Borboleta Negra
43 Capítulo Onze - Parte II
Notas iniciais
Obrigada pelos reviews... Vi que algumas gostariam msm de socar o Laurent, outras já desejam que ele desaparecesse de vez... Não será tão fácil, infelizmente. Então vamos seguindo para ver o que vem pela frente... ;)
BOA LEITURA!...
Véspera de ano novo. Para o barão 1871 prometia chegar sem drásticas mudanças. Uma semana havia se passado desde o final de um relacionamento que nem ao menos começou; seu noivado. Irrelevante. Para ele, pois para a baronesa a negativa do banqueiro fora equivalente a uma catástrofe natural que obrigou seu filho a evitá-la nos derradeiros dias de dezembro.
– Sir Cullen enlouqueceu! – ela bradara no caminho de volta à Apple White. – Recusar o pedido de um barão!
– De um homem – ele a corrigira. – A senhorita Tanya não se casaria com meu título. E Sir Cullen deve ter suas razões.
– E parece que ele as explicou muito bem – os olhos castanhos chisparam para ele –, pois, apesar de sua irritação inicial agora parece muito calmo.
Sim, na ocasião logo se acalmou ao entender que, fossem quais fossem as razões do banqueiro, estas o livraram de um casamento enfadonho, inútil e, sim, fadado ao fracasso. E isto minutos depois de descortinado um promissor futuro com aquela que ainda o considerava como sendo seu. Justamente por esse motivo que, também passada uma semana de seu encontro com Isabella, ele ainda custava a crer que a moça dispensou-se de encontrá-lo sem nem dar-lhe a chance de lutar por seu amor.
Naquela manhã, como nas anteriores, mantinha em seu bolso o bilhete que lhe foi entregue por um dos funcionários da sidreria na manhã do dia 26, última segunda-feira do ano. Guardara-o como lembrete de que, apesar da eterna mania em decidir tudo por si só, ela não era a culpada; acalentando a esperança de um novo encontro no qual pudesse dissuadi-la.
Seu ressentimento deveria ser dirigido única e exclusivamente ao banqueiro por seus ardis e manipulações para afastá-los. Por sua mente perturbada passavam as mais absurdas formas de punição que o senhor dissimulado pudesse aplicar em sua jovem e indefesa amante. Sim, o banqueiro a ameaçara, e também a ele, Edward; não havia dúvidas. As palavras do bilhete comprovavam.
Caro Lord Masen
Guardarei a lembrança de seu beijo para sempre e lamentarei fortemente não mais encontrá-lo. Fomos descobertos por alguém que não se calaria caso insistíssemos em nos relacionar, mesmo que clandestinamente. Não temo pelas retaliações que ele possa fazer a mim, mas, sim, a vossa senhoria. Sempre soube quanto prezo por vossa segurança e posição. Dentre todos nós, é aquele que mais tem a perder caso nossa ligação fosse revelada, então, deixemos tudo como está. Continue a seguir o caminho que determinou para si e seja feliz com vossa futura esposa.
Atenciosamente
Isabella Swan
Ser feliz com outra? Impossível! Atenciosamente? Arre! Edward bufou exasperado. Não queria a atenção da moça, sim, seu amor. Queria que Isabella não desse tanta importância ao seu título e muito menos que o resguardasse de algum perigo iminente. Era adulto e senhor de si. O banqueiro jamais seria páreo para ele, muito menos agora, que começava a odiá-lo com todas as suas forças.
– Por favor, meu querido – a voz da mãe o trouxe de volta à mesa do café da manhã. – Acalme-se. Tenho certeza que Sir Cullen irá voltar sua palavra atrás. Essa negativa não faz sentido.
Para o barão não havia mistérios; o banqueiro o afastou das duas moças que amava, segundo ele mesmo, tão logo confirmou que ainda se importava com Isabella.
– Sinceramente – prosseguiu a baronesa –, apenas continuarei a frenquentar aquela casa por Esme e por Tanya, evidente. Pois meu apreço por Sir Carlisle caiu consideravelmente. Apenas o perdoarei quando se retratar e permitir que se case com...
– Esqueça. – Edward a cortou, cansado do tema recorrente. – Desposar a senhorita Cullen deixou de ser de meu interesse.
– Não diga isso meu filho. – Elizabeth maximizou os olhos, alarmada. – Tanya o ama e tenho certeza que estará disposta a esperar que essa sandice do pai tenha um fim.
Não teria um fim, o barão sabia. E não se importava. Do banqueiro queria apenas uma coisa e apenas por ela não cortaria relações definitivamente. Isabella poderia não saber, mas seguiria, sim, o caminho que determinou firme no propósito de tê-la de volta. Se acaso o banqueiro o ameaçasse, esmagá-lo-ia sem remorsos.
– Já lhe disse que não é de meu interesse – ele reforçou suas palavras. – Não insista.
– Então o que pretende? – indagou a mãe, baixando o talher para pousá-lo na borda do prato. – Voltamos ao zero? Ainda quero vê-lo casado antes de partir.
– Deixe de exageros senhora. – Edward pediu secamente. – Ainda é cedo, e goza de boa saúde para pensar em “partidas”. Um dia me casarei, por certo.
– Começo a ter minhas dúvidas. – A baronesa torceu os lábios com evidente desgosto. – E sinceramente não o entendo. Por uma desqualificada padeceu dias e dias, e agora, por uma boa moça como Tanya, desiste ao primeiro obstáculo sem nem se abater.
Com o ânimo exaltado, o barão recuperou o guardanapo que acomodou sobre o colo e o atirou sobre a mesa. Pôs-se de pé sem pedir licença e encarando os olhos castanhos que o fitavam assustados, pediu num sibilar.
– Rogo à baronesa que, neste último dia do ano, convença-se definitivamente de que jamais aceitarei que desmereça Isabella Swan. Se acaso padeci antes e não agora, tenho minhas razões. Não tente entendê-las, nem julgá-las, muito menos ditar o que devo fazer de minha vida. Ocupe-se apenas de seus bordados, dos chás com vossas amigas ou ajude a Sra. Newton com os assuntos domésticos e só. Tenha um bom dia.
Sem mais palavras, para a mãe, a governanta ou a criada, o barão deixou a sala de jantar. Seguiu a passos largos e duros até a saída onde encontrou seu criado a esperá-lo.
– Já vi que o dia será longo – Jacob comentou ao revê-lo.
– Dependerá de você – o patrão retrucou azedo. – Provoque-me e saberá.
– Nada de provocá-lo, Sir... – o moreno lhe estendeu as rédeas de Draco. – Seu humor está péssimo desde segunda-feira e não quero piorá-lo. Hoje é dia de comemoração.
– Sim, hoje é dia de comemoração. – Edward repetiu já montado em seu andaluz que se agitava, sentindo a inquietação do dono. – Dia de renovar as esperanças, não é mesmo?
– Exatamente. Amanhã um novo ano se inicia Sir Masen. – Jacob lhe sorriu, tentando animá-lo. – Rogo para que seja melhor do que este.
– E eu, para que tudo volte ao seu devido lugar, independente do que é certo aos olhos da sociedade.
– Talvez eu não devesse, mas pedirei pelo mesmo. – Jacob assegurou, encarando o patrão com as sobrancelhas unidas. – Já disse que o quero feliz.
– E serei!
Com essas palavras, Edward permitiu que o andaluz corresse pelo caminho coberto por uma fina camada de neve, levando-o até a sidreria. O vento frio que castigava seu rosto agravava o estremecimento que abalava seu corpo. Esperança, raiva e saudade, misturavam-se em seu íntimo, levando-o a reforçar suas crenças. Não importava quanto tempo àquela espera lhe tomasse, conseguiria seu intento e, sim, seria vitorioso e feliz.
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Isabella via Maureen tocar a um canto, via os rostos corados, as bocas curvadas em sorrisos ou a se mover em animadas conversas. Via casais dançando pelo salão, suas borboletas nos colos de alguns bravos clientes que enfrentaram o frio para estarem ali, via a vida seguindo seu curso, porém nada ouvia. A jovem cafetina participava daquela comemoração de virada de ano como um espectro, sentia-se um.
Edward recebera o bilhete que enviou e naquele momento deveria odiá-la por novamente dispensado. Como sempre deveria ser, pensou com um estremecimento. Agora, mais do que nunca, deveriam ficar afastados. Jamais se perdoaria caso Laurent o ferisse, ou pior, o matasse. Queria-o vivo e bem, fosse com quem fosse. Foram estas as palavras exatas que dissera a Carlisle quando ele atendeu seu chamado e veio vê-la, na tarde anterior.
– Vivo e bem? – Carlisle indagara com estranheza.
– Sim. – ela confirmara. – Sir Hunt sabe de minha estada em Apple White e temo pelo o que possa fazer.
– Não é novidade para mim, afinal ele estava na reunião onde sua hospedagem foi comentada. Assim como eu, ele a relacionou com a moça de cabelos negros vista na companhia do barão. Saiu logo em seguida, aviltado, todavia acho pouco provável que faça algo contra Lord Masen.
– Eu fui citada numa reunião?! – O desespero a abalou. – Foi assim que soube?! E não me alertou?
– Apenas iria deixá-la aflita sem razão – o banqueiro explicara, girando sua bengala no assoalho do coche onde conversaram. – Acalme-se, pois ninguém a reconheceu, nem seu nome foi dito. No mais, entendo que tema aquele pulha, porém ele ladra mais do que morde.
– Conheço, por experiência própria, a força de seus dentes. – ela dissera secamente, recordando não somente de si, mas do atentado sofrido pelo barão. Como que para comprovar suas palavras, revelou. – Ele esteve em meu quarto, esperava-me na noite de Natal, quando voltei da missa.
– Em seu quarto?! – O amigo de fato alarmou-se. – E ele a ameaçou? Feriu-a?
– Não... Apenas alertou-me para que ficasse longe do barão. Por sorte Sam ouviu meus gritos e Laurent escapou.
– Pelo o que vejo serei obrigado a tomar uma providência quanto a esse homem. – o amigo exclamou raivoso. – Sir Hunt está ultrapassado todos os limites.
– Não Carlisle! – ela implorou. – Deixe-o. Laurent não é o tipo de homem que ficaria calado caso descobrisse ser você por trás da retaliação e nós bem sabemos que ele já nos viu juntos algumas vezes. Não quero que se envolva em escândalos por mim.
O amigo deliberou consigo mesmo alguns instantes antes de aquiescer.
– Está bem, mas tem que me prometer que me avisará caso aconteça novamente. Esta ação inspira cuidados. – Carlisle pediu seriamente, porém logo desarmou o semblante para acrescentar. – De toda forma, acho que não deveria deixar de se aproximar do barão por temer as ações de Laurent Hunt. Disse que foi à missa. Por acaso encontrou-se com Lord Masen?
– Não – mentiu prontamente ao futuro sogro do barão. – Por sorte não nos cruzamos e é assim que deve ser.
– Entendo... – Carlisle novamente murmurou; cético daquela vez. – Uma lástima, pois segundo ele não há razão para não serem amigos. Com isso considero injusto e muito mais perigoso deixá-lo ignorante ao que ocorre em sua vida, e que poderia afetá-lo diretamente. O barão é adulto e sabe se defender.
– Foi isso mesmo que ouvi? – Ela indagou incrédula. – Eu e o barão sermos amigos? Estamos falando do mesmo barão? Aquele que na noite de Natal pediu a mão de sua filha em casamento?
– Um fato não está ligado ao outro. – Esquivou-se o ardiloso banqueiro. – Na noite de Natal todas as peças se encaixaram perfeitamente e tudo está como deveria estar. Não acabou de dizer que o quer bem, com quem quer que seja? – Antes que ela soubesse o que dizer, ele prosseguiu: – Apenas sugeri que conversem; que conte o que se passa para que ele saiba se defender caso seja preciso.
– Se tudo está como deveria, deixemos assim – seu ressentimento lhe ditou as palavras; Edward propôs serem amantes e a beijou horas depois de comprometer-se com Tanya; argh.
– Ah, minha querida... É nisso que você quer acreditar – ele retrucara com simulado enfado. – Pensa que me engana, mas apenas tenta reforçar sua crença ao dizer essas coisas.
– Não é o que quero. – retorquiu resoluta, duramente; o ciúme a corroê-la. – Se tudo se encaixou a perfeição, pare com que quer que esteja fazendo. Não force uma situação que seria apenas constrangedora para mim e para o barão. Não arme encontros entre nós, como tentou.
– Não forcei coisa alguma... – negou seguro, quase ofendido. – Não sou alcoviteiro. Foi uma lamentável coincidência ele estar no banco na hora em que a chamei.
– Você nunca me chama ao banco Carlisle – pontuou secamente.
– Há sempre uma primeira vez para tudo... E sinceramente Isabella, para alguém que não se importa você se mostra bastante abalada.
– Evidente que estou abalada. – disse exasperada. – Ele poderia ter seguido Sam, Laurent o ameaçou... Entenda que eu o quero seguro, não em minha vida.
– Pois bem Isabella... Não fiz nada do que me acusa, mas tomarei mais cuidado. Não quero que amanhã diga que não cumpri com minha promessa, entregando-a ao barão. Quanto a Hunt, lembre-se... sua omissão apenas agrava a situação. No mais, quero que me avise caso ele invada sua casa novamente, está bem?
Restou a ela aquiescer, mesmo sabendo que somente o faria caso fosse estritamente necessário. Preferia contar com a proteção de Sam, ao invés de envolver o banqueiro com tão arbitrário fazendeiro. Sim, ele era adulto e muito capaz de se defender, assim como o barão, contudo a máxima valia entre cavalheiros. Laurent Hunt – apesar do título de natureza duvidosa – não agia com a hombridade de um, sendo muito capaz de sorrateiros ardis. Então valia o que disse e pensava, queria Edward bem e vivo.
Sim, sendo sincera não o queria com outra, principalmente após o encontro na igreja, o beijo que agravara a falta sentida tornando-a insuportável, sem que ela nada pudesse fazer para aplacá-la. Porém não deveria alimentar seu ciúme. Não depois de faltar a sua palavra, não quando “na noite de Natal todas as peças se encaixaram perfeitamente e tudo ficou como deveria estar”; argh.
– Amber? – Angela a chamou parando ao seu lado, causando-lhe um sobressalto. – Por que não vai para o seu quarto?
– O que disse? – De fato ela não compreendera; ainda presa à divagação.
– Disse que você deveria se recolher. – A velha meretriz falou-lhe ao ouvido. – Está evidente em seu rosto que não quer estar aqui. Não se torture.
Angela tinha razão. Torturava-se. Ficando onde não queria estar, pensando em Edward ao lado de alguém que não seria ela.
– Sendo assim, até amanhã. – despediu-se. – Feliz ano novo!
– Amber... – a amiga a deteve. Quando a moça a encarou, ela esboçou um sorriso incerto e desejou. – Que seu ano seja promissor, e você possa experimentar a liberdade de ser feliz.
– Já experimentei – retrucou. – E acabou assim como esse ano. Se este que se inicia trouxer paz ao meu coração, já me darei por satisfeita.
– Paz anda atrelada à felicidade, pense nisso. – Angela lhe piscou antes de deixá-la.
Não, ela não queria pensar, porém não se conteve e, ao subir os degraus até o andar superior, permitiu-se sonhar. Ao fechar a porta recém consertada de seu quarto, Isabella tentou apagar de sua memória a visita indesejada de Laurent, a conversa perturbadora com Carlisle. Já diante de sua penteadeira, a retirar brincos, máscara e colar, ela acalentou a esperança de que algum milagre acontecesse para que um dia, talvez, voltasse a experimentar a felicidade que citou; com Edward e também com Embry; livre do medo e dos estigmas que seu oficio impingiria a todos.
– Vamos ver o que esse novo ano me reserva. – disse para seu reflexo no espelho. – Que venha 1871!
Ao se calar uma explosão de risos, rolhas de champanhes e muitos cumprimentos foram ouvidos vindos do salão do bordel, causando um estremecimento profético na jovem cafetina; o ano novo havia chegado!
Sim, o ano novo chegou e pareceu vir com pressa, pois antes que a moça percebesse, mais de um mês havia se passado. Estava no início de fevereiro, novamente sentada diante da penteadeira, prendendo um dos cachos com uma presilha, aflita por não conseguir mísera informação sobre o barão. Se antes todos faziam questão de narrar-lhe cada passo dado por ele e a filha do banqueiro, naquele início de ano parecia que havia um complô generalizado com o firme propósito de enlouquecê-la.
Por várias vezes Isabella se arrependeu por ter pedido a Sam que fosse discreto ao entregar o bilhete ao barão, não se mostrando por não haver a necessidade de esperar por respostas, nem para que corresse o risco de ser seguido. Com isso, nada sabia. Não atinava como ele recebera suas palavras, o que lhe mandaria dizer...
Como não confiava em nenhuma das moças que acolhia, tendo todas sob constante vigilância desde que uma delas facilitou a entrada de Laurent, não se animava a especular sobre como ele seguia com sua vida. Angela seria uma opção, porém não queria falar do barão com ela tampouco por temer que suas palavras fossem ouvidas por quem a delatasse ao fazendeiro.
Sim, sabia que o barão estava comprometido, pois Carlisle, em seu primeiro encontro do ano, num novo hotel na cidade vizinha, reafirmou em sua afetação enquanto o massageava:
– Já lhe disse que a recepção de Natal foi perfeita em minha casa. Agora tudo está de acordo.
Menos para ela, Isabella pensou. Saber do noivado não bastava, tardiamente entendia que as notícias repassadas a deixavam perto do barão e, mesmo que de forma incompleta, tinha um pouquinho dele para si. Talvez fosse essa razão pela qual esperava aquela manhã com entusiasmo. Dali a nove dias estaria perto do nobre durante a festa do banqueiro. Temia aquele encontro, evidente que sim, disse aos seus laços, Laurent estaria presente. Teria que ser discreta e evitar que fosse reconhecida – por ambos – porém veria o barão.
Ansiosa Isabella desceu para tomar seu café da manhã junto a todas as moças, como de costume. Mesmo que se sentasse com uma traidora, fazia questão de manter a rotina para que esta não se sentisse ameaçada, contando que um dia ela se delatasse.
– Bom dia a todas... – cumprimentou ao entrar na cozinha.
– Bom dia! – responderam em uníssono, parando de comer ou beber até que ela se acomodasse à cabeceira da mesa.
– Está animada para a vinda de Raquel? – Anne perguntou tão logo Brenda se aproximou para servir o chá para a patroa.
– Não mais do que todas as outras vezes. – respondeu.
Isabella imprimiu indiferença à voz, não querendo que sua ansiedade fosse notada pela vinda da costureira responsável por confeccionar os vestidos de todas.
– Acho que ela nunca veio tantas vezes para fazer qualquer um de nossos vestidos. – comentou Kate, encarando a moça. – Essa encomenda tem algum motivo especial?
– Não. – Isabella negou segura. Sabia que nela poderia confiar, pois era muito próxima a Angela, porém preferia não arriscar. – Apenas emagreci e ela precisará fazer alguns ajustes.
– E o que Amber tem a tratar com Raquel não é assunto nosso. – Angela falou seriamente. – Comam e a deixem em paz.
– Vocês estão estranhas desde o Natal – comentou Jessica, após tomar um gole de seu chá. – Ainda é por causa daquele cavalheiro? Já descobriram como ele entrou no seu quarto Amber?
– Não descobri, mas tenho uma ligeira desconfiança. – Nesse ponto todas as meretrizes a encararam, interessadas. Como não havia como saber qual delas era a traidora, a moça deu de ombros e desconversou. – Porém não importa. Ele não voltará, disso tenho certeza. Então vamos esquecê-lo e, como Angela sugeriu, vamos comer em silêncio.
O pedido foi atendido por três minutos no máximo. Logo uma delas comentou algo engraçado ocorrido na noite anterior, levando todas as rirem. A partir dali não mais se calaram, porém não incluíram Isabella em qualquer outro assunto. Ao término de sua refeição, a moça pediu licença e voltou ao quarto. Tentou ocupar-se com a arrumação da cama e seu acessórios sobre a penteadeira até que Angela viesse bater à porta anunciando a chegada da costureira.
– Entrem! – pediu se pondo no meio do quarto.
– Bom dia Amber. – cumprimentou a senhora que acompanhava Angela.
– Bom dia Raquel. – Isabella retribuiu o cumprimento, indo ajudá-la com o embrulho e a caixinha onde sempre trazia sua tesoura, alfinetes e agulhas. – Perdoe-me por esse incômodo.
– Está tudo bem. – disse a senhora. – Sabemos que não pode ir até minha casa. E de toda forma, já estou acostumada.
Sim, ela estava. Isabella bem sabia. A costureira vinha ao jardim sempre que uma das moças necessitava, sendo que nenhuma delas jamais fez o caminho inverso, indo até a casa da costureira. Não seria sábio misturar rameiras às suas clientes de boa reputação. Ainda assim, daquela vez, a moça se compadecia por ver a senhora pequena e encurvada a carregar tantas coisas.
– Deseja algo? Uma xícara de chá, um copo com água... – ofereceu solicita.
– Já ofereci, porém ela recusou – informou Angela, fechando a porta atrás de si.
– Realmente não desejo nada, obrigada às duas. – disse Raquel, eficiente, já desembrulhando o vestido. – Quero fazer os últimos ajustes e voltar o quanto antes para minha casa. Ainda tenho muito a bordar.
– Sendo assim...
Isabella sinalizou para que Angela fosse ajudá-la. Uma vez vestida apenas em sua combinação, as duas mulheres a vestiram com seu traje para a festa. Mesmo sem todas as pedrarias a moça já o considerava divino.
– Está perfeito! – exclamou enlevada, olhando-se no espelho.
– De fato está... – Angela lhe sorriu pelo reflexo.
– Obrigada as duas, mas ainda tenho muito a fazer antes que fique perfeito. – disse Raquel, eficiente. – Agora fique quieta, pois não quero espetá-la como da última vez.
Isabella também não queria aquilo. Dias antes, na prova anterior, estava ainda mais agitada, trêmula, com isso constantemente recebia finas estocadas dos alfinetes pontiagudos de Raquel. A dor era fina e breve, porém incômoda, então a moça tratou de ficar imóvel enquanto a costureira analisava cada canto de sua obra. Naquele dia não foi preciso o uso dos famigerados alfinetes, graças a Deus.
– Parece que, sim, ele está perfeito. – disse a costureira por fim. – Tire-o, por favor... Quero terminar de bordá-lo o quanto antes.
– Há muitas encomendas? – Angela especulou enquanto ajudava Isabella a despir o vestido.
– Na verdade não. – Raquel respondeu indiferente, tranquila em sua posição ao expô-la. – As senhoras convidadas para festas desse porte preferem encomendar seus trajes em modistas conceituadas. Eu sou uma mera costureira das classes inferiores.
– Não para mim. – Isabella assegurou, correndo as mãos pela saia do vestido que ainda usava. – Você é divina em tudo aquilo que faz. Essas senhoras esnobes não sabem a preciosidade que perdem.
– Obrigada senhora... – a mulher lhe exibiu um sorriso sincero. E, talvez comovida com o elogio, pigarreou, voltou à seriedade e pediu apressada. – Agora tire logo esse vestido. Tenho muito trabalho pela frente e só tenho oito dias.
– Por certo! – A moça concordou; não queria atrasos. Já a retirá-lo, perguntou – Quando o trará?
– Na manhã do dia quatorze, está bem?
– Está perfeito!
– E a máscara? – Angela perguntou para Isabella. – Já escolheu?
– Usarei uma das minhas.
– Tem certeza disso? – A meretriz se mostrou preocupada. – Você sabe que não podem...
– Não se preocupe. – ela lhe tranquilizou. – Nunca a usei aqui no jardim.
– E quanto ao Sam? Ainda considero arriscado que vá com você.
– Também considero, porém não iria sem ele e... Como não poderia deixar de ir, será um risco necessário. – Correndo os olhos para a costureira que terminava de embrulhar o vestido, ela acrescentou discretamente. – “Aquele senhor” ficou de enviar o traje e uma máscara para Sam. Vamos torcer que tudo corra bem.
– Bem, quando “ele” cuida das coisas, dificilmente elas falham.
– É exatamente o que penso. – Isabella lhe sorriu.
– Estou pronta. – Raquel disse a Angela. – Podemos ir?
– Sim. Eu a acompanho até a saída.
Após as despedidas, as duas mulheres se foram, deixando a moça sozinha. Ainda agitada, ela voltou à arrumação de seus estojos de pó-de-arroz, escovas, perfumes. Afofou almofadas sobre o pequeno sofá. Fez o que podia em seu quarto que fosse capaz de ocupar suas mãos ou sua mente. Quanto a esta falhou, não conseguindo calá-la em tempo algum, não importante o que fizesse.
Nove dias, pensou torcendo os dedos diante do corpo, aflita, vagando de um lado ao outro. Teria que manter a maior distância possível; dele e principalmente de Laurent Hunt, porém em nove longos dias, ao menos veria o barão mais uma vez.
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Marie continuava eficiente como sempre, pensou o barão, sentado na beirada de sua cama, afagando a cabeça de Nero, deitado ao seu lado. Com o olhar vago, escrutinava a camisa branca e a casaca, ambos dispostos sobre a poltrona. Analisou também os sapatos lustrados que esperavam para serem usados. Esperavam por ele que, sem animo algum não se movia.
– Não vai aprontar-se Sir? – Jacob indagou ao seu lado. – Sentou-se aí e nada diz. O que há?
– Talvez eu devesse ficar em casa. – Edward comentou sem deixar de olhar para o traje de gala. – Amanhã, como todos os outros dias, tenho que levantar cedo.
Jacob então riu manso, antes de comentar:
– Vossa senhoria é o único nobre que conheço que se preocupa com o horário de deixar a cama.
– Tenho trabalho a minha espera todas as manhãs – ele retrucou seriamente. – Não quero viver à custa de meu título.
– Sei disso Sir Edward, mas um dia que se atrase ou tire a manhã de folga não interferirá em vosso trabalho. Acredito que essa distração será bem vinda.
– Pouco provável. – Edward refutou a opinião. – Sabe que há quase dois meses não vejo o banqueiro, ou cruzo com a senhorita Tanya. A iminência de revê-los não me inspira.
De fato não inspirava, e naquele instante o barão se arrependia por não ter se desobrigado do compromisso. Não deveria ter permitido que a mãe encomendasse seu caro traje ou se animasse em escolher a máscara que usaria. Sabia o quanto ela estava animada e, por ela, que ainda remanchava, pois se fosse por si, já estaria envolto por suas cobertas.
– Nunca vai me dizer a razão para que o noivado não acontecesse? – O criado indagou, talvez, pela milionésima vez.
– Já disse... Não deu certo. – Edward respondeu, com em todas as outras vezes; não queria contar ao amigo sobre Isabella e o banqueiro, sobre o breve e perturbador encontro no Natal, sobre ela novamente o afastar.
– De toda forma não estava muito animado. – Jacob acrescentou.
– Assim como não estou agora – o barão exalou num bufar cansado, fazendo com que Nero deixasse a cama para se acomodar diante da lareira.
– Milord. – A voz de Amy foi ouvida junto a uma batida contra a porta. Antes que ele respondesse, a criada avisou. – A baronesa manda avisar que estará pronta em alguns minutos.
Edward novamente bufou, correndo as mãos pelos cabelos ainda úmidos do banho recente; não havia meios de desistir tão tardiamente.
– Diga a ela que a encontrarei no hall principal. – disse à porta fechada. Para seu criado, pediu. – Ajude-me, por favor.
Deixando a cama o barão esperou que seu criado segurasse a camisa para que apenas passasse os braços pelas mangas. Depois de abotoá-la, vestiu as calças, acomodou a fralda da camisa em seu interior e fechou-a. Jacob então segurou o colete branco, de tecido bordado. Rapidamente Edward o vestiu e abotoou já seguindo até a cômoda para pentear-se.
– Tente se divertir Sir Masen. – Jacob falou às suas costas. – Quem sabe o que a noite lhe reserva?
– Quem sabe?
O barão fez coro no questionamento, não alimentando muitas esperanças. Poderia contar que Tanya logo o cercasse para crivá-lo de perguntas e lamentos. Seria enfadonho, porém de seus males aquele seria o menor. Sabia que Sir Hunt estaria na comemoração, e avistá-lo seria tão inspirador quanto cumprimentar o aniversariante; seu odioso e mais novo rival. De fato deveria ter se desobrigado ao enviar-lhe o presente, pensou aborrecido.
– Quem sabe. – repetiu, deixando o pente de lado para alcançar o colarinho que acomodava ao pescoço. Após prendê-lo acrescentou a gravata branca. Enquanto fazia o nó, pediu a Jacob. – Poderia descer e verificar se minha carruagem já está pronta?
– Por certo que sim... – prontificou-se o criado, seguindo para a porta.
– Se estiver tudo de acordo, pode ir para sua casa.
– Não precisará mais de minha ajuda? – O moreno parou a segurar a maçaneta.
– Não por hoje... – Edward o dispensou. – Tenha um bom descanso. E recomendações à Leah.
– Obrigado, Sir... Apareça para uma visita qualquer dia desses e, tenha uma boa festa.
Edward duvidava, porém agradeceu da mesma forma. Ao ficar sozinho, pensou no convite. Aquela não era a primeira vez que Jacob o chamava para ir até sua casa, e como todas as outras vezes, o barão sabia que não iria. Simplesmente não conseguia se imaginar na sala pequena sem a companhia de Isabella. Bastava ter que conviver com todos os cômodos de sua própria casa, nos quais ela esteve ou não; todos impregnados com as lembranças mais perturbadoras. Bastava suportar dormir em sua cama, grande e vazia.
Sim, quatro meses haviam se passado e ainda era ruim se deitar sozinho. Era verdade que a sensação já não doía como antes, mas ao que parecia, sempre incomodaria até que conciliasse o sono. Ainda assim, era para sua cama larga e fria que deseja se esgueirar ao invés de sair para aquela noite de final de inverno e seguir para uma festa indesejada.
– Que seja! – determinou resignado; abandonando as lamentações.
Decidido, terminou de se vestir, acomodando a casaca sobre os ombros antes de calçar-se e novamente seguir até a cômoda. Dela retirou o símbolo de sua família, acomodou-o ao pescoço, vestiu então seu sobretudo, pegou a cartola e saiu, deitando Nero já a dormir tranquilo. Encontrou a mãe a esperá-lo, como sempre impaciente, com Marie e Amy a lhe fazer companhia.
– Por Deus Edward! Como foi adquirir esse péssimo hábito de se atrasar?
– Não estamos atrasados senhora baronesa – negou gentilmente; admirando-a. – E, poderia dizer o quanto está bonita esta noite?
Seu galanteio surtiu efeito. A mãe logo abandonou o ar contrariado para sorrir manso e correr os dedos pela máscara que segurava; as bochechas coradas.
– A peruca incomoda um pouco – ela comentou muito vermelha. – Sinto-me ridícula.
– Pois não devia. – Edward lhe sorriu gentil. – É um baile de máscaras, ao estilo do século XVI, então deve estar de acordo.
– Então por que o senhor não está de acordo? – ela o indicou num gesto amplo.
– Não tive tempo de me ocupar com fantasias. Agora, podemos ir? – chamou-a, oferecendo o braço. – Boa noite Sra. Newton, Amy...
– Tenham uma boa festa! – Marie desejou.
Apesar de suas dúvidas, o barão tentou acreditar que sim. Encarando o evento positivamente, encontraria bons amigos com os quais apreciaria conversar. E se fosse frio, até mesmo seu reencontro com Carlisle poderia ser providencial, afinal, ainda precisava estar perto para que um dia pudesse descobrir onde escondia sua amada amante. Com o pensamento, Edward sentiu seu ânimo se renovar, afinal, quem saberia o que a noite lhe reservaria?
Uma vez no interior da carruagem, mãe e filho seguiram em silêncio. Vez ou outra a baronesa encarava o barão como se tivesse algo a dizer, porém desistia no segundo seguinte, voltando os olhos para a pequena janela. Tanto melhor, ele pensou. Não poderia ter certeza, mas acreditava que a mãe iria instruí-lo a se reaproximar de Tanya, algo completamente fora de questão.
Ao se aproximarem da casa muito iluminada, com poucas carruagens e coches em seu entorno, Edward soube que a festa ainda estava em seu início; de fato não se atrasaram. Depois de ajudar a baronesa a saltar, o barão instruiu seu criado a seguir para os fundos da construção. Novamente cedendo o braço para a senhora ao seu lado, rumou até a entrada principal. Ambos entregaram seus casacos – o barão também sua cartola – ao criado, vestido a caráter para a ocasião, antes de seguirem o som da música, tilintar de copos e os risos.
– Milord! – Esme Cullen foi a primeira a vê-lo. – Elizabeth... Bem vindos!
– Boa noite! – cumprimentaram-na mãe e filho.
– Lord Masen não usará máscara?
– Não – respondeu silábico; não gostava de esconder-se.
– Bem, caso mude de ideia, temos algumas à disposição para os esquecidos. – avisou a senhora, vestida suntuosamente como uma dama no século XVI, com uma elaborada peruca de cachos brancos a lhe cobrir os cabelos.
– Obrigado.
Ao agradecer correu os olhos pelo salão, decorado suntuosamente. As portas que se abriam para o jardim ofereciam passagem a algum aventureiro que desejasse se arriscar a um passeio na noite ainda fria de final de inverno. Criados, vestidos em trajes azuis ornados de muita renda, circulavam entre os poucos convidados; ainda era cedo.
O barão acenou para quem inclinava a cabeça num cumprimento mudo, porém deferente, notando a falta de muitos cavalheiros, apesar de avistar as respectivas damas. Sabia exatamente o que significava, então, por mais que desejasse adiar aquele encontro, indagou:
– Sir Cullen está em seu escritório?
– Não. – A anfitriã negou com indisfarçado aborrecimento. – Está na biblioteca com alguns amigos. Sei que logo virá receber a todos, mas sinceramente não entendo essa mania de vocês, homens. Qual a necessidade de fumar charutos a todo instante?
Edward foi obrigado a sorrir da breve explosão. Desprendendo-se do braço da mãe, corrigiu:
– Apenas o apreciamos. E se me der licença, irei me juntar a eles.
– Tanya estava ansiosa por sua vinda milord. – Esme contou antes que se fosse. – Ela ainda não se conformou com a recusa do pai. Quem sabe vossa senhoria não o convencesse do contrário enquanto apreciam um charuto?
– Quem sabe? – Aquela parecia ser a pergunta da noite, mesmo que naquele caso, soubesse a resposta.
Com um inclinar de cabeça, Edward as deixou. Apertou as mãos que lhe eram oferecidas no caminho, recusou uma taça de champanhe, já ansioso por aquele primeiro encontro com o banqueiro após tantos dias. Familiarizado com a mansão, seguiu seguro até a biblioteca. Como a porta estava aberta, logo foi avistado por Isaac Peterson que o cumprimentou animadamente.
– Lord Masen! Finalmente chegou! Pensamos que faltaria à nossa pequena e breve reunião antes que a festa de fato se inicie.
– Não a perderia por nada. – disse, entrando no cômodo com os olhos postos no aniversariante.
Como ele, nenhum dos senhores ali presente tinha o rosto coberto, permitindo que o barão reconhecesse a todos e visse o contentamento curvar os lábios do banqueiro num largo sorriso.
– Lord Masen! Seja bem vindo à minha festa! Por um momento temi que não viesse...
– Como disse – Edward começou, odiando-se por tremer diante do senhor visivelmente tão seguro. – Não a perderia por nada.
– Que maravilha! – Carlisle exclamou, apertando efusivamente a mão que o barão lhe estendia.
– Feliz aniversário Sir Cullen!
– Obrigado meu jovem barão. Obrigado também pelo belo presente. Jamais tive um conjunto de canetas tão valioso.
Edward duvidava que fosse verdade, afinal, o banqueiro era um homem rico e não escondia seu apreço a tudo de caro que seu dinheiro pudesse comprar. Também não sabia se acreditava em tamanha animação ao vê-lo, mas gostaria que fosse sincero quanto ao presente escolhido por sua mãe; um jogo de três canetas de ouro e madrepérola, tinteiro e mata-borrão. “Ele pode usar no banco”, dissera a baronesa. Para o barão, desde que o banqueiro fosse agradecido pelo cuidado, tanto se importava.
– Fico feliz que tenha apreciado.
– Venha! – Harry Clearwater o chamou. – Junte-se a nós antes que nossas senhoras venham nos buscar.
Desprendendo a mão que seu desafeto ainda segurava, Edward foi até os senhores, cumprimentou-os e recebeu um charuto, juntamente com um cálice de xerez. Depois de tomá-lo a um só gole, comentou num ácido gracejo.
– Não corro este risco. Não tenho uma senhora para seguir meus passos.
Ao se calar um silêncio incômodo pairou entre os senhores, deixando evidente o constrangimento de todos quanto ao noivado que não vingou. Impassível, o barão tratou de acender seu charuto e, enquanto puxava o ar pela extremidade perfurada, Carlisle sorriu subitamente e finalmente retrucou:
– Não se vanglorie caro barão... Logo estará como todos nós, com exceção ao nosso amigo Senior, e terá uma esposa para controlá-lo em rédeas curtas.
Ao dar outra aspirada no caro e perfumado charuto, o barão calou sua vontade de provocar o banqueiro dizendo que algumas senhoras mantinham as rédeas frouxas ao ponto de seus maridos pastarem em capim novo fora de suas casas.
– Acredito que sim... – finalmente retorquiu, sentindo o ressentimento corroê-lo. – Mas ainda é cedo para pensar nesse tema. Como vossa senhoria insiste em dizer, devo aproveitar o quanto posso.
– Por certo! – Carlisle exclamou. – Ainda é jovem e deve aproveitar sua liberdade. Esta noite receberei algumas das moças mais bonitas da região. Quem sabe vossa senhoria não se interesse por uma delas?
Foi impossível não rir escarninho, mesmo que o ódio o atravessasse como uma lâmina muito afiada ao murmurar:
– Quem sabe?
Pela segunda vez, desde que aquela significativa pergunta lhe fora sugerida, Edward quis ter uma resposta precisa. Pela apresentação daquela noite, não via meios de que ela fosse ser agradável de alguma forma. Seus amigos se encolhiam intimidados, assistindo calados àquela velada disputa entre ex-futuro sogro e pretendente preterido. Quanto a se interessar por alguma das conhecidas moças citadas, o barão sabia ser impossível, quando apenas uma – que jamais estaria ali – ocupava todos seus pensamentos.
Quando um dos cavalheiros sugeriu outro tema, mais leve e imparcial, Edward agradeceu intimamente pela mudança. A noite era de festa e deveria deixar suas cismas de lado, então resolveu ignorar o banqueiro e prestar atenção ao que lhe era dito. Com essa distração os minutos correram ligeiros e logo todos se aprontaram para retornar ao salão. Deliberadamente o barão se pôs entre Harry e Senior, para que o banqueiro não o acompanhasse de perto. E, uma vez que todos se misturaram aos convidados, Edward tratou de desculpar-se e deixá-los.
Vagando pelo salão, vendo os muitos rostos cobertos pelas mais variadas e ostensivas máscaras, com seus penachos, plumas e rendas, Edward se serviu de champanhe apreciando a música e a falta de alguém a requerer sua atenção para algum assunto. Bebericava a bebida borbulhante quando uma moça de rosto coberto, usando uma peruca de cachos brancos, igual à de Esme Cullen, veio roubar-lhe a recém adquirida paz.
– Finalmente o encontrei! – Tanya se apoiou em seu braço para, ousada e inconvenientemente estalar um beijo em sua bochecha. – Pensei que papai o monopolizaria por toda a noite.
– Boa noite senhorita Cullen. – cumprimentou o barão, ignorando o comentário exagerado.
– Boa noite milord... – com um torcer de lábios, segredou. – Temi que não viesse. Nunca mais o vi... Não tem aparecido quando vou à vossa casa.
– Tenho estado muito ocupado. – desculpou-se, antes de tomar outro gole de champanhe. Enquanto o fazia seus olhos pousaram no banqueiro que, indisfarçadamente mantinha os olhos nos dois. A sombra preocupada sobre o rosto de Sir Cullen incitou Edward a provocá-lo, então, mudando de postura, sorriu para a jovem e acrescentou: – Acredite, senti sua falta todo esse tempo.
Tanya sorveu o ar e o prendeu, enlevada. Seus olhos brilharam e um sorriso inteiro iluminou-lhe a face.
– De verdade? – perguntou num murmúrio.
– De verdade. – Edward assegurou, instintivamente esfregando a pedra de seu anel, como se daquela forma se desculpasse pela perfídia.
– Então seja meu par esta noite. – Tanya pediu animada.
Antes de responder-lhe Edward ergueu os olhos e procurou pelo banqueiro. Ao descobri-lo com as bochechas coradas – visivelmente contrariado –, sorriu e voltou a encarar a moça.
– Será um prazer... Talvez até possamos visitar o jardim entre uma dança e outra.
– Eu gostaria disso. – ela disse, apertando-lhe o braço sugestivamente. – Sinto sua falta. Será que conseguiremos burlar a vigilância de papai?
Edward finalizou sua bebida sem desviar os olhos da máscara branca que Tanya usava. Depois de lamber os lábios discretamente, presenteou-a com um sorriso farto e murmurou:
– Quem sabe?
Notas finais
Bom, quem desejar me contar o que achou, ficarei mega feliz... ;)
Bjus meus amores... Bom domingo!
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