Borboleta Negra
12 Capítulo Onze
Notas iniciais
Apesar da presença contaste de Marie, o jantar transcorreu agradável. Para Isabella não fora surpresa encontrar um serviço simples sobre a extensa mesa coberta por uma toalha de linho, com poucos talheres e apenas duas taças, uma para água e outra para o vinho rose que casou a perfeição com o lombo suíno defumado servido com arroz e batatas, oferecido após a sopa de aspargos.
A princípio comer sob o olhar insistente do barão, naquele cômodo luxuoso decorado com tapetes persas, prataria sobre os móveis e um afresco retratando querubins sobre sua cabeça, fora um tanto incômodo. Todavia logo Isabella se habituou e até se atreveu a fazer o mesmo, analisando Edward sobre a borda da taça; descobriu que olhá-lo a aquecia tanto quanto estar em seus braços.
Com o passar dos minutos, a moça começou a sentir a naturalidade que desejou na biblioteca. Para ela, comer em conjunto sem constranger-se era indicação de intimidade entre as pessoas.
– Gosto quando sorri – ele declarou, entre um gole de água e outro de vinho.
– Disse-me isso no pomar... – ela o lembrou num sussurro para que Marie, parada a alguns passos às suas costas, não a ouvisse.
– Então direi sempre, pois a prefiro assim. – Edward anunciou, voltando a atenção à carne para cortá-la elegantemente. – A comida está de seu agrado?
– Está divina! – ela exclamou e brincou. – Meus cumprimentos à cozinheira!
– Gostaria de agradecer a Sra. Wood pessoalmente? – indagou animado. – Ela é nossa cozinheira há anos. É ranzinza muitas vezes, mas merece um elogio novo.
O barão estava prestes a chamar por Marie quando Isabella lhe baixou a mão.
– Não é necessário – sua voz saiu estrídula. Com ele a encará-la com o cenho franzido, pigarreou e tratou de dizer com um sorriso incerto enquanto lhe prendia os dedos. – Não sou boa com elogios, ficaria mortificada ao ter que fazê-lo... Amanhã lhe diga o quanto apreciei o jantar. Assim não fico constrangida e ela ficará feliz.
Por segundos desesperadores a jovem esperou, com as palmas a suar, que o barão expressasse sua opinião quanto à ideia. Se alguém naquele palácio poderia reconhecê-la, esse alguém era Sue Wood. Daquele momento em diante tinha a confirmação de que deveria manter distância da cozinha. Com o coração parado no peito, sentindo toda a leveza se esvair, ela o viu sorrir condescendente.
– Farei assim então... – ele determinou. E invertendo a posição das mãos sem se importar com o olhar reprovador de Marie, Edward troçou. – Agora coma tranquila, afinal estava faminta. Tanto que me trocou por um prato de sopa e um naco de pão.
– Devo dizer que a troca foi justa. – ela retrucou, deixando-se envolver pelo bom humor do barão; o segundo susto do dia havia passado. – Afinal a sopa estava mesmo muito apetitosa.
– Não ficarei ofendido apenas porque concordo. – Edward rebateu com falsa altivez, sem libertar a mão delicada.
– Não seria melhor evitarmos esses contatos diante de Marie? – ela indagou em novo sussurrar. – E preciso de minha mão para cortar a carne.
– E mais uma vez serei trocado pela comida. – brincou e inabalável enumerou. – Ela já nos flagrou de mãos dadas. Já esperou que deixássemos a biblioteca onde estávamos às portas fechadas e está assistindo muito atenta a cada olhar e sorrisos que trocamos. Acredito até que ouça o que tentamos segredar, então... Para que esconder o que está claro?
– Você tem razão! – ela anuiu segura; não era como se tivesse uma reputação a zelar. E ainda, pensou com certo pesar, quando fosse embora a criada nunca mais a veria, então não faria diferença o que pensasse sobre ela. Para não deixar que a tristeza transparecesse, acrescentou. – E se esqueceu de citar que a escandalizei ao mencionar o espartilho.
– Escandalizou-a... – ele falou muito baixo, aproximando-se – e em mim aguçou a imaginação, bem o sabe.
– Já que tocou no assunto, não deveria fazer tais coisas Milord! – Isabella murmurou simulando ultraje. – Apenas acaba de me propor a corte.
– Um cortejar avançado, não se esqueça. – lembrou-a, rouco.
Como ela poderia esquecer-se dos avanços do barão se somente por olhá-lo sentia seu corpo estremecer? Ao ter os olhos presos no olhar cerúleo, Isabella sentiu sua fome por ele aumentar. A verdade nua e crua é que não havia tempo a perder quando este era limitado e ela já havia perdido tudo.
– Edward...
– Sir Masen. – Jacob irrompeu porta adentro apressado, para estacar como Marie anteriormente ao encontrá-los de mãos dadas. – Perdoe-me...
– Você não quis interromper... – Edward completou zombeteiro.
– Apenas me perdoe Sir. Não sabia que já jantavam.
– Boa noite Jacob! – Isabella o cumprimentou; agradecida pela interrupção que a impediu de fazer uma proposta ousada demais até para os padrões da corte avançada e que fatalmente escandalizaria o barão. – Melhorou do machucado no pé?
– Boa noite! Foi apenas uma torção senhorita. – o moreno esclareceu com a cabeça baixa. – Bem, obrigado por perguntar... Também soube que esteve adoentada, mas vejo que está melhor.
– Estou sim, obrigada... Foi somente febre pela chuva que tomamos.
– Antes assim. – Jacob lhe sorriu, contudo ao olhar o patrão e ver-lhe expressão fechada, apressou-se em dizer. – Bem... Vou deixá-los para que...
– Não, por favor, fique. – Isabella pediu levando Edward a olhá-la interrogativamente.
– Seja lá o que Jacob tem a dizer poderá esperar, não? – o barão indagou diretamente ao criado pessoal.
– Evidente que sim, eu vim falar sobre a ponte e...
Edward novamente desejou que o amigo tivesse acidentado a língua. Não queria tratar daquele assunto diante de Isabella para não atiçar sua vontade de ir embora antes que a conquistasse definitivamente. Para sua consternação, a jovem pediu licença e levantou mesmo sem obtê-la, já dizendo enquanto ele mesmo se levantava reflexivamente.
– Pois se é sobre a ponte o assunto é muito importante. Vou deixá-los para que conversem a vontade.
– Isabella... – não queria que ela se fosse; ficaram juntos por tão pouco tempo.
– Hoje o dia foi agitado. – ela continuou. – Se não se importar escolherei um livro na biblioteca e me recolherei.
– Sim, eu me importo. – Edward retrucou contrariado, novamente olhando para Jacob que mantinha os ombros encolhidos, assim como Marie, apenas observando a cena. Para encobrir o indisfarçável desgosto, o barão a lembrou. – Ainda não terminou seu jantar nem teve sua sobremesa.
– Estou satisfeita por hoje. – ela lhe assegurou encarando-o sugestivamente; na esperança de que o barão a compreendesse enfatizou. – Satisfeita com tudo o que aconteceu hoje. É melhor me recolher... Amanhã conversaremos.
– Então vou esperá-la para o café da manhã. – ao notar o olhar incerto, ele imaginou entender e acrescentou. – Aqui. Ouviu Marie? Amanhã prepare a mesa para nós dois.
– Como desejar Milord. – ela respondeu prestativa. Então tomou novamente a liberdade de opinar. – Concordo com Isabella. Hoje o dia dela foi mesmo agitado, até caiu... Melhor se recolher, farei um chá para que durma bem a noite toda.
– Obrigada. – a jovem agradeceu antecipadamente à criada, deixando a cadeira.
– Não respondeu ao meu convite. – Edward a lembrou barrando sua saída; acalentando uma raiva daninha pela plateia que nem ao menos o deixava se despedir como desejava. – Devo esperá-la para o café?
– Certamente, basta mandar que me acordem. – garantiu. Então ciente de tudo o que Marie já havia visto e sem se importar com o que Jacob pudesse pensar, Isabella se pôs nas pontas dos pés e comprimiu os lábios demoradamente contra os do barão.
Em novo ato reflexo depois de passado o espanto inicial com a iniciativa inesperada, o barão quis abraçá-la, contudo a moça se afastou.
– Boa noite Edward, obrigada por esse dia. – acenando para Jacob, se despediu. – Boa noite... Até breve!
Sem mais palavras ou novos beijos, ela se foi, seguida por Marie que avisou ao barão que mandar alguém da cozinha para auxiliar com a finalização do jantar interrompido ao meio. Ainda com o calor proporcionado pelo beijo de despedida, Edward se sentou e encarou o amigo duramente.
– Tinha que entrar assim?
– Mais uma vez me perdoe Sir. Eu não tinha como saber que alteraram o horário do jantar.
– Obra de Marie. – o barão falou sem disfarçar o aborrecimento pelas constantes intromissões. – Com ela me entendo depois, mas com você... Por que não veio antes?... Ou não deixou para amanhã?
– Como disse achei que tivesse tempo de falar-lhe antes do jantar. – Jacob se defendeu muito ereto. – Achei que gostaria de saber que as primeiras estacas já foram fixadas dos dois lados do rio. A fraca correnteza ajudou a acelerar o trabalho. Espero que a chuva que ameaça voltar não atrapalhe o trabalho.
– Também espero – disse vago.
Sim, deveria se alegrar, afinal fora ele mesmo que pediu para que o amigo fosse seus olhos para obter o adiantamento da obra. Contudo, depois da insólita e proveitosa aproximação que conseguira com Isabella, considerava-o inapropriado.
– Não quer mais se livrar de sua hóspede, não é mesmo? – Jacob indagou condescendente.
– Nunca disse que queria. – Edward retrucou recostando-se contra o alto espaldar da cadeira. – E sente-se de uma vez... Já jantou?
– Sim Sir Edward, obrigado! Com sua licença. – o moreno pediu antes de se acomodar. Olhando o patrão atentamente, comentou com sua natural liberdade. – Bom, vejo que a moça não é tão inteligente quanto imaginei... Já se rendeu.
– Seria menos ofensivo se me considerasse bom na arte da conquista. – Edward replicou após um longo suspiro. Não deveria alimentar seu descontentamento uma vez que Isabella deixou claro ter apreciado o dia e indicado que teriam mais no seguinte.
– Disso não tenho dúvidas. – Jacob exclamou. – Em situações normais nem teria demorado tanto e minha pobre Leah não teria quase desmaiado por recebê-lo para o jantar, pois estaria muito ocupado divertindo-se com a dama da vez. O que realmente chama minha atenção é encontrar alguém que vi tão arredia, hoje o beijar livremente como se estivessem a sós. A mudança foi drástica.
Um sorriso se desenhou nos lábios de Edward ao imaginar que se estivesse a sós o beijo teria sido completamente diferente ao colar casto de seus lábios. Porém o gracejo imaginado não foi externado ao ouvir a pergunta do criado.
– Será que ela esteve fingindo para atraí-lo, Sir Edward?
– Não se atreva a repedir tal absurdo! – o barão ciciou.
– Não quero afrontá-lo, mas sabe que pode ser o caso. – Jacob continuou sem se abater. – Uma mocinha esperta poderia imaginar que a indiferença o atrairia mais do que a pronta rendição.
– Cale-se Jake! – Edward ordenou, sentando-se ereto. – Não admitirei que fale de Isabella com desconfiança.
– Estou apenas preocupado com as intenções da jovem, Sir... Não gostaria de vê-lo finalmente... Verdadeiramente atraído por uma mulher e descobrir que é uma interesseira.
– Já basta! – o barão bradou, fazendo os pratos e talheres tilintarem ao bater a mão violentamente sobre a mesa antes de se pôr de pé. Com o rosto vermelho pela cólera repentina, sibilou para um criado alarmado, que pelo choque não se movia. – Tenho-o como a um irmão, bem o sabe... Mas é só. Não tome às vezes de meu pai como se seu fosse uma moça a quem os responsáveis precisam se preocupar com as boas intenções de um rapaz para com ela.
– Sir Edward eu... – Jacob balbuciou, porém foi cortado como se nada dissesse.
– Sou homem e adulto, com discernimento suficiente para saber se tentam me enredar, então pare com essa mania de saber o que é melhor para mim. Também não admitirei que dirija a Isabella nenhum pensamento depreciativo, pois ela não é nenhuma interesseira.
Ele sabia que não; sentia que não. Isabella, para ele, era uma moça ferida. Dividida pelo amor a outro homem que por razões obscuras não poderia estar ao lado e por aquela atração que ele mesmo conseguiu implantar-lhe no coração ao dar a ela o que nunca teve. De fato a vira simular recato e subserviência em sua carruagem, mas a tristeza que a afastava era real. Ele notara a diferença.
– Mil perdões Sir... – Jacob pediu com voz já estável, olhando-o atentamente. – Não quis questionar sua sensatez ou acusar a garota. Apenas estranhei a súbita mudança e procurava por justificativas para a mesma. Não gostaria de vê-lo magoado por alguém que talvez não o merecesse, pois também tomo a liberdade de tê-lo como a um irmão.
Com a declaração sincera a ira do barão arrefeceu e ele voltou a se sentar.
– Agradeço a preocupação, mas é desnecessária. – Edward disse roucamente, ainda trêmulo. – Sei cuidar de mim mesmo.
– De toda forma agora me resta desejar que tudo dê certo com ela, pois pelo o que vejo, é tarde para não se apaixonar.
O barão cogitou negar, mas não estava diante de Sir Carlisle e sim de Jake que mesmo o exasperando, conhecia-o tão bem.
– Sim, agora é tarde! – admitiu, tomando o restante do vinho de sua taça.
– Então que ela seja uma boa moça Sir. – Jacob rogou.
– Ela é. – assegurou. – Peça para que a boa moça corresponda ao meu afeto. É apenas disso que preciso.
Acomodada entre os lençóis com o galgo sobre suas pernas, Isabella baixou o livro que emprestou da biblioteca assim que Marie bateu à porta e entrou.
– Trouxe o chá que lhe prometi. – a criada anunciou desnecessariamente, aproximando-se para depositar a bandeja sobre o criado-mudo.
– Obrigada Marie! – agradeceu, esperando que a mulher se retirasse, para retomar a tentativa de leitura, visto que de fato ler parecia impossível estando ligada como estava.
– Posso ter uma palavra com você Isabella? – Marie indagou ao se afastar dois passos.
– Sim. – ela consentiu, depositando livro sobre a cama para se aprumar melhor contra os travesseiros. – O que deseja?
– Bom... Não sou sua mãe, ou sua responsável, mas gostaria de pedir para que pare com o que está fazendo.
– Parar...? – Isabella começou incrédula. – Parar de fazer o quê?
Não que não soubesse, mas queria conhecer a razão do cuidado demonstrado pela criada.
– Como o quê, Isabella? – a criada indagou visivelmente agoniada. – Está aqui sozinha e abertamente demonstrou que se deixou seduzir pelo barão. Sei que para uma jovenzinha ele deva parecer o príncipe dos sonhos, ainda mais depois de socorrê-la, mas Milord é homem antes de tudo... Não é aconselhável ficar a portas fechadas com ele. Você deve preservar sua virtude.
Isabella sorriu levemente entristecida. Marie não tinha como saber, não estava na casa anos atrás e mesmo que estivesse ela tinha dúvidas de que a criada tomasse conhecimento das atividades de seu nobre patrão que se encarregou de livrá-la muito cedo de tal encargo. Ela não tinha nada mais a ser preservado. Para a mulher preocupada, disse, contudo.
– Não se preocupe Marie, estou bem...
– Desculpe minha insistência, mas é que não gostaria de vê-la deixar essa casa com a honra perdida ou magoada. O barão é um homem envolvente, demonstra ter um forte interesse por você, mais do que pela senhorita Tanya, mas já lhe disse que há um envolvimento entre eles.
– Sei disso Marie. – Isabella disse apenas, imaginando que era tarde desejar que não deixasse aquela casa nas condições citadas. Para tranquilizar a criada, cogitou. – Já que nota o mesmo interesse que eu, quem garante que Edward não deixe a senhorita Cullen de uma vez?
– Pobre criança! – Marie exclamou com pesar. – Queria reforçar sua crença, mas ao menos que venha de uma família abastada cuja lhe reservou um vultoso dote, a baronesa jamais permitirá que o filho a despose... Lamento.
Era evidente que a criada sabia não ser o caso. Se fosse uma moça bem nascida, estaria naquele momento ilhada em Westking com uma dama de companhia que resguardaria ferrenhamente sua virtude, não sozinha à mercê da sanha sedutora do barão. Em todo o caso, Marie não tinha o que lamentar, pois apenas sugeriu a troca para acalmá-la. Não era sua intenção fazer parte da vida de Edward; a baronesa poderia dormir sossegada. No que dependesse dela a união entre as ricas famílias estaria garantida.
– Poderia me deixar agora Marie? – pediu amargurada.
– Não queria entristecê-la Isabella. – a criada assegurou aflita. – É uma moça bonita, agradável... Não tinha como o barão não tentar se aproximar, mas tenho que alertá-la para os riscos... Uma jovem desonrada nada vale nesse mundo. Não quero que algo de ruim lhe aconteça.
– Sei bem o que acontece com jovens desonradas. – murmurou. – Não se preocupe tanto Marie. O barão não ira me desonrar ou partir meu coração... Agora vá em paz.
– Sendo assim tenha uma boa noite. – desejou seguindo para a porta. Ainda sem abri-la avisou. – Amanhã pela manhã venho lhe ajudar a se vestir para o café.
– Obrigada! – novamente agradeceu antecipado.
Quando a criada precipitou-se para fora se sobressaltou com a presença do barão diante dela. Antes que disse algo, ele a puxou para o corredor e fechou a porta.
– Agora nós dois – disse muito sério. – O que pensa que está fazendo?
– Não entendi vossa pergunta Milord!
Quando a criada se recostou contra a porta, assustada, Edward a tomou pelo braço e a arrastou até a de seu quarto para que Isabella não os ouvisse.
– Entendeu muito bem. – ele ciciou. – Desde quando modifica os horários que estipulo para as refeições?
– Perdoe-me por aquilo Milord, mas quis somente atender às necessidades de vossa hóspede, como me recomendou... Isabella de fato comeu tão pouco no almoço...
– Essa ousadia, por essa vez, eu poderei aceitar, pois nada mais há para ser feito, mas... – ele novamente sibilou. – O que me diz das coisas que acabou de dizer a ela?
– Gosto da menina Lord Masen. – ela declarou como se isso por si só a desculpasse, alimentando a raiva do barão.
– E por gostar tenta afastá-la de mim? Qual mal acredita que eu faria a ela?
– Com todo o respeito Milord, se ouviu o que eu disse sabe bem o que temo. A moça não tem ninguém que zele por ela.
– Ela tem a mim. Eu zelarei por Isabella! – assegurou enraivecido com a atribuição equivocada que a criada dava a si mesma. – Sua função é tão somente ajudá-la e servi-la, não aconselhá-la ou pastorá-la. Fui claro?
– Como água Milord. – ela disse num fio de voz. – Perdoe-me por aborrecê-lo. Colocar-me-ei no meu lugar e nada mais farei que possa afrontá-lo, mas... Por favor, Lord Masen... Não magoe essa menina.
– Recolha-se Marie. – ordenou. – E não ocupe sua cabeça com assuntos que não lhe dizem respeito.
Com um inclinar de cabeça e os olhos rasos d’água, a criada se foi. Ao vê-la se afastar com os ombros arqueados, o barão se recriminou por ter sido tão agressivo com alguém que tinha por Isabella o mesmo apreço que ele, então a chamou.
– Marie! – quando a mulher o encarou com os olhos úmidos, falou. – Dou-lhe minha palavra que não é minha intenção magoar sua protegida. Já percebi o quanto ela é especial.
A criada apenas lhe sorriu por entre as lágrimas, novamente inclinou a cabeça e se foi. Abalado pelas fortes e variadas emoções que o visitaram naquele dia, especialmente naquela noite, Edward foi até a porta do quarto da irmã e bateu com os nós dos dedos antes de entrar.
– Atrapalho? – indagou ao encontrar Isabella com o olhar vago para Nero, abraçada a um livro.
– De forma alguma. – sua hóspede assegurou ao encará-lo. Parecia ter também os olhos úmidos, mas poderia ser somente impressão; Edward estava de fato sugestionado pelos acontecimentos.
– Queria vê-la mais uma vez antes de dormir.
Ao aproximar-se da cama, considerou a moça muito bonita vestida nos trajes da irmã; imaginando quando a veria da mesma maneira em sua própria cama.
– Que bom que veio! – foi sincera. Estava a cismar com sua maldita condição de jovem desonrada que não lhe permitia almejar se unir a um homem bom; desejando também vê-lo quando chegou. Como Edward apenas a observasse, comentou. – Suponho que Jacob já tenha ido embora.
– Sim, o intrometido já foi embora. – o barão confirmou. – O que tinha a dizer nem era tão importante assim.
– Mas não era sobre a ponte? – Isabella indagou com as sobrancelhas unidas.
– Era... – novamente confirmou, daquela vez contrafeito. – O tema não é tão importante para mim... O é para você?
– Sabe que sim! – ela falou com estranheza. – E deveria ser para você também, afinal é um homem de negócios.
– Tenho negócios com várias cidades e todos estão em dia. Algum atraso com as cidades do outro lado não o afetará. – Edward retrucou sentindo um aperto estranho no peito por ter que dizer aquilo que esperava que fosse notado espontaneamente. – O que me preocupa é o que talvez perca quando a ponte estiver concluída.
Com aquelas palavras, Isabella se obrigando a não envaidecer; naquela manhã eles eram somente anfitrião e hóspede, naquele momento um casal enamorado.
– Ainda é cedo para pensar em perdas. – comentou. – Não devemos nos preocupar com aquilo que nem aconteceu; melhor vivermos um dia de cada vez.
– Tem razão! – o barão concordou sentando próximo a ela, levando o galgo a saltar para o chão; a ameaça feita no pomar parecia ter surtido efeito. – Um dia de cada vez.
Atraído pelo rosto lavado e adornado pelos cabelos negros, Edward estendeu a mão e o acariciou, levando Isabella a fechar os olhos.
– Sabe que pode confiar em mim, não sabe? – indagou incisivo.
– Se não soubesse não estaria aqui. – ela retrucou ainda de olhos fechados, aproveitando o calor da palma posicionada metade em sua bochecha, metade em seu pescoço; o polegar se movendo sem pressa.
Animado com a declaração, o barão aproximou-se mais.
– Então confiaria caso eu a beijasse aqui?
– Confiaria, pois é um cavalheiro – ela abriu os olhos para encará-lo enquanto dizia a verdade. – Sei que não faria nada que eu não quisesse.
– E o que você quer Isabella? – perguntou rouco; apesar da aparência frágil que cativava sua criada ela era uma mulher experiente e poderia muito bem, naquele momento, querer o mesmo que ele. Excitando-se já com a expectativa, ele insistiu. – Diga o que quer.
Para Isabella estava claro desde muito cedo que bastaria dizer ao barão que compartilhava de seu desejo para tê-lo atendido. Justamente por essa razão pouco mais de uma hora antes esteve muito tentada a convidá-lo para estar com ela naquela cama, contudo o momento havia passado. Queria-o tanto que doía, mas não o teria naquela noite.
– Quero apenas um beijo de boa noite melhor do que aquele que pude lhe dar – disse por fim, sorrindo manso ao notar a decepção nos olhos azuis; não era uma rejeição e sim um adiamento. Por ambos era melhor esperar, então acrescentou para não restarem dúvidas. – Depois quero que se recolha, pois desejo também dormir... O chá de Marie me amoleceu.
O barão se sentia muito capaz de despertá-la, mas como considerou naquela tarde, tudo ao seu tempo. Com isso domou sua decepção e trouxe Isabella para si. Quando lhe cobriu a boca com a sua já havia determinado ser breve, então aprofundou o beijo evitando abraçá-la para não ir contra a confiança que Isabella lhe depositava.
– Boa noite Isabella! – desejou tão logo a largou abruptamente quando cogitou ir contra ele mesmo e seduzi-la. – Vejo-a no café da manhã.
Com a saída intempestiva do barão, Isabella ficou a olhar a porta sentindo os lábios a arderem e o rosto em chamas. O restante das coisas que sentia considerou melhor nem enumerar. Deveria era conciliar o sono, pois ansiava a chegada do dia seguinte quando poderia saborear novas descobertas naquele insólito envolvimento antes que chegasse o momento de encerrá-lo.
Infelizmente, naquela noite, nem mesmo o chá de Marie ou os beijos ousados de Edward a livraram de ser visitada em sonho pelo barão pai. No meio da madrugada acordou com o próprio grito por não conseguir se livrar das mãos pegajosas de seu estuprador e logo também se alarmou com Nero a latir para o nada.
Assustou-se também ao descobrir que chovia e relâmpagos, mesmo distantes, iluminavam o quarto. Trêmula, Isabella deixou a cama para tomar um copo com água e então se enroscou sob os lençóis com Edward no pensamento para afastar as lembranças ruins. O galgo também se acalmou e lhe fez companhia.
Voltou a dormir, mas não o fez ininterruptamente. Tanto que pela manhã, quando Marie bateu à porta, Isabella já havia despertado há uma hora.
– Acorde! – ela pedira do corredor.
– Já estou acordada, pode entrar.
Ao atendê-la a criada a encontrou a atirar as cobertas para o lado. Nero já havia saído enquanto que ela esperou pacientemente até aquele momento. Todavia Isabella queria aproveitar ao máximo aquele sábado, para não pensar em pontes concluídas, partidas ou em como estaria sua casa naqueles dias sem sua presença.
– Bom dia Marie! – cumprimentou enquanto despejava água na bacia.
– Bom dia Isabella! – a criada retribuiu o cumprimento observando-a lavar o rosto e assear a boca com o pó dental. – Parece animada...
– Hoje é sábado! – ela disse com um sorriso. – Gosto de sábados... Não das segundas-feiras.
– Bom, então devo lhe dizer que apesar da chuva que desabou essa noite, o sol se faz presente. – Marie também lhe sorriu.
Observando a criada Isabella a considerou diferente, mirava-a com um brilho novo no olhar.
– Quer me dizer alguma coisa Marie? – indagou analisando-lhe a expressão. Então se lembrou da conversa da noite anterior e acrescentou. – Talvez algo sobre o que me disse ontem?
– Não! – negou agitando as mãos. – Esqueça o que eu disse... Bem, em partes... Ainda acho que deva se preservar, mas deve confiar no barão.
– Eu confio. – Isabella garantiu apenas; estranhando a mudança. Contudo não havia tempo para desvendar-lhe os segredos.
Retirando a camisola, vestiu o chemise, a anágua e estendeu a mão para o vestido que Marie havia terminado de deixar sobre a poltrona.
– E o espartilho? – a mulher indagou aflita.
– Deixe-me sem Marie. Ele aperta demais.
A mulher não respondeu, apenas murmurou um resmungo inaudível. Com um sorriso condescendente, Isabella desceu o vestido pelos ombros e, ao começar a abotoá-lo pediu sem se abalar com a rabugice da criada. – Por favor, faça aquela trança frouxa em meu cabelo.
Sentado à mesa, Edward esperava por sua convidada lendo o pasquim que Jacob todos os dias mandava buscar em Westking. Não havia nada novo nos domínios da rainha, assim como em sua cidade onde o que merecia destaque eram os estragos causados pelo último temporal. O barão agradecia o fato de a chuva da madrugada passada tivesse ido embora, pois, por mais que lhe parecesse agradável imaginar, ficar preso em sua casa com Isabella tendo tantos olhos sobre eles não seria verdadeiramente proveitoso.
O bom anfitrião queria era passear com sua adorável hóspede pelos jardins, pelo estábulo caso ela o desejasse; talvez novamente pelo pomar onde toda a situação entre eles havia mudado drasticamente como Jacob salientou. Em suma, queria estar com ela, longe de todos para tirar a má impressão vinda ao novamente observá-la durante o sono. Isabella já havia dito não dar importância a eles, reagia positivamente a ele, porém o consternava que em sonho ela o rejeitasse.
Com um bufar exasperado, Edward baixou o jornaleco e conferiu as horas no seu relógio recuperado e pontual. A moça estava atrasada, pensou ansioso. Então se recriminou pela afobação, pois não havia estipulado um horário certo para o encontro. Cogitava ir chamá-la quando Isabella surgiu à porta, bela e fresca como o ar que aspirou ao abrir sua janela naquela manhã. Com a comparação, Edward concluiu que seu criado estava inquestionavelmente certo; era tarde para não se apaixonar.
– Bom dia Isabella! – cumprimentou se pondo de pé imediatamente ao vê-la.
– Bom dia Edward. – retribuiu lhe sorrindo.
Como na noite anterior o barão lhe puxou a cadeira prestativamente refreando o impulso de beijá-la; detido mais pelo temor trazido por assistir sua agitação durante o sonho no qual a atormentava.
A Isabella não passou despercebida a postura rígida do nobre. Apesar do tom animado, ele não retribuiu ao seu sorriso. Confiava nele, tentava não duvidar de sua palavra, contudo ficava difícil não imaginar que finalmente Edward tivesse caído em si. Ainda mais quando sabia que pela baronesa nunca seria aceita.
Como não estavam sós, ela não o questionou, deixando que sinalizasse à criada para que os servisse com o que indicassem na farta variedade de frutas, bolos, pães, queijos e geleias. O que havia naquela mesa daria para alimentar metade das moças que moravam em sua casa, Isabella observou com saudade; esperava que todas estivessem bem. Assim como esperava que Sam não estivesse enlouquecido com seu sumiço. Dentre todos, ele era o que mais lhe preocupava.
– Por que tão quieta? – Edward indagou a certa altura, incomodado pelo silêncio quebrado apenas pelo leve ruído produzido pelas xícaras e talheres. – Não dormiu bem?
– Tive um sonho ruim. – ela admitiu, dando atenção ao pedaço de bolo que cortava. – Os relâmpagos também me assustaram um pouco, mas depois que voltei a dormir a noite transcorreu tranquila. E você? – ela então o encarou. – Dormiu bem?
– Teria dormido melhor se pudesse evitar que os maus sonhos e os relâmpagos não a assustassem. – disse sincero e incisivo. Não poderia dizer que a viu agitada, mas poderia assumir parte do que sabia. – Ouvia-a gritar...
– Perdoe-me, não queria acordá-lo. – Isabella pediu constrangida; maldizendo o barão pai por ainda atormentá-los.
– Eu não estava dormindo. – mais uma vez disse a verdade. Atirando sua reserva para o alto, sem se importar com a criada que os assistia, o barão largou o talher na borda do prato e tomou a mão delicada disposta sobre a mesa. – Não é a primeira, nem a segunda vez que tem esses sonhos... Não quer me contar do que se trata?
– Já lhe disse que são bobagens. – ela lhe sorriu tranquilizadora. – Nada que valha a pena comentarmos. Sonhos são somente sonhos... O que conta é a realidade.
Palavras pacificadoras que não o acalmavam completamente, contudo o barão as aceitou.
– E você gosta de sua realidade? – indagou.
– Gosto. – disse lacônica; era a que tinha.
Edward a considerou vaga então, inconformado, insistiu.
– Gosta ao ponto de acreditar ser feliz para sempre se a mantivesse?
– Felicidade eterna não existe Edward. – a jovem expôs sua crença. – Não é algo constante e duradouro. Existem sim momentos felizes tão passageiros e mutáveis quanto os momentos de infelicidade.
– Então diga se vive um momento feliz. – o barão pediu taciturno; não gostou do que ouviu.
– Sim. – não havia razão para mentir. Apesar de a situação vivida ser tão volátil quanto àquelas descritas, reafirmou. – Estou num momento muito feliz.
Ao barão bastou ouvir de uma Isabella lúcida, que ele lhe proporcionava algum contentamento. No que dependesse dele, mostraria para aquela jovem descrente, que ela poderia ser feliz indefinidamente; mesmo que tivesse que lutar para lhe proporcionar momentos ininterruptos de felicidade.
**************************************************************************
SPOILER:
O silêncio começava a exasperá-la. Havia errado ao comentar Embry, mas não via razão para tanto ressentimento. Inconformada, pousou as mãos na cintura e exalou um profundo suspiro.
– Está pensando nele, não está? – Edward indagou exatamente às suas costas, assustando-a.
– Por que faz perguntas cujas respostas não lhe agradam? – ela rebateu sem se mover; guardar segredos era uma coisa, mentir outra bem diferente. Jamais renegaria o que sentia por Embry.
– O que posso fazer para que pense somente em mim? – o barão perguntou, daquela vez, abraçando-a pelas costas. Pousando uma mão em seu ventre e outra em sua garganta; ambas livres das luvas.
– Ontem lutou por um espaço em meu coração e conseguiu. – Isabella falou ainda a estremecer com aquele abraço. – Desde então penso em você também, não basta?
– Não! – ele sibilou girando-a em seus braços. – Não a quero pela metade; preciso de você inteira Isabella.
Então a beijou; apaixonada e profundamente. Provando-lhe a língua sem cuidados, emitindo gemidos audíveis, semelhantes a urros enfurecidos. Tal sofreguidão de imediato acendeu a moça, estimulada desde a manhã citada.
Com tamanho arrebatamento, o barão alimentava as centelhas de seu âmago, criando labaredas capazes de incendiá-la por inteiro. Novamente queria mais daqueles prazeres que ele lhe oferecia sem nada dizer; prometia-os apenas a rolar a língua inquieta na sua.
Sem que soubesse como se deu a ação, Isabella se viu estendida sobre as folhas muito úmidas pela chuva de horas antes, mas não se importou. Como poderia ao ter todo o peso do barão sobre si, que com o joelho, abria uma vaga entre suas pernas para encaixar-se. Rendida ela cedeu, deixando que ele se acomodasse em suas saias e deitasse completamente sobre ela.
– Ele a beija dessa maneira? – Edward perguntou mordicando-lhe o queixo.
– Sabe que não... – ela sussurrou, movendo-se sob ele. – Eu já lhe disse que é diferente. Não fale dele agora, por favor...
Pensar em Embry justamente naquele momento fazia o envolvimento parecer errado, abalando sua vontade em ceder ao barão e aos seus carinhos ousados. Como aquele no qual a da mão indecente já lhe esmagava um seio.
– Esqueça-se dele para sempre então... – Edward murmurou rouco movendo os lábios em sua orelha; sentindo o coração apertado no peito, pediu. – E fique comigo...
– Estou com você... – ela garantiu amolecida com o carinho em seu peito ainda coberto e o hálito morno em seu ouvido.
Não eram aquelas as palavras que o barão queria ouvir, mas no momento lhe bastaram. De fato ela estava ali com ele. Calando o ciúme que o atormentava Edward prendeu-lhe o lóbulo da orelha entre os dentes, provocando nela um longo gemido. Envaidecido, mordiscou-lhe também o queixo, antes de requerer a boca macia mais uma vez.
Com as mordidas leves, Isabella sentiu seus recantos mais secretos contraírem-se, reclamando por uma parte do barão que a completaria. Aquela que ela sentia empurrar a base de seu ventre sobre as saias; que a fazia acreditar que pela primeira vez apreciaria a união entre dois corpos.
– Edward... – ela murmurou em dolorosa agonia.
– Estou aqui Bella... – o barão respondeu também num murmúrio, segurando-lhe o rosto para beijá-la com redobrado ardor.
A moça sentiu a aspereza do barro contida nas palmas que a continham, mas não se importou. Nada importava, porém, quando ele deixou seu rosto para lhe segurar a base do pescoço enquanto a mão livre finalmente invadia o decote, ela protestou.
– Não Edward.
A recusa o enregelou, pois ainda era visitado pelo ciúme e pela rejeição dirigida a ele em sonho.
– Não?! – indagou afastando-se para olhá-la.
– Não aqui! – Isabella enfatizou ao lhe notar o abatimento. – Ontem fomos flagrados, esqueceu? Acho melhor irmos com calma nesse seu cortejar avançado.
Com a explicação o barão finalmente espirou. A jovem tinha razão; não poderia correr o risco de expô-la aos olhos de seus criados. Tinha pressa, contudo dispunha de tempo. Com aquela certeza, tratou de acalmar seu corpo antes que cogitasse arriscar. Então, exalando um bufar resignado, Edward se apoiou num dos cotovelos para olhá-la.
– Iremos com calma então – disse a lhe sorrir. Ao analisá-la logo o sorriso se tornou um riso brando enquanto ainda lhe perscrutava o rosto.
– O que foi? – ela indagou, seguindo-o no riso com desconfiança, ainda a sentir o coração bater acelerado pelos beijos recentes.
– Sujei-lhe de lama.
– Ah!... Então o cavalheiro ri de minha pessoa? – ela se mostrou ofendida para provocá-lo. – Estou chocada!
– Não de você – ele esclareceu, novamente tocando-lhe uma bochecha para acariciá-la com o polegar. – É que, assim suja, você me lembra uma amiguinha de Rosalie.
Semana que vm continua.... O.o
Fale com o autor