Notas iniciais
Bem vindos a mais uma estória nascida de minha sandice. Parece que uma estória leva a outra e aoutra... E aqui estou novamente. Espero que gostem de Borboleta Negra como curtiram as outras...
Sempre quis uma estória de época e ela finalmente veio... Vamos conhecê-la...

O dia nublado lhe favoreceria, ela pensou ao descer do coche de aluguel no início da rua principal. O clima frio e sombrio daquela terça-feira infelizmente não livrava as ruas do habitual movimento, mas o reduzia o que já era de grande valia. Não que tivesse receio de ser reconhecida, pouco saia de casa, contudo preferia não chamar a atenção sobre si. Ser invisível era um dom que desde cedo aprendeu ser precioso.

– Esteja aqui às dezenove horas. – recomendou altiva ao condutor.

Quando este atiçou os cavalos e partiu, ela ajeitou seu chapéu de feltro verde enfeitado por pequenas penas e uma pedra igualmente verdes; desceu o véu da mesma cor sobre o rosto, alisou o veludo da saia de seu vestido, conferiu a colocação das pequenas luvas brancas e ajustou a alça adornada de sua retícule* ao seu pulso. Estava pronta para o encontro marcado.

Com passos decididos desceu pela calçada rumo ao local indicado. Não gostava que ele se desse em lugar tão movimentado, mas seu amigo exigia que fosse daquela forma então lhe restava atendê-lo. Queria estar com ele, mas não com tamanha pressa que a impedisse de parar diante da vitrine de sua loja de doces que havia elegido ser sua preferida. A doceira havia se esmerado na arrumação dos chocolates e caramelos; seus preferidos. Quando se desobrigasse voltaria para comprar alguns.

Feito o trato com sua vontade, retomou seu caminhar até que estivesse diante do melhor hotel de Westking. Ser o melhor significava o único uma vez que as outras estalagens da cidade em eterna expansão passavam de pensões ou casebres bem decorados. Evidente que seu amigo não se contentaria com pouco, nem a esperaria em algum lugar onde o silêncio e a discrição não pudessem ser comprados ou garantidos por quem não se importaria com um pouco de notoriedade.

Confiante de sua presença onde esta seria certamente encoberta, entrou no espaçoso saguão e se aproximou ao balcão de mogno lustroso. Foi atendida prontamente por um dos recepcionistas vestido em uniforme preto de botões dourados; os cabelos pretos rigidamente penteados para trás. Ao reconhecê-la seus olhos correram furtivos de um lado ao outro antes de focá-la fixamente e anunciar eficiente já deixando seu posto.

– Senhorita, seu parente a espera no quarto habitual. Irei acompanhá-la.

– Agradecida! – disse com uma ligeira reverência com a cabeça inclinada.

Seguir pelo corredor com um homem ao seu lado – mesmo que um funcionário – chamaria menos a atenção, então este era o ritual mensal. Ao deixá-la diante da porta, o rapaz esperou que batesse e entrasse antes de partir para reassumir seu posto.

A moça encontrou o quarto mergulhado em penumbra. Com as cortinas de tecido grosso fechadas, a única vela acesa não dava conta de iluminar todos os cantos.

– Isabella é você? – ela ouviu a voz cansada.

– Sabe que não gosto que me chame assim nessas circunstâncias. – ela ralhou docemente já retirando os grampos que prendiam seu chapéu no lugar.

– Perdoe este homem velho de memória limitada querida Amber. É que não vejo a diferença.

Sorrindo Isabella Swan retirou as luvas e as juntou ao chapéu antes de seguir na direção da voz. Também não via a diferença, mas o corrigia por hábito. E Carlisle Frederik Cullen poderia ser muitas coisas, mas não um velho senil. Nem mesmo estava avançado na idade. Ela não saberia com certeza, mas ele não ultrapassava os sessenta anos, ainda preservando a robustez dos anos anteriores. Conhecia-o há dezoito e para ela, o homem alto de cabelos loiros e olhos azuis não havia envelhecido um sequer.

Aproximando-se da grande poltrona que ele ocupava, Isabella se sentou sobre o braço forrado de tecido floral e recostou o corpo em seu espaldar, ficando muito próxima para dizer carinhosamente.

– Está perdoado se entregar minha encomenda.

– Que pequena interesseira está me saindo! – o senhor observou com falso espanto. – Não sou nem merecedor de um beijo?

– Que grande falha a minha! – sabia que Carlisle era dado aos exageros então comprimiu seus lábios rosados contra os dele por breves segundos. – Melhor assim?

– Muito melhor. – ele exclamou deixando a poltrona.

Vestia apenas suas roupas íntimas, mas como sempre não dava importância a própria liberdade. Isabella por sua vez não se escandalizava em ver homens em trajes menores; ou livre deles. Muito a vontade o viu caminhar até a escrivaninha e de lá voltar com um pesado envelope que estendeu a ela.

– Aqui está o que deseja minha adorável exploradora.

– Pensei que estivesse perdoada por meu esquecimento. – disse num muxoxo, porém ao pegar o envelope e sentir-lhe o peso, sorriu esquecida do teatro. – Está pesado! Acho que contém muitas novidades.

– Certamente pequena Amber... – ele caminhou e se sentou sobre a cama. – O que terei em troca de meu eterno cuidado?

Deixando o envelope de lado Isabella lhe sorriu e foi até ele. Enquanto acariciava os cabelos que apresentava alguns fios esbranquiçados, assegurou.

– Terá o tratamento de sempre.


*retícule – pequena bolsa de tecido usado no século XIX.

Notas finais
Conheceram Isabella. Como eu disse lá no começo, não perfeita, apenas humana... Com o tempo a conhecerão melhor... Espero que tenham gostado... :)