Borboleta Negra
28 Capítulo Vinte e Sete
Notas iniciais
Já chego avisando que depois desse capítulos, faltam exatamente 3 para o final de temporada.
Também quero agradecer o reviews... Ainda falta responder alguns, mas acredito que amanhã eu consiga.
Quero agradecer a Angel pela indicação; ADOREI, obrigada!... :D
Agora vamos ao capítulo, pois já estou atrasada com ele...
BOA LEITURA!
Com o atabalhoamento de sua noiva, imediatamente Edward olhou em sua direção para descobri-la pálida; trêmula. A cor, então, voltou violentamente ao rosto exangue, levando o barão a franzir o cenho e questionar com evidente desconfiança:
– Você o conhece?
– Eu o vi algumas vezes... – Isabella respondeu rapidamente, abaixando-se para recolher o que derrubou. Ainda agachada, a sorver o ar pausadamente, acrescentou: – Esse cavalheiro é dono de uma das fazendas de Wisbury, praticamente todos o conhecem.
– Aquele pulha não é, nem nunca será, um cavalheiro. – Edward vociferou ainda descrente das palavras dela. – Conversaram alguma vez?
Após um pigarro, a moça se levantou e, dando demasiada atenção ao dobrar do pano que derrubou, respondeu:
– Duas ou talvez... três vezes, à saída da missa – ela havia sido interpelada por Laurent todas aquelas vezes antes mesmo do final da pregação, então não mentia. Caso Edward se aprofundasse no assunto seria obrigada a fazê-lo, então tentou tirar o foco de si. Encarando-o como sabia que ele apreciava, indagou: – Por que acha que ele mandaria alguém sabotar sua sidreria?
– Porque Hunt me detesta, assim como eu a ele – a resposta foi seca, enquanto Edward lhe perscrutava rosto ao se aproximar.
– Entendo... – Isabella murmurou, ocupando-se de embeber a ponta do pano com bálsamo trazido.
Aquela novidade ofuscava seus planos. Como se não bastasse todos os impedimentos, agora tinha aquele desgraçado que lhe infernizava a vida a se interpor também entre ela e o barão. No momento não sabia mais o que pensar, então tratou de apenas cuidá-lo.
– Desculpe se fizer doer. – Isabella pediu ao tocar o hematoma do queixo. Muito consciente do olhar avaliador sobre ela, arriscou: – Talvez possa estar errado, não?
– Não há a mínima chance. – Edward assegurou quando ela passou a espalhar o líquido sobre seu abdômen. – Infelizmente agora serei obrigado a desconfiar de todos, pois se até mesmo o Sr. Denali, que conhecia toda minha vida, foi capaz de me trair, o que esperar das outras pessoas. Aquele canalha pode usar qualquer um para me atingir.
– Odeiam-se tanto assim? – Isabella perguntou num fio de voz.
– Mais do que você possa imaginar! – Edward, ao comentar, segurou-lhe o pulso. Com sua veemência ela o encarou antes que acrescentasse: – O que começou com uma antipatia gratuita e imediata, acabou ganhando força até que chegamos a isso. Acredito que para me destruir ele seja capaz de ir muito além de arruinar minha safra.
À medida que a intensidade dos olhos azuis crescia o coração de Isabella minguava em seu peito. Conhecia bem o quanto aquele cavalheiro era capaz e, no momento, começava a duvidar que conseguisse barganhar com a conhecida ambição quando soubesse que ficaria ao lado do barão depois de violentamente o rejeitar. Para massacrar seu coração de vez, Edward concluiu:
– Ele seria capaz de tirar minha vida.
– Edward... – ela murmurou, sufocada em seu alarme. – Isso não!
– A prova está aqui – o barão, impassível, soltou-lhe o punho para apontar o braço enfaixado. – Por sorte fui atingido de raspão, mas o tiro poderia ter sido certeiro.
– Um tiro! – Isabella exclamou e saltou da cama como se ela própria lhe pudesse fazer algum mal. – Ai meu Deus!
Aflita, lutando contra as lágrimas e o sufocamento, a jovem passou a andar de um lado ao outro, torcendo os dedos nervosamente. Não deveria se espantar, afinal conhecia a covardia de Laurent Hunt. E, tomar conhecimento do quanto seus instintos ruins poderiam ser ainda piores, justamente num atentado contra Edward, parecia ser sua resposta; talvez apenas restasse a separação, pois mais uma vez, aquele pústula ameaçava alguém que amava.
Edward chegou até ela exatamente quando as forças ameaçavam lhe deixar. Obrigando-a se manter de pé ao tocar em seu braço. Extremamente culpado por ter desconfiado que ela tivesse alguma relação com seu desafeto, o barão, vestido em sua ceroula, amparou-a pelos ombros sem se importar com a dor de seu braço.
– Bella, não fique tão alarmada – pediu manso. – Está vendo que estou bem. Não foi nada grave.
– Mas você mesmo disse... – ela falou embargada, a preocupação fazia parte de seu desespero; não podia evitá-la. – Que poderia ter sido fatal...
– Fui um insensível – recriminou-se, tentando movê-la. – Venha se sentar my lady... Ajude-me, pois não posso arrastá-la.
Isabella queria tão simplesmente sumir ao vê-lo culpado, mas não havia como. E, mesmo que pudesse, não desapareceria deixando Edward ferido. Era uma impostora, tão falsa quanto o antigo funcionário ou nociva como Laurent. E cada novo detalhe a distanciava mais da verdade, tornando qualquer entendimento por parte do barão, não tão magnânimo, impossível.
– Volte você para a cama – ela se ouviu ordenar. Era aquilo! Simplesmente não poderia lidar com uma atenção não merecida, nem com todas aquelas descobertas, então se defendeu como sabia. Sedando-se com sua frieza, acrescentou: – É você quem precisa de cuidados, não eu.
Com suas forças recuperadas, Isabella o encarou. Secando suas lágrimas com as mãos, relutou para não sucumbir ao olhar um tanto surpreso e interrogativo.
– Ande! – repetiu a ordem como se ele fosse um menino. – Está com febre, não deve pisar nesse chão gelado.
O barão a atendeu tão somente por estar confuso, reconheceu naquele olhar duro e na altivez, a mesma atitude de quando a conheceu na loja de doces; e não gostou. De volta à cama, Edward retomou sua análise enquanto sua noiva trazia a bacia para recolocar a compressa fria em sua testa, muito séria. Batidas leves contra a porta dissiparam um pouco a tensão, distraindo-os.
– Milord, Isabella... – Marie chamou a meio tom. – Estão acordados? Não quero perturbá-lo, somente avisar que estarei na cozinha.
– Entre Marie. – Isabella pediu; agradecida pela interrupção.
– Bom dia – cumprimentou ao afastar a posta. – Vim avisar que estaria a disposição, mas... Oh!
Com sua exclamação, a governanta cobriu os olhos e rapidamente voltou às costas para a cama. O barão e sua noiva estranharam a reação por um segundo até que cada um deles entendesse. A despeito do clima tenso, Edward considerou engraçado e até mesmo esboçou um sorriso condescendente. Isabella por sua vez, não se divertiu em tempo algum.
– O que houve Marie?
– Mil desculpas, eu não sabia que Lord Masen não estava composto.
– É apenas um peito masculino Marie – ela retrucou. – Por certo deve ter visto o de seu marido inúmeras vezes.
– Como bem disse, o de meu marido... – a serviçal comentou um tanto sentida. – Se me derem licença, prefiro sair e retornar quando milord estiver vestido.
– Tem toda Sra. Newton. – Edward a liberou, livre do humor.
– Poderia providenciar o café de seu senhor? – Isabella indagou antes que saísse.
– Trarei para os dois – ela anunciou sem olhá-los, a mão pousada na maçaneta.
– Traga apenas para o barão, estou sem fome.
– Assim farei. – Marie respondeu e se foi.
– Por que escandalizá-la dessa maneira Isabella? – Edward quis saber, pois não a entendia. – Se está aborrecida comigo, cobre de mim, não de quem não merece.
A repreensão abalou a frieza protetiva.
– Desculpe-me... Fiquei assustada com o que disse e me descontrolei. É evidente que não estou aborrecida.
– Não tem que se desculpar. – Edward lhe tocou o rosto, levando-a a fechar os olhos. Não restavam dúvidas de que aquela mulher sempre o confundiria. – Eu deveria ter sido mais sensível. Principalmente quando nem desejava lhe contar essas coisas.
– Fez bem em me dizer... Estou bem agora, não se preocupe – abrindo os olhos, evitou olhá-lo e se levantou. – Vou até o quarto de banho. Já volto.
Sem esperar por novos comentários, Isabella deixou a cama e deixou e saiu porta afora. Marchou decidida até o cômodo onde atendeu suas necessidades e se lavou, proibindo-se terminantemente de pensar. Estava perdida e, como encarar o barão não a ajudaria, já a seguir pelo corredor, ela decidiu ir até o quarto de Rosalie.
Não tinha pressa, então procurou pelo vestido que usaria naquele dia. Quando seus dedos esbarraram em seu próprio vestido, correu-os pelo veludo verde, sentindo um nó fechar sua garganta; contudo não chorou. Separou o vestido azul que fora presente de Edward, a anáguas e um espartilho. Lentamente se despiu antes de começar a se arrumar. Terminava de abotoar o espartilho quando bateram à porta.
– Sou eu Isabella, posso entrar?
– Sim, Marie – pediu com o coração aos saltos por crer se tratar do barão. – Venha me ajudar.
– Vim procurá-la a mando de Lord Masen. – Marie anunciou ao entrar. – Como não estava onde ele disse que estaria, vim até aqui.
– Irei até ele assim que me ajudar. – Isabella assegurou já abotoar o espartilho. – Levou-lhe o desjejum?
– Já está com milord – disse profissional, colocando-se às costas da moça para ajustar a fita, preparando-a.
– Marie, eu nunca me lembro de perguntar o que foi feito de meu chapéu. Sabe onde está?
– Perdoe-me a falha, Isabella. – Marie exclamou enquanto ajustava o espartilho. – Quando o limparam, fizeram um pequeno rasgo, mas já está recuperado. Carmem além de boa lavadeira é ótima com as agulhas. Nem notará...
O fora todo em tom de escusa, o que aumentou a culpa sentida. Sentindo que a governanta já amarrava as fitas, tranquilizou-a:
– Acidentes acontecem. Depois apenas o deixe aqui – calou-se por segundo antes de pedir, arrependida. – Marie, me desculpe pela forma que falei. Não deveria tê-la embaraçado, nem mencionado seu falecido marido.
– Obrigada. – Marie não a livrou de desculpar-se e embargada acrescentou. – Já lhe disse que não estou acostumada com essas liberalidades e jamais vi um homem em qualquer fase de nudez que não fosse meu marido. Nem mesmo meu filho se mostra com o dorso despido para mim.
– Acredito que sim. Asseguro-lhe que nunca mais se repetirá.
– Obrigada – a governanta repetiu, já com voz estável, finalizando seu trabalho.
Nenhuma das mulheres falou até que se despedissem, minutos depois. Isabella não se sentia pronta para estar com Edward, mas não poderia evitá-lo. Principalmente quando ele ainda precisava de seus cuidados. Com um suspiro resignado, lamentando não ter a companhia de Nero que dela nada esperaria além de um afago, ela retornou ao seu quarto. Para sua surpresa não encontrou Edward sozinho, nem estendido sobre a cama. Contrariando a necessidade de repouso, o barão se encontrava de pé, arrumando-se apressadamente enquanto Jacob se mantinha ereto aos pés da cama.
– Bom dia senhorita – ele a cumprimentou tão logo entrou.
– Bom dia Jacob – a resposta não fora dita diretamente para ele, mas para o barão que abotoava sua camisa, sem deixar de encará-la. Com isso bastou indagar. – Aonde vai?
– Preciso ir até a cidade. Vieram avisar que Gruen conseguiu escapar essa noite, então quero confirmar com meus próprios olhos – respondeu antes de vestir seu colete e passar a abotoá-lo com a mesma pressa.
– Não vá Edward – ela pediu aflita. – Ainda nem está recuperado da febre.
– Ele está bem! – Jacob interferiu, troçador. – Já o vi em pior estado senhorita.
– Mas eu não vi. – Isabella retrucou sem ser grosseira; não incorreria no erro, contudo não poderia deixar que o amigo tirasse o barão de casa estando febril e ferido. – Impostar-se-ia de esperar lá fora, por favor?
Diante do barão não era a ela que o criado devia obediência, então Jacob moveu os olhos para seu patrão que lhe indicou a porta com o olhar. Somente então ele inclinou a cabeça para os dois e saiu, fechando a porta atrás de si.
– Por favor, Edward, fique! – Isabella pediu quando ele sentava para calçar as botas. Correndo os olhos em volta, aflita, descobriu a bandeja intocada sobre o aparador e acrescentou: – Nem comeu... Deixe que Jacob se informe por você.
– Assim como você, não estou com fome. E repasso minhas responsabilidades Isabella.
– Ao menos dessa vez poderia repassar, não? – Isabella teimou; não gostava das sensações que a afligiam. – Fique em repouso. Se Alec fugiu, você pouco ou nada poderá fazer.
– Talvez não, mas posso tentar. O que não posso é ficar aqui, parado. – Edward replicou, fechando a segunda bota. Ao se levantar, comovido com o olhar novamente preocupado, pediu apaziguador: – Poderia pentear meu cabelo?
Por um instante de rebeldia infantil, ela cogitou negar. Contudo, sabendo que nada, muito menos uma ação tola, o demoveria, ela buscou o pente e uma das fitas.
Edward a esperou sentado sobre a cama e deixou que ela domasse seus cabelos, correndo o pente e a mão livre delicadamente pelos fios até que os prendesse. Queria não ter que deixá-la, mas não havia como ter conhecimento de tal possibilidade de fuga sem que nada fizesse.
– Eu não teria tempo de barbeá-lo? – Isabella cogitou, tocando seu rosto ternamente.
– Não. – Edward destruiu sua última tentativa de retê-lo, então lhe tomou a mão e depositou nela um beijo terno antes de sentar corretamente e derrubá-la sobre seu colo. Abraçando-a fortemente, prometeu: – Tentarei não demorar, nem me esforçar.
– Deveria nem mesmo sair – ela retrucou. – Hoje deveria era fica na cama.
– Não teria graça ficar na cama sem você – o barão troçou com a verdade que lhe intrigava desde que a viu entrar. – E pelo o que vejo estava pronta para me deixar aqui sozinho.
– Eu pretendia ir até o salão com o oratório, mas logo voltaria – com a fraca explicação, ela observou: – Sabe que há guardas que podem cuidar do fugitivo, não?
– Sim, eu sei. Contudo eu não poderia ficar aqui sem fazer nada, my lady. – Edward replicou com carinho, aceitando a justificativa dela para estar arrumada.
Por um instante lamentou que a visita ao túmulo do pai e a ida à igreja tivesse fracassado, mas se alegrou em perceber que Isabella voltava ao que era antes. O entendimento entre eles dois deveria ser sempre daquela forma. Redobrando sua atenção, acrescentou:
– E não quero que se preocupe, mas lembre-se que ele apontou a arma para mim uma vez. O tiro acabou sendo acidental, não me feriu gravemente, porém só Deus sabe o que ele seria capaz de fazer. Não sossegarei até vê-lo capturado... – ou morto acrescentou em pensamento.
– Promete que não vai se colocar em perigo deliberado – ela pediu num murmúrio preocupado.
– Prometo! – Edward assegurou sincero, tomando a boca amada de assalto para beijar mansamente; não queria partir seu lábio como na noite passada.
Caso tivesse a chance revidaria o soco que o privava de ter o melhor de sua noiva. Com a raiva renovada, o barão interrompeu o beijo e pediu: – Poderia pedir a Jacob que vá ao estábulo encilhar Draco, enquanto termino de me arrumar?
– Certamente. – Isabella lamentou a separação precoce, mas o atendeu.
Edward caminhou despretensiosamente até sua cômoda, esperando pelo momento em que Isabella fecharia a porta atrás de si. Tão logo a ação se deu, o barão capturou sua pistola, escondida sob suas roupas e a colocou no cós de sua calça, no lado esquerdo de seu corpo. Arrumava o colete em que lugar, quando sua voltou.
– Jacob ficou confuso com o pedido – ela comentou ao entrar. – Parece que já tinha avisado que Draco está pronto.
– É mesmo? – Edward franziu o cenho. – Não prestei atenção.
– Tem certeza que está bem para sair Edward? – Isabella estranhava o comportamento subitamente suspeito. Olhando em volta sem saber ao certo o que procurava enquanto ele vestia seu grosso casaco, perguntou direta: – Está me escondendo alguma coisa?
– Que noiva mais desconfiada fui arranjar! – Edward gracejou, aproximando-se para abraçá-la brevemente com o braço são antes de se afastar, recomendando sem responder: – Vá ao salão e às suas rezas dominicais sem maiores preocupações. Quando menos esperar, estarei de volta.
– Sendo assim eu o esperarei para o almoço – ela o segurou pela mão ao se afastar; retendo-o.
– Prefiro que não me espere – o barão, delicadamente tentou soltar-se.
– Então não prometa o que talvez não possa cumprir.
A pleno galope, rumo à Westking, bloqueando a dor em seu braço ferido, Edward ainda tinha as últimas palavras de Isabella, assim como sua expressão consternada, em sua mente. Odiava ter que deixá-la daquela maneira, mas era preciso. Não havia como saber que Alec Gruen havia fugido sem tentar descobrir como tal fuga fora possível e quais as providências tomadas pelo inspetor Cooper.
– Não deveríamos ir um pouco devagar? – Jacob gritou às suas costas. – Não deveria forçar tanto esse braço.
– Agora abandonou as falas da baronesa e argumenta como minha noiva? – Edward provocou, não reduzindo a velocidade de seu cavalo.
– Falo por mim mesmo Sir Masen – o criado retrucou inabalável. – O ferimento está recente e sua noiva mencionou que está com febre.
– Ao que você mesmo, disse já ter me visto em pior situação – retorquiu livre de humor. – Deixe de cuidados. O quanto antes chegarmos a Westking, mais cedo voltamos para casa.
Jacob não o respondeu, apenas incitou seu baio a correr tanto quanto o andaluz de seu patrão. Em poucos minutos entraram na cidade e se dirigiram ao edifício sede do distrito policial.
– Espere aqui. – Edward pediu ao criado entregando-lhe as rédeas de Draco ao desmontarem. – Não quero que você e Otto Cooper se estranhem novamente.
– O velho é um boçal. – Jacob comentou raivoso. – E agora prova ser incompetente. A prova é essa fuga.
Edward não poderia discordar, porém não alimentaria a antipatia de seu criado, então disse apenas:
– Vamos ver como tudo se deu. Espere-me aqui.
Ao entrar encontrou a mesa do inspetor vazia e apenas um guarda a postos, vigiando o corredor que levava às celas.
– Bom dia Lord Masen – o guarda impecavelmente fardado o cumprimentou tão logo o viu.
– Bom dia! Onde está o inspetor? – Edward indagou olhando em volta; como se daquela forma pudesse “ver” o que havia se passado na noite anterior.
– Saiu em diligência para tentar capturar Alec Gruen, milord... Lamento que ele tenha fugido.
– Saberia me dizer como isso se deu? – indagou aborrecido; gostaria de participar de tal perseguição.
– Infelizmente não poderei dar detalhes, pois não era meu turno, mas... Pelo o que fiquei sabendo o prisioneiro rendeu o guarda noturno aqui mesmo nessa sala. Como ele estava sozinho, pouco se pôde fazer.
– Então ele mesmo abriu a cela – foi a dedução óbvia e inevitável de ser feita. Antes que o guarda respondesse desnecessariamente, ordenou. – Leve-me até lá.
– Milord... – o guarda balbuciou incerto. – Não sei se devo. O inspetor...
– O inspetor não está e acredito que reconheça minha autoridade. Não quer que eu entenda sua recusa como insubordinação, não é mesmo?
– De forma alguma milord!... Eu... – a gagueira e o atabalhoamento se deram por breves segundos. Assumindo sua postura anterior, o guarda lhe deu passagem para o corredor, indicando seguro. – Venha por aqui, por favor...
Edward o seguiu em silêncio até que lhe fosse apontada a cela na qual seu funcionário deveria estar preso. O barão não era investigador, mas não lhe pareceu que houvesse sinais de arrombamento em parte alguma, contudo ainda custava a acreditar que a fuga tivesse sido facilidade de alguma maneira. A coçar seu cavanhaque nervosamente, o barão considerou que infelizmente não poderia confiar em mais ninguém. Se antes a condescendência com que o interrogatório fora conduzido lhe parecia estranha, no momento lhe era completamente suspeita.
– Saberia me dizer se o inspetor possuía alguma pista? Sabe para qual direção ele foi?
– O plano era dividirem-se em três equipes; uma vasculharia as casas da cidade, outra iria percorrer o perímetro do rio e outra o bosque – ele respondeu sem hesitar e acrescentou solidário: – Soube o que ele fez milord. Confie que vamos recapturá-lo.
Edward tinha muitas dúvidas, contudo nada que dividisse com o guarda. Agradecendo a colaboração, deixou o edifício, voltando para a claridade nublada daquele dia sem sol. Imediatamente recordou que em sua última ida à cidade o tempo se encontrava também sombrio. Instintivamente olhou para o final daquela rua, como se assim pudesse ver o hotel que ficava em outra. Não deveria dispersar, mas lhe ocorreu que em tempo algum especulou quais os motivos que levaram Isabella até o pomposo edifício e nele ficasse por um tempo ínfimo.
Não gostou das possibilidades que sua mente criativa lhe propunha, tanto quanto se desagradava de saber que Alec estava solto, então tratou de voltar ao que o trouxe até a cidade, privando-o de estar com sua noiva de vida tão nublada quanto aquele dia.
– E então? – Jacob indagou tão logo se acercou dele para receber as rédeas de seu cavalo. – O inspetor está aí?
– Não! – Edward respondeu ao montar. – Fui informado de que ele saiu à caça de Gruen.
– O que faremos agora? – Jacob o imitou, montando rapidamente. – Voltamos para casa?
Tentador, no entanto, Edward se conhecia bem para saber que não aguentaria ficar isolado em Apple White, esperando por notícias. Duvidava que Alec estivesse escondido em Westking, o que lhe deixava o bosque e o rio como opções, então seguiu seu instinto.
– Caso não se importe gostaria de ir até a margem do rio e percorrer alguns trechos. Talvez possamos nos encontrar com o inspetor ou algum de seus homens.
– Evidente que não me importo – o criado já movia o cavalo m direção à saída da cidade. – Quero aquele cretino preso novamente.
Era aquele o desejo do barão, contudo Edward se ouviu indagar, ao segui-lo rumo à estrada que os levaria ao rio.
– Você se lembra quanto tempo Isabella ficou no hotel?
– Se minha memória não está falha, a senhorita ficou pouco mais de uma hora, Sir Masen. – Jacob respondeu com estranheza, antes de indagar: – Por que pergunta isso, agora?
– E por não agora? – Edward o imitou, irritando-se por não parar sua mente pré-disposta a responder a questão por Isabella.
– Primeiro porque estamos em meio a uma caçada e segundo, desculpe-me se o aborrecer, eu não vejo qual a ligação os assuntos possam ter entre si.
– E não têm – o barão falou, creditando sua criatividade torturadora à febre; estava delirando. Há muito tempo havia descartado a possibilidade de Isabella ser uma meretriz. Sim, delirava. Ela havia de lhe dizer o que fazia naquele hotel no dia em que se conheceram. Com a determinação, murmurou quase que para si: – Apenas me ocorreu que nunca perguntei a ela o que fazia lá.
– Nunca?! – Jacob engasgou. – Por Deus Sir, diga-me que sabe sobre a senhorita, mais hoje do que sabia a duas semanas para que eu não o considere um lunático por lhe propor casamento.
– Evidente que sei! – Edward retrucou veemente movido pelo orgulho.
Saber suas preferências quanto a flores e cores, hábitos ou crenças era algo relevante, mas precisava de mais para que não fosse de fato um maluco precipitado; considerou. Longe da influência atrativa que a moça tinha sobre ele, parecia mais fácil pensar com clareza. Tanto que se obrigou a usar sua razão para descartar a ideia absurda de que Isabella estivesse naquele hotel em algum encontro fortuito ou o que seria pior, a conspirar contra ele, recordando a si mesmo que no dia anterior, ela insistiu para que conversassem sem que ele não lhe desse a devida atenção.
– Deve me considerar um paranóico – disse a Jacob testando espantar a própria tensão –, pois em minhas cismas quanto a essa fuga estranha e um possível envolvimento de Otto Cooper com aquele cavaleiro, voltei-me contra quem não merece.
– Desculpe-me discordar – o moreno começou cauteloso, o que era raro, levando o patrão a encará-lo, imediata e brevemente, antes mesmo que prosseguisse: – Não quero ser injusto com tão dedicada moça, mas a verdade é que nada sabemos sobre ela Sir Edward. Não é segredo minha estranheza quanto à rapidez com que ocorreu a mudança no tratamento para com vossa senhoria.
– Você estranha porque não a conhece como eu. – Edward respondeu seguro, livre da cisma ao defendê-la. – Há certas particularidades sobre Isabella, ditas ou apenas percebidas por mim no trato diário, que me fazem conhecê-la.
Com a declaração, Jacob revirou os olhos e exalou um bufar incrédulo, levando seu senhor a acrescentar:
– É fato que não sei muitos detalhes, mas a conheço essencialmente e confio que ela jamais se voltaria contra mim – afinal ela o amava, não?
– Não tenho como responder a isso Sir. – Jacob comentou, assombrando o barão. Era como se seu criado estivesse respondendo sua dúvida particular. Alheio ao espanto causado, ele prosseguiu: – E nem vossa senhoria. Um homem em sua posição, infelizmente, deveria desconfiar de tudo e de todos. Principalmente de garotas sozinhas que abriga em sua casa e que tão ferrenhamente lhe nega informações.
– Não nega mais! – Edward exclamou exasperado. – Se hoje não sei tudo sobre ela a culpa é exclusivamente minha.
– Se é como diz... – o criado murmurou significativo. – Calo-me Sir Edward.
Melhor daquela forma, o barão determinou aborrecido. Não era um ingênuo apaixonado e confiava em seus instintos. Apesar de enigmática, Isabella era uma boa moça. Tanto que desde o início vinha tentando alertá-lo para a inconsequência de desposá-la. Quando chegasse ao palacete, finalmente a ouviria.
Com sua decisão tomada, seguiram em silêncio até alcançarem a margem do rio. Como era de se esperar não avistaram viva alma, nem rastros de que indicassem a passagem de uma diligência por aquele local. Apenas indicando a direção para Jacob, Edward seguiu rumo à ponte, sem que nenhuma marca na terra molhada fosse vista. Na obra, já em estado adiantado, o barão encontrou os trabalhadores que não deixavam o serviço nem mesmo aos domingos. Estes lhes disseram não ter visto nenhuma movimentação do inspetor ou seus homens nos arredores.
Agradecendo-os, Edward se voltou para seu criado que indagou:
– Para onde iremos agora Sir? Vamos para casa?
Seria o certo, pois continuar aquela busca parecia algo infundado, visto a imensidão do bosque, contudo Edward não se sentia inclinado a desistir. Olhando em volta, como se das árvores tivesse alguma resposta, falou:
– Não! Vamos procurar pelo bosque, margeando as estradas. Não acredito que Gruen fosse se aventurar pela parte mais densa.
– Vamos então – o criado incitou seu cavalo a se mover, seguindo seu patrão.
Novamente em silêncio, percorreram os trechos determinados até que os minutos somassem uma hora e depois essa se multiplicasse ligeiro para que no meio da tarde estivessem extenuados sem que tivessem encontrado um guarda sequer. Jacob já havia reclamado de fome por duas vezes, ao que Edward lhe pedia para aguentar firme. Ele mesmo não sentia falta de comida, mas se fazia o esforço de ignorar a sede e a febre que sentia aumentar, seu criado deveria tolerar apenas um desconforto.
– Sir Edward – o criado chamou, parando seu baio à beira do caminho. Quando seu patrão o encarou, voltando-se sobre a sela, prosseguiu: – Isso que estamos fazendo é insanidade. Não temos como...
Repentinamente o eco de um disparo vindo por entre as árvores o fez se calar e instintivamente se abaixar junto à sela. Edward lhe seguiu a ação, movido pelo reflexo defensivo, contudo, após um segundo disparo, logo se endireitou sobre Draco, seguro de que eles não eram o alvo.
– Isso foi perto – determinou olhando em volta. Decidindo por uma direção apontou e disse: – Acho que veio dali.
– Também acho que veio de lá. – Jacob concordou. – Será que são eles?
– Só há uma forma de saber...
Antes que considerasse o risco de se aproximar, Edward já incitava seu andaluz a correr na direção escolhida. Seu corpo todo doía, mas não se importava. No momento lhe interessava saber qual a razão dos disparos e se estes teriam alguma relação com a fuga de Gruen. Comprovando que os tiros vieram de perto, logo o barão avistou o corpanzil de Otto Cooper em meio às árvores. Não estava só e ainda segurava sua arma enquanto os guardas se ocupavam de alguém caído alguns passos diante de si.
Quando sua aproximação fora ouvida, o inspetor olhou em sua direção, preparado para uma possível defesa, porém ao reconhecer o barão, baixou a arma sem conseguir disfarçar o desagrado em vê-lo. Edward pouco lhe deu atenção e, sem desmontar, acercou-se da cena a sua frente, muito interessado em ver o homem ferido. Como esperava, encontrou Alec mortalmente ferido, atingido por um disparo certeiro em sua testa.
– Boa tarde – o inspetor o cumprimentou.
Seus guardas, os mesmos que estiveram em Apple White no dia anterior, igualmente os cumprimentou, fazendo uma leve reverência ao barão antes de voltarem a se ocupar de mover o corpo.
– Boa tarde! – Edward respondeu sem deixar de olhar o morto. Desejou que assim fosse, tanto que estava com sua arma preparada, mas intimamente agradeceu não ser o responsável por livrar o mundo daquele infeliz. Não lamentava, mas se ouviu perguntar: – Foi mesmo necessário?
– Sim, senhor barão! – Otto exclamou seguro. – Este indivíduo tomou todo o meu dia em sua captura e quando finalmente o encontro, ele me recebeu a tiros. Tive que me defender.
Jacob se moveu e ameaçou comentar algo, porém Edward o calou com um mover de mão. Evidente que dividiam a mesma dúvida, então o barão tratou de saná-la, comentando o que estava óbvio.
– Foi legítima defesa e que com isso não obteve mais respostas do que ontem.
– Exatamente milord! – Cooper confirmou condoído. – Infelizmente não conseguimos nada novo. Esse estafermo acabou com as chances de descobrirmos se vossa senhoria tinha razão em sua impressão. Lamento.
Não parecia ser o caso, Edward considerou. Com a morte de Gruen uma investigação longa, talvez infrutífera, fora abreviada; sem o principal suspeito o caso seria esquecido. O que, exatamente, um inspetor relapso lamentaria?
– É de fato uma pena – disse apenas, exausto.
– Noto que vossa senhoria não está bem – comentou o inspetor. – Não deveria estar de repouso após o atentado que sofreu?
– Deveria, mas quando soube da fuga achei melhor ajudá-lo. Também gostaria de saber como ela foi possível.
– Não sei como ele conseguiu a arma, mas o fato é que rendeu o vigia. Iniciei as buscas tão logo eu soube e pedi que avisasse um de seus criados quando aparecessem para a missa, mas não queria perturbá-lo, somente lhe manter informado.
Com aquela breve explicação, Edward concedeu ao inspetor o benefício da dúvida, afinal, se Otto Cooper, deliberadamente tencionasse estivesse eliminar um suspeito por qualquer razão, não precisaria criar aquela situação, muito menos avisá-lo. Fosse como fosse, mortos não falavam e aquele, mesmo que tivesse sido capturado vivo, provavelmente nunca delatasse Laurent Hunt.
– Agradecido pelo cuidado! – Edward estava no seu limite; sua mente farta de assuntos que não resolveria. Seu corpo pedindo água e cama. – Acredito que agora posso voltar em paz para Apple White. Vou deixá-los fazer seu serviço. Caso precise de mim para algo, basta que me procure.
– Acredito que nada será preciso, ainda assim, obrigado! – Otto se mostrou igualmente agradecido que a conversa findasse. – Volte para o repouso que nem deveria ter interrompido milord. E tome cuidado com quem contratar a partir de agora.
– Tomarei cuidado com todos! – Edward assegurou significativo, despedindo-se e colocando seu cavalo em movimento.
Jacob o seguiu quieto até que voltassem ao caminho, quando então exclamou exasperado:
– Legítima defesa? Pois sim! Essa foi a forma mais eficaz de encerrar a investigação.
– Penso o mesmo Jake, mas simplesmente não tenho condições de lidar com isso agora – o barão falou cansado. Como seu corpo podia doer tanto?
– Quando então? – Jacob insistiu. – Como faremos para pegar aquele canalha que se intitula Sir Hunt?
O barão reconhecia no criado o mesmo desprezo que nutria pelo cavalheiro citado, mas de fato não o alimentaria. Ainda que febril e extenuado, tinha que encarar os fatos.
– Simplesmente não temos como. – Edward reconheceu, embasado em seu conhecimento legal. – Não tenho como acusar Hunt formalmente, pois não tenho prova alguma. Gruen era um elo fraco e está perdido, mas... sinceramente falando, prefiro que esteja morto a me dando trabalho futuramente. O inspetor não fez nada que eu mesmo não estivesse preparado para fazer.
Ao se calar mostrou sua pistola presa à cintura.
– Essa também era minha intenção caso ele o ameaçasse novamente – o moreno insistiu também indicando sua arma –, mas ainda queria fazê-lo falar.
– Agora é tarde! – Edward exclamou sem lamentar antes de comentar o que acreditava ser a verdade. – Apenas nos resta ser vigilantes, pois Hunt já demonstrou do que é capaz e o quanto é esperto, não deixando rastros.
– Assim o faremos – o criado retrucou resignado e, olhando com atenção, comentou: – Vossa senhoria está mesmo muito mal. Não deveria ter se esforçado tanto. Quando chegar a Apple White, eu vou procurar por Marie para que ela vá...
– Não precisa. – Edward descartou seguro. – Deixe que a Sra. Newton descanse e vá também se recuperar para amanhã. Isabella cuidará de mim.
Sim, sua noiva cuidaria e logo saberia dela tudo o que era preciso, então, nos próximos dias se esqueceria de Laurent Hunt, Otto Cooper e qualquer outro que lhe criou algum problema para se concentrar única e exclusivamente em sua união com a jovem. Com Isabella haveria de ter paz e ser feliz, tendo forças para enfrentar as cobras que descobria a cercá-lo; sim senhor!
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Bem, como estamos em reta final, achei melhor não deixar spoiler para não piorar a ansiedade, mas está fácil do próximo capítulo vir um dia mais cedo.
Notas finais
E não esqueçam, 3 capítulos para o final...
Bjus amores.
Bom fim de semana!
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