto para dizer “já chega”. É como quando tiram o brinquedo favorito de uma criança de suas mãos... Por fim, descobri que Louis Weasley era a causa.
Mesmo nas aulas o humor dele parecia variar mais que o meu de pisciana com ascendente em áries. Porém, acredito que quando fazia seus enormes monólogos como se fosse Hamlet, seu tom cínico e raivoso contrastava com a máscara de serenidade e pacificidade que gostaria de transmitir, ás vezes parecia triste e ás vezes parecia que estava à beira de um rompante de raiva em que nos mataria um a um. Era dessa última maneira que olhava para Louis agora.
– O restante vocês já sabem: ele me pediu para deixa-lo em paz e eu disse que não, que o jogo é meu e eu decido quando os jogadores abandonam a partida. Ele se recusou, disse que descobrira tudo sobre Dean e me entregaria a direção e esse seria meu fim. – Olhou para as próprias mãos antes de fechá-las. Seu olhar adquiriu traços de insanidade assustadores. – Discutimos e acidentalmente o empurrei da janela para matá-lo, se eu não tivesse enfeitiçado os coleguinhas, certamente teriam escutado a maneira grave com que Ethan esbravejava antes que eu o acuasse contra a janela. Realmente não tinha a intenção de mata-lo naquele dia, eu o amava! Mas a culpa foi toda dele!
Eu não sabia quanto tempo daquilo poderia suportar mais. As expressões dos que estavam ali eram sofridas e raivosas, não sabíamos o que dizer ou fazer. Ele respirou fundo incontáveis vezes até seu rosto se contorcer em um sorriso.
– E então todos vocês acabaram por se tornar meu passatempo favorito. – Ele falou, mesmo que sua voz ainda fosse irregular, com a confiança de quem estava ganhando o jogo. – Confesso que precisei de ajuda em alguns momentos, uma vez que vocês tornaram impossível a tarefa de manter os olhos em vocês o tempo inteiro, acredito que todos possam culpar a Abigail e o Louis por isso: a mãe de vocês não ensinou que não se aprende nada falando?
Olhamos confusos uns para os outros.
– A coisa mais incrível no contato com outros seres humanos é que não precisamos nem de uma maldição imperdoável para que eles nos façam favores. Harley Walker, por exemplo, colocou remédios no criado mudo de James na enfermaria após um episódio vergonhoso em que eu a vi usando uma porção ilegal de Amortentia num coleguinha. Esse é o segredo: ter uma confidência em comum com as pessoas, elas acabam te ajudando por livre e espontânea vontade... – Ele achou engraçado. – Depois que James foi internado por overdose e eu fiz questão que isso chegasse aos seus ouvidos, a menina entrou em um colapso tão interessante que vocês nem notaram que ela não está mais por aqui.
Só notei que Izzie não estava amarrada quando ela andou até Louis, com o punho cerrado, como se estivesse pronta para socar Hartonen em algum dos segundos próximos e ele olhava para ela como se ela não pudesse fazer nada.
– Falando em pessoas insignificantes, a história toma um novo rumo, meus caros. Isobel Dawson ficou tristinha com toda a história de como seu melhor amigo pegou o professor que ela e seu papai mais detestam e resolveu se mexer. – Ele voltou ao seu tom de quem se divertia mais do que deveria com a situação. – Ou será que não? Afinal, o que Isobel Dawson poderia fazer?
Todos a olhávamos sem entender, o rosto dela exibia uma frustração tão grande que ficava difícil se concentrar em qualquer outra coisa. Izzie tinha os olhos cheios de lágrimas e uma varinha na mão, mas não lhe lançava nem um feitiço que o desarmasse, daqueles que aprendíamos no quinto ano em DCAT. Segundos depois, soube que se eu gritasse “Izzie, faça alguma coisa!” como desejava, me arrependeria para o resto da vida.
– Nada, porque ela é inútil. – Hartonen a olhou como se debochasse dela, riu de seu semblante vazio e desolado. – E vocês a deixaram com os livros de Ethan! O que um aborto poderia fazer se eu apenas usasse um feitiço de convocação básico que vocês aprendem no quarto ano, ou algo assim?
Com a menção da palavra “aborto” todos os olhares se fixaram de vez em Izzie, que apontou a varinha tão perto do rosto de Hartonen que essa poderia tocá-lo. Mais uma vez sua gargalhada foi tão debochada que o efeito foi cortante até em meu coração. Se um abraço fosse capaz de curar tudo, inclusive meu tardio entendimento de parte da vida de Izzie, eu a abraçaria até o dia seguinte, até que eu não pudesse mais ver dor em seus olhos.
Em menos de dois segundos ele arrancou a varinha de suas mãos.
– Isso é inútil como você, aborto. – Sua voz era carregada de desprezo enquanto ele partia a varinha no meio.
Todos assistimos o rosto de Izzie mudar de cor: lágrimas grossas rolaram em suas bochechas vermelhas vivas, as pontas rosadas de suas narinas se moviam a medida que sua respiração tornava-se cada vez mais pesada. Não eram mais apenas seus dedos trêmulos, era como se seu corpo tivesse entrado em um estado epilético, porém ela se mantinha firme no chão com um dos punhos cerrado e a outra mão inconstante. Estava em transe, parecia que flutuaria a qualquer instante.
Quando seus lábios se separaram, pensamos que ela falaria algo, mas um urro ensurdecedor se irrompeu de sua garganta e a partir dali, a mistura de sons e visual tornou-se complexa, eram como espectros de luzes cintilantes e confusas de magia em sua forma mais bruta dominassem seu corpo e a fizessem flutuar como uma criatura fantástica de que nunca tivéssemos escutado falar. Nós assistimos enquanto os pregos que prendiam as madeiras da parede começaram a voar em espiral sobre sua cabeça na medida em que o som de seu grito tornava-se mais agudo. Hartonen a olhava perplexo, estarrecido como todos nós.
Como em uma ventania controlada pelos dedos raivosos de Isobel, as madeiras da casa começaram a despencar uma a uma em um som estrondoso de pânico. Uma casa que ficara erguida por décadas a fio, parecia feita de papel diante a ira de Izzie que não parecia consciente do que estava fazendo, só derrubava madeiras.
Estávamos tão perdidos que não notamos que não estávamos mais presos, até James apontar para meu tornozelo. Sem os pregos, precisamos apenas empurrar a parede atrás de nós com nossos pés. Achei que morreríamos todos embaixo dos entulhos da casa antiga, já que agora o sentimento colérico de Izzie parecia mais intenso, como se ela tivesse descoberto o gosto por gritar.
Hartonen tinha voltado a si, mas eu já tinha minha varinha apontada para ele em minha mão raivosa. Era questão de meio minuto para que toda a casa fosse a baixo e Izzie estava com os dois braços estendidos para cima nos últimos segundos de som gutural agonizante.
Caiu exausta.
Em passadas firmes, levei dois segundos para gritar Experlliarmus com força e com raiva. Assisti a varinha de Pontius voar para tão longe, vi Louis desacordá-lo com um soco no nariz, vi James roubar a varinha de minha mão quando estava prestes a exclamar um “Sectumsempra” com tanta raiva que era capaz que Hartonen morresse bem ali. Jay puxava Rose para um semicírculo com o corpo desacordado de Hartonen no centro e o abatido e ofegante de Izzie aos meus pés.
– Protego Maxima. – James proclamou com a varinha para cima.
Nos abaixamos, me abracei ao corpo trêmulo de Isobel e nos permitimos esperar: estávamos em Hogsmeade e alguém nos resgataria.
Ficaríamos bem. Tudo estaria bem.
Finalmente.
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