Borboleta Negra
14 Capítulo Treze
Notas iniciais
Conhecer o prazer e suas possibilidades pelas mãos do barão era para Isabella a segunda melhor experiência de sua vida, dividindo espaço somente àquela vivida com Embry. Ambas equivalentes em grau de importância e difíceis de serem mensuradas entre si. Enfim, anteriormente pensou num ato falho, mas confirmava que os dois para sempre seriam os homens de sua vida.
Para seu infortúnio nenhum deles merecia ter alguém como ela, ainda assim os teria enquanto pudesse; cada um ao seu tempo. Como salientou, estava com Edward no presente momento e aproveitaria cada descoberta, cada dia ao seu lado evitando queixumes, afinal nunca fora dada às lamentações. E depois de ter as mostras do que o barão seria capaz de fazer para que ficasse Isabella se recusava terminantemente a pensar no futuro. Bastava manter a consciência do que era certo e fazê-lo quando fosse preciso. Até lá trataria de acumular muitos momentos felizes, alegrando também a vida do barão.
Com isso ria fácil durante as conversas que mantiveram quando não estavam se provocando mutuamente antes de se recuperarem e fazer amor. Assim seguiu o restante da manhã e se iniciou a tarde, sem que nenhum dos dois se animasse a ir embora. A decisão em voltar ao palacete fora tomada pelo barão ao ouvir o primeiro protesto do estômago de sua hóspede.
– Hora de voltarmos – ele determinou se levantando e a puxando consigo. – Como posso tomar conta de você se a matar de fome?
– Sobreviverei, juro... – ela falou com um muxoxo. – Vamos ficar mais um pouco.
– Já brincamos demais. – Edward retrucou delicadamente. – Conhecendo a determinação de Marie, é bem capaz de ela já ter mandado alguém a nossa procura.
– Com isso sou obrigada a concordar... – Isabella murmurou enquanto o via abaixar-se e recolher sua pantalona. Para manter o clima bom, troçou. – Se vier ela própria é bem capaz de lhe morder se descobrir o que vossa senhoria fez comigo.
– Valeria cada mordida – foi a resposta vinda com uma piscadela. – Agora se vista.
Edward sabia que deveria seguir o próprio conselho, mas se pegou a assisti-la vestir a calça branca, ainda úmida que lhe cobria a anca arredondada; o ventre levemente saliente. Novamente hipnotizado viu-a ocultar os seios sob o chemise e caminhar até a árvore onde ele havia estendido a anágua e o vestido. Ao terminar de prender a primeira peça ao corpo, ela descobriu sua vigilância.
– Não vai se vestir? – indagou a sorrir. – Desistiu de me alimentar?
– Estava estudando a possibilidade – ele admitiu; de fato vacilava.
Vê-la se vestir perdeu o teor de idolatria ao se lembrar de que uma vez de volta a casa eles teriam que se comportar com certo decoro. Era sábado. Não trabalhava, assim como nos domingos, então queria estar com ela todo o tempo.
– Bem... – ela voltou a falar já vestindo o vestido emprestado. – Por mim ficaríamos, mas agora temo por sua integridade física... Devo avisá-lo que Marie está bem disposta a defender minha honra Milord.
– Sendo assim, vamos de uma vez... – ele revirou os olhos. – Não quero me indispor com sua guardiã.
Por ser a primeira a ficar pronta, Isabella assumiu a vigilância em observá-lo se vestir. Edward era de fato um homem bonito. Em sua falsa magreza apresentava músculos definidos sem serem avantajados. Os ombros eram largos, o peito amplo e acolhedor coberto por mínimos pelos que desciam decididos dividindo-lhe o abdômen até sumirem pelo cós da ceroula que agora ele escondia com a calça preta.
Ao alcançar a camisa que ela vestira Edward igualmente percebeu que era observado. Abrindo-lhe seu melhor sorriso, imitou-a no gracejo.
– Desistiu de preservar minha integridade física?
– Estava estudando a possibilidade – ela replicou com uma sobrancelha erguida.
Tomando a resposta como um incentivo, Edward atirou a camisa ao chão e marchou decidido até ela para tomá-la nos braços mesmo sob falsos protestos.
– Era brincadeira Milord... – Isabella se defendeu antes de ser novamente derrubada.
– Pois eu a alerto para que meça suas palavras – o barão falou com simulada seriedade, prendendo-a sob si. – Assim como deve parar de me tratar formalmente, esqueceu-se?
– Mas não é isso que quer ser para mim? – ela piscou confusa; oscilando entre a provocação e a verdade. – Meu Lord?
A pergunta o desconcertou pela objetividade. Isabella era perspicaz e direta mesmo sendo tão jovem. Assim como sua espontaneidade, todas as qualidades que admirava igualmente o assustavam. Contudo não lhe devia nada menos do que encobrir seu temor e retribuir com sinceridade.
– Sim, Bella... Quero ser o seu Lord.
Beijá-la após a declaração fora a sentença definitiva de que não deixaria a área da lagoa tão cedo. Logo as roupas que mal secaram estavam sujas e molhadas novamente; esquecidas sobre a grama.
Quando finalmente foram capazes de se arrumar e tomar o caminho de volta, o sol já começava a baixar sobre as árvores, esfriando o final da tarde. Aquele fora o fator determinante para que Edward a deixasse se vestir completamente. Como se não bastasse o frio crescente, havia o perigo real de serem descobertos. Já havia sido negligente ao conseguir maçãs para que ela matasse a fome, assim como brincado com a saúde dela que dias antes ardeu em febre.
Por mais que desejasse estender aquele dia ao máximo, o limite tolerável havia chegado. Contudo não partiram entristecidos; resignação era o que os movia. E também o início de cumplicidade que adquiriram com a intimidade. Durante todo o percurso até o pomar e a casa provocaram-se e brincaram mutuamente. Por vezes Edward a prendia para lhe roubar um beijo, mas este era breve e leve. Aceitava estar apaixonado e queria dela o que pudesse tomar.
Já diante do palacete Nero veio lhes fazer companhia entrando na brincadeira pueril, saltando entre os dois. Distraídos com a farra que faziam um ao outro, entraram no grande rol a correr e a sorrir, seguidos pelo galgo. A ideia era chegarem aos quartos para que então Edward chamasse Marie, contudo não foi preciso. A criada surgia no corredor que levava a sala de jantar juntamente com Jacob.
Ao se encontrarem os quatro estacaram; Edward e Isabella abraçados aos respectivos chapéus que tinham em mãos e a conter o riso imediatamente ante os criados. Estes os encaravam surpresos. Logo Jacob assumia seu ar avaliador e Marie expressava seu espanto.
– Milord...? Senhorita...? Por onde estiveram por todo o dia? – indagou medindo-o de alto a baixo.
– O dia estava bonito. Então estive mostrando a propriedade a Isabella – o barão explicou sucinto; já sério, indicando que não aceitaria mais questões. – Agora devemos nos refazer para almoçarmos.
– Era justamente isso que me preocupava Milord... Não sabia onde estavam e me preocupou ver as horas passarem sem que voltassem. Chamei Jacob para que fosse procurá-los.
Isabella não ousou dizer uma palavra; por ser desnecessário, não por qualquer incômodo. Sabia como se apresentava aos dois e sua imagem falava por si só. Na verdade não se importava. Comentou com Edward a necessidade de discrição para evitar um encontro com Carlisle, no mais, era senhora de si. E como pensou antes, quando fosse embora não importaria o juízo que fizessem dela. Depois do ocorrido na lagoa assumira a condição de amante do barão e caso não estivesse claro, logo Jacob e Marie estariam cientes da mudança.
– Obrigada pela preocupação Marie, mas essa se faz desnecessária. Vá cuidar de Isabella... – pediu assumindo a situação. E olhando para o amigo. – E já que está aqui, pode vir me ajudar.
– Sempre às ordens Sir Edward – o moreno falou com um inclinar de cabeça. – Vá para seu quarto que providenciarei o que precisa.
– Obrigado! – agradeceu antes que os criados se fossem em direção à ala dos funcionários. Voltando sua atenção à moça, Edward a moveu com a mão apoiada em suas costas. – Vamos...
Subiram em silêncio, com Nero em seus calcanhares. Isabella apenas almejava se lavar corretamente e vestir roupas secas e limpas antes de finalmente comer; estava faminta. Edward por sua vez cismava com a seriedade que acreditava notar na jovem. Inseguro como todo apaixonado, perguntou.
– Está arrependida do que fizemos agora que fomos tão prontamente descobertos pelos dois?
Estavam diante da porta do quarto que ela ocupava. Com a pergunta, Isabella o encarou e avisou tranquila.
– Dificilmente me arrependo das decisões que tomo – era a verdade. Estava decidida a se sentir feliz naqueles dias então e remorsos de nada lhe valiam.
– Então somos iguais! – Edward retrucou antes de beijá-la levemente e colocá-la para dentro do quarto de sua irmã. Era uma boa frase, mas não o convencera.
Uma vez no quarto, com o galgo estendido sobre um dos tapetes, Isabella esperou que Marie lhe chamasse para que fosse ao quarto de banho. Andava de um lado ao outro, contorcendo os dedos por pura agitação. Passada a surpresa do flagrante, a animação vinda com o extraordinário dia que viveu com o barão voltou com força máxima. Gostaria de poder conversar com alguém sobre os prazeres que experimentou. Se estivesse em sua casa, Angela seria a escolhida, pois era sua confidente.
A mulher de meia idade, ex-proprietária de seu negócio sempre argumentava com ela de que deveria procurar por prazer naquilo que fazia. Desde que iniciou no oficio deixando claro seu desagrado, Angela tentava convencê-la de que sexo era bom, bastava querer que fosse. Quantas vezes a ouviu afirmar que um homem poderia dar prazer a uma mulher sem que acreditasse? Inúmeras vezes, contudo para Isabella sempre pareceu absurdo.
Sua vida sexual fora iniciada cedo demais, sem sua permissão, por um homem com 46 anos a mais do que ela, preocupado apenas em ser breve para saciar suas taras doentias. Depois disso, como imaginar outra situação diferente? Todas as vezes que se deitou com um homem foi uma nova violação. Encarou cada uma delas como um mal necessário, afinal havia um objetivo a alcançar; responsabilidades a assumir.
Eis que então reencontra Edward. Aquele a quem amou em silêncio desde que se entendia como pessoa e justamente através dele é apresentada a um prazer que considerava utópico. Com isso se sentia agitada; era como se não coubesse em si.
– Com sua licença Isabella... – ela ouviu a voz vinda da porta. – Eu bati, mas você não me respondeu.
– Perdoe-me Marie... – a jovem lhe sorriu. – Estava distante.
– Percebi – a criada disse séria. Mirando as próprias mãos sem rodeios acrescentou. – Pelo o que notei hoje fez tudo ao contrário do que lhe falei ontem... Entregou-se ao barão?
– Ainda não Marie. – Isabella preferiu negar ao saber que a dúvida ainda existia; não queria chocá-la. Contudo era preciso prepará-la para aquilo que logo perceberia. – Ainda não, mas estou bem tentada a ceder aos avanços.
– Desculpe-me se parecer ofensiva, mas o que pretende com isso menina?
– Não pretendo coisa alguma! – ela retrucou unindo as sobrancelhas. – O que está pensando?
– O que poderia pensar? – a mulher a encarou. – Ontem estava preocupada com você, mas hoje... Com essa sua declaração, começo a temer pelo barão.
– Não sou uma caça dotes se é o que está pensando. – Isabella assegurou sem se ofender; a mulher não era obrigada a confiar em quem nem conhecia.
– Se é assim... O que pretende fazer com sua vida? Vai permitir que o barão a desgrace sem querer nada em troca? É de fato assim tão ingênua? Por acaso sabe como são feitos os bebês?... E se engravidar?
– Acalme-se Marie! – a moça pediu, aproximando-se para segurar-lhe as mãos agitadas. – Sei como os bebês são feitos. Não sou nenhuma ingênua nem quero nada do barão.
– Mas então...? – a mulher parecia confusa. – Eu não entendo.
– Quero apenas viver minha vida Marie, sem ilusões, nem cobranças...
– Mas o barão pensa da mesma forma? Como isso é possível?
– Somos adultos. – Isabella retrucou evitando pensar sobre as intenções do barão.
– Mas...
– Sem “mas” Marie... – pediu. – Não se preocupe tanto. Nada aconteceu ainda. Agora poderia me ajudar... Preciso me limpar. E comer. Estou com tanta fome que seria capaz de engolir um leão! – brincou para desanuviar os olhos consternados da criada.
– Sendo assim deixe-me cuidá-la... – a mulher falou assumindo seu costumeiro ar prestativo.
No aposento ao lado o barão era igualmente sabatinado pelo criado, por vezes insubordinado, que tinha como a um irmão.
– Não acha que estão indo longe demais? – Jacob indagou, despejando mais água quente à tina que outro criado o ajudou a encher.
– Não vejo em qual sentido. – Edward falou se abaixando para retirar as botas e as meias molhadas. – Sabe bem que desde o início que estar com ela era o que eu queria.
– Sim, eu sei. – o criado retrucou enquanto via o patrão se despir até ficar somente vestido em suas ceroulas. Quando este se sentou na tina com água, prosseguiu ao abaixar-se para lhe esfregar as costas com a bucha vegetal. – Mas antes nós sabíamos que seria somente um caso como tantos outros. Ontem admitiu estar interessado na moça.
– Não diminua o que eu falei. – Edward pediu sério. – Admiti estar apaixonado; é o que estou. Sabe bem como é... Não é apaixonado por Leah?
– Não. – Jacob negou seguro. – Amo minha esposa, é diferente. As paixões da mesma forma que surgem se acabam... Quando acontecer o que fará com a garota?
– Ontem a acusou de ser interesseira. – o barão observou secamente, não gostando do rumo da conversa. – Hoje se preocupa com seu futuro? Decida-se de qual lado vai ficar.
– Ficarei ao lado de quem estiver com a razão. – Jacob retrucou esfregando-lhe as costas com mais força. – E se a boa moça cair de amores e vossa paixão findar?
– Se Isabella cair de amores por mim será perfeito! E tome mais cuidado com minhas costas. Não precisa arrancar meu couro.
– Se servisse para lhe dar algum juízo... – o moreno falou sugestivo. Dando sua função por encerrada entregou a bucha ao patrão e se afastou da tina. – Como deseja que ela o ame? E seu quase compromisso com Tanya Cullen? A baronesa...
– A baronesa deve estar é lhe pagando muito bem para falar em seu nome. – Edward o cortou atirando a bucha dentro da tina, aborrecido. – Sabe muito bem que não há quase compromisso com ninguém... Meu assunto agora se chama Isabella Swan.
– A senhorita Cullen sabe que não há ligação entre os dois? – Jacob insistiu. – Acredito que não, pois até eu mesmo fico confuso quando aparece um assunto novo.
– Fica confuso porque é intrometido demais. – o barão replicou encarando-o duramente. – Deixe que de meus assuntos eu cuido. Agora me passe a toalha e vá para casa. Fique lá até segunda pela manhã. Não quero me aborrecer quando tudo está dando tão certo.
– É certo desonrar a garota que ontem veementemente defendeu, tornando-a sua amante estando somente apaixonado Sir?
– Esqueça a porcaria da toalha e desapareça daqui Jake, ou eu... – Edward não concluiu a ameaça; emudecido pela raiva.
– Como queira Sir Masen... – o criado deixou a toalha ao seu alcance e marchou ereto até a porta. Antes de sair, falou contrito. – Quando tudo der errado, não diga que não avisei.
– Suma! – Edward bradou furioso.
Quando a porta foi fechada o barão socou a água, movido pela frustração. Jacob tinha que lhe lembrar o que não queria. Tinha que tocar em assuntos incômodos depois do dia perfeito que tivera com Isabella. Qual o problema de estar somente apaixonado? Paixão não era a porta de entrada para o amor? Não era um homem caprichoso, não senhor? Talvez parecesse a Jacob que agia movido pelo despeito por ter sido ignorado, mas não era o caso.
Queria a jovem para si e cuidaria dela como o precioso Embry não fez. Amor viria com o tempo. Até lá não tinha que se preocupar nem mesmo com Tanya. Se ela não sabia sobre a falta de um compromisso, deveria saber, pois nunca lhe prometeu coisa alguma. Nem mesmo haviam ido tão longe como com Isabella na margem da lagoa. Era com ela que estava comprometido; como lhe disse, talvez pelo resto de seus dias. Eufrásia, a filha de Zeus desprovida de pelos e pudores, o enfeitiçou para sempre.
Ansioso por estar novamente com ela findou o banho. Com a saída de Jacob pôde se despir completamente para se lavar como deveria. Ao terminar deixou a tina e se secou rapidamente. Vestiu-se também com pressa, calçou-se e apenas penteou os cabelos, sem prendê-los, para então deixar o quarto. Passou pela porta fechada do quarto de Rosalie e desceu até a cozinha pela escadaria no final do corredor.
– Sra. Wood – chamou a cozinheira ao entrar.
A mulher descascava algumas batatas. Baixando a que segurava lhe respondeu inexpressiva como somente ela sabia ser.
– O que deseja Lord Masen?
– Gostaria de pedir para Marie preparar a mesa da sala de jantar para o almoço. Ela ainda está com Isabella?
– Sim, ela está com vossa hóspede Milord. – Sue confirmou voltando a descascar a batata. – Creio que ao se desocupar prepare a mesa para o jantar, visto o adiantado da hora.
– Pois que assim seja! – Edward retrucou sem se importar com a acidez da velha cozinheira. – Quando ela descer peça também para encontrar alguém que retire a tina d’água de meu quarto, pois dispensei Jacob por hoje.
Sem mais recomendações seguiu de volta à porta. Estava prestes a deixar a cozinha quando ela falou.
– Achei estranho que não viesse almoçar no horário habitual Milord... Então fiquei sabendo que passou o dia fora com vossa convidada. Parece que voltaram bem animados. Eric disse que os viu a correr pelo jardim quando veio me trazer as batatas.
– Se deixasse essa cozinha de vez em quando, teria visto com seus próprios olhos Sra. Wood – a velha às vezes o exasperava com seus mexericos. – Além de respirar ar puro deixaria de obter apenas informações repassadas.
– Conheço meu lugar Milord. – ela replicou novamente baixando a batata. – Sei que não devo ficar zanzando por aí.
– Pois conhecer seu lugar não significa somente não deixar a ala dos empregados, mas também não se interessar com o que acontece na vida de seus patrões – o barão retorquiu altivo; esperava que o recado valesse.
Sem esperar por mais comentários seguiu até a sala onde tomava xerez ou brandy e em dias de maior necessidade degustava um charuto. Aquele era um desses dias. Prender a fumaça esbranquiçada em sua boca enquanto saboreava o tabaco ajudaria a esperar pela volta de Isabella; livrando-o da tensão deixada por Jacob e do aborrecimento causado pela cozinheira.
Já no seu cômodo preferido, Edward se dirigiu até a mesa e da gaveta sob o tampo de madeira lustroso, dela retirou o cinzeiro, escolheu um charuto, preparou-o perfurando um lado e cortando outro antes de pegar uma haste de cedro e seguir até a lareira. Depois de conseguir uma chama no cedro, girou a ponta cortada do charuto distante dela até que esta se acendesse completamente. Só então puxou o ar através do charuto trazendo seu sabor para sua boca. O manteve ali por alguns instantes antes de liberar a fumaça que subiu espiralada.
Atirando o resto do cedro às chamas da lareira, pegou o cinzeiro e saiu para a varanda. Após um suspiro resignado novamente puxou o ar perfumado, prendeu-o e então o exalou. O barão repetiu o ritual até que se esquecesse de seus criados – queridos ou não – e restassem somente as boas lembranças do dia vivido.
Minutos depois, quando estava completamente distraído liberando a fumaça por entre seus lábios, sentiu duas mãos correrem por seu abdômen até que sua dona o enlaçasse pela cintura e pousasse a cabeça em suas costas. A liberdade o agradou ao ponto de fazê-lo cobrir as mãos com as suas, sorrir e fechar os olhos para apreciar o contato como antes fazia com o charuto.
Isabella também saboreava o abraço dado sem que nem entendesse o porquê. Sim, sentira a falta dele e tão logo se viu devidamente limpa, vestida e penteada separou-se de Marie que fora providenciar o que seria o jantar e desceu para procurá-lo; sempre com Nero a lhe fazer companhia. Ao ver que Edward não estava na biblioteca, seguiu até aquela sala. Não o viu, mas o cheiro do tabaco o denunciou.
Antes de abraçá-lo esteve a lhe observar. O barão parecia compenetrado na degustação de seu charuto, mirando o jardim, recostado contra a mureta da varanda. Os cabelos castanhos estavam soltos sobre os ombros cobertos apenas pelo colete cinza que combinavam com as calças de musselina da mesma cor; porém alguns tons mais escuros. Isabella não soube a razão, mas a cena a tocou despertando nela o desejo imediato que senti-lo contra si.
Então ali estava ela, com o galgo sentado ao lado, abraçada às costas largas do barão sentindo o calor daquele corpo sólido e o cheiro de tabaco; que associado ao do sabonete se tornava tão agradável; inesquecível.
Como ela nada dissesse nem se movesse, Edward continuou a degustar seu charuto tendo-a tão próxima a si, mantendo uma das mãos sobre as dela. Sentiu naquele instante que poderia se acostumar a conservá-la por perto para tornar especial os momentos que já apreciava em demasia. Era fácil e natural estarem próximos. Poderia dizer que se sentia em paz.
Como Jake queria que não experimentasse aqueles sentimentos? Sem que seu charuto chegasse ao fim, Edward o apagou no fundo do cinzeiro e então voltou a tocar os dedos delicados com as suas mãos, mas manteve o silêncio.
Este fora quebrado, assim como o bom contato, quando Marie pigarreou à porta.
– A mesa está posta Milord.
– Obrigada Marie. – Edward agradeceu, contudo a olhar para Isabella. Sua amante, ele aceitou com desagrado, contudo era o que ela era. Maldito fosse Jacob! – Pode se retirar... Iremos num instante.
Depois da conversa que tiveram na noite anterior a criada não se atreveria a insistir, sem mais palavras ela inclinou a cabeça reverente e se foi.
– Podemos? – Isabella indagou esperançosa, tentando não reparar na intensidade vista nos olhos azuis. – As maçãs que colheu ajudaram, mas estou com fome.
– Também tenho fome – ele anunciou puxando num movimento rápido para si. – Porém de seus beijos. Acha que pode me abraçar assim e depois se afastar para novamente me trocar por sopa e pão?
– Perdoe-me my lord, eu...
Com a captura de seus lábios a frase ficou sem conclusão. Esquecida da provocação que faria, Isabella deixou que ele provasse os recantos de sua boca com a língua impregnada pelo tabaco, entontecendo-a. Começava a amolecer em seus braços quando o barão quebrou o beijo.
– Agora sim, podemos ir – ele anunciou tomando-a pela mão para levá-la consigo, com o pequeno perseguidor os acompanhando de perto.
A moça não se importou com a rapidez que era abraçada e liberada; todas as ações eram boas se vindas dele. Já ao redor da mesa, Edward afastou a cadeira para que ela se sentasse então foi assumir seu lugar. Naquela noite não foi Marie a lhes servir e sim outra das muitas criadas. Não era um de seu tempo permitindo que a moça relaxasse em sua presença. Foram servidos de sopa de legumes, pão e queijo, então a criada se afastou para que comecem em paz.
Como a fome era uma realidade, iniciaram o jantar em silêncio. Edward vez ou outra analisava a jovem; como sempre a considerá-la bonita. Os cabelos estavam soltos, presos apenas nas laterais por grampos que ele não podia ver. O vestido que usava era um muito antigo e lhe ficava frouxo, pois pertenceu a Rosalie no tempo em que adquiria alguns quilos excedentes. A baronesa vivia em crises constantes de nervos por sua filha não se importar com a aparência alegando que jamais arranjaria um pretendente.
Fora nesse tempo que a irmã conhecera o duque e este se interessara por ela, demonstrando a preocupada baronesa de Westking que certos detalhes pouco importavam quando se estava verdadeiramente apaixonado. Edward poderia dizer que experimentava aquela atração incondicional, afinal, Isabella era linda aos seus olhos, contudo carregava com ela detalhes que a tornariam imprópria para cortejar; e até desposar para alguns homens.
– Está me desconsertando com essa análise – ela falou entre uma colher de sopa e outra.
– Acho pouco provável, mas vou parar... – ele prometeu voltando sua atenção ao prato. – Estava reparando em como esse vestido está largo em você.
– Sim, está um pouco – Isabella admitiu olhando o próprio colo como se assim visse o vestido inteiro. – Mas estamos sem opções. Os outros estão sendo lavados, pois certo membro da família Masen Bradley tem o péssimo hábito de me atirar ao chão.
– Eu não diria que é péssimo – o barão lhe piscou matreiramente. – Nem ouvi a senhorita se queixar.
– Eu queria, mas estava sendo sufocada por beijos e abraços.
– Pobre senhorita! – Edward se compadeceu teatralmente.
– Vê como sofro? – ela entrou na brincadeira; apreciava o bom humor do barão.
– Vou compensá-la por tamanho sofrimento – anunciou parecendo sério.
– O que fará? – Isabella o encarou com as sobrancelhas unidas ao perceber que de fato falara livre de troça.
– Será uma surpresa. Agora termine sua sopa antes que esfrie.
E assim ela o fez. Não somente finalizou sua sopa, como comeu todo o guisado de carne bovina com seus acompanhamentos e depois o pudim de nata que a criada os serviu. A refeição fora saborosa degustada em clima agradável, mesmo que em silêncio onde a moça tentava decifrar o que lhe reservava o enigmático barão. Não lidava bem com surpresas, então não criaria expectativas.
Ao deixarem a mesa, Edward a convidou para um novo passeio. Daquela vez para os jardins que circundavam a casa. Ajudaria na digestão dissera ele. Segura de que não seria reconhecida, Isabella aceitou. Mais uma vez com a mão presa na palma firme do barão, a moça se deixou guiar para fora do palacete. Já caminhavam pelo gramado diante da construção branca, com Nero a ganhar distância e voltar feliz, quando Isabella puxou o primeiro assunto que lhe veio à mente.
– Jacob mora aqui em Apple White?
– Por que o interesse? – não era como se sentisse ciúme, mas não queria falar daquele que o arreliou.
– Não é interesse – ela deu de ombros. – É que me lembrei do cemitério que achei... Disse que era para criados que moravam aqui. Vocês parecem ser bem próximos, então... Apenas quis saber. Se achar que não é de minha conta, tudo bem... Falemos de outra coisa.
– Não! Perdoe-me... Sim, ele mora aqui. Sua esposa trabalha na cozinha. Não queria falar sobre ele porque nos desentendemos e lembrá-lo me irritou.
– Não quero aborrecê-lo – Isabella o olhou de esguelha. A declaração confirmou haver mais naquela relação, pois patrões não se desentendiam com criados; sim amigos entre si. – Mas se quiser falar a respeito... Quando o ajudou a voltar para casa depois de nosso acidente percebi que gosta muito dele.
– Ele é insolente e irritante, mas sim... – o barão admitiu. – Todos aqui sabem que ele é meu melhor amigo.
– Acho engraçado ele lhe tratar por Sir quando todos usam Lord – ela salientou, incentivando-o a falar do amigo.
– Crescemos juntos então, por mim, o teimoso me chamaria pelo nome, mas seus pais e os meus veementemente repudiaram minha ideia. Como eu era o baronete ele foi obrigado a me tratar por sir. O tempo passou, ele se acostumou... A família dele deixou Apple White quando completamos quinze anos então outra veio substituí-la. A da menininha amiga de Rosalie – ele acrescentou rapidamente, antes de prosseguir. – Eu o encontrei em Westking um mês após meu retorno de Londres e o trouxe de volta. O tratamento formal prosseguiu. Quando me tornei barão tentei dissuadir o teimoso a aboli-lo, sem sucesso... Então apenas não o corrigi como aos outros... Jake me chamar de sir é o mais próximo a informalidade que consigo.
– Parece ser uma bonita amizade – ela comentou; saudosa de sua com Rosalie; entendendo também como não se lembrava do criado.
– Seria mais bonita se ele não fosse tão bisbilhoteiro. – Edward comentou novamente contrafeito.
– Quer me dizer por que brigaram?
– Não foi nada que valha desperdiçarmos nosso tempo falando a respeito – ele encerrou o assunto, parando seu caminhar e a trazendo para si. – Prefiro dar toda minha atenção a você.
– Ainda não se cansou de mim?
– Talvez um dia, não hoje... – retrucou, beijando-a apaixonadamente por recordar das palavras de Jacob; queria que ela caísse de amores por ele e que sua paixão nunca findasse.
– Edward – ela o chamou durante uma pausa para retomada de fôlego. – Estamos no meio do jardim e ainda está claro... Não deveríamos...?
– Não... – ele negou o que quer que fosse para novamente beijá-la.
Sabia que não seriam descobertos. Aquele pedaço do jardim não era muito frequentado e também era sábado, àquela hora boa parte dos trabalhadores já estava em suas casas. De toda forma estava habituado a ter os beijos de Tanya em meio aos arbustos bem podados; não que fossem comparáveis. Nada vindo da outra seria equivalente ao que tinha com Isabella.
– Então ao menos não me derrube – ela pediu sôfrega entre um beijo e outro. – Marie teria uma síncope.
– Tenho uma ideia melhor... – o barão anunciou, tomando-a pela mão.
Com Isabella quase a correr para segui-lo, Edward a levou até um ponto mais afastado em meio ao jardim, quase no início do bosque. Aquela área era nova, pois ela não se lembrava do caramanchão alto cercado de narcisos e coberto de madressilva, que abrigavam dois bancos de alvenaria, um diante do outro. A moça imaginou como seria bonito quando as flores abrissem na primavera. Infelizmente não veria, mas não teve tempo de sentir pela falta de sorte, pois o barão logo se sentou num dos bancos e a levou diretamente ao colo.
– Melhor agora Bella?
– Muito melhor my lord! – ela assegurou lhe sorrindo e então comentou. – Acho engraçado que me chame de Bella.
– Apenas um tratamento carinhoso, minha pequena Bella – falou depositando um beijo na ponta do nariz bem torneado. – Posso continuar a chamá-la dessa forma?
– Evidente que sim. De qualquer forma contanto que me chame – ela troçou já a correr a mão por seu pescoço para retomar os beijos sufocantes.
Edward se portou como um perfeito cavalheiro durante eles. Por mais que ela estivesse excitada por senti-lo rígido sob suas nádegas, o barão nada tentou além de beijar-lhe o pescoço ou provar-lhe o lóbulo da orelha. Todavia até mesmo aquele contato inocente a abalava.
– Edward... – ela exalou ao ter a ponta de sua orelha rolada pela língua áspera. Involuntariamente se moveu sobre o colo do barão.
– Se fizer isso novamente será difícil manter a compostura – ele avisou rouco. Prendendo-a no lugar para que entendesse sua colocação.
– Então deixe minha orelha em paz... – pediu languida. – E deixe-me sentar ao seu lado no banco.
– Fique quieta que estaremos bem... – ele falou abraçando-a pela cintura, pausando a sucessão de beijos e carinhos. – Quero-a bem perto enquanto conversamos.
– Sobre o quê? – subitamente a mudança não lhe pareceu uma boa ideia.
– Sobre você. – Edward anunciou simplesmente. – Quero conhecer mais de sua vida, especialmente agora que a conheço no sentido bíblico.
A pilhéria não ajudou a acalmá-la; não havia nada que pudesse falar de si, porém colocar a verdade em palavras, apenas atrairia a atenção do barão.
– O que gostaria de saber? – indagou modulando a voz.
– Podemos começar pelo básico – ele disse após um minuto de silenciosa deliberação. – Onde nasceu?
– Nasci em Wilton, mas meus pais se mudaram de lá quando eu tinha três anos – era a verdade.
– Não é tão longe daqui, os tapetes feitos em Wilton são famosos.
– Acho que sim... Não conheço muito sobre minha cidade natal – também era a verdade.
– E de lá seus pais se mudaram para onde? – Edward perguntou interessado.
– Não saberia dizer, pois como lhe falei tinha apenas três anos. O que sei é que eles sempre se mudavam de cidade em cidade.
– Como ciganos? – o barão a encarou com as sobrancelhas erguidas, começando a considerar interessante a possibilidade dos cabelos negros terem sua origem nos nômades indianos.
– Não saberia dizer... – ela repetiu incomodada.
– Como pode não saber? – ele insistiu; precisava conhecê-la. – Seus pais não falavam sobre suas origens. Seus ancestrais? Se eles eram estrangeiros? Naturais da Inglaterra?
– Eu não me lembro dos meus pais está bem? – ela o cortou sem alterar a voz, encolhendo-se em seu colo, fechando os olhos fortemente para não chorar. Tudo o que se lembrava dos pais eram dois rostos esmaecidos pela ação dos anos e as duas lápides abandonadas em meio ao mato.
– Shhh... Não chore Bella. – Edward pediu, abraçando-a. – Como pude não perceber? Ontem já havia me indicado ser sozinha no mundo.
Com o tom carinhoso as lágrimas não puderam ser evitadas, levando-a ao pranto.
– Não chore... – ele repetiu comovido, retirando seu lenço do bolso para secar-lhe as lágrimas. – Perdoe-me por ser assim insensível.
– Não é... – ela disse embargada. Não era culpa dele que fosse uma largada no mundo sem uma história bonita para lhe contar. – Eu que peço desculpa pelo meu descontrole.
Com suas palavras, Edward riu manso, antes de observar, apaziguador:
– E cá estamos nós novamente pedindo desculpas um ao outro. Precisamos acabar com isso, afinal se estamos juntos temos que ter a liberdade para dizer o que pensamos e sentimos sem lamentarmos.
– Tem razão – Isabella concordou em meio às lágrimas, tentando sorrir –, mas poderia deixar para perguntar sobre mim depois?
– Poderíamos falar de outras coisas sem ser sobre seus pais. – Edward sugeriu. – Como onde estudou, por exemplo... Poderia me dizer se sabe tocar algum instrumento... Bordar, cozinhar...
Resumindo, queria obter dela informações irrelevantes que Tanya sempre estava bem disposta a colocá-lo a par, mesmo que não fosse de seu interesse. Vindos de Isabella cada detalhe de sua vida seria bem recebido. Mulheres gostavam de falar sobre tais coisas não?
– Sei tocar piano. – Isabella revelou receosa; não era grande coisa, pois Carlisle deu-lhe poucas aulas. O suficiente para que praticasse por conta própria, contudo pouco se sentou à banqueta do instrumento que havia em sua casa. – Mas, por favor, não peça para que eu toque... Seria um vexame!
– Diz isso agora? – ele se mostrou inconformado enquanto voltava o lenço ao bolso. – Quando já sonhava com uma audição privada!
O riso franco que se seguiu livrou-o de vez da culpa por tê-la feito chorar. Não era novidade que não a queria triste e saber-se o responsável pelo pranto o matava internamente. Satisfeito também por conseguir ao menos uma informação, Edward voltou à carga.
– Bom, já sei que sabe tocar piano, mas é tímida quanto a demonstrar... E quanto ao restante?... Sabe bordar, cozinhar.
Ainda acalmando seu coração, ela o imitou na brincadeira.
– Por acaso estou sendo avaliada para algum cargo onde tais requisitos sejam fundamentais, nobre senhor?
– Se considerar o posto de baronesa de Westking um cargo importante...
Isabella não ouviu o final da resposta dita em tom solene. O ar simplesmente desapareceu, assim como o som e a luz.
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Hoje não deixarei Spoiler, pois sábado teremos bônus de dia das Mães. Até lá...
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