Borboleta Negra
27 Capítulo Vinte e Seis
Notas iniciais
Com um bufar exasperado, Edward correu uma das mãos pelos cabelos soltos impacientemente. Estava no gabinete de inspetor Otto Cooper, juntamente com Jacob, dois guardas e seus funcionários que haviam sido trazidos da sidreria, algemados e silenciosos. A falta de explicação o enraivecia, assim como incutia nele o desejo inédito de agredir um homem mais velho. Sempre teve por Eleazar Denali o mesmo respeito que dispensava ao seu pai, pois crescera os vendo juntos.
Dadas as devidas proporções, poderia dizer que um era para o outro, o mesmo que Jacob era para ele. Com isso, baseado na confiança por décadas demonstrada pelo falecido barão, Edward igualmente depositava total credibilidade ao senhor que tinha a sua frente; mudo como uma rocha, recusando-se a responder as repetidas perguntas que ele mesmo fizera enquanto seu criado viera à Westking buscar o inspetor.
– Senhor Denali... – chamou Otto com estudada paciência, depois de correr os olhos ao inquieto barão. – Sabe que cedo ou tarde terá que explicar porque admitiu Gruen e juntos tentaram prejudicar o barão.
– Eu gostaria de saber como pôde me trair dessa maneira – o nobre falou rígido em sua inconformidade. – Mora em Apple White há anos. Era um dos funcionários mais antigos a quem eu depositava total confiança.
– Lord Masen, eu peço que me deixe fazer meu trabalho – o inspetor pediu respeitoso. – Entendo que esteja exaltado, mas tentar confrontá-lo não nos levará a lugar algum.
– Pois bem! – Edward se empertigou, ignorando o latejar do braço ainda preso pelo trapo que Jacob providenciou. – Mas não se esqueça de perguntar a esses trastes a mando de quem eles quebraram meus tonéis.
– Por que acredita haver um mandante? – Cooper indagou impassível. – A ação pode ter sido motivada por alguma insatisfação pessoal para com vossa senhoria.
– Insatisfação pessoal? – Edward questionou incrédulo antes de acrescentar com leve deboche. – Devo ter feito algo muito grave para que um completo estranho ameace minha vida enquanto alguém que vive em minhas terras e recebe uma elevada soma por seus serviços dê continuidade ao seu intento em arruinar-me.
– Não sabemos o que se passa na mente ou no coração dos homens milord. – Cooper retrucou. – Algo que não tenha dado a devida importância pode muito bem ter gerado algum mal-estar com eles.
– Essa será sua linha de investigação Sr. Cooper? – Jacob que esteve calado até então se pronunciou. Ao ter o olhar de enfado sobre si, acrescentou: – Pergunto por que até mesmo para mim esse argumento soa fraco para justificar o que esses dois fizeram. Em sua condescendência daqui a pouco os inocenta e incrimina Lord Masen.
– Escute Sr. Black – o inspetor começou aborrecido. – Não tenho que lhe dispensar o mesmo tratamento que dou ao seu patrão, então eu sugiro que se mantenha calado.
– E eu, que o senhor dirija essa sua indignação a esses dois. – Edward aconselhou. – É com eles que deve se preocupar, mas se quer mesmo saber, não há nada que eu possa ter feito a nenhuma desses dois senhores e, sim, acredito haver um mandante.
– Pois sendo assim diga de quem desconfia! – Otto Cooper se recostou em sua cadeira de couro e pousou as mãos inchadas sobre seu elevado estômago, para acrescentar: – Mas antes devo lembrá-lo de que precisa apresentar provas, caso contrário estará cometendo perjúrio, podendo até mesmo ser processado.
– Eu estou dizendo... – Jacob debochou num murmúrio exasperado antes de se voltar ao patrão e indagar: – Quer que eu vá buscar uma muda de roupa? Acho melhor, pois quem ficará aqui será vossa senhoria.
– Mais um comentário e quem ficará aqui será o senhor – o inspetor bradou batendo contra o tampo da mesa, levando seus guardas a ficarem em alerta.
– Jacob – Edward o chamou com fraca repreensão. – Vá me esperar lá fora, por favor... – ao ser atendido, o barão se voltou para o inspetor e disse seguro. – Conheço bem as leis, afinal me formei em advocacia. É exatamente por essa razão que quem deve nomear o covarde que tentou me atingir indiretamente são eles.
Ao se calar olhou duramente para os homens que mantinham suas cabeças baixas; Alec em falsa submissão, Edward bem o sabia. Eleazar Denali por sua vez, desde que despertou se mostrava cabisbaixo, mudo.
– Pois bem... – retomou a palavra o inspetor, apoiando-se no tampo da mesa para ficar mais próximo dos detidos. – Vamos seguir por esse raciocínio. Algum de vocês tem algo a dizer? Há de fato um mandante.
Silêncio foi a reposta, levando Edward a novamente exasperar-se. Não voltaria a dirigir a palavra a quem ameaçou matá-lo, mas insistiria com o velho funcionário, pois era ele quem mais o decepcionara.
– Responda Sr. Denali. – Edward pediu com demasiado controle. – Quem mandou que prejudicasse uma sidreria que juntamente com meu pai ajudou a crescer? Acaso eu o afrontei de alguma maneira? A casa que lhe cedo é insatisfatória, o salário não mais lhe agrada ou é insuficiente? O que justificaria aceitar o que quer que aquele senhor possa ter lhe oferecido?
– Acho que serei obrigado a convidá-lo a se retirar milord. – Cooper comentou novamente enfadado. – Eu faço a interrogação aqui.
– Não desejo fazer seu trabalho, apenas entender o que levou o velho amigo de um pai a trair o filho que por anos tempo lhe dispensou a mesma confiança e amizade. Eu...
Antes que o barão concluísse, Eleazar Denali levantou de sua cadeira para imediatamente se colocar de joelhos diante de seus pés e de cabeça baixa rogar:
– Perdoe-me milord, mil perdões... Fui um fraco ambicioso, mas jamais quis prejudicar a sidreria ou vossa senhoria.
Perplexo, Edward olhou confuso para um inspetor tão ou mais surpreso, antes de voltar os olhos para o velho ajoelhado a sua frente.
– O que está dizendo senhor?... – começou ainda sem se recuperar de todo. – Admite que alguém mandou que danificassem os tonéis?
– Não sei nada sobre isso milord. – Eleazar disse embargado, finalmente elevando os olhos circundados das varias rugas para encarar seu patrão. – Não sabia das intenções de Gruen até que o flagrasse está manhã.
Finalmente alguma revelação. Edward lamentou apenas que o funcionário não nomeasse o mandante; pois havia um, ele sabia. Curioso em ver até onde a delação iria, o barão se abaixou e ajudou o senhor a retornar à sua cadeira e, em desafiadora deferência, indicou-o ao inspetor.
– Aí está! Dê seguimento ao seu interrogatório.
– Acha que vai me perdoar milord? – Eleazar perguntou esperançoso, sem conter suas lágrimas.
Ver o velho amigo do pai em tão humilhante cena, lacrimoso, com as mãos algemadas diante de si o abalou, mas não ao ponto de relevar prontamente o que havia feito. Revestindo-se de indiferença, disse apenas:
– Vamos ver o que diz ao inspetor. Depois decido se merece o perdão ou a oficialização de minha queixa.
Seu criado irrompeu num choro sentido e arqueou os ombros, encolhendo-se sobre a cadeira. Ao seu lado Alec Gruen permanecia de cabeça baixa, impassível como se não fizesse parte da armação. Edward tinha plena consciência de que ele era o ponto de ligação ao invejoso cavalheiro que desejou atingi-lo, mas pelo que via, dele não conseguiriam coisa alguma.
Com novo bufar, o barão novamente assanhou os cabelos e passou a se mover pela sala a espera que seu funcionário se recuperasse e respondesse ao inspetor. Com os olhos fechados, por um instante, bloqueou as vozes e o fungar sentido para visualizar sua noiva em pensamento. Tentou obter alguma paz ao recordar o beijo dado depois de seu noivado, enquanto rogava que ela não tivesse atentado ao braço ferido quando o viu pela janela. Não a queria aflita num dia que deveria ter sido nada menos do que perfeito.
Com o pensamento de algo que não seria mais possível, Edward abriu os olhos e analisou a cena. De todas as queixas que tinha contra Laurent Hunt, aquela era a mais vil e abjeta.
Acariciando a pérola negra que emitia um brilho único a luz da lareira, sem que nenhum vestígio de sono ou cansaço a abatesse, Isabella, novamente se consolava pela demora de Edward. Já havia escurecido o que indicava o avançado da hora, tornando a presença de Marie na biblioteca algo abusivo, pois a governanta deveria estar de folga.
– Vá para sua casa Marie. – Isabella tentou convencê-la. – Ficarei bem.
– Nunca a deixaria sozinha – escandalizou-se a criada. – À essa hora a casa já está sendo protegida, mas prefiro ficar aqui até que o barão volte.
– Ele já deveria estar de volta.
A frase não passou de um sussurro inaudível, enquanto Isabella fechava os olhos e revia a cena assistida horas atrás. Após o almoço, ainda enlevada pelas palavras lidas, ela se colocou à janela da saleta indicada por Marie. Não que fosse uma fugitiva, mas não queria ser vista pelos homens que chegariam. Com isso continuou sua vigília daquele ponto, de onde podia ver toda a frente do palacete até o portão distante.
Não precisou esperar por muito tempo até que visse o andaluz despontar em meio às árvores. O sorriso que vinha fácil aos seus lábios, morreu no instante em que percebeu haver algo errado. Apesar do porte sempre altaneiro, Edward não lhe parecia bem; ela via, sentia. O barão vinha acompanhado de Jacob e pararam no meio do calçamento que levava à saída. Logo ambos iniciaram uma argumentação entre si, com o criado a todo instante indicando o palácio e o patrão a manear a cabeça impaciente.
Naquele momento exato, Isabella achou certa graça, por adivinhar que Jacob mandava seu patrão de volta a casa como se fosse uma criança birrenta. Sorria em meio a sua avaliação quando Edward ergueu a cabeça e olhou diretamente para ela. Estava distante, mas a jovem conseguia ‘ver’ a intensidade dos olhos azuis. Permaneceram conectados por alguns instantes, até que Jacob seguisse o olhar e a descobrisse.
Vê-la pareceu gerar um comentário que exasperou o barão ainda mais. O criado então apontou em sua direção e gesticulou mais. Isabella riu mansamente, acreditando ter se enganado em sua primeira impressão, até que o único resquício de humor se esvaísse quando foi encarada por Edward que girava o cavalo para voltar por aonde veio, sem olhar para trás. A ação foi rápida, porém a jovem pôde ver a manga rasgada, o braço ensanguentado. Edward estava ferido.
– Por que ele não me disse que estava machucado?
Isabella não percebeu ter externado a pergunta, então se sobressaltou ao ter a resposta de Marie.
– Milord provavelmente não quis deixá-la como está agora. Caso não o tivesse visto estaria se preparando para dormir.
– Não estaria. – Isabella correu os olhos para Nero que dormia próximo à lareira e acrescentou. – A preocupação não seria a mesma, afinal ele me avisou que demoraria, mas eu ficaria a sua espera.
– Não seria melhor esperar no quarto? Poderia levar uma xícara de chá, só de camomila dessa vez.
Ela não desejava nada, mas não teve a oportunidade de negar ou agradecer ao notar o movimento de Nero que ergueu a cabeça antes de se pôr de pé.
– Edward chegou! – exclamou imitando o galgo que já saia porta afora.
Sem esperar por Marie, Isabella seguiu para a entrada principal, chegando a ela em tempo de ver o barão fechar a grande porta. Nero já festejava a entrada do dono quando a moça se aproximou e estacou a um passo do barão para avaliá-lo sob a luz dos castiçais mantidos acesos para sua chegada. Ele se apresentava com a camisa rasgada e o braço direito apoiado por uma tipoia, livre do sangue. A cena a abalava, mas a visão do rosto abatido, marcado por alguns hematomas e o lábio ferido no canto esquerdo foi o que mais a alarmou. Da janela não conseguiu ver aqueles detalhes.
– Não chore Bella, estou bem. – Edward tentou tranquilizá-la abrindo-lhe uma vaga sob o braço bom.
Isabella nem percebia que chorava e não tardou para dar o passo restante, colocar-se junto a ele e abraçá-lo levemente, por medo de machucá-lo mais.
– Minha Nossa Senhora! – Marie exclamou ao se aproximar. – O que aconteceu milord?
– É uma longa história Sra. Newton. Amanhã saberá, por agora, tudo o que desejo é me deitar.
– Então suba. – Isabella se desprendeu do abraço, cuidadosamente. Ao secar o rosto, falou a Marie: – Seria pedir demais que levasse água quente para nós?
– Não é necessário. – Edward interveio; estava tarde.
A governanta se mostrou dividida até que Isabella novamente indagasse, como se o barão nada tivesse dito:
– Então Marie?
– Absolutamente – ela disse por fim, ignorando a carranca do patrão. – Subam que levarei num instante.
Sem mais palavras a criada seguiu pelo corredor lateral a escadaria, deixando-os a sós. Ainda comovida por ver Edward tão machucado, Isabella o pegou pela mão e o levou escada acima, com Nero em seus calcanhares. Uma vez no quarto o galgo se acomodou diante da lareira, assistindo Isabella afastar as cobertas para que Edward se sentasse na cama. Lutando em conter lágrimas que de nada ajudariam, a moça começou a retirar as botas do barão.
– Essa é a segunda vez que chora hoje e não lhe ofereço um lenço. Isso está me matando então é melhor parar, pois já estou bem quebrado. – Edward gracejou para distraí-la, enquanto retirava a tipoia, suprimindo um lamento pelo incômodo.
– Como pode brincar?
– Já disse, não tenho um lenço, então preciso que pare de chorar.
Com um suspiro resignado, ela novamente secou as derradeiras lágrimas e se levantou para tocar-lhe o rosto delicadamente, levando-o a fechar os olhos.
– Combinado, já parei. Está com fome? Vou pedir que Marie...
– Deixe-a descansar – a cortou gentilmente, apreciando o carinho na face dolorida. – Não tenho fome.
– Precisa comer alguma coisa Edward – ela retrucou autoritária. – Praticamente passou o dia fora, está ferido.
– Parece que estou ouvindo minha mãe – troçou ainda de olhos fechados.
– Bom... Mães sabem o que é melhor para seus filhos. Se me pareci com uma deveria me obedecer.
De repente Edward descobriu que estava cansado demais até para voltar a erguer as pálpebras, então as deixou fechadas ao explicar para tão decidida noiva.
– Fui obrigado a tomar um prato de sopa por alguém tão autoritário quando você ou minha mãe. O doutor Morrigan não me deixou sair sem antes terminar a última colherada. Acho que ele ainda me tem como criança.
Então William Morrigan ainda era o médico da família, Isabella pensou. Conhecia-o de vista, das vezes que foi até Apple White, mas não se lembrava de seu rosto, nem no momento lhe importava. Uma vez que Edward estava alimentado, restava sanar sua curiosidade.
– Sendo assim, conte-me o que houve. Jacob me disse que não foi um acidente.
– Jacob fala demais. – Edward retrucou ligeiramente aborrecido, sem ainda olhá-la, somente deixando se aquecer pelo toque delicado em seu rosto; sentiu-lhe tanto a falta. – E está se tornando negligente, pois mandei que a deixasse aqui.
– Não seja tão rígido – ela pediu, antes de beijar o corte do lábio inferior.
Agira reflexivamente, a acarinhá-lo como às vezes fazia em Embry para consolá-lo de suas dores. Com Edward, porém, nada seria puramente inocente. Ao tentar se afastar, uma mão forte a conteve pela nuca, então se deparou com um par de olhos azuis a encará-la tão intensamente quanto acreditou ter visto pela janela.
– Quero um beijo de verdade – o barão pediu roucamente. – Não sou menino para que trate como um.
Aquela parecia ser uma característica muito particular de Isabella que confirmava sua aptidão para a maternidade, mas o barão de fato não era um filho ao qual ela soprava o rosto para acalmar um ardor, obrigava a comer, ou beijava ferimentos de leve. Não queria dela nada que fosse materno ou brando, ainda mais no dia que, por seu orgulho e destemor, desafiou a morte.
– Isso deve estar doendo muito Edward, acho melhor...
– Doeu mais ter sido obrigado a deixá-la logo depois de nosso noivado. Agora fique quieta e me beije.
Antes o primordial era conhecer o que se passou, mas não tinha como resistir a ele, então, apenas se deixou ser levada pela mão em sua nuca, até que seus lábios se tocassem. Por ela seria um beijo leve, estava igualmente saudosa, contudo, após um gemido lamurioso, Edward aprofundou o beijo que foi interrompido tão logo Isabella sentiu o gosto de sangue em sua língua.
– Veja só... Você me fez machucá-lo mais – ela ralhou. Não foi além em sua reprimenda por ouvir as batias de Marie. – Entre Marie. Deixe a água sobre o aparador, por favor.
Deixando Edward, foi ajudá-la, abrindo espaço sobre o móvel para que acomodasse a jarra fumarenta.
– Eu trouxe um bálsamo para os hematomas e álcool para as feridas – a governanta anunciou a cada frasquinho que deixava sobre o aparador. – Precisam de mais alguma coisa? Posso providenciar uma ceia leve.
– Não Sra. Newton. – Edward a dispensou e antes que ela inventasse de lhe trazer um de seus famosos chás, acrescentou. – Já jantei e fui medicado.
– Então irei deixá-los – ela inclinou a cabeça respeitosamente.
– Obrigado por fazer companhia a minha noiva.
Com as palavras do barão a mulher olhou de um ao outro antes de baixar os olhos, mal ocultando um acanhado sorriso.
– Não fiz mais do que minha obrigação milord. – ela murmurou seguindo para a porta, antes que saísse rapidamente, completou. – E... Meus parabéns pelo compromisso assumido.
Novamente a sós, após a saída abrupta de uma governanta visivelmente encabulada, Isabella passou a desabotoar as roupas de Edward, tentando ignorar o filete de sangue que saia do corte no lábio; logo o limparia.
– E então? – ela insistiu, ao retirar-lhe a camisa. – O sabotador reagiu, não foi?
– Sinceramente não queria aborrecê-la com esses assuntos – disse o barão, recostando-se contra os travesseiros.
De fato não queria. Estava cansado e não via razão para assustá-la, porém Isabella não desistiu.
– Se não me disser conheço alguém que o fará. E levante-se para que eu tire sua calça.
– E quem manda aqui afinal? – Edward troçou ao levantar.
Estava agradecido que ela se ocupasse daquela tarefa, pois seu braço doía. Obediente ele a deixou despir de sua calça, antes de liberar um bufar por saber que Isabella tinha razão. Jacob estava bem disposto a contar para ela que havia sido imprudente ao desafiar um homem armado. Fora este o argumento que o demoveu de ir à cidade para trazer o inspetor. O criado, aproveitando-se ao vê-la através da vidraça, ameaçou entrar naquele momento para delatá-lo. O barão cedeu tão somente por medo de alarmá-la, como ainda era seu intento, porém, ante a determinação dela e a conhecida tagarelice de Jacob não lhe restava opção senão relatar o ocorrido.
– Conto tudo o que desejar saber tão logo termine seu ritual de limpeza – gracejou apontando a jarra sobre o aparador.
– Combinado. – Isabella aquiesceu, enquanto arrumava as roupas dele sobre uma das poltronas. A camisa estava perdida e ver os respingos de sangue que havia nela, aguçou mais a curiosidade da moça, levando-a a rumar decidida até o aparador. – Serei breve.
Edward não respondeu. Apenas se recostou sobre o travesseiro e fechou os olhos para esperar pelos cuidados que viriam. Se houvesse uma forma de poupá-la de toda aquela sujeira, ele o faria. Estava decepcionado com a traição de Denali e descrente quanto ao caráter das pessoas; era horrível não poder confiar em alguém.
Enquanto misturava água quente à fria que já havia despejado na bacia, Isabella olhou na direção do barão e ao vê-lo de olhos fechados, com o rosto ferido, novamente sentiu um nó se formar em sua garganta. Estava odiando aquela visão. Alguém tão justo e íntegro não deveria ter inimigos que o machucassem ou tentassem prejudicá-lo. Ao testar a temperatura da água, a moça rogou que os malfeitores estivessem presos àquela hora, para que o barão pudesse descansar em paz. Secando os olhos úmidos, ela tomou a bacia e se aproximou da cama e a depositou aos seus pés.
– Edward... – chamou para que ele os colocasse na água.
Ao não obter resposta, Isabella levantou para olhá-lo. Descobrir que o barão havia dormido mal acomodado como estava; comoveu-a mais, porém não voltou a chorar. Dormindo ou não, Edward precisava dela. Determinada a cumprir seu ritual, retirou o anel de compromisso e o deixou sobre o criado-mudo, ao lado da tipoia, antes de despir suas roupas para ter maior mobilidade ao iniciar seu trabalho.
Vestida em sua combinação, colocou as pernas de Edward sobre a cama e lhe limpou os pés com a ajuda de um pano umedecido. Fez o mesmo com o rosto, retirando delicadamente o sangue que se perdia pelo cavanhaque. Correu o pano úmido também por seu pescoço, pelo peito largo, que se movia pausadamente em sua respiração regular e então pelo abdômen. Este apresentava uma leve vermelhidão que Isabella tocou delicadamente. A briga fora violenta, ela pensou e estremeceu.
Não foi deliberado, porém, ainda a tocar a pele maculada, não pôde evitar descer o olhar para a elevação sob a ceroula branca. Por um instante deliberou se deveria limpá-lo também ali uma vez que ele não o faria. Optando por sim, despiu-o parcialmente e o limpou com o pano úmido rapidamente, evitando pensamentos impróprios. Edward precisava de seus cuidados, não de sua lascívia.
Ao avistar a bandagem, toda possível excitação se esvaiu. Novamente imbuída na tarefa de limpá-lo, mais uma vez embebeu o pano em água limpa e o passou pelo braço são antes de levá-lo ao do ferido, tomando maior cuidado ao se aproximar da faixa. Aquele ferimento a consternou durante toda a tarde e enfim, Edward havia dormido sem lhe contar como o conseguira; paciência. Indo até a janela, por ela despejou a água e, após deixar a bacia no aparador, retornou à cama com o álcool e o bálsamo.
Talvez fosse o amor que a amolecia, pois nunca antes se apiedou de homem algum. Contudo naquele instante, agradeceu que Edward estivesse sedado pelo sono e não sentisse o ardor do álcool em seus machucados. Terminado o processo repetiu o mesmo com o líquido amarelado do outro vidrinho, deixou a cama e cobriu Edward cuidadosamente mesmo sabendo que ele não acordaria.
Após levar os dois frascos até o aparador e dar sua tarefa como finalizada, Isabella não soube o que fazer. Por um instante considerou dormir no quarto ao lado, por medo de machucá-lo mais, principalmente caso se agitasse durante a noite. Sim, pensou, mas logo repudiou a ideia. Não conseguiria dormir e Edward provavelmente não aprovasse sua iniciativa. De toda forma não deveria se preocupar com seus pesadelos, pois, depois de revelada sua ligação com um barão, eles não mais a atormentaram.
Com a decisão de ficar tomada, Isabella se trocou e tão logo prendeu os cabelos numa trança, foi remexer a lenha no interior da lareira. Ao deixar o atiçador em seu suporte, afagou a cabeça de Nero, apagou a lamparina e rumou para a cama onde escorregou para baixo das cobertas. Longe de sentir qualquer indício de sono, voltou-se na direção de Edward e o velou em seu sono.
Seu noivo, ela pensou tendo o coração invadido pela ternura. Esta, porém, foi suplantada por seus temores. Não tiveram a chance de conversar nem mesmo sobre eles, contudo logo aconteceria. Com a iminência de sua delação, Isabella via o quanto de entendimento precisaria vir de Edward. Não era ingênua e o conhecia bem para saber que a cada questão respondida logo ele iria à outra. Longe do calor das emoções, novamente a moça considerou o adiamento providencial.
Teria ainda que lidar com Sue, e com certo cavaleiro para que fosse deixada em paz. Não sabia o que faria com a cozinheira, mas imaginava se com ele, pudesse barganhar com sua conhecida ambição; ou não. Na verdade nada mais sabia, estava exausta. Aproximando-se de Edward, recostou a cabeça em seu braço e, após lamentar por não ter seu abraço, decidiu que falaria o que pudesse e lidaria com cada questão ao seu tempo. O destino lhe mostraria o caminho.
Apesar do cansaço, Isabella se rendeu ao sono horas depois, quando a madrugada já ia alta. Não teve pesadelos, mas sonhou que estava num lugar escuro. A despeito do calor que sentia, calafrios percorriam seu corpo e uma dor latente magoava seu centro. Não tinha qualquer entendimento do que poderia estar umedecendo compassada e calidamente seu peito, deixando-a ainda mais quente, até sentir algo muito rígido invadi-la. Então um gemido abafado a acordou de vez e se descobriu abaixo do barão que, apoiado em seu braço bom, iniciava um mover lento sobre ela.
– Edward, o que está...? – Isabella indagou confusa, ardendo em elevado desejo.
– Até que enfim!... Pensei que nunca acordaria... – o barão exalou num gemido, antes de acelerar seus movimentos.
– Edward... – ela tentou protestar, mas a voz lhe falhou. Contudo, mesmo que nem se lembrasse de como fora preparada ou já necessitasse da satisfação que ele lhe daria, esforçou-se em dizer ao tocar suas costas. – Lembre-se que está sem proteção.
– Nós nos casaremos... – foi a resposta agoniada; o hálito muito quente, assim como ele todo, soprado na lateral do rosto feminino. – Um dia terá que deixar vir meu herdeiro...
– Um dia... Não hoje... – murmurou; a preocupação se sobrepôs ao desejo quando o considerou de fato muito quente.
– Deixe acontecer, Bella... – sussurrou.
– Está delirando... Ainda não podemos... Não faça Edward...
Seu pedido foi fraco e veio juntamente com o ápice de seu desejo. Sabia que ainda era cedo para pensar em filhos, mas nada poderia fazer caso Edward insistisse. Porém, novamente atendendo seu pedido, parou e muito rouco pediu indicando sua gaveta com o olhar.
– Faça as honras...
Restou igualmente atendê-lo. Após fixar o preservativo, deixou que ele novamente a possuísse e se derramasse sem engravidá-la. Estimulada por seus gemidos, ela o acompanhou no gozo e então se deixou ficar abaixo do corpo pesado quando ambos perderam as forças. Saboreando os tremores de Edward, evitou pensar em Embry ou no quê acarretaria dar ao barão o herdeiro desejado.
– Você é louco sabia? – Isabella sorriu manso, acalmando seu coração. – Como já pensa em filhos?
– Sou louco por nós dois! – ele retrucou em seu ouvido antes de girar de lado e apoiar a cabeça na mão esquerda para com a direita, tocar o ventre descoberto. – Acordei e vi-a dormindo tão serena, tão linda, imaginei como seria vê-la com a barriga distendida, esperando um filho meu... Seremos bons pais, Bella...
– Eu já disse... – ela optou por brincar – Está delirando, pois ainda é cedo para pensarmos em filhos. Parece que com você tudo tem que ser “avançado”. Ainda nem casamos.
– Mas nos casaremos. – Edward insistiu. Deitando corretamente, girou apenas a cabeça para questioná-la, ignorando parte de seu comentário. – Por que tirou o anel que lhe dei?
Sentindo-o em seu dedo, Isabella demorou um segundo até se lembrar. Com incredulidade olhou para sua mão e então para seu noivo.
– Como não senti quando o colocou de volta?
– Fiz muitas coisas com você sem que acordasse – o barão revelou, curvando lábios e cavanhaque num sorriso tão malicioso quanto enigmático.
Ela não tinha dúvidas, pois estava praticamente despida. Antes que lhe retrucasse, imaginou que talvez a vez em que acordou nem fosse a primeira que fora possuída sem prevenção. Imaginou também a confusão que um filho deles dois geraria e se calou quanto àquele assunto, achando por bem repreendê-lo no tocante à sua saúde.
– Pois não deveria se aproveitar de quem dorme inocentemente, principalmente estando com febre. Não deve se esforçar... Nem ao seu braço.
De fato o braço doía, mas Edward não se importava. Acordou desnorteado, sem lembrar quando exatamente dormiu e encontrou seu eixo ao perceber o calor de Isabella abraçada ao seu braço. De imediato recordou todo o ocorrido, com isso mais uma vez lamentou a falta de caráter alheia. Não, não era um santo e carregava sua cota de canalhices, porém nunca em tempo algum se voltou contra àqueles aos quais declarava amizade.
Com essa certeza, deixou-se perder na face serena de sua noiva. Como ainda não havia amanhecido por completo, admirou-a na penumbra, tendo a certeza de que jamais o decepcionaria, não importando o quanto se sentisse menos afortunada ou possível causadora de futuros problemas. Com ela ao seu lado, sentia-se forte, muito capaz de enfrentar o que viesse. Também se lembrou de Jacob que, ao saírem da casa do médico, já montados em seus cavalos, abordou-o sobre o noivado.
– Então, pediu-a mesmo em casamento – ele dissera.
– Era o certo – lhe respondera, sem se importar como o amigo soube.
– Tem certeza, Sir Masen? Não quero aborrecê-lo, mas não sabe nada sobre ela. Se ao menos vossa senhoria me deixasse...
– Não Jacob – cortou-o seguro. – Não quero que a investigue. Sei que ela tem alguns segredos, mas... Sinto que não são graves, então prefiro dar-lhe tempo. Agora que Isabella aceitou meu pedido, logo será obrigada a me contar seja lá o que for. E eu prefiro que ela o faça.
– Bom, então devo lhe dar os parabéns! – Jacob desejou tranquilamente, ainda ressabiado.
– Sim, deve!... Como lhe disse esse é o certo a se fazer, pois não me imagino longe dela. Sinto-me muito pronto Jacob... Combinamos. Sei que ela será uma boa esposa, boa mãe... O que mais posso querer?
– Acredito que mais nada – seu criado sorriu sinceramente. – Foi assim que me senti ao decidir me casar com Leah.
Então, como ele duvidaria de sua decisão quando o amigo ao qual por vezes invejara, lhe dizia ter sentido o mesmo? Não havia como. Com isso imaginou-a mãe, pois a esposa ele já conhecia, e acalentou o desejo de ver sua barriga crescida. Talvez dela nascesse um filho varão que levasse seu nome e herdasse seu título.
E a vontade se tornou tão forte que, notar a falta da aliança o preocupou. Por um segundo insano pensou que ela tivesse revisto sua palavra até que descobrisse o anel sobre o criado mudo. Ignorando a dor sentou, pegou-o e o recolocou no dedo de sua noiva adormecida. O quarto estava mais claro, Nero despertou e pediu que o libertasse para suas aventuras dominicais. Voltar para a cama e tocar o rosto delicado sem que Isabella despertasse, deu-lhe ideias que logo tratou de colocar em prática.
Sim, pensou com um sorriso, havia feito muitas coisas, então, não se importava com a febre ou a dor; Isabella o curava e um filho com ela o faria muito, muito feliz.
– Não acredito que esteja rindo! – Isabella em sua fraca exasperação o trouxe da divagação. – Estou falando sério.
– Estou bem Bella, não se preocupe tanto – pediu carinhosamente. – E não fuja do assunto. Por que tirou o anel?
– Apenas para lavar seus pés e limpá-lo antes de cobri-lo, Edward – foi a breve explicação; não fora nada extraordinário como acordar sendo atacada. Não queria pensar a respeito quando Edward estava doente, tocando-lhe a testa, cogitou. – Acho melhor fazer algumas compressas para baixar essa febre. O que houve com seu braço afinal? Será que está infeccionando?
– Não creio. – Edward descartou a hipótese, como sempre apreciando os cuidados; satisfeito por saber que ela o tratou bem mesmo em seu sono. Para tranquiliza-la, falou do machucado com indiferença. – Foi superficial, praticamente um arranhão.
– Não vai me enganar Edward! – Isabella exclamou já deixando a cama e recompondo sua camisola. Ao alcançar sua pantalona, acrescentou séria. – Ninguém precisa ir ao médico por conta de arranhões e se não sabe, eu vi como estava seu braço ontem, e o estado de sua camisa.
Era um tolo por se considerar capaz de iludi-la. Preferia não contar, mas sabia não ser possível ocultar, então, sentou recostado ao travesseiro e assumindo a mesma seriedade, admitiu.
– De fato não foi algo tão simples, só não queria preocupá-la.
– Tarde demais, Edward. Estou preocupada desde que me deixou – ao falar Isabella estava devidamente composta. Quase pronta para o que viesse, indagou. – Havia mesmo um sabotador, não? E ele reagiu.
– Sim, ele reagiu... – terminou por dizer. – E não estava sozinho.
– E você brigou com os dois?!... Edward!
– Não. – Edward riu manso da admiração lisonjeira dela. – Jacob estava lá.
– Quando os vi Jacob saia para buscar o inspetor, não? – Isabella perguntou ao se encaminhar até o aparador onde despejou um pouco d’água.
– Sim. Foi essa a razão da demora – recordar reacendeu sua decepção, mas lhe diria tudo. – Com a chegada de Cooper, seguiu-se uma infinidade de vistorias pelos tonéis, colheram-se provas e depoimentos antes que Denali e Gruen fossem levados pelo inspetor e seus guardas até Westking. Eu os acompanhei para apresentar minha queixa formal. Enfim, um deles está preso, o outro eu trouxe de volta.
– De volta? – Isabella estranhou. Sentando na beirada da cama, equilibrando a bacia sobre as coxas, preparando-se para fazer as compressas. – Por que fez isso?
– Eleazar Denali me pediu perdão – respondeu fechando os olhos quando ela depositou o pano úmido e fresco em sua testa quente. – Resolvi perdoá-lo.
– Mas ele ajudou esse Gruen, não?
– Ajudou, mas alegou estar sendo chantageado. Ele, ao pedir perdão, terminou confessando que não sabia dos planos de Alec Gruen quando contratou. Soube na manhã passada quando o flagrou prestes a quebrar o primeiro tonel. Quando ameaçou detê-lo o rapaz fez a chantagem.
– Nossa! – Isabella exclamou impressionada, compadecendo-se do homem que nem conhecia por imaginar o quão fácil seria estar na mesma situação. Edward tê-lo perdoado era animador, então especulou. – Soube a razão da chantagem?
– Infelizmente. – Edward murmurou ainda de olhos fechados. – Ele estava roubando o bagaço que repasso aos fazendeiros, para vendê-lo nas cidades vizinhas.
– Sinto muito Edward! – Isabella lamentou tirando o pano quente de sua testa.
– Eu também sinto! O senhor Denali trabalha na sidreria há anos, era amigo de meu pai... Estive com ele praticamente toda a minha vida e descobri não conhecê-lo.
A decepção estava em cada palavra levando Isabella a se sentir tão desleal quanto o antigo criado; retornando o pano enxaguado e fresco à testa febril, indagou:
– Por que o perdoou?
– Eu o perdoei apenas por estar velho demais até mesmo para ser preso. E também por sua esposa que se ocupa de criar porcos no terreno que lhes cedo. Ela não tem que pagar pelos erros do marido.
– Foi um gesto muito nobre de sua parte – murmurou, correndo os dedos pela borda da bacia; o barão seria benevolente com ela?
– Não se iluda Bella – o pedido lhe trouxe um sobressalto, era como se ele novamente lesse sua mente. – Não fui magnânimo como possa lhe parecer. Apiedei-me da Sra. Denali, mas em parte. Não queria que ela se tornasse um estorvo, pois caso seu marido fosse preso ela seria minha responsabilidade, afinal seus filhos se perderam pelo mundo.
– Entendo – ela murmurou intimista; inquieta deixou a cama para pegar o bálsamo; precisava se ocupar.
– Quanto ao senhor Denali não foi a piedade que me moveu. – Edward prosseguiu sem ouvi-la. – Eu o rebaixei de posto, pois toda a consideração e confiança que depositava nele não mais existem. Mas não o demitiria, pois o quero sob minhas vistas. Não poderia deixar alguém que conhece tanto sobre minha sidreria livre para ser novamente usado contra mim.
– Acha que tentarão novamente? – Isabella tentou se concentrar no assunto. Depositando a bacia sobre o aparador, passou a separar os paninhos que usaria e comentou. – Você disse que o outro está preso.
– Sim, ele está preso, mas não entregou o mandante. – Edward sibilou, retirando o pano de sua testa, aborrecido. – E o cretino com certeza tentará algo.
Ao final do relato, feito em tom raivoso, Isabella comentou solitária.
– Uma pena... E você tem um suspeito? Seria alguém que trabalha para você e por isso não o delataram?
– Não... – o barão ciciou, quando ela já voltava com o frasquinho e um pano branco. – O traidor não disse, nem eu pude nomeá-lo para não incorrer calúnia, mas tenho certeza que o mandante é Laurent Hunt.
Ao ouvir o nome, os sentidos de Isabella falharam por um segundo, levando-a a estacar e deixar cair o que tinha em suas mãos. Deixou sua decisão nas mãos do destino e ele prontamente lhe indicava o que viria; uma nova separação incitada por Laurent Hunt.
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SPOILER
Com o atabalhoamento de sua noiva, imediatamente Edward olhou em sua direção para descobri-la pálida e trêmula. A cor, então, voltou violentamente ao rosto exangue, levando-o a franzir o cenho e questionar desconfiado:
– Você o conhece?
– Eu o vi algumas vezes... – ela respondeu rapidamente, abaixando-se para recolher o que derrubou. Ainda agachada, a sorver o ar pausadamente, acrescentou: – Esse cavalheiro é dono de uma das fazendas de Wisbury, praticamente todos o conhecem.
– Aquele pulha não é nem nunca será um cavalheiro. – Edward vociferou ainda descrente das palavras dela. – Conversaram alguma vez?
Após um pigarro, a moça se levantou e, dando demasiada atenção ao dobrar do pano que derrubou, respondeu:
– Duas ou talvez... Três vezes, à saída da missa – ela havia sido interpelada por ele todas aquelas vezes antes mesmo do final da pregação, então não mentia. Caso Edward se aprofundasse no assunto seria obrigada a fazê-lo, então tentou tirar o foco de si. Encarando-o como sabia que ele apreciava, indagou: – Por que acha que ele mandaria alguém sabotar sua sidreria?
– Porque Hunt me detesta, assim como eu a ele – a resposta foi seca, enquanto Edward lhe perscrutava rosto ao se aproximar.
– Entendo... – Isabella murmurou, ocupando-se de embeber a ponta do pano com bálsamo trazido.
Aquela novidade ofuscava seus planos. Como se não bastasse todos os impedimentos, agora tinha aquele desgraçado que lhe infernizava a vida a se interpor também entre ela e o barão. No momento não sabia mais o que pensar, então tratou de apenas cuidá-lo.
– Desculpe se fizer doer. – Isabella pediu ao tocar o hematoma do queixo. Muito consciente do olhar avaliador sobre ela, arriscou: – Talvez possa estar errado, não?
– Não há a mínima chance. – Edward assegurou quando ela passou a espalhar o líquido sobre seu abdômen. – Infelizmente agora serei obrigado a desconfiar de todos, pois se até mesmo o Sr. Wallace, que conhecia desde sempre, foi capaz de me trair, o que esperar das outras pessoas. Aquele canalha pode usar qualquer um para me atingir.
– Odeiam-se tanto assim? – Isabella perguntou num fio de voz.
– Mais do que você possa imaginar! – Edward, ao comentar, segurou-lhe o pulso. Com sua veemência ela o encarou antes que acrescentasse: – O que começou com uma antipatia gratuita e imediata, acabou ganhando força até que chegamos a isso. Acredito que para me destruir ele seja capaz de ir muito além de arruinar minha safra.
À medida que a intensidade dos olhos azuis crescia o coração de Isabella minguava em seu peito. Conhecia bem o quanto aquele cavalheiro era capaz e no momento começava a duvidar que conseguisse barganhar com sua ambição quando soubesse que ficaria ao lado do barão depois de violentamente o rejeitar. Para massacrar seu coração de vez, Edward concluiu:
– Ele seria capaz de tirar minha vida.
– Edward... – ela murmurou, sufocada em seu alarme. – Isso não!
– A prova está aqui – o barão, impassível, soltou-lhe o punho para apontar o braço enfaixado. – Por sorte fui atingido de raspão, mas o tiro poderia ter sido certeiro.
– Um tiro! – Isabella exclamou e saltou da cama como se ela própria lhe pudesse fazer algum mal. – Ai meu Deus!
Aflita, lutando contra as lágrimas e o sufocamento, a jovem passou a andar de um lado ao outro, torcendo os dedos nervosamente. Sim, conhecia a covardia de Laurent Hunt, mas nunca o imaginou capaz de matar. Tomar conhecimento do quanto seus instintos ruins poderiam ser ainda piores, justamente num atentado contra Edward, parecia ser sua resposta; talvez a separação fosse a única saída, pois mais uma vez, aquele pústula ameaçava alguém que amava.
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