Borboleta Negra

47 Capítulo Quinze - Parte II


Notas iniciais
Oie... Boa noite meus amores... Mil desculpas por não responder aos reviews... Sem condições esses dias, ainda mais de 2 capítulos seguidos. Mas como não poderia deixar de ser, OBRIGADA por comentarem nos dois msm a autora atarefada não as respondendo... *-*Sério, vcs são D + para mim!Agora "bora" ler... BOA LEITURA!

Manter-se sentada, com as mãos postas sobre a saia de seu vestido marrom, não requeria de Isabella grande esforço. A apatia que a acometeu tão logo recebeu sua carta intocada a mantinha quieta, apenas seus pensamentos evoluíam num crescendo perturbador. Sentiu o desprezo que o barão assegurou dirigir-lhe mais naquele gesto do que em palavras ofensivas, caso ele as tivesse enviado em forma de um recado verbal, além de dizer o óbvio; nunca mais seria bem recebida; fim.

Não o fim, ela pensou esperançosa, mirando os dedos, alheia ao sacolejar do coche que seu criado providenciara para levá-la à cidade. Conversaria com Carlisle, pedir-lhe-ia um conselho, visto que agora aceitava sua inépcia em lidar com a própria vida. Toda aquela situação era nova; estava habituada a se esconder, não a lutar por aquilo que queria. E, também, sentia-se insegura quanto a impor sua presença diante de um barão que tão seguramente humilhou.

Ansiosa, contou os minutos até que estendesse a mão para aceitar a ajuda de Sam e descer, pela primeira vez, diante da pomposa agência bancária do amigo. Como já havia ajustado seu chapéu e o véu de tule preto sobre metade de seu rosto, ela se pôs na calçada muito ereta, segura.

– Esperarei aqui senhora. – Um Sam carrancudo avisou ao seu lado, indicando indiretamente que ela deveria seguir adiante e entrar, uma vez que não conseguiu dissuadi-la de ir à cidade.

– Serei breve Sam – ela assegurou, e para acalmá-lo, repetiu o mesmo de quando argumentaram, ainda no jardim. – Já lhe disse que meu temor se extinguiu. Além de você estar comigo, saberei me defender de Laurent caso ele me aborde.

– Perdoe-me senhora, mas jamais confiarei naquele “cavalheiro”, então, por favor, entre.

– Ele não me abordaria aqui, em plena luz do dia – Isabella retrucou. Queria esboçar um sorriso, contudo sua face não a obedecia, então apenas pediu: – Tranquilize-se... Voltarei num instante.

Com isso a moça ajeitou a reticule presa ao seu pulso e finalmente entrou. Apesar de nunca ter estado onde seu dinheiro estava aplicado, guardado, ou fosse lá o que estivesse sendo feito dele – Carlisle quem sabia –, a moça não tinha expectativas. Então, não se espantou ao deparar-se com um salão relativamente espaçoso de paredes brancas, cinco “baias” de madeira envernizada, separadas, com um rapaz em cada uma delas a atender os clientes por detrás dos balcões.

À entrada da moça, algumas cabeças se voltaram para olhá-la, porém seu momento de observação havia passado e ela sequer reparou. Seguindo as instruções de Sam, Isabella, muito ereta, caminhou até o fundo do salão, até uma das mesas; a ligeiramente apartada das outras três e se dirigiu ao rapaz que já a olhava avaliativo.

– Boa tarde, eu gostaria de conversar com Sir Cullen um instante.

– Lamento senhorita, mas Sir Cullen instruiu-me a marcar um encontro para amanhã com todas as pessoas que viessem procurá-lo. Ele está verdadeiramente atarefado.

– Entendo, porém não poderei voltar amanhã e o assunto é urgente.

– Senhorita... – o rapaz começou, com leve aborrecimento, sendo cortado em seguida.

– Sei que recebeu ordens, mas ao menos vá e lhe diga que a senhorita Swan deseja vê-lo. Se ainda assim ele insistir em marcar para amanhã, verei o que posso fazer. Como disse, é urgente.

O rapaz de cabelo escovado rigidamente para trás, avaliou-a mais uma vez, então, arrastou a cadeira e se levantou para atendê-la, sem mais palavras. Depois de dois toques abriu a porta ao lado e anunciou pelo vão:

Sir Cullen... Lamento interrompê-lo, mas tem aqui uma senhorita que deseja vê-lo...

Ele então ouviu, seja lá o que seu patrão respondeu, então explicou:

– Sim, transmiti-lhe vosso recado, mas ela insiste. Disse que é urgente. Swan é o nome senhor e...

Até mesmo Isabella, que ouvia a conversa unilateral, espantou-se com o salto que o rapaz deu para trás ao se calar e recuar, olhando descrente para o vão aberto da porta até que esta fosse aberta completamente para que seu patrão surgisse. Incrédulo, Carlisle pousou os olhos azuis maximizados na moça que aguardava.

– Está mesmo aqui?! – exclamou o banqueiro antes de sinalizar com mãos aflitas para que se aproximasse. – Venha, entre!

Isabella dirigiu um olhar agradecido ao rapaz e caminhou até a sala do amigo. Ao entrar, este fechou a porta rapidamente para encará-la, alarmado.

– O que é urgente ao ponto de trazê-la aqui? O que aconteceu?

Naquele instante, depois de correr os olhos pela sala rapidamente e ver a quantidade de livros e papéis espalhados pela grande mesa de carvalho, a moça se arrependeu do impulso que a levou até ali. O banqueiro estava de fato muito ocupado para interrompê-lo com problemas que conseguira para si.

– Na verdade... – o olhar assombrado arrefeceu sua vontade, então culpada, minimizou: – Nem é tão urgente assim... Acho que deveria ter somente enviado um recado.

– Pois bem... – disse o banqueiro suavizando a expressão, indicando-lhe a cadeira diante de sua mesa. – Já que esta aqui se sente e me diga o que talvez nem seja tão urgente ao ponto de tirá-la do jardim.

Isabella o atendeu e esperou até que ele voltasse ao próprio lugar, para encará-la.

– Então Isabella...? – ele insistiu após alguns instantes do mais absoluto silêncio.

– Bem... – ela pigarreou ao se ouvir incerta e rouca. – Antes de dizer qualquer coisa, gostaria de me desculpar por interrompê-lo. Eu não tinha esse direto, ainda mais para tratar de assuntos pessoais, estou me sentindo invasiva e vergonhosamente inconveniente. Perdoe-me.

– Seus assuntos pessoais são extremamente importantes para mim, Isabella, então não se desculpe. Conheço-a bem o bastante para saber que, se é esse o tema que a trouxe até aqui, ele é de suma urgência, então... Não me mate de preocupação e exponha o que quer que seja.

– Hoje enviei uma carta a Edward – disse num só fôlego e esperou.

– Sim – Carlisle começou com cautela –, enviou-lhe uma carta e...?

– E ele a retornou sem abri-la... Mandou dizer que não sou mais bem vinda... – neste ponto a apatia interna se converteu em comoção, levando seus olhos a marejarem. Então, embargada acrescentou – Acho que, de verdade, consegui o que tanto queria. Ajude-me Carlisle. Ajude-me a consertar o que diz.

– Ah, minha querida... – compadeceu-se o banqueiro, deixando sua cadeira para se recostar em sua mesa, diante da moça para entregar-lhe um lenço. – Eu sinto muito...

– Obrigada – disse ao tomar o lenço e apertá-lo junto aos olhos. Recuperando-se do pranto inoportuno, ela encarou o banqueiro e indagou esperançosa. – Então? Acha que poderia me ajudar? Ele estava assim tão irreconhecível ao ponto de nunca mais desejar me vir?

– Ah, minha querida... – Carlisle repetiu num lamento, assustando-a.

– O que aconteceu Carlisle? Pode me dizer... Sam comentou que Edward brigou com Laurent... Foi por minha causa?

Estendendo a mão para tocar-lhe o rosto, o amigo falou com calma estudada.

– Como disse a Sam, não vi a briga, apenas soube depois que ambos já haviam ido embora, mas... Lamento dizer que sim, os dois cavalheiros trocaram socos por sua causa.

– Ai meu Deus! – ela exclamou alarmada, agora agitada demais para se manter sentada. Já de pé, a vagar diante do banqueiro, acreditando ter se enganado quanto ao fazendeiro não atacar o barão, indagou: – O que Laurent fez a Edward? Ele o ameaçou? O feriu?

– Acalme-se – ele pediu, segurando-a pelos ombros para encará-lo e seguramente dizer – Até onde sei Laurent não o ameaçou. Eles brigaram como dois arruaceiros, trocaram socos, mas foram logo separados. O problema... Não foi o que Laurent fez, mas o que disse...

Ante àquelas palavras tão sugestivamente colocadas, Isabella sentiu seu sangue enregelar e, com a respiração suspensa, parafraseou-o para que ele prosseguisse.

– O que disse...?

– Lamento muito minha querida, mas... Lord Masen já sabe sobre o jardim. Laurent disse a ele que você é... É... Você sabe, não preciso dizer.

– Não, não precisa...

E novamente a apatia a levou de volta à cadeira. Não sentia as pernas, seu corpo, nada. Somente ouvia sua mente a gritar: Edward sabe que é uma prostituta! E então toda a cena que não viu se apresentou diante de seus olhos. Laurent cuspindo a verdade na face do barão. O nobre, aviltado por ter sido humilhado por uma rameira, não tendo a ela para esbravejar, lançando-se contra o fazendeiro. Este revidando até que ambos chamassem a atenção de todos. Laurent então, ressentido e vingativo gritando aos quatro ventos que o barão se envolvera com uma meretriz.

– Ai meu Deus! – novamente exclamou, cobrindo o rosto com as mãos; mortificada.

– Acalme-se Isabella – pediu o amigo, tocando-lhe o ombro. – Não quis dizer antes, para Sam, justamente para não vê-la assim... queria ter ido até o jardim, mas os assuntos do banco se acumularam nesses dois dias e estava tentando resolvê-los. Pretendia ir até você hoje ainda, mas não tinha a mínima ideia de que iria mandar uma carta ao barão, senão...

– Teria me alertado para não fazê-lo, não é mesmo? – Isabella perguntou embargada, porém sem pranto.

– Sim, ainda seria cedo... Era preferível dar tempo ao barão para que digerisse a novidade.

Não havia o que ser digerido, ela pensou derrotada, aceitando a colocação do barão sobre não mais recebê-la, a grandeza do abismo que definitivamente os separava. Naquele momento, ela sim, tinha que ruminar a delação do fazendeiro preterido, com isso tentou distrair-se, mudando o foco por um instante.

– Por que não veio ao banco nesses dois dias? Aconteceu algo mais?

– Aconteceu minha querida... – Carlisle respondeu num murmúrio incerto. – Quer mesmo saber?

– Sim... – nada mais poderia abalá-la, pensou.

– Bem... Quando a deixei, voltei até minha casa e sai à caça de Lord Masen... – o banqueiro se interrompeu para então prosseguir com maior cuidado. – Encontrei-o a portas fechadas com minha filha... Ela... Estava descomposta, muito corada... Disse que o barão a... Seduziu.

Ao que parecia ela esteve enganada, percebeu tardiamente, sua mente a lhe mostrar outra cena, ainda mais perturbadora do que a anterior. O barão aos beijos com Tanya minutos depois de destratá-lo. Minutos depois de estar com ela, já a beijar outra.

– Entendo... – foi tudo o que ela pôde murmurar.

– Lamento minha querida... Sei que o barão estava ferido com que quer que você tenha dito, sei também que nada grave aconteceu, mas ela é minha filha. Naquele instante não tinha minha mente aberta completamente para ajudá-la, nem tive convicção suficiente para fazê-lo ficar e me ouvir... Como disse, ele estava de fato, irreconhecível. E, simplesmente, se foi... Depois eu soube da briga por Harry. Ele admitiu que a reconheceu mesmo com a máscara, mas isso não é um problema, não se assuste... Sabe que os cavalheiros que frequentam o jardim gostam de você. O problema seriam as senhoras, porém, estas nada sabem.

– Não me preocupo com isso...

Edward sabia, e não por ela. O que poderia ser pior?

– Faz muito bem... Bem, como lhe dizia. No dia seguinte Tanya amanheceu doente e ficou acamada por esses dois dias. Teve febre, delirou... Não pude deixá-la. Sentia-me muito culpado por ter permitido que Lord Masen lhe fizesse a corte quando sabia que não a deixaria evoluir para um matrimônio. – Então, num murmúrio sentido, repetiu. – Ela é minha filha...

– Lamento Carlisle. – Isabella foi sincera. Tinha seu Embry como parâmetro para saber que não se perdoaria caso o ferisse deliberadamente. – E ela está melhor? Espero que sim...

– Não completamente, mas irá se recuperar... Obrigado!

Erguendo seus olhos castanhos para os azuis do banqueiro, a moça tomou para si toda a culpa. “Ela” era o mal que embaralhava a vida de todos. Não era certo o amor que Carlisle lhe tinha, muito menos deixar que ele se ocupasse dela ao ponto de expor a própria filha. Não era certo arruinar a vida de um nobre que nada mais fez do que lhe propor amor verdadeiro. Sua presença na vida de todos somente trouxera dissabores e desilusão. Com a verdade crua aceita definitivamente, ela suspirou e anunciou.

– Não quero mais esperar. Quero deixar o Jardim por esses dias. No mais tardar, até o final do mês.

– Isabella?! – O banqueiro piscou, talvez pelas palavras ou pela mudança abrupta do tema. Recuperando-se ele a recordou. – Já lhe disse que isso não se resolve assim... Eu já pedi que desocupassem uma de suas casas, mas dei um ano de prazo aos moradores... Ainda estamos no final do inverno e...

– Pois pode dizer ao meu inquilino que não precisa deixar a propriedade caso não queira – retrucou cada vez mais segura com sua decisão. – Não quero ficar em Wisbury, quero, de fato, me mudar para Londres. Ajude-me a alugar uma casa. E interceda novamente junto ao internato, pedindo que Embry vá morar comigo. Eu o levaria para as aulas todos os dias.

A expectativa de viver em paz, ou tranquilamente, com seu menino aqueceu seu coração enregelado. Seria mais do que alguém como ela, um dia, poderia merecer.

– Vai voltar a essa maluquice de morar em Londres? – Carlisle perscrutou-lhe o rosto tão logo ela assentiu. – Está decidida, não está?

– É a melhor solução para todos nós, não vê?

Como resposta obteve o silêncio do banqueiro, então prosseguiu, admirando-se consigo mesma pela firmeza de sua voz.

– Não posso impor minha presença na vida do barão, agora que ele sabe a verdade e declaradamente me rejeita, então considero ser a melhor solução. Ele seguira com sua vida livre, definitivamente, de minha presença. Depois do que fiz, sendo quem eu sou, não quero correr o risco de cruzar com ele pelas ruas. Também não quero que você, ou Angela, ou Sam passem o resto de suas vidas cuidando de mim ao ponto de se esquecerem de si mesmos. Acima de tudo, não quero mais ficar longe de Embry. Essa será uma boa oportunidade de cuidar de mim mesma e de ser uma... – como sempre, incapaz de dizer a palavra, ela concluiu – De ser o que Embry precisa que eu seja para ele.

– De fato... Está mesmo decidida.

A surpresa havia abandonado o tom do banqueiro que, subitamente cansado, exalou um longo suspiro e voltou à cadeira atrás de sua mesa. Muito ereta em seu assento, Isabella esperou que o amigo deliberasse consigo mesmo até lhe dissesse:

– Não vai alugar uma casa.

A recusa a confundiu por um segundo. Logo Isabella unia das sobrancelhas e retrucava:

– Sei que lhe devo toda a minha consideração, mas não pode me impedir. Já disse. Vou para Londres. Se não quiser me ajudar a alugar uma casa eu...

– Acalme-se Isabella, por Deus! – ele rogou. – Estou tentando me acostumar com a ideia de não tê-la por perto, mas não vou impedi-la de fazer aquilo que deseja. Eu disse que não vai alugar uma casa, por que... Considero preferível que compre uma.

– Eu?! – A moça maximizou os olhos. – Comprar uma casa em Londres?!

– Qual o espanto? Por duas vezes comprou casas aqui, nos arredores de Wisbury.

– Sim... – ela retrucou –, porém aqui os valores são acessíveis para mim, e tenho a certeza de que você me ajudou, não negue. Mas... Em Londres?... Não tenho dinheiro para almejar tanto e não quero mais abusar de sua generosidade Carlisle. Um aluguel será fácil de manter. Não terei como me desfazer do bordel do dia para a noite e talvez nem seja preciso. Angela pode administrá-lo por mim. Poderia me manter com esse dinheiro até que encontre com o que ocupar meus dias.

– Ah, minha menina, acredite! Toda minha ajuda, além daquela que lhe fez dona do Jardim, foi tão somente cuidar bem de seus shillings. – explicou condescendente. – Acha mesmo que, em todos esses anos, sendo dona de duas pequenas propriedades, do bordel, recebendo presentes em jóias não conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar uma casa onde quer que seja?

Isabella piscou algumas vezes, pensando com seus botões. Teria mesmo “tanto” capital? Sim, nunca deu importâncias às jóias, não tinha muitos gastos, pois não era afeita a luxos nem compras desnecessárias. O internato ficava a cargo de Carlisle, por insistência dele que se auto-intitulava, padrinho de Embry, então...

– De quanto estamos falando?

– Não saberia dizer ao certo, mas considere que, além de comprar a casa, não precisaria procurar por uma ocupação. Pense em si mesma como uma moça relativamente rica.

– E quando pretendia me contar? – Não era uma acusação, apenas espanto.

– Quando o “relativamente” deixasse de existir. – Carlisle deu de ombros. – Entenda... Antes você aprecia conformada com sua vida, ainda mais depois que parou de receber aos senhores em seu quarto. Nunca demonstrou o desejo real de deixar o Jardim ou o de cuidar de Embry, como o fez agora, então eu estava cuidando para que sua renda crescesse ainda mais. Até que esse dia chegasse... E ele chegou.

– Quer dizer então, que eu posso mesmo comprar uma casa em Londres? – Isabella queria que ele repetisse para que acreditasse. – E viver de meus rendimentos?

– Bem, ainda seria preciso contar com o lucro do Jardim e o recebimento dos arrendamentos, mas sim... Você poderá viver muito bem com nosso pequeno, sem apertos.

– E se eu quisesse apenas “viver bem”... – começou; uma ideia se formando. – Conseguiria sem o lucro do Jardim?

– Está pensando em de fato vendê-lo?

– Ainda não sei, mas por certo que não quero para sempre. Preciso me desligar de tudo o que ele representa, ainda mais agora que pretendo morar com Embry.

– E você está certa. – Carlisle aquiesceu. – Bom, se não se importa em reduzir sua renda, você viveria bem sem o Jardim.

– Fico feliz em saber... – murmurou; amadurecendo a ideia.

A moça sabia que aquele era um bom motivo para comemorar, contudo apenas agradecia que fosse daquela forma. Seu coração não estava em festa com a decisão de partir, apenas esperançoso em ter tranquilidade ao lado de seu pequeno; com Embry haveria de, um dia, conseguir paz. Acalentando merecer esse futuro promissor, ela novamente murmurou:

– Obrigada! Como faremos com a escolha da casa?

Assumindo uma postura prática, o banqueiro lhe respondeu:

– Por esses dias não quero deixar Wisbury. Não até ter certeza de que Tanya esteja completamente recuperada, então... Acho que em duas semanas poderíamos ir até Londres. Nesse ínterim, pedirei ao meu secretário do banco de lá, que pesquise algumas residências que estejam à venda. Tem alguma exigência?

– Não – respondeu automaticamente, então, lembrando-se que a casa escolhida seria não somente seu refugio, mas a primeira moradia decente de Embry, ela se apressou em dizer. – Espere... Gostaria que tivesse um jardim com bancos e flores... Algumas árvores. Gostaria que ela fosse bem arejada e que o sol a iluminasse durante todo o dia. E, se não for pedir demais e minha relativa riqueza permitir, gostaria que no quintal tivesse um pequeno estábulo, ou espaço para construir um.

Ao se calar e prestar atenção o rosto do banqueiro, Isabella se deparou com um sorriso completo nos lábios do amigo.

– O que foi? – indagou com estranheza.

– Deveria ver a si mesma nesse exato momento. Seu rosto gradativamente se iluminou ao descrever o lugar. Acho que a iminência de morar com Embry lhe faz muito bem.

Isabella não havia reparado, mas a mudança era digna de nota. Ela ainda estava morta por tudo o que soube ali, por aceitar que deixaria Edward para sempre depois de alimentar uma frágil esperança de um final feliz ao seu lado, porém, de fato, imaginar-se a correr com a criança por um jardim florido, talvez com um cachorro a pular em suas pernas onde o menino poderia ter um pônei e depois um cavalo, contentava-a.

– Sim. Ele será o único homem a ocupar minha vida a partir de agora, viverei por ele e para ele.

– Pretende esquecer-me? – Carlisle questionou entre sentido e surpreso.

– Não! – negou a moça veementemente. – Jamais. Você é nossa família, sabe disso. E irá nos visitar, não? E quando for a Londres poderá se hospedar em minha casa... Não aceitarei recusas.

– Sei disso minha querida. – o amigo sorriu conciliador e deixou a cadeira para se colocar diante dela mais uma vez e tocar-lhe o rosto delicadamente. – Só queria ver se lhe causava outra reação. Chegou tão apagada que é bom ver a cor voltar às suas bochechas – correndo os dedos delicadamente pela linha do queixo da moça, ele suspirou e concluiu. – Sentirei muito a sua falta, mas, dada as circunstâncias, acredito que tenha tomado a melhor decisão.

– Eu tenho certeza que sim.

E não havia como ser diferente. Morar, mesmo na cidade vizinha a de Edward, sabendo que ele conhecia sua realidade, tendo conhecimento de onde encontrá-la sem que jamais a procurasse por desprezá-la, seria demais para a jovem cafetina. Portanto, que ela e o barão tivessem suas vidas verdadeiramente separadas, sem finais felizes para ela. Era fechar aquele conto e começar um novo, com seu pequeno milagre.

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A questão de Jacob calou fundo na mente e no coração do barão. Ainda não formulara uma resposta quando o criado insistiu:

– Diga-me Sir... Não seria provável que tenha se precipitado em acreditar no que a senhorita lhe disse?

E de repente até mesmo a entrega na noite de Natal veio se somar à anterior, perturbando mais uma mente já há muito tempo conturbada. Todavia o orgulho atacado sem remorsos recordou ao barão todos os acontecimentos da noite de terça-feira. Não havia erro. Assim como Jacob, ele também não conhecia histórias de vigaristas confessos, porém ela tentou espoliá-lo. Em sua última noite deixou que o ato sexual, não de amor, chegasse até o fim sem cuidados. Qual mulher, amante declarada, iria desejar um filho sem pai?... E havia a delação de Hunt.

Recuperado de seu breve fraquejar, Edward sustentou o olhar ansioso de Jacob e nomeou-a como de fato era.

– Isabella é uma prostituta.

– Como disse?! – Jacob maximizou os olhos escuros e deu um passo à frente, como se fosse preciso se aproximar para entender melhor. – Não pode ser!

– Ainda considera haver algo errado? – o barão perguntou com um riso de escárnio na face rosada; repetir em voz alta o envergonhou.

O criado, visivelmente abalado, não mais se moveu. Apenas encarou o patrão, escrutinando-lhe o rosto ainda marcado pela briga; pensando. Pareceu se passar uma eternidade até que erguesse os ombros e finalmente respondesse com segurança.

– Sim, considero.

A expressão do barão despencou, demonstrando toda a sua estupefação.

– Não acredito no que acabou de dizer... Não ouviu o que eu disse?

– Por certo que ouvi... – Jacob se mostrou tranquilo.

– E entendeu?! – Edward se recusava a acreditar que seria obrigado a repetir. – Ela é uma rameira... Consegue entender? É dona daquele bordel ao qual chamam de Jardim das Borboletas. Eu levei uma prostituta para sua casa Jacob!... Ela esteve com sua esposa, almoçou à sua mesa...

– E em momento algum se portou como tal ou desrespeitou meu teto – o moreno retrucou impassível ao que ouvia.

O barão escrutinou o rosto do amigo que se mantinha muito sério, não havia engano, nem falta de entendimento que justificasse tais palavras, exasperando-o.

– Está tentando me enlouquecer, é isso? – Edward ciciou. – Até pouco tempo atrás me pedia para ter cautela, para ter certeza de que não cometeria uma loucura precipitada. Alertou-me para o fato de ela ter mudado subitamente e agora claramente “a defende”?!

– Não a estou defendendo Sir, somente tentando fazê-lo ver o óbvio. Se a senhorita é...

– Ela não é uma senhorita! – corrigiu-o. Edward reconheceu ter sido seu despeito a desdizer o criado, porém não se importou. – Não a trate com tanta deferência.

– É o que faço Sir Masen. Trato a todos com respeito e deferência, basta me dizer que ela é casada que passarei a tratá-la por senhora.

– Casada?! – Não era sua intenção gritar, porém imaginar que ela pudesse pertencer a outro definitivamente abalou o barão e novamente seu despeito se fez presente. – Qual homem iria querer se casar com uma...

Sir Masen! – Jacob alteou a voz, repreensivamente. Ante o olhar espantado do patrão, aconselhou. – Não diga nada ditado pela raiva nem que venha a se arrepender amanhã. Será possível que não perceba o quanto essa “senhorita” lhe afeta?

– O que insinua? – Edward questionou, com o dorso muito ereto. – Que ainda a amo?

– Deixou de amar em dois dias? – Jacob falsamente se surpreendeu, para então falar em tom modulado. – Pode enganar a quem desejar, até a si mesmo se assim lhe incomodar menos, mas eu sei que não é o caso... Sei que ama e não deixou de amar porque descobriu o que acredita ser verdade. Foi a mim que pediu para procurá-la no Natal, foi a mim que disse inúmeras vezes que somente com ela poderia ser feliz, assim como fui eu o único que tolerava entrar em vosso quarto por ter se tornado um farrapo humano quando ela o deixou.

– Isso foi antes! – O barão vociferou, sentindo o rosto em chamas pelas verdades ouvidas. – Agora eu não seria um farrapo humano, e, sim, uma criatura sem qualquer valor ou denominação caso ainda sentisse essas coisas por uma meretriz.

– Não está falando com a razão e, sim, com a emoção. Nós dois sabemos que não seria assim. Não deve alimentar vossa raiva Sir Masen, e procurar saber de toda a verdade, de verdade. Se a senhorita é mesmo o que diz, sem se comportar como tal, alguma razão deve ter... Ela é educada, comedida, reservada e... por Deus Sir, esqueceu-se de como ela cuidava de vossa senhoria?

– É o que estou tentando fazer Jacob, esquecer – Edward retrucou derrotado. – Esse amor me denigre.

– Apenas se quiser que assim seja Sir Edward – rebateu o criado, calmamente. – Vossa mente é vossa maior acusadora ou redentora. Se a condição da senhorita não o chocar, não se sentirá diminuído.

– Você não ouviu as coisas que ela me disse... – insistiu; não era tão simples.

– Acredito que esse tenha sido o problema... Vossa senhoria “ouviu”. Não seria o caso de “interpretar”? – sugeriu seguramente. – Perdoe-me a insubordinação, mas, baseado em tudo o que vi, durante duas semanas, custo a crer que a senhorita seja má pessoa. Quando o alertava sobre ela era quanto a desvios de caráter, Sir, não de profissão.

– Ah, não? – Edward o encarou desafiadoramente. – Lembro-me de ter se espantado por eu pedi-la em casamento quando acreditava que era uma criada.

– Espantei-me de fato – ele retrucou seguro –, mas por considerar precoce, afinal, mal a conhecia e a aceitou daquela maneira. No entanto, vi como ficou depois... Como lhe disse antes, por duas vezes me assegurou que somente seria feliz ao lado dela. E, posso até estar sendo ingênuo, mas ainda acredito haver algo errado em tudo o que me contou. Tente descobrir a verdade Sir... Quem sabe assim possa ter sossego?

– Um barão e uma meretriz... É isso que está sugerindo?

– Quem sugeriu a combinação foi vossa senhoria. – Jacob pontuou. – Eu apenas aconselhei a um homem que claramente não consegue se libertar do amor sentido, que tente entender todos os aspectos sobre a vida da mulher amada antes de tentar esquecê-la, pois enquanto houver a mínima dúvida, isso jamais acontecerá. Não estou dizendo que se case com alguém aquém de vossa posição, mas que descubra a verdade. Só assim vossa senhoria conseguirá ao menos viver em paz com o que decidir.

Edward abriu a boca para recrutar, contudo a fechou sem nada dizer; estava exausto dele assunto. Correndo as mãos pelos cabelos, pediu:

– Deixe-me sozinho Jacob.

– Como queira Sir... – o criado inclinou a cabeça e marchou até a porta. Antes de sair apontou a bandeja e acrescentou: – Deveria comer... Está mesmo desaparecendo a olhos vistos, e... se acaso desejar saber mais, o Jardim das Borboletas fica ao final da estrada velha, na mansão Krane. Agora, com vossa licença...

– Vá de uma vez! – pediu enraivecido.

Ao ficar novamente sozinho, Edward bufou e voltou a se sentar na poltrona para fechar os olhos com força. Não queria saber onde funcionava o bordel, não queria comer, não queria pensar; não poderia ser tão simples.

Não, não poderia, entretanto o barão remoeu as palavras do amigo, falastrão tanto quanto a baronesa. Dispensou o almoço, quando a nobre senhora veio chamá-lo, assim como a bandeja que Marie trouxe contendo um prato de comida que sua mãe insistiu em enviar. Respondeu às duas mulheres com ríspidos resmungos, agitando a mão nervosamente para que o deixassem. Sua mente apenas a repetir a negação; não poderia ser tão simples, não poderia haver engano. Não poderia ser normal ainda desejar aquela mulher!

Sem que deixasse o conforto da poltrona, Edward viu o dia escurecer, não chegando a alguma conclusão. Não poderia simplesmente voltar sua palavras atrás e sair à procura de Isabella onde morasse, sabendo o que ela fazia para ganhar a vida; sabendo que ela se deitou com Laurent. Não dava tanta importância ao seu título, mas o herdara do pai e deveria honrá-lo não se rebaixando ao nível dela uma vez mais. Não havia o que descobrir, não havia erro. Ser amorosa e atenciosa fazia parte da encenação. Ou não? Por que seu criado teve que dar voz aos seus próprios pensamentos que bravamente, por dois dias, tentava sufocar?

– Inferno Jacob! – Edward bradou à escuridão do cômodo no momento exato, no qual a porta foi aberta.

– Perdoe-me milord... – Marie murmurou sob o batente, iluminando o gabinete com a lamparina que trazia. – Não queria aborrecê-lo, mas deve estar congelando... Posso acender a lareira?

O barão não percebeu o frio até que este fosse citado, então, sem a mínima vontade de ir até seu quarto, permitiu que a governanta cumprisse sua função.

– Fique a vontade... – sussurrou.

Indiferente a presença da serviçal, não desejando que esta se atrevesse a demonstrar sua piedade por sua patética figura, Edward se obrigou a levantar e caminhou até a porta envidraçada que levava à varanda, dando-lhe as costas.

Ouviu a movimentação em silêncio, até que o atiçador fosse recolocado em seu suporte. Esperou pelo tempo que considerou suficiente para ser deixado e, acreditando estar sozinho, se voltou para reassumir seu lugar. Encontrar a governanta de pé, com as mãos cruzadas à frente do corpo a olhá-lo, surpreendeu-o. De fato não teria paciência para uma nova crise de choro inexplicável, então indagou bruscamente.

– O que ainda deseja?

– Implorar por vossa piedade milord, mesmo que não mereça. – Marie começou com voz serena, confundindo-o. – Não peço por mim, mas por meu filho. Ele ama o que faz e eu morreria caso fosse responsável por sua dispensa.

– Sobre o que está falando Sra. Newton? – O barão se impacientou; tinha problemas demais para ainda ser obrigado a adivinhar qual o delito da governanta. – Seja clara.

– Eu... Fiz algo abominável milord. Digno de expulsão.

Involuntariamente todos os pelos de Edward se eriçaram; num mau presságio.

– O que fez de tão imperdoável? – questionou, analisando-a.

Somente então o barão percebeu um pedaço de papel branco, preso entre os dedos entrelaçados da governanta. Novamente um calafrio malfazejo correu por sua coluna, arrepiando-o. A senhora não precisou dizer para que ele antecipadamente soubesse sobre o que se tratava; era “a carta”. Como Marie não se movesse, subitamente muito trêmula, ele indagou roucamente:

– Quer me entregar alguma coisa Sra. Newton?

– Eu... – ela hesitou. – Eu... Sim, eu quero.

Edward então estendeu a mão para se descobrir igualmente trêmulo. Estava ali uma prova sobre algo que Isabella não mentira que incutia no barão uma expectativa ambígua; boa e ruim. Foi com certa ansiedade que esperou até que a carta dobrada ao meio, finalmente fosse colocada na palma de sua mão. Sem olhá-la, o barão a amassou entre os dedos e, sem desviar os olhos dos de Marie, duramente questionou:

– Onde estava esta carta?

– Na minha casa, eu...

– Quero saber onde a encontrou. – Edward foi específico; sua voz baixa, gélida.

– No quarto de vossa irmã, na manhã... – ela interrompeu a explicação para se corrigir. – Quando Isabella foi embora.

– Em algum momento, leu o que nela está escrito?

– Naquela mesma manhã... – admitiu de cabeça baixa, num murmúrio.

– Olhe para mim! – Edward bradou exasperado; a fúria a corroê-lo pela audácia. Sua governanta se sobressaltou e após um segundo o atendeu. Quando o olhar acuado encontrou os orbes furiosos, o barão sibilou: – Com que direito leu algo endereçado a mim? Em que pensava ao omiti-la?

– Por favor, milord... Juro por todos os santos que quis tão somente protegê-lo do que viria ao ler o que está escrito.

– Como assim, proteger-me? – Edward suspendeu a respiração.

– Bem... Eu desconfiava qual seria o teor da carta então, quando tive a certeza de que Isabella tinha partido, não resisti e a abri. Infelizmente minhas suspeitas se confirmaram. Eu soube imediatamente que vossa senhoria sofreria mais, então não hesitei e a escondi. Iria destruí-la, contudo não tive coragem.

Como se explicar fosse gradativamente aliviando-a, Marie prosseguiu sem deixar de encará-lo.

– Eu sabia de vossos sentimentos, mas considerei que, se acreditasse que ela havia partido sem uma palavra, logo a esqueceria, afinal... foram apenas poucos dias passados juntos. Eu jamais poderia imaginar que fosse tão forte nem que vossa senhoria sofresse mais a cada dia. Os primeiros foram os piores e juro que quis revelar a verdade, mas ainda acreditava que sofreria mais ao ler a carta. E tive medo do que faria comigo. Então deixou o quarto, se desfez das coisas dela, assumiu seu compromisso com a senhorita Tanya... Imaginei que finalmente tudo se desse como determinei, porém sempre estive errada. E agora vossa senhoria está novamente entregue... E eu não suporto mais vê-lo assim... Sei que não mereço vossa confiança e muito menos vossa consideração, mas acredite, tenho-o em alta estima e desejo-lhe sempre o melhor. Hoje entendo que não tinha o direito de interferir... Lamento por tê-lo decepcionado.

O discurso embargado arrefeceu o espírito raivoso do barão. Seria possível que Marie, desde aquela maldita manhã, já soubesse que Isabella era uma prostituta e por essa razão quis protegê-lo? No papel amassado entre seus dedos não havia uma confissão do caso ilícito com o banqueiro, ele acreditava. Então, somente uma profissão espúria seria chocante para a senhora. Se fosse assim, nem precisaria ler o que continha a missiva. O que ainda alimentava sua curiosidade era a declaração de que a governanta desconfiava o teor do texto. Como poderia, quando até mesmo Jacob salientara a discrição dos modos, o comedimento de Isabella?

Sim, Jacob, mais uma vez, tinha razão; algo estava errado e só havia uma forma de saber. Cruzando ao lado da governanta, Edward foi até a mesa e procurou por seu pincenê. Após acomodá-lo sobre a ponte do nariz ferido, finalmente desamassou e desdobrou o envelope, abrindo-o para retirar o papel que abrigava. Não notou o quanto tremia até que as letras dançassem diante de seus olhos, com as primeiras palavras a agravar a instabilidade de suas mãos.

Ávido, leu pela primeira vez chegando ao “adeus”, estarrecido. Da segunda a incredulidade o exortava a ir adiante sem que determinasse estar louco. Da terceira era revisitado pela raiva acompanhada por um desejo novo de saber mais; de entender todos os novos pontos obscuros vindos tardiamente com aquele relato perturbador. Isabella amiga de Rosalie? Amava-o desde pequena? E ainda assim o enganou, mentiu e o deixou para voltar ao meretrício? Aquelas eram informações fortes demais para serem esquecidas.

Com a mulher que lhe deixou a carta, confusa, de nome indefinido e sentimentos questionáveis se entenderia depois. Começaria a desvendar aquele mistério ali mesmo, com a violadora de correspondência alheia. Ao baixar a folha amarrotada, retirou o pincenê e encarou a senhora estática diante de sua mesa.

– Disse que abriu a carta porque desconfiava do que nela estava escrito.

Marie assentiu num movimento curto, de olhos fechados.

– Como é possível se nem mesmo morava aqui quando... – o nome não combinava, não o diria. – Quando a menina viveu nesta casa?

Abrindo os olhos para sustentar o olhar interrogativo do patrão a governanta falou:

– Eu não saberia dizer quando começaram minhas desconfianças milord... Acho que foi a desenvoltura com que ela se movia pelos corredores e cômodos, pelos jardins e pelo bosque que chamou minha atenção. Criados novos sempre se confundem, mas não ela. Então alguns criados antigos começaram a comentar a semelhança, mínima diziam, mas asseguraram haver. E também se sabia que a menina havia morrido, mas... Por vezes a flagrei a tocar os pertences de milady Rosalie com... Nostalgia. E havia Nero... Ele é sempre intratável, mas a adorava. Eu já sabia da história que o nomeou, então... Por mais extraordinário que pudesse parecer, eu... Desconfiei.

Edward não teve olhos para ver. Não sabia da suposta morte, por muitas vezes comentou os cabelos negros, semelhantes entre as duas, sem nunca associá-las de fato. Foi também testemunha da familiaridade de Isabella ao caminhar segura em direção ao lago onde a teve pela primeira vez e nem assim nada reparou. Então o barão recordou o encontro entre o galgo e a moça. Nero simplesmente enlouqueceu ao vê-la, festejando a volta de sua salvadora; agora ele entendia, e aceitava. Entretanto com a aceitação vinha a raiva. Dela. De Marie que fora capaz de ver o que ele sequer cogitou.

– Tudo isso é pouco para justificar seu temor ao ponto de violar minha correspondência. Há mais... E exijo saber.

– Mil perdões por discordar milord, mas a prova de que foi suficiente está em vossas mãos. Eu não errei. E se acaso tivesse me enganado, bastaria trocar de envelope, lacrá-lo e entregar-lhe a carta.

– Rápido e prático, sem remorsos nem indícios – Edward escarneceu. – Eficiente em todos os sentidos, não Sra. Newton?

– Por favor, milord... – pediu empertigada, indisfarçavelmente ofendida; os ombros rígidos. – Sei que não tenho qualquer defesa, mas não imagine que seria capaz de repetir este delito ou que o tenha cometido outras vezes. Agi unicamente naquela manhã em desespero. Por vossa causa... Como disse, sabia o que viria para vossa vida ao saber dessas coisas. Principalmente se decidisse procurá-la...

Finalmente chegaram ponto.

– Explique-me esse temor Sra. Newton. Que mal poderia haver em saber que Isabella se diz ser a menina que corria com minha irmã pelos jardins? Seria espantoso, é fato, porém inofensivo. Que me amava desde cedo? Eu poderia lidar com isso, até me envaidecer... Que não era boa o bastante para mim? Isso ela sempre pontuou. Então... Não vejo sentido em sua declaração. O que poderia a senhora saber que não foi dito nesta carta?

– Há mais milord, mas não posso revelar, pois estou sob juramento de sigilo.

– Quem estaria acima de mim e relacionado a todos nós que a colocaria sob tal restrição? – Edward não se daria por vencido com tão fraco argumento. – Exijo saber o que me esconde!

– Não menosprezo vossa soberania milord, mas temo a Deus e perante ele jurei sigilo. Lamento, mas dessa vez não poderei obedecê-lo... Vou entender caso se ofenda e, pelo crime que cometi e minha insubordinação, queira me expulsar de vossa propriedade, mas jamais faltarei com minha palavra. Agora sabe parte da verdade... Não precisa sofrer mais. Se esteve com ela essa semana, sabe onde encontrá-la. Com o tempo sei que descobrirá o que os incapacitaria de ficarem juntos.

Sim, ele se sentia ofendido. Porém igualmente confuso e cansado. Por também nutrir certo temor a Deus respeitaria o juramento, mesmo não entendendo onde se encaixava. Tudo o que poderia fazer era supor qual seria a restrição, então arriscou:

– Teria relação com a ocupação de Isabella?

– Ocupação? – A senhora uniu as sobrancelhas em genuína estranheza, levando Edward a se arrepender da pergunta. – A qual ocupação se refere Lord Masen?

– Esqueça! – demandou prontamente. – Não lhe devo respostas.

– Perdoe-me pela ousadia...

– Esqueça – repetiu; já imaginar a o que faria a seguir.

– Obrigada... – ela então baixou os olhos – E sobre minha falta? O que fará?

O certo seria expulsá-la imediatamente, afinal lhe traíra a confiança, deixando-o miserável por dias sem fim. Contudo jamais se esqueceria que a senhora fora a única que o ajudou com o pai quando nenhum outro criado se animava a fazê-lo. Não a perdoaria. Talvez a destituísse do cargo ocupado, porém depois...

– Peça a Amy que cuide do jantar de minha mãe e vá para sua casa. Fique lá até que eu decida o que farei. Boa noite.

Marie piscou incrédula e não se moveu até que finalmente aceitasse as palavras do patrão.

– Obrigada milord... Não mereço vossa benevolência.

– Ainda é cedo para agradecimentos Marie – salientou o nome, livre de formalidade. – Apenas obedeça.

Sem mais palavras a criada inclinou a cabeça brevemente e se foi, quase a correr. Deixando a mesa, Edward seguiu seus passos, depois de enfiar a carta amassada em seu bolso. Seguir sem o galgo em seus calcanhares, até a saleta onde tinha seus charutos e a bebida deu ao barão uma nova prova de que Isabella era quem dizia ser; se acaso estivesse na casa, Nero não se intimidaria com seus brados e estaria ali, confiando em quem o salvou.

Sim, se acaso Isabella estivesse na casa, Edward reafirmou em pensamento, apertando os passos como se assim se livrasse da fúria dirigida à moça. Precisava de alguma bebida que fosse forte o bastante para anestesiá-lo; que trouxesse sua alma de volta. Ou no mínimo sua razão.

Notas finais
Bom... Enfim Marie resolveu confessar e entregar a carta. Agora é ver o que vem pela frente... Me contem o que acharam!Como prometido, sexta tem mais... ;)Bjus amores!... Bom restinho de semana!