Born to Die
6 Freud Sits Here
Notas iniciais
– Isobel -
It´s close to chaos
But it´s certainly not
I´m doing my best
But I feel on the edge
Carvalho. 30 centímetros. Pouco flexível. Núcleo de unicórnio.
Eu estava manuseando-a de novo, em mais uma tentativa estúpida e ilusória quando o bilhete de Louis pousou suavemente no meu ombro.
“Mesmo lugar. 17 horas.”
Eu pisquei e as letras sumiram. Guardei-o no bolso e joguei a varinha — herança direta da minha avó paterna, uma das minhas pessoas favoritas no mundo – de maneira mal criada em cima da minha cômoda. Era uma irritação temporária. Eu sabia que em algum momento me reconciliaria com ela. Afinal, nós fazíamos uma boa dupla: éramos igualmente inúteis.
– Não me olhe desse jeito. – Eu disse para Chewie, meu gato gordo, imenso e peludo. – Sério. Não é um bom momento. – Ele miou indiferente e lambeu a pata dianteira.
Bufando, eu abri minha maleta onde ficavam guardados todos os meus livros prediletos — muitos deles trouxas — e retirei os três exemplares que Ethan havia me emprestado, uma semana antes de morrer. Eu vinha fazendo isso com alguma frequência nas ultimas vinte e quatro horas: tirava-os do lugar só para checar que eles ainda estavam comigo e, logo depois, guardava-os de novo.
Ainda não havia me perdoado por não ter pensado isso nos dias anteriores: Ethan havia insistido de maneira enfática, um pouco assustadora até, para que eu os mantivesse comigo, mesmo quando argumentei que já havia lido os três e que possuía os exemplares.
Apenas fique com eles, Iz. Sua voz fantasmagórica e falsamente despretensiosa agora soava na minha memória enquanto eu me punia mais uma vez por não ter sequer cogitado a ideia de investigá-los antes.
Em minha defesa, Ethan era o que qualquer pessoa comum catalogaria como “imprevisível” e “excêntrico”. Ele enchia de significados coisas simples, via o que ninguém mais via e eu o amava por isso, mas às vezes eu apenas ria e ignorava seus exageros.
Estava claro agora que esse era um dos casos em que eu não deveria ter feito isso.
Na ultima noite, eu havia passado todas as minhas horas de sono procurando pistas entre aquelas folhas que cheiravam a acaro. Em um dos livros, havia fórmulas esquisitas escritas com pressa em notas de rodapé. No segundo, não havia nada alem de uma dedicatória inesperada: Para Izzie, com toda minha esperança. E o desenho de uma planta – ou seria flor? – logo embaixo, o que me fez chorar um pouco.
Por fim, encontrei algo substancial no exemplar de Uma estação no Inferno de Arthur Rimbauld, que eu deixei para investigar por ultimo porque tinha a intuição de que era o mais importante. E de fato ele era. Gostaria de dizer que tive um grande trabalho desvendando esse livro. Que precisei lê-lo inteiro de maneira feroz para entender o que meu amigo havia me deixado. Mas a verdade é que a resposta era simples e se encontrava nas primeiras páginas. Ethan tinha grifado as letras das palavras de seu autor preferido, formando um nome:
“Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos.
– E achei-a amarga. — E injuriei-a. Armei-me contra a justiça. Fugi.
Ó feiticeiras. Ó miséria, ó ódio, a vós é que foi confiado o meu tesouro!
Tudo fiz para que se desvanecesse em meu espírito a esperança humana. Como um animal feroz, investi cegamente contra a alegria para estrangulá-la."
Dean Collins.
Eu precisei de bons minutos para conseguir obter da minha memória uma imagem visual do rapaz. Dean Collins era um aluno da Grifinória que havia morrido há dois anos, vitima de uma doença grave no intestino. Eu não o conhecia e estava certa de que Ethan tampouco. Porque diabos seu nome estava grifado como se fosse uma chave importante para mim? Eu não tinha sequer uma vaga ideia.
A dúvida me perturbara a madrugada inteira, junto com uma paranoia crescente decorrente da consciência que eu tinha de que estava completamente indefesa e desarmada. Se o assassino de Ethan soubesse que eu tinha aqueles livros comigo, se ele sequer desconfiasse que eu era a portadora dos últimos segredos de Morrison, ainda que eu não fosse capaz de decifrá-los, então tudo estava acabado.
Por essa razão eu vinha tendo taquicardias desde cinco da manhã, enquanto implorava para todas as divindades que conhecia (e as que eu desconhecia também) para que eu conseguisse executar pelo menos o mais débil dos feitiços de proteção.
Acho que nenhuma delas ia muito com a minha cara porque nada aconteceu, como já disse anteriormente.
Então eu estava ali, sozinha, no meu dormitório. Artemis Bailey, Germana Powell e Charlotte Middleton – as garotas que dividiam o quarto comigo – estavam sendo saudáveis e normais, passeando pelo castelo, aproveitando o intervalo entre as aulas.
Eu me perguntei se, em algum momento, eu poderia voltar a fazer isso também.
Finalmente Chewbacca pareceu sentir quão na merda eu estava, porque interrompeu seu banho para dar cabeçadas carinhosas no meu braço e se enroscar no meu colo. Eu me abracei a ele e fiquei parada, os olhos fixos em um ponto qualquer, até a hora da nova reunião.
–
– Hoje nós estamos aqui com a carta de suicídio original. – Louis começou, sem muitos rodeios. As mesmas pessoas da primeira sessão se encontravam ali novamente, todas nos mesmos lugares de antes, destruindo minha esperança de que metade delas tivesse desistido disso e continuado suas vidas longe dessa confusão.
Eu não gostava muito de integrar grupos ou de me expor em publico e lá estava eu, prestes a fazer ambas as coisas.
– ...Apesar de James ter, cordialmente, cedido seu tempo testando feitiços para comprovar que a carta foi forjada, decidi trazê-la para o caso de alguém conhecer algum feitiço que ainda não tenha sido lançado sobre ela. – Eu observei que o Potter mais velho se mexeu incomodado. Estava claro que ele acreditava que ninguém acharia mais nada que ele já não tivesse encontrado. – Como nós somos um grupo, parte da investigação será realizada em conjunto. Assim, há menos chances de deixarmos algo passar.
Eu e os demais concordamos com a cabeça. Eu não tocaria naquela carta de maneira alguma, mas achava a ideia sensata.
– Sendo assim... – Ele abriu uma pequena sacola de veludo e despejou nove pulseiras pretas, distribuindo uma para cada um de nós e mantendo uma para si. – Enfeiticei essas cordinhas para que, quando alguém tiver alguma ideia relevante ou uma pista, possamos nos comunicar através delas. Elas mudam de cor.
Meu estomago embrulhou. Me levantei e todos me olharam, surpresos. Notei que até então eu nunca tinha aberto a boca ou feito qualquer linguagem corporal muito enfática.
– Eu tenho pistas. – Anunciei, me dirigindo ao quadro negro na parede oposta. Ele não vinha sendo utilizado há muito tempo, visto que uma fina camada de pó cobria sua superfície. Com as costas da mão, limpei-o e, por fim, escrevi as formulas que eu tanto tinha me esforçado para memorizar. Em seguida, desenhei a planta que Ethan tinha rabiscado na dedicatória para mim, junto com o nome de Dean Collins.
Quando me virei, todos (com exceção de Rose Weasley, que copiava rapidamente as formulas em um pedaço de pergaminho) me encaravam em busca de uma explicação.
Eu apenas encolhi os ombros e fui sincera:
– Eu não tenho a menor ideia do que isso significa. – Gaguejei. – Eu apenas encontrei isso em coisas que Ethan me deu.
– Que coisas? – Alvo Potter inquiriu, claramente insatisfeito. O jeito como seus olhos verdes semicerrados me inspecionavam, deixava claro que ele desconfiava de mim.
– Coisas. – Eu repeti, desconfortável. Meu coração martelava de maneira alucinada. Eu queria chorar, eu queria sumir, eu queria Ethan vivo e eu queria, sobretudo, que Potter parasse de me olhar daquela forma. – Coisas que eu preferi não trazer fisicamente, por medo de ser interceptada ou...
– Todos nós estamos com medo, srta. Dawson. – Ele continuou, agora mal contendo sua irritação, o que me fez ficar irritada também.
– Al, acho que esse não é o ponto. – Louis me defendeu, embora eu pudesse observar, por sua postura, que ele também preferia que eu tivesse apresentado as provas físicas.
– Louis está certo. – James se manifestou. Eu não sabia se era só para discordar do irmão ou para agradar o primo, mas independente de sua intenção, sua expressão pela primeira vez séria fez com que todos o escutassem: — Acho que deveríamos começar por aquilo ali. – Ele apontou o nome de Dean. – Se Ethan deixou o nome de Dean Collins como pista, um aluno que todos sabemos não estar vivo, é possível que as coisas sejam mais sérias do que estávamos pensando.
– Você está querendo dizer que pode existir alguma relação entre a morte de ambos? – John Ingram perguntou.
– Precisamente. – James rebateu e nós fizemos silencio por um instante.
– Essa planta... – Roxanne quebrou o silencio, concentrando-se no meu desenho. – Me parece familiar.
– Jura? – James se surpreendeu. – Eu sinceramente achei que se tratasse de um alien ou um desenho surrealista.
Enrubesci e senti vontade de me desculpar pelo meu inexistente talento.
– Não, não. – Roxanne continuou, esforçando-se para lembrar e frustrando-se logo em seguida. – Droga. Estou certa de que já li a respeito em algum livro de Herbologia do professor Longbottom. Ele fica realmente entusiasmado com meu interesse pela matéria, me emprestando um monte de coisa até quando não peço. Enfim. Se ninguém se opor, posso me encarregar disso.
– E eu posso ficar com as fórmulas. – Rose avisou, ainda sem tirar os olhos do pergaminho.
Alvo continuava me olhando como se soubesse que eu estava escondendo algo. Eu queria encará-lo de volta, desafiá-lo, mas ao invés disso, me precipitei de volta para a minha cadeira, onde passei o resto da reunião observando enquanto os meus novos colegas lançavam feitiços sobre a carta falsa.
Não havia nada que eu quisesse mais do que ajudar a solucionar a morte de Ethan, mas isso estava se mostrando cada vez mais árduo para o meu campo emocional. Não demoraria muito para que eles notassem que havia algo de errado comigo. Alem disso, minha recusa em entregar os livros não favorecia minha imagem. E eu nem sequer podia inventar uma boa desculpa para isso. Eu só não queria sair andando pelo castelo com os livros. Não quando eu não podia me proteger, ou, mais importante, proteger aos livros.
Eu precisava garantir que eles ficariam em segurança, que não cairiam nas mãos erradas. A essa altura, ainda que estivéssemos tomando cuidados, era possível que algumas pessoas tivessem consciência do que estávamos tentando fazer. E embora exista a possibilidade de que essas pessoas não ligassem a mínima, também existia a possibilidade de elas discorrerem a respeito com alguém, que poderia comentar com outro alguém, até chegar ao ouvido da pessoa que estávamos buscando.
Era uma dança perigosa essa que estávamos executando. Se ser olhada com desconfiança pelos colegas do grupo de investigação era o preço que eu tinha que pagar para manter os livros o mais intocados possíveis – os únicos vestígios de Ethan que eu tinha – então que assim fosse.
Não era exatamente como se eu não estivesse acostumada a me esquivar de situações desconfortáveis. Basicamente isso era o que eu vinha fazendo desde que entrara na escola aos onze anos. Meu pai – que leciona Runas Antigas – bem como a Professora Minerva (na época, diretora da escola) tinham discorrido horas inteiras sobre como a minha decisão de estudar aqui, com a minha condição, seria difícil. Eles estavam dispostos a me deixar o mais confortável possível dentro dos meus limites, mas eu teria que arcar com as consequências emocionais dessa minha decisão que eram externas aos esforços deles.
Lembro-me de concordar e de permanecer firme apesar dos olhos suplicantes de papai para que eu reconsiderasse e partisse para outra escola.
– Hogwarts sempre ajudará aqueles que a ela recorrerem. – Fora a paráfrase final da professora McGonagall. Desde então eu vinha repetindo aquilo como uma espécie de mantra quando as coisas ficavam muito complicadas.
Às vezes eu gostaria de escancarar meu segredo para todo mundo. Em outras situações, queria apenas que ele fosse grifado em mim como uma cicatriz, assim as pessoas teriam ao menos a decência de corar quando estivessem dizendo coisas maldosas sobre condições genéticas das quais elas não estavam familiarizadas. Em dias difíceis, eu sentia vontade de escrever uma coluna de jornal sobre como o preconceito ainda era visível e latente na sociedade bruxa mesmo em 2023.
Ao invés disso, eu colocava alguma musica antiga na velha vitrola mágica de papai e rodava com Chewbacca em passos tontos de valsa até cair.
Ethan era meu único amigo dentro da escola que sabia o que eu fazia. Ou melhor, que sabia o que eu não podia fazer. Ele havia me descoberto em um dia de outono enquanto eu estudava na biblioteca as matérias trouxas obrigatórias para o meu currículo final. Na pressa para uma das poucas aulas bruxas que eu podia participar, eu tinha esquecido um dos meus cadernos em cima da mesa e Ethan o encontrara e o abrira, a fim de descobrir a quem pertencia. Nisso ele descobriu mais de mim do que saberia caso tivéssemos nos apresentado formalmente.
Então ele me procurou dois dias inteiros para me devolver.
Quando ele me achou e eu estendi as mãos, tremula e tensa para recuperar o caderno, ele me abriu um sorriso desarmado de quem estava ciente do que eu era, mas que não me perguntaria a respeito ou sequer me julgaria.
– Eu sou o Ethan. – Apresentou-se. – E eu sou gay.
Diante do meu silencio surpreso, ele riu e passou um braço sobre meu ombro.
– Achei que assim nós ficaríamos quites.
E ele estava certo, como na maioria das vezes.
Foi assim que nos tornamos melhores amigos: Ethan guardava minha maior confidencia e vice-versa. Nós éramos o seguro um do outro e eu seria eternamente agradecida a ele por isso.
Sentiria eternamente sua falta por isso.
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