Borboleta Negra
56 Capítulo Vinte e Quatro - Parte II
Notas iniciais
A caminho da estação, Edward mantinha os olhos sobre mãe e filho. Ela a olhá-lo enlevada enquanto mantinha um dos braços nos ombros pequenos, ele a segurar protetoramente uma lata velha sobre o colo. O barão notara que, desde as despedidas finais, o menino apresentava certa reserva. Natural visto que ele próprio a sentia. Não estava habituado a crianças, sendo que as últimas com as quais conviveu foram suas irmãs – e a própria Isabella, vez ou outra – antes que fosse para Londres.
Teria que aprender o que fazer ou dizer, assim como aprender a ser pai de um menino com quase oito anos. Uma criança bonita como salientara a orgulhosa mãe, de fato inteligente.
Ainda a repará-lo, notou a simplicidade da calça curta – própria aos meninos daquela idade – assim como reparou no quanto o casaco marrom lhe ficava justo. Como o reitor salientou, num internato meninos não costumavam ter muito de seu, e Embry não fugia a regra. Subitamente incomodado com as privações materiais com as quais seu irmão – filho – conviveu até ali, alcançou a mala que lhe foi entregue e, sem nada dizer, abriu-a.
Imediatamente Embry ergueu os olhos para a mãe que igualmente o encarou, para sorrir tranquilizadora antes de voltar os olhos para o barão. Este se mantinha a analisar o conteúdo da mala com o cenho franzido. Logo revirava o pouco que via com evidente desagrado. Ao erguer uma camisa que considerou pequena demais mesmo dobrada, indagou diretamente para a criança.
– Isto lhe serve?
– Não senhor – respondeu num murmúrio, voltando a encarar a mãe.
– Dei essa camisa para ele no ano passado – Isabella revelou. – Por certo há muito tempo deixou de servir.
– Não deveria estar aqui então... – ele retrucou, voltando a remexer nas roupas velhas do menino; todas em bom estado, indicando o pouco uso. De bons tecidos ainda que de cortes simples, e notoriamente perdidas. Sem nem pensar comentou: – Ele precisará de novas roupas.
– Quando chegarmos a Wisbury, poderei comprar novas roupas para... – ao receber um duro olhar, Isabella se calou.
– Eu comprarei roupas novas para ele aqui mesmo – Edward anunciou, fechando a mala e a depositando de volta ao piso da carruagem.
– Dará tempo? – indagou a moça; não se atrevendo a insistir. – Poderemos perder o trem de volta.
– Temos algum tempo – retrucou o barão. Para seu novo filho, indagou seriamente: – Gostaria que eu lhe comprasse roupas novas?
– Senhora? – Embry pediu permissão à mãe; esta o liberou com um manear de cabeça. Somente então o menino encarou o barão para responder. – Sim, se não for incomodá-lo senhor.
– Não incomoda – afirmou. E uma vez que a partir dali seria o pai, decidiu que a obediência imediata deveria ser dirigida a ele. – Embry... Agora que estamos juntos, deve responder o que quer que lhe pergunte, imediatamente... Sem procurar pela aprovação de sua mãe, fui claro?
Por reflexo o menino moveu a cabeça para a moça ao seu lado, porém, logo encarou o homem a sua frente e assentiu.
– Sim senhor.
– Muito bem! – parabenizou-o sem sorrir. Para Isabella falou. – Prefiro comprar o que ele precisa aqui. Não será muito, apenas o básico. Há muitas lojas numa rua próxima ao Hyde Park.
– Sendo assim... – ela anuiu; refreando o contentamento por ter mais algumas horas com Edward e Embry longe do que os esperava em Apple White.
Após tocar sua bengala contra o forro da boleia, indicando ao cocheiro que parasse, Edward saltou para ditar o novo itinerário.
– Ele está bravo comigo? – O menino perguntou à mãe, ao ficarem sós.
– Não meu querido – Isabella tentou acalmá-lo, feliz por tê-lo ali, ao seu lado, fora de Saint Joseph. – Estarmos todos juntos é novo para ele também. Apenas o obedeça e respeite como lhe pedi, e tudo ficará bem.
Embry lhe sorriu confiante, porém ao notar a iminente volta de Edward, retornou à seriedade e se manteve ereto sobre o assento, apertando sua lata sobre as coxas. O barão reparou que o clima entre mãe e filho havia mudado com sua aproximação, porém não se ressentiu; era cedo para ambos.
– Está tudo acertado.
Isabella apenas assentiu, sorrindo ao barão antes de beijar os cabelos do filho. A delicadeza materna recordou a Edward todas às vezes nas quais a moça o tratou como a um menino, quando, inocentemente considerou que ela seria uma boa mãe. Antes do que pudesse prever tinha a prova. Não admirava o menino ser “apaixonado” por ela, mesmo sendo mantido longe; decididamente dividiam o mesmo sangue, observou.
– Senhor... – Embry começou após uns instantes em silêncio. Quando Edward o encarou, ele indagou incerto. – É mesmo um barão?
– Sim, eu sou... – respondeu seriamente.
O menino ergueu as sobrancelhas, talvez em admiração; Edward não identificou. O silêncio novamente se instalou até que em poucos minutos Embry novamente perguntasse:
– Conhece a rainha?
– Conheço... – Edward assegurou. E testando o interesse acrescentou. – Um dia você também conhecerá.
– Eu?! – Embry arregalou os olhos. – De verdade?!
Foi impossível não rir, mesmo que mansamente, da incredulidade infantil antes que confirmasse:
– De verdade!
– Ouviu isso senhora? – Embry se voltou para encarar a mãe, ansioso como se o encontro com a monarca se desse dali a instantes. – Vou conhecer a rainha!
– Sim, eu ouvi meu querido – Isabella lhe sorriu, aproveitando para tocar o rosto iluminado por um sorriso amplo.
– Meus amigos não vão acreditar! – O menino exclamou a nenhum dos dois em especial, intimista.
Naquele instante a moça reparou que a mente infantil ainda não havia entendido que sua saída de Saint Joseph fora definitiva. Talvez Embry acreditasse que algum dia voltasse para rever os amigos; não aconteceria. Por um momento ela cogitou desfazer o mal entendido, mas optou por deixá-lo perceber naturalmente. Apertando-lhe a ponta do nariz, lembrou-o apenas.
– Acredito que esse encontro não seja em breve. Até lá tem que aprender a se comportar diante da rainha. Não estou certa? – perguntou diretamente ao barão.
– Está – ele reiterou, percebendo a decepção nos olhos azuis do menino, confirmando assim a impressão quanto ao imediatismo infantil. – Hoje nosso tempo é limitado. Faremos as compras e depois iremos direto à estação.
– Sim, senhor... – Embry murmurou, mirando a lata em seu colo; seu entusiasmo extinto por completo.
A expressão consternada do menino compadeceu os adultos a sua volta que sorriram condescendentes até que seus olhares se cruzassem. Sim, a tensão entre ambos cedera consideravelmente, porém não se esvaíra, levando-os à seriedade de imediato.
Sem novos temas, cada qual seguiu a cismar em seu lugar, até que o cocheiro parasse diante da loja indicada pelo barão.
– Venham... – chamou já a abrir a portinhola.
Com um sorriso encorajador, Isabella indicou a saída ao filho. Edward o ajudou a saltar para então segurar os dedos da moça.
– Escolha o básico que considerar necessário – recomendou sem liberá-la, encarando-a significativamente. – Sem reversas...
– Obrigada! – agradeceu sinceramente; intimamente ansiosa por, pela primeira vez, poder escolher roupas para seu pequeno sem ser preciso adivinhar-lhes a medida.
Entre emocionada e expectante, Isabella segurou a mão de Embry e o conduziu ao interior da loja, sendo seguida de perto pelo barão; circunspecto a analisá-los, segurando sua cartola e bengala.
Sabendo da limitação de tempo, a jovem tratou de pedir à atendente que veio recebê-la, o que considerava necessário. Edward passou a assistir, de longe, as escolhas que Isabella fazia, sempre experimentando o que lhe era apresentado diante do corpo de Embry. O menino lhe parecia muito satisfeito em servir de manequim para a mãe, olhando-a enlevado. Quando ela se abaixava, ele logo tratava de tocar-lhe os cabelos; de Yasmim, como citou na carta.
Com a lembrança, Edward se enterneceu pelo irmão, considerando o quanto o menino estaria feliz por finalmente se vir livre do castigo imposto. Isabella igualmente se mostrava muito satisfeita e, para o bem deles todos, claramente disposta a colaborar com sua decisão. Aquele era o caminho certo, pensou seguro. Bastava agora ver como seria quando chegassem a Apple White. E estava ansioso por descobrir. Após conferir as horas em seu relógio, avisou:
– Os minutos estão correndo ligeiros, apressem-se.
Pela primeira vez desde o início das compras, Isabella olhou em sua direção. Sorrindo-lhe brevemente, assentiu, indicando seu entendimento.
– Acho que isto é tudo – disse à atendente. – Poderia me dizer quanto...
– Isto é mesmo tudo? – Edward perguntou às suas costas, assustando-a; há um segundo estava afastado alguns passos.
– Sim... – respondeu, domando o coração.
– Então daqui eu assumo – disse o barão, voltando-se para a moça que a atendia, indagou – Quanto lhe devo?
– Em um instante cavalheiro... – ela murmurou, conferindo seu bloco de anotações, somando.
Isabella não deixou de reparar a falta de correção por parte de Edward ao tratamento equivocado. A atendente não tinha como saber se tratar de um barão e ele, como o nobre despretensioso que era não alardeava seu título. Como não admirá-lo?
– Aqui senhor... – disse a jovem ao entregar a nota e, indicando seu patrão; um senhor sentado atrás de um balcão afastado, acrescentou: – Ele receberá enquanto preparo os embrulhos.
Tão logo Edward se afastou a moça voltou os olhos para Isabella e comentou com um sorriso, um tanto corada.
– Seu filho se parece com seu marido, deve estar feliz com isso.
Isabella desceu os olhos para Embry e então seguiu o barão com o olhar, vendo-o se aproximar do senhor indicado. Ao encarar a moça, sorriu, sabendo que na verdade o comentário seria outro caso não incorresse em indiscrição. Silenciosamente dividindo com ela a admiração pela beleza de Edward, indiretamente repassada ao seu pequeno, anuiu:
– Sim, estou muito feliz com a semelhança.
A atendente ampliou o sorriso e tratou de embalar as peças escolhidas. O barão logo estava de volta e em poucos minutos, deixavam a loja com novas roupas para o novo baronete.
O restante do percurso, novamente se deu em silêncio, porém não mais tenso como o anterior. Chegaram à estação com folga, sendo necessário esperar pela composição. Daquela vez, não houve problemas para encontrar cabines separadas; seria melhor daquela forma, pensou o barão. Afinal, mãe e filho deveriam ter privacidade, assim como ele próprio. Ao comunicar a divisão, Isabella disse apenas:
– Como queira...
A moça tinha o menino ao seu lado; ambos sentados no banco da plataforma de embarque. Então apenas o abraçou mais, agradecida que ele estivesse ali para distraí-la da separação. Por todo o tempo imaginou que a volta se desse como na vinda até Londres, agora com todos juntos. Ao que parecia ainda era cedo demais; paciência ordenou a si mesma.
– Quero ver a tia Angela – Embry exclamou subitamente, quebrando o silêncio.
Imediatamente Isabella procurou por Edward, sem saber o que dizer. Percebendo sua aflição, o barão respondeu em seu lugar.
– Ainda não verá Embry.
– Não? – estranhou o menino. – Por quê? Não estamos indo para casa? E Sam?
– Você verá todos eles, depois – Edward assegurou e, intrigado com a memória do garoto, perguntou – Você se lembra deles? De verdade?
Embry torceu a boca, pensou por um instante correndo o dedo indicador sobre a tampa de sua lata velha, então foi sincero.
– Lembro um pouco, senhor... Mais dos nomes.
A revelação trouxe alívio ao coração de Isabella, pois sempre quis que as lembranças dele se esvaíssem de vez. Contudo comemorou cedo demais, descobriu ao ouvi-lo acrescentar:
– Lembro de Sam que levantou minha senhora quando ela estava machucada.
– Embry, por favor, esqueça isso – ela pediu roucamente.
Edward apertou o punho de sua bengala, assim como Isabella, odiando Hunt um pouco mais; como se fosse possível. Odiava também ter estado distante daqueles fatos ocorridos tão próximos, com pessoas – direta e indiretamente – ligadas a ele, sem que nada pudesse fazer para evitá-los. Ao que via o que passou afetou seu irmão de forma irreversível. Lamentava pelas imagens povoavam sua mente, com isso fez coro ao pedido de Isabella.
– Esqueça isso. Sua mãe nunca mais será machucada. Quanto a ver pessoas que pouco lembra, saiba que isso se dará depois, como lhe disse... Perguntou se estava indo para casa, digo que sim, porém não aquela que morava antes... Você irá para a minha casa, que a partir de agora também é sua... – encarando a moça comovida ao lado do menino, concluiu – e de sua mãe também.
Isabella refreava sua comoção quando ouviram o apito do trem. Edward imediatamente se pôs de pé; também afetado por suas próprias palavras. Alheio ao que se passava no íntimo dos adultos ao seu redor, Embry indagou:
– Sua casa é grande senhor?
– Um pouco, sim... – Edward respondeu vago, sem conseguir desviar os olhos da moça ainda abraçada ao menino.
– Com quem dividirei o quarto? – especulou a criança e logo em seguida acrescentou, distraído. – Antes éramos quinze. Michael dormia ao meu lado... Quando a irmã Nelly apagava a lamparina, ficávamos conversando baixinho.
– Bem... Agora terá um quarto só seu. – Edward anunciou, finalmente encarando o menino.
– Um quarto só para mim?! – Novamente Embry maximizou os olhos azuis, porém não com o mesmo espanto entusiasmado de antes. – Como será depois que apagarem a luz?
– A luz poderá ficar acesa meu querido... – Isabella o tranquilizou, exatamente quando outro apito foi ouvido e o trem pôde ser visto.
– Vamos! – chamou o barão, não satisfeito que ela alimentasse os temores do menino, apaziguando-os; aquele era outro tema que somaria a outro que já o arreliava.
Com a aproximação da composição, o barão os exortou para que se aprontassem e, deixando que Isabella levasse a própria bolsa e os bilhetes, lidou com sua maleta e os embrulhos de Embry até que os deixasse acomodados na cabine que mãe e filho dividiriam.
– Ficarei em minha cabine até partirmos, depois virei buscá-los para o almoço.
Embry, já sentado sobre a cama apenas olhou de um ao outro.
– Estaremos esperando – Isabella assegurou, apertando os próprios dedos nervosamente.
Edward apenas assentiu e se foi, deixando-os a sós.
– Nunca viajei de trem – Embry falou olhando tudo a sua volta, distraindo sua mãe que lhe sorriu enternecida.
– Apenas não se lembra – ela comentou, perguntando-se como ele poderia ter esquecido sua ida até Londres, enquanto, o que deveria de fato esquecer mantinha fresco em sua memória. – Quando o trouxemos viajamos em um trem como este.
– Ah... – ele exclamou desinteressado, deixando a cama para olhar pela janela. – Quantas pessoas!
Bendita fosse a inocência infantil, Isabella agradeceu em pensamento, sentando-se numa das poltronas para admirar a curiosidade de seu pequeno; estavam juntos! Edward poderia estar estranho, ainda magoado e culpando-a pelo que quer que fosse, mas sempre lhe seria grata por proporcionar a ela aquele instante de extrema felicidade.
– O que me diz de experimentar uma das roupas novas para o almoço? – sugeriu ansiosa por trocá-lo como há anos não fazia; sentindo-se livre para ser mãe.
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– Estão bem instalados? – Edward perguntou enquanto dispunha o guardanapo sobre o colo tão logo foram servidos; satisfeito em ver que Isabella teve o cuidado de trocar as roupas do menino.
– Estamos sim... – ela respondeu, depois de estender também o guardanapo sobre as coxas de Embry. – E você?
– Sim, obrigado – disse, segurando seus talheres para iniciar a refeição.
– Espere! – Embry o refreou e então encolheu os ombros ao ser encarado pelo barão que mantinha o cenho franzido.
– O que houve? – indagou.
– Embry...? – Isabella o encorajou a falar.
– É que não fizemos a oração... – ele os lembrou timidamente.
– Ah, sim... – Edward ocultou um sorriso genuíno pela preocupação da criança. Depois de baixar os talheres, pediu: – Faça as honras.
O menino olhou para a mãe brevemente, antes de retirar o guardanapo de seu colo e se pôr de pé ao lado da mesa, o rosto muito corado. De mãozinhas postas recitou:
– Abençoai, Senhor, os alimentos que vamos tomar. Que eles renovem as nossas forças para melhor vos servir e amar. Amém!
Tão tímido quanto ao se levantar Embry se sentou, olhando um e outro de soslaio reacomodou o guardanapo sobre suas pernas e esperou até que eles iniciassem. Escolheu uma das colheres dispostas ao lado do prato para comer sua refeição, indicando ao irmão mais velho e à sua mãe a necessidade de lhe ensinarem a manejar garfo e faca.
Talvez envolvidos pela religiosidade que o menino trouxe ao almoço, nada mais foi dito. Edward e Isabella se olhavam vez ou outra, e, quando seus olhares se cruzavam ela tratava de baixar os olhos rapidamente, ou corrê-los para o filho. Este igualmente os analisava, a mãe com o já conhecido enlevo, o barão com reserva e curiosidade.
– O que gostariam de ter para a sobremesa? – Edward indagou aos dois, ao término da refeição.
– Sobremesa? – Embry uniu as sobrancelhas, olhando de um ao outro. – O que é isso?
– A recompensa por ter comido tudo – a mãe gracejou, piscando para o menino. – Pode escolher uma fatia de bolo ou torta... Ou ainda uma fruta embebida em calda doce.
– Posso?! – Os olhos de Embry brilharam. – De verdade? Só comemos bolos ou tortas no café da manhã ou no lanche da tarde.
– Hum-hum... – foi tudo o que Isabella conseguiu responder, comovida em ver a alegria do pequeno; ainda lhe parecia insólito tê-lo ali.
– Então aceito uma fatia de torta, senhor... – disse a Edward, quase solene.
O barão assentiu com a cabeça, sem deixar de analisar as reações da moça ao seu lado, confirmando em cada gesto, olhar ou suspiro mais profundo, o quanto amava aquele menino. Naquele instante, quando se enternecia com sua boa educação e reações infantis, conseguia entendê-la um pouco mais, reduzindo significativamente seu ressentimento. Embry inspirava o instinto de proteção e carinho.
Após acenar ao garçom que os atendia, esperou que este viesse e fez os respectivos pedidos baseado no cardápio ao seu lado. Logo cada qual tinha sua “recompensa” diante de si. Comeram em silêncio, com Embry vez ou outra sorrindo timidamente para a mãe. A ligação entre eles era palpável, Edward podia senti-la.
– Vamos – o barão os chamou ao notar que, assim como ele, haviam terminado.
– Vamos... – Isabella assentiu ameaçando se pôr de pé.
– Esperem... – Embry os deteve, e daquela vez, sem explicar ou esperar por comandos, levantou-se e recitou: – Nós Vos damos graças, Senhor, pelos vossos benefícios, a Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amém!
– Amém! – Edward e Isabella repetiram antes de finalmente deixarem a mesa.
Orgulhosa do cuidado de seu pequeno, Isabella lhe tomou a mão para saírem. Percebeu que como na ida para Londres, chamavam a atenção, porém de poucas pessoas. Ao deixar o vagão, a moça se perguntava se estas reconheciam o barão e estivessem especulando quem seria ela e o menino. Apenas não se preocupou com a possibilidade, pois recordava da questão colocada por Edward, sobre todos ocultarem seus próprios segredos. E não havia volta, agora era lidar com o que viesse.
Sem soltar a mão de Embry, Isabella seguiu às costas de Edward que apenas segurou sua mão para ajudá-la na travessia entre os vagões; sem nada dizer. O nobre lhe parecia mais taciturno do que antes e, ao chegarem às cabines, confirmou sua impressão ao recomendar:
– Descansem... Estarei na minha cabine caso precise de alguma coisa. – Para Embry falou: – Espero que esteja gostando do passeio.
– Estou, sim, senhor... – disse o menino, sincero, educado. – Obrigado!
De fato um primor, Edward pensou ao deixá-lo. Isabella poderia acalmar seu coração quanto ao seu sentimento para com o irmão. Ainda era estranho, mas sentia que com o tempo acostumar-se-ia a ele.
Uma vez em sua cabine, o barão despiu o paletó. Depois de acomodá-lo no espaldar da poltrona, retirou um livro de sua maleta, assim como seu pincenê e se acomodou na poltrona ao lado, tencionando distrair-se. Precisava de paz para seus pensamentos e as muitas emoções que o visitavam.
Na cabine ao lado, Isabella ajudava o menino a despir o casaco de lã e a descalçar os sapatos, deixando-o à vontade para se esticar na cama que dividiriam.
– Está mesmo gostando do passeio? – Isabella perguntou apenas para ouvi-lo, pois sabia que sim.
– Estou, sim, senhora... – repetiu o que disse ao irmão mais velho, acomodando-se sobre a cama depois de recuperar sua lata, mantendo as costas eretas contra um dos travesseiros. – Aqui é divertido!
– É sim, meu querido...
Para ela estava sendo a melhor viagem de todas, reconheceu com o coração inflado no peito. Seu contentamento sofreu um pequeno abalo ao ver o menino apagar seu sorriso para indagar, incerto.
– Por que não vamos para a outra casa? A sua casa? Com tia Angela, Sam e suas amigas?
– Porque agora seu pai está de volta – ela disse brandamente, entendia o receio da criança. Para animá-lo, acrescentou: – Não era isso que queria?
– Era... – ele respondeu, correndo o dedo pela tampa da lata. – Mas eu pensava que moraríamos na nossa casa. Não sei se vou conseguir dormir sozinho... E se alguém apagar a luz?
– Não precisa ter medo do escuro, meu amor... – Isabella se compadeceu e imediatamente, já saudosa, foi se sentar ao lado do menino apertá-lo junto a si.
– Não tenho medo do escuro – ele retrucou quase ofendido para logo em seguida murmurar. – Só de ficar sozinho...
– Bem... – ela reprimiu um sorriso condescendente pela coragem limitada. – Se esse é todo o problema, nos primeiros dias poderei ficar com você até que durma. E também temos Nero. Se vocês ficarem amigos ele poderá lhe fazer companhia.
– Nero? – Embry perguntou, olhando para a mãe com interesse. – Quem é ele?
– Nero é um cachorro e...
– Na casa do meu pai tem um cachorro?! – Os olhos do menino brilharam ansiosos, indicando à sua mãe que as pessoas amigas ficaram esquecidas no momento.
– Tem sim... – ela sorriu ao vê-lo sorrir. Para maximizar a alegria, revelou: – E tem cavalos...
– Cavalos?! – Embry então deixou a lata de lado para se ajoelhar ao lado da mãe e encará-la de frente. – De verdade senhora?
– Sim... – ela confirmou, comovendo-se com tamanho entusiasmo. – Muitos deles...
– Ah! – Embry exclamou antes de se atirar contra ela e abraçá-la. – Está melhor do que eu pensei... Obrigado!
Isabella apenas o abraçou de volta, apertado contra seu peito, ciente de que não havia feito nada para merecer o agradecimento. Quem daria ao menino todas as coisas que desejou seria seu irmão, para todos os efeitos agora seu pai. Gostaria de ter sido ela a fazê-lo, porém não se ressentia por não ser.
Para Isabella importava ter Embry, ali, na volta de seus braços, cada vez mais longe de Saint Joseph para onde nunca mais voltaria, a caminho de um lugar que era o paraíso para crianças imaginativas como ele; onde correria entre árvores, tendo um cachorro velho a segui-lo e onde estaria perto de seus amados cavalos. O que mais uma mãe, especialmente uma como ela, poderia querer?
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Edward despertou com um baque surdo. Ainda confuso, descobriu ter sido pela queda do livro que sequer chegou a ler; não que recordasse. Tudo indicava que havia dormido ao se recostar. Estava exausto, teve que reconhecer; física e emocionalmente. Tanto que dormira praticamente a tarde inteira, com o pescoço em ângulo incômodo que agora deixava uma dor fina e persistente em sua nuca; perfeito! Ironizou ao retirar o pincenê e se levantar.
Depois de recolher o livro e guardá-lo juntamente com os óculos, foi espiar pela janela. As copas escurecidas das árvores corriam depressa indicando que a composição seguia quase em sua velocidade máxima. Bom. Quanto antes chegasse a Watlin e desse seguimento ao seu plano, melhor.
Com um suspiro profundo, o barão foi acender a lamparina e então olhou em volta. Era estranho estar sozinho e logo a curiosidade em saber como Isabella e seu irmão haviam passado a tarde instigou-o a ir até eles. Como as cabines eram vizinhas, dispensou seu casaco, apenas correu as mãos pelos cabelos e saiu. Logo batia levemente contra a porta da cabine ao lado. Bateu uma vez mais e ao não obter resposta, sentindo o peito apertado, abriu-a.
Conscientemente sabia que Isabella não desaparecia com o menino, porém sua mente já calejada lhe soprou que mãe e filho poderiam ter desembarcado em alguma das paradas enquanto ele dormia. A impressão fora tão forte que o alívio ao descobri-los abraçados sobre a cama, dormindo, o sufocou por um instante. Imediatamente após o comoveu, levando-o a recuar até que se sentasse numa das poltronas para admirá-los, mesmo na penumbra daquele final de tarde.
Quão perfeito seria caso aquela cena se desse dali a alguns anos e o menino adormecido sobre a mulher que amava fosse de fato seu filho? Saboreava sua versão de acontecimentos impossíveis quando Isabella abriu os olhos e, após sorrir amorosamente ao menino sobre seu peito, encontrou-o a encará-los.
– Oi... – ela murmurou, como na noite anterior, quase emudecida pelo susto ao ver o barão na cabine escurecida.
– Oi... – ele respondeu roucamente antes de se por de pé. – Não quis acordá-la, perdoe-me.
Sem mais palavras, Edward se foi antes que Isabella pudesse detê-lo. Parecia ainda mais distante, acirrando a curiosidade mórbida da moça. Decidida a descobrir qual a razão da visita estranha, ela deslizou cuidadosamente para fora da cama e acomodou Embry sobre um dos travesseiros. O menino resmungou e se moveu, porém não despertou.
Isabella ainda esperou alguns instantes até se certificar que ele não acordaria. Ao considerar seguro deixá-lo, saiu de sua cabine para bater contra a porta de seu sorumbático vizinho.
– Pois não? – a voz soou aborrecida.
A moça testou a porta que abriu facilmente. Somente ao entrar anunciou:
– Sou eu Edward.
O barão estava sentado sobre a cama, parecia apertar o ombro esquerdo antes que se voltasse para encará-la.
– Lamento por acordá-la – disse franzindo o cenho; realmente surpreso, pois não imaginou que ela o seguisse. – O que deseja?
– Vim saber como você está – foi direto ao ponto, aproximando-se cautelosamente até se sentar em uma das poltronas. – E também saber se “você” deseja algo, pois esteve na nossa cabine.
– Fui ver se estavam bem, se não precisavam de algo... – respondeu antes de voltar a olhar pela janela, pela fresta que abriu entre as cortinas. – Deveria ter saído imediatamente ao ver que tudo estava de acordo.
– Tudo estaria de acordo caso nós dois não estivéssemos assim... – ela murmurou.
– Isabella... – ele começou.
– Tempo, eu sei! – ela se adiantou a ele. – Temos todo o tempo do mundo agora, estamos juntos como disse que ficaríamos, mas eu queria que entre nós não existisse essa nuvem densa e escura.
– Um dia ela se dissipará – Edward afirmou; queria acreditar que sim.
– Espero que seja breve... – ela novamente murmurou. Desistindo de forçá-lo e, verdadeiramente preocupada pela insistência dele em apertar o ombro, indagou: – O que aconteceu ao seu pescoço?
O barão agradeceu a mudança de assunto, olhando-a mais uma vez, respondeu:
– Como vocês, eu também dormi após o almoço, mas aí, nesta poltrona.
– Tire a gravata, o colete e afaste a camisa – ela pediu ao se levantar. – Deixe-me ver isso.
– Não há necessidade – negou o barão, sem se mover.
– Deixe de bobagem. – Isabella insistiu mansamente já aos pés da cama. – Faça como pedi e vire suas costas para mim.
Edward não deveria atendê-la, pois sabia o que viria quando Isabella movesse seus dedos delicados em si, porém se viu a obedecê-la. Desfez-se da gravata e do colete antes de descer o suspensório e desabotoar o colarinho. Optou por retirar toda a camisa e esperou.
Ao ter os ombros largos diante dos seus olhos, Isabella conteve a respiração por um segundo. Logo esfregava as mãos uma na outra para aquecê-las, demandando a si mesma que fosse ela a deixar de bobagens. Já havia visto muito mais do que aquele pedaço de pele do barão para se abalar daquela maneira. Com um suspiro resignado, calando suas questões por vê-lo distante, tocou onde antes ele apertava. Soube ser o ponto certo ao retesar dos músculos.
– Perdoe-me... – pediu, porém sem deixar de correr os dedos pelo local.
– Não por isso... – Edward respondeu por reflexo.
De toda forma, ela não poderia se desculpar sempre por afetá-lo ao mais leve toque. Fechando os olhos, o barão deixou que ela massageasse a curva de sua nuca. O fim poderia ser terapêutico, contudo, como não poderia deixar de ser, logo os pelos do nobre se eriçavam e calafrios irrefreáveis lhe corriam a coluna. E sem qualquer relação direta ao ombro, a boca do barão ansiava por um beijo; seu corpo todo pedia por mais daquilo que parecia um carinho compassado e firme.
– É melhor parar Isabella... – opinou roucamente.
– Num instante – ela anunciou.
Sim, sabia que não poderia abusar da sorte, afinal Embry estava ao lado e logo despertaria, porém também sabia que o barão jamais seria indiferente a ela, mesmo que estivessem distantes. E, talvez, aquele fosse o caminho para dissipar de vez a bruma negra que os envolvia. Então não queria se afastar quando juntava coragem suficiente para aventurar-se mais. Sem deixar de tocar-lhe a pele morna, correu os dedos pela linha do cabelo bem aparado.
– Isabella...
Edward ameaçou levantar ao notar a intenção, porém ela se curvou sobre ele, descendo as mãos espalmadas até seu peito, para abraçá-lo pelas costas.
– Espere! – Ela pediu, antes de beijar o ponto onde o massageou, galvanizando-o. – Não o agradeci por tudo o que está fazendo por mim...
– Sei que está agradecida – retrucou muito rouco; o corpo já desperto, aquecendo-se mais ao recordar outro agradecimento. – Bella...
O grito de uma criança veio calá-lo. Antes que recordasse a presença de seu irmão, os carinhos e os beijos da moça lhe foram tomados sem prévio aviso. Edward se voltou em tempo de vê-la deixar a cabine sem fechar a porta ou olhar para trás.
Naquele instante, mais do que em qualquer outro até ali, o barão deve consciência da grandiosidade do passo irreversível que havia dado. Não deveria somente aceitar e se afeiçoar ao irmão que tomou por filho; deveria também aprender a dividir com ele, aquela que amava.
Alheia às tardias considerações do barão, Isabella entrou em sua cabine no momento exato em que Embry a chamou.
– Senhora!
– Aqui... – ela disse apressada, indo até a cama para abraçá-lo.
– A senhora me deixou! – acusou choroso a apertá-la. – Novamente me deixou!
– Não meu querido... – ela murmurou, acariciando-lhe os cabelos para acalmá-lo. – Nunca mais, Embry, nunca mais... Não precisava se assustar.
– Eu não sabia onde estava... – ele explicou com a voz trêmula. – A cama balançou... E estava escuro.
– Evidente que balançou meu querido – ela riu mansamente. – Estamos num trem... Como foi esquecer?
– Eu estava sonhando... – ele respondeu ao fungar. – Estava no colégio e a senhora tinha ido embora... E meu pai também...
– Nenhum de nós jamais irá embora Embry – a voz poderosa de Edward veio com a luz que pôs fim à escuridão.
Isabella procurou pelos olhos azuis e os encontrou enegrecidos a encará-los. Ela não soube identificar o tom e tentou não adivinhar o que ele estaria pensando depois de deixá-lo; naquele instante se arrependia, mas agira instintivamente.
Bem, não sabia o que se passava pela mente do barão, ainda assim agradecia que ele estivesse ali, vestindo a camisa mal abotoada, para também consolar seu pequeno. Sorrindo-lhe agradecida, disse sustentando-lhe o olhar.
– Ouviu isso Embry? Nenhum de nós jamais vai embora.
– Prometem? – O menino pediu alheio ao turbilhão que agitava o coração dos adultos.
– Prometo meu querido – assegurou Isabella.
– Aprenda desde já que a palavra de um homem vale mais do que uma promessa Embry – disse o barão também a sustentar o olhar da moça. – Já disse que nunca o deixarei e acredito que sua mãe não cometeria esse erro; com nenhum de nós dois.
O coração de Isabella se enregelou ante as palavras do barão. Naquele instante pareceu que sempre o deixava. A impressão poderia ser despropositada, porém subitamente considerando-o tão assustado quanto Embry ao acordar. Seguindo um novo instinto, pulou por sobre o menino para se acomodar no lado oposto. Depois de puxar Embry de encontro a si, deixando um espaço vago, convidou:
– Melhor do que a palavra de um homem são suas ações, então venha... Junte-se a nós para que Embry tenha um exemplo do que diz.
O barão se surpreendeu com o convite, considerou-o inadequado. Especialmente por minutos antes ter desejado estar com ela numa cama em situação completamente adversa. Entretanto, vê-los novamente abraçados; ela, visivelmente ansiosa e seu irmão quase... esperançoso, sentiu a ânsia inesperada de juntar-se a eles.
Sim, o passo era gigantesco e como pensou; irreversível. Então, o quanto antes aceitasse aquela partilha, melhor para todos. Com um suspiro resignado se aproximou da cama descalçando os sapatos.
– Afastem-se mais, pois não caberei nesse espaço mínimo que deixaram.
Ver o sorriso tímido que surgiu nos lábios do menino o enterneceu, contentando-o pela decisão em ficar. Tão logo se acomodou e seu olhar novamente cruzou com o de Isabella, sentiu-se deslocado, perguntando-se o que poderia ser dito com os três a dividir a mesma cama. Não tardou para Embry tratar de incluí-lo, valendo-se de seu último comentário.
– Acha que um dia eu serei alto como o senhor? – perguntou com os olhos postos na distância entre seus pés e os do barão.
Sendo aquela criança tão parecida com ele, Edward respondeu sem medo de errar.
– Acredito que sim.
Embry riu brevemente, contente com a expectativa. Talvez, animado pela proximidade, correu os olhos pelo homem ao seu lado até analisar-lhe o rosto. Aventurando-se, rapidamente tocou-lhe o queixo e exclamou:
– O senhor tem pelos no rosto.
Instintivamente Edward levou a mão ao queixo e experimentou sua aspereza.
– Não tive como me barbear essa manhã – esclareceu. – E amanhã estará pior.
Embry novamente riu e tocou o próprio queixo, imitando-o no gesto. Como se levasse vantagem comentou:
– Eu não tenho pelos.
– Ah, mas eles virão... – Edward assegurou, um pouco mais a vontade. – Quando for tão alto quanto eu.
– Ouviu isso? – Embry se voltou para a mãe que enlevada assistia a breve conversa entre irmão, parabenizando-se pela iniciativa de juntá-los. – Terei pelos no rosto e serei grande! Vou poder cuidar da senhora, então...
Com a observação Edward se lembrou da carta que secretamente leu. Havia nela o desejo do menino em cuidar de sua “senhora”. Na ocasião de seu delito, acreditou ler palavras simbólicas de um amante meloso, no presente momento, sabia se tratar de um filho constantemente preocupado com a segurança da mãe. Tocado pela consternação infantil, o barão se permitiu pousar a mão nos cabelos castanhos e prometeu:
– Até que seja grande e forte o bastante para protegê-la, saiba que eu me encarregarei para que sua mãe e você estejam sempre seguros. Acredita em mim Embry?
– Acredito senhor. Disse que a palavra de um homem vale mais do que uma promessa – o menino respondeu seriamente, encarando-o.
– Então não se ocupe com assuntos de adultos – pediu indo além, movendo seus dedos num mínimo carinho sobre os fios macios que cobriam a cabeça pequena. – Ainda é novo demais. Inocente demais... – acrescentou num murmúrio intimista antes de erguer os olhos e encontrar os de Isabella, postos em si.
– Para ele não precisarei de muito tempo – admitiu sinceramente.
Ao entender o recado, Isabella não conteve o marejar de seus olhos. Com a garganta subitamente obstruída, sussurrou:
– Fico feliz!
– É verdade que na sua casa tem cavalos? – Embry perguntou indiferente a conversa paralela acima de sua cabeça.
Isabella considerou a pergunta engraçada e cogitou gracejar, fazendo-se de ofendida pela dúvida de sua palavra, porém não conseguiu; caso tentasse falar somente choraria.
– Sim, tenho alguns cavalos – Edward respondeu, recriminando-se pelos sentimentos ruins que dirigiu ao menino tão logo o conheceu, e também pelo instante de ciúme ainda há pouco ao ter sido preterido em sua cabine. Definitivamente entendia que não havia competição. Para livrar a moça e ele mesmo da comoção, perguntou: – Sua mãe lhe contou que eu a ensinei a montar?
Isabella foi obrigada a rir com a lembrança. E a secar lágrimas furtivas quando, interessado e descrente, Embry ajoelhou-se sobre a cama para olhá-los de frente.
– Não, minha senhora não contou... – falou com os olhos azuis maximizados. – Ensinou-a mesmo a montar? Num cavalo de verdade?
– Sim, num cavalo de verdade – Edward igualmente sorriu do entusiasmo infantil mesmo que cada vez mais cismasse por Embry nunca tratá-la por mãe.
– Como não me contou senhora?
Embry não era acusador, apenas se mostrava maravilhado.
– Acho que ela se sentiu envergonhada, pois da primeira vez que montou teve medo de cair somente porque a pobre égua ameaçou andar um pouco mais rápido, foi um vexame!
O barão revelou para diverti-lo, mas não contava que o som cristalino e pueril da risada fácil se mostrasse compensador, cativante, causando nele mesmo grande contentamento; tanto que se pegou a rir com o irmão, como há muito tempo não fazia.
Isabella se manteve presa à visão deles dois a rirem por bons segundos, especialmente quanto ao barão, até que entendesse se tratar dela que zombavam. Deixando-se contagiar por eles, entrou na brincadeira.
– Em minha defesa, não foi da primeira vez... E não fiquei assim “tão” assustada.
– Eu acredito na senhora – Embry a tranquilizou; cúmplice. – Acho que eu também teria um pouco de medo.
– Ouviu isso? – Isabella indagou ao barão, sorrindo. – Ele acredita em mim!
Fora um gracejo, inspirado na troça corrente, porém foi impossível não fazer a associação de ideias com fatos ainda recentes. A ligação foi conjunta, com o barão e a moça a perceberem a ambiguidade vinda no comentário. Edward percebeu o arrependimento nos olhos de noite e quis verdadeiramente ser como seu irmão que prontamente aceitava sua palavra. Para ele não era tão fácil, o máximo que conseguia era dar-lhe o benefício da dúvida. Com isso, a leveza do momento se foi, porém, a nuvem que tornou a baixar sobre eles não era tão densa, nem tão escura.
– Bem... Deixemos essa conversa para depois – Edward começou ao deixar a cama, depois de agitar os cabelos do irmão. – Perdemos o chá da tarde, então não devemos nos atrasar para o jantar. Melhor nos aprontarmos.
Seu tom não deixava margem para questionamentos, tanto que nenhum dos dois tentou dissuadi-lo enquanto calçava seus sapatos. Conformado, Embry apenas perguntou:
– Durante o jantar poderei saber mais dessas coisas senhor?
– Veremos – o barão respondeu, o olhar novamente preso a Isabella. – Aprontem-se.
Sem mais, saiu.
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