Borboleta de Ouro
2 Desconhecido no Palco
Notas iniciais
Antes de sair completamente daquele lugar, Jess pediu para que eu a acompanhasse em um tour pela Academia. Porém, nós sabíamos que nem dois dias me fariam conhecer tudo. Digamos que o Campus era um pequeno mundo. Ela me disse que foi avisada sobre minha suposta apresentação no teatro. Então, não perdeu tempo e pegou o atalho mais rápido até o local, parando algumas vezes para me mostrar o interior das salas que se seguiam pelo caminho ou para cumprimentar os mestres a quem eu provavelmente teria medo nos próximos dias.
Após muitos lances de escada, pude experimentar uma sensação rarefeita vinda inexplicavelmente do abrir das cortinas daquele enorme palco. Eu e Jess entramos por trás, o que fez com que eu pudesse ter a visão completa da platéia. Como eu já esperava, minhas veias começaram a saltar e o suor inundou minhas mãos. A assistente ao meu lado perguntou se eu queria uma pausa para me arrumar no camarim, mas eu preferi esperar ali. Os holofotes já estavam ligados e refletiam exatamente em mim. Por um momento o tempo parou, mas começou a correr de novo. De repente, milhares de vozes preencheram o local e só pude me esconder em meios às coxias.
Vi subir as escadas laterais, o corpo estudantil, a equipe de funcionários e o diretor. Um borbulhar de vozes cessou ao passo que o Senhor Evans tocou no microfone, testando-o com elegância. Tão logo o silêncio reinou, as luzes se apagaram e os holofotes brilharam sobre o homem.
“Sejam bem-vindos alunos da Liberty´s Academy. É um prazer para mim, revê-los em mais um ano letivo. Creio que vocês já tenham notado certa movimentação no corpo estudantil, mas, temos uma razão para isso. O projeto Wings and Stars nasceu com o objetivo de atrair novos alunos, dando oportunidades para aqueles do exterior. Não quero me estender num discurso que vocês já estão cansados de saber. Sendo assim, para a experiência ficar mais real, apresento-lhes uma das novas bolsistas participantes do projeto.”
O púlpito ficou vazio e a minha deixa. Andei quase que flutuando até a boca do microfone. Encostei meus braços de forma desleixada sobre o apoio e respirei bem fundo pela enésima vez.
“Olá. Imagino que vocês estejam estranhando um desconhecido num palco que é de vocês. Mas, eu fui escolhida para estar aqui. Então, por que... Ficar clicando na mesma tecla hum? Bem, todos nós temos sonhos. Somos estrelas em ascensão até o momento e ninguém pode tirar o brilho que já veio em nosso DNA. E eu deixei tudo para trás pra mostrar ao mundo inteiro, talvez, o que eu posso e sou capaz de fazer. Não é algo como um plano audacioso, é só porque eu segui o meu coração. Nossas conquistas são como uma grande torre. O que a deixa de pé são nossas caídas e nossas decisões. Pra chegar ao sucesso que tanto queremos muitas lágrimas, muito suor,o nosso sangue. E nada em vão. É um novo ano, porque não aproveitar? É só descobrir as asas e aprender a voar. Vamos ressurgir como grandes furacões, causando o caos da melhor forma. Com o que fazemos de melhor, com a nossa essência. Somos ousados, somos estrelas numa imensidão real chamada Vida. Somos livres. E mostraremos o melhor de nós.”
Bombinha de asma. Preciso de uma dessas pra ontem! De onde vieram essas palavras cheias de significados arrasadores?! Acho que vou desmaiar.
Um estouro invadiu meus tímpanos, a platéia uivando ferozmente, enquanto eu me curvava o máximo que podia. As palmas cessaram e foi aí que eu percebi que havia esquecido uma informação vital do discurso: Meu nome.
Seria ruim eu apenas sair como se todo mundo já me conhecesse. Retornei à minha posição e tomei as atenções novamente:
“A propósito, me chamem de Borboleta de Ouro.”
E foi aí mais uma vez que eu percebi o tamanho da besteira que eu havia acabado de cometer. Sem pensar olhei para senhor Evans que sorria de orelha a orelha. Não sei se era pelo discurso ou se era pelo apelido.
Ah Rebeca, o que você fez...
A reunião introdutória finalmente acabou. O burburinho foi se apagando junto ao calor humano que desapareceu. Cumprimentei por fim mais professores e mestres e fui elogiada várias vezes pelo diretor.
Aos poucos foram todos voltando a seus lugares naquela grande máquina de sonhos. E eu me perdi olhando para a multidão invisível à minha frente. A cabeça tão distraída que desligou um pouco da emoção me fez avistar lindas pétalas contrastando com a madeira do palco. Uma linda rosa pendurada a um pequeno cartão. Peguei-a e vi apenas uma assinatura.
Anonimatus...
Um sorriso ladrão roubou minha face e o relógio marcou 10h30.
Além de desajeitada, atrasada. Uma decepção. Tomei o mesmo caminho de volta ao ponto de partida. Pela pressa e pela provável cegueira instantânea, meu ombro entrou em choque com alguma outra coisa que também estava correndo. O contato mesmo forte nos manteve de pé. Virei-me para ver a vítima da minha pressa e pedir-lhe desculpas, recebendo uma também. Um sorriso se formou no rosto de um garoto alto, pálido, dono de uma pequena cicatriz na bochecha; que estava encarando a flor em minhas mãos.
Novamente, o tempo parou. E sem avisar, correu dois minutos. Encaramos-nos por um minuto e no outro, o sorriso se desfez e o vi desaparecer por um dos vários corredores. Balancei a cabeça, afastando um pensamento bobo.
P.O.V Autora
E ela ficou ali, encarando o nada. De um transe, seu corpo se projetou numa nova corrida. A aula àquela altura já tinha começado e a sala ficava na mesma direção de onde o garoto desaparecera segundo seu mapa. Desesperada e ansiosa, a sala finalmente chegou a seu rumo. O suor em sua testa não lhe atrapalhou para abrir a porta num impulso só e revelar pelo menos treze jovens e uma professora de boa forma.
“Seja bem-vinda à sua primeira aula de dança, Rebeca.”
Um sorriso inconsciente.
Coração sedento por novos passos.
Uma rosa e um sorriso.
Começou de verdade.
Diga Adeus à saída, Borboleta de Ouro.

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