Borderline

10 A enfermeira


Notas iniciais
Mais um pessoal

—Lopes, tira a droga da mão da boca e te concentra no... – E Katlin não pode concluir, a bola acertou em cheio o meu rosto.

Caí, veio o time inteiro para cima de mim, pela primeira vez não foi para gritar. Elas pareciam preocupadas.

—San, você está bem? – Marley me perguntou com dois dedos em frente ao meu rosto, sorri e assenti. – Quantos dedos tem aqui? – Perguntou.

—Veinte dós. – Brinquei. Ela riu, era uma das poucas meninas do vôlei que se aproximara depois da reunião com os estudantes. Ela não era má, apenas tímida.

—Ela está bem, fazendo piada ate. – Bufou. – Vou te levar na enfermaria para por gelo antes que fique inchado. – Sorriu e me ajudou a levantar. Saímos da quadra e fomos ate a sala da enfermaria conversando.

—Me diga, você já considerou o meu pedido?

—De entrar no coral?

—Sim, sua voz é linda e mágica, acho que você se sairia muito bem lá.

—Eu sei, eu só não sei se conseguiria enfrentar o público nas apresentações.

—Marley, você ate me ofende assim, se EU consigo, você consegue.

—Desculpa – Sorriu constrangida. – Tem razão.

—Só precisa de incentivo.

—Verdade. Como você está? – Ela não estava falando do olho.

—Melhor, eu acho, as crises diminuíram um pouco, todos têm me ajudado bastante.

—Isso é bom, eu gostaria de poder te ajudar mais San, você é uma pessoa legal, e desculpa se eu não me aproximei antes, eu só era tímida demais e você não é muito de dar abertura. Depois da reunião com os estudantes, eu encontrei uma oportunidade sabe?

—Eu sei não te preocupa, eu via você me olhando de longe, mas pensava besteira como sempre e fechava a cara.

—Imagino. – Chegamos na sala.

—Precisamos de gelo, uma bolada na cara. – Avisou para a enfermeira Penny, uma mulher bastante estranha na verdade.

—Ah, certo, precisa que eu chame a sua irmã, Santana?

—Não, tudo bem, não é como se eu fosse surtar por um olho roxo. – Rimos, o problema é que depois que souberam sobre mim todos começaram a me tratar como uma menininha frágil que pode ter uma crise a todo segundo. – Eu odeio que me tratem assim. – Sussurrei para Marley. – Como se eu pudesse quebrar a qualquer segundo por qualquer bobagem. – Coloquei minha mão na boca e comecei a sugar, pensativa. Marley sorriu, ela dizia que achava fofo.

—Eu imagino. San, você fica muito fofa sugando a mão, eu sei que já disse, mas é inevitável, da vontade de apertar. – Bati no seu braço levemente e ela gargalhou. – Não é minha culpa San, é fofo.

—O meu último tempo é o coral, vou te arrastar comigo, o que acha?

—Adoraria. – Sorriu.

Saímos da sala depois de vinte minutos e com um saco de gelo em mãos e seguimos para a sala do coral, já tinha alguns alunos.

—Levou um soco Lopes? – Kitty perguntou, ela estava mais próxima desde que eu voltara à escola.

—Bolada. – Marley respondeu visto que eu não tirara a mão da boca.

—Você quem é mesmo?

—Marley Rose, sou da equipe de vôlei junto com a San, ela me chamou para fazer parte do clube.

—Legal, precisa de audição, ela deve ter avisado.

—Sim, ela avisou.

—Bem vinda então – fomos para a última fileira e sentei em um canto.

O pessoal começou a entrar e sentar em seus lugares.

—Marley! – Britt a abraçou sorrindo. – A San finalmente te convenceu então? – Perguntou.

—É, eu vou tentar a audição.

—Legal, você vai conseguir, sua voz é linda. – Quinn avisou. – San o que houve com o olho?

—Bolada, me distraí.

—Ah, tudo bem.

Os treinadores começaram a chegar e tentar falar alguma coisa antes de eu levantar.

—Eu quero apresentar nossa nova integrante. – Avisei. – A Marley vai fazer a audição.

—Não acho boa ideia Santana já estamos com o time completo.– Orca Hudson tentou impor alguma autoridade, ele não ia com a minha cara, era mentira, nós tínhamos o mínimo de integrantes.

—Não acho uma má ideia, Marley tem uma linda voz, pode ser uma ótima aquisição para nós e ainda nos ajudará nas competições esse ano se mantivermos o número de integrantes que temos agora. Mandou bem Sany. – minha irmã sorriu aprovando minha atitude. – Marley, pode vir aqui na frente mostrar o que tem para nós?

—Posso pedir que a San me acompanhe como Back Vocal? – Rachel me encarou preocupada, eu assenti.

—Claro, sem problema, — Descemos ate o meio da sala e começamos a cantar Song Bird do Fleetwood Mac.

Após o final da apresentação fomos muito aplaudidas pelo grupo e Marley era oficialmente uma nova integrante do New Directions.

—San! – Marley comemorou. – Eu consegui!

—Eu falei que conseguiria, você foi incrível!

—Obrigada pelo incentivo, e agora coloque gelo.

—Acho que não precisa mais, e é ruim de segurar.

—Birrenta, coloca esse gelo logo, a enfermeira disse que precisava colocar ate o último sinal, você não quer ficar com um olho de panda né?

—Meio panda. Só acertou um olho.

—Posso socar o outro pra ficar igual. – Kitty avisou. – É só pedir Lopes – Revirei os olhos e coloquei o gelo. Minha irmã me olhou desconfiada quando eu coloquei a bolsa de gelo, eu não havia explicado ainda o porquê de estar com gelo no rosto e ela provavelmente pensou que eu entrei em uma briga.

—Minha irmã está desconfiada.

—Eu percebi. Não te preocupa, nós sabemos que só foi uma bolada.

—Eu sei, mas não quero que ela pense que eu entrei em briga. – Coloquei a mão na boca estava ansiosa.

—É só você explicar. – Vendo meu movimento acariciou minha mão para que eu não me preocupasse. – Rachel sabe que você não mente para ela, certo? – Assenti e ela sorriu soltando a minha mão.

Depois do Glee minha irmã finalmente se aproximou para poder questionar o que ficou martelando em sua cabeça a aula inteira.

—O que houve no rosto? – Perguntou séria me analisando, ela saberia se eu mentisse.

—Bolada, me distraí.

—Tudo bem, dói? – Perguntou carinhosa, acariciando meu rosto.

—Não, Marley me levou a enfermaria na mesma hora para por gelo e não deixou eu ficar sem.

—Ótimo, assim não fica roxo. – Sorriu.

—Você pensou que eu me meti em briga né?

—Sim, eu nunca te vejo com gelo depois do treino então me preocupei quando te vi com a bolsa no rosto.

—Eu sei, eu estava com a mão na boca, e não vi a bola.

—Imaginei que fosse isso, você sabe que precisa das duas mãos no vôlei Sany, para não se machucar.

—Eu sei, só me distraí. – Baixei a cabeça, envergonhada e comecei a sugar a mão...

—Não precisa ficar envergonhada. – Sorriu elevando meu rosto – está tudo bem. – Acariciou minha mão – Vamos para casa? – Perguntou. Apenas assenti, ainda estava envergonhada. – Ainda bem que é sexta. – Sorriu e seguimos para o estacionamento. – Agora solta a mãosinha que eu estou de moto e você precisa se segurar forte. Certo?

—Tudo bem. – Sorri para a minha irmã. – Pegou o capacete no acento, me deu o rosa e ficou com um roxo, subimos na moto e ela acelerou.

Minha irmã só anda de moto em alta velocidade ela diz que faz isso para me animar, o que acontece, depois do choque inicial da uma sensação de liberdade é tão bom, a adrenalina sobe, é incrível.

Chegamos em casa, tirei meu capacete, entreguei para a minha irmã entrei em casa corri para o sofá e fui assistir desenho.

—Sany, depois das tarefas Cariño. – Avisou e acariciou meu rosto.

—Mas mana. – Pedi tentando convencê-la com carinha de cachorro pidão e voz de bebê.

—Não adianta, não vai me convencer, você sabe a regra Sany, primeiro as tarefas depois tu assiste desenho, certo? – Me deu um beijinho na testa.

Levantei e segui para o meu quarto, eu nunca desobedecia a minha irmã, sabia que ela só queria o melhor para mim, era como uma mãe.

Fiz minhas tarefas da escola meia hora depois voltei para a frente da televisão sugando o minha mão e finalmente assistindo desenho.

—Fez tudo? – Ela perguntou. Virei para ela, assenti ela sentou ao meu lado e me puxou para o seu colo. – Te amo meu bebê. – Sorri por baixo da mão. – Como foi o treino, apesar da bolada?

—Foi bom, acertei alguns saques, acho que só me mantém no time porque sou boa no saque, eu gosto do vôlei, as meninas não me olham com pena e elas realmente valorizam a minha contribuição para o time.

—Isso é bom, e eu estou feliz que tenha feito uma boa amiga no time.

—É, ela não é como os mosqueteiros. – Rimos – mas nos damos muito bem, a Marls realmente se importa sabe?

—Eu sei, eu gosto dela.

—Ela me disse que sempre quis se aproximar mas como é tímida e eu não sou de dar muita abertura ela meio que se esquivava. Mas nunca sentiu medo ou nojo.

—Eu sei, ela veio conversar comigo depois da reunião, quis saber sobre você e porque se esquivava tanto das pessoas.

—Você contou tudo?

—Não, claro que não, eu falei que você passou por muitos traumas e se tornou insegura para se aproximar das pessoas e criar amizades.

—Entendi. – Voltei a sugar a mão. – A enfermeira já queria te chamar quando eu pedi o gelo. Isso é um saco, me irrita sabe? Não é como se eu fosse quebrar por qualquer coisa.

—Sim as pessoas acham que vai do oito aos oitenta, você sabe que é difícil para eles entenderem, certo?

—Sim, eu sei, só é irritante. – Acariciou meus cabelos.

—Quer ficar em casa hoje?

—Sim, não estou com vontade de sair.

—Tudo bem.

Ficamos assistindo desenho ate tarde, depois de jantarmos, assistimos a um filme e fomos dormir, eu estava com sono e ainda precisava de um banho e tomar meus remédios da noite.

Rachel

Faltava uma semana para novembro, e eu precisava voltar a trabalhar, a clínica me recomendou algumas enfermeiras para acompanhar Santana no turno da noite, visto que ela se negava a ir à clínica onde eu trabalhava.

Decidi ter uma conversa com Santana antes que a enfermeira aparecesse no dia seguinte.

—Sany. – Entrei no quarto da minha irmã, onde ela estava sentada em sua escrivaninha fazendo algumas tarefas da escola. – Pode dar uma pausa?

—Tudo bem! Eu estava cansada mesmo.

—Certo, senta aqui comigo. – Pedi enquanto sentava na cama, ela sentou no meu colo e apoiou a cabeça em meu peito. – Precisamos ter uma conversa séria.

—Eu to encrencada? É porque eu quebrei seu vaso? – Santana estava desesperada, e eu me segurei para não rir. O vaso em questão foi um que ganhei de uma voluntária da clínica, eu odiava tanto a mulher quanto o vaso. – Eu posso usar o dinheiro que você me da para a escola e pra comprar um igual, eu juro Rae, só não briga comigo, por favor. – Colocou a mãosinha na boca e começou a sugar em desespero.

—Sany, não é isso, cariño, você me fez um favor quebrando aquele vaso horrível. – Acariciei sua mão procurando acalmá-la.

—Mesmo? – Perguntou sem tirar a mão da boca, seus olhos estavam marejados.

—Claro, eu não vou brigar com você, e você não está encrencada. – Sorri para ela e a apertei em meus braços. – O problema é que na próxima semana eu volto a trabalhar, deram um mês para eu ficar com você em casa ate que você se acostumasse morando aqui, a nova rotina, mas agora, eu vou voltar a trabalhar durante a noite.

—Eu vou ficar sozinha?

—Aí que está, você sabe que não pode ficar sozinha, certo? Então vou ter que chamar alguém para ficar contigo ate eu chegar.

—Eu não quero! – Reclamou.

—Ou isso Sany, ou você terá que ir comigo para a clínica todos os dias depois da escola.

—Não, por favor. – Começou a coçar os braços. – Eu não quero ir á clínica, eles vão querer me internar lá, eu não quero que você me deixe.

—Eu não vou te deixar, e ninguém vai querer te internar Sany, mas como você não quer dar uma chance à clínica e eu não posso deixar de trabalhar, então o único jeito é você ficar com uma enfermeira.

—É isto, você cansou de mim, não foi? Você não quer mais ficar comigo. – Gritou pulando de cima das minhas coxas e começou a andar de um lado para o outro, vi que ela estava considerando começar a quebrar algum objeto, visto que parara de se machucar, os olhos estavam frios, a voz fria. A abracei, um abraço de urso e a levei de volta para cama, sentei em sua barriga e me estiquei para pegar as contenções na gaveta da mesinha de cabeceira enquanto ela gritava, ainda não usaria, ela estava insegura, queria ver se realmente era um surto ou não. – Você não tem coragem de admitir que desistiu de mim e como não tem outra opção vai contratar uma pessoa para ficar aqui comigo. Porque eu sou uma doente e você tem pena de me colocar em um hospício.

—Sany, não é verdade.

—Não minta Rachel, eu sei que é isso, você só é covarde demais para admitir – Santana começou a mastigar a mão e se debater em baixo de mim. A puxei pra o meu colo, tirei sua mão da boca.

—Sany, você sabe que não é verdade, nada disso é verdade, eu só não posso deixar de trabalhar niña, se não eu não tenho como terminar a faculdade, entende? – Sorri e a apertei mais forte. – É só durante a noite, e eu voltarei todos os dias cedo, antes de você dormir, poderemos ate assistir um filme juntas.

—Não é a mesma coisa. – Fungou no meu peito.

—Eu sei meu amor, mas você vai ver, não será tão ruim. Pequeña, eu nunca vou desistir de você, sabe disso.

—Eu tenho medo Rae, em algum momento, todo mundo desiste. – Voltou a sugar a mão.

—Eu não sou todo mundo, cariño, quando eu tinha doze anos prometi te proteger de qualquer coisa que pudesse te machucar, eu jamais vou descumprir essa promessa, eu jamais vou te machucar ou te abandonar, porque você é minha niña.

—Promete?

—Claro que prometo. – Falei aliviada, não era um surto, era apenas um desabafo.

—Você vai me amarrar? – Perguntou com a voz fraquinha.

—Não, mi amor, não foi um surto, era só um desabafo, então não precisa. – Sorri e beijei sua testa.

—Mas você pegou.

—Peguei mas antes queria ter certeza se precisaria usar.

—Que bom. – Sorriu. – Quando ela começa?

—Essa semana, eu vou te apresentar ela, você vai se acostumando com a presença dela semana que vem eu já volto para o trabalho.

—Tudo bem, ela não é aquelas enfermeiras malvadas que batem nos pacientes, certo?

—Não meu amor, eu jamais contrataria alguém assim, mas apenas para ter certeza, eu mandei instalar várias câmeras pela casa para confirmar que ela não te maltratará.

—Que bom. Mana, quando ela vir essa semana você vai estar aqui, certo?

—Certo.

—Promete que não deixa ela me tratar como uma doente, ou como uma imbecil?

—Prometo. Se ela te tratar assim eu coloco ela na rua na mesma hora.

—Tá bom então.

Santana.

Depois da aula na segunda feira recebemos a tal enfermeira, seu nome é Ingrid, era latina, gostei disso, pelo fato que durante as crises eu falo apenas em espanhol e gostamos também de conversar em espanhol em casa.

—Sany, quero te apresentar Ingrid. – Rachel falou e me fez cumprimentar a moça bonita, simpática e sorridente. Não levei muita fé, ela era sorridente demais.

—Hola , niña. – Cumprimentou, eu estava com a mão na boca, sugando não respondi. – Eu sei que você me vê como uma intrusa, mas não é bem assim, eu não vou tomar o lugar da sua irmã, só vou cuidar de você quando ela estiver no trabalho, não precisa se preocupar. – Falou firme, como para uma pessoa normal, ela não me tratou como uma débil mental ou coisa pior. – Sua irmã falou muito em você, quando nos conhecemos, eu não trabalho na clínica onde ela trabalha, mas nos conhecemos na época em que ela estava na faculdade, eu fazia algumas aulas com ela, e quando terminei a universidade, pensei que poderia trabalhar como enfermeira particular. – Encarei Rachel e ela assentiu confirmando o que a mulher falava. – Sentamos no sofá. – Não sei se você sabe, mas quando sua irmã fala em você, os olhos brilham, ela tem adoração por você. Agora eu entendo, tienes mucha luz y buena energia, pequeña– Sorri sem tirar a mão da boca e sentei no colo de Rachel. – Quando ela falou que precisava de uma enfermeira para a niña dela, pois voltaria a trabalhar em novembro, não pensei duas vezes e me ofereci.

—Ingrid foi uma das melhores pessoas que eu conheci na escola de medicina, nos tornamos grandes amigas, ela sempre perguntava sobre você.você vai adora-la, ela estudou dança quando estava no ensino médio. – Rachel me confidenciou e eu arregalei os olhos.

—Está me deixando constrangida, baixinha. – Deu um tapa no braço da minha irmã. – Sei que parece estranho, eu também amo dançar, assim como você, mas enfermagem é o meu sonho.

—Hola, placer en conocerte, Ingrid. –Rachel me abraçou forte e suspirou aliviada. –Mi sueño es ser una abogada, como me tío. – Contei. – Quieres conocer mi habitación? — Perguntei, eu senti que poderia confiar nela. Ela assentiu. Levantei do sofá e peguei a mão de Rachel e arrastei minha irmã conosco.
Subimos as escadas e a levei ate meu quarto sem soltar a mão de Rachel. Mostrei cada canto.

—Es una bella habitación, niña.

—Rae que fez ele para mim, ao contrário da minha avó, que mantinha meu quarto nu, lá na casa dela, Rachel decorou o meu muito bem.

—É verdade, Rachel sempre teve muito bom gosto. – Sorriu. – Você está gostando de morar com ela?

—Muito, a Rae, é a melhor irmã do mundo. – Sorri sapeca.

—Bem Sany,vai fazer suas tarefas e depois pode assistir televisão, eu deixei bolo cortado na cozinha e seu copo de suco na geladeira. Agora eu preciso conversar algumas coisas com Ingrid.

—Tudo bem, mana. – Falei, peguei meus materiais e comecei a estudar.

Rachel

Descemos ate o escritório, Ingrid estava encantada com a minha irmã.

—O que achou dela? – Perguntei mesmo sabendo a resposta.

—Ela é muito fofa. Exatamente como você falou.

—Você está pronta para ela Ing? – Suspirei temerosa. – Sabe que Santana vai do oito aos oitenta em questão de segundos.

—Rach, eu estou acostumada. Faz dois anos que eu fiz pós em psiquiatria infantil, sério, eu estou pronta para ela.

—Você entende a minha preocupação. Eu praticamente tenho apenas ela, Sany é tudo na minha vida.

—Eu sei, se alguém machucar ela,dói em você. Você colocou as câmeras?

—Sim, você sabe que eu confio em você, mas é por ela, para ela se sentir segura.

—Eu sei. Ela faz tudo?

—Sim mas eu me preocupo com algumas coisas ainda, como cortar algumas coisas, ou cozinhar.

—Sim afinal ela é uma adolescente com transtornos psiquiátricos, então é claro que não é seguro permitir que ela tenha contato com materiais cortantes. Ela tem algum retardo?

—Isso é um mistério, Santana não tem retardo mental, mas o comportamento é bem infantilizado.

—Isso eu percebi e o trauma dela começou aos cinco anos, então não é estranho, é bem compreensível na verdade.

—Você vai ver que terá alguns dias que ela vai se vestir com roupas masculinas. Ela não se identifica apenas com um gênero e falou isso com todas as letras, que não sabe a qual gênero pertence.

—Então você a incentiva a se comportar com os dois gêneros.

—Sim, não vou forçá-la a ser o que eu quero que ela seja, entende?

—Sim, não tem necessidade. Uma pergunta, ela tem algum tipo de incontinência urinária?

—Por incrível que pareça não, este foi o meu maior medo, visto que usou fraldas ate os quatro anos de idade, mas eu fiz o treino quando éramos crianças, impressionante que eu com onze anos soube exatamente como tirar a fralda da minha irmã.

—É um dom. – Sorriu orgulhosa.

—Mas dependendo a intensidade do surto, ela não consegue segurar. – Assentiu. – Depois do surto, ela fica bem cansada, e precisa que a ajudem em algumas coisas, como banho, vestir, ela fica apática, pra simplificar a conversa.

—Sim, exige esforço.

—A última crise dela, a mais longa foi final de setembro, ela teve oito horas de surto com intervalo de meia hora entre o primeiro e o segundo, quando ela dormiu, depois mais quinze minutos de intervalo da contenção e mais duas horas antes de eu precisar sedá-la foi uma das mais difíceis.

—Certo, ela segurou nessa?

—Sim, me pediu para ir ao banheiro.

—Certo. Mais alguma coisa?

Falei das birras, rotina depois da escola, hábitos, manhas e algumas manias, e principalmente formas de acalmá-la e evitar as crises.

—Ela gosta de sair de casa?

—Raramente, gosta de passeios curtos, sem muita gente por perto, rejeita abraços e toques, menos o meu.

—Eu percebi, ela é bem retraída com estranhos.

—Exatamente. Isso por causa dos abusos que sofreu.

—Outra pergunta, a sexualidade está desenvolvida?

—Não, ela não se toca, não gosta de falar em sexo e nem beijo aconteceu ainda.

—Ela foi violentada sexualmente?

—Não, inclusive ela já fez tratamento com hipnose, por isso e pela fixação na mão, não apontou nada.

—Entendo.

—Acredito que foi pela quantidade de traumas e abusos sofridos.

—O que faz bastante sentido. Ela pode ser assexuada, sabe?

—Sim, o que me deixaria incrivelmente satisfeita, não quero ver a minha niña sendo deflorada por uma vadia. – Bufei Ingrid gargalhou e bagunçou meu cabelo.

Ouvimos uma batida na porta, abri e vi Sany com os olhinhos marejados e inchados.

—Sany, mi amor, o que aconteceu? Porque está chorando? – Puxei-a para o meu colo.

—Tio Hiran e tio Leroy estão aqui. – Avisou.

—Porque está chorando cariño, eles falaram alguma coisa que voe não gostou?

—Tio Hiran brigou comigo, porque eu sujei o sofá com suco. – Esfregou os olhinhos com as mãos. – Não briga comigo, por favor. – Fungou em meu peito.

—Você virou o suco por querer?

—Não, eu juro, o copo escorregou da minha mão. – Soluçou.

—Então não tem, motivo para eu brigar com você niña, não te preocupa, é só pegar um pano molhado e limpar o sofá, não precisa ficar ansiosa. – Falei quando ela colocou a mão na boca e sugou ansiosa, acariciei sua mão para que se acalmasse. – Está tudo bem, não fica triste.

Seguimos para a sala e vi Hiran e meu pai Leroy sentados no sofá.

—Eu vou limpar a mancha. – Revirei os olhos, Sany se agarrou em mim sem deixar que me movesse.

—Eu já resolvi isso, filha, não foi nada demais, quase não da para ver. – Papai Leroy avisou.

Sentamos no sofá e Santana enroscou em meu colo agarrando minha blusa com a mão livre.

—Então não entendo o motivo de todo o estardalhaço para Santana estar chorando dessa forma.

—Você sabe que eu não gosto que ela se comporte como uma criancinha Rachel.

—Senhor Hiran, eu sou a nova enfermeira de Santana, Ingrid, o senhor deve saber que a sua sobrinha não se comporta dessa forma por vontade própria, afinal ela sofreu, inúmeras rejeições, abusos, maus tratos e diversos traumas físicos e emocionais. – Sorriu para Santana. – O senhor precisa compreender, que em casos como esse, o comportamento, durante o desenvolvimento da criança, ela pode sim ser infantilizado.

—Eu aceitaria se ela fizesse alguma coisa para melhorar.

—Você não convive com ela para saber, Santana se esforça sim, na escola ela se esforça, em casa que ela se sente segura para se comportar como quiser. – Bufei. – Eu não entendo o senhor pai, porque sempre que vem aqui só reclama da sua sobrinha, se não está satisfeito com o comportamento dela, prefiro que não venha. – Resmunguei.

—Mana. – Santana puxou minha mão. – Eu posso ir para o quarto?

—Pode, Cariño, porque não toma um banho quentinho e descansa um pouquinho enquanto eu preparo uma coisa gostosa para jantarmos? – Perguntei fazendo cócegas em sua barriga, apenas para ela rir. Sany assentiu saiu do meu colo e subiu as escadas correndo. – Mais uma mania dela, que eu não consigo tirar. –Revirei os olhos enquanto sussurrava para a minha amiga. Fomos para a cozinha, preparei a janta. Chamei Sany, ela não quis descer, suspirei pesado, ela estava deprimida, levei seu prato depois que meus pais foram para casa, e a alimentei. Depois de dar a janta para minha irmã, Ingrid foi embora e dormi com Santana, sabia que ela estava precisando de mim, cantei uma melodia tranquila para que ela dormisse. Peguei no sono assim que a minha pequena adormeceu.

Notas finais
Encontro vocês depois do feriado, ate o próximo