Borboleta Negra
68 Capítulo Trinta e Seis - Parte II
Notas iniciais
O segundo barão de Westking encontrava-se demasiadamente decepcionado para se comover com o assustado olhar que recebia de sua jovem noiva. O que valia era sua vontade e, talvez, um ano fosse um tempo razoável, considerou.
Não que para ele o plano de Alice tivesse o mesmo peso e valor, mas, Isabella ficar doze meses longe de Wisbury, do Jardim das Borboletas, junto às damas neutras, dispostas a educá-la para que recuperasse o senso de dever e hierarquia, por fim lhe fosse providencial.
Sim, para aquele fim o tempo seria ínfimo, porém, ao analisar a ideia sob outra perspectiva, Edward considerou os mesmos meses, infinitos. Estar pouco mais de uma semana distante apenas fisicamente já não o feria imensamente?
– Não! – negou veemente, rouco e empertigado. Ao notar o exagero de sua negativa, suspirou e, amenizando o tom, acrescentou: – Aprecio que deseje atenuar o impacto que meu casamento possa causar, mas Isabella não vai à parte alguma.
– Quis tão somente ajudar – justificou-se Alice.
– E eu aprecio imensamente o cuidado – inclinou-se reverente em agradecimento –, mas não se faz necessário. Agora, acredito que esse encontro já tenha atingido seu objetivo. Você concordou em se adequar à situação, então creio que seja melhor subir e descansar até que se anuncie o almoço.
– Bem, eu tentei – disse Alice, pondo-se de pé, levando Isabella a imitá-la. – E não me ressinto por ter negado minha ideia, meu irmão. Mas quero deixar claro que, mesmo o amando com todo meu coração, se no futuro, vosso casamento se mostrar uma ameaça à boa reputação do conde, não hesitarei em sugerir que relações sejam cortadas.
– Caso algo nesse sentido se mostre minimamente possível, eu mesmo tratarei de anunciar nosso rompimento – prometeu. – No mais, não preciso lembrá-la de que deve ser discreta quanto os detalhes de meu envolvimento com Isabella. Este é o nome escolhido e o único que deve ser mencionado.
– Evidente! Considero essa troca de nomes providencial? E não acabo de expor ações que poderiam eliminar outros tantos detalhes? Sabe que serei discreta.
– Agradecido – inclinou a cabeça reverentemente para a irmã. – Tenha um bom descanso.
Isabella olhava de um ao outro, atordoada. Não queria ser o pivô da separação entre os irmãos, e não via o que poderia fazer para evitar.
– Estarei em meu quarto caso precisem de mim – anunciou a condessa. Diretamente para Isabella disse: – Espero que até o casamento, minha opinião tenha mudado e eu possa dizer, sinceramente, que estou feliz. Até breve.
Ainda estupefata Isabella assistiu Alice deixar a sala.
– Se não se opõe – começou Edward, frio como nos dias anteriores, seguindo os passos da irmã –, sugiro que faça o mesmo e descanse até o almoço. Ou que vá até nosso filho. Eu aproveitarei para ler alguns documentos.
Entender que era dispensada levou Isabella a reagir. Num ato reflexivo, bloqueou a passagem do barão, contendo-o pelo peito.
– Eu me oponho! Evidente que me oponho. Sabe que precisamos conversar. Não somente sobre o que se passou aqui, mas... antes... Mais de uma semana passou e o “depois” ainda não veio.
– Agora o momento é inoportuno – ele retrucou, desviando o olhar –, pois temos visitas.
– Exatamente! E em breve teremos mais... Preciso que esteja comigo para que possa suportar.
– Eu estou com você! – assegurou, olhando acima dela, para a porta. – É melhor sairmos. Tenho assuntos...
– Não, você não está! – Isabella segurou-lhe o rosto e o forçou a encará-la. –Não dirige a mim mais do que breves cumprimentos formais... Evita-me durante a noite quando poderíamos conversar em paz. E não negue, esteve tentado a me enviar para Londres. Eu notei.
– Não posso negar – admitiu o barão, roucamente, abalado pelo toque; pelo odor de jasmim que rescindia dela. – A ideia de Alice é válida em muitos aspectos. Seria uma boa solução para o problema que me apresentou.
– Um castigo! Era tudo o que seria... Sei que errei, mas não acho que mereça ser tão duramente sentenciada. Se ao menos você me deixasse explicar...
De súbito Edward se livrou das delicadas mãos e se afastou. Protelou abordar a questão para poupá-la de seu mau gênio, mas uma vez que ela o interpelava, não se conteve.
– Não há explicação para algo simples – ciciou. – Você não reconhece minha autoridade.
– Reconheço!
– Não, e deixou bem claro ao levar Embry a sua casa. Eu lhe disse o que fazer, contudo agiu como bem quis. Como se ainda fosse livre.
– E acaso sou uma prisioneira?!
– Sei que entendeu – replicou. – Agora tem um compromisso firmado comigo. Era esperado que soubesse as implicações.
– Eu... Eu sei. Quero me desculpar, mas você não permite.
– Porque não basta. É fácil ir contra mim e depois se desculpar. Se me mostrar condescendente, agravarei a situação e sua desobediência será constante.
– Não pense assim, por favor. O que fiz foi uma tolice, e...
– Tolice?! – indagou o barão, baixo e ríspido, avançando repentinamente até que a segurasse pelos ombros. – Uma tolice que quase lhe custou à vida! Como pretendia se desculpar se estivesse morta?
– Não... Não aconteceu... – murmurou intimidada, tendo o coração aos saltos.
– Então é o bastante? Como pode ser tão imatura?
– Não sou, tanto que reconheço meu erro...
– Não. Sou “eu” quem deve reconhecer o erro! – retorquiu o barão, soltando-a. – Deveria ter previsto algo do gênero, mas estive cego por meus sentimentos. Fui precipitado, inconsequente. Tem sido assim desde o início. Eu a trouxe para minha casa praticamente contra sua vontade. Não lhe dei alternativas para partir, pois a queria em minha cama.
– Por que se lembrar disso agora? E não foi assim...
– Foi! E depois que a perdi tudo piorou... Quando a encontrei quis prendê-la como pude, novamente sem pensar. Então sua desobediência veio para frear-me e mostrar que sempre começamos pelo fim.
– Fim?! – O temor não a deixou pensar. Trêmula, Isabella levou a mão ao coração. – Está rompendo nosso noivado? – indagou num fio de voz.
– Como eu poderia?! – Edward novamente a segurou pelos ombros. – Estou dizendo apenas que sempre começamos detrás para adiante. Estamos ligados, não restam dúvidas, mas não nos conhecemos.
– Eu conheço você – disse embargada. – E continuo sendo a mesma. Não mudei após meu erro. Entendo que o decepcionei, mas pare de dizer que não me conhece.
– Perdoe-me, Bella, mas é a verdade. Você é ainda tão nova e esteve solta por tempo demais. Com isso receio que não esteja preparada para aceitar a liderança de um marido... Não é minha prisioneira, mas ao estar casada terá que fazer o que eu digo. Se não, como poderei confiar em você? Como me ausentarei sem temer que exponha a si mesma e ao nosso filho ao perigo?
– Nada de grave aconteceu conosco...
– Poderia ter acontecido! – bradou, deixando transparecer seu medo. – Mas que inferno, menina! Como pensa que eu ficaria ao chegar de viagem e encontrá-la morta?!
– Edward...
– Escute! – soltou-a e se afastou; odiando-se por perder a compostura. – Este não é o momento, nem aqui o melhor lugar para esta conversa.
– Então vá até meu quarto – ao abraçá-lo pelas costas, comoveu-se ao novamente lhe sentir o cheiro. – Vá, por favor... Ou me deixe ir até o seu. Já me castigou o bastante. Entendi que ultrapassei todos os limites e...
Isabella se calou e se afastou imediatamente ao ouvir um pigarro. Assim como o barão, ela olhou para a porta.
No limiar se encontrava uma mulher que Isabella não conhecia, trajando um vestido simples, de cetim cinza chumbo. O cabelo castanho estava preso rigidamente num coque alto. Não tinha adornos nem colorido no rosto, e ainda assim era incrivelmente bonita.
Em momento algum olhou para Isabella. Sua atenção era voltada ao barão, a quem inclinou a cabeça, ocultando os olhos verdes.
– Perdoe-me a interrupção, milord... Lady Elizabeth pediu para avisá-lo que acaba de receber uma mensagem de sir Carlisle, anunciando que virá esta tarde, juntamente com esposa e filha.
O recado foi simples e perturbador. Não somente pela iminência de juntar Embry a Carlisle sob tantos olhares ou ter Edward e Tanya no mesmo cômodo, mas porque Isabella não gostou do tom com que foi repassado, nem da forma que a recém-chegada sustentava o olhar do barão.
– Diga a Sra. Newton que prepare o chá da tarde aqui, afinal, Lady Sheffild estará conosco e talvez até mesmo Lady Ascot – demandou recuperado do destempero.
– Assim farei milord.
– Espere Irina – Edward deteve a bela mulher quando esta fez menção de sair. – Quero que conheça minha noiva, Isabella Swan. Creio que a tenha visto, não?
– Por certo, Lord Edward – disse, desviando o olhar para a moça, com fria indiferença. – Irina Ully, sua criada.
– Prazer em conhecê-la – Isabella respondeu vagamente. Antes da apresentação, soube que aquela era a mulher que esteve com Embry, trazida pela condessa. Não sabia era qual o lugar de Irina naquela casa.
Como se lesse seus pensamentos, Edward esclareceu.
– Miss Ully era dama de companhia de Lady Elizabeth. Quando Alice se casou ficou acertado que ela se mudaria para Sheffild, onde seria a governanta. Assim foi até que minha irmã anunciasse que viria para Apple White. Pelo o que me foi dito, ela pediu para voltar a servir a antiga patroa. Estou certo? – ele indagou diretamente à mulher.
– Em cada palavra, milord – concordou Irina, novamente lhe sustentando o olhar. – Foi bom servir à condessa, mas minha senhora sempre foi vossa mãe. Fico feliz que meu pedido para retornar tenha sido atendido pelo conde e que Vossa Senhoria me tenha recebido de volta. Ser-lhe-ei eternamente grata.
Isabella sentiu seu estômago revirar. Talvez estivesse abalada por tudo o que se passou antes da chegada daquela mulher, mas a ela pareceu haver um sentido oculto em cada palavra.
– Não tem que agradecer a mim – retrucou o barão. – Quem delibera sobre a permanência dos criados é nossa governanta, juntamente com minha mãe e futuramente minha esposa.
– Certamente, milord... Servirei à nova baronesa com alegria.
Não, não serviria, Isabella sentiu em seus ossos. “Miss” Ully parecia mais disposta a lhe arrancar um olho a servir-lhe água de bom grado. A antipatia era palpável.
– Não espero menos do que isso – disse Edward, liberando-a. – Agora vá!
Livre da comoção anterior, recusando-se a aceitar o que dizia seu coração, Isabella se voltou para o barão. Precisava de respostas.
– Por que eu nunca soube da existência dessa criada?
– Porque, desde que quando contei, ela não nos serve – Edward retrucou. – Por que eu haveria de comentar criados que partiram?
Resposta válida, porém insatisfatória. Sabia que sua situação era delicada, que talvez o barão a despachasse para Surrey no próximo trem, mas não se conteve.
– É muito bonita. Quantos anos ela tem?
– Por que supõe que eu saiba?
A pergunta parecia despropositada, mas mostrou ao barão o que arreliava a moça. Infelizmente não poderia tranquilizá-la. De sua parte, Irina Ully sempre seria alguém sem especial importância, mas sabia do interesse que a criada nutria por ele.
No momento, somente poderia desejar que este estivesse no passado.
– Não gosto dela! – Isabella anunciou. – Achei-a petulante, encarando-o como fez.
– Esqueça-se dela! – demandou: a situação entre eles ainda era delicada até mesmo para se envaidecer com a notória possessividade. – Irina apenas deixou clara sua curiosidade ao flagrar-nos em situação anormal. Entende agora que aqui não é lugar para conversarmos?
– Então, vá até meu quarto – pediu, desarmou-se ante ao tom endurecido.
– Esqueça! Ainda é cedo para pensarmos na noite. Você ouviu o recado. Sir Carlisle virá, e Rosalie ainda é esperada. Se realmente entende as implicações de nossa união, direcione sua atenção para estes fatos.
– Estou atenta a eles, mas seria tão mais fácil se o sentisse ao meu lado – voltou a se aproximar. Depois de subitamente tomar-lhe as mãos, beijou-as delicada e demoradamente, desejando que o gesto demonstrasse que o considerava seu senhor. – Por favor, my lord.
Não deveria fraquejar, era certo, contudo sua consternação se mostrava insuficiente para eliminar a crescente falta que sentia dela, considerou, muito abalado. Difícil manter-se firme ao vê-la tão bonita, enfeitada como estava. Suplicante e passiva como estava. Cheirando a jasmim.
Após um profundo expirar, Edward se rendeu ao que pedia seu coração, segurou-a pelo pescoço e a beijou. Arrependeu-se no segundo seguinte, pois ao provar os lábios macios, depois de tanto, tanto tempo, desestabilizou-o.
Esquecido do flagrante recente o barão apertou sua noiva num abraço para aprofundar o beijo, capturando-lhe a língua, gemendo baixinho, incitando-a a fazer o mesmo.
Afastou-a tão rápido quanto a prendeu ao primeiro sinal de excitação.
– Não irei ao seu quarto – avisou arfante, muito rouco, evitando olhá-la –, mas destrancarei a porta que nos separa.
Sem mais palavras partiu, deixando Isabella a sorver o ar aos bocados, ardendo após o beijo sufocante.
Ainda preferia que fosse ele a procurá-la, mas entendeu que a inversão indicava que não havia sido perdoada. O barão apenas indicava que estava disposto a resolver a questão. Para ela, o beijo e as palavras serviram de alento. Agora, estava pronta para o que viesse.
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Fugindo a regra das últimas refeições, o almoço não foi silencioso ou tenso, mesmo que as únicas vozes ouvidas fossem as da condessa e da baronesa que tinham muitos assuntos a tratar. Todos que excluíam a participação de Edward e sua noiva.
Particularmente, Isabella não se importava e, ao relancear o olhar para o noivo vez ou outra, acreditava que ele sentisse o mesmo, pois dedicava toda sua atenção ao prato. Para a ocasião Edward havia se vestido completamente, não dispensando nem mesmo a gravata plastrão, presa por um alfinete terminado em pérola, o que lhe conferia intimidante austeridade.
Tanta que levou embora o pouco o apetite de Isabella.
A duquesa ainda não havia chegado o que aumentava mais a expectativa. Por sua impaciência, Isabella preferia ter ficado com o filho, mas não se atreveu a pedir que fosse liberada da refeição conjunta.
Tal pedido soaria como desfeita, algo que Isabella deliberadamente jamais faria. Depois da breve e tensa conversa que teve com o barão, decidiu deixar claro que sempre lhe seria obediente, como uma esposa deveria ser.
Após a sobremesa, Edward escusou-se e deixou a mesa, alegando que voltaria ao gabinete, onde resolvia assuntos da sidreria.
Isabella por sua vez, pediu licença às intituladas senhoras e deixou o cômodo, decidida a se juntar ao filho. Por sorte, encontrou-o na companhia de Amy, não na de Irina.
– Mamãe, que bom que voltou! – alegou-se o menino, indicando alguns soldados com os quais brincava sobre o tapete. – Veja! Tenho uma fortaleza e um leão que a guarda.
Isabella sorriu ao ver que o leão era Nero: um galgo nada feroz que dormia junto à lareira.
– Yasmim está presa na torre – acrescentou – e os guardas não a deixam sair. A senhora chegou bem a tempo de ver Kalil resgatá-la.
– Estou vendo – assegurou Isabella, sentando-se sobre a cama.
– Embry é bem imaginativo – comentou Amy, sorrindo afetuosamente para o menino.
– Sim, ele é... – concordou a mãe, prestes a livrar-se da criada. – Amy, você se importaria de pedir a Marie que me prepare uma xícara de chá. Sinto-me indisposta.
– Será um prazer – prontificou-se, já a seguir para a porta. Tão logo Amy saiu, Isabella inclinou-se na direção de Embry e contou num sussurro confidente:
– Hoje sir Carlisle virá nos visitar, mas devo pedir que não se anime, pois talvez não o veja.
– Por que não? – Embry uniu as sobrancelhas.
– Lembra-se que já conversamos sobre isso?
– Sim, mas eu queria vê-lo.
– E tenho certeza de que esse é o desejo dele, mas sir Carlisle não poderá perguntar por você caso seu pai não lhe permita estar na sala durante a visita.
– A senhora não pode dar a permissão?
– Infelizmente não, meu querido. Seu pai ainda está aborrecido comigo, e ele está certo. Então, pode entender?
– Sim, eu entendo – aquiesceu.
– Bem – disse Isabella para animá-lo –, caso aconteça de ser chamado, peço que contenha sua alegria e se lembre do nosso jogo.
– Vou lembrar, pois não quero perder.
Antes que Isabella o incentivasse, ouviu o farfalhar de saias e passos muito próximos. Levantou-se antes que Alice entrasse.
– Então foi aqui que se escondeu – comentou, avançando um passo.
– Vim ver meu filho.
– Um belo filho. É impressionante como se parece com Edward. E é tão gentil! Rezo todos os dias pela graça de ter também um menino – revelou, acariciando o ventre. – Esse é o sonho de todo homem.
– Acredito que seja – murmurou Isabella, alerta: ainda temia estar errada quanto às intenções da condessa.
– É certo. Todo homem deseja ter um herdeiro que perpetue seu nome a cada geração. Posso imaginar a alegria de meu irmão ao saber de Embry.
– O barão exultou de felicidade – confirmou.
– E os trouxe para cá, como devido. Espinhoso é sua história pessoal, ou como os eventos se desenrolam. Já que Edward está decidido a legitimar esta família, tudo deveria correr de acordo, na medida do possível. Devo acreditar que o ame, não?
– Eu o amo – afirmou Isabella, olhando para o filho, receando agravar o ciúme infantil. Surpreendeu-a vê-lo sorrir.
– Sendo assim – o comentário da condessa desviou-lhe a atenção –, aqui entre nós... Não haveria a mínima chance de você considerar minha ideia? Pense no bem que faria a quem ama.
De repente Isabella se pegou a considerar, contudo, logo calou o pensamento.
– Como lhe disse, de minha parte, nada posso fazer. Estou inteiramente nas mãos do vosso irmão. Cabe a ele determinar meu destino.
– Eu a entendo – disse, mal ocultando um sorriso intimista. Então, mudando o assunto drasticamente, Alice olhou para Nero e sorriu abertamente. – Você não viu, mas esta fera latiu para mim. Pode acreditar? Ele latiu como costumava fazer, você deve se lembrar. Tanto tempo se passou, porém ele não esqueceu o que fiz.
– O que fez milady? – Embry indagou.
– Pode me tratar por tia, Embry. – Alice o liberou e respondeu. – Eu não era boa para ele. Bem... Agora que sou adulta posso confessar. Eu tinha ciúmes da amizade entre minha irmã e sua mãe e no dia que papai trouxe Nero, eu... Eu o machuquei, deliberadamente, para entristecê-las.
O galgo, que encarava a condessa desde sua entrada, ergueu a cabeça, como se reconhecesse a própria história. Sustentando o olhar do cão, ela prosseguiu:
– Na ocasião, e muito tempo depois, eu pouco me importei. Mas hoje reconheço minha imaturidade. Se Nero fosse capaz de entender, eu me desculparia.
– Ele entende tia Alice – assegurou Embry e se levantou para ir até ela e segurar-lhe a mão. – Venha. Diga que sente muito, assim Nero saberá.
Isabella conteve a respiração ao ver Nero sentar sobre as patas traseiras. O galgo nunca avançou contra Alice, mas sempre deixou claro estar pronto a fazê-lo caso ela se aproximasse demais.
Depois de olhar para o sobrinho, num misto de divertimento, descrença e receio, Lady Sheffild se dirigiu ao galgo.
– Nero, desculpe-me por... Por... Pelo que fiz.
Evidente que cães não tinham discernimento, mas, a bem da verdade, Nero foi até os pés de Alice e lhe cheirou barra do vestido. Depois farejou o novo amigo e voltou a se deixar, ignorando a todos. Para a criança fantasiosa, tal ação valeu como perdão.
– Viu? – Embry exultou. – Nero a desculpou! Se não tivesse desculpado a teria devorado.
– Mamãe não exagerou – Alice comentou, rindo complacente para o menino que movia os dedos como se fossem garras ansiosas. – Ele é mesmo encantador.
– Obrigada! – Isabella murmurou. Não havia o que dizer quando se confirmava um milagre. Era, sem dúvida, uma metamorfose, mas a caçula mimada e voluntariosa dos Preston Bradley havia mudado: não era mais uma víbora, pequena ou grande.
– Não retiro minhas palavras anteriores – disse ela, dirigindo-se a Isabella, sempre a mirar o menino –, mas por Embry, rezarei para que este arranjo de meu irmão funcione. Eu não gostaria de ser privada de tão deliciosa companhia.
A chegada de Amy calou uma resposta e encerrou a visita da condessa. Depois de recusar a bebida que a criada trazia Lady Sheffild se despediu e partiu.
– Eu gosto de tia Alice – Embry revelou à mãe.
– Agora, eu acho que também gosto querido – disse Isabella, intimista, agradecida por sua futura cunhada não se mostrar um empecilho.
Contente, Embry voltou a brincar depois de convidar Amy a entrar na fortaleza.
Servida do chá, Isabella voltou a se sentar sobre a cama e forçou-se a beber toda a bebida quente. A novidade sobre Alice era boa, mas as inquietações estavam longe do fim.
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O barão mantinha a cabeça pousada entre as mãos. Desde sua viagem tinha a impressão de estar atado a um carrossel mental que nunca parava. A sucessão de pensamentos não dava sossego, e agora, até mesmo em seu peito uma miscelânea de sentimentos guerreavam entre si.
Não estava satisfeito consigo por ter se rendido ao primeiro beijo. O momento era decisivo para fraquejar.
Ao pensamento respirou profunda e pausadamente, obrigando-se a ser objetivo. Sua fraqueza não um problema imediato, sim, a iminente chegada de sir Carlisle e família, e todo o incidente que um encontro com Embry poderia causar.
Com um suspiro aborrecido, Edward almejou poder, sim, fazer de Isabella sua prisioneira. Mandaria que todos deixassem Apple White, assim como proibiria a entrada de pessoas indesejadas. Abriria exceção para Embry. Em sua redoma, aceitaria outros filhos que por ventura viessem.
Sua consternação arrefeceu ao imaginar a noiva com o ventre avantajado como o da irmã.
– Ainda é cedo! – murmurou ao deixar sua cadeira.
Estava claro que não conseguiria ler uma linha do livro jurídico que escolheu para ocupar o tempo. Como nos últimos dias, estava disperso. No galpão, não via uma única letra nos documentos, não mantinha a atenção para tomar decisões simples como, qual o novo fornecedor de rolhas a contratar; nada.
Sua única resolução prática durante aquela semana, talvez tenha sido enviar Jacob a Wisbury em dias alternados. Assim, obtinha notícias de Sam e de Hunt. Este reforçou seu pedido de paz não envolvendo o Jardim na morte de seu empregado.
Segundo o periódico trazido na terça-feira, Laurent Hunt havia se metido em uma rusga entre seus empregados e terminou por matar um deles. Legítima defesa, dizia a notícia.
Edward não repassou tais informações para sua noiva, mesmo que servisse de pretexto para vê-la. Inúmeras vezes ele foi até a porta que os separava somente para recuar, e quanto mais noites se passavam, mais o orgulho aumentava, impedindo-o de ir além.
E então Isabella deu o primeiro passo, transpôs o murro imaginário que ergueu entre eles e rogou por seu perdão. Um que concedeu no instante em que a beijou, era inútil negar.
– Milord – chamou Marie ao entrar, livrando-o da divagação. – Sir Carlisle se aproxima.
– Que Deus nos ajude! – murmurou.
– O que disse milord?
Agitando a mão no ar para que a criada relevasse seu resmungo, Edward deixou o gabinete. Chegou à porta principal e parou ao lado da mãe em tempo de ver o banqueiro ajudar Tanya a deixar o coche. A senhorita imediatamente sorriu e acenou depois de inclinar a cabeça.
Estático, Edward não retribuiu o mudo cumprimento.
– Tanya é tão formosa. É realmente lamentável que não seja mais bonita – murmurou Lady Elizabeth, sem deixar que olhar a família que se aproximava. – Caso possuísse mais atributos você não teria olhos para outra. Pobre moça... Veja! Tão feliz por vê-lo, inocente quanto ao que descobrirá.
– Com esse comentário devo entender que considera minha noiva mais bonita do que sua preferida? – não reprimiu o gracejo, satisfeito com o deslize da mãe.
Esta olhou o filho com afetada exasperação, porém não pôde retrucar.
– Lord Edward, Lady Elizabeth – Carlisle os cumprimentou. – Como têm passado?
– Sir Carlisle – disse Edward, voltando à seriedade. – Estou bem, obrigado! Seja bem-vindo. Lady Cullen... – adiantou-se para beijar a mão de Esme, enquanto o banqueiro fazia o mesmo com a baronesa.
– Lord Edward – Esme Cullen baixou os olhos, reverente.
Repetindo o gesto, Edward tomou a mão de Tanya e a levou aos lábios.
– Senhorita.
– Por que a formalidade? – queixou-se a moça. – Por pouco não estivemos comprometidos, então, creio que ainda possamos nos tratar com intimidade.
– Receio que essa situação tenha mudado – ele replicou. – Mas falaremos sobre essa mudança em breve. Agora rogo para que entrem. A tarde está fria.
– Sim – reiterou Lady Elizabeth depois de cumprimentar as damas. – Venham! Tenho uma surpresa a esperá-los na Sala Rosa.
– Na Sala Rosa?! – espantou-se Tanya enquanto todos entravam. – Até onde me lembro, esse é o cômodo usado em ocasiões especiais... Acaso interrompemos alguma comemoração?
Lady Elizabeth trocou olhares significativos com o filho e nada disse.
– É uma boa forma de explicar o que se passa nesta casa – respondeu Edward, enigmático, encarando o banqueiro que entregava sua bengala, chapéu e casaco a um dos criados.
– Vai nos dizer do que se trata? – Carlisle indagou, olhando além do barão, inspecionando o hall e a escadaria.
– Em breve! – Edward repetiu secamente. Era inoportuno, mas o aborrecia saber a quem o banqueiro procurava.
– Oh, Edward – rogou Tanya, tomando a liberdade de apoiar-se em seu braço –, não nos mate de curiosidade!
– Esta jamais seria minha intenção – assegurou, livrando-se do toque para indicar o corredor. – As damas, por favor, acompanhem Lady Elizabeth. Não esperem por nós, pois quero trocar algumas palavras com sir Carlisle.
– Homens e seus segredos! – Tanya exclamou com afetação, antes de tomar a mãe pela mão para atender ao pedido do barão.
Edward segurou o senhor pelo braço até que as mulheres estivessem a uma distância segura.
– Acredito que já saiba que Isabella está nesta casa – falou sem preâmbulos. – Arrisco dizer que essa seja exatamente a razão de estar aqui.
– Não vou negar milord – confirmou o banqueiro, sustentando-lhe o olhar. – Tenho estado preocupado desde que deixou minha casa. Entendi quando tomou a responsabilidade de mãe e filho para si, mas antes, esta era minha. É natural querer saber o que está acontecendo.
– Não haja como se não soubesse – pediu, encarando-o seriamente. – Por certo a meretriz lhe deu todos os detalhes.
– Novamente não posso negar – Carlisle aprumou o peito. – Angela me contou uma história fantástica sobre vosso casamento, algo difícil de acreditar.
– Mesmo não acreditando, como bem lembrou agora eles estão sob minha tutela. O que poderia lhes acontecer que o consternasse?
– Perdão, milord. Asseguro-lhe que não é nesse sentido que me preocupo, então volto a pedir que se desarme. Não quero tomar para mim o que julga ser seu. Apenas sofro na qualidade de... pai.
– Não julgo – corrigiu-o –, eles são meus. Posso desarmar-me, mas não esquecerei minha impressão quanto à forma como lidou com tão amada “filha”.
– Já lhe expliquei... Não havia muito que eu pudesse fazer.
– Esqueça as justificativas – demandou o barão, baixo o bastante para que somente o banqueiro o ouvisse –, pois cansará de expô-las sem que eu as aceite, então, faremos melhor se formos direto ao ponto. O que considera fantástico é a mais pura verdade.
– Vai... – balbuciou descrente – Vai... Vossa Senhoria vai se casar com ela?
– O mais rápido que me for permitido.
– Mas, milord, considerou os riscos? Quando quis juntá-los pensei que talvez fosse mantê-la...
– Como minha rameira exclusiva? – cortou-o, aborrecido com a resistência.
– Não, não... – Carlisle agitou as mãos no ar. – Por Deus, não! Pensei apenas que fosse cuidar dela e do menino, mantendo-os num lugar seguro e... sigiloso. Estranhei que a tivesse trazido para vossa casa. Se o passado dela vir à tona, todos nós seremos atingidos... E como será com Embry? Lady Elizabeth o aceitou? E Isabella?
– São muitas perguntas para tempo tão escasso – salientou o barão, encerrando a conversa. – Com o tempo veremos o que virá. Espero que nada aconteça, mas esteja preparado para tudo, como eu estou. E que Deus cuide de todos nós!
– Que Ele se apiede e que vossa benevolência seja recompensada, trazendo alegria a todos, encerrando todo sofrimento; colocando tudo de volta ao lugar.
– Amém! – disse Edward, indicando o corredor. – Fique a vontade. Irei buscar minha noiva. Logo estarei com vocês.
Ao seguir para o andar superior, o barão considerou amenizar o tom ao tratar o banqueiro dali em diante. Estavam todos na mesma situação e, se um escândalo acontecesse, seriam fortes se permanecessem unidos.
Edward seguiu para o quarto de Embry, certo de que lá encontraria a noiva. Mãe e filho estavam sentados no sofá junto à janela. Ao vê-lo, depois que sua presença foi denunciada por Amy, Isabella baixou o livro que lia para Embry.
– Quem chegou? – perguntou, encarando-o.
– Prefiro que veja por si mesma – respondeu, em seguida vagou os olhos para o filho. – Não pudemos conversar pela manhã – disse com ternura. – Como está hoje?
– Muito bem... Hoje não virá para ficar?
– Receio não ser possível, mas tentarei me desocupar.
– Nero está sentindo sua falta, papai.
– Nero? – Edward riu divertido. Haviam estreitado os laços, mas o menino não se rendia. Como ele, pensou, relanceando o olhar para a noiva, perdendo o humor.
– Eu também – admitiu o menino, admirando-o.
– Bem... – disse após um pigarro – Veremos o que poderei fazer. – Para a noiva o barão ofereceu o braço. – Vamos!
– Tenho escolha? – ela gracejou num sussurro para ocultar o nervosismo, deixando o livro de lado.
Não havia escolha para nenhum deles, considerou o barão ao apoiar a delicada mão na curva de seu braço.
–Diga-me, quem chegou? – ela voltou a perguntar depois que deixaram o quarto.
– Sir Carlisle e família.
Nervosa como estava, Isabella sequer notou o carinho muito leve que recebeu em sua mão. Em silêncio, contando os passos, ela se deixou ser conduzida até o local do encontro; sentindo o estômago novamente revirar.
– Seja forte! – encorajou-a Edward ao sentir a frieza de seus dedos. – Estou com você.
Isabella procurou os olhos do barão. A verdade estava no brilho azul, contudo ela não se acalmou. Esboçou um sorriso apenas para tranquilizá-lo.
– Prepare-se!
Ao cruzarem o batente todas as vozes se calaram. Primeiramente o olhar de Isabella foi atraído para a condessa, que havia se trocado para a ocasião. Somente então notou Carlisle de pé ao lado do sofá que Esme e Tanya Cullen ocupavam.
Esta última maximizou os olhos e se levantou de súbito, tendo a boca aberta, em muda exclamação. Lady Elizabeth, acomodada na poltrona ao lado, também se levantou e, solidária, tocou o ombro da moça.
– Sir Carlisle, Lady Cullen, senhorita... – começou o barão, formal, indiferente às reações. – Gostaria de apresentar-lhes Isabella Swan, minha noiva.
– Noiva?! – indagou Tanya, exasperada. – Como? Quem é ela?
– Creio ter dito – disse Edward, amável, aproximando-se.
– Mas...
– Senhorita Swan – Carlisle foi até o casal e inclinou-se em cumprimento.
Intimamente Isabella agradeceu por seu amigo evitar tocá-la e não dizer o quanto estava satisfeito em conhecê-la.
– Não me recordo de tê-la visto antes – comentou Esme Cullen. – De onde vem senhorita Swan? É parente dos Swans de Wembley?
Isabella esforçou em não rir histericamente ao ouvir a mesma pergunta feita por Edward em seu primeiro contato. Encontrava-se tremendamente abalada. Não tinha as respostas, apenas sentia as voltas de seu estômago e os olhares de todos sobre ela.
– Isabella nasceu em Milton – Edward a auxiliou –, mas já esteve entre nós. A senhora deve se lembrar...
– Meu Deus! – murmurou a baronesa, pálida feito papel. – Edward, ainda não...
– Ora, Lady Elizabeth – ele lhe sorriu –, nós estamos entre amigos. Não há melhor momento para contar-lhes a novidade.
– Qual? – indagou Tanya, expectante, movendo os olhos do barão à moça que ele ainda mantinha cativa em seu braço.
– Isabella nos serviu nesta casa anos atrás e...
– Comprometeu-se com uma ex-criada?
– Tanya, não o interrompa! – ordenou o banqueiro, obrigando a filha a se sentar, mantendo-a no lugar ao pousar a mão em seu ombro. – Perdoe-a, milord, e, por favor, prossiga.
– Não vejo problema em respondê-la, sir Carlisle – olhando diretamente para Tanya, Edward confirmou e foi além. – Não me comprometi com uma ex-criada, mas com a mãe de meu filho.
– O quê?!
O grito partiu de algum ponto ao seu redor, porém Isabella não reconheceu a voz, nem o ouviu em toda sua intensidade, pois a sala girava e no mesmo instante em que o brado estridente ecoou tudo escureceu.
Edward sequer notou o espanto de Tanya. Por sentir que a noiva cambaleava, amparou-a antes que caísse. Extremamente preocupado, não ouviu as exclamações vindas após o desmaio, nem as múltiplas sugestões de como proceder.
– Com licença – pediu, já a seguir para a porta. – Mamãe, mande a Sra. Newton encontrar-me no quarto de Isabella.
Sem olhar para trás, aflito, o barão deixou a sala. Notou que era seguido pela mãe quando acessava a escadaria.
– Mantenha-a longe de Embry – demandou. – Talvez seja contagioso!
Edward não retrucou. Na verdade não compreendeu as palavras, pensava apenas em chegar logo ao quarto. Diante da porta, escancarou-a com um pontapé.
– Onde está Marie que não chega? – murmurou ao abrir o corpete do vestido. Na sequência abriu alguns colchetes do espartilho. Ao livrar o peito de Isabella da pressão de suas roupas, passou a aplicar-lhe leves tapas na bochecha. – Acorde. Acorde. Perdoe-me por expô-la.
– Milord – chamou a governanta, indo até a cama apressadamente.
– Marie, faça alguma coisa! – ordenou ao deixar a cama para que Marie ocupasse seu lugar.
– Acho que Vossa Senhoria deveria descer – ela opinou. – Deixe que eu cuide de vossa noiva.
Por instinto Edward quis negar. Chegou até mesmo a se aborrecer com a sugestão, porém no instante seguinte pensou nas pessoas que deixou na Sala Rosa. Não poderia confiar na discrição de sua mãe, sozinha com os Cullens; amigos de longa data.
Dividido, Edward lançou um olhar pesaroso à noiva. Foi com alívio que a viu tossir, para, vagarosamente, voltar à consciência. Se não saísse naquele momento, não sairia mais.
– Cuide para que Isabella livre-se dessas roupas apertadas e a faça ficar deitada. Providencie o que ela precisar e lhe diga que virei vê-la em breve – recomendou antes de sair sem olhar para a cama uma segunda vez.
Ao entrar na Sala Rosa, tinha sua mente consigo, mas lhe faltava o coração. Carlisle levantou ao vê-lo, visivelmente consternado, porém dosou a ansiedade ao questioná-lo.
– Como está vossa noiva?
– Sendo cuidada. Repousará e logo estará bem. Obrigado!
– O dia tem sido agitado – comentou Alice.
– Eu sempre pensei que criadas costumavam ser fortes – alfinetou Tanya, sustentando o olhar do barão, sem se importar com a repreensão do pai. – De toda forma, agora que ela foi prontamente socorrida, digo que mereço uma explicação. Como pode, do dia para a noite, surgir um filho? Isto depois de quase propor-me casamento. Acho que posso processá-lo.
– Sob qual alegação? – desafiou-a. – Não existem quase delitos, quase ofensas, nem quase noivados.
– Milord, eu rogo para que perdoe a forma como minha filha o interpela, mas devo dizer que compartilho de sua curiosidade – Esme Cullen se pôs de pé para prosseguir. – Por muitos dias meu marido permitiu que fosse à nossa casa para fazer a corte e em momento algum soubemos da existência de um filho. Custo a crer que estivesse nos enganando.
– E não estava – assegurou, considerando desnecessário encarar o real culpado por aquela situação: um banqueiro calado ao lado do sofá. – Minha corte era legítima e a senhora bem sabe que eu quis, sinceramente, oficializar o noivado.
– Sim, por essa razão não entendo – ela insistiu. – Se meu marido não o tivesse impedido, talvez hoje estivesse casado com minha filha, tendo essa história obscura em seu passado.
– Todos têm uma história em seu passado, eu apenas desconhecia de alguns detalhes. Mas quis o destino que as coisas não corressem como determinei. Não desposei sua filha para que agora fosse livre e pudesse assumir meu filho.
– Uma ação não anularia a outra! – Tanya salientou, aproximando-se do barão. – Não me oporia que sustentasse seu bastardo, desde que o mantivesse longe.
– Oh! – Lady Elizabeth não calou seu assombro. – Teria coragem de manter um filho longe do pai?
– Tenho certeza de que pensa da mesma forma, milady. Crianças indesejadas, nascidas fora do casamento não precisam de tanta consideração. Antes de tudo são uma nódoa a macular famílias legítimas. Então, nada mais natural que sejam mantidos longe e em segredo – para Edward falou, tocando-lhe o rosto. – Não se sinta forçado a reparar um deslize, meu querido. Ainda posso aceitá-lo se assim desejar. Não deve se casar com uma criada. É absurdo!
– Tanya! – ralhou o banqueiro. – Está fora de seu juízo?
– Jamais sou forçado à coisa alguma – retrucou o barão, afastando-se. – Nem preciso que me digam o que devo ou não fazer. E para que não restem dúvidas, Embry nasceu fora de um casamento, mas não seria indesejado. Provo-lhes dizendo que não é ilegítimo. Já o reconheci como meu filho.
– Lord Edward?! – Carlisle o encarou estupefato. – Chegou a tanto?!
– Veja que disparate papai! – Tanya foi até o pai e o abraçou, transtornada. – Nunca me senti tão humilhada!
– Como se sente é irrelevante Tanya – comentou Alice que esteve quieta até então. – Confesso que me agradaria vê-los casados, sempre me pareceu ser o curso natural, mas a vida tomou novo rumo. O que acontecer a partir de agora não a afeta.
– Evidente que afeta! – o grito veemente assustou a todos. Afastando-se do pai, aos prantos, Tanya olhou a todos até encarar o barão. – Não entende? Era para ser eu... Todos nossos conhecidos esperam que seja eu a futura baronesa. Não aceito uma criada em meu lugar! Tudo isso porque a usurpadora apresentou uma criança qualquer!
– Basta! – vociferou Edward, alteando a voz. – Não vou considerar o que diz, pois claramente está fora de si, mas lhe advirto a medir suas palavras.
– Esse menino pode ser filho de qualquer um! – ela insistiu altiva, enfurecida.
Nunca antes Edward desejou fervorosamente esbofetear um rosto feminino. Sua mão coçou, porém ele cerrou o punho, contendo-se como podia. Ouvia a repreensão vinda do banqueiro, de Esme e de sua mãe, mas novamente não lhes discernia as palavras.
– Para o bem de nossa antiga amizade, sir Carlisle – falou entre dentes, a bufar, bravio –, eu sugiro que coloque um freio na boca de sua filha, antes que eu indique a ela onde está a saída.
– Por Deus! Vamos nos acalmar – pediu a baronesa, indo até Tanya para afastá-la do barão.
– Bem... – Edward começou, com certa dificuldade em modular a voz. – Peço que me perdoem. Saibam que sempre serão bem-vindos desde que respeitem todos que aqui vivem, sem distinção. Agora vos peço licença.
Sem despedidas Edward deu as costas a todos e deixou a sala, pisando duramente, ainda se apegando a sua civilidade para não cometer um desatino.
– Linguaruda maldita! – ciciou enquanto subia os degraus de dois em dois.
Queria estar com a noiva, mas não estava em condições de fazê-lo. Então, apenas parou à porta para lhe ouvir a voz enquanto conversava com Marie.
Todo seu corpo tremia, trespassado por uma raiva genuína. Então, perguntando-se até onde poderia ir a maledicência de uma mulher preterida, seguiu para o quarto de quem possuía o dom de apaziguar seu espírito: seu filho.
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