Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=GemKqzILV4w Roxanne como imaginamos: http://cdn.wegotthiscovered.com/wp-content/uploads/tessathompson-666x360.jpg (Tessa Thompson)

– Roxanne -

I don’t quite know how to say

How I feel

Those three words are said too much

They’re not enough

If I lay here

If I just lay here

Would you lay with me and just forget the world?

Eu estava na torre de astronomia pensando em torta de caramelo e em Thula Baba, uma velha canção de ninar que minha avó Johnson costumava cantar para me fazer dormir. Nos últimos dois dias eu vinha recorrendo a qualquer coisa que me fizesse sentir algum fiapo ou vestígio de paz de espírito.

Parecia uma boa ideia, mas eu vinha falhando miseravelmente no objetivo. Por isso levei um susto ao ouvir barulho de passos se aproximando e ergui a varinha rente ao queixo, mesmo sabendo havia marcado de John me encontrar ali.

– Anne? — A voz familiar me desarmou e eu respirei fundo de alivio.

– John. Estou aqui.

– Desculpe o atraso. Alvo está fora de si. Acha que Isobel Dawson tem algo a ver com os ataques. Quer que ela seja retirada do grupo imediatamente. Até pediu a Hugo que a vigiasse quando estivesse na sala comunal da Lufa lufa.

Me esforcei para não torcer o rosto em uma careta. Toda aquela acusação me parecia prematura e desesperada. Não é como se eu confiasse em qualquer pessoa naquele grupo alem de John, mas nutria uma convicção pessoal de que nenhum de nós teria a frieza necessária para assassinar alguém, machucar gravemente outras duas pessoas e ainda ter o senso de espírito de parecer profundamente abalado como todos nós estávamos.

Eu havia conferido com Louis — cada dia mais atormentado — e ele me confessara que enviara 20 convites para a primeira reunião. Ele me passou a lista.

Kiera Kemp, Daisy Slater, Nathan Bentley, Imogen Graham, Lewis Pickering, Leo Hayes, Harley Walker, Toby Burrows Alexandra Connor, Liam Barnett e Barnaby O'Sullivan: para mim, esse devia ser nosso ponto de partida, ao invés de acusarmos uns aos outros.

– O que você acha? — Perguntei a John no meu tom mais diplomático.

– Alvo costuma ser sensato, mas temo que dessa vez ele esteja sendo mais emotivo do que racional.

Isso me fez soltar um riso nasalado e involuntário.

– O que foi? — John perguntou, subitamente na defensiva.

– Nada. — Me apressei em amenizar. — Só achei divertido o modo em que você deixou implícito que sensatez está diretamente relacionada a pessoas racionais e não emotivas.

– Eu não tinha a intenção de ofender você.

– E não ofende. — Respondi rápido. Rápido demais. O meu timbre passivo agressivo se tornou claro. John arqueou uma sobrancelha, ao passo que eu suspirei. — Me desculpe. Eu só estou cansada.

Ingram concordou e me puxou para um abraço. Aquilo não era de seu feitio, mas estava há anos luz a minha vontade de reclamar ou perguntar a razão do gesto. Me deixei afundar o rosto na curva de seu pescoço e fechei os olhos.

Minha pulsação desacelerou como se ele tivesse me aplicado morfina e eu pensei, não pela primeira vez, que John deveria ser meu namorado. Nós vínhamos trilhando um longo caminho indefinido e divertido, mas com os últimos acontecimentos, tudo o que eu precisava era coletar a maior quantidade de certezas que eu pudesse obter.

Acho que de certa forma John sentiu isso porque pousou uma mão vacilante no emaranhado de cachos que era o meu cabelo.

– Estou pensando em beijar você em algum momento dos próximos quinze segundos, então achei importante avisar para que não seja tão constrangedor caso você não queira.

Eu olhei para aquele cara branco e corado e senti vontade de rir, mas pensei melhor e apenas colei meus lábios nos dele.

Parecia quase errado me sentir repentinamente tão bem. Eu poderia passar o fim de tarde e a noite inteira beijando-o sem jamais me cansar. John Ingram era a única pessoa em Hogwarts que tinha assinado a lista para ser meu assessor em estudos avançados de Astronomia, ainda no terceiro ano. Desde então nós passamos a maior parte do nosso tempo juntos. Não é difícil deduzir como chegamos aqui. Todas as horas que dedicamos um ao outro durante esses anos me fez conhecer e entender as diversas nuances desse menino órfão, cauteloso, analítico e extremamente cuidadoso. Me fez decorar os horários que ele precisava injetar insulina em seu corpo diabético para controlar a taxa de açúcar. Me fez conhecer seus silêncios. Em contrapartida, John também descobriu coisas sobre mim. Ele descobriu que eu me sinto deslocada perto da minha família Weasley (majoritariamente branca, majoritariamente ruiva). Que eu sinto falta da minha avó Johnson todos os dias desde a sua morte no ano retrasado. Que eu odeio quando decido trançar o cabelo e a pessoa que me atende tenta me convencer a usar um numero maior ou menor do que eu uso habitualmente. Ele sabe que quando estou de férias escrevo um blog sobre questões raciais. E que às vezes eu puxo assuntos aleatórios com as pessoas só para saber as opiniões que elas tem a respeito de determinadas coisas para que eu possa dissertar a respeito no blog. Ele sabe que eu amo meus primos, mas que eu guardei – e lembro exatamente – de todos os comentários que, ainda que soltos inocentemente, e em idades realmente tenras, fizeram parecer com que o meu nariz de bolinha ou o meu cabelo engraçado ou o meu tom de pele canela eram diferentes de um jeito que não soava de uma maneira positiva. Ele sabe o quanto eu odeio eufemismos e quanto eu gostaria que as pessoas não se sentissem desconfortáveis quando estão falando sobre o meu tom de pele.

John incentivava minha militância e embora soubesse que o preconceito étnico-racial fosse menos evidente no mundo bruxo do que no mundo trouxa (a questão do sangue foi e é um problema de maior proporção) ele nunca me dizia coisas como “você está exagerando”, “isso não existe” ou “isso é racismo inverso”. Nós concordávamos sobre quase tudo e quando John levantava alguma questão em que tínhamos ideias divergentes, apresentava argumentos razoáveis e livres de reproduções pré concebidas de maneira mal cuidada.

Acho que o que estou tentando ilustrar é quão fácil para mim é amar Ingram, mesmo que venhamos de realidades diferentes e mesmo que ele tenha detestado batatas fritas com ketchup, que é de longe o meu prato preferido na vida.

– Nós deveríamos fazer isso mais vezes. — Ele disse depois que nos separamos. Isso me fez sorrir. Não que fosse muito difícil sorrir naquele momento. Talvez eu fizesse isso mesmo se ele tivesse dito que era um dalek ou coisa assim.

– É uma ideia. — Fingi um tom despretensioso, só por brincadeira. Nós dois rimos e nos apoiamos na mureta de proteção. Ela era relativamente nova. Tinha sido implementada após a reconstrução de Hogwarts, que por sua vez acontecera depois da batalha no castelo. Eu sempre me perguntava se essa era uma medida de proteçãopara evitar que outros diretores lendários fossem jogados dali. Independente da resposta, pensar nisso sempre me causava arrepios. Agora que um amigo pessoal conhecera a morte da mesma maneira, isso parecia ganhar maior proporção.

Eu olhei para baixo e senti vertigem.

– John, será que nós podemos nos deitar um pouco? — Pedi e ele concordou, solicito.

Esse era um de nossos hábitos muito antes de eu começar a desenvolver essa minha iminente fobia de altura: a gente se deitava com as costas apoiadas no chão e os braços cruzados atrás da nuca, formando um travesseiro improvisado e natural. Catalogávamos estrelas e discutíamos por horas sobre as constelações e seus nomes. Perdíamos um bocado de tempo apenas divagando sobre a história da humanidade e em como isso refletia na maneira como nós entendemos o céu – esse pedaço visível de abismo infinito — e o universo, mas não dessa vez.

Dessa vez a gente só ficou quietinho, em silencio, absorvendo tudo o que tinha acontecido até então. Eu me sentia de luto por Ethan, entristecida pelo que tinha acontecido à James e Abbie, enfurecida por ambos os eventos e, ao mesmo tempo, amedrontada pelo que poderia acontecer. Mas ali com John, confesso que todas essas coisas me fugiam a mente de maneira quase tão rápida quanto surgiam. Eu me senti segura, e ainda que eu tivesse consciência de que esse era um estado de espírito temporário, aproveitei dele e esqueci o mundo pelos minutos que nos foram permitidos antes de sermos interrompidos por Rose.

– Me desculpem. — Ela pediu, mais por educação do que por outra coisa.

– Tudo bem. — John e eu nos levantamos prontamente.

– Rox, eu só queria saber se você já tem alguma pista sobre aquela planta. Achei melhor te procurar pessoalmente do que marcar uma reunião só para perguntar isso. — Explicou-se.

Eu assenti com a cabeça, ajeitando o meu cachecol com estampa de estrelas.

– Eu ainda estou trabalhando nisso. — Os olhos dela apresentaram certo tipo de descrença e por um segundo me arrependi de estar ali com John ao invés de estar analisando novamente os livros de Herbologia da biblioteca. — Enviei uma carta à mamãe. Há dois exemplares raros que não consegui encontrar no acervo da escola acessível aos alunos. Ela prometeu me enviar ainda essa semana.

Rose assentiu com a cabeça, trocando o peso do corpo de um pé para o outro.

– Tem algo em uma das formulas de Ethan. Algo que eu não consigo identificar. Pensei que pode ter relação com a planta que estamos procurando. Uma substancia típica dela ou coisa parecida.

– É possível. — Respondi de maneira vaga. Embora ela estivesse com o rosto tranquilo, eu fazia uma ideia de quão agitada ela estava por dentro. James, ela e Scorpius eram inseparáveis. Além disso, havia uma ideia no imaginário coletivo – implementada e sustentada pelo próprio James – de que ele era imbatível. Perceber que isso não era real, era um choque mesmo para mim que não tinha muito contato com ele em outros lugares além das reuniões familiares na Toca.

Movida pela lembrança dos nossos natais em família e um repentino espírito de fraternidade, pus uma das mãos em seu ombro.

– Vou entrar em contato com você tão cedo quanto for possível. Prometo.

– Obrigada. — Ela murmurou. — Isso significa muito.

Eu encolhi os ombros.

– Você quer que a gente te acompanhe no caminho de volta? – John se prontificou. Rose pareceu desconcertada com a atitude gentil, porque desviou o olhar por um instante.

– Não, não precisa. – Mas estava claro que precisava.

– Nós já estávamos indo embora de qualquer maneira. – Eu avisei e nós três começamos a nos mover em silencio.

A falsa ideia de segurança de andar em grupo era reconfortante. Nós não precisávamos dizer um para o outro, mas era claro, ao menos para mim, que a possibilidade de alguém decidir nos atacar diminuía. Éramos três pares de olhos atentos e ligeiros. Alem do mais, eu tinha a impressão de que quem quer que fosse o responsável por todas essas atrocidades ia precisar de um tempo de recesso em maldições loucas depois de ter atacado o filho do auror mais famoso da Grã-Bretanha. A escola estava abrindo uma investigação à parte para descobrir quem era o responsável pela violência sofrida por Abigail Jones e James. Os boatos que corriam era que tio Harry havia dado um prazo limite de três semanas para a apuração dos fatos. Se até então ele não houvesse resultados conclusivos, ele mesmo se encarregaria do caso.

Eu ainda não tinha contado a ninguém, nem mesmo a John, mas vinha meditando que se nós mesmos não descobríssemos que raios estava acontecendo nessa mesma quantidade de tempo, eu não hesitaria em contar para ele e tio Ron tudo o que tínhamos descoberto, mesmo correndo o risco de escutar o pior esporro da minha vida e ser odiada pelos meus colegas do grupo.

Depois de deixarmos Rose nas masmorras, John e eu fizemos todo o caminho até o quadro da Mulher Gorda de mãos dadas. Isso era algo novo, mas parecia tão natural que não soou como se fosse inédito.

– Você não enviou carta nenhuma a Sra. Weasley, não é? – Ele perguntou baixinho, antes de adentrarmos a sala comunal.

– Não. – Confirmei. – Se eu tivesse feito isso, mamãe com certeza iria querer saber por que eu preciso tanto de dois livros específicos de Herbologia. Alem do mais, mesmo na hipótese improvável em que ela não fizesse isso, o tempo de demora até ela me enviar os exemplares seria muito grande.

– No que você está pensando então?

– Em colocar Al para fazer alguma coisa alem de perseguir uma pobre garota da lufa lufa.

John me analisou, ainda sem compreender.

– Os livros que procuro com toda certeza existem em Hogwarts. Só não estão disponíveis para a gente.

– Alvo tem a capa... – Ele começou, esboçando um sorriso.

– ...E eu sou brilhante. – Completei, piscando.

Rose não precisava saber como eu adquiriria os livros, só precisava saber que eu os teria. Em casos normais, não haveria motivo para a mentira, mas esse não era um caso normal. Ela já estava preocupada demais com outras questões para se envolver nessa. Alem do mais, Rose é conhecida por sua mania de controle. Ela tem tiques nervosos se não sentir que está ao menos parcialmente no comando. Eu não costumo ter problemas com isso e trabalho bem em equipe, mas, como eu já disse antes, essa era uma situação extraordinária.

Nela, nada era como deveria ser.