Borboleta Negra
29 Capítulo Vinte e Oito
Notas iniciais
A impressão de Isabella era a de ter percorrido quilômetros apenas a circular diante da porta principal quando o barão e seu criado cruzaram o portão.
– São eles! – Leah verbalizou o pensamento da moça aflita.
Tão angustiada quanto ela, a esposa de Jacob tomou a liberdade de, segundo suas próprias palavras, fazer-lhe companhia durante a espera de seus respectivos pares, afastando-se apenas para preparar um chá calmante na ausência de Marie; dispensada após a recusa da moça em almoçar. A infusão de camomila, tão gentilmente servida, não surtiu qualquer efeito. Isabella estava em seu limite, muito ciente de que Edward não deveria ter saído naquele dia frio. Vê-lo despertou a ânsia de correr para encontrá-lo a meio caminho, mas se conteve. Ansiosa, pacientemente esperou até que ele estivesse diante dos degraus e desmontasse para juntar-se a ele. Jacob igualmente desmontou e rapidamente tomou as rédeas de Draco, já recomendando:
– É melhor que vá descansar Sir Masen.
– Deixe de me dar conselhos – o barão ordenou sem aborrecimento, agradecido por receber sua noiva na curva de seu braço tão logo ela desceu os degraus e o abraçou fortemente; como podia desconfiar dela?
– Eu paro se deixar Leah ficar para ajudar a senhorita a tratá-lo. – Jacob retrucou depois de receber a atenção de sua esposa.
Enquanto seu criado oferecia os serviços da cozinheira, Isabella tocou o pescoço quente de seu noivo e, antes que respondesse, falou por ele:
– Sim, o barão deixa que ela me ajude – quando Edward ameaçou protestar, Isabella nem o deixou iniciar. – Não diga nada, por favor... Está ardendo em febre.
Sim, estava e não tinha forças para discutir com sua noiva. Não quando lhe mostrava em ações o que com palavras tentou dizer a Jacob; alguém tão cuidadosa e amorosa jamais o trairia. Esperava que seu criado percebesse a verdade e deixasse suas cismas.
– Farei como determinar my lady – ele não se acanhou em usar o tratamento íntimo diante dos criados. Ela era sua senhora.
– Sendo assim – ela se voltou para Jacob e, sem desfazer o abraço, demandou: – Poderia providenciar a tina com água morna enquanto Leah prepara chá de orégano, é possível?
– Sim – disse Leah, já rumando para o interior da casa.
– Logo providenciarei o banho. – Jacob respondeu, servil. Demonstrando que naquele momento não acataria as recusas do patrão. – Quer que eu leve mais alguma coisa senhorita?
– Não, apenas a tina e a água.
O barão não apreciava aquela conversa onde os dois pareciam não vê-lo, mas estava cansado demais para reclamar. Agradeceu intimamente que Jacob se fosse e Isabella lhe servisse de apoio enquanto subia as escadas. Não depositou sobre ela todo seu peso, pois a moça não o aguentaria, mas reconhecia que sua noiva demandava certa força para sustentá-lo.
Apenas para não cansá-lo mais Isabella não o crivou de perguntas. Queria saber o que havia se passado, porém nada falou. Também gostaria de ralhar com o barão pelo adiantado da hora em voltar para casa visto que piorara a olhos vistos. Ainda no intuito de poupá-lo, ao sentá-lo na cama, tentou abaixar-se para retirar suas botas, contudo Edward a deteve, segurando-a pelo pulso.
– Senti sua falta – disse quando ela o encarou interrogativamente.
– E eu a sua. – Isabella reconheceu subitamente embargada; culpada.
Mais cedo, com a saída do barão ela terminou por agradecer a distância que lhe daria tempo para pensar em tudo o que conversaram. Todavia não conseguiu chegar à conclusão alguma e massacrava-a saber que a separação somente serviu para piorar o estado de saúde de Edward.
– Prove antes que eles venham – o nobre pediu. – Hoje não nos beijamos como se deve.
– Isso porque sua boca está ferida, esqueceu? – Isabella indagou carinhosamente.
– Ao inferno com minha boca ferida! – Edward exclamou com leve rispidez; não era criança e algo que ele não sabia determinar, tornava a saudade doída. – Quero um beijo decente Bella.
Nunca haveria como negar-lhe um beijo, então, inicialmente tentando não agravar o machucado, beijou-o de leve. Todo o problema é que ela não ditava coisa alguma, então logo se viu cativa de dois braços fortes que a puxaram de encontro ao peito amplo e a levaram quando o barão tombou de costas sobre a cama.
Isabella se preocupou com o braço ferido, mas não teve como recuar sem de fato machucá-lo mais, então se deixou ser abraçada e beijada apaixonadamente, rendida e comovida, ao sentir a língua quente prender a sua e o cavanhaque arranhar sua pele. Para seu alívio o corte no lábio do barão não voltou a abrir, tornando seguro que correspondesse a tanta volúpia.
– Edward... – ela protestou, quando ele libertou seus lábios para beijar-lhe a curva do queixo, enquanto movia as mãos por suas costas. – Deixe-me cuidar de você... Depois faremos o que quiser.
– Temo que hoje não seja assim – ele murmurou, rendido. Libertando-a. – Sinto como se meus ossos estivessem todos quebrados.
– É a febre! – Isabella sentenciou, afastando-se do calor bom, mas prejudicial ao barão. – Depois do banho e do chá se sentirá melhor.
– Assim espero! – Edward exclamou ainda deitado, sentindo que ela começava a retirar suas botas. Por ele ficaria onde estava então perguntou esperançoso: – Preciso mesmo de um banho? Você poderia me limpar com o pano e...
– Nada disso – ela o cortou gentilmente, reprimindo um leve sorriso ao considerá-lo tão infantil naquele momento quanto Embry todas as vezes que tentava escapar de um banho. – O objetivo não é limpá-lo e sim abaixar a febre.
– Já disse que não sou um menino – ele reclamou; preferia mesmo se aninhar entre as cobertas para dormir até que esquecesse o ocorrido naqueles dois dias e se recuperasse para conversarem.
– Então pare de agir como um. – Isabella conseguiu sorrir abertamente, por saber que a febre não o afetava ao ponto de arrefecer seu espírito contestador. Pondo-se de pé, pediu: – Agora se sente... Ou se levante e se dispa sozinho, já que não é um menino.
Provocado em seu orgulho, Edward fez como o pedido e se levantou. Apesar dos tremores que começava a sentir, e a dor acentuada em seu braço, retirou seu casaco e o entregou para a moça que lhe dirigiu um indisfarçado olhar de puro contentamento por vê-lo reagir antes de ir até a poltrona e acomodar a grossa peça de lã sobre ela.
Contagiado pelo carinho que emanava de Isabella, desabotoou o colete e, sorriu-lhe, desejando demonstrar que não estava tão doente, foi ele mesmo depositá-lo sobre a poltrona. Ao se voltar, todo cuidado para que sua pistola não fosse vista se tornou vão.
– Você saiu armado?! – Isabella praticamente engasgou. – Edward!
– Muitos cavalheiros andam armados, Bella... – ele tentou minimizar sua ação. – Foi apenas precaução. E de toda forma já estou de volta, inteiro, então não se assuste.
– Mas...
– Shhh... – ele a fez calar, abraçando-a com o braço bom. Depois de beijar a testa vincada, afastou-se retirando a arma de sua cintura para voltá-la à gaveta da cômoda. – Não precisarei mais usá-la, feliz assim?
– Preferia que não tivesse me enganado – comentou acusadora, enquanto o barão voltava a se despir. – Foi por isso que me fez sair do quarto, não?
– Não queria preocupá-la desnecessariamente my lady, não fique...
A batida de Jacob contra a porta o fez se calar. Quando o barão liberou sua entrada, seu criado a abriu e rolou a pesada tina até derrubá-la aos pés da cama. Antes que reclamasse do ponto escolhido, Edward ouviu Isabella o cumprimentar.
– Está perfeito!
– Como perfeito? A tina deve ficar próxima à lareira – reclamou.
Sem dar-lhe ouvidos, Jacob se foi para buscar água. Com sua saída, coube a Isabella explicar:
– Seu corpo já está quente o suficiente, então não deve ficar perto à lareira. Jacob entende bem dessas coisas.
– Assim como você. – Edward salientou. – Como sabe dessas coisas?
Não vinha ao caso comentar que Embry, vez ou outra, era acometido por febres emocionais; assim como ela própria, então disse apenas:
– Somente sei.
Ao se calar, qualquer oportunidade de conversa se tornou nula. Primeiro Leah chegou trazendo o bule com chá de orégano, numa bandeja com pães, queijos, geleia e frutas. Segundo ela para que seu patrão se alimentasse e tomasse o chá medicinal mais vezes, mesmo frio, pois ajudaria mais com a febre. Isabella lhe agradeceu e fez com que um taciturno barão tomasse uma xícara com o líquido ainda quente enquanto esperavam Jacob encher a tina.
Edward não gostou do chá, porém nada disse. A conversação o cansou mais, como também a nova resposta truncada de sua noiva. Queria se recuperar o quanto antes para que pudessem tratar de assuntos relevantes. Com isso, terminou seu chá exatamente quando Jacob terminava de despejar o segundo balde d’água na tina.
– Obrigada Jacob. – Isabella agradeceu e, assim como antes havia feito com a esposa, dispensou-o: – Com isso, acredito que seja tudo. Pode ir para sua casa que daqui eu assumo.
– Tem certeza senhorita? Posso esperar para esvaziar a tina.
– Não precisa. Ela não atrapalha e se for o caso, eu posso despejar a água pela janela e tirá-la do caminho. Amanhã outro criado a remove daqui.
– Sendo assim... – ele disse resignado. – Boa tarde senhorita. Qualquer coisa que necessite, basta me chamar. Até amanhã Sir Masen!
– Obrigada! – disse Isabella.
– Até amanhã Jacob... – despediu-se Edward.
Novamente a sós, o barão tratou de ser despir completamente e, a despeito dos calafrios, entrou na água quase fria. Com um impropério, reclamou ao sentar:
– Salvei-me de Gruen, mas... não tenho salvação de... você ou Jacob. Essa água está... fria demais!
Sem dar-lhe atenção, Isabella retirou seu vestido e se agachou ao lado do barão, onde passou a despejar água que carregava com suas mãos em concha, sobre a cabeça castanha.
– Você seria mais útil se... tirasse o restante das roupas e... entrasse aqui comigo.
– Tentador, mas o que aconteceu com seus ossos quebrados?
Isabella procurou dar leveza ao tratamento, uma vez que a cada minuto ficava mais tensa. Mesmo com o barão ainda trêmulo, a febre logo cederia; e não havia subterfúgios para adiamentos.
– Ainda doem, mas... qualquer coisa é preferível a essa... água fria. Está me... matando!
– Não estou – ela riu manso, condescendente.
Isso se daria quando lhe contasse a verdade, agora ela sabia. Baseava por si mesma, pois se sentiu terrivelmente traída apenas por Edward a retirar do quarto para carregar uma arma escondida, então, o que poderia esperar que ele sentisse ao relevar sua omissão e, sim, enganação por todos aqueles dias? Quando revelasse ser uma rameira? Não sabia o que esperar. Em silêncio, retirou a bandagem do braço ferido. Descobriu o algodão sujo com um pouco de sangue e secreções.
– Acho que essa é a razão de sua febre. Seu machucado está levemente infeccionado. Vamos lavá-lo com sabão e deixá-lo aberto até amanhã.
– O que considerar melhor... – Edward falou mais estável, livre do aborrecimento anterior; sentindo-se amado pelo carinho que recebia em forma de cuidado.
A jovem nada falou. Apenas fez como dito e o banhou até que os calafrios cessassem por completo e pedisse ao barão para deixar a água. Acompanhando-a na introspecção, Edward a atendeu e se deixou secar. Depois vestiu a ceroula limpa que ela lhe entendia e finalmente se acomodou sob as cobertas.
Imediatamente se sentiu reconfortado, contudo não descansado. Talvez fosse o chá e o banho que o tenham amolecido, ou talvez todos os acontecimentos que o extenuavam, não sabia. Porém, fosse como fosse, suas pálpebras pesavam. Teria que adiar sua conversa mais uma vez.
– Como se sente? – Isabella perguntou, tocando sua testa; ele não estava tão quente.
– Meu corpo ainda dói – foi sincero, apreciando o toque em sua testa. – Deite-se comigo para que eu possa dormir.
– Antes, vire-se de bruços – ela pediu.
Edward não cogitou argumentar e a atendeu. Ao senti-la se sentar sobre suas nádegas, indagou num gracejo:
– O que se passa nessa mente? Não vê que estou incapacitado?
– Não seja bobo! – Isabella ralhou no mesmo tom, aquecendo as mãos esfregando uma a outra antes de apertar-lhe os ombros, levando-o a suspirar.
– Ah... Havia me esquecido do quanto isso é bom... Fez o mesmo quando estava aborrecido com Jacob.
– Sim, eu fiz... – a moça concordou correndo os dedos pelos ombros firmes, sentindo os nós de tensão. – Fique quieto e apenas tente relaxar, está bem?
– Começo a aceitar que é você quem manda, my lady. Estarei perdido quando nos casarmos.
– Não pense nisso ainda – pediu, massageando-lhe os ombros. – Fique quieto!
– Hum... – ele gemeu escondendo o rosto contra o travesseiro quando ela voltou a apertar a base de sua nuca. – Vou ficar...
Aquilo era mesmo bom e no momento nem lhe importou saber onde ela havia aprendido todas aquelas coisas. Por hora obedeceu-a e se deixou ser apertado em diversas partes de suas costas, braços; até mesmo as mãos.
O barão não poderia saber, pois dormiu antes que sua noiva terminasse toda sua massagem. Durante o sono, suas coxas receberam o mesmo tratamento e logo após suas panturrilhas e pés. Ao dar o serviço por encerrado as palmas de Isabella estavam levemente doloridas, mas ela não se importava. Estava habituada e logo passaria. O que valia era ver que Edward dormia pacificado, livre da febre e a salvo dos perigos que pudesse haver fora do palácio.
– Durma meu amor – ela murmurou ao se estender e recostar contra o corpo morno e lhe acariciar os cabelos úmidos. Para o rosto tranquilo falou sabendo que não seria ouvida. – Sinto que meu tempo está expirando... Será que ao dormir com você terei finalmente uma resposta reveladora?
Provavelmente não, pensou se aconchegando mais, tomando cuidado para não magoar o braço ferido. Depois de depositar um beijo no ombro nu, fechou os olhos e, em pouquíssimos minutos, dormiu. Acordou assustada, pela interrupção de um som que não reconheceu. O fechar de uma porta? Evidente que não, estavam sós. E ela confusa; vinda de um sonho ruim que não conseguia recordar. Já era noite o que deixava o quarto numa penumbra profunda pela falta da luz de uma lamparina ou da lua. Edward dormia a sono solto, ressonando baixinho.
Movendo-se vagarosamente, a moça escorregou para fora da cama. Sua intenção era acender a lamparina, contudo desistiu e foi se colocar à janela. A noite estava de fato escura; o céu coberto por densas nuvens enegrecidas. Ao longe ela via o clarão que anunciava o temporal. Aquele dia em sua totalidade se assemelhava ao dia de sua chegada. A um novo relâmpago do qual ainda não podia ouvir o som, Isabella estremeceu. Imediatamente esfregou os braços nus para arrefecer um frio imaginário.
A noite estava como seu futuro; escuro, tenebroso. Com Laurent a ameaçar Edward, não adiantava querer encontrar razões para ficar. Sentia o nó se formar em sua garganta, quando ouviu Nero latir no corredor. Temendo que o barão acordasse, finalmente acendeu a lamparina e foi abrir a porta. Não viu o cachorro em parte alguma, então o chamou:
– Nero! Onde está você rapaz?
Invariavelmente a moça não tinha medo do corredor escuro, e sabia que o galgo a atenderia, ainda assim se sobressaltou quando o viu surgir vindo da escadaria que levava a ala dos criados. Com ele a fazer festa em suas pernas, ralhou:
– Quer que eu tenha um ataque do coração? – Colocando-o para dentro do quarto, prosseguiu com a bronca, num sussurro. – Acho que vou proibir essas saídas dominicais. Prefiro ter você sempre às minhas vistas para que não me assuste dessa maneira. – Como se a entendesse, o galgo tombou a cabeça e a encarou arrependido, partindo seu coração. Com um afago reconciliador, ela ordenou mansamente: – Vá se deitar em seu tapete preferido junto ao fogo.
– Pobre Nero – o barão falou, igualmente assustando-a. – Nem ele escapa de sua autoridade. Pelo o que vejo, não serei somente eu a padecer com seu péssimo gênio.
Com um sorriso resignado, Isabella deixou a lamparina sobre a cômoda e voltou para a cama. Não se deitou, apenas sentou ao lado de seu paciente e lhe tocou a testa, deixando o gracejo passar.
– Como se sente?
– A dor no corpo arrefeceu e não me sinto febril, mas ainda estou com sono. Sinto que poderia dormir até amanhã.
– Então volte a dormir – pediu acariciando os cabelos que lhe cobriam a testa. – Desculpe-me por acordá-lo.
– Não tem importância – o barão lhe sorriu. – Preciso comer alguma coisa, sinto fome.
– Então se sente e me deixe servi-lo.
Prestativa, Isabella deixou a cama e voltou com a bandeja deixada por Leah. Edward teria que se contentar com o chá de orégano frio. Ao despejá-lo na xícara o barão protestou:
– Não gostei esse chá – anunciou torcendo o nariz e os lábios, deformando o cavanhaque ainda mais necessitado de aparo. Cheirando-o, indagou: – Por que orégano afinal?
– Geralmente ele é usado em temperos, mas sua infusão ajuda a combater a febre, então não reclame, beba. – Isabella ordenou achando graça na rebeldia.
O barão a atendeu contrafeito e sorveu o chá praticamente a um só gole. Toda sua má vontade se foi tão logo sua noiva estendeu um naco de pão lambuzado com geleia; ela fazia por ele exatamente o que apreciava em Leah. Isabella era devotada aos seus cuidados, não importando o que precisasse ser feito. Repentinamente satisfeito, apenas abriu a boca para que ela mesma o alimentasse.
– Estamos mimados, não? – Isabella brincou um tanto comovida, atendendo-o.
– Sou um pobre convalescente – ele disse em sua defesa após mastigar e engolir o pão. – E é uma das atribuições da esposa cuidar de seu marido.
A troça do barão morreu no vazio ao recordar da própria mãe. Poderia somente considerar que fosse daquela forma, pois em tempo algum presenciou o mínimo cuidado por parte de Elizabeth para com seu pai; justamente ela que possuía muitas razões para ser a mais devotada das esposas. O pensamento comparativo não era oportuno, mas foi difícil rechaçá-lo ao considerar que talvez nele estivesse oculta a resposta para uma pergunta feita por Isabella dias atrás. Sempre esteve bem sozinho e creditou ao fato o temor em se casar com uma mulher que o abandonasse quando mais necessitasse dela.
Em todo aquele tempo não se interessou por nenhuma por considerá-las semelhantes à baronesa; fosse pelo porte esnobe, a futilidade ou a afetação. Ou o que era pior; a soma de todos os defeitos. Sua noiva, escolhida pelo destino era o extremo oposto de Elizabeth e todas as que ela apontava como a esposa ideal. Por sorte encontrou sua Isabella e com ela tinha a previa dos dias que viriam. Sendo seu marido, poderia contar que não terminaria seus dias ao lado de um único filho e de uma criada.
– Edward! – Isabella o chamou, preocupada com o olhar vago, mergulhado no que parecia a iminência de um pranto. – Você está me assustando...
Coçar brevemente a testa o ajudou a secar os olhos disfarçadamente ao inclinar a cabeça, enquanto um pigarrear serviu para limpar sua garganta.
– Divaguei – falou tomando o pedaço de pão que ela lhe oferecia. – Desculpe-me. Você havia dito alguma coisa?
– Não... Apenas lhe ofereci mais pão – murmurou. Odiando não saber o que o dispersou, Isabella finalmente entendeu todas as vezes que o barão reclamava de sua introspecção. Era desesperador ficar de fora. – Pensava em algo que queria dividir?
Ela considerou perguntar de uma vez, visto que não haveria mais como fugir.
– Estava pensado em nós dois – ele admitiu voltando o pão à bandeja. De certa forma não mentia. – Em como estou feliz que tenha aceitado meu pedido. E no quanto seremos perfeitos juntos.
– Edward... – ela começou com voz instável. – Quanto a isso...
– Precisamos conversar. – Edward usou as palavras dela. Isabella apenas assentiu com a cabeça. Com um suspiro resignado, ele perguntou: – Vai me falar mais de você?
– Sim – murmurou. Não fazia a mínima ideia do que lhe diria, pois a presença de Laurent entre eles mudava todo o quadro, então se pegou ao velho discurso. – Quero fazê-lo entender, de uma vez por todas, que deve zelar pela boa reputação de seu baronato, mantendo-me afastada.
– Não pulamos essa etapa? – Edward questionou aborrecido. No mesmo tom, deu a resposta: – Sim, pulamos. Ontem mesmo pela manhã. Há até um anel em seu dedo que comprova.
– Edward...
– Deixe-me colocar de uma forma que você entenda definitivamente – o barão a cortou decidido. – Eu amo você e não importa o que me diga, sempre ficarei ao que lado Bella. Confie em mim e deixe que eu me preocupe com o que seria prejudicial ao meu baronato.
Seria possível? Isabella se permitiu acreditar, afinal, sentia que era amada. Talvez Edward se chocasse, esbravejasse, mas no final, ele a aceitaria. E talvez entendesse a necessidade de sigilo e ficassem juntos longe dos olhos de Laurent Hunt, da baronesa, de todos, como ela havia sugerido. Era arriscado, temerário, porém Isabella simplesmente não suportava mais.
– Eu confio! – disse alto demais; estava nervosa, contudo, inexplicavelmente contente por finalmente se revelar. – Sei que você me entenderá.
– Evidente que sim, meu amor! – Edward a segurou pelo rosto. Tentando acalmá-la, transmitir-lhe segurança, assegurou: – O que me importa é que nunca matou ou roubou, assim como jamais se prostituiu. Com exceção a essas coisas, não há nada que a desmereça.
– Atribui o mesmo peso aos três delitos? – Isabella se ouviu perguntar num murmúrio, mortificada.
– Evidente que sim, os três são crimes e não um mero deslize – sem notar a palidez do rosto amado, Edward falou o que sentia: – Se fosse esse o caso, eu poderia entender o que a levou a cometer qualquer um deles, sendo que, analisado seu passado, o meretrício seria o que mais se assemelhasse. Isso hipoteticamente falando, não se ofenda!
– Não me ofenderei. – Isabella assegurou; mais interessada na parte em que ele afirmou ser capaz de entender. Ali estava a solução e, apegando-se a ela, arriscou: – Você me aceitaria caso eu tivesse matado, roubado ou me prostituído?
– Se eu entendesse as razões que a levaram a cometer tais crimes, sim. – Isabella esboçou um sorriso, contudo não teve a oportunidade de falar, pois o barão segurou suas mãos e prosseguiu: – Porém eu sei que o que conta para você não é meu entendimento e, sim, meu baronato.
– O que quer dizer? – Isabella se sentiu confusa; as duas situações estavam interligadas.
– Apenas repito o que você sempre diz my lady, que não é adequada para ser a esposa de um barão. Porém, se um desses três delitos for seu grande segredo, você não servirá para ser coisa alguma. Nem minha amante.
– Não?
A moça se sentia sufocar, porém tentou não deixar transparecer.
– Por certo que não Isabella. – Edward exclamou incrédulo quanto à inocência dela. Rolando os dedos delicados nos seus, na tentativa de aquecê-los, explicou: – Caso eu mantenha qualquer tipo de relacionamento, lícito ou ilícito, com uma criminosa, se descoberto, eu serei desmoralizado da mesma maneira e a boa reputação de meu baronato seria abalada.
– Oh... – foi tudo que ela conseguiu exalar.
– Isabella entenda... – Edward apertou mais os dedos nos seus, sentia que a perdia, acreditando que estivesse perto da verdade; ainda que considerasse extraordinário. – Eu a amo de uma forma que não conseguiria explicar, mas lhe digo que é um sentimento tão grande que seria capaz de superar o que quer que fosse... E uma vez que um escândalo seria inevitável, eu preferia enfrentá-lo ao lado de uma esposa.
Aquele era o problema; “ela” não o queria desmoralizado. Não o queria no núcleo de um escândalo. Contava ser aceita, mas não para morar em Apple White e receber o título de baronesa. Queria era ser amada em silêncio pelo resto de seus dias e em sua mente o arranjo parecia perfeito. Tanto que jamais contou em serem descobertos se vivesse na clandestinidade; fora uma incauta tola o romântica por acreditar que Edward aceitasse um relacionamento silencioso. O que faria com Laurent Hunt? Agora ela sabia o quanto ele era capaz e não suportaria ver Edward ferido ou morto.
– Então sua esposa eu serei! – Isabella assegurou, procurando uma força que desconhecia para dar ao barão suas derradeiras alegrias.
– De minha parte, eu sempre soube – ele arriscou brincar, mesmo tendo o coração a pulsar frenético. – Agora vai me contar o grande impedimento?
– Eu não tenho um dote a lhe oferecer – ela jogou com parte da verdade. – Sou pobre Edward, filha de criados sem um bom nome que cedesse o lugar ao seu.
– Ah, minha Bella... – Edward lhe beijou os dedos; aliviado. – Também já falamos sobre isso, não me importo. Por que dá tanta importância ao fato de ser plebéia?
– Por que é o certo – respondeu-lhe e mais uma vez flertou com a verdade, sentia-se sedada. – Para ter meu próprio dinheiro trabalho numa casa luxuosa em Wisbury.
– Então é uma criada – ele deduziu, sentindo tamanho alívio que seria capaz de rodopiá-la caso ainda não se sentisse debilitado. Então uma dúvida surgiu. – Perdoe-me se for indelicado, mas como uma criada pode ter um vestido como aquele que usava quando nos conhecemos?
– Ele foi presente de minha senhora – não mentia tampouco, pois Angela lhe presenteou com o vestido de veludo em seu 23º aniversário.
– Ah, my lady... – Edward lhe beijou os dedos mais uma vez, condoído. – Ser pobre não a desqualifica... Meus pais não nasceram nobres. Grave para mim seria um desvio de caráter, seria eu descobrir que você me enganou todos esses dias... Isso também a desabonaria até mesmo para ser minha amante. Não gosto que mintam para mim, Bella.
– Agora vejo o quanto fui tola, desculpe-me por tão ridículo segredo. – Isabella lhe esboçou um sorriso.
– Não há o que desculpar, my lady – ele estendeu a mão para acariciar o rosto amado. – Fico feliz que tudo não tenha passado de um tolo sentimento de inferioridade.
– Muito bem! – Isabella exclamou em simulada animação, recuperando o pão que ele havia devolvido para estendê-lo de volta. – Já que esclarecemos minha tolice, agora quero vê-lo comer tudo o que há nessa bandeja.
– Com sua ajuda – o barão sorriu contente em vê-la sorrir, tudo caminhava bem. – Tenho certeza de que também não comeu.
Recebendo o naco de pão em sua boca, Edward o mastigou muito atento a ela que logo se servia de um pedaço de queijo. Uma criada! Deveria ter imaginado com tantas demonstrações de inferioridade. Depois iria querer detalhes. Sabia que o vestido fora presente, mas queria entender o fino trato. Com certeza alguém especial como ela não era uma criada comum; talvez fosse mesmo uma dama de companhia. A melhor entre todas, visto a forma com que o tratava.
– Quem são seus patrões? – Edward perguntou antes de receber um pedaço de queijo em sua boca.
– Os Stevensons.
Não havia como não mentir, então recorreu ao nome de um dos homens mais anti-sociais de que tinha conhecimento.
– Stevensons? – Edward deliberou por um instante, antes de reconhecer: – Não os conheço, mas terei que falar com eles.
– Eles não são meus pais, Edward – Isabella se sentia adoecer pela sucessão de mentiras. Perdera o pouco apetite, mas o barão deveria se alimentar, então lhe entregou um naco de maça.
– Não quero mais nada, obrigado – ele recusou e voltou ao assunto. – Sei que não são seus pais, mas era na casa deles que vivia. Quando a ponte estiver recuperada iremos conversar com seus patrões para que pegue suas coisas e anuncie nosso casamento. Caso deseje pode até mesmo convidá-los.
– Depois veremos essas coisas – ela sentenciou, despejando mais chá na xícara para que ele bebesse. – Tome! Precisa estar recuperado, pois sei que amanhã ira agir como se nada tivesse acontecido.
– Tenho muito a organizar na sidreria. – Edward comentou, recebendo a xícara; odiou o chá, porém Isabella tinha razão. Teria muito a fazer no dia seguinte e nada o prenderia em sua cama. A conversa o animou, porém ainda se sentia cansado, então entregou a xícara a uma Isabella repentinamente séria e pediu: – Enquanto conversamos, poderia fazer mais daquela massagem em meus ombros?
Com um assentimento mudo, Isabella deixou a cama para depositar a bandeja sobre o aparador. Na volta encontrou o barão já deixado de bruços, então apenas acomodou-se sobre suas nádegas, aqueceu as mãos e iniciou o massagear dos músculos já não tão tensos.
– Hum... – ele gemeu. – Isso é de fato muito bom.
– Fico feliz que goste – falou antes de introduzir um tema que não a envolvesse. – Conte-me o que aconteceu hoje... Por que demorou tanto?
– Eu preferia continuar falando de nosso casamento – ele retrucou, calando novos gemidos, vindos com o prazer de ter seus ombros apertados de forma tão intensa por mãos delicadas.
– Teremos muito tempo para isso. – Isabella desconversou. Até a conclusão da ponte teria dias e dias para padecer por vê-lo planejar algo que simplesmente jamais aconteceria. – Então me conte a razão da demora.
– Bem... – ele disse por fim. – Não há muito a ser dito. Jacob e eu nos desencontramos do inspetor, então percorremos a margem do rio e o bosque à procura de Gruen.
– Ah, Edward – ela exalou preocupada; estremecendo. – Isso foi perigoso. Esse homem pode tentar matá-lo novamente.
– Não há mais perigo. – Edward a tranquilizou. – Quando os encontrei, Alec já estava morto. Pena que não tenha delatado quem o enviou para me prejudicar.
– Lamentável! – Isabella concordou, descendo seus dedos ao longo da coluna de Edward; com Laurent preso, muitos de seus problemas seriam atenuados.
– Hum... – ele novamente gemeu quando seu cóccix foi comprimido, despertando nele, mais do que bem estar. – Está tentando me distrair?
– Talvez... – disse apenas. Melhor seria ocupá-lo com sexo do que com conversas que agravavam uma situação sem solução. Porém, naquele momento não se sentia inclinada a fazê-lo. Voltando seus dedos para os ombros, falou firme: – Mas não agora. Feche os olhos e fique quieto.
Não queria ficar quieto, afinal ainda havia muito a ser dito. Mas o barão foi uma presa fácil para aquele carinho em seus ombros e braços e logo nem mesmo a leve excitação o manteve acordado.
Percebendo que Edward novamente dormia, Isabella deixou a comodidade das nádegas arredondadas e correu até a jarra d’água. Precisava eliminar o nó formado em sua garganta desde o início de sua conversa; não era melhor do que os sabotadores. O que a consolava, era saber que, depois de toda enganação, o barão fatalmente a odiaria e com isso ficaria a salvo para sempre.
Isabella sufocou com o pensamento, então, sedenta, alcançou a jarra para descobri-la completamente vazia. O inusitado da situação a resgatou da tristeza, levando-a a procurar por respostas para aquele enigma. Lembrava-se de Marie ter trazido a jarra cheia. Ou estaria enganada?
No momento não importava. Conferindo as horas no relógio de Edward, descobriu ser tarde, dez horas da noite, mas ainda teriam a madrugada inteira pela frente e o barão não poderia passá-la sem água. A própria moça necessitava de um bom gole urgentemente. Com isso ela se preparou para sair. Desejando estar com Edward cada segundo de seu tempo limitado, desprezou sua camisola e tomou a liberdade de vestiu o chambre do barão. Este lhe chegou quase aos calcanhares, abraçando-a por inteiro.
Sentindo-se protegida, calçou-se, pegou a lamparina e abraçou a jarra vazia; tentaria encontrar água na sala de banho. Nero, desperto por sua movimentação, como sempre a seguiu. Isabella apreciou a companhia quando se precipitou para o corredor. Caminhou ouvindo os ecos de seus passos até entrar no cômodo desejado. Para sua consternação, a água encontrada não encheria um copo.
– Que porcaria! – Isabella exclamou irritada, se dirigindo a Nero que a encarava. – Marie nunca foi tão relapsa, não é mesmo?
Como resposta recebeu um latido alto e seco.
– Não lata Nero – ordenou. – Não queremos acordar o barão.
Como se entendesse, o galgo se sentou sobre as patas traseiras e passou a respirar pela boca aperta; a língua pendurada de lado. A visão a enterneceu e entristeceu. Também teria que deixá-lo, mais uma vez.
– Desculpe por ter gritado – ela pediu com os olhos rasos d’água. Recusando-se a chorar, ela secou os olhos rapidamente e indagou ao cão: – E agora, o que faremos? Sem uma única gota de água aqui em cima me restar ir até a cozinha... Considera seguro?
Nero ganiu.
– Também considero arriscado, mas é o que nos resta. Vamos?
Ao deixar o cômodo, a moça marchou decidida para a ala dos criados. A determinação lhe abandonava a cada passo de suas pernas cada vez mais trêmulas, mas não desistiu. Para curar febres, era fator determinante se manter hidratado, então, mesmo que tolerasse sua sede, por Edward ainda arriscaria.
No topo da escada avistou a porta da cozinha aperta. Não estranhou, pois se o hábito continuasse o mesmo era daquela era a forma que sempre estaria. Assim como a luz amarelada vinha dela, resultante das velas e do fogo que alimentava o fogão constantemente aceso.
Descendo os degraus vagarosamente, ela se tranquilizava, dizendo a si mesma que não havia perigo. Àquela hora todos estariam dormindo. Bastava entrar, encher a jarra e sair rapidamente. Com seu plano traçado, Isabella finalmente chegou à cozinha. Como previu não havia viva alma em parte alguma. Nero a acompanhou e imediatamente passou a farejar o chão, talvez a procura de restos para satisfazer o eterno apetite canino.
Ignorando-o, tentando bloquear todas as recordações que aquele cômodo lhe trazia, Isabella deixou a lamparina sobre a mesa e seguiu até os grandes tachos de água para concluir sua missão.
– Cora?
O nome a assustou mais do que a voz fantasmagórica, fazendo com que derrubasse a jarra que se espatifou em cacos pelo piso da cozinha. Alarmada, a moça se voltou para encarar a mulher de cabelos brancos enrolados num rígido coque como se de fato fosse uma assombração; e ela era pior.
– É você, não é? – insistiu a velha, apertando os olhos como se assim a vista lhe favorecesse.
Apegando-se a um fio de esperança, Isabella pigarreou e disse:
– Está me confundindo senhora. Chamo-me Isabella e sou hóspede na casa. Desculpe se a acordei, vim apenas buscar água para seu senhor.
– Talvez eu tenha me enganado então... – a mulher murmurou. Sempre a encarando, aproximou-se. – Deixe-me juntar esses cacos antes que aconteça algum acidente.
– E eu voltarei para meu quarto. – Isabella anunciou com a voz composta.
Caso fosse outra pessoa a ajudaria, mas não se abaixaria diante daquela mulher. Queria era sair de perto dela o quanto antes e cuidar para que nunca mais se esbarrassem. Não queria ouvir o antigo nome na voz odiosa. Por sua vontade nem estariam próximas, muito menos passaria ao seu lado, porém por conta dos cacos não tinha outra opção a não ser cruzar com ela para chegar à porta.
Sem explicações complementares, Isabella ergueu a cabeça e seguiu seu caminho medindo os passos para que não vacilasse. Imaginava-se segura nos braços de Edward para que seu desejo se tornasse realidade. Sem desviar o olhar da saída, a moça cruzou com a velha cozinheira. Esta aproveitou a proximidade para analisá-la, medindo-a; avaliando-a. Então subitamente segurou-lhe o braço com força.
– Não há engano! – vociferou enraivecida. – É mesmo você, cadelinha!
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Spoiler escolhido pelas leitoras do Orkut, início co próximo capítulo:
Não havia mais como enganar sua avó. Isabella se sentia nauseada com aquele toque e nem mesmo os rosnados de Nero intimidavam a mulher, obrigando-a a libertá-la. Passado o choque, a moça finalmente reagiu.
– Solte-me! – ordenou tentando desprender os dedos ossudos de seu braço com sua mão livre. – Tire suas mãos de mim sua velha nojenta.
Imediatamente a senhora a largou. Limpando a mão no vestido preto, falou com expressão enojada.
– Solto porque não quero me emporcalhar.
– A única pessoa suja aqui é a senhora – ela retrucou nervosa.
– Eu sou suja? O que dizer então de uma desavergonhada que se hospeda sozinha sob o teto de um homem solteiro? – escarneceu. – Você não é somente imunda, é também ordinária... Eu a reconheci desde o dia em que o barão cruzou essa cozinha carregando você nos braços.
– Se sempre soube por que nunca me delatou? – Isabella queria entender.
– Eu tentei avisar ao barão, mas ele não quis ouvir... Também tentei me aproximar de você, mas Marie nunca a deixava sozinha e hoje foi Leah a servir como cão de guarda. O que ajudou foi saber da febre do barão, justamente num domingo. As chances eram pequenas, mas contei que fosse você a vir buscar água.
– Então foi a senhora! – Isabella exclamou incrédula, recordando que em seu sonho estranho havia visto a avó. Com certeza deve ter despejado a água dentro da tina – Invadiu os aposentos do barão!
– Sim e acredite... Eu faria novamente caso tivesse a chance de livrá-lo de uma víbora.
– Como pode me odiar tanto... Eu sou sua neta! Por que não acredita em mim?
– Por que confiaria numa cobrinha metida à rica. Desde pequena deixava o trabalho para correr com Lady Rosalie como se fossem iguais. Com certeza em sua cabeça acreditou que pudesse ter mais se fosse a queridinha do barão e o seduziu.
– Continua louca! – Isabella nunca acreditou em alguma mudança.
– Pode me insultar o quanto quiser... Sei que está desesperada por ter sido desmascarada. Mas afinal... O que essa boa família fez para você?... Desgraçou o pai, agora quer arruinar a vida do filho.
– Desgracei o pai?! – indagou estupefata. – Ainda crê em tal absurdo? Foi aquele porco nojento que acabou com minha vida!
A bofetada em seu rosto veio sem aviso, desnorteando-a por um instante. O galgo imediatamente atacou, mordendo a mão ainda estendida. Presa em seu ódio a velha nem sequer gritou, apenas grunhiu e abraçou a mão ferida enquanto Isabella segurava o galgo.
– Acalme-se Nero! – demandou com voz trêmula. – Não vale a pena.
O galgo se aquietou, porém continuou a rosnar para a senhora que ciciou inabalável:
– Isso, segure essa cria dos infernos e limpe sua boca com sabão antes de falar de Lord Bradley. Que Deus o tenha!... O barão era um homem bom e fiel até você lhe virar a cabeça com suas artimanhas.
– Como pode acreditar no que diz? Eu era pouco mais do que uma menina! – Isabella vociferou entre dentes, contendo o ímpeto de gritar.
– Vadias já nascem vadias! Tenho certeza de que Lord Bradley jamais tocaria numa “menina” se ela não se oferecesse – a velha replicou. Então a medindo com desprezo, acrescentou: – Agora ataca novamente... Como pode ser tão vagabunda? Enfeitiça o filho como fez com o pai... Desde que a trouxe para cá, Lord Masen não é o mesmo. Age como se não fosse um nobre. O que deseja? Destruí-lo?
– Não tenho que lhe dar satisfações da minha vida. – Isabella retorquiu altiva. – Não diz respeito à criadagem o que possa haver entre mim e o barão.
– Mas diz respeito à baronesa. E ao próprio barão... Acaso ele sabe que anda fornicando com a filha de antigos criados? – Sue a encarava; desafiadora. – Contou para Lord Masen que era amante do pai dele?
– Nunca fui amante daquele velho nojento. E não se atreva a me bater novamente! – avisou ao notar a intenção. – Ou esqueço que é minha avó e revido.
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