Borboleta Negra
45 Capítulo Treze - Parte II
Notas iniciais
Obrigada pelos reviews, pela compreensão que demonstraram ao meu recado. :)
Vcs são as melhores!...
Agora... BOA LEITURA!
As palavras do barão ressoaram por cada canto do corpo de Isabella, enregelando-a mais do que a poderosa mão que apertava a sua. E ao acompanhá-lo como podia, quase a correr, notava que ele tinha razão quanto ao tamanho do jardim; na verdade se o barão a deixasse naquele ponto não saberia voltar. Para agravar sua situação toda a luz oferecida provinha da lua, baixa no céu naquela noite; caso nuvens traiçoeiras a cobrissem, eles ficariam no mais absoluto breu. Nem mesmo a música a orientava; para retornar à festa precisaria de seu experiente guia.
Notar a desenvoltura com que Edward seguia pelo labirinto de arbustos fez com que momentaneamente esquecesse Laurent Hunt ao sentir crescer seu ciúme. De fato não queria soar tão ressentida, mas não domou o sentimento ao retrucar.
– E vossa senhoria sabe bem aonde vai, não? Conhece estes caminhos como ninguém. Com certeza já veio aqui muitas vezes com vossa noiva.
– Estaria com ciúme? – Edward indagou sugestivo.
– Absolutamente! – ela negou já sem fôlego, agradecida por ver que chegaram ao ponto procurado pelo barão; um quiosque branco situado num recanto escondido do jardim. Ao entrarem acrescentou: – Como observei estaria com vossa noiva, então não é de minha conta.
– Pois deveria ser de sua conta! – Edward vociferou livremente. Sem cuidados girou Isabella a sua frente para recostá-la contra a grade branca. Aproximando-se perigosamente, prendeu-a entre o vão de seus braços e, ciente de que não seria ouvido, acrescentou no mesmo tom. – Se tivesse sido sincera ao invés de fugido na calada da noite a noiva seria você.
A verdade a embargou. Seu coração batia fortemente pela caminhada e pela proximidade. Edward havia abandonado a cautela, mostrando-se igualmente afetado. Sua respiração pesada formava pequenas nuvens de vapor no ar frio da noite e seus olhos azuis chispavam tão ferozmente que podiam ser vistos claramente na penumbra.
– E então? – ele insistiu, retirando a máscara que cobria o rosto de Isabella para vê-la. – O que me diz?
– Por que voltar a nesse assunto? – ela perguntou num murmúrio; estavam perto demais.
– Por que preciso de uma resposta, inferno! Preciso saber por que foi embora sem dizer toda a verdade. Por que simplesmente sempre desiste de tudo que lhe ofereço. – O barão ciciou aproximando-se mais.
Tanto que Isabella não tinha para onde fugir caso fosse preciso; caso suas pernas instáveis se movessem. Tanto que o ar vinha com tons de colônia, tabaco e bebida, inebriando-a do barão.
– Eu expliquei o motivo – ela murmurou em sua defesa, colando-se a grade como se a mínima distância favorecesse seus pensamentos a se manterem coerentes. – Se prefere acreditar no que vê ao invés de aceitar o que coloquei na carta que lhe deixei nada posso fazer.
– Qual carta?! – Edward indagou incrédulo. – Não havia nada em parte alguma. Apenas isto!
Então Isabella teve a mão esquerda do barão exposta diante de seu rosto, com os dedos separados. Vê-lo a usar o anel que lhe pertencera por dois dias abalou-a mais do que descobrir que ele não sabia sua verdadeira identidade, diminuindo seu coração no peito. Talvez aquela fosse a razão de Edward ainda amá-la, pois amava, ela sabia, sentia. Como se todas as ações do barão não bastassem para desmentir as palavras de Cullen sobre um pronto esquecimento, ali estava uma prova definitiva; tudo tão errado.
– Se não a encontrou eu não... não sei o que possa ter acontecido, mas eu...
– Pouco importa! – ele a cortou bruscamente. – Disse que me amava, aceitou este anel e horas depois foi embora deixando uma carta?! Um maldito pedaço de papel?! Nele revelou seu envolvimento com um velho?
– Não, não revelei! – Isabella alteou a voz. Sua garganta estava travada pela comoção em vê-lo com o anel, e ela cansada daquele equivoco. – Não deixei... Não deixei porque não havia o que dizer nesse sentido. Carlisle é apenas meu amigo, um dos melhores que alguém como eu poderia ter.
As palavras alteradas o fizeram recuar para perscrutar o rosto lívido que tinha abaixo de si. Por um instante quis que fosse verdade, que uma carta existisse e que entre ela e o banqueiro houvesse apenas amizade, todavia as evidências falavam por si só. Não havia uma carta e amigos não passavam tardes em quartos de hotéis, amigos não presenteavam outros com jóias caríssimas, muito menos declaravam amá-los.
Sim, seria muito melhor se acaso a declaração dela fosse verdadeira, porém, mesmo com o ciúme a corroê-lo, já havia aceitado aquele envolvimento. Isabella não precisava explicá-lo. O que o exasperava era a falta de confiança que não seria restaurada caso tivesse lido suas razões num pedaço de papel. Era ter dormido acreditando num futuro promissor para acordar sozinho. Era recordar as juras de amor e uma partida silenciosa, sem que ela ao menos arriscasse saber se ele aceitaria a troca.
– Poderia dizer alguma coisa, por favor... – Isabella pediu a estremecer
Ao se calar a moça engoliu em seco, já fraquejando ante o olhar insistente. O barão parecia maior e o silêncio não lhe dava parâmetros para saber como a verdade fora recebida. Como ele sequer se movia, ela pigarreou e pediu, arriscando empurrá-lo pelo peito.
– Poderia se afastar Lord Masen?... Preciso de ar...
– E eu de você!
Foi tudo o que o barão declarou antes de segurá-la pelo pescoço com mãos decididas e beijá-la. Isabella ainda tentou resistir, empurrando os ombros largos com sua força débil que confirmava a facilidade da entrega sempre que Edward a requeria. Quando ele rompeu a parca resistência de seus lábios e as línguas saudosas se encontraram, ambos gemeram em lamúria.
Deveria pará-lo, contudo Isabella não tinha forças. Tão pouco e já tinha as pernas bambas, o coração frenético, seu centro úmido e dolorido. Quando o nobre a espremeu em seu abraço, ela enlaçou-o pelo pescoço com braços ansiosos. Também precisava dele, assim como do amor que lhe propôs por todos os dias de sua miserável vida. Todavia, em sua mente a cautela a alertava para parar. Ao ter a boca libertada e sentir o beijo em seu pescoço, ela implorou num fio de voz.
– Deixe-me ir my lord...
– Como quer que a deixe, pedindo assim?... – ele indagou rouco a rolar a língua pela base da garganta delicada. – Como pode querer me deixar quando claramente me deseja?
Dito isso a rolou em seus braços para abraçá-la pelas costas, prensando-a na cerca de madeira do quiosque com seu corpo já desperto. A mão invasora assaltou-lhe o decote revelador para roubar um seio que o infante James Cartier somente poderia imaginar, retirando-o completamente do bojo de seu espartilho, levando a moça a gemer ao ter um bico rijo beliscado por dedos hábeis.
– Sinta como reage a mim... – pediu o barão a mordiscar-lhe o lóbulo da orelha. E comprimindo-se para indicar sua excitação, acrescentou. – Sinta como reajo a você Bella... Somos perfeitos juntos, lembra-se?... Não houve um maldito dia nesses últimos meses no qual eu não me recordasse de nós... Você não pode ter a mínima ideia do quanto eu quis tocá-la dessa maneira no Natal...
– My lord... – ela exalou ao ter o outro seio exposto para que fosse igualmente acariciado pelas mãos aflitas do barão. O desejo despertado reverberava em sua mente, eclipsando as razões que a faziam mantê-lo longe.
– Estou aqui my lady, jamais deixei de ser seu... – gemeu, novamente a girando para capturar-lhe a boca, prendendo-a num beijo apaixonado que a invadia na alma.
Isabella não mais pensava. Nem mesmo frio metal do brasão da família Masen Bradley comprimido no vão entre seus seios arrefecia o desejo despertado. Ela apenas sentia a textura da casaca a roçar-lhe o peito nu, as mãos que vagavam por suas costas e a prendiam pelas nádegas para que sentisse a hombridade de seu dono apesar das muitas saias. Quando a boca deixou um rastro de fogo em sua pele até que provasse o bico de um seio, ela praticamente gritou. Como precisava dele! Seu corpo jovem pulsava, implorando pela posse.
– Diga que o deixará Bella... – o barão pediu, voltando a beijá-la, espremendo seus seios com mãos experientes. – Prometo que a perdoo pelo o que me fez passar. Providenciarei um lugar para nos encontrarmos. Seremos discretos... Diga que sim e acabe com nossa agonia.
Com a oferta Isabella recobrou a lucidez. Diria o que Edward queria ouvir caso fosse livre para amá-lo, caso não houvesse um abismo que os separava; uma ameaça. Com o entendimento do que ele lhe propunha, Isabella se valeu do amor que sentia para afastá-lo definitivamente.
– E quem disse a vossa senhoria que desejo algum perdão?
Ela gostaria que a voz não soasse tão instável, mas agradeceu que indicasse certa rispidez. Todavia não foi preciso, pois Edward indagou roucamente, ainda sem soltá-la.
– O que disse?
– Disse que não estou à procura de vosso perdão. – Com o coração fundo no peito usou uma das primeiras frases do barão para indicar a viabilidade de um relacionamento entre os dois, meses antes. – Olhe para si e para mim... Não sei o que vê milord, mas eu vejo um homem correndo atrás de uma mulher que não o quer.
A frase doeu mais na face do barão do que a bofetada real que Isabella lhe deu no pomar. Repentinamente o barão passou a ver o mesmo que ela, então a soltou como se o queimasse. O que o confundia era aquela pronta entrega, as palavras enviadas no bilhete... Edward sabia que quaisquer palavras ditas a partir daquele instante seriam definitivas, ainda assim não conseguiu se calar; havia algo errado.
– Não me quer? Nesses meses deixou de me amar?
Aquele era o momento do fim. Iria feri-lo onde possivelmente não houvesse chances de recuperação. Morreria internamente, mas para vê-lo seguro, livre daquele amor que o ligava a uma mulher sem valor, iria até o fim. Depois de se recompor, Isabella ergueu o queixo para finalmente responder.
– Jamais amei vossa senhoria.
– Isso é mentira! – Edward bradou dando um passo a frente para segurá-la pelos ombros e chacoalhá-la brevemente; não poderia aceitar tal declaração. – Está mentindo agora! Por que está fazendo isso? Sir Cullen a ameaçou? Ameaçou a mim? Fale!... Diga o que está acontecendo e me deixe tomar as devidas providências... Tenho como nos defender Isabella... Tenho mais poder do que ele, então pare de mentir. Confie em mim!
– Carlisle não dita minha vida então não tem por que ameaçá-lo.
– Por que continua mentindo? – Edward novamente a agitou pelos ombros. – Disse em seu bilhete que havíamos sido descobertos. A quem se referia?
Jamais poderia revelar, então, ela apelaria para todos os expedientes.
– Menti antes Lord Masen. Ninguém descobriu coisa alguma... E se quer saber a verdade em seus detalhes mais sórdidos. Estive mentindo desde a loja de doces.
– O quê?! – O barão novamente a largou para se afastar. Assimilava as palavras indigestas, quando algo lhe ocorreu. – Não tinha como saber que eu iria abordá-la.
– Não sabia, mas... Isso é o que faço. Sou jovem. Uso minha beleza para atrair possíveis amantes que me sustentem por um tempo determinado. – Aquela seria uma forma de descrever seu antigo ofício. – Esperava qualquer um... E vossa senhoria apareceu.
– Não quer que eu acredite nisso? – Edward indagou incrédulo. – Sei que estava com Sir Cullen e... Não tinha como prever que eu a levaria para minha casa!
Uma vez que o barão não havia lido sua carta e indicava não ter acreditado em seu não envolvimento com o banqueiro, retrucou segura, cada vez mais fortalecida ao passo que seu coração diminuía.
– Não tenho como negar que estive com ele, mas queria outro. E, sim, vossa senhoria me levaria! Era apenas uma questão de tempo. A chuva somente ajudou. Lembre-se que admitiu ser sua intenção viver apenas uma aventura comigo.
– Que para você seria somente por interesse, agora sei – ciciou começando a aceitar aquilo que ela tão seguramente lhe dizia.
– E eu teria muitas vantagens não é mesmo? Afinal é o barão de Westking!
– Justamente... – ele começou novamente vacilando ao ser citado aquele detalhe. – Se estava comigo por interesse, por que foi embora sem nada levar? Se acaso queria alguém que a sustentasse o certo teria ter ficado e me espoliado, não retornado para um amante que tencionava deixar.
Com a observação, Isabella soube que não seria fácil convencê-lo. Edward era movido pelo amor que lhe tinha e deixava claro que se apegaria a qualquer caco de esperança para desdizê-la e conservá-la; assim como ela movida pelo mesmo amor se valeria do que fosse necessário para afastá-lo. Com o que escolheu dizer, seu coração se partiu ao meio e sua garganta se fechou, ainda assim ela encontrou voz para externar:
– Em minha última noite em vossa cama tentei a espoliação máxima. Aquela que me garantiria uma vida tranquila pelo resto de meus dias.
Ao se calar, ela lutou ferozmente contra as lágrimas e esperou que o barão assimilasse a última informação. Não foi preciso esperar por muito tempo. Com um novo recuar, Edward sibilou enojado.
– Você tentou engravidar... O filho ilegítimo de um barão teria muito valor para você, não é mesmo?
– Sim... – foi tudo o que conseguiu murmurar.
Olhando para aquela mulher parada a sua frente, Edward aceitou o que ela mesma sempre lhe disse; não a conhecia. De fato não sabia nada sobre ela, além das histórias comoventes de abandono e violação que lhe contou e que poderiam muito bem não ser verdadeiras. Naquele instante, por sua mente passaram mil nomes espúrios que gostaria de atribuir a ela, contudo o barão os calou.
Seu orgulho, mortalmente ferido, finalmente o tomava e o revestia de indiferença contra aquela pessoa menor, que aos seus olhos apaixonados tomou a forma de alguém que não existia. O barão sentia o rosto quente de vergonha genuína por ter descido a tão baixo nível; sua vontade era nunca mais olhar-se, assim como nunca mais pousar os olhos sobre aquela criatura.
– Hoje disse que eu deveria odiá-la, mas saiba que não farei. – Edward falou altivo, dando-lhe as costas. – A partir de hoje, o único sentimento que dirigirei a você será o mais profundo desprezo.
Com isso o barão se foi, sem se importar que ela não soubesse o caminho de volta. Por sua vez, Isabella igualmente não se importou em ser deixada. Ao ficar só, pesadamente caiu sentada sobre piso do quiosque, puxando o ar com dificuldade; mal conseguia respirar. Sentia os olhos arderem, mas as lágrimas pareciam ter cedido a vez ao sangrar do seu coração. Deveria se parabenizar por finalmente conseguir seu intento, porém naquele momento apenas desejava morrer.
Estava assombrada com a coragem que tivera ao proferir tais palavras. Jamais imaginou que um dia conseguisse ser tão pérfida. Bem medido e bem pesado, uma mentirosa de seu calibre não seria boa o bastante para estar na vida de ninguém, nem na de Embry. Não, disse a si mesma. Embry era sua fonte de esperança. Deveria pensar nele para se acalmar. Logo o ar encontrou seu caminho, porém ela ainda sufocava terrificada com o que havia acabado de fazer, quando ouviu passos que se aproximavam.
Por um segundo insano, imaginou se seria Edward que voltara já desacreditado de tudo o que ouviu. Se fosse o caso, ela não teria forças para continuar com a farsa e tudo estaria perdido, pois não conseguiria repudiar seu amor uma segunda vez. Provavelmente implorasse perdão, contasse toda a verdade... E que Deus tomasse conta de suas vidas, pois aceitaria o que Edward lhe propusesse.
– Ora veja só o que o gato trouxe!
Ao ouvir a voz odiosa, Isabella suspendeu uma respiração ainda falha. Instintivamente quis chamar por Sam, mas a voz não saia assim como suas pernas não tinham força sequer para sustentá-la de pé tornado impossível tentar correr. Então esperou sentada onde estava; com as mãos apoiadas no chão, a cabeça baixa. Logo foi erguida como se nada pesasse para ser amparada pelos braços do fazendeiro. Sendo obrigada a encará-lo, ela o ouviu indagar:
– Ou será que devo agradecer ao nosso digníssimo barão? Afinal foi ele quem a trouxe e a deixou aqui, livre daquele seu perdigueiro.
Não! Sua mente gritou apavorada e seu sangue enregelou. Seria seu castigo máximo caso tivesse magoado Edward inutilmente.
– Está enganado... – conseguiu murmurar. – Não vim com ele.
– Não minta! – Laurent ordenou, apertando-lhe os ombros nus. – Disse que o barão não era seu cliente, então, abriu uma exceção para ele? Agora presta seus serviços em festas familiares?
Então era aquilo; ela exultou em meio ao inferno. Melhor que ele pensasse daquela forma.
– Isso não é da sua conta... – ela sussurrou.
– Ah, sim... É de minha conta querida Amber... Eu a observo desde que a reconheci. Na verdade, aos dois e vi quase toda a ação que se deu aqui. Não entendi por que se desentenderam... Divergência de valores talvez? O dileto barão sempre me pareceu ser sovina... Seja como for, devo dizer que não gostei. Ele teve o que não tive.
Ao se calar ele segurou a garganta da moça enfraquecida e a apertou sem cuidados enquanto mantinha-lhe a cabeça erguida; sufocando-a.
– Por quê? O que ele tem que eu não tenho? Sabe que pago bem...
– Não quero seu dinheiro Sir Hunt. – Isabella retrucou com voz estrangulada.
– Pois deveria querer... – Laurent disse afrouxando os dedos e baixando a cabeça para quase beijá-la. – Antes que me dispensasse ofereci-lhe uma pequena fortuna por aquilo que nesse momento posso conseguir de graça.
– A única coisa que me lembro daquela noite são os socos que covardemente recebi. A ameaça que fez ao meu filho...
– Jamais a machucaria se tivesse sido boa para mim... – Laurent correu o polegar pelos lábios trêmulos. – E blefei sobre a criança... Tudo que eu queria era um beijo... E que fosse única e exclusivamente minha. Pedi demais?
– Não pertenço a ninguém e sempre deixei claro que beijos não entravam no acordo. – Isabella disse ainda baixinho.
Sua garganta doía; seu estômago estava embrulhado por sentir o hálito quente que prometia consumar o contato não concedido; não poderia macular o gosto do último beijo de Edward ao ter aquela boca nojenta na sua.
– Pois você acaba de infringir sua própria regra. – Laurent a lembrou, descendo a mão pela garganta já dolorida até o colo para maldosamente apertar um seio. – Sinto sua falta borboleta... Quatro anos se passaram e eu ainda a desejo.
Ao se calar Laurent finalmente desceu a boca sobre a dela. Antes do contato Isabella já havia travado seus lábios com força, e, mesmo estando enfraquecida, resistiu à língua áspera que os pressionava a procura de passagem. Odiando o esfregar do bigode em sua pele.
– Beije-me sua vadia! – Ele ciciou raivoso. – Beije-me como beijou o barão.
Isabella não cogitou retrucar para não ter a boca assaltada durante o novo ataque. De fato sufocava, mas estava decidida a morrer a se entregar.
– Vagabunda! – Laurent sibilou, atirando-a ao chão.
A moça já se encontrava tão completamente ferida pela separação definitiva que nem sentiu as dores da queda. O que a alarmou mais foi perceber que Laurent Hunt desabotoava sua calça.
– Hoje vai me dar o que eu quero borboleta.
– Senhora?
Ao ouvir a aproximação de seu salvador ali perto, Isabella quis gritar por socorro, mas a voz não saiu. Antes que percebesse, novamente era erguida e comprimida contra o corpo de Laurent que lhe tapava a boca.
– Fique quieta sua cadela. – ordenou junto ao seu ouvido. – Ainda não terminei com você.
– Tampouco eu terminei. – Ambos ouviram a voz de Sam logo atrás deles juntamente com o som do engatilhar da arma de fogo. – Aconselho que a solte Sir Hunt. Meu dedo está ansioso desde sua invasão.
Imediatamente Isabella foi largada. Daquela vez ela equilibrou-se e, mesmo oscilando, não caiu. Sem olhar para seu captor, deixou o quiosque e o circulou até ser amparada pelo braço já estendido de Sam. Ao abraçá-la ele indagou sem desviar os olhos do homem sob a mira de seu revolver.
– Ele a machucou senhora?
– Não teve tempo... – ela murmurou com o rosto pousado contra o peito acolhedor.
– Melhor assim. Quer que acabe de vez com este “cavalheiro”?
– Não tome uma atitude da qual venha a se arrepender Amber. – Laurent aconselhou com voz instável.
Isabella então olhou para o quiosque. Laurent mantinha as mãos erguidas, a calça aberta deixando entrever a ceroula branca. A postura arqueada, completamente destoante da anterior. A verdade inquietante era que aquele homem nunca representou risco algum; era apenas patético e por ele não tinha qualquer apreço. Então pensou em Cullen que não precisaria de um cadáver em seu jardim; em Sam e em si mesma. Não seriam eles a responderem por aquela morte.
– Não desperdice uma bala. – Isabella sentenciou desviando o olhar. – Deixe-o ir embora e me tire daqui...
– Ouviu o que a senhora disse. – Sam falou para Laurent. – Suma daqui antes que eu resolva agir por minha própria vontade.
Ainda sob a mira da pistola, Laurent se recompôs rapidamente e partiu sem mais palavras. Ao se vir a sós com o amigo, Isabella finalmente deu vazão às lágrimas que haviam subitamente cessado. Com as pernas a fraquejar, pela incapacidade de respiração, ela foi amparada por Sam até que ele guardasse a pistola e a tomasse completamente em seus braços.
– Perdoe-me por não ter cumprido minha função, mas Lord Masen a arrastou do salão e não tive como alcançá-los. Tentei encontrá-los, porém esses arbustos me confundiram.
– Não há o que perdoar... – ela assegurou chorosa.
– O que eles dois lhe fizeram? – Sam indagou aflito.
– Edward... Seria incapaz de ferie-me, já lhe disse... – Na verdade ela era quem o feria, pensou culpada. Após um fungar, perguntou: – Como me encontrou?
– O barão me deu a direção quando nos encontramos quase já a saída do jardim. Não se preocupe que não precisei ameaçá-lo. Ele me avistou primeiro e me abordou.
Então, de alguma forma fora Edward também seu salvador. Mesmo ferido em seu orgulho não a abandonou. E para seu desespero, tardiamente confirmou que o magoou inutilmente. Poderia estar enganada, porém, baseada no desenrolar dos acontecimentos daquela noite, ficou claro que o ressentimento de Laurent seria direcionado a ela, não ao barão. Sim, pois, quão fácil teria sido para o fazendeiro abordá-los, vulneráveis como estavam? Bastava desmascará-los, confrontar o barão para requerê-la.
No entanto, Laurent assistiu os beijos, os carinhos e esperou que se separassem; não para seguir Edward e atacá-lo à traição, mas para atacá-la. Fora temerária e de certa forma ingênua por acreditar em suas ameaças. Por quantas vezes Cullen tentou avisá-la? Inúmeras. O fazendeiro era louco, sim, porém não se indisporia com um nobre – mais poderoso do que todos os senhores dali – por uma mera meretriz; uma cafetina.
– Não! – O grito que Isabella abafou junto ao colarinho do criado veio do fundo de sua alma. – Não... Não... Não...
– Senhora? O que houve? – Sam indagou preocupado, parando.
– Sam – ela disse aflita, sem respondê-lo –, eu preciso que me faça um favor... É urgente.
– O que pedir senhora...
Antes que expusesse seu plano desesperado uma dúvida arrefeceu seu ímpeto.
– Sam, você acha que algum dos senhores o reconheceu.
– Não tenho como ter certeza, mas receio dizer que sim. Porém, os que indicaram algum reconhecimento pareceram mais nervosos com minha presença do que animados a abordar-me.
Evidente que aconteceria, ela pensou ainda mais aflita.
– Qual é o favor, senhora?
Isabella pensou por um instante; ainda valia a discrição, contudo, encontrava-se desesperada demais para se acovardar. Após inspirar e expirar profundamente, finalmente pediu
– Leve-me até o limite do jardim e volte à festa. Preciso que encontre o barão e lhe diga, o mais discretamente possível, que quero falar-lhe.
– Sim, senhora.
Sem questioná-la, Sam apertou o passo até estar próximo a casa, onde não poderiam ser vistos.
– Deixe-me aqui. Faça o que lhe pedi. Depois vá até Cullen e peça que lhe entregue minha capa. Rápido!
Ansiosa por desfazer seu malfeito, Isabella se manteve firme de pé após ser colocada de volta ao chão. Meio escondida entre os arbustos, indiferente ao frio da noite, esperou que Sam voltasse, torcendo os dedos nervosamente. Como fora estúpida! Presa à sua ansiedade, os minutos que Sam demorou a voltar pareceram horas, e ele não veio só, tendo o banqueiro às suas costas.
– Isabella! – Cullen exclamou ao vê-la. – Sam me contou o que aconteceu. Juro a você que mando matar aquele desgraçado.
– Esqueça-o. – pediu já a vestir sua capa, olhando duramente para Sam.
– Lamento senhora, mas não o vi... – ele respondeu a muda reprimenda.
– Pois volte lá e o procure. – ordenou aflita. – É urgente.
– Ele quem? – Cullen olhou de um ao outro, pedindo a Sam com um gesto que esperasse. Encarando Isabella de volta acrescentou: – Isabella, eu mereço saber o que está acontecendo!
Isabella sinalizou a Sam para que obedecesse ao banqueiro. Sim, o amigo merecia uma explicação, porém ela não sabia como fazê-lo. Por tantas vezes o repreendeu por interferir.
– Isabella! – ele exclamou aborrecido. – Estou esperando? Quem Sam deve procurar? O que é urgente?
– Preciso desfazer uma animosidade que cometi.
Então um brilho de entendimento cruzou os olhos azuis do banqueiro. Erguendo os ombros, ele suspirou longamente antes de dizer:
– Por que não me espanta saber que fez alguma bobagem? É com o barão que deseja falar? O que fez agora?
– Por favor, não me peça detalhes... – precisava do amigo, mas este era também o futuro sogro do barão.
– Ah, não, minha querida! – Ele maneou a cabeça negativamente. – Os detalhes são sempre os melhores. São esclarecedores... O que aconteceu?
– Eu... – ela começou e parou. Erguendo os olhos viu que o banqueiro ainda esperava, então, refreando novas lágrimas, falou a um só fôlego, sem se importar em declarar diante de seu criado. – Eu amo o noivo de sua filha! Era isso que queria ouvir? Eu o amo e acabo de cometer o maior erro de todos! Feliz?
Isabella esperou por qualquer expressão, não pelo pesar que abateu a face do amigo antes de puxá-la e abraçá-la fortemente.
– Ah, minha criança... O que foi fazer? Pensei que quando estivessem face a face fossem encontrar uma forma de conversar, roguei que hoje se entendessem... Eu deveria saber que você colocaria tudo a perder. Cuido de você há anos, mas não consigo protegê-la de si mesma.
– Rogava que nos entendêssemos? – De tudo o que ouviu, aquela foi a parte que mais a impressionou. Afastando-se o encarou com as sobrancelhas unidas. – E Tanya?
– Eu disse a você que não queria nada pela metade para minha filha... – foi sua resposta. – Mas você escuta apenas o que quer ouvir.
– Disse também que eles estavam noivos, que o barão havia me esquecido. – ela retrucou, afastando-se um passo. – Por que me disse essas coisas?
– Bem, eu nunca disse que houve um noivado... – Carlisle a corrigiu. – Sobre o barão tê-la esquecido, sabe o que eu pretendia... Não é tão ingênua.
Isabella procurou em sua memória palavras para desmenti-lo, porém não as encontrou. De fato ele nunca confirmou um noivado, nem mesmo Edward, que apenas não a corrigiu quando “ela” citou o compromisso. Sim, os detalhes eram esclarecedores. E, sim, agora ela via claramente quais eram as intenções do banqueiro ao jogar com seu ciúme. Encarando-o, mordeu o lábio inferior, ainda mais aflita.
– Eu estraguei tudo, não foi?
– Vamos contar que não – o amigo tomou-lhe as mãos para apertá-las; encorajador. – Escute, não posso ficar aqui muito tempo. Logo virão atrás de mim. Voltarei à festa e tentarei remediar seja lá o que tenha feito. Então é melhor que vá para casa.
– Mas, Carlisle... – ela tentou argumentar.
– Por Deus Isabella! – ele a cortou duramente, como um verdadeiro pai a reprimi-la. – Obedeça-me uma vez na vida. Até aqui fez tudo à sua maneira e o que conseguiu? – Sem esperar pela resposta, instruiu. – Deixe que Sam a leve... Vou até o barão e depois lhe digo como ele está e veremos o que fazer...
Não seria fácil ir embora, intimamente ela lamentou que Sam não tivesse encontrado o barão, ainda assim anuiu com um manear de cabeça. Carlisle então lhe sorriu e, depois de beijar-lhe a testa, se foi sem despedidas.
Edward caminhou sem ver os rostos a sua frente. O único que reconheceu após seu retorno do jardim fora o do cão de guarda moreno a quem, por princípios, indicou o caminho para que fosse resgatar aquela que deixou para trás; definitivamente. Naquele instante odiava a si mesmo mais do que a ela por ter sido um tolo. Ainda se sentia um, pois, por mais que pensasse não conseguia encaixar as coisas que ouviu às vividas. Porém, ao que pôde ver, nada sabia. Era apenas um homem correndo atrás de uma mulher; uma que não valesse seu esforço.
– Milord... – alguém tentou abordá-lo.
– Agora não – rosnou sem interromper seus passos.
Por sorte as pessoas pareciam notar seu evidente destempero e se afastavam, antes ele que as atropelasse. Em largas passadas o barão foi até a mãe. Encontrou a baronesa a conversar com Senior Zimmer, a sós. Evidente que não gostou da proximidade, porém preferiu calar-se. Não confiava em si mesmo para tecer reprimendas veladas.
– Despeça-se do Sr. Zimmer. – ordenou prontamente. – Estamos de partida.
– Já? – A mãe estranhou. – Ainda é cedo.
– Não, não é cedo – o nobre discordou, evitando olhar para o fazendeiro que o fitava avaliativo. – Amanhã é quarta-feira, tenho trabalho a fazer.
– Todos nós temos milord. – Senior decidiu intervir. – Fique um pouco mais.
Como sua mãe sequer tivesse se movido, Edward bufou exasperado e voltou-lhes as costas sem nada dizer. Precisava de movimento. O mínimo tempo parado dava-lhe a sensação de que enlouqueceria. Também necessitava de silêncio, e as muitas vozes agravadas pela música o massacravam. Com isso caminhou para fora do salão, seguindo pelo corredor. Não tinha um rumo certo, então cruzou a primeira porta que encontrou aberta. Estava na biblioteca, onde horas antes se encontrou com os cavalheiros, sem saber o que aquela noite horrível lhe reservava.
– Inferno de mulher! – bradou a plenos pulmões. – Maldita!
Sentindo a aflição a abalá-lo, o barão circulou pelo cômodo como um animal enjaulado. Seu peito queimava, então, sem se importar por não estar em sua casa, foi até a bebida deixada pelo anfitrião e se serviu de um generoso gole. O xerez aqueceu sua garganta, porém não aplacou sua agonia.
– Milord?
Imediatamente Edward se voltou para a porta. Tanya havia entrado sem que notasse e a fechava atrás de si.
– Sei que não deveria me importar depois das palavras insensíveis que me disse, mas notei que parecia transtornado, então o vi entrar aqui... Vossa senhoria está bem?
– Vou ficar... – o barão ciciou, caminhando até ela em passos rápidos.
Não pensava, apenas sentia a necessidade de exorcizar os sentimentos deixados pela embusteira incitá-lo até a moça que o fitava ansiosamente.
– Lord Masen...?
Foi tudo o que ela murmurou antes que o barão a segurasse pela nuca e a beijasse. Não era um toque delicado ou casto. Ao esmagar os lábios macios com os seus, Edward primava por apagar o toque delicado de Isabella, e ao capturar-lhe a língua, esquecer seu sabor; precisava matá-la dentro de si. Ante seu feroz ataque, Tanya exalou um gemido lamurioso antes de enlaçá-lo pelo pescoço. Com um esgar gutural, Edward alcançou o bojo de seu vestido para castigar-lhe os seios com ambas as mãos; excitar-se era imperioso.
A moça novamente gemeu, animando-se a tocá-lo mais, ao passo que ele nada sentia. O beijo não tinha sabor algum que substituísse o anterior, nem seu corpo correspondia ao dela como acontecia com a outra. Tal limitação o fez retornar à razão. E odiar-se mais, pois ao que parecia, nem depois de todas as verdades que ouviu não se desligava dela. Enojado de si mesmo por mais uma vez reincidir no erro, sempre movido por sua fixação, Edward quebrou o beijo e voltou às costas para se afastar da jovem ofegante recostada contra a porta.
– Por favor, não me odeie. – pediu, sem encará-la. – Porém entenderei se o fizer...
– Por que eu o odiaria, milord? – Tanya perguntou, indo até ele para abraçá-lo por trás, pousando a cabeça em suas costas. – Este foi o melhor beijo que me deu em meses. Foi como antes... Quando nos encontrávamos na primavera.
Antes do outono, antes de Isabella.
– Por favor, senhorita... – ele começou, desprendendo-se gentilmente. – Esqueça o que aconteceu aqui. Estava fora de mim... Eu não devia... Foi um erro beijá-la.
Tanya nada disse por um instante, então perguntou secamente:
– Toda essa... “agitação” está relacionada à sua saída com a estranha convidada de papai?
Imediatamente o barão se voltou para encará-la. Talvez seu questionamento estivesse estampado em sua face, pois a moça ergueu os ombros e, numa postura altiva lhe respondeu:
– Sim, Lord Masen, eu os vi sair... Vi a forma indecente que dançaram, assim como vi quando a levou para o jardim. O “nosso jardim”. – acrescentou acusadoramente. – Pensei em segui-los, porém preferi ignorar, afinal é homem... É natural que se aventure com mulheres que não se dão o devido respeito. Acaso a conhece?
– Pensei que conhecesse... – Edward respondeu num murmúrio rouco; estreitando os olhos.
Também pensou que conhecesse Tanya. Aquela moça diante dele era nova. Sim, usualmente ela era voluntariosa e mimada, porém nunca se mostrou tão decidida, quase autoritária.
– O que isso significa exatamente? – ela o questionou, aborrecida, confirmando a impressão do barão. – De onde a conhece? Papai disse que ela veio de Wiltshire.
– Sinceramente – Edward começou, recompondo-se. – Não tenho que responder a essas questões.
– Como não? – Tanya exasperou-se. – Não importa o que papai determinou, estivemos comprometidos. Eu seria vossa baronesa e há um minuto...
– Há um minuto eu a beijei, apenas isso – o barão a cortou, empertigando-se, não gostando da insubordinação, do tom empregado. – E, apesar do que conversamos; dos planos que discutimos, “nunca” houve um compromisso real a nos unir, então não se porte como se fosse minha esposa.
– É ela, não é? – Tanya questionou de queixo erguido; segura.
Franzindo o cenho, Edward indagou; baixo e raivoso.
– Ela quem?
– A tal que o deixou estranho. A que o abandonou?
As palavras fizeram o peito já raivoso praticamente rugir. Só havia uma maneira de Tanya Cullen saber sobre Isabella.
– Pensei que as tarde de chás em minha casa fossem para que falassem sobre si mesmas, não para especular sobre a minha vida. Se minha mãe não mantém a própria língua no lugar, ao menos a senhorita deveria fazê-lo.
– Afinal não me ama, não é? – a moça indagou, unindo as sobrancelhas. – Não tenho direitos, não é isso?
– Por favor, não me obrigue a ser grosseiro.
– Mais do que já está sendo? Ama aquela mulher? Por isso me trata assim? – As perguntas vieram embargadas.
A mudança súbita confundiu o barão, porém não ao ponto de acreditar em alguma emoção. Sim, cometeu grave erro ao usá-la, contudo não estava lidando com uma moça indefesa, e a senhorita admitir o conhecimento sobre aquele episódio tão particular de sua vida somente o levou a abandonar qualquer consideração. Diante dele havia apenas uma jovem preterida e dissimulada a quem, de fato, não devia satisfações.
– Lamento o que se passou nesta sala. – falou o barão ignorando as questões; não queria pensar sobre o que sentia por Isabella, muito menos discorrer sobre as razões que o levavam a destratá-la. – Lamento o tempo que lhe tomei... Que a tenha feito alimentar alguma esperança... E acima de tudo, lamento se de alguma forma eu a ofendi. Acredite, não era minha intenção, e nunca mais acontecerá.
– Não me ofendeu! – Tanya maximizou os olhos, ainda embargada, e se lançou sobre ele para abraçá-lo fortemente. – Apenas quero entender. Ela não o merece milord... Veja o quão mal ela lhe faz. Transforma-o em outro. Estou aqui para ajudá-lo... Vossa mãe me pediu que fosse paciente e estou sendo. Esqueça-a... Esqueça-a e me escolha. Serei uma baronesa a vossa altura.
Nunca antes um abraço o incomodou tanto; ter a peruca exageradamente grande a empurrar-lhe o rosto combinada com aquela versão desesperada de Tanya não o agradava tampouco. Não discordava sobre Isabella não o merecer, porém igualmente não se agradava do restante. Talvez fosse diferente se sentisse vir dela algum sentimento por ele, não por seu título. Já havia atingido sua cota de moças falsas e interesseiras; por aquela noite e sempre, então, sem nada dizer segurou-lhe os braços e a obrigou a soltá-lo.
– Por favor, milord, não me deixe. Não por causa daquela mulher... – ela implorou alarmada ao vê-lo dar um passo atrás. Então, ansiosa passou a desprender o laço de seu decote. – Seja lá o que ela tenha feito para atraí-lo, posso fazer melhor, venha... Faça-me sua!
– Está louca?! – Edward avançou sobre ela para segurar-lhe as mãos. Com o ódio a enrouquecer sua voz, sibilou. – Comporte-se como a dama que é. Não tem o mínimo amor próprio?
Então suas palavras tiveram efeito sobre si mesmo e, ao encará-la, foi como se visse a cena no quiosque. Quão patético ele parecera a Isabella ao implorar por seu amor, como Tanya agora o fazia? Com um pigarro largou as mãos da moça e lhe deu as costas.
– De fato lamento, mas não posso dar o que me pede. Meus sentimentos de nada valem nesse momento. Componha-se e...
Ouvir a porta ser aberta bruscamente interrompeu a fala do barão. Edward imediatamente olhou na direção do recém-chegado que olhava de um ao outro com olhos avaliativos.
– O que está acontecendo aqui? – Cullen indagou aborrecido.
Antes que o nobre dissesse qualquer palavra, Tanya exalou um lamento sentido e se atirou contra o pai; como minutos antes fizera com o barão.
– Ah, papai... Lamento se o decepcionei, mas nos amamos tanto...
– O quê?! – Edward quase gritou. – O que está insinuando senhorita?
A olhá-lo de cabeça baixa, posta sobre o peito do pai, ela prosseguiu sem se abater.
– Sei que é errado, mas não pudemos resistir... E... Aconteceu.
– Não me teste senhorita... – Edward advertiu um ronco animal. – Especialmente hoje. Se não retirar o que disse sou muito capaz de despi-la para provar ao seu pai que nada aconteceu abaixo de suas saias.
– Oh! – ela exclamou lívida.
– Senhor barão! – Cullen o repreendeu. – Não há a necessidade de ser indelicado com uma jovem inconsequente.
– Papai?! – Tanya se desprendeu para encará-lo ainda mais assombrada.
– Ora vamos Tanya. – o banqueiro sustentou o olhar da filha duramente. – Não sei quem desfez esse laço, mas não tenho vinte e quatro anos como você. Sei muito bem que nada aconteceu aqui. Principalmente por confiar que o barão não desrespeitaria meu teto, ainda mais com tantos convidados pela casa, num cômodo de porta destrancada, então... Faça-me o favor de não atentar contra minha inteligência.
Olhando de um ao outro, contrariada, a jovem amarrou o laço e saiu pisando duramente, os deixado a sós. Com isso o banqueiro sustentou o olhar do barão que o avaliava atentamente, remoendo seu rancor. Simplesmente não entendia aquele senhor; nem pretendia fazê-lo, apenas deixar aquela casa o quanto antes. Antes que maiores estragos fossem feitos. Saindo da inércia vinda com a raiva e choque pelas mentiras descabidas de Tanya, Edward seguiu pelo mesmo caminho que ela.
– Acho que por hoje já basta. Lamento que tenha presenciado essa cena deplorável, mas dou-lhe minha palavra de que nada aconteceu entre mim e vossa filha. Desculpe-me por esse aborrecimento.
– Sim, vou desculpá-lo – Cullen o seguia apenas com olhar enquanto dizia. – Não sei o que Isabella fez para deixá-lo assim, mas conheço aquela menina bem o bastante para entender que sua obstinação tem um poder devastador.
O barão então novamente estacou, sendo atacado pelo mais puro repudio que poderia sentir por uma pessoa. Evidente que Sir Cullen tinha conhecimento do que se passou. Estava explicada a razão pela qual sequer deu à Tanya o beneficio da dúvida. Talvez o astuto senhor desde sempre soubesse de seu interesse por sua amante e o tenha deixado se aproximar da filha de caso pensado; com condescendência, porém sem a intenção real de deixá-lo ir além. Nenhum deles nada valia; aquela era a verdade.
– Não empregaria a palavra “obstinação” ao que ela faz. – retrucou num murmúrio rouco, sem se voltar. – Nem que tenha me devastado. O que aquela... “pessoa” fez, foi abrir meus olhos. Agora vejo as pessoas como são.
– Pouco provável milord. – Carlisle rebateu com surpreendente amabilidade. – E é incrível notar que, o que um tem em teimosia o outro agrava com cegueira.
Pouco lhe interessava a opinião daquele cavalheiro, assim como entender o que exatamente pretendia ao provocar encontros entre ele e a amante; mais dissimulada do que o senhor supunha. Menos ainda saber o que o banqueiro esperava ao insinuar que não se entendiam por serem limitados. Sim, a crítica, vinda justamente daquele homem que jogava com todos, tratando-os como crianças traquinas, de fato o cegava. Estava farto daquele jogo imundo, então exortou as próprias pernas para que se movessem e deixou a sala, sem atender ao chamado exasperado.
– Lord Masen...
E, novo acesso de fúria, a largas passadas, o barão voltou ao baile também surdo à música e às muitas vozes animadas. Caminhou decidido até a mãe e Senior, agora com mais dois casais a lhes fazer companhia, e, sem qualquer anúncio, tomou-a pela mão.
– Boa noite a todos. Até breve – ao se calar, deixou o grupo, levando a senhora incrédula consigo.
– Edward?! – A baronesa exclamou, olhando em volta, acenando desconcertada para todos que os assistiam deixarem o salão de forma intempestiva. – O que pensa que está fazendo?
– A festa acabou para nós – disse secamente, olhando sempre em frente.
– Elizabeth? – Esme chamou com a liberdade característica – Milord? Já de saída? Assim? Aconteceu algo que...
– Nada aconteceu. – Edward a cortou, sem interromper seus passos.
Parou apenas ao chegar à porta principal, onde esperou que o criado lhes devolvesse os casacos e a cartola que rapidamente Edward vestiu. Em seguida ajudou sua mãe a vestir o casaco e, depois de dobrar o seu sobre um braço, por reflexo maneou a cabeça para o criado que inclinou pescoço e dorso, deferente, então, novamente tomou a mão da baronesa e a fez deixar a casa.
– Edward, esse seu comportamento é inaceitável! – repreendeu-o.
Não obteve resposta. Correndo os olhos ao redor, o barão procurou por seu criado que, ao vê-lo, inclinou a cabeça em sinal de entendimento e se foi. Edward rogou que não demorasse, pois tinha pressa em sair dali, da festa a qual jamais deveria ter vindo. Precisava deixar aquele lugar, e que todas as pessoas vis que deixava para trás, fossem consumidos pelas chamas do inferno, como ele, decididamente, já estava sendo.
Notas finais
Mas me contem msm assim... :)
Só quero que entendam que, alguém tão cabeça dura quanto a Bella tinha que fazer uma besteira sem tamanho, "e ver que fez", para voltar atrás. Depois do que fez ao barão, do quanto foi capaz de mentir ela caiu em si e viu o quanto está errada. Agora é ver se conserta... Enfim, como sei que estão surtadas, vou já deixar o seguinte...
Bjus...
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