Borboleta Negra

53 Capítulo Vinte e Um - Parte II


Notas iniciais
Oie... Bom dia minhas lindas!Hoje vou começar agradecendo as novas indicações. Sempre é uma deliciosa surpresa entrar aqui e ver o carinho de vcs. Obrigada Anne Lizzy Bastos, ClaudiaMonteiro35 e Joelma Pacheco de Menezes... Adorei!Bem, com o final de ano chegando o tempo fica ainda mais curto. Quem já me conhece de antes sabe. Então só me resta continuar a pedir desculpas pela falta de respostas. O senso comum é que todas sentem pelo barão ainda não acreditar na borboleta. Eu as entendo, mas tentem tbm entender o barão. Ainda está tudo recente, só se passou um dia desde que ele descobriu toda a verdade. Esperem ele digerir a novidade, sufocar o ciúme a mágoa que a verdade será clara para ele. Meio caminho já está andado, pois já reconhece que o pai errou. Agora vamos ver o que vem... BOA LEITURA!

Como que atraída pelo pensamento do barão, logo nas primeiras horas da madrugada a chuva veio forte. Em seguida os relâmpagos e raios tornaram impossível conciliar um sono já escasso.

Contando as horas, Edward se manteve imóvel sobre sua cama, evitando lembranças ou questões quanto ao futuro. Para ele, a despeito da opinião dos membros de sua família ou da sociedade, o caminho a seguir estava muito claro.

– Então, que logo seja hora de começar a trilhá-lo! – rogou pouco antes de deixar a cama, impaciente.

Lavou o rosto para apagar os vestígios da noite não dormida, e o secou com os olhos postos em Nero que sequer se moveu, cumprindo seu próprio horário. Depois separou os utensílios necessários e se barbeou para logo em seguida, vestir-se apressadamente.

Sir Masen? – ouviu a voz sussurrada através da porta fechada quando já se penteava.

– Entre – Edward liberou. Ao ser obedecido, exclamou de fato surpreso. – Não contava em vê-lo antes do combinado. Ainda é cedo!

– Estava com Beni, verificando mais uma vez vossa carruagem, afinal iremos para longe. Como previ, vossa senhoria se adiantou – observou o criado.

– Obrigado pelo cuidado – agradeceu, seguindo até a poltrona onde deixou seu casaco.

– Não por isso Sir... – Jacob permaneceu em silêncio até que o barão terminasse de se vestir e voltasse até a cômoda para fixar um alfinete dourado que sustentava fita e brasão dos Masen Bradley. – Nunca o vi usar isto fora de datas especiais ou eventos – comentou.

– Bem... – Edward explicou, olhando-se no espelho. – Para o que pretendo fazer talvez seja preciso alguma ostentação. Insígnias e medalhas sempre impressionam, então...

– Vai mesmo fazer o que me disse? – Jacob indagou seriamente.

– Não quis lhe contar ontem, mas... Já o fiz. Agora não há meio de voltar atrás – relevou o barão.

– Não me espanta e, sendo assim... Boa sorte com o que vier Sir Edward. Ah, sim... Meus parabéns!

– Dispenso o gracejo Jacob – o barão murmurou secamente, conferindo tudo o que colocou no bolso, antes de vestir o sobretudo, pegar sua cartola e bengala. Indicando a maleta que preparou, avisou: – Já que está aqui, podemos ir agora.

Somente então Nero ergueu a cabeça e, ainda sonolento, os seguiu para fora do quarto.

– Espere um instante – pediu ao criado, parando diante dos aposentos da mãe. Sabia que a baronesa ainda dormia, então abriu a porta lentamente, antes de chamá-la. – Mamãe?

– O que deseja tão cedo...? – indagou a baronesa com voz empastada pelo sono.

– Vim despedir-me – avisou. – Parto agora para aquela breve viagem...

– Agora?! – Elizabeth então se sentou, exibindo a camisola e a touca branca. – Vai mesmo cometer essa loucura?!

– Por favor... Não vamos brigar – Edward pediu contemporizador. Durante a madrugada, intimamente havia feito as pazes com ela, entendendo que não teve culpa por seu pai ter partido sem tê-la ao lado. – Em breve estarei de volta, então conversaremos sobre minha insanidade.

– Então será tarde! – ela exclamou aflita; embargada. – Disse que virá com aquela mulher e alguém de sua família... Por favor, não faça isso. Não acabe com sua vida.

– Não estou acabando com minha vida – corrigiu-a seguro, indo até ela para beijar-lhe o rosto –, sim, iniciando-a. Sossegue seu coração. Até a volta!

– Que Deus o acompanhe! – ela rogou chorosa. – E que ilumine suas ideias ao longo do caminho.

Amém! Exortou o barão em pensamento ao fechar a porta atrás de si, ignorando o pranto exacerbado da baronesa que ainda pôde ser ouvido até que alcançasse a escadaria. Inusitadamente Jacob não teceu qualquer comentário além o de aconselhar o patrão para que tomasse o desjejum antes da partida.

Descartando a sugestão, Edward marchou diretamente para a porta principal. Não queria cruzar com Sue Wood nem mesmo para dirigir a ela o costumeiro cumprimento matinal. Seu assunto era com a neta, que encontraria em poucos minutos, pensou ao deixar sua casa.

O dia ainda não havia clareado, mas não mais chovia; perfeito!

– Sabe para onde me levar – disse a Jacob recebendo sua maleta antes de assumir seu lugar na boleia –, então vamos.

Seu criado de confiança fechou a portinhola, assentindo num manear de cabeça. Logo partiam; finalmente.

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– Ainda considero inadequado Amber... – Angela opinava pela terceira vez enquanto a moça abotoava o vestido. – Não deveria ir vestida dessa maneira.

– Não quero sobrecarregar Embry com tantas mudanças, Angela. E é assim que ele está acostumado a me ver.

– Muito bem... – resignou-se a senhora, que havia sentado no sofá depois de ajudar Isabella com o espartilho. – Deveria entender que a cor de sua roupa é a mais irrelevante das mudanças, mas se insiste.

– Insisto – teimou a moça já a fechar o último botão, ocultando o pescoço marcado pelo barão. Descendo os olhos para o rosto livre de maquiagem e cansado da amiga, provocou-a: – Ao invés de reparar o que visto, poderia ir até a cozinha ver se Brenda já preparou nosso café da manhã.

– Seu apenas – corrigiu Angela. – Tão logo siga viagem, eu voltarei para meus lençóis, estou exausta.

A declaração desarmou a moça.

– Não deveria ter levantado tão cedo somente para me ajudar. Provavelmente não dormiu um par de horas.

– Acho que nenhuma de nós dormiu com tantos trovões – a senhora deu de ombros. – Além do mais, não me importo em ajudá-la... E queria me despedir. Posso dormir até tarde depois.

– Obrigada – Isabella agradeceu, comovida com o cuidado, estremecendo ao recordar dos raios e relâmpagos que agravaram seus pensamentos noturnos.

– Por falar em tempestade, está usando aquilo que eu lhe trouxe ontem à noite? – Angela indagou despretensiosamente enquanto ajeitava o penhoar sobre os joelhos.

Isabella, que havia caminhado até a penteadeira, encarou-a através do espelho. Usar ou não as espojas contraceptivas trazias pela velha meretriz foi um do temas discutidos consigo mesma enquanto se encolhia sob as cobertas, temendo a tormenta.

Da forma que o barão a deixou não acreditava que tão cedo tivessem algum encontro íntimo, ainda assim, pouco antes de se levantar decidiu usá-las. Estava claro que entre ela e Edward tudo poderia acontecer, então, melhor seria sempre se prevenir. Ainda mais depois da precaução tomada por ele tardiamente na manhã anterior. Descuidaram-se durante a madrugada que passaram juntos, mas não mais reincidiria no erro.

– Sim – respondeu por fim, pegando sua escova. – Estou protegida, obrigada!

– Muito bem! – Angela parabenizou-a. – Ainda é cedo para surpresas. Acho que antes de pensar em novos filhos é melhor acertar a situação com o barão.

– É exatamente o que penso – Isabella assegurou, rolando a escova entre os dedos.

– Melhor assim... – disse a meretriz, deixando o sofá para atender ao pedido. – Irei até a cozinha e você trate de terminar sua arrumação, pois logo serão cinco horas.

– Estou adiantada, não se preocupe... Ainda dará tempo de tomar o desjejum.

– Esperarei na cozinha, então... – anunciou e se foi.

Uma vez sozinha Isabella tentou não pensar em todas as vezes que esteve com o barão sem qualquer proteção, e escovou os cabelos vigorosamente. Logo os prendeu numa trança frouxa. Em seguida, fazendo o possível, tentou também ocultar a marca da mordida em seu queixo usando pó de arroz. Não foi bem sucedida, contudo não deu importância; o véu de seu chapéu deveria escondê-la.

Considerando-se pronta, girou diante do espelho. Não gostava de se vestir daquela forma, e sua vestimenta poderia ser a mais irrelevante das mudanças, mas não era preciso embaralhar a cabecinha de seu pequeno, pensou satisfeita.

– Mas o que...?

O brado incompleto, vindo da porta, assustou-a. Levando as mãos ao coração disparado, ela se voltou para confirmar a presença inesperada.

– Edward?!... – praticamente gritou. – Como entrou?

– Que... – ele começou, estarrecido. – Que roupa é essa?!

– Não respondeu minha pergunta – Isabella salientou, recuperando-se do susto.

– Responda você a mim! – demandou o barão, ao terminar de entrar no quarto e fechar a porta atrás de si; o semblante soturno. Indicando-a num gesto abrangente indagou: – De onde tirou a ideia de se vestir assim?

– É como vou às visitas no internato – revelou. – Agora sua vez, como entrou?

– Sam me deixou entrar – respondeu, medindo-a de alto abaixo; decididamente não gostava daquele vestido preto; mórbido. – Por que ir assim visitar uma criança?

– Embry está acostumado – murmurou.

Os tremores vindos com a entrada intempestiva sendo substituídos pelos calafrios em seu estômago por ter o barão de volta em seu quarto; elegante, altivo em seu sobretudo preto.

– Acostumado a vê-la como uma... – Edward se calou antes de dizer a palavra ao recordar a explicação do banqueiro. Reduzindo os olhos em finas fendas, prosseguiu num ciciar. – Esqueci que passasse pela viúva do pai de seu filho.

– Como sabe disso? – Isabella recuou um passo ao vê-lo se aproximar.

– Seu estimado amigo “Carlisle” me contou ontem quando fui procurá-lo – não havia razão para esconder a visita, no entanto, não perderia mais um minuto citando-a. Com o ciúme que dispensava a Edward I renovado, ordenou: – Troque-se!

– Prefiro ir assim, pois... – ela tentou argumentar.

– Não perguntei sua preferência – o barão salientou; não viajaria com ela enlutada por seu pai. – Troque-se. Troque-se ou eu lhe farei este favor.

A rebeldia inflamou o peito da moça que por um instante ergueu o queixo, decidida a retrucar, contudo, a um novo passo do barão em sua direção, ela levou a mão aos botões em seu pescoço para soltá-los apressadamente.

– Vire-se ou saia – seu orgulho a fez igualmente ordenar enquanto sustentava o olhar endurecido do nobre a sua frente. – Isto não é um espetáculo!

Unindo os lábios fortemente para não respondê-la, o barão lhe voltou às costas. Não havia nada a ser exibido que não tivesse visto muito além, no entanto, dar-lhe-ia alguma privacidade. Poderia deixar o quarto, mesmo sendo desnecessário, porém Edward não daria à moça rebelde o gosto de expulsá-lo; de forma alguma!

Bufando exasperada, Isabella retirou as peças pretas e seguiu até o armário de onde retirou o vestido verde.

– Este não! – rejeitou o barão, novamente assustando-a; irritando-a.

– Pensei que não estivesse olhando! – comentou repreensiva.

Não pôde evitar uma espiadela por sobre o ombro ao ouvir o farfalhar das anáguas, simples assim.

– Não quero que use esse vestido – o barão ignorou o comentário.

A moça esteve pronta a indagar qual a restrição quando entendeu o veto; aquele era o vestido de quando se conheceram. O mesmo que, sobre a cama de Rosalie, alertava ao barão sobre sua partida iminente; que de fato ocorreu. Arrependida por não ter atentado àquele detalhe, Isabella voltou o vestido ao lugar e escolheu outro, marrom, com detalhes em preto. Incerta, correu os olhos ao barão, esperando por sua aprovação, contudo ele novamente mirava a porta, de costas para ela, muito ereto.

Tentando adivinhar todas as lembranças que poderiam povoar a mente do nobre naquele momento, Isabella se vestiu. Pelo visto o uso das esponjas seria de fato em vão, lamentou. Depois de fechar o último botão, em silêncio foi até a penteadeira para ocultar as marcas em seu colo com o pó de arroz.

– Lamento por isso.

Isabella ouviu a voz do barão que indicava novamente observá-la. Imediatamente procurou pelos olhos azuis através do espelho. Doía-lhe imaginar que ele estivesse, de fato, arrependido do ato no qual a marcou. Provavelmente, visto que a considerava uma mentirosa. Caso ainda lhe coubesse algum orgulho, trataria de interromper desde o início fosse qual fosse o tipo de relacionamento que o nobre determinou para eles, no entanto, não o faria.

Quebrando o contato visual, voltou a mirar a marca que mascarava sob as camadas de pó branco e o tranquilizou:

– Não se preocupe, em breve desaparecerá.

– Não anula meu erro – retrucou impassível, ereto, as mãos postas para trás.

Isabella não voltou a responder; não poderia, pois sua garganta se encontrava obstruída. Apenas maneou a cabeça e terminou de se arrumar em silêncio. Durante este tempo, tentou livrar sua mente, não pensando num possível arrependimento do barão para que conseguisse ao menos conversar serenamente. Uma vez pronta, voltou-se para encará-lo.

– Assim está melhor – ele aprovou. – Pegue o que tiver de levar e vamos.

– Pedi para Brenda acordar mais cedo e preparar meu café da manhã – ela explicou sem se mover. – Ainda temos tempo não? Disse que viria às cinco horas.

Sim, aquele era o combinado, porém estava ansioso demais para esperar. Seu primeiro desejo foi avisar que tinha pressa, contudo, mesmo que ainda estivesse aborrecido por vê-la enlutada, não poderia privá-la de seu desjejum.

– Ainda temos tempo – anuiu. – Vá tomar seu café da manhã. Esperá-la-ei.

– Não... – ela pigarreou e limpou a voz, já abalada com a possibilidade de uma aceitação. – Não gostaria de me acompanhar. Como disse ontem, Brenda não tem os dotes de Leah, mas tem seus préstimos.

Sempre fora daquela forma, contudo, agora que sabia do parentesco, Edward reparava que Isabella nunca citava a avó; compreensível. Não a forçaria a falar sobre aquele rompimento, não ainda. Assim como não tinha fome e gostaria que ela se apressasse.

– Não, obrigado! – negou. – Vá e se apresse. Estarei no salão, caso não se oponha.

– Se é assim... – ela começou, enquanto ia até o sofá pegar a bolsa que levaria; a capa e o chapéu. Depois, indicando a porta para que o barão deixasse o quarto, liberou-o – Fique a vontade!

– Depois de você – ele igualmente indicou a porta, adiantando-se para retirar os itens de seu braço e dizer seriamente. – Deixe que eu leve estas coisas.

Apenas cavalheirismo, Isabella pensou enquanto deixava o quarto, apenas cavalheirismo, não distanciamento vindo com aquele clima tenso que pairava entre eles. Desceram em silêncio e aos pés da escada se separaram. O salão estava às escuras, porém a moça nada comentou. Assegurando não demorar, deixou o barão e seguiu até a cozinha administrando os passos para se manter firme.

– Bom dia Brenda! – cumprimentou a cozinheira tão logo entrou no cômodo. – Obrigada por levantar mais cedo.

– Não por isso senhora.

– Desistiu do preto? – Angela indagou quando a amiga se juntou a ela.

– Edward me fez trocar... – a explicação saiu num lamento; pela rusga, não pela troca de roupa. Não gostava do falso luto, afinal.

– O barão está aqui?! – A senhora olhou alarmada para a porta da cozinha como se o nobre fosse entrar a qualquer instante.

– Sim. Sam o deixou entrar e ele foi direto ao meu quarto – o tom ainda exprimia sua lamuria. – Ele preferiu esperar no salão.

– Antes assim. Não quero ser vista a essa hora da manhã – Angela falou após um suspiro. – No mais, concordo com ele. Disse-lhe que seria inadequado usar preto, principalmente depois de tudo o que me contou ontem. Evidente que o barão se aborreceria. Foi o que aconteceu, não? Por isso está assim, abatida?

– Não é somente por isso... – murmurou; doía-lhe mais o arrependimento do barão por ter se rendido à paixão. E havia todo o motivo da viagem para agravar seu abatimento. Gostaria de dividir com sua amiga, porém não havia tempo. – Mas não poderíamos conversar agora... O barão está com pressa.

– E não se deve deixar o barão de Westking esperando – Angela aconselhou.

Nem contrariá-lo, a moça emendou silenciosamente. Maneando a cabeça em concordância, Isabella tratou de se servir e comer; por precaução, pois descobriu naquele instante que a fome havia desaparecido.

No salão, Edward vagava lentamente depois de ter deixado os pertences de Isabella sobre uma das mesas, reparando em cada detalhe que lhe escapou há duas noites. Apesar da penumbra, conseguia ver as cortinas de veludo vermelho escuro que cobriam as janelas e decorava a porta de entrada, esta com os lados presos à parede por grossos cordões de lã. As mesas desocupadas poderiam pertencer a qualquer salão de festas, assim como o inocente cravo estar à espera de uma moça virginal e sonhadora, não a uma jovem meretriz.

Ao barão ainda parecia inacreditável que Isabella tivesse preferido aquela vida a revelar toda a verdade, por pior que fosse. Evidente que ela não receber clientes fizera alguma diferença, ainda assim expunha-se, provavelmente interagia com os frequentadores do Jardim. Deixava-se tocar e ser assediada enquanto enfeitiçava a todos com seu corpo jovem, ludibriando incautos senhores os deixando aspirar uma vaga na lista inexistente.

Subitamente a ideia o sufocou, estava prestes a deixar o salão quando Sam se aproximou.

– Pensei que fosse se encontrar com minha senhora – observou o moreno.

– Ela está na cozinha. Virá em breve. – Edward explicou, educadamente; agradecido pela distração.

– Ah, sim... – Sam maneou a cabeça em entendimento. Então levou as mãos às costas e sustentou o olhar do barão para dizer: – Seria bom se eu pudesse acompanhá-los. Não gosto de deixá-la.

– Não será possível Sam – Edward negou, e em seguida indagou: – Você costuma acompanhá-la nas outras viagens?

– Nas outras vezes, ela estava com Sir Cullen – respondeu simplesmente; muito claro.

– Não confia em mim Sam? – O barão questionou um tanto ofendido, escrutinando o rosto moreno.

– Estou tentando. Tanto que o deixei se aproximar no Natal – foi sincero. – Minha senhora pede que eu não tenha cuidados, assegura que jamais lhe faria algum mal, porém vossa senhoria parece sempre estar com raiva. Antes de ontem a humilhou aqui e... depois a machucou. Vi as marcas. E não importa em qual situação foram feitas – ele acrescentou, impedindo o barão que se preparou para retrucar. – Não importa o que ela faz ou onde esteja... Minha senhora é uma dama e deve sempre ser tratada como tal.

O nobre empertigou-se, irritado com as palavras desmedidas do serviçal, porém novamente calou uma resposta. Sam parecia ser tão fiel quanto Jacob e, assim sendo, entendia sua desconfiança exacerbada. Antes de hostilizá-lo, exigindo sua pronta confiança, deveria demonstrar merecê-la para que, uma fez conquistada, jamais a perdesse. E, pensando friamente, deveria ser-lhe grato pelo férreo cuidado que manteve Laurent Hunt longe durante todos aqueles anos.

– Sei disso – aquiesceu. – E... Se pudesse, faria diferente. Acredite, lamento pelas coisas que disse e por marcá-la. Quanto ao resto, agora não tenho como provar ser de confiança, mas com o tempo verá. Fique sossegado Sam, sua senhora estará tão protegida comigo quanto com Sir Cullen.

– Desculpe-me a impertinência, mas... – o moreno pediu inexpressivo – Pelo bem de nós todos, rogo para que seja assim.

Edward sustentou-lhe o olhar escurecido, relevando também a ameaça velada. Não se aborreceu com as palavras, antes disso, imediatamente admirou o criado pela corajosa sinceridade. Muitos senhores, cavalheiros ou nobres, não possuíam a mesma. Sam advertia o homem, não o barão.

– Será Sam... – assegurou tranquilamente. – Será!

– Podemos... – Isabella calou o que diria ao entrar no salão, olhando de um ao outro. – Algum problema? Sam?

– Sam apenas cumpria sua função – Edward respondeu pelo criado. – Já o tranquilizei. Agora podemos ir, não quero correr o risco de perdermos o trem em Watlin.

– Sim... – ela concordou, pegando a capa.

Ambos avançaram para ajudá-la. Sam se adiantou e tomou a peça de veludo da mão de sua senhora para ajudá-la a vesti-la. Sim, aquele homem era de fato devotado à “sua senhora”, confirmou. Naquele instante o barão refutou o pensamento insano de que aquele homem, em algum momento, tivesse desfrutado dos prazeres oferecidos pela meretriz. Não haveria de ser assim, afinal ele era um criado. Talvez apaixonado pela patroa, porém apenas um criado.

– Apresse-se – pediu quando ela alcançava o chapéu, novamente aborrecido; consigo mesmo daquela vez.

– Podemos partir – disse, sem estranhar o evidente mau humor.

Edward sequer se moveu para pegar a bolsa, deixando para o criado aquela função. Com passos decididos, deixou o salão sem verificar se estava sendo seguido; sabia que sim. Fora da casa o dia clareara.

– Bom dia Jacob – Isabella cumprimentou o criado do barão, não surpresa em vê-lo; quem mais os levaria?

– Bom dia senhorita! – cumprimentou, tocando a aba de seu chapéu.

Sem atentar às amabilidades entre Jacob e Isabella, Edward abriu a porta da carruagem e ofereceu a mão para que a moça entrasse. O toque, como sempre o abalou, levando-o a apertar-lhe os dedos enquanto ela se despedia de Sam.

– Fique em paz. – Isabella pediu delicadamente. – Já conversamos sobre isso.

– Sim senhora... – Sam se curvou para ela. – Faça boa viagem e dê minhas lembranças ao pequeno.

– Assim farei... Até a volta.

Após finalmente entrar e se acomodar, deixando o chapéu ao seu lado, Isabella orgulhava-se de si mesma por ter mantido a estabilidade da voz enquanto tinha os dedos apertados fortemente.

– Até breve Sam – Edward despediu-se brevemente ao receber a bolsa, antes de se juntar a ela na boleia.

Sem desviar os olhos do rosto corado a sua frente, o barão alcançou sua bengala e tocou o forro. Imediatamente o condutor colocou a carruagem em movimento, finalmente partiam para que conhecesse Embry.

Isabella mantinha os olhos nos dedos que torcia sobre a saia de seu vestido. Era estranho – bom e ruim – estar novamente naquela boleia com o barão, tendo Jacob a guiá-los. Da primeira vez nutria pelo nobre o ressentimento herdado do pai, agora, depois de tudo o que ambos viveram, a tensão adquirira novo peso e significado.

Por mais que pensasse, Isabella não conseguia ver como seria aquele relacionamento sendo que Edward não acreditava em sua palavra. E havia Embry. Com a apresentação dos irmãos, o que viria? Gostaria de perguntar, porém temia um novo desentendimento.

Edward, por sua vez, perscrutava a moça sentada a sua frente. Por um instante, baseado na breve desconfiança quanto a Sam e no ciúme inadequado sentia por seu pai, questionou-se qual a viabilidade de seguir adiante com todo seu plano, afinal, como seria manter a moça em sua vida desconfiando de tudo e de todos?

Sim, o barão aventou a possibilidade de ficar apenas com o menino. Não haveria nada que ela ou Sam, Carlisle ou quem quer que fosse pudesse fazer para impedi-lo, no entanto, se a desconfiança era ruim, a iminência de afastar-se dela pareceu ainda pior. Não tinha resposta para sua questão, mas deveria ao menos tentar ser racional e administrar sua possessividade agravada por tantas descobertas.

O silêncio era sufocante, porém nada comparado à privação de ar que acometeu Isabella no instante que ergueu os olhos para o barão. As escurecidas contas azuis carregavam ainda mais a expressão sombria e a encaravam fixamente, quase... Acusadores. O que ela poderia ter feito? Perguntou-se confusa. Temendo a resposta, e necessitando de ar, a moça rapidamente desviou o olhar para a janela e se moveu para frente na esperança de que a brisa vinda pelo avançar da carruagem a ajudasse a respirar. E ainda nem haviam deixado Wisbury. Deus!

– Por que está assim, tão nervosa? – Edward indagou ao reconhecer que ainda seria cedo para ser racional; rendido ao despeito por vê-la remoer sua aflição em silêncio, sem nunca dirigir-lhe mais do que um fortuito olhar. – Disse que faz essa viagem duas vezes ao ano. Deveria estar acostumada.

– Não... – ela balbuciou, recuperando-se do susto causado pela voz poderosa e, levemente aborrecida. Escolhendo as palavras, esclareceu: – Não viajamos assim... Sempre partimos de Westking, separadamente por duas paradas, somente então para Londres e...

– E...? – incentivou-a o barão; e que ela não o comparasse ao banqueiro, pois somente Deus poderia prever sua reação, rogou.

– E as expectativas eram outras – disse sincera, mirando os dedos. – Das outras vezes sabia exatamente o que iria acontecer, mas agora... Não imagino como será esse encontro. Não faço à mínima ideia do que direi a Embry, como devo apresentá-los.

Então era aquilo! Edward respirou, aliviado. O problema não estava na companhia e, sim, na razão da viagem. Quanto ao que a arreliava não havia muito que ele pudesse fazer, visto que o desenrolar daquela história provavelmente não seria algo que ela tivesse sequer sonhado, contudo em algumas horas poderia indicar o que pretendia para aquele encontro, ainda era cedo.

– Em breve saberá o que dizer – anunciou seguramente, encarando-a.

– Se já pensou em algo me diga – Isabella pediu; tão curiosa quanto receosa com o misterioso ar do barão.

– Em breve... – ele repetiu incisivo, não deixando margem para argumentos.

Aventurando-se a escrutinar o rosto impassível, a moça tentou adivinhar o que viria. Evidente que não chegou a nenhuma solução satisfatória e logo estava presa ao hipnotizante olhar azul que a aquecia e amedrontava. Foi libertada após um solavanco da carruagem e, aproveitando-se do despertar, correu os olhos para a paisagem que cruzava a janela e ali o manteve até que fechasse os olhos para descansar as pálpebras por um instante.

Despertou lentamente, confusa pela falta de movimento e um toque delicado em seu rosto. Antes que abrisse os olhos entendeu que havia adormecido e sentiu estar recostada contra um corpo sólido que não deveria estar ali, e, sim, diante de si.

– Acorde... – a voz mansa chegou aos seus ouvidos.

Desconcertada, Isabella abriu os olhos e ergueu o dorso com cautela, lamentando ter que se afastar do calor bom. Conferindo a arrumação do penteado com mãos trêmulas, se voltou para encarar o homem ao seu lado. Encontrou o mesmo olhar que a capturou antes que dormisse; fixo, intenso, escuro.

– Eu... – Não sabia o que dizer.

– Dormiu por todo o percurso – o barão revelou roucamente. – Jacob foi providenciar as passagens, então seria melhor que se aprontasse.

– Sim... – murmurou após um pigarro, alisando a saia de seu vestido; embaraçada.

Relutante, Edward voltou ao seu assento para dar à moça algum espaço. Gostaria que àquelas horas de tranquilidade, quando teve Isabella recostada a si, dormindo brandamente, durasse para sempre. Infelizmente também não poderia ser assim. Tinham um longo caminho a percorrer e, como rogou naquela manhã, que logo o iniciassem.

Esperou que ela ajustasse o chapéu e descesse o véu sobre o rosto antes de alcançar a bolsa deixada no assento ao seu lado, pegar seus pertences e abrir a porta para, elegantemente saltar. Depois de vestir sua cartola, estendeu a mão para a moça, ajudando-a a descer.

Isabella, com algum esforço, desviou os olhos da figura imponente à sua frente e olhou em volta, para o movimento ao redor da estação. Esteve ali por tantas vezes, mas nenhuma se comparava àquela, tendo o barão ao seu lado, prontos a seguirem até Londres onde finalmente o apresentaria ao meio irmão, dizendo seja lá o que Edward tenha determinado.

Ao suspirar resignada, avistou Jacob que vinha apressadamente, olhando fixamente para o patrão, como se ela nem estivesse presente; novamente constrangido em sua presença.

– E então? – Edward indagou impaciente. – Onde estão as passagens? Conseguiu as cabines como lhe pedi?

– Pois então milord... – começou o criado, resignado, entregando os bilhetes que retirou do bolso do casaco. – Não havia duas, mas como deixou claro que deveria viajar hoje ainda, tomei a liberdade de aceitar o que restava. Uma cabine... Com apenas um leito.

Edward recebeu as passagens, impassível. Não demonstrou qualquer desagrado, porém Isabella novamente quis saber o que ele sentia, visto que havia tomado a precaução de dormirem em cabines separadas. Cavalheirismo ou distanciamento; naquele momento não soube por qual optar.

– Fez bem – Edward falou, guardando os bilhetes no bolso de seu sobretudo. Como tudo já havia sido acertado anteriormente, dispensou seu amigo sem maiores recomendações. – Espero encontrá-lo daqui a dois dias.

– Assim farei Lord Masen! – assegurou Jacob, inclinando a cabeça e o dorso. – Faça uma boa viagem. Até a volta senhorita Swan.

– Obrigada!

Ao se calar, o barão tocou-a nas costas, eletrizando-a, fazendo-a andar.

– Vamos – ordenou exatamente ao apitar do trem.

Sem nada dizer, a moça se deixou levar, sem de fato notar as muitas pessoas a sua volta ao sentir seu estômago muito leve, abalado pela adrenalina; não havia volta!

Não, não havia tentou acalmar a si mesma. Não foi bem sucedida e, trêmula, esperou que Edward entregasse as passagens ao funcionário que recebia a todos à entrada do vagão. Em seguida caminhou pelo corredor, tendo o nobre às suas costas, até que ele indicasse:

– A próxima é a nossa cabine.

Ao entrar o olhar da moça recaiu sobre a cama. Era estranho que por vezes dividisse uma como aquela com Carlisle e naquele instante se constrangesse em fazê-lo com Edward. Culpa única e exclusivamente dele próprio determinou, indo até a janela para espiar pelo vão da cortina enquanto retirava o chapéu.

O barão fechou a porta da cabine atrás de si, depositou a bolsa de Isabella e sua mala sobre a cama juntamente com a bengala e cartola. Retirou o sobretudo e o dobrou para acomodá-lo no espaldar de uma das duas poltronas disponíveis; sempre com os olhos postos na moça. Gostaria de saber o que ela pensava, sentia-a distante.

– Está com fome? – perguntou para quebrar o silêncio entre eles.

– Não – ela respondeu.

Ao se voltar o ar lhe faltou. Talvez nunca estivesse preparada para a beleza altiva do barão, agora livre do grosso sobretudo preto, exibindo o brasão da família afixado ao peito do casaco da mesma cor. Para ocultar o afogueamento de sua face, ela deixou o chapéu sobre um pequeno aparador e tratou de desatar o laço de sua capa para também retirá-la.

– Ainda assim – ouviu-o dizer – quando partirmos, nós poderemos seguir até o vagão restaurante. Não deve ficar sem se alimentar. Acho que emagreceu.

Não tanto quanto ele, mas a considerava mais magra. Queria crer que a falta de apetite tivesse sido pelo mesmo motivo, pois, imaginar que sim atenuava um pouco o ciúme se ininterruptamente sentia.

– Você também emagreceu – ela comentou, voltando a encará-lo, abraçada à capa.

– Não tive muito apetite nos últimos meses – Edward revelou roucamente, esperando o que viria.

– Eu também não – disse, sendo igualmente sincera. – Como disse, tornei-me de fato uma sombra sem vida.

A alegria ao ouvir a declaração aqueceu o coração do barão. Sua vontade foi eliminar a distância entre eles para tomá-la nos braços e beijá-la, contudo, assim como ela, não se moveu.

Fora fácil sentar-se ao lado dela na carruagem ao notar que pendia após ter adormecido e recostá-la contra seu peito. Fora ainda mais fácil cheirar-lhe os cabelos e acariciar-lhe as mãos mesmo temendo que ela despertasse, no entanto, ali, com ela lúcida, não conseguia apagar seu ressentimento pelo envolvimento com seu pai; pelo luto.

– Bem... – forçou-se a dizer tão logo ouviu o derradeiro apito do trem. – Não somos mais duas sombras, então, depois iremos ao almoço. Agora, sente-se, pois em breve partiremos.

Embaraçada por sua declaração morrer no vazio, Isabella fez como ordenado e se acomodou na beirada do colchão, mirando pela fresta da cortina. Ouviu quando Edward sentou em uma das poltronas, porém não voltou a olhá-lo. Resolveu encará-lo somente quando a composição já havia partido e imprimia certa velocidade; sufocada pela falta de palavras e pela ansiedade que novamente a corroia.

– Disse... – sua voz morreu ao se deparar com os olhos azuis postos em si. Recuperando-se, pigarreou e recomeçou. – Disse que... Sabia o que eu deveria dizer a Embry. Poderia me ajudar nessa questão?

Perfeito! O barão exultou em pensamento. Descobrir qual seria a reação da moça sobre aquele tema seria preferível àquele silêncio massacrante. Seguro do que faria, sem respondê-la, capturou um documento no bolso de seu casaco e o estendeu para ela.

– Veja... É isso que dirá para Embry.

Isabella não saberia nomear o que sentiu ao ver o papel dobrado, medo talvez. Via ser um documento; um certificado. Unindo as sobrancelhas, estendeu a mão para pegá-lo.

– Do que se trata? – perguntou; receosa em abrir.

– Veja. – Edward repetiu, preparando-se para o que viesse.

Com dedos trêmulos, ela fez como pedido e desdobrou o papel. Sua incredulidade nasceu ao descobrir se tratar de um novo certificado de nascimento para Embry e se agravou ao ver o sobrenome do barão pai substituindo o seu.

– O que significa isso? – Isabella agitou o papel, controlando-se para não gritar. – Como...? Como...? – as palavras não saiam.

– Como consegui? – Edward arriscou o palpite, inabalável ante ao destempero. Dando de ombros disse o que deveria ser óbvio. – Não há nada que eu não consiga em Westking!

Diante de tamanha pretensão Isabella encontrou sua voz. Todo o constrangimento extinto completamente.

– Não duvido que consiga o que quer que seja em qualquer dia da semana afinal, até mesmo Carlisle me conseguiu um novo nome. O que quero saber é como ousou dar o nome “dele” para Embry? Eu deveria ter sido consultada sobre isso!

– Não, não deveria – retrucou o barão, tendo o constante ciúme inflamado. – A mim não interessa saber sobre a influência de Sir Cullen para ajudá-la a se manter no anonimato, e, sim, reparar o seu erro ao negar um pai que desse nome legítimo ao seu filho. Ou Swan é de algum parente que ele conheça?

– Sim – ela retorquiu num murmúrio raivoso; embargada. – É o meu nome. Um que escolhi para apagar de vez o passado de uma vida que o pai dele arruinou. Você não tinha o direito de incluí-lo no certificado... Não tinha.

Ao se calar, suprimiu um soluço. Não queria chorar; nem mesmo de frustração por ver suas determinações serem simplesmente desprezadas pelo barão.

– Desculpe discordar... – falou, estendendo-lhe o lenço que voltou ao bolso quando ela sinalizou que não o receberia. Com um suspiro resignado, ele prosseguiu. – Como novo barão, reservo-me o direito de assumir todas as pendências deixadas por meu pai; as boas e as ruins. Assim sendo...

– Embry não é uma pendência! – Isabella rebateu ofendida; cortando-o. – Ele não é nada de vosso pai e não tem que ser seu. Principalmente se irá tratá-lo como um estorvo. Nunca pedi nada de sua família para ele e se eu soubesse que esse era seu pensamento não teria concordado com essa viagem... Lamento que tenha me mostrado isto somente agora. Se ainda houvesse tempo voltaríamos a Wisbury.

– Não, não voltaríamos Isabella. – Edward negou sucintamente, a voz num rouco sibilar. – E pare de dizer tantas bobagens. Entendo que nutra algum rancor por meu pai, contudo nós três temos o mesmo sangue, isso jamais irá mudar. E não distorça minhas palavras. Eu não me referi a Embry como sendo um estorvo, mas tem que admitir que essa herança não seja das mais adequadas.

– Muito bem... – ela aquiesceu. – Realmente não posso negar, ainda assim gostaria de ter sido consultada. Evidentemente eu negaria que atribuísse a paternidade ao vosso pai, mas...

– Leia a nova certidão com atenção Isabella – demandou o barão; talvez o pior estivesse ainda por vir.

Não havia o que ler, ela pensou ainda irritada com a invasão do barão ao baixar os olhos para o papel que por muito pouco não rasgou. Com um bufar exasperado, leu novamente o novo nome de seu pequeno: Embry Edrick Masen Bradley.

Novamente seu coração protestou por não ver o seu sobrenome. Sentia as lágrimas voltarem aos olhos quando leu o nome escrito em letra rebuscada no espaço reservado ao pai. Estarrecida ergueu o papel para lê-lo melhor. Porém não havia erro, lá estava: Edward Edrick Masen Bradley II.

O balanço do trem lhe pregava peças, era isso! Disse a si mesma. Fechando os olhos por alguns instantes, Isabella maneou a cabeça como se daquela forma seus pensamentos se ordenassem. Então respirou profundamente e voltou a ler o certificado. E não havia engano ilusório; Edward havia assumido a paternidade do irmão.

– Você só pode ter enlouquecido – sussurrou; sua voz simplesmente se foi.

– Por certo que não enlouqueci – Edward assegurou: impassível. – Quando nos apresentar dirá que sou o pai.

– Por que fez isso Edward? – Ela indagou, derrotada, o coração aos saltos por não entender aquela decisão.

– Era a única solução – ele respondeu seriamente, tentando adivinhar os pensamentos da moça, e também procurando amenizar o aborrecimento pela rejeição que sentia vir dela. – A semelhança entre nós é notória e eu não deixaria que a aparição de um filho ilegítimo manchasse a boa reputação de meu pai.

– Excelente reputação! – Isabella desdenhou. – Impressionante como ele iludia a todos, especialmente a você!

– Que seja! – o barão alteou a voz, esquecendo-se por um segundo onde estavam. Refreando seu mau gênio, baixou o tom e prosseguiu:

– Não admitirei que diminua a importância de meu pai, e muito menos que desfaça dele! Vamos aceitar a hipótese de que o que diz seja verdade... Por certo eu o odiaria com todas as minhas forças, porém, nem assim permitiria que emporcalhassem o nome que ele me legou. Um nome que até hoje faço o possível para manter ilibado. Esqueça-se de seu primeiro senhor Isabella e me diga. Devo pagar por algo do qual não tive qualquer participação?

– Evidente que não, e essa nunca foi minha intenção – ela abrandou a voz, preocupada com a menção a um “primeiro senhor”. Depois especularia sobre aquilo, no momento tinha aquela situação a resolver e começaria por demonstrar entendê-lo; tranquilizando-o:

– Como prova do que digo, nunca apresentei Embry e quando surgiu a mais remota possibilidade de nós dois ficarmos juntos, pedi que me mantivesse em segredo. E ainda pode ser assim Edward... Não precisa nos apresentar a ninguém... Farei o que quiser, direi que é o pai, mas não tem que...

– Chega de tantos segredos Isabella. – Edward a interrompeu. – O único que existirá será este. Para todos diremos que eu sou o pai de seu filho. Faremos com que acreditem num relacionamos passado e que, ao nos separamos, deixei-a grávida. Essa história ainda será mal vista por alguns, entretanto, é a mais aceitável... Principalmente por eu estar disposto a reparar meu erro.

Ao se calar Edward sorriu escarninho. Meses atrás desejou ser ele a ter obrigações para com ela; estava feito!

Alheia até mesmo ao movimento do trem sobre os trilhos que os levava a Londres, Isabella remoeu as palavras do barão sem saber ao certo o que pensar. Se Edward assumiu a paternidade e aquele seria o único segredo... Recusando-se a dar asas a sua fértil imaginação, perguntou:

– O que pretende Edward? O que determinou para Embry e... para mim?

O receio era mais bem recebido pelo barão do que a rejeição. Antes assim uma vez que não haveria outra solução para ambos. E, como deixá-la ir não era uma opção, expôs o que fariam a partir dali.

– Mandei reservar dois quartos em Apple White, um para você e outro para Embry. Não quero apenas conhecê-lo Isabella, traremos o menino conosco e iremos todos para minha casa. Assim que tudo estiver de acordo, nós nos casaremos.

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Casar com o barão! Ao assimilar as palavras o interior da cabine girou e o ar faltou para Isabella. Antes que pudesse prever o barão estava ao seu lado, amparando-a para que não caísse sobre o colchão, recostando-a contra seu peito enquanto precariamente a abanava, aflito.
– Isabella, respire! – ordenou.
– Não... – ela arfou. – Não consigo...
– Inferno! – Edward praguejou a si mesmo por ser tão descuidado em seu ressentimento.
Preocupado ao vê-la corar ainda mais enquanto tentava sorver o ar, o nobre soltou os botões da parte superior do vestido e então desprendeu alguns colchetes do espartilho.
– Respire! – novamente ordenou, massageando-lhe o colo. – Respire Isabella!
Empenhada em atendê-lo, a moça permaneceu a puxar o ar até que este voltasse a respirar naturalmente. A grandiosidade da notícia ainda fazia seu coração bater fortemente, porém a mão que a socorria passou a aquecê-la, fazendo nascer um desejo inoportuno que não colaborava com sua recuperação. Segurando-a, afastou-a de seu peito.
– Estou bem agora – mentiu. – Obrigada!
– Tem certeza? – Edward libertou sua mão para segurá-la pelo queixo e girar o rosto corado.
– Tenho... Desculpe-me por isso.
– Eu deveria ter tomado maior cuidado – disse a guisa de escusa, sentido, ainda a manter o rosto dela próximo ao seu. – Esqueci que meus pedidos de casamento sempre a levam ao desmaio.
Não fora um gracejo. Naquele instante o barão entendia todo o teor oculto nas reações da moça.
– Por duas vezes o pedido me surpreendeu – ela retrucou mansamente, ainda sem forças; trêmula pela situação, pelos toques, pela proximidade. – Na primeira era apenas brincadeira...
– Agora não é – o barão salientou duramente. – E deveria estar preparada, pois avisei que não nos separaríamos.
– Sei disso – concordou, mirando a boca rígida. – Só não... Somente não pensei que ainda insistisse em se casar comigo, pois não sou a mulher certa Edward. Bem sabe...
– Como não, se é a mãe de meu filho?
Isabella quis acreditar que aquele tivesse sido um chiste, um dos tantos que o barão liberava quando estavam juntos e bem, mas sentia não ser. Ele não acreditava em sua inocência. Para ele, fora amante de Edward I deliberadamente. Maldito fosse o barão pai que ainda interferia. Odiava-o, mas decidiu naquele instante não mais se deixar abater. Edward poderia estar magoado, porém a queria junto a si, então faria como bem determinasse.
– É verdade... – murmurou, saboreando as palavras. – Sou a mãe de seu filho.
Edward piscou algumas vezes, confuso com a mudança. Cogitou questioná-la para saber o que pensava, porém se calou; não importava. Relevante era seu plano seguir a contendo.
– Sendo assim... – disse brandamente alisando pela última vez a pérola do anel que por meses carregou em seu mindinho antes de retirá-lo. – Acho que seria adequado que voltasse a usar isto.
Tomando a mão de Isabella, escorregou o anel que sempre pertenceu a ela ao longo do dedo anular.
– Ah, Edward... – as palavras desapareceram enquanto mirava a pérola negra em seu dedo.
– Considere-se comprometida comigo. Dessa vez para sempre, espero.
– Para sempre... – ela confirmou num murmúrio.

Notas finais
Bem... O que acharam? Edward pai de Embry. Casando com Bella. Baronesa com certeza vai ter uma síncope. Vamos ver o que vem com essa decisão. Espero que tenham gostado... :)Me contem!Bjus... tenham todas uma linda semana!