Borboleta Negra
65 Capítulo Trinta e Três - Parte II
Notas iniciais
Os troncos e a vegetação esbranquiçada passavam ligeiros pela diminuta janela do coche. Isabella olhava a cena, sem notá-la, distraída por um forte sentimento de culpa.
O causador da inquietação, por sua vez, parecia muito animado, quase debruçado na portinhola oposta, analisando com atenção cada ponto pelo qual passavam. Ver a alegria do menino não ajudava a arrefecer o remorso por ir contra a determinação do barão.
– Eu nem acredito que verei tia Angela e suas amigas – disse Embry sem deixar a janela.
– Mas irá, e espero que se lembre do que conversamos.
– Não vou esquecer – ele assegurou, ainda olhando a paisagem. – Não quero entristecer a vovó.
Entristecer Lady Elizabeth não seria o problema. A nobre senhora ficaria escandalizada caso soubesse para onde iriam. Bastava tê-la contrariado ao sair com o menino.
– Edward não me disse nada quanto a isso – comentou a futura sogra, quando Isabella anunciou que sairia levando o filho.
– Porque seria apenas eu quem iria até minha casa – a moça justificou e piscou para Embry enquanto o agasalhava.
Este assistia a cena, receoso, como se temesse ser deixado por imposição da avó.
– Com isso insisto para que o deixe – a baronesa retrucou, visivelmente a se controlar para não perder a linha diante do neto. – Meu filho não há de gostar dessa mudança de planos.
Isabella bem sabia. Jacob fora categórico ao fazer o mesmo comentário.
– A senhorita não deveria fazer nada que excedesse o combinado – ele dissera ao vê-la deixar a casa, levando o filho pela mão, ainda sob os protestos da baronesa que os seguia, assim como Nero e Marie; esta um tanto distante.
– Isto, Jacob! – exclamou Lady Elizabeth. – Diga à mocinha que o barão não há de desculpá-la.
Isabella sabia que a preocupação valia somente para Embry. No mais, a baronesa até mesmo apreciasse uma boa rusga entre o casal.
– Não seria o caso de irmos apenas nós dois? – Jacob sugeriu enquanto abria a porta do coche de aluguel.
– Embry ir comigo não mudará o que tenho a fazer ou o tempo que demorarei – ela replicou ao sentir a mão pequena apertar a dela fortemente.
– Se pretendia levá-lo, por que não avisou ao barão? – ele indagou, olhando-a seriamente.
Bem que tentou, Isabella pensou ao correr os dedos enluvados pelos cabelos castanhos do filho. Sim, ela tentou, mas todos os fatores atuaram contra.
Se acaso tivesse contido a língua ao visitar o filho na noite anterior, e ocultado que naquela manhã iria à antiga casa, não estivesse naquela situação. Contudo não o fez e ao expor o que combinou, viu-se bombardeada por pedidos lamuriosos.
Antes, quando era “a senhora” imbuída na tarefa de afastar o menino, era fácil lhe negar o que quer que fosse. Mas agora, sendo “a mamãe”, simplesmente não teve argumentos para não atender às seguidas súplicas, aliadas ao ansioso olhar azul.
Ao deixar o quarto do menino e seguir até o dela, preparou-se para repetir as mesmas súplicas ao barão a fim de conseguir seu consentimento, porém encontrou a cama vazia.
Esperou-o até ser vencida pelo sono. Despertou com Edward a beijar-lhe o rosto, não como cumprimento por finalmente chegar para se juntar a ela, mas como despedida, pois já partia.
– Vai agora? De madrugada? – ela indagou ao se sentar, atordoada, esfregando os olhos para que se adaptassem à claridade inesperada.
– Já é dia – anunciou o barão, seguindo para a passagem na parede. – Perdoe-me por não ter vindo. Acho que estava mais cansado do que suponha e terminei por adormecer em minha própria cama. Se Jacob não viesse acordar-me, estaria mais atrasado do que estou.
– Edward espere – ela tentou detê-lo –, preciso lhe dizer...
– Infelizmente não posso esperar querida. O trem simplesmente partirá sem mim. Bem, Jacob me levará e depois virá buscá-la num coche de aluguel. Não é aconselhável que vejam meu veículo por duas vezes a caminho do Jardim. Após meu retorno conversaremos sobre o que desejar. Tenha um bom dia, meu amor!
Diante da pressa do barão, como pedir permissão? Por um instante ao entrar no quarto do filho, cogitou voltar sua palavra atrás, mas não teve coragem ao ver-lhe a animação. Amy, que fazia companhia ao menino, desculpou-se e explicou que não poderia deixar de avisar a baronesa quando ela começou a arrumar Embry para partirem.
Que fosse! Isabella pensou ao alcançar o casaco do menino. Para ver o sorriso que iluminou o rosto corado, ela enfrentaria qualquer um deles. Até mesmo o barão.
– Veja! Veja! Um coelho! – Embry exclamou feliz, trazendo a mente da mãe de volta ao coche. – Acho que é uma mamãe coelho e ela está procurando comida para os filhotinhos.
– Provavelmente, meu querido – disse amável.
Sim, ela reiterou ao ver o sorriso contente, enfrentaria qualquer um. Deixando-se contagiar pela alegria infantil, Isabella se aproximou e espiou pela janela, sugerindo que prestassem atenção. Talvez vissem mais coelhos correndo pela relva que brotava, indicando a proximidade da primavera.
Assim seguiram até chegarem à Wisbury. Em poucos minutos Jacob parava o coche diante a velha mansão Krane.
Sam apareceu tão logo Jacob apeou. Isabella, que já se adiantava em abrir a porta, sorriu ao ver o bom amigo.
– Minha senhora está de volta! – exclamou o moreno ao vê-la. Logo seus olhos escuros se moveram para além dela e brilharam. – Oh! Este não é...?
– Sim, Sam – Isabella confirmou a pergunta incompleta, enquanto ajudava o filho a saltar para o chão. – Este é nosso pequeno.
– Por Deus, senhora! Que surpresa é esta? – O criado parecia mais alarmado do que contente.
– Está tudo bem Sam! – ela garantiu, tocando-o o braço e lhe sorrindo com ternura. – Quando todos nós entrarmos eu lhe explicarei.
– Olá – disse Embry seriamente, estendendo a mão para o moreno. – Eu me lembro do senhor.
Isabella tentou não pensar que a súbita seriedade estivesse ligada ao fato de o menino se lembrar que foi Sam a socorrê-la depois que Laurent a agrediu. Não era agradável saber que o pequeno guardasse aquelas lembranças.
– Também me recordo – disse Sam ao apertar a mão estendida. – Agora é melhor entrarmos. Todas esperam para recebê-la, senhora.
– Venha, Jacob – Isabella o chamou para acompanhá-los.
– Caso não se importe, prefiro aguardar aqui, senhorita – ele negou desconcertado.
A moça não insistiu por recordar como as jovens alegres e seminuas o receberam da última vez.
– Não me importo. Tentarei ser breve.
Tocando Embry pelo ombro, conduziu-o até o interior da casa. Poucos dias se passaram, mas parecia ter partido há meses.
Ao entrar no salão, Isabella viu que todas as meninas estavam no cômodo, esperando-a, como Sam adiantou. A moça agradeceu intimamente por estarem decentemente cobertas. Antes mesmo que lhes cumprimentasse, todas gritaram, sobressaltando o menino, que se encolheu junto à mãe.
– Amber, esse é seu Embry? – perguntou Maureen, olhando-o com curiosidade.
– Sim, é ele mesmo! – respondeu Jessica, por Isabella.
– Como ele é lindo! – exclamou Susan, tocando-o nos cabelos sem cerimônia.
– Deem espaço para o menino respirar – ordenou Angela, do alto da escada. – Nunca viram uma criança?
– Está tudo bem – Isabella assegurou, tomando o menino pela mão para levá-lo até uma das mesas. – Sente-se aqui meu querido.
Bastou acomodá-lo em uma das cadeiras para as moças sentarem-se em volta.
– Vocês estavam dormindo? – Embry perguntou, olhando para o robe de uma delas.
– Sim, levantamos para receber Amber e saber como foi sua viagem.
– Quem é Amber? – ele voltou a perguntar; inocente; não se lembrava de tudo afinal.
– Depois eu lhe digo – Isabella respondeu, porém olhando para as moças com seriedade. Talvez não tenha sido boa ideia levá-lo até o bordel.
– Vejam como os olhos dele são azuis – Eve observou em seu eterno tom de enlevo, mudando o assunto.
– Ele é um sonho! – exclamou Maureen.
– Obrigada! – agradeceu a mãe orgulhosa.
– Parece-se com alguém que conheço – comentou Kate que esteve calada até então, conseguindo a concordância das moças ao redor.
– Deixem de bobagens! – ralhou Angela ao se aproximar. – Então resolveu trazer nosso pequeno de volta.
– A senhora é minha tia Angela, não é? – Embry indagou timidamente.
– Ele se lembra de mim! – surpreendeu-se, antes de se abaixar na direção do menino, comovida. – Sim, sou sua tia Angela. Sua senhora lhe entregou todos os beijos que mandei enquanto esteve longe?
– Sim. Mamãe entregou todos eles – disse Embry, sorrindo contente.
– Sua... mãe?! – Angela olhou para Isabella com assombro. – Saberei o que mudou?
– Qual o espanto se ele é mesmo filho dela? – Jessica indagou olhando de uma a outra, confusa.
– Acredito que esse assunto não seja da conta de nenhuma de vocês – Sam retrucou. Para a patroa, disse: – Se desejar, eu tomarei conta do menino, senhora. É melhor que conversem em particular.
Logo os protestos encheram o salão. Parecia que cada uma das jovens queria saber em detalhes o que perdiam. Isabella, movida pelo comando que nos últimos lhe pertenceu, alteou a voz e pediu silêncio.
– Vou conversar com Angela em particular – prosseguiu –, depois direi a todas o que precisam saber. Tenham paciência.
– Posso ir com a senhora? – Embry parecia intimidado.
– Preciso conversar em particular com Angela. Você não sentia a falta de minhas amigas? – Ao ter a confirmação muda no menino, acrescentou: – Pois então. Fique aqui. Sam irá lhe fazer companhia e tenho certeza de que todas elas saberão se comportar.
As últimas palavras foram ditas enquanto Isabella olhava para cada uma das moças. Todas assentiram em silêncio e se afastaram, indicando que obedeceriam. Novamente a olhar o filho, Isabella prometeu:
– Não vou demorar. Enquanto espera Jessica poderá lhe trazer um pedaço do maravilhoso bolo que Brenda prepara todas as manhãs. Gostaria disso?
– Sim, senhora – ele anuiu ainda ressabiado.
– Irei agora – prontificou-se Jessica. – Trago também alguns biscoitos e leite.
Isabella lhe sorriu agradecida, então afagou a cabeça do filho, já sinalizando para que Angela a seguisse.
– Volto num instante – novamente prometeu, antes de seguir até a escadaria.
– Eu estava organizando a sua bagagem – Angela comunicou ao chegarem ao topo da escada –, como o barão solicitou.
– Obrigada por isso. Vamos até meu quarto para que eu a ajude, enquanto conversamos.
– Por que isso Amber? – Angela não disfarçava a curiosidade. – Por que juntar suas coisas? Por que trazer Embry de volta? Tudo isso é invenção do barão?
– Sim – Isabella respondeu sem receio.
– Ele vai sustentar você e o menino? Aceitou o irmão completamente? Conte-me, por favor!
– Acalme-se! Como disse, vou lhe contar o que há. Primeiro, saiba que Edward não aceitou Embry como irmão, ele...
– Ai meu Deus! – Angela a contou, alarmada. – Por que o trouxe então?! O que pretendem fazer com a criança?
Isabella sorriu e se voltou para encarar a amiga. Depois de segurar-lhe as mãos, pediu:
– Tenha paciência e me escute. Edward reconheceu nosso pequeno como sendo seu filho, por isso disse que não o aceitou como irmão. Agora entende?
– Oh! – a senhora soltou as mãos para levá-las à boca. – Isso é... Isso é...
– Eu sei! – Isabella novamente lhe sorriu e voltou a caminhar até o fim do corredor; entendia a falta de palavras.
Ao entrar em seu quarto, encontrou-o em organizada desordem. Sim, pois tudo estava remexido, porém parecia que cada item logo encontraria seu lugar em um dos três baús abertos lado a lado.
– Você deveria ter me esperado – Isabella comentou condoída pelo transtorno. Sabia que a meretriz provavelmente se encontrava cansada.
– Não se ignora um pedido do barão. Dos nobres que nos cerca ele é o mais próximo e o que mais respeito. Nunca comentei com você por motivos óbvios, mas agora não vejo problemas em declarar. Sempre o admirei pelo espírito empreendedor e agora o admiro mais. É bem verdade que eu o odiei na manhã de sábado, mas depois... Quão nobre pode ser aquele coração?
Isabella encarou a amiga, ainda comovida, agora por imaginar como seria se ela soubesse dos planos do barão para que nunca mais se vissem. Provavelmente lhe daria razão, aquela era a verdade, então disse apenas:
– Bem, posso dizer que Edward me surpreende a cada instante.
– E o que vem a seguir? O barão foi econômico com as palavras. O bilhete pedia que organizasse sua bagagem e só. Ele assumiu a paternidade do menino apenas para ajudá-la a criá-lo, ou...
– Iremos nos casar – Isabella revelou de chofre, estendendo a mão para exibir sua pérola negra.
– Casar?! – Angela caiu sentada sobre o colchão, mirando o anel, incrédula.
– Sim, casar – a moça confirmou, indo se sentar ao lado da amiga.
Depois de abraçar a velha meretriz pelos ombros, mesmo ciente de que deveria se apressar, a moça narrou em detalhes tudo o que se deu durante a viagem até Londres, o encontro com Embry, a reação do menino e também a reação da baronesa ao chegarem.
– Víbora! – exclamou Angela ao saber do encontro entre as duas na manhã anterior. – Ela deveria saber a verdade para perder a pose.
– Não! – Isabella negou, pondo-se de pé para retomar a arrumação de onde a amiga parou. – A baronesa não pode sequer sonhar com a verdade. Ela não somente rejeitaria Embry que já a adora, como transformaria até mesmo a vida de Edward num inferno.
– Como prometeu fazer com você! – Angela observou, imitando-a, indo também recolher um dos vestidos que dobraria e colocaria num baú.
– Desejaria o mesmo para Embry? – Isabella rebateu.
– Sabe que não – negou, agitando o vestido como se fosse uma pessoa –, mas que me dá vontade de ir até lá e dizer umas boas verdades àquela senhora, isso me dá.
– Imagino que sim – Isabella sorriu, divertindo-se. Logo voltou à seriedade. – Bem, esqueçamos a baronesa e seus preconceitos... Tenho algo mais importante a lhe dizer.
– Já sei – Angela se adiantou. – Não precisa se preocupar. O que conversamos antes continua valendo. Seremos sócias. Tomarei conta do Jardim e...
– Não, Angela... – Isabella a interrompeu. – Não seremos sócias.
– Não?! – estranhou a senhora. – Mas como será isso? Como comandará o Jardim se está prestes a se tornar a nova baronesa?
– Exatamente! Serei a baronesa, então não posso ter vínculos com o Jardim. Com isso, eu vou doar minha parte a você.
– Amber... – murmurou a meretriz, voltando a se sentar.
– Isabella – corrigiu-a. – Amber deixou de existir no momento em que foi descoberta pelo barão.
Exatamente quando Edward lhe lavou o rosto, Isabella pensou, olhando para a bacia sobre a cômoda. Realmente parecia ter se passado meses desde então. A lembrança acentuou a necessidade de pressa, com isso ela voltou a recolher seus vestidos enquanto dizia:
– Não se preocupe. Tenho certeza de que Carlisle irá ajudá-la.
– Eu já estraguei tudo uma vez...
– Como já lhe disse, agora sabe exatamente o que não deve fazer. Você ficará bem, tenho certeza.
– Ao menos, deixe-me pagar por sua parte.
– Absolutamente! – Isabella negou, enquanto também dispensava um dos vestidos que não poderia levar. – Minha parte será doada a você. Assim que eu tiver a chance de conversar com Carlisle, pedirei que cuide de todos os detalhes em sigilo.
– Oh! Nunca saberei como agradecer – Angela mais uma vez se levantou e foi até a moça para abraçá-la. – Você merece o que está acontecendo! É a justiça sendo feita! Tenho certeza de que, mesmo convivendo com a baronesa, você será muito feliz!
– Já estou sendo – assegurou sincera. – Tenho Edward e Embry comigo. O que mais poderia desejar?
– E Embry a chama de mãe! – Angela exultou, maravilhada. – Como foi isso?
Isabella sorriu com a lembrança e, sem deixar de organizar os pertences que levaria em cada baú, contou como se sentiu ao ouvir pela primeira vez a palavra mais doce do mundo. Então, enquanto escolhia o que iria ou ficaria, voltou a contar os planos para o casamento.
Com o coração fundo no peito, escusou-se de não poder convidá-la. Angela abria a boca para responder-lhe quando Maureen irrompeu quarto adentro.
– Amber! Venha depressa!
– O que houve? – indagou já a sentir um aperto agourento no coração. – O que aconteceu ao Embry?
Para ela era certeza, o menino estava em perigo. Então simplesmente largou o que segurava e correu, sendo seguida por Angela e Maureen, que explicava ofegante.
– Foi Kate. Ela se aproveitou que Sam se retirou para receber o entregador de bebidas e convidou Embry para um passeio. Quisemos ir junto, mas ela não nos deixou. Quando Sam voltou ficou uma fera e saiu para procurá-la. Então Brenda veio nos avisar que ouviu vozes alteradas no quintal...
– E o que mais? – Isabella indagou aflita, correndo escada abaixo.
– Bem, acho melhor você vir pessoalmente.
A resposta aumentou a agonia da moça que se lançou até a cozinha e sem cumprimentar a cozinheira, saiu para o quintal.
Isabella estacou abruptamente ao avistar Embry ao lado de Laurent Hunt. Com o coração aos saltos, registrou toda a cena. O fazendeiro não estava só. Às suas costas, estavam posicionados dois homens tão fortes quanto ele, com as mãos pousadas em suas armas, ainda acomodadas no coldre em suas cinturas.
Sam estava diante de Laurent. Isabella não via sua expressão, mas poderia imaginar não ser das mais amigáveis. Como se não bastasse o ódio perpétuo, o fazendeiro estava agachado ao lado de Embry, muito a vontade, deixando que o menino tocasse a arma que ele exibia na mão enluvada.
Para surpresa da moça, Kate estava ao lado dos dois, olhando-os com receio. Ao erguer os olhos e encontrar Isabella a encará-la, balbuciou:
– Ele veio para vê-la, para conversarem. Mas quando soube que o menino estava aqui me obrigou a trazê-lo.
Não havia na meretriz a altivez dos dias anteriores, seus olhos demonstravam temor que sentia.
– É uma cobra traiçoeira, isso sim! – ciciou Sam, a mão posta na cintura, provavelmente sobre a própria pistola. Para Laurent, pediu: – Deixe o menino sir Laurent.
– Só estamos fazendo amizade, não é mesmo? – Laurent perguntou ao menino.
Embry olhou para a mãe com receio. Claramente não estava confortável em tocar a arma, mas não recolhia a mão.
– Esqueça-se de sua mãe! – Laurent sugeriu à criança, porém a sustentar o olhar de Isabella, sorrindo. – Seu pai o trata como homem, não? Ele sabe que não é mais um bebê. Ele já deixa que pegue em armas como esta?
– Vamos nos acalmar... – Isabella pediu ao se aproximar de Sam e tocá-lo no braço, sempre a encarar o fazendeiro. Foi para ele que disse: – Se veio me ver, deixe Embry com as meninas e venha até o escritório. Será melhor para todos...
– Sempre quis o melhor – ele assegurou, afastando a arma da mão infantil.
Depois de se erguer, exibiu a pistola com a palma aberta e a voltou ao coldre. Ao retirar o chapéu, pousou uma das mãos no ombro de Embry para mantê-lo perto, então prosseguiu:
– Como minha boa amiga Kate adiantou, vim vê-la. Estive curioso quanto à viagem que fez com o barão e queria detalhes. Não se impressione com minha falta de jeito com crianças ou com meus amigos. Eu os trouxe somente para garantir que seria ouvido sem que esse seu cão de guarda me recebesse a balas.
– É como bem merece “cavalheiro”! – Sam rosnou.
– Vê?! – Laurent estendeu o braço livre, em sinal de desamparo. – Venho em paz e é assim que sou recebido. – Olhando para o menino, falou: – Este jovenzinho me contou quem é seu pai. Filho do nosso amado e corretíssimo barão, quem diria?
Não houve qualquer comentário entre as meninas o que levou Isabella a crer que já soubessem; se não pela semelhança da fisionomia, por uma afirmação do menino antes que estivessem ali.
De toda forma, era irrelevante. Importante era resgatar o menino das mãos daquele louco.
– Qual o propósito de se manter sempre tão bem informado? – perguntou, aproximando-se mais. – O que quer de mim Laurent?
– Preocupo-me. E de você eu quis muitas coisas – ele falou com nostalgia. – Dar-lhe um lar decente. Talvez outros filhos... Mas você não poderia aceitar e agora sei a razão. Esperava que o lar decente fosse oferecido pelo pai do seu filho. Você não queria outros.
– Laurent...
– Não diga nada – calou-a delicadamente. – Os fatos falam por si, o que faz de minha vinda, providencial. Quero que haja paz entre nós. Quando soube que viajou com o barão, não somente quis detalhes, como também entendi que a perdi para sempre. E agora que sei quem é o pai de seu filho, devo preservar meu coração e desejar o melhor para a nova família.
Nesse instante, Jacob surgiu sorrateiro, aproximando-se pela lateral da casa, vinha com a arma empunhada. Jessica apareceu logo atrás.
Apesar da aparente tranquilidade, os ânimos estavam exaltados, com isso bastou que a desastrada meretriz partisse um graveto para que o pior acontecesse. Um dos homens de Laurent se virou, mirando em Jacob, que por estar com a arma pronta, simplesmente o acertou na mão, fazendo com que derrubasse a pistola, urrando de dor.
Alarmado com o estampido, Embry correu para a mãe, que via a cena como um pesadelo assustadoramente veloz.
Rápido como um raio, o outro companheiro de Laurent sacou a arma e sem aviso disparou na direção de Isabella que recebia os braços de Embry em sua cintura. Com a respiração suspensa ela o abraçou, sentindo seu sangue enregelar; recusando-se a pensar que o tiro o tivesse atingido.
E novamente, tão veloz que todos quase perderam o movimento, Laurent se voltou contra o próprio empregado e o alvejou no peito, com mortal precisão. Isabella comprimiu o rosto de Embry em seu corpo para que nada visse.
– Imbecil! – Laurent vociferou ao homem tombado. – Você poderia matá-la!
Jacob, depois de recolher a arma de seu atacante, apontava as duas pistolas para Laurent, muito atento a cada movimento.
– Abaixe a arma – ordenou ao fazendeiro.
– Enlouqueceu?! – este sibilou furioso. – Abaixe você essas armas.
Trêmula, Isabella sequer os ouvia, apenas se inclinou sobre o filho para analisar cada parte. Somente ao confirmar que ele não estava ferido ouviu os gritos. O disparo não fora para eles; Sam havia sido atingido.
Angela, Maureen e Susan se lançaram sobre ele chorando e gritando em desespero. O choque em ver o amigo ferido, talvez morto, não trouxe à moça nenhuma reação; era mesmo um pesadelo. Nada daquilo podia ser real.
– Abaixe as armas! – Laurent novamente ordenou ao criado do barão. – Não vê que precisam de nossa ajuda?
– Não recebo ordens vindas do senhor – Jacob rebateu, porém a olhar para Sam.
– Amber, faça alguma coisa! – Angela rogou aflita.
Ainda atordoada com toda ação, Isabella olhou de um ao outro. Sam precisaria de ajuda caso não estivesse morto. Aquela não era hora para prosseguir com a briga.
– Jacob, abaixe as armas, por favor – pediu.
O moreno hesitou, porém a obedeceu. Depois de guardar a própria arma, entendeu a mão para o fazendeiro.
– Dê-me sua pistola.
– Como ousa? – Laurent indagou aviltado.
– Acredito que ninguém aqui confie no cavalheiro, então... Se foi sincero e deseja ajudar, dê-me a arma.
Contrariado, Laurent o atendeu. Jacob imediatamente abriu os tambores das armas para descarregá-las, enquanto o fazendeiro corria até Sam.
– Afastem-se! – ordenou.
Logo o criado do barão estava ao lado, ajudando a distanciar as mulheres enquanto Laurent afastava o casaco de Sam e lhe abria os botões do colete e camisa.
– Parem de gritar! – Laurent novamente ordenou. – Ele está vivo! O tiro o atingiu o ombro.
– Mas ele está desacordado! Está morrendo! – Susan gritou.
– Não está – Laurent afirmou. Ao soerguer o corpo do moreno, todas viram o filete de sangue. – Eis a razão. Ao cair o infeliz bateu a cabeça.
– Levem-no para dentro de casa! – Angela pediu para os dois homens. – Susan pare de gritar. Maureen mostre a eles onde é meu quarto. Lá Sam ficará mais bem acomodado do que no catre velho que ocupa.
– Você! – Laurent berrou ao homem ferido. – Não ouse sair daí.
– Mas a minha mão! Esse cretino acertou minha mão! – ele gritou de volta.
– Se me desobedecer eu acerto a outra. Agora, cale-se! Enrole-a com seu lenço e aperte com força que logo daremos um jeito nisso.
– Senhorita – Jacob se dirigiu à Isabella, que se levantava. – Não considero prudente confiarmos nesse senhor.
– Por quem me toma insolente?! – Laurent questionou ofendido. – Todas as diferenças devem ser postas de lado quando um homem é ferido por acidente. Insisto em dizer que nada disso era meu desejo.
Ato contínuo, todos encararam Isabella, como se devesse vir dela a sentença para o impasse. Ainda confusa ela olhou em volta. Havia a aflição das mulheres, a animosidade entre os homens, mas o que a fez decidir foi Sam ferido e inconsciente.
– Abriremos a exceção, Jacob. – Ao falar encarava o fazendeiro. – Vamos ter em conta que sir Hunt é um homem honrado.
Laurent sustentou-lhe o olhar até que Jacob se aproximasse para ajudá-lo. Então, com um a segurar Sam pelos braços e o outro a sustentá-lo pelos pés, o ferido foi levado para o interior da casa.
Isabella sabia ser arriscado confiar em Laurent, mas não via como Jacob poderia lidar com um homenzarrão como Sam, contando com a ajuda de mulheres fracas e delicadas. Agora era rogar para que não tivesse novas surpresas.
– Vamos entrar – Jessica sugeriu embargada. – Não é bom para Embry ficar aqui fora vendo os moços machucados.
Nesse instante a razão pareceu se apoderar de Isabella completamente. Deveria ser forte pelo menino. Um dos “moços” com certeza estava morto, e o outro ainda sangrava, mesmo que já tivesse enrolado o lenço na mão. Aquela situação poderia se tornar em um pesadelo real e recorrente para uma criança tão pequena.
– Venha Embry – ela o tomou pela mão, guiando-o.
– Mas não vão socorrer o outro senhor? – ele indagou, encarando-a com os olhos maximizados.
– Depois querido. – Isabella esboçou um fraco sorriso. – Depois que Sam despertar.
Subitamente ela parou e olhou em volta.
– Onde está Kate?
– Vi quando ela correu – disse Jessica, raivosa. – Depois que Sam foi atingido.
– Deve ter fugido a cretina! – Susan opinou.
– Bem, só nos resta esperar que ela volte e se explique. – Isabella considerava impossível, mas gostaria de ter respostas.
– Duvido que o faça! – Jessica exclamou, dando voz ao pensamento da moça.
Uma vez na cozinha, Isabella se dirigiu à assustada cozinheira.
– Brenda, eu creio que já tenha visto Embry. – Quando a criada assentiu com a cabeça, prosseguiu: – Muito bem. Vou levá-lo ao meu quarto. Poderia providenciar uma xícara de chá e alguns biscoitos para ele?
O assentimento mais uma vez foi mudo. Com isso Isabella levou o menino escada acima, sendo seguida por Jessica e Susan. As demais ela descobriu a montarem guarda na porta do quarto de Angela; agitadas e chorosas.
Isabella levou o filho até seu quarto, completamente arrependida de tê-lo trazido ao Jardim. Deveria ter imaginado que Laurent tentasse uma aproximação, uma vez que sempre soube haver uma traidora entre as meretrizes.
Mas Kate? Jamais poderia imaginar. Talvez nunca soubesse, mas gostaria de entender o que levou a meretriz a ajudar Laurent Hunt, colocando-o em seu quarto, repassando informações.
O próprio fazendeiro se mostrava uma incógnita. Apesar da forma sarcástica com a qual se dirigiu a Embry ao mostrar a arma, no instante seguinte propôs a trégua. Deveria acreditar?
Bem, Laurent a defendeu, matando um de seus homens, Isabella considerou. E no momento ajudava a socorrer Sam, um declarado desafeto.
Fosse como fosse, aquela não era hora para divagações, ela determinou ao sentar o filho sobre a cama.
– Meu querido... Preciso ver como está o Sam. Você ficaria aqui com Jessica e Susan?
Embry maneou a cabeça, muito sério. Isabella preferia que ele chorasse. Ela própria gostaria de chorar, mas as lágrimas simplesmente não vinham.
– Volto num instante – prometeu antes de beijar os pequenos dedos gelados.
Com as pernas estáveis, Isabella saiu e seguiu a passos rápidos até o quarto da amiga.
– Deixem-me entrar! – pediu, batendo à porta, depois de afastar as moças, ignorando a sucessão de perguntas desconexas.
A porta foi aberta quase que imediatamente. Maureen saiu apressada, dando-lhe passagem.
Isabella encontrou Sam ainda inconsciente, acomodado sobre a cama de Angela, que, recuperada do choro, ajudava Laurent a despi-lo.
– Eu preferia que ele fosse levado até o médico da cidade – sugeriu Jacob, contrafeito.
– Acredito que também queira mandar chamar a guarda para denunciar a morte daquele infeliz! – Laurent se dirigiu a Jacob.
– Certamente! – o criado do barão ergueu o queixo. – Um homem foi morto, outro, ferido. E isso como resultado de uma abordagem furtiva, no mínimo suspeita. Feita pelos fundos da casa, sem o conhecimento dos proprietários...
– Nada do que aconteceu era minha intenção! – Laurent garantiu, retirando o próprio casaco. – Vim mesmo em missão de paz, mas não seria recebido. Se você não tivesse se esgueirado até nós portando uma arma...
– A postura de seus homens sugeria exatamente o contrário do que alega senhor! – Jacob retrucou altivo.
– E o que você sugere? Que se traga o inspetor até aqui?
– Por Deus, não! – Angela rogou a Jacob. – Bem sabe que o funcionamento dessa casa é ilegal. Os senhores fazem vistas grossas, mas dificilmente ignorarão um assassinato. Mesmo que legítima defesa seja a alegação.
Jacob relanceou o olhar para Isabella. Nos olhos escuros a moça via mais do que indecisão. Via também a reprovação, mesclada à piedade. Ambos sabiam que ela estaria encrencada com o barão e a baronesa.
– Empenho minha palavra, encontrarei uma forma de corrigir o que se passou aqui. Então, enquanto decide o que pretende fazer, eu me ocupo de ajudar este infeliz – falou, arregaçando as mangas de sua camisa.
– O que pretende fazer? – Isabella indagou alarmada.
– Retirar a bala. O que mais seria?
– Não! – negou veemente. – Para tanto não confio em você!
– O que sugere?
– Isabella, por favor... – Angela pediu; aflita.
– Deixe que eu cuide dele – Jacob pediu, retirando o casaco para igualmente arregaçar as mangas de sua camisa.
– Você? – Laurent desdenhou.
– Sim... – replicou o criado. – Como observou, o projétil o atingiu no ombro. É a cabeça que inspira maiores cuidados. De toda forma, se o pior acontecer enquanto o trato, ao menos as senhoras saberão que a morte foi legítima.
– É mesmo insubordinado!
– Já expliquei que não devo obediência ao senhor – Jacob retrucou. – E peço que espere que eu termine para vermos como resolveremos a situação delicada na qual colocou todas dessa casa.
Laurent conteve a respiração e, no instante seguinte, muito vermelho, recuperou seu casaco e marchou decidido até a porta.
– Não recebo ordens, conselhos ou sugestões de criados – bradou. – Já fiz minha parte.
Sem esperar mais comentários, abriu a porta intempestivamente, assustando a quem se espremia contra ela, tentando ouvir o que se passava no cômodo.
– Saiam! – ordenou.
Alarmadas, as moças liberaram gritinhos ao lhe dar passagem. Isabella hesitou, porém, contrariando a muda advertência de Jacob, lançou-se em perseguição ao fazendeiro.
Temia que Laurent fosse até Embry, contudo estacou a meio caminho ao ver que Laurent Hunt desceu a escadaria apressadamente. Viu ainda quando ele rumou à cozinha.
– Para onde ele foi? – indagou uma das moças. Pelo burburinho, todas estavam às costas de Isabella.
– Para o inferno, espero – ela murmurou.
Rogando a Deus para que não tivesse novas surpresas, Isabella voltou ao quarto, sempre tapando os ouvidos às muitas perguntas.
Ao entrar reconheceu o alívio no suspiro de Jacob, que já cuidava de Sam. Daquele arranjo Isabella se agradava. Com ele, Sam teria uma chance.
Maureen voltou ao quarto trazendo bacia com água morna, uma faca pontiaguda, navalha, tesoura, agulha e linha. Uma das moças a ajudava, trazendo panos limpos.
– Sir Laurent passou pela cozinha a cuspir fogo – contou.
– Nem deveria ter entrado – Jacob comentou secamente, recebendo o que ela havia trazido. – Obrigado, agora saiam, por favor.
Depois que se foram ele agiu. O primeiro a receber tratamento foi o ferimento da cabeça. Jacob raspou o local, lavou o machucado então deitou a cabeça de Sam sobre um retalho de pano branco.
– Acredito que tenham um doutor que as assista quando precisem – disse a nenhuma em especial. – É melhor pedirem que uma das moças vá chamá-lo.
– Irei eu mesma – Angela se prontificou, já seguindo para a porta.
Sem respondê-la, Jacob voltou à ação, narrando o que fazia. Com isso, Isabella descobriu que a bala estava ao lado de um osso e logo foi retirada. Depois de fechar o ferimento, o moreno o limpou e o cobriu com outro pedaço de pano.
– Agora não há mais nada a fazer – anunciou, lavando as mãos. – Temos que esperar que o médico chegue.
– Obrigada, Jacob! Como conseguiu fazer essas coisas?
– Um homem precisa saber cuidar de seus companheiros – disse simplesmente ao baixar as mangas de sua camisa. – Como está a senhorita?
Nos olhos castanhos havia, novamente, a mistura inquietante de preocupação e pesar.
– Estou bem! No momento quero apenas saber que Sam está fora de perigo e que Embry não fique impressionado.
– Bem, quanto a Sam só nos resta esperar. Já sobre seu filho, acho que ficará bem. Se for como sir Edward é um menino difícil de abater.
Isabella moveu a cabeça em concordância e, passando a torcer os dedos externou o que mais a consternava.
– Como explicaremos o que houve aqui ao barão?
– Diremos tudo como se passou.
– Edward vai me odiar por desobedecê-lo – pela primeira vez sentiu que o pranto viria.
– Pouco provável senhorita! – tranquilizou-a, esboçando um sorriso solidário. – Mas esteja preparada para ouvi-lo resmungar como um velho reumático.
– Resmungos eu posso suportar... – disse embargada e ao tentar sorriu, chorou.
– Não chore senhorita – Jacob rogou e, tomando a liberdade de tocá-la, abraçou-a pelos ombros. – Tudo ficará bem! Caso prefira podemos contar hoje em minha casa, durante o jantar.
– Embry há de contar antes – disse entre lágrimas, sem se mover. – E há também Lady Elizabeth...
– Então façamos assim. – Jacob a afastou. – Quando for buscá-lo na estação em Westking, eu conto como tudo se deu. Concorda?
– Não tenho muitas escolhas...
– Então está decidido. Agora sugiro que se apresse para que possamos partir.
Isabella somente assentiu silenciosamente, secando as lágrimas com o lenço que Jacob lhe estendeu.
Como disse, não tinha muitas escolhas e todas pareciam tão horríveis quanto o desfecho que imaginava para cada uma delas. Edward não a perdoaria, não importando o que Jacob dissesse. Mas o que ela poderia fazer?
Não sabia, e agora é tarde. Muito tarde para especulações.
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