Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=HaMq2nn5ac0 Louis como imaginamos: https://41.media.tumblr.com/40a1d79d4bc2e07078f89da38305d77f/tumblr_nn4e3338SM1su41dwo1_500.jpg

– Louis -

Can I lay by your side

Next to you…

And make sure you’re alright

I’ll take care of you

And I don’t want to be here

If I can’t be if you tonight

Respirar parecia estúpido. Ainda assim eu continuava fazendo isso, e numa velocidade surpreendente, quase como um asmático, desde que James me entregara a carta original. Ele desfez os feitiços, me explicou porque era uma carta forjada e, ao notar meu rosto petrificado, chegou a perguntar umas cinco vezes, só por garantia, se eu estava entendendo tudo.

Eu disse que sim e me retirei. Só depois pensei que não tinha agradecido. Normalmente eu não sei como me portar perto dos meus primos, em especial perto de James e Fred. Eles exalam a coisas heteronormativas, ainda que inconscientemente. Há um buraco negro de distancia entre as coisas pelas quais eu nutro afinidade e as coisas pelas quais eles nutrem. É sempre um esforço enorme manter uma conversa agradável ou interessante. Nós simplesmente não somos parecidos. Perto deles eu me retraio e prefiro ficar sozinho. Numa situação de merda como essa agora, eu apenas entro em disfunção completa.

Não que ser educado com familiares ou com qualquer pessoa seja meu principal objetivo no momento. E não que eu saiba qual é o meu principal objetivo, de um modo geral. Conseguir normalizar a minha respiração, estabilizar meus nervos ou dormir por malditos dez segundos parecem boas, mas inviáveis opções.

Não há nada que eu possa fazer.

Não há nenhuma maldita coisa para aplacar minha convulsão emocional. Estou chafurdando na lama do ressentimento, da culpa, da tristeza e do desespero. Eu deveria estar com Ethan. Eu deveria tê-lo protegido de algum modo. Eu deveria ter morrido no lugar dele.

Não.

Eu deveria ter morrido com ele. Aos 90 anos. Sentados no banco de um jardim ridículo que ele me convenceria a cuidar. Rindo de algo banal, felizes, plenos, depois de termos tempo, tempo de sobra, tempo para eu me resolver com os meus demônios pessoais, tempo para viajar o mundo, tempo para fazer as coisas certas.

– Louis? – Howard, meu colega de quarto e também monitor da Corvinal, me chamou, incerto se deveria fazer isso ou não.

Eu guardei a carta no bolso com cuidado. Aquela era a minha certeza. A minha expiação. Uma ultima coisa a fazer por Ethan.

– Sim?

– As carruagens já estão prontas. Professor Longbottom pediu para que todos os alunos que quiserem comparecer a cerimônia fúnebre se disponham na escadaria principal. Estamos partindo em quinze minutos.

– Estarei lá. – Minha voz parecia seca enquanto eu mexia na abotoadura do meu sobretudo só para não ter que encarar Howard. Todos os meus segredos, tudo que eu sempre me esforçara para manter privado parecia estar ruindo, um por um, à medida que minha dor se tornava cada vez mais óbvia, cada vez maior.

– Está bem. – Ele disse e saiu apressado do quarto. Nos últimos dois dias, isso vinha acontecendo com frequência. Howard, Mahmood e Tucker fingiam não me ouvir chorar a noite e se esforçavam para que suas saídas repentinas toda vez que eu chegava fossem casuais e aleatórias.

Eu não os culpava.

Uma vez sozinho novamente, encarei a janela do meu quarto. Do lado de fora, a neve caia e o vento uivava um lamento triste. Eu me imaginei subindo na minha cama, me apoiando no umbral, caindo. Cessando aquele inferno no qual eu estava inserido. Rasgando o tecido frágil da realidade, partindo para outra coisa. Uma outra coisa onde Ethan estaria. Onde ele poderia me perdoar por ser um idiota.

Ao invés disso, eu me dirigi à porta e em seguida à escadaria.

Eu era um covarde. E assim como em todas as outras coisas sobre a minha vida, não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.

Me postei rígido na fila com os outros alunos, muitos dos quais nunca tinham trocado uma palavra com Ethan na vida. Muitos que não sabiam que ele era alucinado por tablets de nugá, que quando ele sorria ele brilhava mais do que Paris inteira ou que ele seria um excelente medibruxo se tivesse tido a oportunidade.

Mas eu também não os culpava.

Eu só culpava a mim e a pessoa que, deliberadamente, havia empurrado-o daquela janela, destruindo Ethan e destruindo meu futuro. Eu mal podia esperar para encontrá-lo e arrastá-lo para o inferno comigo.

Um braço se entrelaçou ao meu e me puxou de volta para a realidade.

Eu observei Isobel Dawson, primeiro com surpresa, depois com petulância, mas por fim com gratidão. Ela era a melhor amiga de Ethan. Se alguém em Hogwarts tinha alguma mísera noção de como eu estava me sentindo, essa pessoa era Isobel Amelia Dawson.

Ela sustentou meu olhar e nós não dissemos nada um ao outro.

Não precisávamos.

Fizemos a viagem de carruagem juntos com mais dois alunos dos quais não me recordo sequer a fisionomia. Dawson não soltou meu braço em nenhum instante. Se isso havia me incomodado a principio, se tornou diferente em pouco tempo. Eu sentia um princípio de desespero só de pensar que ela poderia me soltar quando chegássemos ao cemitério. Se ela fizesse isso, eu estaria perdido. Eu desmoronaria em pedaços. Eu não conseguiria me manter em pé.

Quando chegamos ao local onde Ethan seria enterrado, estaquei no banco. Isobel não demonstrou impaciência e nem ficou desesperada quando minha respiração começou a desregular novamente. Ela tirou do bolso um tablete de nugá e partiu-o em dois.

– Você bota debaixo da língua e o mantém. O chocolate vai dissolvendo sozinho. – Aconselhou. – Ajuda um pouco.

Eu concordei, obedecendo. Ela abriu a porta da carruagem e me estendeu a mão novamente, a qual eu peguei, tremulo e incerto.

– Trouxe para Ethan. – Ela me contou como se fosse um segredo. – Mas acho que ele não se importaria muito em repartir com a gente.

Eu concordei, pensando em como Ethan tinha insistido para que eu conhecesse Dawson. Ele queria desesperadamente poder contar para ela sobre nós dois, me exibir para ela, fazer com que as duas pessoas com quem ele mais convivia se dessem bem e trocassem elogios sobre ele.

Havia uma pontada de alivio em saber que, apesar de tudo, no fim as coisas sempre saiam exatamente como ele gostaria.

Nós caminhamos pela neve até o lugar onde as pessoas começavam a se aglomerar. Pouco a pouco, as pessoas foram conjurando pequenos círculos de luz flutuantes em homenagem a Ethan. Izzie se moveu ao meu lado, desconfortável.

– Tudo bem? – Eu perguntei.

– Eu só... Gostaria de participar.

– Você esqueceu sua varinha?

Ela concordou com a cabeça, envergonhada.

Eu tirei a minha do bolso e nós a erguemos juntos.

Foi bonito ver as luzes flutuantes que não cediam à nevasca e a escuridão do céu. Havia algo de extremamente poético e absolutamente triste na cena e eu não pude evitar as lágrimas grossas e gordas que rolaram pelo meu rosto pálido. Os pais de Ethan pareciam desconsolados. George, seu irmãozinho de dois anos, não parecia entender muito bem o que estava acontecendo, mas estava encantado com as luzes.

Havia certo consolo nisso. Ethan teria gostado de vê-lo sorrindo seus sorrisos de golfinho, de quem ainda não tem noção de quanto o mundo pode ser um lugar horrível e sem propósito.

Encarei-os tanto que, em determinado momento, me sobressaltei ao notar que a Sra. Morrison acenava. Precisei de segundos inteiros para entender que o gesto era para Isobel. Minha mão, ávida para retornar o aceno, voltou ao meu bolso, ressentida.

Uma apatia infinita tomou conta de mim nesse instante. Os pais de Ethan não me conheciam. Eles nunca iriam me conhecer. Não do jeito como eu gostaria. Não como namorado de Ethan.

Olhei para Isobel e quis contar tudo. Quis contar como ele costumava flertar comigo daquele jeito ácido de quem sabia mais de mim do que eu mesmo. De como nós nos esbarrávamos nos corredores e Ethan me olhava sem pudor, me despindo com os olhos, se entranhando e espiando pedaços da minha alma. De como ele havia me roubado um beijo entre as pilastras do corredor sul do terceiro andar e também de como, desde então, eu não conseguira passar um dia sequer sem tocar os lábios nos dele, sem revirar os olhos quando ele falava sobre poções ou sobre como ele insistia para que eu recitasse poesias de Arthur Rimbaud em francês, mesmo sem entender uma palavra da língua. Queria contar como eu nunca utilizara o francês para fazer outra coisa alem de conversar com mamãe ou xingar Dominique na frente dos nossos avós paternos, e como esse novo utensílio da língua parecia lindo quando eu via os olhos brilhantes dele, sua atenção aguçada, os cotovelos apoiados na mesa, a cabeça pendendo nas mãos, o rosto sereno, o sorriso bobo...

Existia uma infinidade de fragmentos e de memórias de Ethan que precisavam ser guardados, compartilhados, perpetuados. Eu tinha medo de não conseguir mantê-los, medo de que eles fossem escorrer pelos meus dedos, medo de entender que uma hora só sobraria eu e então eu teria que me enfrentar.

Não terei mais desejos: perdi a vida em gracejos. Tomou-me corpo e alento e dispersou meus pensamentos. Ó estações, ó castelos. Quando tu partires, enfim, nada restará em mim. Ó estações, ó castelos... – Murmurei, sentindo pela primeira vez que entendia poesia como Ethan fazia.

Do meu lado, Izzie me lançou um olhar de quem reconhecia a citação e o autor. Eu sabia que isso era feito de Ethan. Quase podia imaginá-lo enchendo o saco da melhor amiga com poesias e citações das quais só ele gostava.

Isso me fez sorrir pela primeira vez desde sua morte.

Talvez o açúcar no sangue ajudasse um pouco também.

Quando tudo acabou e nós voltamos para Hogwarts, eu finalmente tive coragem de começar a responder a carta que minha irmã havia me enviado no dia anterior. Vic queria que eu passasse um tempo com ela e Ted em sua nova casa na França. Eu olhei com carinho a foto que ela me mandou em frente à casa, onde ela e o namorado acenavam de uma maneira simpática. Na borda, um endereço: 31, Place de la Gare.

Vic achava que, devido aos acontecimentos (ela vinha tentando evitar coisas mais especificas como “morte prematura do seu primeiro namorado”) seria uma boa ideia que eu fosse ficar com ela, ao menos até o meu aniversário, no dia 23 de Janeiro. Ela estava certa de que poderia convencer mamãe a me dar essa trégua inventando alguma doença. Segundo ela, três semanas não me faria perder muita coisa na escola e eu poderia acompanhar de perto o inicio de sua gestação.

Era bem tentador e comovente – Victoire e eu sempre tivemos uma relação ótima e eu me via com saudades dela constantemente – mas eu não queria estragar o momento feliz dela com meu humor inexistente. Era importante me manter distante e saber que ela continuava bem e saudável. Melhor do que estar perto e contagiá-la com sentimentos ruins e preocupação. Alem do mais, havia o grupo.

Confesso que não tenho a menor ideia do que estava fazendo quando convidei todos os amigos de Ethan – ao menos os que eu tinha consciência – para se juntarem a mim numa missão aparentemente tola. Tinha mais a ver com o ato desesperado de uma pessoa a beira de um colapso nervoso do que com real certeza de que nove alunos do sexto e do sétimo ano conseguiriam resolver um suposto assassinato.

No fundo, talvez eu só quisesse ter alguém para conversar, um grupo no qual me apoiar, um lugar onde eu poderia falar de Ethan sem olhares esquisitos. Mas então James surgiu sendo irritante e nos oferecendo a chance de uma prova concreta. Não havia como negar aquela oferta. E em seguida, quando que ele cumpriu o trato e me entregou o que eu precisava, eu soube que não poderia parar, que não poderia ir a lugar algum enquanto não encontrasse o responsável pela morte de Ethan.

Não mencionei isso na carta-resposta para Vic, mas disse a ela que tinha coisas para resolver no castelo e que não queria que ela se preocupasse com nada alem do bebê. Também não mencionei minhas suspeitas, não disse nada sobre a carta forjada e sequer fiz referencias ao novo grupo estudantil.

Queria que minha irmã tivesse paz.

Pensando nisso, me senti brevemente satisfeito comigo mesmo. Diferente da carta anterior, as letras não haviam saído tão tremulas dessa vez e lendo-a mentalmente eu achei que tinha feito um bom trabalho soando como uma pessoa que diz “não se preocupe” e “vai ficar tudo bem” quando eu não acreditava em nenhuma dessas coisas. Com um suspiro, tampei o tinteiro, guardei minha pena, enrolei o pergaminho e selei a carta antes que desistisse e jogasse tudo fora.

Encarei o teto adornado de estrelas do salão. Poucas coisas me pareciam mais bonitas do que a sala comunal da Corvinal. Os tons de azul das cortinas, do teto e dos adornos transmitiam uma falsa sensação de calma. Era como ver o mar. Meus olhos irrequietos há quarenta e oito horas começaram a apresentar sinais de cansaço iminente. Uma profunda letargia tomou conta do meu corpo e eu soube que não duraria por muito mais tempo acordado. Afastando a cadeira de espaldar alto da escrivaninha de mogno, eu exercitei os músculos tensos do pescoço e encarei a vista parcial do lago congelado.

Eu não notei o vulto a principio. Meu cérebro estava se desligando aos poucos, meus reflexos não poderiam estar em pior estado. Mas, uma vez que o vi, senti minha pulsação acelerar. A adrenalina fez com meus olhos se fixassem naquela imagem: alguém, com uma capa preta, parecia me encarar lá em baixo. Eu me inclinei para o vidro, a fim de me certificar que não estava alucinando.

De fato havia alguém.

E a sua presença ali era uma clara provocação para mim.