Borboleta Negra

67 Capítulo Trinta e Cinco - Parte II


Notas iniciais
Bora lá... Continuar lendo. BOA LEITURA!

Draco agitava-se, afetado pela impaciência de seu dono. Edward sequer notava os movimentos do andaluz. Segurava as rédeas com pulso firme, mantendo os olhos fixos no caminho à sua frente. Às suas costas estavam três dos homens que o ajudavam na sidreria, silenciosos durante a espera.

Por vezes Edward se arrependia de ter enviado Jacob, também acompanhado, em vez de ter ido ele mesmo até Wisbury. Se algo de ruim acontecesse ao amigo, não se perdoaria; nem responderia por seus atos.

Sua inquietante espera teve fim ao avistar seus empregados seguindo logo atrás daquele que solicitou a presença em terreno neutro. Empertigando-se sobre a sela, novamente domou o patear nervoso de Draco e manteve os olhos fitos no ser odioso que se aproximava.

– Barão! – cumprimentou Laurent Hunt movendo a cabeça com enfado, também altivo sobre seu negro Thoroughbred. – Ao que devo a honra de tão inesperado convite para encontrá-lo?

– Por certo sabe a resposta, sir – retrucou, reprimindo a sanha, contrária aos seus princípios, de verdadeiramente, simplesmente, eliminar o infeliz.

– Tenho uma vaga ideia, milord – replicou o moreno, olhando em volta, para o meio círculo formado pelos homens do barão. – Por essa razão aceitei vir sozinho, como prova de minha boa vontade. Então, Lord Edward, o que deseja exatamente? Ouvirei um sermão por visitar uma velha amiga?

Edward respirou profundamente e relanceou o olhar para Jacob que, de seu cavalo, maneou a cabeça negativamente, em mudo conselho. Livrar-se da criatura seria legítimo, contudo o barão resolveu seguir o conselho do amigo: matá-lo traria aborrecimentos indesejados no momento.

– Não ministro sermões, caro senhor – disse contido. – E também, como prova de minha boa vontade, peço que nos afastemos, pois vejo que meus companheiros o distraem, e quero sua total atenção.

Ao se calar o barão girou a rédea e incitou Draco a caminhar, embrenhando-se no bosque, distanciando-se da estrada. Confiava em dar as costas ao desafeto somente por saber que Jacob o revistou, como ordenado, para que não carregasse armas de nenhuma espécie.

– Paremos aqui – determinou ao frear o andaluz. Incontinente apeou. Enquanto atava as rédeas em uma das árvores, viu por sua visão periférica que Laurent fazia o mesmo.

– Então, barão, o que quer? – indagou o fazendeiro aproximando-se. – Se não me sequestrou até aqui para que ouvisse um sermão, diga do que se trata.

– Não nomeie minhas ações baseado nas suas – solicitou ao levar as mãos aos bolsos da calça. – Este é somente um convite “amigável” para esclarecermos alguns pontos. Não! Na verdade, há apenas um... Mantenha-se longe de minha família.

– Ora, Lord Edward – disse Laurent a erguer as mãos num gesto de paz –, em minha defesa, eu devo dizer que jamais poderia imaginar que ao procurar uma amiga tão dileta fosse me deparar com “vossa família”.

– Enganei-me – ciciou Edward ao avançar um passo até prostrar-se diante de Laurent. – Há mais pontos a esclarecer... Isabella Swan, minha futura esposa, não foi nem nunca será sua amiga, antiga ou dileta.

Laurent sustentou o olhar enraivecido antes de retrucar com simulada humildade.

– Não quero aborrecê-lo, barão, mas devo lhe dizer que está mal-informado. A amizade entre mim e vossa noiva é, sim, antiga e profunda.

Nem mesmo Edward acompanhou a própria ação. Ao dar por si, já continha Laurent pela lapela do grosso casaco.

– Perdeu o senso?! – vociferou junto ao rosto do fazendeiro. – Se além da língua deseja perder também a vida, repita o que disse infeliz! Repita!

– Largue-me! – Laurent pediu, movendo os braços entre os do barão para afastar as mãos poderosas, libertando-se. – Isto está fugindo ao nosso controle. Perdoe-me, não quero, de fato, aborrecê-lo.

As palavras não combinavam com sua expressão colérica. Ambos arfavam, muito dispostos a terminarem o que haviam começado no baile de aniversário na Mansão Cullen. Tanto que Edward não resistiu em oferecer esta alternativa.

– Estamos sós “sir” Laurent... Não se impressione com meus homens, eles estão alertados para não nos interromper, então, deixe cair à máscara mais uma vez para que possamos resolver nossas diferenças definitivamente.

– Não há o que resolver – Laurent recuou um passo, declinando ao desafio. – Peço, encarecidamente, que me perdoe. Fui grosseiro, e confesso que o fiz somente por invejá-lo. Sempre possuiu um coração que por anos cobicei. Como se não bastasse, descubro que é pai de tão garboso menino. É vossa, a família que quis para mim!

– Para expressar seu afeto valeu-se de socos? – Edward retrucou. – De ameaças? Como vê senhor, não estou mal-informado. Com isso, reforço minha recomendação inicial. Mantenha-se longe de “minha” família. Não quero sequer saber que olhou para minha noiva ou apresentou armas ao meu filho. Se o fizer, que Deus me defenda, mas lidarei com seu assedio à minha maneira.

– Tranquilize-se, barão – pediu o fazendeiro novamente a erguer as mãos. – Se está bem-informado, sabe que ofereci a paz. O que aconteceu ontem foi um lamentável incidente. Deve saber também que matei o infeliz que por pouco não o privou de vossa noiva. Deveria agradecer-me, não, ameaçar-me.

Edward conteve a respiração mais uma vez. Daquele detalhe em particular não sabia; em momento algum Jacob relatou que Isabella esteve na mira de uma pistola. Não, não havia como perdoá-la por se expor.

– Rogo também me perdoe se assustei o menino – Laurent prosseguiu. – Não era minha intenção. Não tenho filhos, bem sabe, logo não sei como lidar com os pequenos.

– Acho que não temos mais nada a tratar – Edward encerrou o encontro; não tinha estômago para ouvi-lo sem agir como ansiava.

– Não tenha cuidados, barão – Laurent pediu. – Ficarei longe, mas antes...

– O que quer?

– Minha arma – disse sem receio. – Seu criado a tomou de mim. É uma peça de família. Não gostaria de perdê-la.

Não era a intenção de Edward manter nada que viesse daquele homem, com isso, havia trazido as benditas armas, desmuniciadas por Jacob quando as tomou.

Sem deixar de encarar seu eterno desafeto, o barão foi até a sela de Draco e dela desprendeu o saco onde acomodou as pistolas.

– Aqui está. Não somente a sua, mas as de seus homens. Agora vá! E não espere agradecimentos de minha parte, pois ao defender minha noiva não fez mais do que sua obrigação uma vez que livrou de uma situação criada por você mesmo.

– Pois vou revelar sua ingratidão – disse Laurent encaminhando-se para seu cavalo negro. – Desejo a paz, Lord Edward. Em breve terá uma prova.

– Melhor sairmos daqui – Edward ignorou o comentário.

Não suportava ouvi-lo, vê-lo. Uma vez montado sem Draco, indicou o caminho para que o fazendeiro fosse à frente. Estava decidido a não dar às costas para tão traiçoeira criatura, uma segunda vez.

Edward seguia Laurent Hunt atento a cada movimento, conformando-se por deixá-lo partir. Como deixou claro, nem mesmo saber que havia defendido Isabella mitigava o ódio sentido. Ao contrário, somente o aumentou.

Assim como elevou a queixa que tinha da noiva. A irresponsabilidade dela o decepcionava a cada novo detalhe. Ele sabia que a providencia seguinte seria encontrá-la, mas sinceramente, não se animava em fazê-lo. Nem via como?

•. ¸¸.-:¦:-✿⊱ღ ⊱✿-:¦.¸¸.•

Tendo a baronesa às suas costas, assim como Beni, Marie e duas criadas, o segundo barão de Westking esperava pelo coche que trazia sua irmã caçula. Mesmo que um mensageiro não tivesse sido enviado com a notícia da chegada, Edward reconheceria as cores dos uniformes e o elegante veículo.

Empertigado, com as mãos às costas, o barão agradeceu silenciosamente que o dia houvesse chegado. Não gostou de receber o recado das irmãs, ambos na tarde do sábado retrasado, informando que viriam somente naquele dia: 10 dias depois de seu chamado.

A demora tornou vã a ida apressada de Isabella ao Jardim. Não fosse pela urgência desnecessária, não estariam na situação que se encontravam.

Bem, pensou o barão quando o coche parou diante da casa, aquele não era o momento de pensar sobre aquilo. Atento a cena que seguia, viu o pajem se adiantar até a porta mínima e abri-la que a patroa saltasse.

Lady Alice Bradley Whitlock, esposa do quinto conde de Sheffild – anunciou o rapaz, com orgulho invejável, quando sua senhora surgiu coberta por uma capa bordô, forrada com pelos de marta. Mechas loiras escapavam pela lateral do chapéu de abas largas, enfeitado por muitas plumas, emoldurando o rosto sorridente.

Lord Edward, meu irmão! – exclamou contente, aproximando-se com as mãos enluvadas estendidas. – Finalmente estou aqui, e apresso-me em dizer... O caminho pareceu mais longo!

– Alice! – disse o barão, tomando as mãos dela para beijá-las. – Seja bem-vinda a Apple White!

– Sim, sim... – ela agitou as mãos, antes de abraçar a mãe; atitude restrita aos momentos reservados. – Quero os detalhes – disse ao irmão. – Não pude acreditar nos meus olhos quando recebi vosso recado. Finalmente alguém laçou seu arredio coração!

Edward não respondeu. Apenas ordenou aos seus criados para que fossem ajudar os da condessa a descarregar a bagagem. Nesse momento seus olhos pousaram em uma das criadas recém-chegadas. Esta lhe inclinou a cabeça, porém o barão a ignorou, enfadado. Não via razão para Irina estar de volta.

– Entremos – pediu, movendo mãe e irmã para o interior da casa. – Sei que está cansada, Alice, mas peço para que venha imediatamente à biblioteca. Há alguém que desejo lhe apresentar antes de lhe dar algumas respostas.

– Hum... Quanto mistério! – gracejou Alice, porém voltou à seriedade ao notar que a mãe e o irmão não sorriram. – O que há?

– Verá em breve – disse o barão. – Peço que escute com atenção e tome cuidado com as palavras, pois quem lhe apresentarei é inocente.

– Bom Senhor! Agora estou preocupada.

– Não há razão – tranquilizou-a a mãe. – Dessa parte da história sei que gostará.

Edward repreendeu a mãe com o olhar, sem nada dizer. Conduziu as senhoras em silêncio até a biblioteca. Ao entrar seus olhos pousaram no menino que folheava um grande livro apoiado sobre o colo, tendo Nero ao lado.

Imediatamente seu coração se encheu de ternura. A amizade consolidou-se ao longo daquela semana.

– Pai! – exclamou o menino depois de deixar o livro de lado e se levantar.

– Bom dia! – Edward o cumprimentou, ignorando a reação da irmã. – Cumprimente a condessa como sua avó o ensinou. Alice deixe que lhe apresente Embry, meu filho.

Amy, que fazia companhia ao menino, já havia se curvado. Então a criança, sem deixar de olhar para a condessa, imitou o gesto.

Milady – murmurou.

– Olá, rapazinho – Alice disse ao menino, analisando-o, antes de encarar o irmão. – Julgo não ter entendido... É mesmo o pai deste menino?

Nesse instante Nero passou a latir, obrigando o barão a ralhar com ele e pedir à criada que o levasse.

– Também leve Embry para que eu possa conversar com a condessa.

– Não posso ficar? – o menino indagou entristecido. – Eu nunca vi uma condessa. Ela é tão bonita... Eu também queria ficar com o senhor.

– Eu apreciaria ficar mais com você, mas não é possível. Agora vá com Amy! – demandou.

Embry deixou a biblioteca sob o olhar assombrado de Lady Sheffild. Com sua saída, a condessa encarou a mãe e então o irmão.

– Que incrível novidade é esta?

– É melhor que se sente – Edward sugeriu. – Seu estado merece atenção, sei que está exausta, então serei breve e sucinto.

Solidária, Lady Elizabeth se sentou ao lado da filha e lhe segurou a mão enquanto Edward narrava, sem contradições, toda sua história de amor, separação e reencontro até culminar em seu noivado com Isabella Swan.

– Creio que tudo o que me disse é mais do que minha mente pode assimilar nesse momento – comentou atônita. – Se não se importam, quero ir até o quarto que me reservaram. Vou trocar de roupa, descansar, e se estiverem de acordo, às nove horas quero ter um encontro com Cora.

– Isabella – corrigiu o barão. – Rogo que nunca mais esqueça. A partir de agora, será vida nova para ela e todos nós.

•. ¸¸.-:¦:-✿⊱ღ ⊱✿-:¦.¸¸.•

Isabella despertou com as batidas tímidas contra a porta de seu quarto. Ainda sonolenta, atordoada por novamente ter adormecido poucas horas antes do amanhecer, ela se sentou, relutando em abrir os olhos.

– Entre Marie!

– Senhorita – disse uma das criadas da casa depois de empurrar a porta minimamente e espiar para dentro. – Marie está atarefada e me pediu que trouxesse seu desjejum, e também que a ajudasse a se vestir.

– Entre! – ela repetiu, acomodando-se melhor contra o travesseiro. – Que horas são?

– Pouco mais de oito horas, senhorita – respondeu a criada, indo até a escrivaninha para depositar a bandeja que trazia. – Costuma tomar seu café ao levantar ou prefere se trocar primeiro?

– Antes de qualquer coisa, diga-me seu nome.

– Chamo-me Jane, senhorita. Jane Hill, Sua criada – apresentou-se a moça, inclinando-se numa reverência.

Jane era jovem, mas não mais do que ela própria, Isabella considerou. A moça tinha grandes olhos castanhos. A cor de seus cabelos foi denunciada por alguns fios loiros que escapavam pela lateral da touca branca que usava.

Isabella se lembrava dela, mas nunca tiveram a chance de trocarem uma única palavra entre si. Não era como se não gostasse da mudança, mas ficou curiosa quanto à novidade.

Obrigando-se a se livrar do sono, espreguiçou-se demoradamente, então atirou as cobertas para o lado e escorregou para fora da cama. Sentia-se amolecida. Provavelmente somente se recuperasse quando conseguisse dormir uma noite inteira: quando o barão a perdoasse.

– Olá, Jane – cumprimentou ao se aproximar. – Prefiro ter meu café agora, mas não se preocupe em servi-lo. Eu o farei.

– Estou aqui para servi-la senhorita – Jane se opôs, já tomando bule para despejar o chá na xícara de porcelana. – A Sra. Newton recomendou que a tratasse com desvelo.

Isabella quis retrucar, contudo se calou. Esperou que a criada a servisse para especular.

– Por que Marie não veio?

– A Sra. Newton está cuidando das visitas, senhorita – disse Jane ao prostrar-se ao lado de Isabella, cruzando as mãos sobre o avental.

Então, finalmente uma das irmãs do barão havia chegado, Isabella elucidou. Ignorando a dor em seu coração por pensar em Edward, indagou:

– Qual das irmãs de Vossa Senhoria chegou?

Lady Sheffild, senhorita. A condessa chegou há pouco mais de uma hora, juntamente com uma dama de companhia, duas criadas, um cocheiro e um pajem. Ah, sim! E também com Irina.

Ao sentir os dedos dormentes, Isabella depositou a xícara sobre a bandeja.

– Somente ela chegou? Talvez Lady Rosalie...

– Não, senhorita. Como sabe, a duquesa é esperada para hoje, mas ainda não chegou. Apenas a condessa.

Agora não havia meios de Isabella beber ou comer qualquer coisa; Alice estava na casa. Não temia aquele encontro como temeu um com Lady Elizabeth, mas não se sentia pronta.

Depois de saber por um soturno barão que as irmãs haviam respondido aos telegramas, avisando que ambas somente viriam no domingo seguinte, não naquele esperado por ele, Isabella teve esperanças de que a primeira a encontrar fosse Rosalie. Seria difícil revê-la, mas no passado uma amizade existiu. Com Alice não havia nada além da mútua antipatia.

E não ajudava estar afastada de Edward desde sua ida ao Jardim, há nove dias. A semana que precedeu ao ocorrido teve dias tensos e noites insones. Com o afastamento forçado, até mesmo Lady Elizabeth se manteve distante. Era como se o tempo tivesse suspenso, frio como o clima fora da casa.

Somente Embry, em sua inocência, permanecia o mesmo. Ou até mais contente por não ver a mãe na companhia do pai, tendo os dois separadamente, somente para si. Sim, Edward passou a dedicar uma hora de seus dias ao filho, sabendo que não seria incomodado, pois esta era a recomendação, repassada a ela por Marie.

Naquele domingo, que prometia agitar os ânimos, Isabella desejou que o barão não inventasse de sair, como na manhã de sábado, quando sumiu por um tempo considerável, ou trabalhar na sidreria como no domingo anterior, quando ficou fora praticamente até que escurecesse.

Encontravam-se somente nos almoços e nos jantares, e poucas palavras eram trocadas. Nos primeiros dias Lady Elizabeth, animada pela rusga entre o casal, tentava entabular uma conversa com o filho, porém, com o passar dos dias, até mesmo ela se rendeu ao silêncio.

Mesmo que inutilmente, depois que se despedia de Embry à hora de dormir, Isabella esperava que Edward fosse vê-la, como esperou na sexta-feira, mesmo com a negativa anterior. Esperou todas as noites em vão.

Incansável, todas as noites ela tentou fazer o caminho contrário e testou abrir a porta que ligava os quartos, somente para descobri-la trancada. Diante daquilo, Isabella teve a certeza de que sua desobediência havia sido pior do que imaginou, e a cada hora, a cada dia que se passava sem que conseguisse se desculpar, parecia que o delito se agravava mais e mais.

– Senhorita – a criada a despertou do inquietante devaneio. – Creio que seja melhor se apressar. A Sra. Newton pediu que viesse ajudá-la justamente para que possa estar pronta às nove horas, quando Lady Sheffild expressou o desejo de conhecê-la.

– O barão está com ela? – especulou, friccionando os dedos para que a dormência os deixasse, sentindo-se levemente nauseada.

– Não agora. Lord Edward recebeu a irmã, mas deixou que Lady Elizabeth e a Sra. Newton cuidassem de acomodá-la. Acredito que Sua Senhoria se junte a elas na hora que lhe falei. Na Sala Rosa.

Saber não ajudou. Isabella preferia que o barão estivesse perto para apoiá-la. No momento nem mesmo sabia o que esperar. Tudo o que soube é que não poderia ficar ali parada, tremendo como capim ao vento.

Mesmo com a separação de corpo, aparentemente, nada havia alterado, então, resignada, Isabella deixou a cadeira e sorriu para a criada.

– Então é melhor que eu me apresse.

– Mas nada comeu...

– Não tenho fome – disse com um novo sorriso, encorajando a si mesma. – Vai ajudar-me?

Prestativa, a criada lhe sorriu de volta e se colocou a disposição. Em silêncio, esperou que Isabella lavasse o rosto e higienizasse a boca. Depois a ajudou com o espartilho e a crinolina, assim como a vestir a saia e o corpete do vestido escolhido. Um que lhe pertencia, pois, há cinco dias, todas as roupas deixadas por Rosalie foram destinadas à doação para o asilo de Westking.

Isabella estava habituada a cuidar de si, porém naquela manhã deixou até mesmo que Jane a auxiliasse com as meias, os sapatos, calçando-os e abotoando-os para ela. De bom grato deixou que a criada escolhesse como lhe prenderia o cabelo.

– Posso tentar ocultar essas olheiras senhorita? – Jane perguntou a certa altura.

– Sim... – consentiu.

Logo a criada espelhava pó-de-arroz sobre seu rosto. Com o dedo aplicou também carmim sobre seus lábios. Ainda aérea Isabella viu como num sonho que Jane remexeu a caixa de jóias que trouxe do Jardim e que de lá retirou algumas peças para adorná-la. Sentiu também que a criada pingou duas gotas de seu perfume preferido em sua nuca.

– Espero que esteja de seu agrado senhorita.

Somente então Isabella se deu conta de que verdadeiramente havia sido “vestida” por Jane. Liberta de seu transe, mirou seu reflexo no espelho.

A nova ajudante havia prendido seu cabelo numa trança que enrolou no alto da cabeça em coque, tendo o cuidado de deixar algumas mechas soltas que emolduravam o rosto. Jane usou para adorná-la brincos delicados e uma gargantilha de três voltas, todos de pérolas e ouro.

Isabella não se lembrava da vez que usou aquelas peças, mas tinha plena certeza de que nunca as colocou ao dia. Sempre evitou adornos; sempre evitou se enfeitar. Com isso sua primeira reação foi retirar os excessos, porém ao ver a satisfação no rosto da jovem criada, não teve coragem de desfazer-lhe a alegria.

– Posso confessar uma coisa? – Jane perguntou timidamente.

– Confesse – Isabella liberou sem curiosidade; o nervosismo não lhe permitia.

– Desde a primeira vez que a senhorita esteve aqui que acalento o desejo de servi-la.

Com a revelação a criada conseguiu a total atenção da moça. Unindo as sobrancelhas em estranheza, Isabella se voltou para encarar Jane diretamente.

– Por quê?

– Rosinda sempre falou muito bem da senhorita. Assim como outras criadas que puderam servi-la de alguma forma. Todas comentavam como era parecida com Lord Edward ao tratá-los então eu quis ter a chance de conhecê-la. Mas a senhorita um dia partiu... Quando soube que havia voltado fiquei contente. E depois, Amy nos contou como pediu que seu filho se desculpasse com ela...

– Nada que não fosse o certo – observou se vaidade.

– Para a senhorita, talvez... Para muitos outros, nós, criados, não merecemos qualquer deferência. Enfim... Acho que posso dizer em nome de todas que estamos muito felizes com a escolha de Lord Edward. Por dias sofremos com a iminência de que ele desposasse a senhorita Cullen.

– Obrigada.

A Isabella não ocorreu nada mais que pudesse dizer; sentiu a mesma apreensão.

– Talvez não volte a acontecer, pois a Sra. Newton faz questão de servi-la, então quero dizer desde já que ajudá-la hoje foi uma honra para mim.

– Também foi uma honra, ser cuidada por alguém tão zelosa – assegurou, levantando-se para apertar afetuosamente as mãos da criada.

Esta arregalou os olhos castanhos e corou antes de sorrir timidamente.

– Acredito que deva descer agora senhorita – recomendou visivelmente embaraçada. – Espero tê-la deixado à altura de um encontro com a condessa.

Ao comentário Isabella se congratulou por não ter arruinado a produção da criada. Deveria pensar em sua aparência para aqueles eventos. Sua posição era por si só desfavorável para ainda se apresentar com simplicidade, algo imediatamente associado à inferioridade.

Depois de novamente agradecer o cuidado, Isabella deixou o quarto. Não desceu como esperado. Antes seguiu até o quarto do filho, somente para descobri-lo vazio. Adivinhando que talvez o menino estivesse já na companhia da “tia”, Isabella respirou profundamente e marchou para a escadaria.

Em seu caminho, cruzou com as criadas da condessa de Whitlock no corredor. Se os rostos desconhecidos não as identificassem, as roupas o fariam. Seus vestidos eram de seda marfim, bordados com folhas delicadas. Trajes tão refinados que as fariam parecer duas damas caso não usassem também aventais e toucas de linho branco.

O primeiro impulso de Isabella foi cumprimentá-las, porém as criadas a encararam, então olharam maliciosamente entre si antes ocultarem risinhos no mínimo ofensivos.

Resignada, Isabella ergueu o queixo e seguiu seu caminho como se não as tivesse visto, porém ao descer a escada, novamente sentia a confiança se esvair. Se as criadas já a julgavam, o que esperar de Alice?

Nada que não tenha esperado antes, disse a si mesma, indo até a Sala Rosa, dois cômodos além do salão que servia como capela. Estava a um passo da sala quando ouviu seu antigo nome e estacou. Realmente não queria se tornar uma bisbilhoteira, mas suas pernas simplesmente não a levaram adiante.

– Cora! – repetiu a voz consternada. – Ainda não consigo acreditar que sua noiva é Cora Hupert. Sinceramente meu irmão, no que estava pensando?

– Querida Alice... – Isabella estremeceu ao ouvir o tom falsamente manso do barão. – Sabe que estou imensamente feliz que tenha atendido ao meu chamado, mas não o fiz com a intenção de responder questões que não lhe digam respeito. O que penso, somente a mim interessa.

– Engana-se! – rebateu Alice. – Como cunhado do Duque de Ascot e do
Conde de Sheffild, deve pensar em como vossas decisões podem vir a afetá-los. Nobres formam um todo, e certas ações são decididas em conjunto.

– Com isso me diz que eu deveria ter pedido permissão para me casar ao vosso marido ou ao de Rosalie?

– Ou aos dois! – Alice salientou. – Talvez até mesmo à rainha.

– Francamente... – Edward riu. – Nem me darei ao trabalho de responder a isso. Vou, sim, buscar minha noiva para “reapresentá-la” e espero que se comporte. E lembre-se do nome correto.

Isabella se desesperou, e reflexivamente afastou-se da porta numa curta corrida para então se voltar e caminhar de volta, como se chegasse naquele instante. O movimento rápido e brusco agitou seu estômago e a tonteou. Estava prestes a cair quando a porta foi aberta pelo barão que se precipitou para o corredor.

Agindo reflexivamente, Edward a segurou pelos braços, mantendo-a de pé. O choque vindo com o toque e a presença dele abalou-a mais, porém Isabella se obrigou a ficar ereta.

Ambos permaneceram a se encarar por um instante. Talvez fosse a falta que sentia dele, mas para Isabella, Edward nunca esteve mais bonito. Ele havia dispensado o casaco, optando por ficar apenas de camisa branca e colete preto, como comumente nos dias amenos de trabalho; estava divino.

Como nos dias da semana, ela se magoou somente por vê-lo perfeitamente barbeado, sem que tivesse sido ela a fazê-lo.

O barão por sua vez, igualmente se perdeu a admirar a noiva. Agora que abertamente reconhecia sua atração pela versão menos respeitável da moça, não sabia se a preferia de rosto lavado ou pintado como ela se apresentava. Os cabelos negros, arrumados de forma primorosa ajudavam a confundi-lo.

Por um instante a mágoa foi esquecida, assim como as duas senhoras que os esperavam na sala, e tudo o que Edward pôde pensar foi no quanto desejava beijar os lábios trêmulos de sua noiva; levemente cobertos de carmim.

Abalou-o também sentir o odor de jasmim que vinha dela, como quando a conheceu.

– O que houve? – Lady Elizabeth indagou.

– Eu – ele começou roucamente – ia buscá-la. Você está bem?

Não, ela não estava, pensou. Ficaria bem quando pudessem conversar, mas não pôde dizer.

– Edward? – Alice o chamou impaciente. – O que há?

Ainda a ignorá-las o barão ofereceu seu braço à noiva.

– Venha. É melhor acabarmos logo com isso.

Livrando-se do encantamento, Isabella aceitou o braço do barão, preparando-se para o primeiro confronto. Ouvir o que diziam serviu para saber que realmente não havia nada novo a esperar daquele encontro.

Ao entrar na sala, os olhos de Isabella imediatamente recaíram sobre a dama parada ao lado da poltrona ocupada por Lady Elizabeth. Alice havia se tornado uma bela moça. Usava um vestido de cetim roxo, ricamente bordado no busto com fios dourados. A saia descia a partir daquele ponto, deixando evidente o ventre alargado pela gravidez.

– Isabella, deixe-me apresentar minha irmã, Alice Whitlock, Condessa de Sheffild. Alice, esta é Isabella Swan, minha noiva.

Milady – Isabella inclinou-se diante de Alice – é um prazer revê-la.

– Gostaria de ser verdadeira ao dizer o mesmo – disse a condessa, medindo a moça abertamente. – A apresentação foi desnecessária visto que já nos conhecemos. Como tem passado?

– Bem, obrigada! – disse Isabella, afastando-se um passo. – E milady, como tem passado?

– Com a licença do barão serei sincera – falou Alice, sustentando-lhe o olhar. – Estava bem e feliz até tomar conhecimento do que tem se passado nesta casa. Por esses dias acreditei que meu irmão finalmente tivesse tomado juízo e encontrado alguma dama adequada para desposar. Tal novidade encheu ao conde e a mim do mais puro contentamento. Todavia, agora que sei a verdade, temo que a decepção de meu marido se equipare a minha.

– Alice... Já havíamos conversado sobre isso! – alertou-a Edward, duramente.

– Não! – Isabella pediu. – Deixe que ela fale o que sente.

– Obrigada! – agradeceu. Para surpresa de Isabella, a condessa falava sem rancor, apenas expondo sua opinião. – Entenda que particularmente nada tenho contra você. Agora que a vi, percebo que pouco me lembro do tempo que viveu nessa casa. Não éramos próximas, e não vejo como sermos agora, pois é indigna de estar entre nós. Caso nos encontrássemos em outra situação talvez uma boa convivência fosse possível, mas dadas as circunstâncias... Vendo o passo que meu irmão seguramente dá rumo ao abismo social, não há como.

– O tempo pode passar, o sol nascer e vir o ocaso milhões de vezes, a neve cair e derreter outras tantas, e nem assim minha irmã deixará de dizer bobagens – Edward debochou para encobrir seu aborrecimento. – Minha noiva deve perdoá-la.

– Não disse nada com o intuito de ofendê-la – protestou Alice.

– Por certo que não – replicou o barão. – Eu ficaria profundamente aborrecido se o fizesse, e antes que aconteça, devo perguntar... Acaso se esquece de nossa origem?

– Como? – Lady Sheffild se mostrou confusa.

– Agradeço que você e Rosalie tenham feito casamentos excelentes – ele prosseguiu –, mas, assim como eu, nenhuma das duas nasceu em leito nobre. Nossas origens são tão plebéias quanto às de minha noiva. Se algo mudou, foi somente porque nosso pai recebeu uma patente e posses por agradar a rainha com sua sidra, igual a tantos outros novos ricos intitulados que de alguma forma a contentaram. Isto que ostenta, cara irmã, é somente pose, não, tradição. Então recomendo que demonstre um pouco mais de humildade ao julgar a dignidade de outrem.

– Colocado desta forma... Perdoe-me se ofendi um dos dois – rogou Alice sem demonstrar emoção. – Eu quis apenas dizer como me sinto. Não esqueço como tudo se passou, mas tenho consciência de que agora os tempos são outros. Já disse que nada tenho contra vossa noiva, apenas não a considero a melhor, muito menos a mais indicada. Bem sabe que Sua Graça, o duque de Ascot, sempre esteve disposto a lhe encontrar uma boa esposa. Uma de suas primas, que você bem sabe serem também parentes distantes da rainha.

– Esta conversa, sim, se torna inadequada – retrucou, olhando rapidamente para a noiva. Estavam momentaneamente separados, mas não admitiria que fosse destratada; nem com “educação”. – Bem sabe que nunca me interessei por esses arranjos. Aliás, nunca me interessei por um casamento, vantajosos ou não. Se hoje mudei minha opinião foi tão somente por Isabella, mãe do meu filho.

– Sim, um menino adorável por sinal. Mas Edward...

– Sem “mas” – ele a cortou. – Se “particularmente” não tem queixas contra minha noiva, nada mais há a ser dito. A mim traria grande alegria se pudessem ser amigas, mas caso não sejam, na qualidade de seu irmão mais velho, ordeno que no mínimo a respeite.

– Hoje, devo obediência apenas ao meu marido, mas lhe tranquilizo, dizendo que nunca foi minha intenção agir de outra forma – defendeu-se Alice. Para Isabella disse: – Você entendeu minhas colocações, não?

– Certamente, e nada do que foi dito deixou de ser discutido entre nós antes de chegarmos até aqui. Saibam que a sua preocupação é a minha, mas uma vez que Edward está decidido a assumir a mim e ao nosso filho, nada posso fazer. Lady Elizabeth é testemunha do recente mal que causei ao tentar livrar vosso irmão de minha inadequação. Ao falhar ficou claro que não cabe a mim uma decisão.

– Disso eu não sabia! – exclamou Alice, olhando do irmão a mãe, interrogativamente. – Deixou o barão outra vez que não a primeira, anos atrás? – perguntou diretamente a Isabella.

– Nada do que passou importa – se interpôs o barão. – Olhemos adiante, esquecidos das implicações que meu casamento trará. Estou estabelecido no campo, não dispenso um mês de meu tempo nas temporadas em Londres. Minha vida social se resume a poucos bailes nas vilas ao redor de Westking, então não temo perder o que não possuo. Quanto a você e a Rosalie, juntamente com seus respectivos maridos, provavelmente não serão atingidos pela minha escolha, afinal, duvido que alguém do seu círculo de amizade se preocupe com a vida de um parente quase que permanentemente ausente.

– Eu a alertei de que seus argumentos seriam inúteis – disse Lady Elizabeth, dirigindo-se a filha, porém com os olhos fitos na futura nora.

– Sendo assim, de minha boca não virão outros – prometeu Alice, aproximando-se do irmão. – Estou prestes a iniciar minha própria família então posso entender sua convicção. Vejo que por Embry está disposto a tudo. Não serei leviana assegurando que aceitei por completo a situação, mas farei o possível para adaptar-me.

Edward quis retrucar, salientado que por sua noiva estava disposto a tudo, porém se calou. Seus sentimentos não eram mercadoria para serem expostos publicamente. O importante era notar a sinceridade da irmã. No final das contas, o encontro foi melhor do que imaginou.

– Eu agradeço por isso – disse apenas, tomando as mãos da irmã para beijá-las. Tentando livrar-se da tensão, observou: – Uma futura mãe não deveria estar sentada?

– Ah, não! – rogou Alice, rindo levemente. – Já basta Jasper a me encher de recomendações. Daqui a pouco esquecerei como se anda, pois em Sheffild sou obrigada a ficar sentada durante todo o dia.

– Mulheres em vosso estado inspiram cuidados milady – Isabella comentou apenas para calar sua mente, aflita por Edward, em momento algum, dizer que o casamento se daria por ela, não somente pela existência de um filho entre eles.

– Sou nova nessa situação – disse Alice, deixando que o irmão a sentasse numa das poltronas –, mas me sinto absolutamente bem. Agora que estou livre dos enjôos de meses atrás, nada me incomoda.

– Sinta-se afortunada! – Isabella recomendou, um pouco mais a vontade. – Tive apenas um filho e sua espera foi sofrida. Mas tudo valeu à pena. Por alguns dias achei que fosse perdê-lo, contudo Deus ouviu minhas preces e hoje ele é um menino saudável.

– Deus, em Sua infinita sabedoria, compreendeu que não deveria privar os parentes inocentes de conhecê-lo um dia – comentou Lady Elizabeth, pondo-se de pé. Sem dar atenção ao filho que a repreendia com o olhar, acrescentou: – Mas isso está no passado e devemos olhar apenas para o futuro. Assim sendo, desculpo-me por deixá-los. Embry está sob os cuidados de Irina... Deixei que aproveitassem o sol que finalmente veio esta manhã, mas já é hora de entrarem.

– Fique a vontade – Edward liberou a mãe.

Irina. Aquela era a segunda vez que ouvia aquele nome, contudo Isabella não teve a chance de saber de quem se tratava.

– Sim... Fique a vontade. Conversarei mais um pouco com minha futura cunhada e meu irmão antes de retornar ao quarto – disse a condessa, mantendo a atenção de Isabella.

Com a saída de Lady Elizabeth, Edward se afastou até se colocar junto à lareira de onde apenas observou as duas moças conversarem. A citação à gravidez que não acompanhou serviu para lembrá-lo do tempo em que a noiva vivia livre, sem regras, renovando as cismas que o perturbaram todos os dias e noites daquela semana infernal.

– Lamento saber que meu sobrinho correu algum risco. Mesmo sendo ilegítimo eu jamais desejaria que o pior acontecesse.

Isabella não se ressentiu ao comentário. Talvez seu julgamento estivesse errado, mas, sem a afetação, constantemente utilizada por Lady Elizabeth, parecia que ela apenas dizia a verdade, crua, sem o objetivo de humilhá-la.

Até pouco mais de duas semanas atrás Embry era de fato um bastardo.

Analisando a jovem mulher sentada no estofado ao lado, Isabella a considerou diferente daquela adolescente que trazia na lembrança. Sim, ainda corria o risco de estar errada, mas a ela parecia que a Alice atual não seria capaz de atirar um filhote de galgo na lareira. Talvez Edward tivesse razão ao dizer que a ação não tivesse passado de “coisas de criança”.

– Não pense nisso – Isabella pediu por fim. – Certos assuntos não devem ser discutidos para que não se impressione.

– Não fico, mas devo alertá-la de que não repita essa história para o conde. Ele simplesmente não me deixaria sair da cama.

Com o comentário Isabella reconheceu que Alice tentava cumprir a promessa feita ao irmão, mantendo uma conversa amena. Com gracejos forçados, mas também com educação.

Esforçando-se em fazer o mesmo, Isabella esboçou um sorriso e, instintivamente correu o olhar até o noivo parado junto à lareira. Edward mirava o fogo, distante. Antes, por alguns minutos ele esteve “perto”, mas novamente o perdeu.

– Seria muita indiscrição perguntar por que mudou seu nome?

– Seria – Edward respondeu pela noiva, sem deixar de olhar o fogo –, mas para que a curiosidade não persista, responderei com Isabella – ele encarou a noiva e prosseguiu: – Ao deixar essa casa, levando meu filho, ela decidiu poupar-me de minhas obrigações, e para que eu não a encontrasse, valeu-se de um novo nome.

Ante a intensidade do olhar azul, Isabella se sentiu culpada, como se de fato tivesse fugido dele na ocasião. A mentira adquiria conotação verdadeira, tamanha a convicção imprimida pelo barão.

– Isso é extraordinário! – exclamou a condessa, olhando de um ao outro. – Eu jamais poderia imaginar o que faziam pelos cantos escuros desta casa. E Rosalie. Ela por certo sabia e nunca me contou.

– Não – ele negou, ainda respondendo pela noiva. – Rosalie não sabia tampouco. O segredo era somente nosso.

– Então eram muito bons em guardar seus segredos. Aliás, noto que ainda são. Posso jurar que há algo escondido ao ver como se olham como se eu não estivesse aqui.

– Bobagem – Edward refutou, finalmente encarando a irmã.

– Não é o que parece, mas não insistirei. Apenas expor-lhe-ei o que acabo de imaginar, então me escute, por favor... Tendo em vista que se mostra irredutível em sua decisão, acho que seria conveniente forjarmos uma boa posição para sua noiva.

– Como disse?

– Por que o espanto? – Alice indagou condescendente. – Bem sabe quão inadequado é manter uma noiva sob o mesmo teto. Seria aconselhável ter alguém que hospede Isabella até o casamento. Conheço algumas damas em Londres que ficariam satisfeitas em recebê-la e até mesmo introduzi-la na sociedade como sendo uma prima distante. Isto em troca de uma significativa quantia, evidentemente.

Edward se absteve de comentar, deixando que a irmã narrasse seu plano até o fim.

– Enquanto isso, você poderia dar a Isabella uma propriedade. Nos arredores de Dorking há um velho priorado cujo dono se encontra declaradamente falido. Você poderia adquiri-lo para instalar lá sua noiva, conseguir-lhe alguns criados, e uma boa dama de companhia. Talvez fosse sábio nomear um tutor que respondesse por ela. Em um ano, depois que Isabella tivesse “debutado”, frequentado bailes, peças teatrais e jantares entre as nobres famílias, você anunciaria o noivado.

Tal plano pareceu absurdo para Isabella. Ela se manteve segura até notar a mudança sutil nos sérios olhos do barão.

Quando ele a encarou intensamente, ela soube que a insana ideia era avaliada.

Foi impossível não se desesperar, pois não queria ser enviada para Surrey, muito menos para Londres. Sentindo o ar rarear, quis protestar, porém em seu choque, não encontrou palavras.

Encontrar a passagem trancada e ser segregada pelo barão se revelaria ser um castigo muito brando, Isabella pensou. Quase nada se comparado ao que ele parecia muito disposto a lhe aplicar.

Notas finais
Gostaram?... Me deixem saber... u.u Bora ao próximo!