Borboleta Negra
46 Capítulo Quatorze - Parte II
Notas iniciais
Não as quero tão surtadas então já vou deixar esse aqui... Os outros dois postarei, um na quarta e o outro na sexta... Depois disso se encerra a fase de adiantar capítulos, senão será a autora a pirar... :P
Vamos lá... BOA LEITURA!
Aos poucos a música voltou a se percebida, incomodando-o. Deveria ter seguido seu primeiro impulso e declinado ao convite de estar naquela comemoração, Edward pensou aborrecido.
– Poderia parar de bufar como um cavalo indômito? – Elizabeth indagou esfregando os braços sobre as mangas do casaco. – Também seria providencial que voltasse a ser o cavalheiro que criei. Não vejo qual a razão de me fazer esperar aqui ao relento. O que aconteceu afinal?
– Muitas coisas aconteceram, porém a senhora não poderia ver, entretida como estava com Senior Zimmer. – retrucou acidamente. – O que tanto conversavam que não pôde atender ao meu primeiro chamado?
– Conversávamos banalidades. – disse a mãe, impassível. – O que dispensa a insinuação indevida. E não me neguei a segui-lo, apenas...
– Boa noite senhora baronesa.
O cumprimento que interrompeu a conversa entre mãe e filho, inflamou o sangue já agitado do barão. Conhecia-se. No estado no qual se encontrava não seria paciente com o fazendeiro.
– Boa noite Sir Hunt. – Elizabeth retribuiu o cumprimento, mirando o filho; apreensiva. – Pensei que fosse embora sem vê-lo. Nossos caminhos não se cruzaram esta noite.
Intimamente Edward lamentou não ter partilhado a mesma sorte.
– Foi uma noite agita para muito de nós – o fazendeiro comentou, mirando o barão.
Este estreitou os olhos, tentando entender o teor oculto em suas palavras.
– Ah, sim? – A baronesa se mostrou interessada. – Agitada por uma dama, acredito. Ainda não se casou, não é mesmo Sir Hunt?
– Espero pela moça certa e acho que esta noite ela esteve aqui, por essa razão a festa se mostrou agitada – confirmou ainda a encarar o barão, que sentiu todo seu corpo se eriçar; o que o crápula desejava lhe dizer?
– Veja. Nosso criado se aproxima. – Elizabeth disse ao filho. Então se despediu rapidamente de Laurent, demonstrando seu desinteresse pela breve conversa. – Tenha uma boa noite Sir Hunt.
– Terei milady...
Ignorando-o, o barão abriu a porta da carruagem e estendeu a mão para que sua mãe se apoiasse até que se acomodasse no assento. Entregou-lhe então seus pertences e, preparava-se para se juntar a ela, quando ouviu o novo comentário.
– Esta foi uma bela noite para estar nos braços de uma mulher onde não nos vissem, não é mesmo barão?
Mais uma vez Edward se eriçou e, recuando para encará-lo, descobriu-o a admirar a lua, despretensiosamente.
– O que disse este senhor? – Elizabeth questionou aparecendo no vão da porta, olhando de um ao outro.
– Nada que mereça vossa atenção. Espere um instante, por favor... – pediu prontamente já a partir para se aproximar de seu desafeto. A um passo, encarou-o e ordenou. – Agora, repita o que disse.
– Serei mais claro, uma vez que vossa mãe não nos pode ouvir – o fazendeiro sorria manso ao refazer a própria frase. – Estava uma bela noite para se esfregar com prostitutas no jardim de uma casa respeitável, não?
Mais uma vez naquela noite o barão ficou sem ação. Dispensava a Isabella um rancor inimaginável, conscientemente sabia que não lhe deveria ter a mínima consideração, afinal ela própria reconheceu ser uma vigarista, contudo foi inevitável defendê-la.
– Seguir-me e observar sorrateiramente o que faço com uma dama, por si só já é uma abominação. Denegri-la é então...
– Dama?! – Laurent o interrompeu com incredulidade e sarcasmo. – Aquela marafona? Por favor, barão... Amber não passa de uma vagabunda e...
O punho do barão agiu sem um comando consciente. Edward soube o que fez ao sentir a dor latejante nos nós de seus dedos e ver o homem antes altivo, curvar-se com a força de seu golpe. Desejou que se calasse, porém o homem surpreso por seu ataque não se deu por vencido, voltando a dirigir palavras espúrias à mulher que o nobre prometeu entregar apenas desprezo.
– Rameira, é isto o que ela é barão. – Laurent, reafirmou, testando a mandíbula, apertando-a onde fora atingido. – Qual a surpresa? A borboleta mor não lhe cobrou pelos “serviços”? Aceitou atendê-lo por cortesia?
Muito trêmulo. Cego ao que fazia, Edward avançou sobre Laurent e mais uma vez o socou, e socou. Os revides logo vieram, levando-o a cambalear, mas não a esmorecer. Sua face e seu estômago latejavam onde foram atingidos, porém encontrava forças para prosseguir, exortado pela nova fúria por saber que de alguma forma aquele homem abjeto conhecia a moça que o menosprezou.
Os gritos de sua mãe eram ouvidos, contudo não entendidos. Ainda assim, de alguma forma atraiu um grupo considerável de homens que os apartou.
– Mas o que estão fazendo cavalheiros? – indagou um deles.
– Soltem-me! – Edward bradou; furioso por ser contido por dois senhores; a necessidade de apagar o riso ensanguentado, fixado no rosto de seu oponente, era urgente. – Larguem-me... Eu ordeno!
– Não pode lidar com a verdade? – Laurent o provocou, deixando-se segurar sem lutar por liberdade, como fazia o relutante barão. – Achou que sua hóspede fosse uma santa? Vá ao seu bordel, o jardim, e veja com seus próprios olhos...
– Cale-se Sir Hunt! – bradou um dos senhores que o afastava. – O que pretende?
– Eu a vi... – explicou ao homem. – Amber e seu cão de guarda. Os senhores também a viram...
– Não sei do que esta falando – este negou prontamente, porém sem convicção. – Esta é uma casa de família e mulheres da vida não viriam até aqui.
– Não somente veio como prestou serviços ao seu digníssimo barão. – Laurent retrucou erguendo o queixo, quando Edward novamente forçou os braços para se libertar. – Ao que parece ele não respeita casas respeitáveis.
– Cale a boca... – Edward ciciou.
– Levem Sir Hunt daqui.
Daquela vez o barão reconheceu a voz de um dos senhores que continham seus braços.
– Solte-me senhor Clearwater.
– Se prometer deixá-lo ir... – o fazendeiro falou, esperando que os outros senhores ganhassem distância com Laurent.
– Ele já se foi... – retorquiu o barão, lamentando que fosse daquela maneira; sentia ganas de matá-lo.
– Edward? – sua mãe o chamou, tocando-o no braço. Livre da máscara tinha os olhos castanhos maximizados. – O que foi isso, querido?
– Por favor, mamãe, volte para a carruagem...
– Não sem você. – ela teimou. – Hoje está fora de si.
– Sim, milord... – Harry Clearwater opinou. – Sei que não devo ditar o que deva fazer, mas vá com vossa mãe. Está machucado. Vamos aproveitar que a notícia dessa briga ainda não se espalhou para encerrarmos com ela de vez.
Ainda agitado pela luta corporal, o barão ajeitou sua casaca sobre os ombros. A costura estava danificada numa das mangas, contudo ele sequer notou. Sua vontade era perseguir Laurent Hunt para fazê-lo desmentir tais calunias, porém reconheceu a necessidade de encerrar com aquela exposição; reconheceu não haver o que desmentir.
– Assim o farei. – assegurou altivo, sentindo a raiva invadi-lo completamente; mais do que antes. – Boa noite, cavalheiros.
Recusando a ajuda da mãe, ele seguiu até a carruagem. Empertigado, sabendo que todos os olhares estavam em si, esperou que a baronesa se acomodasse antes de fazer o mesmo. Seu criado, que havia deixado o banco do condutor para ajudar a separá-lo de Hunt, foi quem fechou a portinhola.
– Edward, meu querido... – Elizabeth, aflita, veio sentar-se ao seu lado para limpar-lhe o rosto com um lencinho branco.
– Ai... – reclamou o barão, afastando-se rapidamente a mão materna ao ter o canto de sua boca comprimido. – Deixe como está. Volte para seu assento.
– Deixe-me cuidar de você. – ela pediu lamuriosa. – Conte-me o que está acontecendo.
– Por favor, senhora... – ele rogou, fechando os olhos; muito trêmulo. – Volte para seu assento.
– Ah! – Elizabeth exclamou agastada, atendendo-o. – Está novamente como naqueles dias horríveis. Agora briga como um cão sem dono.
Edward nada retrucou, calando também os gemidos que lhe vinham à garganta todas as vezes que a carruagem saltava sobre o calçamento irregular da rua. Não queria conversar com quem fora tão indiscreta quanto à sua vida, sobre os tais “dias horríveis”.
Tudo o que queria era o silêncio, até mesmo de seus pensamentos que numa atividade assombrosa, repassava todas as cenas perturbadoras daquela noite, sendo a mais indigesta, a última. Laurent o seguiu e presenciou o que se deu no quiosque, e conhecia Isabella, não duvidava. Ali, na escuridão de suas pálpebras cerradas, via claramente a expressão segura com a qual ele a delatou; Amber, a prostituta.
Não precisava daquilo. Agora se recriminava pela reação involuntária de seus punhos. Não, não se arrependia dos socos que desferiu no rosto acintoso, contudo não havia razão para defender aquela mulher que a cada novo detalhe se mostrava mais desconhecida. A confiança reconhecida nas palavras de Sir Hunt indicava a intimidade entre eles; um cliente provavelmente.
Como pensamento Edward se sentiu adoecer; seu estômago se contraiu enojado. Sua última esperança para não deixar voltar o pouco que comeu e toda bebida ingerida, era negar veementemente qualquer relação da vigarista com o atentado que sofreu.
– Espere... – o pedido estranho da baronesa quebrou o silêncio repentinamente, antes de ela prosseguir acusadoramente. – É isso que me esconde, não é? “Ela” estava na casa dos Cullen! Você a viu, por isso voltou a se portar com truculência.
Edward nada falou.
– Admita! – ela ordenou. – Você a viu? Falou com ela? O que aquela mulher fez dessa vez? E Tanya? Ela os viu? Pobrezinha...
– Não houve nada que devesse ser visto, mas tenho certeza de que fosse o caso a senhora faria o favor de lhe manter a pobre moça bem informada, não? – indagou azedo, com o espírito ainda agitado.
– Como? – a baronesa piscou; confusa.
– A “pobre” senhorita Tanya delatou-a senhora. Sei que revelou a ela o que se passou em nossa casa. Com qual direito expõe minha vida desta maneira?
– Com o direito de uma mãe que quer o melhor para seu filho! – replicou inabalável. – E não expus sua vida, somente comentei que estava abatido por uma moça que o rejeitou. Não entrei em detalhes que a magoassem. Tanya o ama e tem o direito de saber essas coisas, assim o entenderá e saberá esperar.
Edward riu escarninho o tanto que seu lábio ferido permitiu; Tanya amava seu título, teve a certeza definitiva naquela noite de grandes revelações. Quis cuspir a verdade, porém achou por bem se calar. Sua face doía, não incomodava tanto quanto a opressão em seu peito, mas seria preferível encerrar aquele assunto que apenas o desgastaria mais. Infelizmente para ele, a mãe não dividia o mesmo pensamento.
– Então, como sua mãe eu acredito que tenho o direito de saber. Esteve com aquela...? Com “Isabella Swan”?
O nome citado a trazia nitidamente para sua mente, para suas mãos, para seu corpo sem honradez, denegrindo-o. Com um bufar que se converteu num urro agoniado, implorou:
– Por favor, senhora! Deixe de tantas perguntas. Deixou de ter tais direitos quando me tornei um homem adulto. Pare de interrogar-me como se tivesse cinco anos. Não quero ser obrigado a ser indelicado, por hoje, já chega.
– Pois bem! Não diga nada. – Elizabeth o desobrigou. – Já obtive minha resposta.
Com sarcasmo, Edward a parabenizou em pensamento pela resolução rápida de suas questões. Ele, por sua vez, jamais teria a mesma sorte.
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Sentada sobre sua cama, apática, Isabella pediu ao seu criado que repetisse o recado pela terceira vez. Queria crer que as noites mal dormidas estivessem lhe toldando o entendimento. Ansiosa, esperou até que Sam, resignado, erguesse de ombros e a atendesse:
– Sir Cullen mandou dizer que lamenta não ter consigo arrefecer o ânimo do “cavalheiro”. Palavras dele senhora, “o senhor” estava arredio demais, irreconhecível. Sir Cullen não presenciou, mas soube que até mesmo que ele brigou à saída da festa... Com Sir Hunt.
– Não é possível! – ela finalmente exclamou, correndo os olhos para Angela que, sentada no sofá, fazia-lhe companhia antes da chegada de Sam. Foi para ela que murmurou: – Não com Laurent... Meu Deus!
Esperou por dois dias até que o amigo voltasse ao banco para saber que, além nada ter mudado, Edward brigara com Laurent?
– Acalme-se – pediu a mulher ao ver seu desespero. – Talvez uma coisa não esteja diretamente relacionada à outra. A inimizade é conhecida... Sir Hunt pode tê-lo provocado por...
– Minha causa, eu tenho certeza! Eu sinto! O que me preocupa é saber o que lhe disse. – Isabella a cortou, pondo-se de pé, torcendo os dedos.
Mais uma vez sabia pelo conhecimento de Angela o quanto se negar em saber do barão nos últimos anos a deixou ignorante sobre sua vida; ela não sabia da inimizade até que Edward fosse atacado. Enfim, agora sabia. E por mais que tivesse perdido o medo, jamais confiaria em Laurent Hunt. Com isso chispou os olhos negros para Sam e indagou:
– Carlisle não mandou dizer mais nada? Não disse por que deixou de ir ao banco esses dias?
– Não senhora. Ele apenas lamentou por estar atarefado, cuidando de assuntos urgentes, todos pendentes e não poder vir encontrá-la, como pediu.
– Está bem... Obrigada Sam. Por ora é só...
Ao ser dispensado o criado se foi. Esfregando as mãos subitamente muito frias, Isabella novamente encarou a amiga.
– Por favor, Amber, acalme-se. – pediu Angela igualmente aflita, reacomodando-se sobre o sofá. – Está branca feito papel.
– Eu estraguei tudo Angela... – murmurou andando de um lado ao outro diante da amiga. – Tudo, tudo... Eu, finalmente, consegui estragar tudo!
– A que tudo se refere? – Angela perguntou. – Não vi quando voltou e até hoje nada me disse. Como tem estado calada nos últimos tempos achei melhor não questioná-la, mas agora... Vendo-a assim tão transtornada, sinto que errei. Afinal o que aconteceu no baile? Você se desentendeu com o barão?
– Não quero falar dele aqui. – Isabella a encarou com as sobrancelhas unidas, mirando então a porta sugestivamente.
– Por Deus Amber, ninguém está ouvindo atrás da porta – Angela revirou os olhos.
– Infelizmente não confio mais... Apenas em você e em Ginger, ainda assim, prefiro que aquilo que conversamos fique somente entre nós duas. Não se esqueça que uma delas deixou aquele cretino entrar em meu quarto.
– Ainda acho que foi pura sorte dele em encontrar a porta destrancada. – minimizou. – Logo essa invasão completará dois meses e não chagamos a uma culpada.
– Pois bem, não vamos voltar a esse assunto – a jovem sentenciou aborrecida, tinha mais com o que se preocupar. – Apenas não o cite.
– Muito bem... Desentendeu-se com “ele”? O que exatamente estragou?
– Tudo – a moça repetiu num lamento, rendendo-se ao olhar da amiga. Com um suspiro foi sentar-se ao lado da senhora que a acolheu, e pousou a cabeça sobre suas saias. – Desculpe não ter contado antes, mas eu o vi no Natal, na igreja...
– Oh, querida... – Angela tocou seus cabelos, carinhosamente. – E como foi?
– Ele propôs que ficássemos juntos... Nós nos beijamos... – ela lembrou com saudade. Então endureceu a voz ao acrescentar. – E quando voltei aquele homem estava aqui. Disse que sabia de minha passagem por... “pela fazenda dele”. Ameaço-nos... Então pedi a Sam que levasse um recado, declinando à proposta.
– Oh querida... – a ex-cafetina compadeceu-se. – Lamento tanto...
– E durante a festa ele refez a proposta. E eu... Eu simplesmente... – ao recordar um soluço a calou.
– Ah, Amber... Não chore, e me diga o que fez.
– Eu já disse... – ela falou em meio a outro soluço sentido. – Eu estraguei tudo. Em meu medo quis vê-lo em segurança e, não apenas recusei a proposta como feri seu orgulho...
– Não! – Angela pareceu alarmada. – Não se brinca com o orgulho de um homem minha querida. Deveria saber...
– Eu sei... – ela novamente fungou. – Tanto que fiz para afastá-lo de mim, mas depois... Laurent apareceu, quando eu estava sozinha.
– Por Deus Amber!
– Sim... Foi horrível, porém Sam nos achou antes que ele me atacasse e foi nesse momento que eu soube. Laurent não seria louco o bastante para fazer algum mal real ao barão por minha causa... Tudo o que fiz foi em vão Angela... E agora Edward me despreza.
– Desprezo não Amber... Acredito que esse sentimento seja pior que o ódio. Ódio e amor caminham lado a lado, já o desprezo...
– Eu sei... – ela finalmente chorou. – Agora vejo o que você e Carlisle sempre me disseram... Sou estupidamente obstinada, decido tudo errado... E agora... Estraguei tudo.
– Não creio. – A amiga retrucou amavelmente. – Se “ele” a esperou por todos esses meses, e mesmo com suas recusas a interpelou e refez a proposta, não mudaria assim, de uma hora para outra.
– Eu feri seu orgulho. – Isabella repetiu num lamento.
– Que seja meu bem... Mas se aceita o conselho de uma mulher que já viveu demais, corra enquanto é tempo. Os sentimentos não mudam do dia para a noite. Vá até ele. Tente consertar o que acredita ter estragado.
– Acha que devo? – A moça se sentou abruptamente, secando as lágrimas, esperançosa. – Acredita que ele me ouviria?
– Só há um jeito de saber... – Angela lhe sorriu ao responder sugestiva.
Isabella então retribuiu, sorrindo em meio às lagrimas, agora de esperança genuína. Na noite do baile estava disposta a reparar o mal causado, então não deveria esmorecer, afinal, apenas se passaram dois dias. Decidida, antes que a coragem lhe faltasse, gritou:
– Sam... Sam volte até aqui.
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Concentrar-se em seu trabalho parecia tarefa impossível. Edward mantinha a cabeça apoiada em suas mãos, os olhos postos no grande caderno aberto sobre a mesa de seu escritório na sidreria, sem nada ver. As muitas vozes em sua cabeça pareciam não somente ensurdecê-lo como cegá-lo a todo o resto. Cacos de conversas da malfadada noite do baile se misturavam e, à luz do dia, se completavam.
Isabella assegurou que Carlisle não era seu amante. Este por sua vez, nunca disse claramente, com todas as palavras, que o era. Os pontos de ligação eram a estada no hotel e o presente dado. Prostitutas atendiam onde fossem chamadas e eram passíveis de receber caros mimos; colocado dessa forma fazia sentido. Até mesmo as insinuações para que se entendessem; a armação para que se encontrassem. Talvez, por ser sua preferida, com uma história trágica – como tantas – o banqueiro tenha se afeiçoado, mas não ao ponto de ter ciúmes.
Sendo assim, por que o banqueiro simplesmente não lhe indicou seus serviços de meretriz? Não lhe passou discretamente o endereço do bordel, o jardim, como Hunt nomeara. Já na manhã seguinte, relativamente mais calmo, o barão recordou daquele nome. Ao voltar de Londres encontrou muitos senhores animados com um prostíbulo chamado “Jardim das Borboletas”; convidaram-no a conhecer os prazeres oferecidos, porém educadamente declinou.
Seu tempo de esbórnias ficara no passado, junto com colegas de faculdade com os quais, vez ou outra, ia até uma casa de má fama na capital. Ao regressar queria assumir as responsabilidades passadas por seu pai, seria o futuro barão e frequentar bordéis não estava em seus planos. Com isso nunca foi ao tal “jardim”. Não restavam dúvidas de que aquele era o lugar citado durante a briga. Isabella, numa das tantas tardes que passaram juntos, auto denominou-se borboleta; uma cansada e incrédula diante da beleza. E ele então, era seu belo jardim... Estúpido!
Em todo o tempo não foi nada além de distração e vantajosas possibilidades para a vigarista. Também não duvidava dessa parte da história. Ela de fato tentou engravidar na última noite e se acaso tivesse conseguido seu intento, naquele instante contaria com quatro meses de gestação; carregaria um nobre herdeiro em seu ventre. Herdeiro este que o barão tremia ao imaginar como seria usado para espoliá-lo. Odiava admitir, porém Hunt tinha razão.
– Rameira! – rosnou entre dentes.
Subitamente trêmulo Edward odiou reconhecer que ainda se enciumava. Imaginar seu desafeto juntamente com a embusteira prometia sempre lhe trazer certa revolta ao estômago.
– Argh! – exclamou aflito.
– Não se sente bem Sir Edward? – perguntou Jacob, entrando sem anunciar-se.
O barão ergueu a cabeça para encará-lo. Antes que retrucasse, seu criado externou seu espanto.
– Santo Senhor! Vossa senhoria novamente não dormiu esta noite? Está horrível!
– Não, não dormi – respondeu azedo. – E saí logo cedo justamente para não enveredarmos “novamente” por este assunto. Acredito que a senhora Newton lhe tenha dito o que deveria fazer, não?
– Sim, ela disse. – Jacob recompôs-se, indicando que não arreliaria o patrão naquela manhã, como nas passadas após o baile. Metendo a mão no bolso de sua calça, caminhou até a mesa já a explicar sem cerimônias. – Estava voltando da fazenda de vosso avô, quando encontrei aquele moreno enorme que se atreveu a lhe mostrar a arma. Aquele que não o deixou falar com a senhorita Swan.
Antes daquele acréscimo todos os pelos do barão já se encontravam eriçados, como um animal acuado; o que Sam poderia querer ali? Não a teria encontrado onde indicou? Pouco provável. O jardim da mansão Cullen não é tão grande, Edward se respondeu, recriminando-se por se preocupar. Com rancor pensou que ela era uma prostituta e mulheres da vida sabiam cuidar de si mesmas muito bem. Mas, seria dessa forma? Uma voz inadequada questionou no fundo de sua mente; ou de seu coração? “Não importa”, seu orgulho em recuperação gritou.
– O que ele queria? – perguntou duramente.
– Pediu que lhe entregasse isto. – Então lhe estendeu uma folha de papel branco, enrolada e atada por uma fita vermelha. – Uma carta, da parte de sua senhora, disse ele. Assunto de vosso interesse. Ele está no portão, aguardando vossa resposta.
O barão desceu os olhos para o papel branco, contrastando com os dedos morenos de seu criado. De onde estava podia sentir o cheiro de jasmim que agitou seu sangue e o galvanizou, causando certo formigamento abaixo do abdômen, contudo não se animou a tocá-lo. Por quatro longos meses esperou por qualquer forma de recado, porém, este não veio. Antes o leria e sorveria cada palavra como um sedento no deserto. Contudo, há dois dias havia bebido da própria fonte e as palavras que deveriam aplacar sua sede, tinham gosto de fel e o mataram; para sempre!
– Não vai pegá-la Sir?
Jacob agitou a carta enrolada, fazendo com que odor de jasmim novamente chegasse ao nariz do barão, que se afastou rapidamente para se recostar contra o espaldar da cadeira, defensivo.
– Não. – respondeu rápida e roucamente, voltando o rosto para não ceder a alguma tentação indevida. – Leve isto de volta como está. Esta deverá ser uma resposta fácil de ser entendida.
– Mas Lord Masen...? – Jacob se mostrou confuso. – Esta carta é da senhorita...
– Sei bem de quem é Jacob! – ele o cortou duramente. – Agora, leve-a daqui e diga ao lacaio daquela criatura que não é bem vindo em Apple White, assim como “sua senhora”.
O criado permaneceu a perscrutar o rosto lívido do patrão até que este o encarasse e franzisse o cenho sobre os olhos escurecidos pela raiva extrema. Maneando a cabeça, indicando sua confusão, Jacob se foi.
Antes assim, Edward pensou, voltando a apoiar a cabeça em suas mãos, e fechar os olhos fortemente. Não havia nada mais a ser dito. Naquele instante ele agradecia até mesmo nunca ter encontrado a tal carta que, supostamente, ela deixou. Se acaso esta existisse, por certo continha mais de sua perfídia.
– Não preciso de nada disso na minha vida – disse a ninguém; obrigando-se a focar sua atenção ao trabalho que tinha a fazer.
– Milord, com vossa licença – um dos trabalhadores o chamou da porta. Tão logo o barão ergueu a cabeça para encará-lo, este avisou. – Acaba de chegar o carregamento das novas garrafas.
Agradecido pela distração, Edward deixou sua cadeira, vestiu o casaco e seguiu seu funcionário. Era indevido, porém ao descer até o pátio da sidreira, perguntava-se como Sam havia recebido seu recado; como “ela” reagiria ao saber que não mais se importava. Para quem não se importa, questiona demais, disse sua própria voz raivosa em sua mente. Isabella o enlouqueceria, fato, pensou aborrecido.
Obrigando-se a esquecê-la, o nobre voltou todos seus pensamentos a sua sidra e ao que fosse referente a ela, como as novas garrafas com seu brasão em relevo, abaixo de onde colocaria o rótulo.
– Ficaram perfeitas! – elogiou, correndo a ponta de seus dedos pelas reentrâncias da garrafa, antes de passá-la para as mãos de Eleazar Denali.
– De fato milord... – ele concordou com a sombra de um sorriso no rosto enrugado, sua reação reservada após a traição. – Vosso pai ficaria orgulhoso.
Os funcionários que os cercavam, curiosos, externaram sua concordância individual, formando um coro desencontrado que trouxe um sorriso aos lábios do barão, ao estufar o peito e dizer:
– Sim, ele ficaria orgulhoso!
Seu luminoso sorriso arrefeceu e morreu ao olhar em volta. Dadas as devidas proporções, tinha apreço por todos ali presentes, porém não havia um dos seus com quem dividisse a alegria daquela renovação. Nem mesmo Jacob estava ao seu lado, por constantemente evitá-lo, e não se animava a comemorar com a mãe aquele mínimo detalhe que por um ínfimo instante lhe trouxe tanta alegria.
– Algum problema Lord Masen? – Denali indagou a tocar-lhe o braço levemente.
– Não. – respondeu a olhar a garrafa que recebia de volta. Após um profundo espirar, entregou-a ao funcionário que a retirou da caixa de madeira. – Coloque-a no lugar e cuide para que nada aconteça a esse carregamento quando for estocá-lo.
– Não vai participar do descarregamento, milord? – perguntou um dos trabalhadores.
– Não hoje... Confio em vocês – disse dando um passo atrás. Para Denali, pediu. – Ao final do expediente, feche tudo, por favor... Lembrei-me que tenho um assunto a resolver em minha casa.
James piscou incrédulo.
– Tem certeza milord? – Sua questão soou comovida.
– Por hoje... – pontuou, encarando-o para indicar que nada havia mudado.
– Grato pela confiança milord. – O senhor agradeceu reverente.
– Não desperdice a oportunidade – Edward sugeriu.
– Não mais Lord Masen. – assegurou. – Vá em paz.
Ir em paz era tudo o que o nobre desejava, sabendo que tão cedo não a teria. Depois das despedidas, seguiu até sua casa a passos largos, como viera pela manhã. Ainda agitado em seu íntimo, preferiu não andar a cavalgar, temendo que exortasse Draco para além dos limites de Apple White e não mais parasse. Como se fugir de tudo que o lembrasse “dela” trouxesse alguma solução, intimamente ironizou.
Se assim fosse, o que faria com o galgo que corria em sua direção para fazer festa em suas pernas? Dentre todas Nero era a recordação mais vívida da moça, assim como o anel que não havia meios de retirar do dedo. Bem que tentou ao voltar do baile, depois que finalmente deixou sua mãe cuidar dos cortes em seu rosto, mais uma vez sem sucesso. E se fosse capaz, o que faria a sua casa inteira, onde até mesmo os cômodos nos quais ela não esteve pareciam receber a influência dos demais, tornando tudo em Apple White tão malditamente a casa de Isabella? E a pergunta mais importante. O que faria de si mesmo que, já ciente do quanto a prostituta era ordinária, não se desligava dela?
Não, correr sobre Draco pelo portão afora não traria alívio ao que sentia. Talvez o tempo que a tudo curava, fugir de seus fantasmas, jamais.
– Lord Masen? – Marie se espantou ao vê-lo. – Já de volta da sidreria?
– Trabalharei em meu gabinete aqui mesmo – disse roucamente. – Poderia me servir algum de seus chás milagrosos para todos os males?
– Para qual mal milord? – indagou, perscrutando-lhe o rosto com atenção.
– Traga um que me ajude a respirar... – exalou apertando a ponte entre os olhos fechados. Sem pensar acrescentou. – E a dormir... Decididamente preciso dormir.
– Verei o que tenho milord... – Marie prometeu com voz levemente rouca.
Edward abriu os olhos em tempo de flagrar o olhar condoído da governanta que, inclinando a cabeça respeitosamente, deu-lhe as costas e se foi. O barão ainda a viu se afastar, antes que fosse até seu gabinete, sempre com Nero em seus calcanhares. Agradecendo a boa sorte de não ter encontrado com sua mãe, fechou-se no cômodo e foi se sentar em uma de suas poltronas. Sentia-se exausto.
Se acaso sua governanta lhe atendesse no último e reflexivo pedido, ser-lhe-ia grato até o final dos tempos, pois de fato necessitava dormir; calar as vozes em sua cabeça ao menos por algumas horas, pensou, recostando a cabeça para fechar os olhos.
– Com vossa licença milord... – Marie disse, minutos depois, à porta.
– Entre Sra. Newton. – autorizou, sentando-se corretamente, o dorso muito ereto. Ao notar que ela trazia uma bandeja maior que a usualmente utilizada para as xícaras, falou seriamente: – Pedi-lhe apenas o chá.
– E eu tomei a liberdade de trazer-lhe alguns biscoitos. Leah acabou de tirá-los do forno... – ao colocar a bandeja sobre a mesa de trabalho, mirou as próprias mãos e acrescentou. – Sinto que o tenho negligenciado. Não tem comido corretamente, milord.
– Minha falta de apetite não tem relação a qualquer negligencia, Sra. Newton.
Após retrucar, o barão foi até mesa especular o que fora trazido. Dispostos na bandeja de prata, sobre uma toalhinha bordada com o brasão da família, estavam não somente os biscoitos citados, mas também uma fatia de bolo, torradas e queijo; comida demais. Ignorando-a, o nobre pegou a xícara e experimentou o chá fumarento.
– Isto está bom... – elogiou. – De que é?
– Chá de camomila com sementes de papoula milord... Acredito que elas lhe façam dormir – acrescentou timidamente; ou... receosamente?
O chá tinha um sabor agradável, característico da camomila, com um leve toque amendoado. O barão duvidava que o fizesse dormir, mas a quentura boa prometia aliviar o peso em seu peito. Com esta questão aparentemente resolvida, ficou a estranheza ante ao comportamento desconcertado da governanta. Poderia ser apenas impressão, mas parecia que a senhora tinha algo a lhe dizer. Como ela não se movesse, Edward sorveu todo o chá, mirando-a pela borda dourada da delicada xícara de porcelana. Ao terminá-lo, voltou a xícara ao pires, sempre encarando a governanta.
– Por que sinto que deseja me dizer alguma coisa? – arriscou. – É ainda sobre sua suposta negligência?
Marie não respondeu de pronto, irritando seu patrão. Este iria novamente questioná-la, quando ela falou sem desviar o olhar dos dedos que ainda torcia.
– Desculpe-me a ousadia, milord... Mas... É verdade que esteve com... “ela”?
E então todo o efeito bom trazido pelo chá se foi, agitando mais uma vez o peito do barão.
– Por que pergunta? – Edward não tencionava soar ríspido, porém falhou completamente, notou ao vê-la estremecer.
– Bem... Não tive como deixar de ouvir vossa mãe comentar com Amy, que vossa senhoria esteve com ela no baile. – explicou, encolhendo-se consideravelmente.
– E mais uma vez minha mãe não consegue manter a língua em seu lugar – ciciou, aborrecido. Correndo as mãos pelos cabelos já desalinhados, indagou: – Como ouviu o que ela disse à criada?
– Eu estava no quarto de vossa mãe milord. Ela raramente se dirige a mim, então falou diretamente a Amy que vossa senhoria se encontrou com a “moça infernal” e que por isso voltou a ficar intratável.
Concordava com a mãe em um detalhe, porém não se agradava que ela expusesse sua vida aos criados. Muito menos que creditasse à “moça infernal” sua pouca vontade de conversar com ela.
– A baronesa ainda lamentou – prosseguiu Marie –, mais uma vez, que o noivado entre vossa senhoria e a senhorita Tanya não tenha vingado. Ela acredita que a culpa seja também “dela”. Vossa mãe tem a opinião de que Sir Cullen reparou que vossa senhoria não se interessa pela filha, por culpa da “outra”, por isso tenha lhe negado a mão.
Falastrona e perspicaz a senhora baronesa, Edward escarneceu consigo mesmo. Faltavam-lhe alguns detalhes, mas a nobre senhora não estava longe de toda a verdade.
– E é verdade, não é milord? – Marie indagou, confundindo-o por um momento; era como se ela tivesse ouvido seu pensamento.
– Ao que exatamente se refere?
– Vossa senhoria... – ela então o encarou e, titubeante concluiu – ainda pensa nela, não pensa?
– Todos os dias. – Edward se surpreendeu ao se ouvir dizer o que ditava seu coração e não seu orgulho que desejava negar. Para aumentar sua surpresa, os olhos da governanta marejaram e então finas lágrimas rolaram por seu rosto tão logo ela piscou. – Sra. Newton? O que há?
– Ah, milord... Eu sinto tanto... – ela exalou num soluço e, sem aceitar o lenço que o barão lhe oferecia, irrompeu porta afora.
Edward acompanhou a saída da governanta com olhos assombrados, recuperando-se apenas quando Jacob apareceu em seu campo de visão, também olhando para a senhora que se distanciava pelo corredor. Somente depois de alguns segundos o criado encarou o patrão e indagou com o cenho franzido:
– Ela mereceu o que quer que tenha lhe dito?
– Pois saiba que não lhe disse coisa alguma. – Edward retrucou aborrecido, voltando o lenço ao bolso de seu colete. – Estávamos conversando e ela simplesmente começou a chorar e se foi.
– Assim? – Jacob insistiu incrédulo, entrando no gabinete. – Sem razão? Estranho...
– E quem pode entender as mulheres? – Edward indagou contrafeito, torcendo o nariz para as comidas deixadas, antes de voltar para a poltrona.
Não tinha cabeça para se ocupar de achaques femininos, ainda mais se estivessem relacionados a alguma piedade dirigida a ele.
– Vossa senhoria bem as conhece. Deveria entendê-las. – rebateu o moreno, parando ao lado da mesa. – Posso pegar um desses? Não parece que vá comê-los...
– E não vou. – Edward ruminou. – Fique a vontade.
– Obrigado, estou faminto – anunciou seu criado antes de pegar um dos biscoitos e mordê-lo. Mastigou o bocado com gosto e ao engoli-lo, falou. – Tão bom comer... Deveria experimentar um dia desses, Sir... Está definhando, caso não tenha reparado.
Sim, ele notava por suas calças cada vez mais largas ao redor de sua cintura, porém não havia muito que pudesse fazer. Se antes pouco comia, depois da noite de terça-feira sua fome simplesmente se esvaíra juntamente com seu sono.
– O que deseja Jacob? – Edward resolveu ignorar os comentários, pois seu criado era outro que conseguiria fazê-lo falar o que não devia; caso eles não se desentendessem.
– Vim dar o recado que não pude ao me distrair com a inesperada visita do criado da senhorita Swan. A propósito, ele recebeu a carta de volta e não pareceu surpreso ao ouvir vosso recado. Acredito que agora ela não insista Sir...
Por que insistiria quando nem havia razão para enviar a primeira mensagem? Talvez estivesse arrependida da escolha e tentasse dissuadi-lo, voltando sua palavra atrás, mas ele não cairia em sua teia. Não mais. E como não queria se ocupar dela, acomodou-se mais em sua poltrona e demandou, novamente ignorando comentários desnecessários.
– Qual é o recado?
– Eu já disse, ele, Sam, não mandou dizer nada mais... Recebeu a carta e...
– O recado que daria antes disso! – Edward alteou a voz; Jacob claramente o sabotava; testava-o.
– Ah, sim... – murmurou em falto entendimento. – Como sabe estive na fazenda de vosso avô. Os funcionários comentaram vossa ausência durante esse inverno, e mandaram dizer que as macieiras se comportaram bem apesar da neve. Algumas já apresentam indícios de novas flores.
– Perfeito – disse o barão; estóico.
– Acho pouco provável... – Jacob comentou vagamente, antes de morder outro biscoito.
– O que é pouco provável? – Edward perguntou num ciciar.
– Que alguma coisa esteja perfeita. – Jacob deu de ombros, como se fosse óbvio. – Se já estava abatido antes, quando claramente “tentava” fazer com que tudo voltasse ao normal, nesses dois dias tem estado péssimo. Com todo perdão, Sir Edward, suas olheiras estão assustadoras. Não é de admirar que vossa mãe esteja tão alarmada.
– Vai adotar as falas da baronesa mais uma vez? – indagou baixo e incisivo. – Vamos então, use suas reais palavras para descrever meu estado e minha ignorância.
– Ela é vossa mãe, Sir Masen. Não desfaça de sua preocupação. – Jacob pediu, abandonando a leveza estudada. – E está assustada. Vossa senhoria não se senta à mesa para as refeições, não dorme... A baronesa não o viu “antes”, então por meu conhecimento, pergunto-me se voltou ao tempo em que desprezava até mesmo os banhos... Tudo por que a viu novamente.
– Evidente que sabe disto! Qual a queixa de minha mãe?
– Vossa mãe não tem como ter certeza, mas desconfia de vosso encontro com a senhoria Swan na festa de Sir Cullen. Para ela somente isso poderia deixá-lo desta forma sendo que no Natal, depois do fracassado noivado sequer se abateu. Eu, particularmente acredito que a viu, tanto que considerei promissora a visita do criado dela, no entanto...
– No entanto, nada que venha dela pode ser promissor Jacob. – cortou-o exasperado em seu âmago. – Não mais!
– E eu poderia saber qual a razão desse novo acesso? – O criado indagou mansamente. – Acabe com esse silêncio Sir. Sabe que estou aqui para ajudá-lo.
– A ajuda da qual preciso você não é capaz de me dar. – assegurou, fechando os olhos. – E minha mãe deveria agradecer por me manter afastado, pois apenas brigaríamos.
– Vossa senhoria a viu? – Jacob se aventurou a ser direto. – Falou com ela?
Silêncio deveria ser uma boa resposta, tanto quanto àquela que deu ao criado dela, pensou. Então o barão se calou.
– O que ela lhe disse? – insistiu seu criado. – Explicou por que foi embora? Brigaram? É por isso que se entrega dessa maneira? Até quando essa senhorita irá afetá-lo?
– Até o fim de meus dias! – Edward gritou, deixando a poltrona abruptamente, depois de bater os punhos sobre os braços do estofado, assustando o criado que deu um passo atrás ante o olhar endurecido do patrão. – Com mil demônios Jacob o que quer saber? Ou melhor, para que quer saber? Por que me obrigar a citar assuntos que tão orgulhosamente alardeia conhecer a importância?
Sua voz alterada assustou ao galgo que, depois de olhá-lo ressentido, deixou o gabinete numa rápida corrida. Jacob o assistiu sair, antes de encarar o barão e assegurar, já recuperado do susto.
– Para ajudá-lo, Sir...
– Esse é o problema! – O barão novamente bradou; havia descoberto uma nova forma de alívio ao gritar. – Não há nada que você ou qualquer pessoa possa fazer para ajudar-me.
– Sempre há Sir Masen... Conte-me o que está se passando e, por Deus, não grite ou vossa mãe é capaz de vir aqui.
A lembrança arrefeceu a exaltação do barão. Tudo que não precisaria naquele instante era sua mãe a interpelá-lo ou criados a escutar o que seu ressentimento o exortava a dizer. Dando-lhe as costas, sem retrucar, Edward revelou a meia voz.
– Esta, que tão educadamente chama de “senhorita”, nada vale. Ela não presta Jacob. Você sempre teve razão ao desconfiar da mudança súbita. Tudo não passou de um golpe.
– Recuso-me a acreditar Sir Edward. Deve haver algum engano.
– Pois não há... Ela mesma se delatou. – Então se voltou para indicar a própria face num gesto tenso, exasperado. – Bem aqui... Olhando em meus olhos, ela disse que nunca me amou! Que tudo não passou de um golpe...
Jacob nada disse, porém seu olhar descrente e, acintosamente, avaliativo indicou ao barão o que se passava em seu pensamento.
– O quê? – Edward perguntou ofendido. – Não acredita em minha palavra? Como ousa?
– Jamais Sir Edward – Jacob se apressou em acalmá-lo. – Apenas considero haver algo errado. Nunca soube de golpistas que se delatam tão abertamente. Em algum momento não lhe ocorreu que, no calor dos acontecimentos, não tenha reparado que ela estivesse mentindo?
O barão minimizou os olhos em fendas finas, muito pronto a retorquir a sugestão descabida, porém a lembrança súbita, que espocou em sua mente como um feixe de luz forte e breve, mostrou-lhe o momento da entrega. A imagem fora tão vívida que suas mãos sentiram a textura nos seios hirtos e sua boca aguou com o sabor do beijo correspondido, levando-o a cambalear um passo atrás. Seria possível?
Notas finais
Bella fez uma caga** do ano e agora quer consertar. Complicado, pois foi mexer justamente com o orgulho do barão. Vamos ver o que vem pela frente e como essa situação se resolverá... Como prometi, quarta trago o 15 e na sexta o 16... Até lá, segurem os cores... Aguardem e confiem que tudo se acerta...
Bjus meus amores...
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