Born to Die
7 I Know It's Over
Notas iniciais
– Abigail -
I can feel
The soil falling over my head
See, the sea wants to take me
The knife wants to slit me
Do you think you can help me?
Olá, meu nome é Abigail T. Jones e eu venho sendo perseguida há mais ou menos oito meses. Ás vezes é difícil crer nisso, baseada no fato de que Hogwarts é o local mais seguro do mundo para a maioria das crianças bruxas do Reino Unido. Me lembro de quando era apenas uma criança de dez anos, dois irmãos e uma vida normal cheia das privações financeiras (pois a situação econômica não era favorável para pessoas trouxas desempregadas) qualquer vislumbre de tristeza se esvaiu quando a carta de Hogwarts chegou a minha casa. Aos onze anos de idade, me prometi com profundos traços de esperança que aquele seria o início da minha vida de fato: moraria em um castelo, faria milhares de amigos e seria alguém importante.
Gosto de dizer que nesses quase sete anos aqui, fiz um bom trabalho. Estou quase que literalmente em todos os lugares e Hogwarts é o meu local favorito no mundo. Faço parte de todos os clubes, aulas, atividades extracurriculares, time de quadribol, equipe de xadrez bruxo e sou colunista do jornal da escola. Eu passo inclusive as férias de dezembro na escola – parte porque não tenho posses financeiras para ir e voltar para casa duas vezes ao ano. Uma vez uma criança pobre, sempre uma criança que encontra diversão nas coisas simples, ter a escola só para mim e meia dúzia de pessoas derrotadas continha um prazer quase comparável àquele que um consumista sentiria se preso dentro de uma Forever 21 em New York. Era minha chance de ler livros sob as arvores, usar pijamas nos corredores, rir a vontade das cartas que James me manda no natal e escrever meus milhares contos nas folhas cinzentas pautadas que sempre carrego comigo. Era um alívio para uma nascida trouxa desastrada usar lápis e borracha e não tinteiro e pena em pleno século XXI.
Então o que eu quero dizer é que a maior afronta dessas ameaças consiste no fato de elas existirem nesse meu ecossistema perfeito. No meu lar.
“Cuidado ao meter o nariz onde não é chamada”.
Tinha memorizado a primeira de muitas mensagens, esta recebida em forma de nota atrás de uma página sobre Maldições Imperdoáveis no livro de Defesa Contra as Artes das Trevas do sexto ano. Avada Kedavra era a maldição em destaque, avada em aramaico significa morte e a execução dessa maldição que não deixa vestígios, garante uma passagem sem volta para Azkaban.
Era dedutível e razoavelmente compreensível que, mesmo que o Ministério atualmente tivesse sua maneira de detectar a execução de uma maldição imperdoável no ato, essa pessoa correria o risco se isso significasse me matar.
Desde junho do ano passado, a intensidade e o conteúdo das mensagens vem se agravando, bem como a frequência do meu desespero. Meus dias se transformaram em um constante medo: a partir daquele treze de junho eu dormiria todos os dias com a varinha presa ao tornozelo, checaria todas as passagens antes de me instalar em um cômodo e, principalmente, dedicaria todas as minhas horas – livres ou não – a encontrar o pedaço de merda que estava me colocando nessa situação. O pedaço de merda que achou que ninguém fosse esperto o suficiente para descobrir o que ele fez.
Não estou falando sobre o assassino de Ethan Morrison.
Estou falando sobre Dean Collins, meu melhor amigo, um cara legal que me fez companhia por cinco incríveis natais em Hogwarts até se sentir doente repentinamente e morrer gradativamente no curso de três semanas. A princípio, eu tinha quinze anos e engoli a notificação da direção da escola que afirmava que ele tinha uma condição degenerativa hereditária rara no estômago pouco estudada e possivelmente desencadeada por fatores desconhecidos.
Em menos de dois meses se esqueceram da história de Dean. Acreditem, eu sei como isso funciona: Hogwarts aceita todas as pessoas que tem um pingo de magia em si e possibilidades de serem extraordinárias. Mas como na cadeia alimentar de todos os colégios e da vida em geral existem aqueles que já chegaram aqui com privilégios e nomes de peso, enquanto existiam aqueles como eu e Dean que tinham apenas surgido de modo intrusivo nesse mundo de castelos e magia, com uma ficha em branco e zero importância para a sociedade. Eu não sou uma Potter, Dean não era um Malfoy ou um Weasley. Ah, mas se ele tivesse sido um desses, minha nossa, seria o fim desse mundo como o conhecemos.
Se eu morresse talvez existisse algum tipo de comoção por um tempo limitado. Eu sempre fiz questão de estar em tudo, antes e após a morte de Dean. Entretanto, quando ele se foi, mesmo que sempre cercada de pessoas, me sentia cada vez mais sozinha. Tenho consciência de que exijo espaço na vida das pessoas e que tenho dezenas de colegas, todas as pessoas sabem quem eu sou. Porém no fim das contas, passo as noites de sábado sozinha – memorizando os livros da biblioteca – uma vez que talvez eu não seja uma pessoa interessante o suficiente para ter amigos ou as pessoas simplesmente tem coisas melhores para fazer.
Eu não queria passar em branco.
Ás vezes parecia que o mundo não sentia falta de Dean e isso me revoltava de uma maneira surreal e quase irracional. Nenhum deles me faria gemadas em vésperas natalinas para acompanhar nossa tradição de comer um pedaço de cada coisa na grande mesa do banquete de natal, nenhum deles roubaria whisky de fogo do gabinete dos professores para dançar para a lua em uma daquelas primaveras frescas. Nenhum deles me diria que eu era importante e amada nesse mundo solitário sempre que eu precisasse ouvir. Nenhum deles seria Dean Collins.
Fico me perguntando o que me motivou a seguir a dobradura de Louis para aquela reunião inusitada. Ethan e eu não éramos amigos, porém convivíamos bem na medida do possível, uma vez que a minha popularidade sempre fica em jogo quando preciso repreender alunos que saem da sala comunal no meio da noite. Todavia, eu me via como uma pessoa intuitiva e eu podia sentir de uma maneira quase palpável a semelhança entre aquele caso de falso suicídio e a falsa doença de Dean. A palavra “falso” talvez fosse a única paridade, já que Ethan jamais seria apenas uma citação na história de Hogwarts como nós mortais que não possuímos uma mansão ao “lado” de Malfoy Manor, em Wiltshire, ou tínhamos como amigos metade do clã Potter-Weasley.
Isso me revoltava quase tanto quanto me fazia sentir alguma paz.
Ninguém me conhecia em um nível tão profundo a fim de sentir tanto a minha falta no caso de morte. Quantas pessoas fariam um clube para desvendar a morte de Abigail Jones?
Ás vezes eu sentia que minha morte estava perto, mesmo me precavendo. Mesmo tendo todo um ritual anti-azaração e executando feitiços de detecção de poções o tempo inteiro. Eu odiava a pessoa sistemática que estava me tornando: aquele bosta estava me transformando em uma virginiana viciada em limpeza e organização. Isso reduzia a bagunça que era a minha vida apenas a princípios e regras de sobrevivência. As ameaças queriam que eu desistisse, mas eu viveria.
Viveria e traria algum tipo de justiça a Dean.
Quando Isobel Dawson mencionou Dean na última reunião, meu coração se acelerou.
Quis gritar: Dean foi assassinado e fingiram que não, como fizeram com Ethan! Quis falar sobre como eu tinha descoberto quando estava voluntariando na enfermaria que aquela história de doença degenerativa no estomago ou no intestino – que seja – era balela. Eu estava rouca de vociferar mentalmente sobre a inexistência de doenças degenerativas hereditárias de tal natureza no histórico médico familiar dos Collins, que todos os sintomas batiam, porém obviamente doenças hereditárias precisam ser transmitidas através de gerações, ou seja, na descendência. Queria berrar para todos que houve uma investigação em Hogwarts que fechou as novas estufas 7 e 9, catalogou todas as plantas e ervas por extensas três semanas e, por fim, deu-se como derrotada pela ilusão da tal doença. Queria gritar o nome de todos os meus suspeitos, principalmente aquele que aparecia nas ultimas noites em meus pesadelos me empurrando da mesma janela em que tivera fim a curta vida de Ethan.
Nenhuma de minhas imagens do subconsciente tinham sido tão claras na vida: eu estava vestindo minha camiseta de Robin e minha calça de pijama xadrez. O som de passos no meu quarto fazia com que eu me levantasse com cuidado, tirando rapidamente os trinta e dois centímetros de abeto sempre presos ao meu tornozelo. Você pertence a Grifinória, casa onde habitam os bravos de coração. Ousadia, coragem e nobreza... Repetia enquanto andava pelo quarto com a varinha em frente ao peito. Mas aquele não era o meu dormitório: eu via James deitado em uma das camas, Rose dormindo em outra e Isobel Dawson com seus imensos olhos assustadores me encarando de maneira passiva. Seus lábios se abriram de maneira circular, quase como se fosse proferir um “Oh!”. Entendi que existia alguém atrás de mim e quando eu me virava e via o rosto de meu algoz, esse sorria. Minha mão apertava minha barriga pela repentina dor que tirava toda cor de minha pele negra. Por fim, este me empurrava, como empurrara Ethan. Era a mesma janela, mas a torre era de Astronomia.
Sonhos são manifestações do subconsciente de acordo com os cientistas, são predições de acordo com aqueles que tem o dom da visão. Eu não sei o que este significava de fato. Eu só tinha certeza que investigar a morte de Dean traria respostas.
Eu queria poder dizer isso sem medo de ser atacada no ato. Eu não sei se eu posso confiar em qualquer um deles.
Esmurrei o braço de James em um reflexo e por algum motivo ele entendeu que eu não podia falar sobre o assunto. Seus olhos procuraram no meu alguma pista e eu quis petrificar todos naquela sala enquanto contava a ele todos os meus momentos de terror e o que minha mente tirava deles. Mas ele entendeu e mesmo que as pessoas nunca pensassem que ele pudesse contribuir com nada além de artimanhas, algumas pessoas até o escutaram enquanto ele tentava adivinhar o que eu diria se pudesse falar.
Quis agradecê-lo não apenas com os olhos como fiz durante a reunião.
– Obrigada. – Enlacei meus braços em volta de sua cintura e fiz questão de olhar para cima na ponta dos pés. – De verdade.
Ele pareceu desconsertado com o gesto, normalmente eu evito contato físico com seres humanos.
Tínhamos acabado de sair da reunião do “clube dos nove”, como James apelidara, e caminhávamos mais uma vez em direção às estufas. Percebi que seus olhos trabalhavam em algum tipo de comentário metido a engraçado quando praticamente escalei em direção ao seu pescoço e fechei minhas pernas em volta de seu dorso.
Era a segunda vez que encostava meus lábios aos dele.
A primeira vez não tinha sido o sonho de toda garota, fora mais como um plano emergencial mal planejado em uma situação que não pensei que aproveitaria de alguma forma. Nessa segunda vez quis saber se sentiríamos algo de fato. Queria sentir um tipo de urgência diferente, queria saber se me arrependeria por não ter dado qualquer tipo de chance as suas investidas dos últimos cinco anos.
Acredito que as pessoas não dão o devido valor a James. Ele era o cara arteiro de milhares de amigos populares, do tipo alto de cabelo castanho e rosto rosado pelo sol até no inverno, abordado por todas as garotas que não ligavam para seu visual padrão MTV. As minhas colegas – amigo é um termo forte – mal podiam crer no fato de que era a mim que ele queria: a baixinha, acima do peso palito-de-dente, padrão desenhos esquisitos do cartoon network. Talvez eu não acreditasse também, já que até onde eu sabia, eu era apenas uma brincadeira persistente de James.
Alguma coisa tinha mudado naquele dia em que estávamos correndo e não foi o fato de eu ter visto algo que ele estava tentando esconder e vice-versa. Algo que se parecia com a sensação de conforto que senti encolhida nos braços dele, algo que tinha a ver com os olhos castanhos preocupados e nas diversas tentativas de me proteger. Desde aquele dia, todos os dias quando saía das aulas que não fazíamos juntos ou dos clubes e treinos lá estava ele me esperando, casualmente lendo um livro, disfarçadamente conversando com alguém: sempre com um sorriso no rosto e uma preocupação latente nos olhos.
– Então você enfim percebeu que não dá para evitar tudo isso. – Apontou para si mesmo, enquanto me mantinha presa no colo dele. – Finalmente.
– Você sempre estraga as coisas falando. – Girei os olhos e ele me beijou novamente com medo que eu mudasse de ideia. Acho que eu tinha sentido o que eu precisava sentir, por isso não deixava que ele parasse muito tempo para procurar o tal do superestimado fôlego.
Ele tinha entendido o recado. Com as costas apoiadas na porta de uma das estufas perdi a conta do tempo em que estava naquela posição, enquanto meus dedos passeavam por uma infinidade de fios macios castanhos e a outra mão gelada, que se arrastava sob seu uniforme, em contato com sua pele quente o fazia sentir pequenos arrepios. Eu gostava de estar ali, no silêncio com ele, escutando apenas o ritmo acelerado de nossas respirações.
Quando ele afastou o rosto do meu, algum tempo depois, foi apenas para encarar meus olhos e sorrir. James era uma pessoa transparente, tinha toda uma performance que o destacava como o estereótipo dos filmes sobre ensino médio, mas olhando para seus olhos era possível ver do que ele era feito, os elementos que o constituíam. Em quase sete anos em que fomos amigos, ás vezes distantes e por vezes companhia um do outro em maratonas de estudo em que ele se mantinha estranhamente acordado por períodos de tempo não humanos, eu podia dizer que o conhecia superficialmente: ele era persuasivo de uma maneira irritante por mais que eu nunca tenha cedido até aquele momento, tão inteligente quanto qualquer pessoa de Corvinal, excedendo expectativas em quase todas as matérias – exceto poções – porém impaciente com pessoas que não conseguiam acompanhar seus planos mirabolantes e divagações. Gostava de dizer que sua inteligência era usada para o mal apenas, assim como sua extroversão tinha como única serventia e utilidade convir como atrativo na seleção de candidatos para sua seita.
No entanto, ali próxima de seus olhos eu podia ver a espontaneidade que me encaixaria em seu colo sem aviso, um tipo de segurança e companheirismo que eu achava que jamais encontraria nos olhos de outra pessoa além de Dean, o único amigo que eu tive.
Eu tinha milhares de perguntas a fazer e coisas para dizer, não sabia por onde começar.
– Eu tomo pílulas. – Ele falou de repente, depois de um tempo que deveria ser desconfortável encarando meus olhos. Suas mãos ainda estavam em minha cintura enquanto eu estava sentada em seu colo – Desde criança. O que faz minha mãe se sentir bem culpada até hoje.
– Como assim? – Foi a única coisa que consegui perguntar.
– Anfetaminas. – James desviou os olhos dos meus pela primeira vez. – Comecei com Ritalina por causa do déficit de atenção e hiperatividade, tinha nove anos e meus professores reclamavam de mim para os meus pais, que brigavam comigo dizendo que eu tinha que prestar mais atenção a aula. Eu me sentia mal, porque naquela escola que éramos obrigados a frequentar e aprender ciências, todos amavam meus irmãos e eu era a ovelha negra, que é algo que hoje em dia não me incomoda, mas quando eu tinha nove anos era um termo que me chateava.
Os olhos de James ficaram mais profundos enquanto suas memórias de infância vinham à tona.
– Perguntei uma vez ao meu pai o que significava ser ovelha negra e ele me disse que tinha a ver com ser renegado, alguém que era diferente, porém de jeito ruim. – Encolheu os ombros, minhas mãos estavam pressionadas neles. – Lembro que comecei a chorar enquanto Lily me chamava de ovelha negra “igual a Ms. Delaware da escola”. Quando eles descobriram que não era minha culpa não conseguir prestar atenção na aula e querer fazer tudo de maneira contrária e diferente porque não conseguia me manter quieto, eles se sentiram bem mal. Foi algo chato, porque além de ovelha negra eu me sentia incapaz. Defeituoso.
– Ter uma condição não é ser defeituoso. – Tentei ajudar.
– Ter um vício é. – Impediu que eu tentasse ajudar mais uma vez, emendando sua fala. – A primeira vez que eu tomei aqueles comprimidos, senti pouca diferença. Mas, em determinado momento meu cérebro começou a de fato funcionar: conseguia me concentrar e me sentia incrível. Eu não sentia vontade de dormir ou ficar olhando a janela enquanto batucava algum lápis na mesa e meus pés no chão. Eu me tornei a pessoa mais inteligente na sala e eles perguntavam as coisas para mim. A médica disse que TDAH não tinha cura, então eu teria que me adaptar a tomar remédios que aliviariam os sintomas por algumas horas, mas eu queria que meu cérebro funcionasse o tempo inteiro. Então, depois de eu fingir e garantir que o Ritalina não funcionava, mudaram minha medicação para um tipo de Ritalina de longa duração. Então eu vim para Hogwarts e me acostumei a tomar mais de uma pílula de vez, porque assim o cansaço bateria em algum momento, mas eu poderia empurrá-lo até que o momento fosse oportuno.
– E seus pais não notaram? – Perguntei, incrédula.
– Claro, mas eu aprendi a forjar receitas. Comprei frasquinhos a mais para que eles não percebessem que passava da minha dose. – James agora mantinha os olhos baixos. – Até o momento que tive uma taquicardia, perdi toda a cor do meu corpo e fui internado no quinto ano.
– Foi quando você passou três semanas no hospital. – Observei, recordando-me que a única pessoa que sabia o que tinha acontecido e não contaria para ninguém era Scorpius.
– Era ano dos N.O.Ms e eu estava exigindo de mim mesmo exceder expectativas em todas as matérias. Exagerei. Precisei ser desintoxicado e depois minha mãe me internou por duas semanas. – Ele me olhou surpreso. – Estou admirado que você se lembre.
– Eu também me importo com você. – Encolhi os ombros, sou péssima em demonstrações de afeto. Mas senti meu rosto queimando, por isso desviei o olhar. – E mesmo assim você continuou?
– Eu parei e depois só diminuí, ficar sem as pílulas me deixava clinicamente depressivo e minha mãe estava pensando em me internar novamente. – James falou, me puxando um pouco mais para cima dele. – Então voltei a minha dose normal, mas existe algo distorcido e subversivo no vício que te faz pensar “só dessa vez, não vai acontecer de novo”.
– Me lembro de quando você parou. – Minhas mãos estavam em volta do seu pescoço e meus dedos faziam espirais em seu cabelo. – Foi pouco depois de quando Dean morreu, foi quando você parou de dar em cima de mim por um mês e se sentou ao meu lado todos os dias apenas para comer, em silêncio.
– Eu só queria ficar perto de você. – Falou simplesmente, encostando os lábios nos meus.
Eu queria ter o que dizer, pedir para ele parar com as anfetaminas ou garantir que ele ficaria bem após o período de abstinência. Queria responder que estar ao lado dele em silêncio era o ponto alto do meu dia, mas só consegui aumentar a intensidade do beijo.
– Eu te contei meu maior segredo, você e Scorpius são as únicas pessoas que sabem. – Falou, enquanto me esquentava em seus braços. – Agora é sua vez.
Eu hesitei por longos minutos e olhei em volta. Me certifiquei de que minha varinha estava presa em meu tornozelo: varinhas com núcleo de dragão são as mais propícias a magia negra, porém as mais rápidas na execução de feitiços. São as mais poderosas. Eu confiava na minha varinha e, principalmente, confiava em James.
– Você não pode dizer isso nem mesmo a Scorpius. – Falei, com os lábios colados no ouvido dele.
E assim, como quem transferia parte de um peso enquanto tinha as costas acariciadas, dividi todos os meus medos e chorei as lágrimas há um tempo presas. Difícil era acreditar que aquele era apenas o primeiro dia que eu tinha beijado o rapaz e agora estava chorando em seus braços, entretanto, a maneira que ele soprava os cachos do meu cabelo para me tranquilizar me colocava em uma nova posição de conforto e segurança da qual não gostaria de me desfazer jamais.
Estava prestes a dizer o nome do meu suspeito número um quando James girou meu corpo com agilidade, tentava me defender de algo, mas o raio de luz me atingiu alguns segundos depois de atingi-lo. Eu senti como se espadas invisíveis estivessem me mutilando profundamente, o corpo de James já estava fraco por ter recebido a carga que era direcionada a mim e eu não tinha mais forças para gritar. Usou seu fiapo de voz para conjurar um patrono que acredito que pediria ajuda.
Aquilo era Sectumsempra e meu carrasco viera me buscar. Não eram mais ameaças que só amedrontavam: sangraríamos ali até morrermos. Tentei me lembrar do encantamento, enquanto segurava a varinha perto do peito de James e tentava cantar.
– Vulnera Sanentur... Vulnera Sanentur... Vulnera Sanent-
Enquanto me esforçava para terminar o terceiro sanentur, meus olhos se fecharam. Acho que ouvi vozes além da minha compreensão em algum lugar perto dali, mas minha mente já estava longe. Se eu morresse, queria que me vestissem em cetim. Queria entrar de branco no paraíso, se ele existir! Ou renascer numa criatura mágica em alguns anos.
Talvez James fosse o rapaz que me amaria para sempre, mas quem diria que o para sempre seria decepado por uma espada afiada invisível?
Eu não tive tempo suficiente.
Fale com o autor