Born to Die
13 Slow and Steady
Notas iniciais
– Rose –
The lights go out, I am all alone
All the trees outside are buried in the snow
I spend my night dancing with my own shadow
And it holds me and it never lets me go
Eu vinha trabalhando a três horas ininterruptas quando Scorpius apareceu. Eu evitei encará-lo, porque dessa forma quando ele perguntasse há quanto tempo eu estava ali na sala precisa, eu conseguiria mentir razoavelmente bem. Eu vinha mentindo com uma frequência impressionante. Meu namorado sabia disso, mas fingia que não. Quando seus passos ecoaram atrás de mim e, ao invés de me perguntar qualquer coisa, ele massageou meus ombros tensos, eu senti parte da minha tensão ceder imediatamente.
– Já chega por hoje. — Sussurrou próximo demais do meu ouvido.
– Não. — Eu resmunguei de volta, mas fechei os olhos involuntariamente.
– Sim. — Avisou, utilizando seu tom de voz que não aceitava réplicas. Eu quis xingá-lo, mas meu corpo cedia fácil demais a qualquer investida de Malfoy. Eu não percebi em que momento todo o meu material de pesquisa foi jogado ao chão, nem quando minhas peças de roupa encontraram o mesmo destino.
De repente eu estava debruçada em cima da mesma mesa que me servira de apoio até então, arfando como se eu tivesse acabado de correr uma maratona inteira enquanto Scorpius acariciava o lóbulo da minha orelha com a ponta do nariz, deslizava a boca pelo meu pescoço e fechava as mãos em torno dos meus seios, quase ao mesmo tempo. A maneira como ele me tocava e a segurança que eu sentia com a proximidade de seu corpo fazia com que minhas pernas ficassem bambas e meu cérebro mergulhasse em uma espécie de torpor onde a única coisa que importava era Scorpius e as nossas respirações abruptas. Era sempre impressionante a maneira como meus pulmões de fumante resistiam bravamente a todas aquelas sessões de sexo adolescente.
Sempre havia um quê de angustia, uma urgência quando se tratava de nós dois juntos e nus. Tinha a ver com desejo, com amor, mas também com auto afirmação de ambas as partes. Era uma ode a impulsos primitivos, uma pirraça ao universo, um manifesto para lembrar que estávamos vivos e pulsantes apesar de todas as desgraças externas, apesar de todo o inverno lá fora. Nós brilhávamos e suávamos juntos e não havia nada que pudesse deter isso.
Exceto, talvez, a culpa que eu sentia. Quando eu me aninhei cansada e satisfeita no peito de Scorpius, a última coisa que eu esperava era que eu fosse começar a chorar de remorso, mas foi exatamente isso que aconteceu. Meu namorado me olhou assustado e eu pedi desculpa antes mesmo de revelar o que eu vinha guardando para mim durante todo o tempo desde a morte de Ethan. Contei a ele sobre ser a única testemunha ocular do caso e sobre os maços de cigarro com os quais eu vinha sendo presenteada e todas as ameaças que vinham com eles.
Tentei dizer o quanto eu me sentia péssima, fumando como nunca antes, com medo de colocá-lo em risco.
Scorpius apenas me embalou, beijando o topo da minha cabeça.
– Nós podemos pensar em algo que tenha o mesmo valor que sua confissão. Embora aquilo que John e Alvo descobriram sobre as marcas na janela já prove todo o ponto.
Eu o fitei e ele limpou meu rosto com gentileza.
– Você não está puto?
– É claro que estou puto, Rosie. Em algum lugar desse castelo, o lugar em que nós deveríamos nos sentir supostamente seguros, tem um filho da puta que pensa que pode ameaçar minha namorada.
– Sua namorada que omitiu informações de você.
– Não, Rose. – Ele pediu, deslizando os dedos pelo meu braço. – Não tente colocar a culpa em si mesma, você é mais inteligente do que isso. Alem do mais, você está nua. É realmente difícil nutrir sentimentos negativos em relação a você quando estou tendo acesso a tanta informação visual.
Eu funguei, me sentindo um pouco melhor.
Scorpius encostou a boca na minha testa.
– O que você estava fazendo tão concentrada antes da minha chegada?
– Pensando. Fazendo cálculos. Essas coisas. – Sussurrei. – As informações de Roxanne sobre a planta foram uteis. Sinto que falta bem pouco para eu descobrir algo realmente grande. – Apoiando meu queixo no peito dele, encarei um ponto fixo qualquer, franzindo o cenho. – É estranho, Scar. Se a equação que estou desenvolvendo fizer algum sentido, apenas uma pessoa com vasto conhecimento em poções poderia ministrar uma poção do tipo.
– Alguém como...? – Ele me incentivou.
– Alguém inteligente como eu. Ou um professor. – Ponderei, meneando a cabeça para dispersar o pensamento. – Estou cansada de pressupor coisas. Mas é melhor do que não fazer nada. Hoje calculei a velocidade com que Ethan caiu.
– Hm.
– 2.79 metros por segundo. Mais ou menos. Desconsiderando a resistência do ar. Odeio o fato de que uma pessoa possa cair a 2.79m por segundos e morrer.
– Faz com que tudo pareça frágil, não é?
– É. – Murmurei, sentindo vontade de chorar de novo.
– Amo você e seu cérebro gigante. – Scorpius sussurrou, na falta de um consolo melhor.
Eu apenas o apertei com força. E assim, como se abraçar e ser sincera com Scorpius fosse a solução para tudo, um pensamento coerente tomou forma e se manifestou dentro da minha cabeça.
– Harley é tão inteligente quanto eu.
– Walker?
– Sim! – Eu me levantei, esfregando a mão no queixo enquanto as ideias se organizavam na minha mente e eu andava de um lado para o outro, nua. – Se você parar para pensar faz sentido, não?
– Não. – Scorpius foi sincero.
– Faz. Harley é a única ex-namorada de Louis.
– E isso faz dela uma assassina?
– Não, Scar. Mas isso faz dela uma suspeita.
– Achei que ela já era nossa suspeita desde que decidimos considerar todos os convidados que não apareceram no clube.
Eu sabia que os apontamentos que Scorpius estava fazendo não eram para me irritar ou deslegitimar minha ideia. Ele estava apenas conferindo se o meu pensamento era sólido o suficiente a ponto de resistir a argumentos contrários. Respirando fundo, eu parei de andar e o encarei, organizando um fluxo coerente de ideias antes de pronunciá-las.
– No início do ano letivo, Walker se tornou estagiária do professor de poções. — Tentei dizer isso com indiferença. Eu gostava de ser a melhor aluna em determinadas matérias, mas havia algo de petulante e irredutível no meu espírito que me impedia de puxar saco de professores para conseguir determinados benefícios. Ainda mais professores estranhos como Pontius. — Então ela possivelmente teve acesso a determinados materiais ou poções que poderiam levá-la àquela fórmula.
– Tudo bem até aí. — Scorpius aprovou. — Mas como Ethan teria descoberto a fórmula, o que a fórmula tem a ver com sua morte e com a morte de Dean?
Eu roí as unhas, ansiosamente. Odiava não saber respostas.
– Não sei. Mas suponhamos que a fórmula que estou desvendando seja mortal, como tem parecido até agora. Poderia ter sido ingerido por Dean. Poderia ser a real razão de sua morte, não uma doença gastrointestinal.
– Certo. E por que Walker mataria Dean? Alem do mais, isso foi há dois anos. Ela ainda não era estagiária e seu conhecimento em poções possivelmente era mais restrito.
Eu concordei, relutante.
– Você está certo. De qualquer modo, ela pode ter matado Ethan. E pode ter relação com quem matou Dean.
– Você acha que ela matou Ethan por ele ser o novo namorado de seu ex namorado?
– Sim. Além do mais, ela é uma garota.
– Agora você está sendo sexista. — Avisou, levemente aturdido, me fazendo girar os olhos.
– Garotas tem permissão de entrar em dormitórios masculinos na Grifinória. Diferente do caso inverso.
– É uma tese. Mas ainda sobra lugar para mais um suspeito.
– Você tem certeza que Leo está limpo?
Scorpius se levantou e vestiu as calças novamente.
– Ele é apenas um cara regular. Teve um affair com Ethan, antes de Louis aparecer. — Me rodeando, ele plantou um beijo delicado na minha nuca, antes de me ajudar a repor o sutiã. — Nutre certo ressentimento pelo seu primo, mas isso é tudo.
– Droga.
Scorpius riu, me abraçando por trás.
– Você está praguejando por conhecermos uma pessoa que não é assassina?
– Mais ou menos. — Confessei. — Só queria que isso tudo fosse esclarecido logo.
– Nós vamos esclarecer logo, Rosie. Todos estão trabalhando nisso e você precisa creditá-los.
– São boas pessoas. — Murmurei, girando nos calcanhares e enlaçando meus braços em seu pescoço. — Não mais do que você.
– Eu realmente fico comovido quando você massageia meu ego, mas nós sabemos que eu sou a pessoa mais inútil do clube. — Sua voz soou despreocupada, mas eu percebi o modo como ele se retesou.
– Você fez com que Louis nos contasse a verdade.
– Isso é uma coisa boa? Forçar alguém a dizer algo que não se sente confortável a dizer?
– Se isso ajuda a resolver um assassinato, sim. E existe uma grande chance disso ser um crime passional, intimamente relacionado a sexualidade de Ethan e Lou. — Segurando seu rosto, eu o encarei com firmeza. — Você é incrível, Scar.
Ele beijou a ponta do meu nariz, esquivando-se assim de uma resposta. Eu sabia que ele não concordava comigo e me preocupava com o quanto ele vinha se culpando internamente.
Scorpius crescera com síndrome de Atlas. De algum modo, ele sempre dava um jeito de carregar todo o peso do mundo sob os ombros. Ele se sentia particularmente culpado por qualquer coisa, especialmente as coisas pelas quais ele não tinha culpa nenhuma. Devia ser algo a ver com toda a carga emocional que seus avos temperamentais haviam posto nele. Como se ele fosse a única esperança de salvar o sobrenome manchado por histórias horríveis. Alem disso, apesar de o Sr. e a Sra. Malfoy serem pessoas decentes que o amavam, ele tinha sérios problemas de conexão e comunicação com o pai.
Eu gostaria de ter algum tipo de super poder que pudesse remediar isso e aproximá-lo de Draco.
– Deveríamos ir para a cama agora. — Sugeriu e eu ergui uma sobrancelha.
– De novo? — Impliquei só para aliviar a súbita tensão instalada entre nós.
Scorpius abriu um sorriso torto e me beliscou a cintura.
– Não me dê ideias tortas. Você precisa dormir e eu também.
Eu concordei, recolhendo minhas roupas e ajeitando-as em mim do modo mais rápido. Com dedos ágeis, fiz uma trança para domar o cabelo revolto ainda mais agitado do que o natural. Estava perto do horário de recolher e nós não precisávamos de uma detenção agora.
Por fim e com cuidado, eu enrolei os pergaminhos com minhas anotações e enfiei-os no meu tubo de guardar projetos, passando a alça por cima do ombro e estendendo a mão em seguida para alcançar a de Scorpius.
Nós fizemos todo o caminho até as masmorras em silêncio. Eu queria puxar assunto e falar sobre alguma coisa superficial e tranquila, mas nada me ocorreu. Quando chegamos à sala comunal, nós nos despedimos e eu o observei partir em direção a seu quarto, morrendo de vontade de segui-lo. Eu tinha medo de ir para o meu próprio dormitório, porque sabia o que iria encontrar debaixo do meu travesseiro. Eu tinha medo de ficar sozinha comigo mesma porque sabia o que faria, ansiosa do jeito que estava.
Encarei a parede de vidro que dava para o lago. Eu adorava me sentar em uma poltrona confortável e ficar horas observando os sereianos e as demais criaturas aquáticas vagando de um lado para o outro. Esse fora o meu primeiro conforto depois do choque inicial de ter sido selecionada para a sonserina: a sala comunal era tão bonita que, uma vez que pisei nela, fiz as pazes mentalmente com o chapéu seletor.
Havia sido uma surpresa para os meus pais na época, mas mamãe costuma dizer que eu sou uma caixinha delas, desde quando ainda era um feto.
Uma vez, quando eu tinha uns sete ou oito anos, mamãe leu para mim e para Hugo a história da caixa de Pandora. Eu fiquei sem folego a narrativa inteira e esperei meu irmão adormecer para perguntar à ela, com o fio de voz que me restava, se eu era como a caixa da história.
Ela arregalou os olhos e negou veementemente. Disse que eu era exatamente o contrário. Eu era a Caixa Reversa à Caixa de Pandora. Eu era a coisa mais preciosa de sua vida. E beijando minha testa, perguntou se eu havia entendido.
Eu disse que sim e essa foi a primeira mentira que contei à Hermione Granger.
Internamente, por algum motivo, eu estava certa de que eu era a personificação do mito grego e toda vez que eu surpreendia meus pais, uma voz no fundo da minha mente destilava essa insegurança.
Lembrar disso fez meus dedos tremerem. Eu precisava desesperadamente de um cigarro. Adentrei o quarto com cuidado para não acordar minhas colegas e deslizei a mão por debaixo do travesseiro. Estava lá. O assassino de Ethan nunca me decepcionava. E eu era ridícula, fraca o suficiente para consumir aquilo sem o menor pudor, sem o menor senso de preservação.
Enfiando o maço no bolso da capa, me dirigi ao banheiro, murmurei um feitiço de isolamento acústico, me sentei na beirada da banheira e liguei o jato de agua quente que escorria pelo ralo antes de me molhar. A ideia de manter a torneira ligada era só para manter o vapor no local para que a fumaça do cigarro se dissipasse em conjunto.
Era um habito relativamente antigo. Eu havia começado a fumar como meio de baixar a pressão e o nível de ansiedade no quinto ano, para poder estudar para os exames. Também servia como uma espécie de válvula de escape de mim mesma.
A Rose que fumava era ligeiramente mais sexy e mais segura do que a Rose impressionante.
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