Borderline
9 Dúvidas
Notas iniciais
Já era outubro, época de Halloween,eu adorava, mas não gostava de festas ou qualquer coisa parecida.
—O que quer fazer para o Halloween Sany? – Rach me perguntou enquanto estávamos no sofá assistindo desenhos, eu como sempre em seu colo.
—Adoraria sair na rua pedindo doces, mas como não tenho mais idade prefiro assistir filmes de terror e dar doces para as crianças.
— Quer convidar os seus amigos?
—Não! – Falei e ela assentiu. – Desculpa, eu sei que gosta que eu interaja mais com as pessoas, crie mais vínculos, mas sinceramente Rach? Você sabe que eu não consigo, eu sou antissocial, lembra?
—Sim, eu sei. Mas ainda assim Sany, fico triste que você simplesmente se afunda no diagnóstico e não tenta superar ele – Coloquei a mão na boca e comecei a sugar. – Tudo bem Sany, não insistirei – acariciou minha mão e não insistiu no assunto. Ela sabia que aquela mania era um sinal para não insistir Rachel sempre sabe reconhecer todas as minhas manias, todos meus sinais. Ela é a única pessoa que me compreende por completo
—Eu não vou fazer a aplicação para a faculdade.
—Porque bebê, ainda falta um ano?
—Porque eu não me sinto preparada, não acho que eu seja capaz.
—Sany, tem uma diferença enorme entre estar despreparada e ser incapaz, incapaz tu não é, tu é muito inteligente, nunca teve problema com notas, nunca precisou repetir de ano, isso não é motivo.
—Sim, o que eu quero dizer é que eu não sou capaz de aguentar tanta responsabilidade, tem classes especiais, ótimo, mas Rae, eu não consigo lidar com pressão, eu não suporto cobranças, então prefiro ficar quieta no meu canto.
—Certo, se é o que quer, eu vou te apoiar, mas não vou permitir que você fique parada, não vou permitir que fique dentro de casa ociosa.
—O que você sugere?
—Cursos, não digo cursos muito longos, mas cursinhos só pra não ficar com a cabeça vazia.
—Tudo bem, eu concordo. – Rachel podia não ser oficialmente minha mãe ou mesmo psiquiatra contudo, ela agia como se fosse, ela sempre foi assim comigo.
—Desculpa se eu sou chata Sany, mas eu só quero que ...
—Eu fique bem, e sabe o que é melhor para mim quando eu não sei. – Voltei a sugar minha mão.
—Desculpa. – Ela falou me acariciando o rosto.
Ficamos mais um tempo no sofá, não aguentava mais ficar em casa assim como Rach, sua perna sempre balança quando está ansiosa.
—Não aguento mais ficar em casa.
—Graças a deus. – Sorriu para mim.
—Topa dar uma volta no shopping?
—Certeza?
—Sim, preciso de algumas roupas.
—Que tipo, cueca?
—É, Rach, eu antes queria conversar sobre uma coisa com você.
—Claro Sany, o que quiser.
—Promete que não vai me entender mal ou pensar em me internar antes que eu termine a conversa? – Suguei minha mão ansiosa.
—Sany, eu sou tua irmã mais velha, eu jamais te julgarei.
—Certo – puxei o ar, suguei minha mão mais um pouco , tirei a mão da boca, fechei os olhos e soltei. – As vezes eu não sei a que gênero eu pertenço.
—Isso é incomum, mas acho que é bem razoável.
—Como assim?
—Sany, você é intersexual, tem um corpo feminino e ao mesmo tempo tem os genitais masculinos, os dois completamente desenvolvidos então acho sim compreensível você não estar completamente certa de qual gênero você pertence. Não é como o transexual que não se reconhece no gênero em que nasceu, você tem os dois gêneros, compreende?
—Sim, eu acho. Você ficaria chateada se eu vestisse roupas masculinas de vez em quando?
—Se você se sentir bem com ela mi amor, não vejo problema algum. Algum alterego para esse momento?
—Não, eu gosto do meu nome, e acho que ele é unissex. – Sorri.
—Você quer aproveitar nosso passeio hoje para comprar roupas masculinas?
—É! — Suguei a mão novamente.
—Não precisa ficar nervosa, eu não me importo, compraremos o que você se sentir confortável, tudo bem?
—Uhum.
Seguimos para o shopping na picape, iria contribuir com novidades para o meu guarda-roupa, nos divertimos nas lojas masculinas escolhendo, ate a Rach acabou entrando na brincadeira e escolheu algumas, não levou, claro, apenas experimentou, eu sabia que ela não queria que me sentisse mal com aquela situação. Comprei algumas camisas, gravatas, calças, camisetas e ate um sapato que havia gostado, depois fomos para as lojas de roupas femininas e lingerie, precisava renovar minha gaveta de cuecas e sutiãs, assim como a Rach as de calcinhas.
Depois de um lanche e cinema, eu estava muito bem, fomos para casa arrumar as compras nos lugares.
Estava pendurando uma camisa quando percebi uma coisa que não percebera antes. Larguei a camisa em cima da cama, corri para o quarto de Rachel e sentei na cama dela e caí no choro.
—Sany, Cariño. – Me chamou, ignorei. – Santana o que te passa? – Perguntou mais firme.
Comecei a coçar meu braço enquanto chorava descontroladamente. Rachel apenas me abraçou ate que eu começasse a me acalmar.
—¿Pequeña, o que hay con usted mi amor?
—Yo nunca podaré vestirme con una camisa y una corbata aquí en Lima. – Solucei nos braços da minha irmã. – Nunca se no quisiera luchar en la calle.
—Usted podría vestirse así se quisiere en una cantina en la ciudad de Columbus.
—Yo no vivo en la ciudad de Columbus Rae.
—Yo lo sé pequeña, pero se no quieres te mostrar en nuestra ciudad tienes que buscar otras opciones, cariño.
—Es una mierda vivir así. – Gritei. – Es una grande mierda no ser normal, no vivir como una persona normal.
—Yo lo sé mi pequeña, pero tienes que entender que no siempre han cumplido tus deseos, no siempre tera facilidades. Tera que luchar mucho para ser acepta en lo medio que vives. No siempre su vida será fácil, pero en vez de lamentar, podríamos no complicar-la apenas un poquito.
—Gracias hermana. Yo no sé o que sería mi vida sin usted.
—Una verdadera mierda, un verdadero tedio. – Sorriu para mim me fazendo sorrir também
—¡Vero! Yo tendría una vida desgraciada sin usted.
—Mais calma? – Perguntou em inglês, eu não estava, a ignorei. – O que necesitas mi amor?
—No sé — Puxei minha mão das costas da minha irmã e comecei a mastigar. – Sany, yo no quiero tener de amarrar-te. – Tentou tirar minha mão boca, delicadamente, não permiti. – Sany, porfavor, no quiero usar lá restriccíon cariño, no te cause daños porfavor. – Eu não consegui mais assimilar as palavras, apenas via a boca da minha irmã se mexendo. Senti quando ela me levou para o quarto, me deitou na cama, colocou minhas roupas novas no armário, me vestiu com um pijama e cantou para mim, não vi mais nada depois daquilo.
Rachel
Levantei-me no domingo de manhã, levantei porque não havia dormido, Santana dormiu com aquela maldita mão na boca, não consegui soltar por nada, meus pais vieram nos ver e viram Santana dormindo daquele jeito.
—O que aconteceu? Um surto?
—Não sei bem, ela estava bem. – Contei sobre o que ocorrera durante a tarde – E depois disso caiu no choro porque não poderia usar as roupas novas em Lima, então colocou a mão na boca e caiu no sono, não conseguir soltar por nada.
—Bom isso faz parte do transtorno dela. Teria que usar algum artifício para fazer com que ela não mastigue a mão.
—Bom, tem mordedores.
—Sim, tem mordedores, mas não acho que resolveria.
—Não custa tentar. – Senti ela começar a acordar. Estávamos sentados no sofá da sala eu levei Santana ainda adormecida no meu colo. – Sany – Ela me encarou, os olhos estavam tristes. – Consegue tirar a mão da boca? – Ela negou. – Quem sabe nós trocamos a mão por um doce? – Negou novmente. – Querida, precisa parar com isso, mi amor, está te machucando. Usted paso la noche así. Tienta solo un poquito ¿Que tal? – Pedi em espanhol talvez ela aceitasse. – ¿Puedes hacer esto por mi? – Assentiu. Alcancei a mão dela, estava com uma marca feia. Meu pai correu no banheiro trouxe o necessário para fazer um curativo. – Ahora está mejor. – Sorri carinhosa. – No quieres hablar por hoy? – Negou. – Está bien pequeña.
—Você a mima muito – Leroy reclamou rindo
—Não é minha culpa – Suspirei. – És mi hermanita, no puedo evitar de estropearla — Sany sorriu para mim – Mismo que a veces es um error hacerlo. –Ela sorriu mais – Tienes hambre cariño? – Assentiu.
—Santana você precisa falar o que quer comer, precisa agir como uma pessoa da sua idade. – Hiran falou firme, os olhos da minha irmã marejaram e ela começou a sugar a mão que não estava machucada. – Fala sério, assim não da! – Reclamou.
—Papai, sério não força.
—Não força, Rachel? Você deixa ela fazer o que bem entende!Precisa agir mais como uma futura psiquiatra do que...
—Como irmã dela? Eu não sou a psiquiatra da Santana, eu sou irmã da Santana, então você não pode exigir que eu aja como psiquiatra dela, visto que segundo o livro de ética na medicina ou qualquer profissão na área da saúde eu não posso tratar uma pessoa da minha família, certo papai? – Virei para Leroy e perguntei irônica.
—Hei, não olhe para mim, não estou reclamando de nada aqui, mas sim concordo que você não pode agir como psiquiatra dela, mas sim que deve impor limites.
—Mas Rachel os impõe! – Santana falou surpreendendo a todos. – Ela só sabe respeitar os meus momentos, sabe o que eu preciso e a hora que eu preciso e aposto que eu não preciso dizer o que eu quero de café da manhã porque ela sabe! – Falou e voltou a sugar a mão como se nada tivesse acontecido.
—E o que ela quer de café da manhã? – Perguntou Hiran e sorri radiante.
—Panquecas com calda de chocolate e M&M’s por cima da última formando um rostinho feliz para ela se animar. – Santana virou o rosto para mim – Certo? – Assentiu com um sorriso nos lábios, o que fez com que escorresse um pouquinho de saliva. – Já venho, vou preparar teu café da manhã, certo? – Assentiu de novo.
Posicionei minha irmã, delicadamente no sofá e segui para a cozinha com Hiran bufando em meu pescoço.
—Rachel...
—Pare! Santana passou a vida toda sofrendo, dezessete anos de sofrimento, você não pode me impedir que eu de um pouco de alegria para ela, Santana não é feliz, entende isso? Ela sofre e não é só pela condição dela é também pelos problemas psiquiátricos que ela carrega, o mínimo que eu posso fazer é dar amor e carinho. Você acha que eu gosto de ver esse sofrimento da minha irmã? Acha que eu não preferia que ela agisse como uma pessoa da idade dela, que gostasse de ter amigos em casa, fazer festas, tivesse uma independência e um futuro certo? Claro que preferia, mas ela não pode ter nada disso, ela tenta, se esforça sim, mas em alguns momentos ela simplesmente não consegue.
—Você a trata como uma criança.
—O emocional dela é de uma criança, todos os testes pelos quais ela passou, todos os médicos, exames , comprovaram isso, a idade biológica e mental dela é de uma adolescente mas o comportamento é de uma criança, e isso não mudará, por mais que eu a estimule, contrate os melhores profissionais, ela continuará agindo emocionalmente como um bebê.
—Eu não consigo aceitar isso! – Falou frustrado e decepcionado.
—Não precisa aceitar, você não é pai dela, você é o tio dela, eu sou a irmã e para ela o que importa é que eu a aceite e a ame incondicionalmente.
—A Rachel tem razão Hiran, sabe disso – Leroy apareceu na cozinha nos surpreendendo.
—Santana ouviu tudo, não foi? – Sussurrei. Leroy assentiu. – Essa casa é muito pequena as vezes, falei chateada. Senti braços finos me abraçarem por trás enquanto colocava os ingredientes no liquidificador. – Sany? – Virei de frente para ela e acariciei seu rosto banhado de lágrimas. – Está tudo bem. Quer me ajudar? – Ela assentiu com um sorriso triste nos lábios. – Te quiero mucho pequeña. Sabes disso no? – Santana assentiu e escondeu o rosto no meu pescoço.
—Desculpa. – Sussurrou.
—Pelo que cariño?
—Não sei, só achei que precisava.
—Sany, é sobre a conversa que tive com meu pai, certo? – Assentiu – Sabes que no tengo problemas com la persona que es, mi pequeña. Eu te amo do jeito que é.
—Mas na maioria das vezes eu ajo com una niña.
—O que te torna extremamente fofa Santana – Papai falou carinhosamente. – Não de atenção para o Hiran, certo, você não precisa se importar com isso.
—Papai tem razão Sany, Eu amo ter a minha pequenina comigo, assim eu não preciso lembrar que você cresceu tanto. – Beijei sua bochecha. – Agora me deixa cozinhar ou essas panquecas só sairão no meio da tarde. – A guiei para a cadeira, ela sentou e rapidamente voltou a sugar a mão e eu a trabalhar.
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