Notas iniciais
Musica do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=GO3KwVSd7gY Rose como imaginamos: https://metrouk2.files.wordpress.com/2013/07/the-returned.png

– Rose –

When she stood, she stood tall

She'll make a fool of you all

Don't ask for cigarettes

She ain't got nothin' left for you

Existe algo de esquisito na morte.

Ela move as pessoas mais que a vida, nos veste de negro e nos faz dançar uma melodia estranha em abraços enquanto refletimos numa marcha fúnebre mais sobre nós mesmos que sobre a pessoa que se encontra a sete palmos do nosso chão.

Há algo de egoísta na morte. Talvez seja quando realizamos que esse é o próximo passo certo em uma vida efêmera, constituída de trânsitos variáveis rumo ao mesmo destino.

Ás vezes, a morte chega tão prematuramente que mal podemos acreditar. Eu penso nisso o tempo inteiro enquanto olho para o assento vazio ao meu lado na aula de poções: Ethan e eu não éramos tão amigos assim, mas eu podia dizer que considerava-o parte dos meus dias, tanto que sentia sua falta.

Nós tínhamos uma maneira especial de trabalhar juntos nas quais eu o insultava quando ele fazia algo errado e ele insultava minha cara, ríamos por meio minuto e voltávamos ao trabalho de forma genial. Éramos os melhores da classe até quando ele parecia estar absorto em suas anotações e pesquisas sobre poções que nunca ouvira falar.

Não tínhamos nada, absolutamente nada em comum além das poções, que eram como arte para nossas mentes curiosas e ávidas por algo cada vez mais avançado. Eu suspeitava que Morrison estava inventando suas próprias poções e isso fazia minha vida (quase sem excitações e motivos para ânimo) mais competitiva e criativa. Eu podia ser um zero à esquerda em várias disciplinas, mas eu era incrível em poções e talvez fosse porque Ethan me fazia melhor.

Já tocamos no assunto egoísmo, mas talvez isso seja o que mais sinto falta, uma vez que eu percebi que nada sei sobre Ethan em um nível pessoal. Não éramos próximos como Ethan e Louis ou Ethan e Isobel Dawson, que pareciam compartilhar segredos e confidências a um nível mais avançado do que eu poderia compreender. A um nível Scorpius e James.

Os olhares furtivos que o Sr. Hartonen – o professor mais jovem de Hogwarts e talvez o mais aprazível de se encarar na história da escola por causa de seus cabelos castanhos e pele clara, olhos azuis profundos e um físico aparentemente normal – lançava em direção à nossa mesa, me deixava ainda mais nervosa.

Acho que agora eu devo dizer minha mesa.

Perturbador.

Scorpius foi quem me impediu de colocar seiva de mandrágora na poção elaborada que fazíamos. Abandonou Zambini em sua mesa e me perguntou de maneira preocupada, enquanto tomava os frascos de minha mão:

– Você tem condições de participar da aula hoje? – Seus olhos cinzentos transitavam do meu rosto ao caldeirão. – Tenho certeza que ele não vai se importar. — Indicou o professor Pontus Hartonen com a cabeça.

A verdade era que todos os alunos o odiavam, provavelmente por sua personalidade um tanto imprevisível de paciência e amabilidade em certos dias, irritabilidade e algum tipo de esnobaria em outros. Ele parecia não me odiar, acredito que em parte seja por não trazer problemas e outra parte por ele manter uma relação estranha de admiração para com Ethan. Não ultimamente, devo observar, porém era o suficiente para me manter longe de problemas.

– A tarefa o está entediando tanto ao ponto de fazê-lo iniciar conversinhas, Sr. Malfoy? – Seu tom de voz parecia mais ríspido essa semana. Acertou as vestes enquanto andava em nossa direção.

– Não. – Scorpius era a pessoa mais tranquila do universo, porém não existia nada que o fizesse desviar o olhar ou aceitar qualquer tipo de tom de voz que não fosse o mais agradável possível. Acredito que esse seja o jeito nobre e Malfoy de ser. Sorriu antes de acrescentar em tom pouco solene – Senhor.

Se o Professor Hartonen não estivesse nos encarando de maneira tão perturbadora, eu me permitiria sorrir para Scorpius. Havia algo incrivelmente sereno que exalava do corpo dele, uma espécie de segurança que me faria abrir mão de todos os meus segredos se ele fosse capaz de me oferecer um conselho que os resolvessem. Ás vezes ele me olhava como se eu fosse um enigma a ser desvendado e embora eu apreciasse essa admiração mútua, gostaria que um dia ele fosse capaz de solucionar algumas das coisas que se passavam pela minha cabeça.

Eu não posso nem começar a discursar sobre o que se encontra na minha mente.

Parte de mim queria encarar aquele rosto pálido adornado por cabelos loiros bagunçados e falar tudo o que sabia. Parte de mim entendia que aquela não era a ideia mais prudente.

– Senhor Hartonen, com licença. Estou me sentindo mal. – Me levantei, apertando meus livros contra meu dorso, sem esperar permissão para me ausentar da sala. Apenas com o olhar me despedi de Scorpius, porque ele saberia onde me encontrar em vinte e cinco minutos, ao fim dessa aula.

Desci em direção ao jardim já arrebentando a bolinha mentolada na ponta do cigarro dentro do bolso do uniforme de Hogwarts, sem parar para pensar que o local imaculado que escolhi para fugir de toda essa pressão adolescente de ser filha de quem sou, de não saber o que fazer da vida aos dezesseis como minha mãe indiretamente esperava e de todo o drama que acompanha alguém que se acha mais interessante por ter um vício desprezível na opinião de seus pais, foi destruído pela morte do meu parceiro em poções.

Com o cigarro entre os lábios, meu cérebro perturbado resolveu reviver àquela fatídica noite, como se minha mente não fosse mórbida o suficiente daquela maneira. As guimbas do maço e meio que fumei naquela noite ainda estavam ali, entre as pedras dos muros de Hogwarts. Penso que meu corpo deve sentir algum tipo de prazer insolúvel em sair da escola em horários pouco convencionais e subir em forma de fumaça o cheiro de nicotina proibido aos menores de idade alguns andares abaixo das janelas da Grifinória. Alguma parte no meu âmago desejava que os rapazes certinhos do sexto ano vissem a Rose careta.

Contudo, àquela noite fora terrível.

Tinha acabado de receber uma nota pouco satisfatória em transfiguração, estava sentindo como se talvez eu não tivesse futuro. Algumas coisas estavam fugindo do meu controle, meu estoque de maços de cigarro estava acabando e eu estava me sentindo estúpida o suficiente para fumar um maço inteiro.

Estava pensando exatamente na morte dos meus pulmões, como se o fato de eu estar estragando-os demonstrasse alguma forma de controle sobre eles e, por consequência, sobre a morte, quando vi o corpo despencar no jardim.

Olhei para cima involuntariamente.

Tenho certeza de que quem quer que fosse o assassino, tinha me visto. Eu apenas tinha visto um vulto, queria poder ter visto mais. Queria poder identificar quem fosse a pessoa que agora parecia me atormentar a qualquer custo.

Ele ou ela sabia quem eu era.

Tanto que na manhã seguinte ao assassinato, quando voltei ao meu quarto após o café da manhã, tinha um maço de cigarros sobre a minha cama adornado por uma fita cor de vinho e um bilhete “Não conto, se você não contar”. Como se fumar cigarros fosse pior que assassinar alguém a sangue frio e forjar uma carta de suicídio.

Então meu cérebro começou a trabalhar nas possibilidades: se soubessem que eu era parte de um grupo que tinha o objetivo de encontrar aquela pessoa que empurrou um rapaz de dezesseis anos da janela a sangue frio, talvez eu fosse a próxima. Por outro lado, não há garantias de que não me matarão de qualquer maneira: afinal, eu estava lá. Eu era a única testemunha ocular.

Estar lá talvez fosse mais útil que não estar.

Eu tento ser racional às vezes, tento ser sistemática como Alvo e me lembrar de todos os detalhes, mas quando fecho os olhos me lembro do barulho de ossos quebrando contra a neve, me lembro de um grito estrangulado que partira de mim, me lembro de me abaixar perto do corpo de Ethan para ver se ele estava vivo, mesmo sabendo que não estava: qualquer idiota podia ver diante a poça de sangue em volta de seu corpo ainda quente apesar da neve gelada.

Me lembro de ver fraturas expostas.

Nada apagaria aquilo da minha mente, meu corpo se arrepiava enquanto eu olhava para o ponto exato onde vira seu corpo sem vida já de olhos fechados.

– No que está pensando? – Scorpius me surpreendera quando já tinha acabado de fumar meu cigarro e estava apenas agachada naquele local.

– Em como alguém tem coragem de empurrar outra pessoa da janela de uma torre. – Meus olhos estavam cheios de lágrimas, o que não é comum para alguém que demonstra no total uma emoção que é equivalente à de tédio. Com pesar, respirei fundo. Sabia que estava temendo mais pela minha vida que me enlutando pela de Ethan.

Ele colocou a mão no meu ombro.

– Seres humanos são horríveis. – Disse simplesmente.

Pensei no quão horrível eu era: no pânico que sentira e que me fizera – ao invés de pedir ajuda ou notificar alguém de que aquilo não fora um suicídio – correr até as masmorras e ali ficar escondida até ter certeza que ninguém me mataria durante o sono. Não consegui dormir já que, como uma música de péssimo gosto, barulhos se repetiam na minha mente em ritmo incessante: ossos quebrando, grito, chacoalhar da neve, pernas correndo, ossos quebrando, grito, neve...

– Sim. – Concordei finalmente. – Terríveis.

Meu namorado sabia que havia algo de errado comigo. Nós já tínhamos passado por todo aquele joguete de pessoas que não se suportam a pessoas que não podem negar que a tensão é de fato tesão. Ele era meu melhor amigo e eu poderia afirmar que eu era a melhor amiga dele se ele não tivesse em um relacionamento sério com James toda a vida.

Eu não podia contar nem para Scorpius. Não agora. Se ele soubesse também correria perigo, uma vez que o — ou — a assassina não sabia o que eu tinha visto.

Com os olhos vidrados nos dele decidi que não falaria agora, e ele sabia que eu não era do tipo de pessoa que gostava de ser motivada a falar. Já tínhamos passado por milhares de discussões sobre o fato de eu ser emocionalmente distante e pouco afetuosa, detestar discussões e ao mesmo tempo exigir tudo isso dele. Isso faz de mim uma pessoa péssima, porém, por algum motivo ele parece gostar de mim ainda assim.

– Sabe... – Falei, com as mãos nos bolsos enquanto nos afastávamos dali. – Não estamos pensando direito.

– Como assim? – Scorpius perguntou, com os braços envoltos em meus ombros.

– Não existe crime perfeito. – As frases estavam se formando no meu cérebro. – Quem quer que seja que tenha... Bem, feito isso, cometeu um crime passional. Existem milhares de maneiras melhores de forjar suicídio. Lançar a vítima da janela de um dormitório enquanto os colegas dormem parece algo imprudente, uma decisão repentina.

– Toda decisão repentina apresenta falhas. – Ele completou, porque parecia ser uma coisa que eu falava com frequência. – Deve ter algo que estamos deixando passar.

De longe, enquanto nos afastávamos para nos sentarmos embaixo de uma daquelas árvores, avistamos a janela agora sempre fechada da torre. Nós da masmorra, por um motivo, sobretudo cultural, evitávamos encarar as torres. Só tínhamos vontade de encara-las se existisse alguém nos mirando de volta, em uma tentativa de manter acessa aquela rivalidade sem sentido.

– Quem quer que seja que tenha feito isso, precisava de acesso à sala comunal de Grifinória. Não era um horário oportuno para truques. – Observei, enquanto me aninhava em seu peito e ele me enlaçava de maneira aconchegante em seus braços. Pensei no quanto aquilo diminuía exponencialmente minhas frustrações com o mundo e a tensão que pairava sobre meus ossos desde aquela noite de terror.

– Você está pensando em alguém da Grifinória? – Sentia seus olhos cinzas encarando minha nuca.

– Você não acha estranho o fato de Barnaby não ter comparecido àquele grupo? – Cruzei os braços enquanto ele parecia ponderar. – Eles eram colegas de quarto, assim como Al e John, que se demonstraram abalados de alguma forma. Existe algo de errado com Barnaby.

– Você acha que ele seria capaz de matar o colega de quarto dessa maneira fria? – Scorpius tinha tom de voz paciente, mas parecia incrédulo. – Apesar de fazer sentido...

Ele então discorreu sobre alguns boatos sobre Ethan que Barnaby vinha espalhando. Falou que não sabia ao certo quais eram, mas que existiu um conflito entre os dois que deixara a situação tensa e então ele frisou o fato de que fora Barnaby que reconhecera o corpo de Ethan antes de qualquer pessoa naquela manhã de Janeiro.

– Talvez devêssemos pesquisar mais sobre isso. – Concluiu, beijando minha testa.

Me senti mais tranquila colocando um nome nas minhas suspeitas, enquanto recebia carinhos daquele que era catalisador de todas as minhas dores. Achava engraçado o fato de que a constelação que estava no céu no momento em que nasci tinha o seu nome, como se de alguma maneira psicodélica o universo fizesse sentido ás vezes e quisesse que estivéssemos sempre juntos.

Não sei, talvez eu esteja apenas divagando.

Scorpius virou meu rosto, encarando meus olhos enquanto os seus olhos cinzentos sorriam, e me beijou calmamente.

– Antes que nos transformemos em Sherlock e Watson, preciso te dizer: você está absolutamente maravilhosa hoje. – Sorriu mais uma vez.

– Eu sou Sherlock! – Existia uma tentativa de sorriso no meu rosto, mas existia ainda mais amor por Scorpius Malfoy.

– Tudo bem por mim.