Na terceira investida, ele abraçou a ideia da morte. Seus dedos cederam no umbral da janela e ele sentiu o medo e o frio enrijecendo seus músculos, entrelaçando-se por entre suas entranhas, atrofiando-o de pânico diante daquela noite bonita e límpida. Havia poucas estrelas e o céu nunca lhe parecera tão infinito.

Um grito estrangulado ficou suspenso em sua garganta. Ele sabia que não adiantaria pedir por socorro: nenhum de seus colegas de quarto acordaria. Sua única ação voluntária era decidir se sua ultima visão seria ou não o rosto de seu assassino.

Esse remanescente gesto de liberdade lhe fez sorrir e fechar os olhos. Cristais de neve lhe acariciaram as pálpebras e houve algo de reconfortante nisso.

Quando ele finalmente foi arremessado da janela, a queda pareceu durar uma eternidade e ele a viveu intensamente com a lembrança e o coração na pessoa mais importante de sua curta vida.

Seu ultimo pensamento foi dedicado aos olhos claros que o faziam recordar de céus primaveris e literatura clássica. Os olhos que tinham transformado sua vida em poesia.

No fim, aquilo parecia o suficiente.

Dali a algumas horas, uma corrente fria faria com que as cortinas esvoaçassem e seus colegas de quarto acordassem. Talvez Ethan sentisse certo consolo em saber que pelo menos dois deles se lembrariam dele ao longo de todas suas duradouras vidas. E que esses mesmos colegas não aceitariam tão facilmente a ideia de suicídio, que seria o atestado de óbito declarado em algum momento do novo dia que ele jamais veria.