Borboleta Negra
57 Capítulo Vinte e Cinco
Notas iniciais
De volta à sua cabine, Edward correu as mãos pelos cabelos, tentando domar seu coração irrequieto. Olhando para a cama vazia, onde, minutos antes tencionou deitar-se com Isabella, pediu a si mesmo que não se ressentisse com o comentário inocente. Depois do instante de leveza, no qual até mesmo se permitiu sorrir, percebeu o quanto ansiava retornar ao que foram “antes”.
Bem, não conseguiria de toda forma, uma vez que nada mais seria como antes. Desde que tomou a decisão de resgatar seu irmão do internato assumira a mudança. A forma como vestiu a camisa as pressas sobre seu corpo insatisfeito era a prova real. Surpreendente era perceber que, passada a bronca inicial, não se importava com a interrupção. Aquela não era hora, nem aquele o lugar para liberalidades. Nada mudaria entre eles se acaso Isabella o agradecesse como tencionou.
Sim, ele teria apreciado o que viesse. Seu corpo novamente reagia apenas por imaginar todo o prazer que teria, porém, quando o desejo fosse saciado, a nuvem densa, citada por ela, voltaria a envolvê-lo, como agora acontecia. Ainda precisavam de tempo, Edward determinou, começando ele mesmo a fazer como recomendado, aprontando-se para o jantar. Uma vez pronto, decidido a manter ao menos o clima ameno, o barão deixou a cabine para se juntar a Isabella e Embry.
– Estão prontos? – perguntou através da porta, após uma leve batida.
– Em um instante. – Isabella respondeu. – Entre se desejar.
– Prefiro esperá-los aqui.
– Está bem... – a moça aquiesceu, sem deixar de escovar os cabelos do filho; ao que parecia sua língua grande havia estragado a frágil paz.
– Eu disse alguma coisa errada? – Embry perguntou, erguendo os olhos para a mãe. – Ele está bravo comigo?
– Eu já lhe disse que não. – Isabella disse amável, tocando-lhe a ponta do nariz.
– Então por que ele voltou a ficar sério?
– Você é pequeno demais para entender. – ela retrucou com uma piscadela para acalmá-lo. – Esse é um assunto de adultos, então não se ocupe dele, está bem?
– Sim, senhora. – Embry lhe sorriu. – Podemos ir?
– Sim, podemos...
Ao deixar a cabine, os olhos da moça imediatamente se encontraram com os do barão. Pareceu que se mantiveram assim por uma eternidade até que Embry chamasse a atenção de ambos.
– Ainda não vamos?
– Sim... – respondeu o barão, baixando os olhos para ele e indicando o caminho. – Conduza sua mãe.
Impossível não reparar que ambos, mãe e filho, se retesaram. Após um olhar significativo entre eles, Embry tomou a mão de Isabella e fez como pedido. Edward seguiu atrás deles, analisando-os. Precisava de algumas respostas, mas não ainda. Naquela noite, com uma criança entre eles, melhor seria não enveredar por assuntos que se revelassem indigestos.
Foram uns dos primeiros a chegarem ao restaurante, então seus pedidos não tardaram a ser entregues. Após a oração em agradecimento pelo alimento, novamente feita por Embry, todos iniciaram a refeição em silêncio. Como sempre, vez ou outra os olhares do casal se cruzavam, sendo Isabella a primeira a baixar o seu de volta ao prato. Enquanto comia, a moça não somente se recriminava pelo gracejo infeliz que pôs fim ao bom clima entre eles, como também se perguntava quanto tempo demoraria até que o barão reparasse na forma como Embry se dirigia a ela; seria mais um detalhe que ele provavelmente condenaria.
– Posso fazer uma pergunta senhor? – Embry quebrou o silêncio; incerto.
– Sim... – Edward liberou, desviando o olhar de Isabella para o menino.
– Quantos cavalos o senhor tem?
– No momento tenho onze cavalos. – Edward respondeu, sorrindo-lhe sem sequer notar.
– Tudo isso?! – admirou-se o menino, olhando para a mãe. – A senhora viu todos eles?
– Sim, eu vi – Isabella respondeu, igualmente sorrindo-lhe; era inevitável apesar da tensão. – E antes que pergunte, montei apenas em Luna.
– E em Draco.
Com o acréscimo do barão a moça instintivamente o encarou, o coração apertado pela lembrança. Antes que encontrasse o que dizer, Embry observou animado.
– Draco... Como o cavalo de Kalil, não é mesmo senhora?
– Quem é esse? – Edward perguntou diretamente para Isabella que rogou silenciosamente que o piso do trem se abrisse e a dragasse.
– Bem... – começou mortificada; o rosto em chamas.
– Kalil é o príncipe de Yasmim – esclareceu o menino, alheio ao embaraço da mãe. – Minha senhora contou sobre ele quando foi me visitar no colégio. Disse que o cavalo dele se chama Draco. Disse que ele é bonito, mas que não fala.
– Ah, sim?... – Edward indagou verdadeiramente interessado; na narrativa infantil e no violento rubor na face da moça a sua frente. Depois de tomar um gole de vinho, especulou. – Sua mãe disse qual a raça do Draco?
– Ele é um andaluz – Embry respondeu, sorrindo timidamente.
– Embry, coma antes que sua comida esfrie – Isabella demandou sem olhar para o barão; aflita. – Deixe as histórias para depois.
– Deixe-o contar – disse o barão, cada vez mais intrigado com o que viria. – O que mais sua mãe lhe disse?
Embry olhou incerto de um ao outro e, provavelmente aceitando que a figura masculina sempre teria a maior autoridade, respondeu, reduzindo o coração de sua mãe a quase nada.
– Ela disse que Yasmim conheceu Kalil em uma de suas fugas do palácio onde vive presa. Um gostou do outro, mas eles se separaram... E então Yasmim decidiu novamente fugir, mas para muito longe... Eu disse que Kalil ficaria triste, mas minha senhora explicou que eles não poderiam ficar juntos porque o príncipe tem muitas responsabilidades...
– Se vocês me derem licença... – Isabella pediu num fio de voz, antes de deixar o guardanapo sobre a mesa e deixá-la sem esperar respostas ou olhar para trás.
– Eu disse alguma coisa errada? – Embry perguntou aflito, ameaçando segui-la.
– Não! – Edward negou firmemente, segurando-o pelo braço para que ficasse em seu lugar. Quando teve os pequenos olhos consternados em si, tentou tranquilizá-lo. – Ela ficará bem...
– Mas minha senhora ia chorar, eu vi... – o menino salientou, torcendo os lábios para baixo, como se ele mesmo estivesse pronto a irrompe em pranto e relutasse bravamente para não fazê-lo. – Eu a deixei triste?
– Não Embry, não deixou – o barão afirmou seguro, sabia ser o forte embaraço por ele agora conhecer aquela história que claramente se tratava deles dois; tão trágica até mesmo na versão infantil. Gostaria de poder segui-la, porém não deixaria seu irmão sozinho, igualmente a precisar de consolo. – Assim que terminar sua refeição nós iremos vê-la.
– Eu... perdi a fome... – Embry revelou antes de se recostar no espaldar da cadeira e, de cabeça baixa, cruzar as mãos sobre o colo.
Edward olhou para toda a comida que ainda havia no prato. Como pontuou antes de estarem ali, já haviam dispensado o chá da tarde, então não poderia liberá-lo. Sentiu-se atado a um dilema; não sabia como persuadi-lo sem ser autoritário em momento tão delicado provocado por ele mesmo.
– Bem... – disse por fim, ao considerar ter a solução. – Não posso deixar que dispense seu jantar, então façamos assim... Se eu for até sua mãe para trazê-la de volta, você promete não ficar com medo, nem sair daqui e comer toda a sua comida?
– Faria isso senhor? – Embry perguntou esperançoso. – Não terei medo. Não gosto quando ela chora...
– Nem eu tampouco... – Edward murmurou, tocando os cabelos da criança; agora era tão fácil. – E então? Promete? Posso confiar que ficará e continuará sua refeição sem nenhum de nós por perto?
– Tem minha palavra senhor! – O menino assegurou, endireitando-se na cadeira para recuperar a colher.
– Muito bem... confiarei tanto que, se terminar sua refeição e eu ainda não estiver de volta, poderá pedir sua sobremesa.
– De verdade? – os olhos brilharam.
– De verdade.
Não era como se duvidasse da palavra de seu irmão, porém antes de deixá-lo, pediu ao garçom que os atendeu para que mantivesse os olhos postos no menino até que voltasse e o atendesse quanto à sobremesa caso a pedisse, somente então deixou o restaurante.
Recriminava-se por sua curiosidade maldosa que o levou a questionar a criança, mesmo já ciente do que se tratava a história de Yasmim. O prazer de se saber citado num conto narrado por Isabella se esvaíra por completo ao vê-la deixar a mesa intempestivamente.
Foi com o peito oprimido que a avistou ao final do longo corredor, além das portas de suas cabines, recostada na grade de proteção na lateral da composição, com a cabeça voltada para o que deixavam para trás. Não o via. Edward se aproximou lentamente para não assustá-la e apenas lhe estendeu o lenço, colocando-o em seu campo de visão.
– Obrigada – ela agradeceu ao pegá-lo, virando o rosto completamente na direção contrária, chorando mais.
– Isabella, olhe para mim... – foi um pedido.
– Eu não quero... – ela retrucou em meio a um soluço. – E... onde está Embry? Não pode deixá-lo sozinho, ele é uma criança.
– Ele não está sozinho – tranquilizou-a. – E é um menino obediente, educado... Não irá a parte alguma. Você fez um bom trabalho! – reconheceu.
– Não, eu não fiz... – Isabella retorquiu ainda a chorar sem olhá-lo. – Não fui eu a educá-lo, não estive perto e quando estive fiquei enchendo a cabecinha dele com histórias horríveis.
– Não são horríveis – assegurou o barão, girando-a sem aviso para abraçá-la.
Isabella não o abraçou de volta, mantendo as mãos nas laterais do rosto que ocultava contra seu peito, como se daquela forma pudesse se esconder. Iria acrescentar algo mais, porém um casal idoso que estacou ao flagrá-los, o impediu.
– O que há com a jovem? – indagou velha dama, preocupada, ameaçando tocar o ombro de Isabella.
– É o que tento descobrir, mas não há de ser nada senhora... – Edward disse amável, porém firmemente, detendo seu movimento ao erguer a mão. – Não se detenham por nós.
Ambos entreolharam-se incertos, contundo seguiram caminho.
– Tenham uma boa noite então... – desejou o senhor.
– Obrigado. Tenham uma boa noite! – retribuiu o cumprimento antes de sentenciar já a arrastá-la rumo à cabine dividida com Embry. – Venha, aqui não é o melhor lugar para conversarmos.
– Não deixe meu Embry com estranhos, por favor... – Isabella pediu tão logo estavam sós, dando-lhe as costas; simplesmente não conseguia olhá-lo. Talvez não o fizesse pelo resto de seus dias. Seu rosto ardia ao cogitar a mínima possibilidade. – Eu ficarei bem. Não posso voltar, pois não quero que ele me veja nesse estado, então, por favor...
– Sabemos que não vou deixá-la sem conversarmos. – cortou-a. – Olhe para mim.
– Por favor... – ela pediu, sentando-se sobre a cama, dando as costas ao barão, pois suas pernas instáveis não ajudavam a equilibrá-la no balanço do trem. – O que ainda pode querer? Não vê que já estou envergonhada o suficiente?
– Não deveria... – ele opinou, parando ao seu lado, mirando a cabeça abaixada. – Era uma história interessante.
– Não, não era... – ela retrucou, apertando o lenço contra seus olhos. – Ela é deprimente, nem sei o que me passava pela cabeça para dizer todas aquelas coisas a uma criança... Histórias infantis são alegres, com finais felizes.
– Sempre é tempo de corrigir o que foi dito – arriscou o barão, sentando-se às costas da moça. – Você não vai mais fugir para Londres, então...
– Como sabe disso?! – interrompeu-o; com o choque foi inevitável se voltar para encará-lo em meio às lágrimas.
– Sua amiga Angela revelou seus planos na noite em que fui ao Jardim – respondeu, odiando vê-la com o rosto marcado pelo pranto, mesmo considerando-a tão bonita; os lábios trêmulos. Foi com o coração enregelado pela iminência do que não mais aconteceria que acrescentou: – Sei que pretendia me deixar definitivamente. Como a moça de sua história.
– Já estávamos separados – ela salientou lutando para não mais chorar, e uma vez que o encarava mesmo mortificada, não deixou de fazê-lo. – Você não quis ler minha carta e isso depois da delação feita por Laurent. Não havia o que fazer em Wisbury... Somente por isso viria. Pretendia tirar Embry do internato e...
– Não importa o que pretendia! – Edward novamente a cortou; não queria saber de situações hipotéticas. – Importa é que não vai à parte alguma, como a mocinha que descreve para Embry, assim sendo, trate de mudar o enredo do que lhe diz... Trate de dar um final feliz para sua Yasmim.
– Não mais me compete fazê-lo – lembrou-o, considerando cada vez mais fácil sustentar-lhe o olhar, diferentemente do que imaginou.
– Não sou um príncipe de contos infantis Isabella – retorquiu o barão, tomando-lhe as mãos fechadas no lenço que lhe entregou. – Não o era nem mesmo quando você tinha cinco anos.
– Eu sei... – ela murmurou.
– Então não deposite em mim a responsabilidade de fazê-la feliz. Não agora! No momento posso apenas prometer não torná-la infeliz... Não quero vê-la chorar. Se possível nunca mais... – igualmente murmurou, erguendo uma das mãos para secar-lhe a bochecha. – Com isso peço-lhe perdão por deliberadamente constrangê-la, não mais se repetirá. Perdoe-me também por não ser como Embry que acredita em sua palavra cegamente.
– Nunca imaginei que acreditasse – Isabella disse sincera, pacificando seu coração. Esboçando um sorriso acrescentou: – E, querendo ou não, apesar das circunstâncias, já me faz feliz dando-me aquilo que sempre quis.
– Embry... – Edward nomeou seguro, ineditamente não se ressentindo com a predileção.
– Não. Uma família com você!
A correção surpreendente o emudeceu. O barão não soube nem mesmo como agir. Demandava a si mesmo que tomasse alguma atitude, instintivamente mirando a boca ainda trêmula que externou as palavras, colocando-o à frente de tudo e todos, quando Isabella deixou a cama.
– Já estou bem, agora, por favor... – pediu, encarando-o. – Não deixe Embry mais um minuto sozinho. Estamos num trem, ele só tem sete anos...
Sua noiva estava com a razão. Não havia nada mais a ser dito, não com o menino sozinho entre estranhos. Apesar de incorreta, a família citada já lhe era cara e de sua total responsabilidade. Pondo-se de pé, anunciou:
– Disse a ele que viria buscá-la. Não terminou sua refeição.
– Não conseguiria comer coisa alguma... E devo estar lastimável para me apresentar em público. Vá você e o traga, sim?
– Está bem! – aquiesceu e, sentindo-se no dever de ao menos um gesto de carinho, reduziu a distância entre eles e lhe beijou demoradamente a testa. Ao se afastar demandou: – Fique a vontade, descase. Em breve trarei Embry.
Ao deixar a cabine, Edward aspirou e expirou pausadamente para regular a respiração. Sentia-se agitado em seu âmago com aquele turbilhão de sensações divergentes no qual constantemente era lançado. Mirando a porta fechada, desejou poder ser como seu irmão e simplesmente acreditar, contudo ainda não conseguia. Talvez quando a entendesse, verdadeiramente conhecesse.
Com um exalar resignado, o barão seguiu pelo corredor dos vagões, até chegar ao restaurante. Este já se encontrava lotado em sua capacidade, porém seus olhos pousaram diretamente sobre o menino muito atento a uma fatia de bolo. Edward caminhou de volta ao seu lugar, inclinando a cabeça a quem primeiramente lhe fazia o gesto. Embry ergueu a cabeça para olhá-lo antes que se sentasse e então olhou às suas costas, a procura de alguém.
– O senhor não trouxe minha senhora – comentou unindo as pequenas sobrancelhas, deixando a colher na borda do prato.
– Termine seu bolo que então iremos até ela. – Edward lhe sorriu apaziguador e, acreditando já conhecê-lo, arriscou, indicando o bolo inacabado. – Sua mãe está bem e ficaria triste caso deixasse a sobremesa pela metade.
– Ela não está chorando? – perguntou ainda preocupado.
– Não está. – assegurou, querendo crer ser verdade. Com um suspiro, tomou um gole do vinho que abandonou para segui-la e então recomendou: – Coma sossegado.
Embry apenas lhe sorriu brevemente antes de atendê-lo, deixando seu irmão livre para analisá-lo. Novamente atento ao que fazia, repetindo o que fez durante o almoço, o menino partia pequenos nacos do bolo e os mastigava lentamente, como se os poupasse.
Em seu tempo de menino não foi enviado a nenhum internato, mas baseado nas palavras anteriores daquela criança, o barão poderia supor que aquele fosse um hábito comum, visto as privações impostas a todos os internos. Evidente que não passavam fome, mas uma instituição religiosa – por mais renomada que fosse – não seria dada às regalias.
Sim, resgatá-lo de Saint Joseph fora a decisão mais acertada, congratulou-se o barão. Daria ao menino tudo o que lhe fora privado até ali, inclusive seu amor, quando este viesse; pois viria. A cada instante confirmava ser inevitável.
Embry era uma criança afável, obediente como salientou, educada e completamente apaixonante. Infantil, sim, porém conscienciosa quanto ao cuidado alheio; especialmente ao que se referia a sua mãe; que nunca nomeava como tal.
– Embry? – Edward se ouviu chamá-lo; reflexivo. Ao ter os olhos azuis em si, perguntou com cautela. – Eu poderia lhe fazer um pergunta?
O menino terminou de mastigar e engolir o bocado de bolo antes de liberá-lo.
– Sim, senhor.
Com a liberação, o barão deixou a taça de vinho sobre a mesa e se aproximou do menino, como se o que dissessem devesse ser mantido em segredo.
– Por que trata sua mãe por “minha senhora”?
– Ela prefere assim. – Embry respondeu, igualmente inclinando-se em sua direção. – Quando eu era pequeno e me esquecia, ela ficava brava.
Como era inevitável, Edward foi obrigado a conter um sorriso inspirado pela pretensão infantil em se julgar “maior”, mesmo intrigado com a revelação. Provavelmente não viesse dele a resposta, porém arriscou obtê-la.
– Alguma vez ela lhe disse por que não deveria chamá-la de mãe?
– Não – o menino negou indiferente, recuperando sua colher como se o assunto não mais o interessasse. Antes de partir outro pedaço mínimo de seu bolo concluiu. – Minha senhora disse apenas que era para ser assim.
E como Embry era uma criança, inocente quanto às idiossincrasias que compunham a personalidade multifacetada de sua mãe, jamais teria conhecimento ou parâmetros para questioná-la. Diferentemente dele, Edward, que lançava a resolução daquela questão ao topo de suas prioridades.
– Eu perguntei antes, mas o senhor não me respondeu – Embry recordou, olhando-o brevemente. – Eu poderei chamá-lo de pai?
Edward se lembrava da pergunta. Incrível como parecesse ter se passado dias, meses, não horas desde que ela fora feita. Na ocasião não soube lhe responder, por falta de palavras e, principalmente, escassez de sentimentos benignos. Ali, preso ao encanto natural do menino, ou pelo apego do sangue – não sabia –, somente lhe ocorria uma resposta.
– Eu ficaria muito triste se não o fizesse.
Como recompensa ganhou um riso contente, breve e contagiante – como cócegas no ouvido –, antes que o menino voltasse a comer, ainda a sorrir.
– Finalize seu bolo para que possamos partir – recomendou o barão, com um súbito travo em sua garganta que tratou de eliminar entornando o que restava do vinho.
Ao deixarem a mesa, os irmãos novamente foram alvo das atenções, ainda que disfarçadamente e de pouquíssimos passageiros. O nobre ignorou a todos, pousando a mão protetoramente no ombro do menino para guiá-lo até a saída. Sem soltá-lo, levou-o de volta à cabine.
Encontraram Isabella sentada numa das poltronas. A moça os encarou imediatamente ao entrarem, e, incontinenti, abriu um sorriso inteiro para Embry; Edward não mais se importava, compreendia a reação.
– Perdoe-me por deixá-lo – ela pediu tão logo o menino se aproximou.
– A senhora chorou – ele comentou tocando-lhe o rosto, abaixo dos olhos ainda vermelhos.
– Porque sou tola... – Isabella exclamou ainda sorrindo, claramente para animá-lo. – Mas repare que não estou chorando agora.
– Não, não está... – Embry lhe sorriu de volta.
– Obrigada por cuidar dele, e trazê-lo – ela agradeceu ao barão, um tanto constrangida depois da breve separação.
Edward apenas assentiu, mantinha as mãos nos bolsos, olhando-a intensamente; indecifrável, Isabella considerou.
– O que faremos agora? – Embry perguntou, indo até a cama para se sentar na borda.
– Agora nos preparamos para dormir – Edward lhe respondeu.
– Dormimos a tarde toda – ele falou num muxoxo desanimado, sem manha.
– E dormiremos um pouco mais – disse o barão, incisivo; precisava pensar. – Vou deixá-los para que...
– Não vai ficar? – Embry questionou se pondo de pé; ansioso. Antes de ter uma resposta, pediu: – Durma conosco senhor!
– Embry... – Edward instintivamente olhou para Isabella e então de volta ao menino. – É melhor que aqui fiquem somente vocês dois. Não é... – procurou por uma palavra fácil – certo eu dormir aqui. Entende?
– Sim, eu entendo pai.
Isabella levou a mão ao coração que falhou uma batida. Seu pequeno já havia se referido a Edward daquela maneira, mas não diretamente “a ele”. A naturalidade com que disse a palavra a chocou. E ao que parecia ela não fora a única a ser afetada, pois o barão se mostrou sem ação; a indecisão pôde ser percebida em seus olhos. Para salvar a ambos da catatonia, Isabella opinou:
– Acredito que... que Embry se contente caso fique até que ele durma.
– Sim, por favor... – o menino pediu esperançoso.
Como negar quando lhe faltavam palavras? Deu-lhe a liberdade de tratá-lo por pai há poucos minutos, então não imaginou que fosse nomeado tão rapidamente, nem que se abalasse ao ouvir. Correndo as mãos pelos cabelos, aquiesceu:
– Sendo assim... Vou... vou deixá-los para que se preparem... Voltarei em alguns minutos. – Ao se calar saiu.
Tão logo se fechou em sua cabine, Edward recordou a felicitação de Jacob. Fora um gracejo, contudo naquele instante se encaixaria a perfeição; era pai!
Saboreando a palavra, o nobre deu a eles exata meia hora antes de retornar à cabine vizinha. Abriu a porta preso a um dilema; queria e não queria estar com eles. Não por motivos daninhos, não senhor. Apenas inquietantes.
A ambiguidade de sentimentos se esvaiu ao encontrar os dois já acomodados sob as cobertas, porém não deitados. Isabella curvou os lábios num sorriso agradecido, enquanto Embry mostrou-lhe todos os dentes. Sua presença trazia alegria ao menino; seu filho.
– Pensei que não viesse – ele comentou.
– E eu estava relembrando a ele o valor de sua palavra – Isabella falou, correndo uma das mãos pelos cabelos escuros do menino.
– Obrigado! – Edward agradeceu ainda preso ao sorriso da criança, preparando-se para sentar numa das poltronas.
– Não! – Embry o reteve, afastando-se para junto da mãe, abrindo espaço na cama. – Fique aqui. Há espaço pai.
Edward considerou negar para logo em seguida troçar de si mesmo; menos de um dia e já se rendia aos encantos de Embry. Não duvidaria que em breve ele também lhe ocupasse todo o coração sem que com isso tomasse o espaço destinado à Isabella.
Enquanto retirava seu casaco para não amassá-lo, o barão entendeu todas às vezes nas quais a moça tentou dissipar seu ciúme; jamais haveria competição, pois o sentimento, apesar de forte, era completamente diferente e não dividia o coração.
Compreender, inquestionavelmente, que Isabella o amava por inteiro aqueceu-lhe a alma, tanto que retirou também o colete e os sapatos; já ansioso em estar com a família que tomou para si.
– Bem... – disse ao se deitar, imitando o menino e sua mãe, que se recostaram enquanto se preparava. – Ainda está valendo o que disse antes. Ficarei até que durma.
– Sim, senhor – Embry anuiu, olhando-o atentamente.
Os olhares do barão e de sua noiva se cruzaram, e por um instante que pareceu infinito se mantiveram fixos um no outro. Bastava acreditar, Edward pensou perdido nos olhos de noite, bastava acreditar que o primeiro barão foi um crápula e ela completamente inocente para que, em sua concepção egoísta, tudo ficasse perfeito.
– Obrigado por ter voltado e me tirado do colégio.
A voz do menino chamou-lhe a atenção. Baixando os olhos para ele, comentou o que provavelmente era a verdade.
– Eu não sabia de você. Por isso demorei tanto.
– Minha senhora disse que foi embora antes que eu nascesse. Para onde foi?
Não era uma acusação, Embry era novo demais para entender. Nem ele os deixou, no entanto, sentiu-se culpado por aquele abandono.
– Para Londres – disse o que diria a todos, voltando a encarar a moça tão próxima a si. – Para estudar...
– E no seu colégio não aprendeu a escrever cartas?
Embry ainda não cobrava, apenas tentava compreender o que se passava no mundo dos adultos que o levou a ficar tanto tempo de castigo. Edward entendeu assim.
– Sim, eu aprendi a escrever cartas Embry – respondeu, então dividiu a responsabilidade com quem, de fato, detinha metade da culpa. – Apenas não sabia para onde enviá-las.
Imediatamente o menino girou a cabeça para encarar a mãe e na questão dirigida a ela, havia sim, reprovação.
– Por que não contou para ele onde morava?
Isabella suspirou profundamente, como sempre não estava preparada para as questões infantis, e na tentativa de encerrá-las, disse o que era em parte verdade, sorrindo-lhe mansamente, pousando a mão sobre o peito pequeno.
– Existem muitos colégios em Londres. Eu também não sabia onde encontrá-lo, nem que um dia Deus me daria você, mas nada disso importa agora... Estamos juntos, como sempre quis, não? Esqueça o que passou...
– Está bem! – Embry aquiesceu, sorrindo-lhe de volta. Então voltou a cabeça para Edward. – Não precisamos mais voltar ao colégio, não é mesmo?
– Não, não precisamos – Edward respondeu, aproveitando o ensejo para tocar a mão da moça, sobre o corpo do menino.
Simplesmente queria tocá-la desde que entendeu a complexidade de um coração subdividido ainda que inteiro. Isabella olhou para as mãos unidas e então, como se igualmente necessitasse senti-lo, moveu o polegar num carinho leve. Foi quando Embry olhou de um ao outro e livrou os braços da coberta para rapidamente quebrar o contato, mantendo as mãos dos adultos atadas às suas, afastadas.
Nada disse, porém as sobrancelhas delicadas se curvaram sobre os olhos indisfarçadamente aborrecidos. Novamente o olhar do barão procurou o da moça, confuso, entretanto, ao flagrar-lhe um riso silencioso e descrente, ele entendeu; Embry estava com ciúmes de sua senhora. Como prova o menino anunciou:
– Estou com muito sono senhor... Se quiser ir embora antes que eu durma não fico triste.
– Embry! – Isabella soou repreensiva.
O barão nada compreendia sobre mentes infantis, mas ficou claro que o menino esperou ansiosamente por um pai, não por um homem que demonstrasse afeto por uma mãe que por anos desejou conviver integralmente. Evidente que nada seria tão fácil.
– Deixe-o – Edward pediu por fim, livrando sua mão para deixar a cama. – É melhor que eu os deixe para que descansem.
– Mas... – Isabella tentou argumentar, não queria que Edward se fosse; não daquela forma.
– Boa noite senhor! – Embry o cumprimentou rapidamente antes de fechar os olhos e se aconchegar contra o corpo da mãe.
– Boa noite aos dois... – desejou o barão, já calçado.
Depois de recolher suas roupas, saiu, deixando a lamparina acesa.
– Embry – ela chamou à saída de Edward. Quando o menino a encarou, perguntou. – O que foi isso?
Ela ganhou um fechar a abrir de olhos, silêncio.
– Embry...? – insistiu, escrutinando os olhos azuis. – Qual o problema de seu pai segurar a minha mão? O viu fazer isso toda a manhã.
– Ele estava sendo educado – finalmente ele respondeu. – Irmã Nelly sempre nos disse para sermos educados quando encontrávamos uma menina em nossos passeios ou quando íamos à missa. Mas agora não foi... Ele não tinha que segurar a sua mão e a senhora fez um carinho nele, eu vi. E ele não é seu pequeno. “Eu” sou seu pequeno.
Sim, talvez ela devesse novamente repreendê-lo, mas não o fez. Mirando seu anel de noivado, indagou cautelosamente:
– Entende que eu e seu pai, agora que nos encontramos, vamos nos casar, não? Entende que seremos como os pais de alguns de seus amigos do internato? – tentou fazê-lo recordar a vez que explicou casais “casados” e “Sir Carlisle e ela”.
– Entendo... – ele respondeu sem olhá-la, brincando com os dedos dela –, mas isso vai fazer a senhora gostar mais dele do que de mim. A senhora nunca fez carinho na mão de Sir Cullen. Nunca nem a vi segurá-la.
– Porque Sir Cullen não é seu pai. Edward, sim... Então, não será sempre, mas verá um carinho ou outro e não será porque gosto mais dele do que de você. Isso seria impossível! “Você” é meu pequeno.
– Ainda prefiro que a senhora e ele sejam meus amigos, não um amigo do outro – ele retrucou seriamente, usando a definição de casamento que ela deu para explicar a relação a um menino de cinco anos de idade.
– Bem... – ela disse brandamente, porém com firmeza. – Lamento, mas eu e seu pai seremos amigos em breve, então o melhor que tem a fazer é se acostumar. Ou preferiria estar no colégio novamente sem ele?
– Não – respondeu o menino, sem nem pensar. – Gosto que ele não esteja no céu. E que tenha me tirado do castigo. E que tenha cavalos.
– Então...
– Mas não gosto que ele seja seu amigo! – cortou-a antes de apertá-la num abraço.
Isabella retribuiu, desistindo dos argumentos. Deveria aceitar que Embry fosse uma criança carente que, tão logo imaginou ter sua mãe apenas para si, descobriu ser necessário dividi-la. Não deveria se surpreender com a possessividade infantil, especialmente ele sendo irmão de quem era.
De toda forma, não havia nada que Embry pudesse fazer a respeito da “amizade” entre adultos e ver como ela funcionava na prática, seria mais eficaz do que tentar explicá-la. Casais não eram dados a demonstrações de carinho em público, sendo que aquele simples mover de dedos fora visto por mero acidente. E uma vez que “toques educados” eram permitidos, logo seu pequeno se acostumaria. Restava esperar que Edward fosse paciente com aquela novidade.
Isabella pensou em como o barão estaria até que Embry ressonasse sobre seu peito, muito tempo depois da saída do barão. Ciente de que dormia, ela o rolou sobre a cama e o acomodou sobre o travesseiro. Deixá-lo durante a tarde se mostrou ser um erro, porém não conseguiria dormir caso não visse como estava o ânimo de Edward.
Depois de alguns minutos assistindo o ressonar tranquilo do menino, Isabella se aventurou para fora da cabine. O vento frio penetrou o tecido de sua camisola no exato instante em que o odor de tabaco invadiu suas narinas. Edward se mostrou tão surpreso quanto ela ao ser flagrado a “degustar” um charuto, recostado contra a grade de proteção da lateral do vagão.
– Isabella! – exclamou num murmúrio nervoso e repreensivo, já a atirar o charuto para longe e diminuir a distância entre eles para segurá-la pelo braço e levá-la consigo enquanto olhava os dois cantos do corredor apressadamente.
– O que pensa que está fazendo? – perguntou o barão ao fechar a porta de sua cabine; visivelmente aborrecido. – Não estamos sós aqui!
– Precisava saber como você está... – ela murmurou um tanto trêmula de frio. – Onde conseguiu o charuto? Trouxe de Apple White?
Não, ele o conseguiu no restaurante, para onde foi depois de ser praticamente expulso. Onde tomou uma taça de brandy, consternado, sim, porém não triste. Nada que um charuto não lhe apaziguasse o espírito, algo que não convinha comentar.
– Não importa como o consegui – retrucou por fim. – Onde estava com a cabeça para deixar sua cabine assim?! E, por Deus, não repita que não se importa em mostrar um pouco de sua pele ou eu... – rogou incompletamente.
– Eu já disse... – ela respondeu calmamente. – Estava pensando em você. Precisava saber como está. Não me ocorreu que encontraria alguém no corredor uma hora dessas.
Sim, o inegável cuidado o comoveu, reconheceu. Ainda assim...
– Estamos num trem e não é tarde! Nem todos dormem – retorquiu duramente ao se endireitar. – O que torna completamente inadequado andar por ai em trajes menores.
– Bem... – Isabella suspirou, sem ter como lhe tirar a razão. – Se está bem o suficiente para me aplicar uma reprimenda, não está aborrecido com o comportamento de Embry, então...
– Espere! – Edward a deteve e a prendeu num inesperado abraço.
Não era o que desejou enquanto bebia e depois ao distraidamente exalar a fumaça de seu charuto? Que a moça milagrosamente aparecesse mesmo sabendo que ela não deveria deixar o menino sozinho?
Isabella permaneceu imóvel, os braços presos junto ao corpo, as mãos apoiadas contra o peito do barão, sentindo o coração dele bater como o dela; acelerado. No seu caso, pela surpresa e por não decifrar a intensidade que via nos olhos azuis. Pelo odor de tabaco que a inebriava.
E então era como se não tivesse deixado aquela cabine após o grito de seu pequeno, com a conhecida tensão pairando entre eles, tão sufocante que foi com extremo alívio que viu o rosto do nobre descer sobre o dela até que as bocas se juntassem.
Ao aprofundar o beijo, Edward a estreitou mais contra o peito, obrigando-a a libertar os braços para também abraçá-lo; enlaçando-o pelo pescoço. Com isso o barão gemeu baixo, descendo as mãos até o quadril da moça, apertando-a contra si. Ela não sabia o que acarretou aquela invasão de sua boca, e não lhe importava descobrir, somente auxiliá-la, deixando que sua língua fosse capturada e provada; excitando-a.
Logo tombava sobre a cama, tendo o barão sobre si, sempre a beijando, roubando-lhe o fôlego, fazendo desejá-lo ao ponto de doer quando não poderia tê-lo. Ou talvez pudesse se fossem rápidos, pensou tentando alcançar os botões da camisa branca para abri-los.
– Não... – negou o barão roucamente, segurando-lhe os dedos.
– Não? – repetiu lamuriosa.
– Não – assegurou sem libertá-la, escrutinando os olhos negros no rosto abatido, considerando-a tão bonita antes de novamente beijá-la.
O barão havia negado, não? Isabella pensou confusa ao retribuir o beijo enquanto a mão do barão lhe tocou um seio sobre a musselina da camisola, inflamando-a.
– Edward... – ela gemeu contra os lábios dele, novamente tentando mover os botões.
E então seus dedos foram contidos, antes que Edward quebrasse o beijo para encará-la; os olhos escurecidos.
– Espere! – pediu. – Realmente não podemos... Perdoe-me.
– Por favor, não se desculpe por me beijar – ela pediu, ameaçando se sentar.
– Jamais por beijá-la – o barão esclareceu, mantendo-a deitada. – Mas por insistir depois de negar que fossemos adiante.
– Oh... – exclamou, piscando brevemente; naquele caso ele lhe devia desculpas.
– Tudo está confuso entre nós, mas... simplesmente precisava beijá-la. Mais até, desde que soube a história de Yasmim... – reconheceu o que acabara de atinar.
– Edward, não... – ela rogou, novamente tentando a liberdade; sentindo o rosto arder.
– Está tudo bem! – ele a tranquilizou, ainda a prendendo com seu peso, segurando-lhe o queixo para que não deixasse de olhá-lo. – Não é zombaria. Gostei da história. Gostei de ser representado nela mesmo que já tivesse me deixado. Foi como se não o tivesse feito de fato.
– Eu nunca o deixaria; não no meu coração – Isabella admitiu, ainda que embaraçada. – Acredito que Embry ouviria muitas histórias a seu respeito.
– Acho que ainda deve ouvir – recomendou. – Estive pensando que seria uma forma lúdica de explicar para Embry que agora ocupo todo o seu coração, assim como ele.
– Acredita que sim? – a moça perguntou embargada, perscrutando os olhos azuis.
– Acredito... – Edward assegurou. – Embry vai perceber que...
– Não – ela o interrompeu. – Acredita que ocupa todo o meu coração?
– Considero sua forma de amar, estranha, por vezes cruel, mas não duvido de seu sentimento Isabella... E agora que conheço Embry, entendo o que sempre tentou me explicar. Como já lhe disse, para ele não precisarei de tempo, aliás, não preciso – afirmou o barão, finalmente deixando a cama para logo em seguida colocar a moça de pé. – Ele é um menino excepcional e não quero arreliá-lo, então venha... Vou ajudá-la a voltar para sua cabine.
Isabella não retrucou. Decidido, Edward alcançou seu sobretudo e o colocou sobre os ombros da moça, que não fazia mais do que admirá-lo. O tecido estava frio, porém o gesto a aqueceu por inteiro. Tomando-lhe a mão, o barão a levou até a porta. Depois de verificar o corredor, puxou-a para rapidamente fazê-la entrar na cabine ao lado, seguindo-a. Ao soltar-lhe a mão, parou aos pés da cama para olhar o irmão adormecido.
– Bem... – disse deixando de olhá-lo antes que recordações indesejadas viessem arruinar o prazer que sentia. – É melhor dormirmos. Amanhã ainda teremos um longo caminho até Apple White, e depois... Que Deus ajude a todos nós!
– Edward! – Isabella o deteve, deixando sua contemplação após o rogar não muito animador que a lembrou da vida que a esperava. ao entregar-lhe o sobretudo começou: – Sobre Apple White...
– Por Deus, de novo não! – cortou-a incrédulo, vestindo seu longo casaco por puro reflexo; a revolta ameaçando retornar ao seu peito. O que disse sobre a crueldade?
– Acalme-se, por favor... – ela pediu apressada, levando-o para junto da porta, onde sussurrou, segurando-lhe a lapela. – Não estou inventando uma desculpa para não acompanhá-lo se é o que pensa.
– Então o quê? – questionou, encarando-a duramente.
– É que... Ocorreu-me que não tenho nada além das roupas que usei e esta camisola. Tudo que possuo está no Jardim. Disse que iremos diretamente para Apple White, mas preciso ir até minha casa e...
– Não se refira àquele lugar como sendo a sua casa. – Edward a interrompeu num baixo ciciar, novamente no turbilhão, não de boas emoções.
– Por favor... – ela pediu aproximando-se mais, corajosamente sustentando seu olhar. – Não se aborreça. O que fiz jamais deixará de existir e se for se irritar por isso... Não sei o que será de nós.
Edward apenas bufou exasperado, ainda a encará-la duramente.
– Por favor... – Isabella repetiu quase num sopro, subindo uma das mãos para tocar o queixo espinhento antes de cheirá-lo, o coração a falhar pela ousadia. – apesar da confusão que citou estávamos bem há um minuto. Vamos tentar nos manter assim, sim?
– Prossiga! – o barão demandou roucamente, suas mãos traidoras correndo pela cintura da moça, trazendo-a de encontro ao seu corpo, novamente estimulado apreciando a proposta. – O que pretende?
– Apenas dizer-lhe que preciso de roupas – sussurrou próximo ao ouvido, sentindo a aspereza dos pelos crescidos em sua bochecha.
– Posso comprar-lhe roupas novas – ele retrucou também diretamente ao ouvido, estimulado com aquele clima conspirador. – Um enxoval completo.
– Sei que pode. Já deu mostras uma vez, mas... – Isabella se calou no instante em que o barão apertou-lhe o quadril junto a si, pelo vão do sobretudo, talvez para demonstrar o quanto ela o afetava. Após um pigarro, ela prosseguiu: – Mas preciso de todos meus vestidos, não posso me limitar àqueles que gentilmente me presenteou. E preciso tomar algumas providências práticas, outras mais aborrecidas, porém necessárias... Aquelas meninas dependem de mim my lord... Não posso simplesmente lhes voltar às costas.
Doce tortura tê-la junto ao seu corpo desperto quando não poderia saciá-lo, a dizer coisas que não queria ouvir, lembrando-o dos vestidos que se desfez em hora tão dolorosa. Preferiria que Isabella nunca mais colocasse os pés naquele lugar, porém a entendia. Não haveria roupas a espera dela e, quanto ao Jardim, tratava-se de negócios no final das contas; com funcionários envolvidos. Pessoas, envolvidas.
– Está bem! – aquiesceu apenas resignado; sua irritação extinta, devorada pela abordagem lasciva. – Até amanhã pensarei como faremos para que pegue suas coisas e resolva todas as pendências.
– Obrigada... – ela sussurrou antes de beijá-lo junto à orelha; então uma das mãos do barão se fechou repentinamente nos cabelos de sua nuca, forçando-a a encará-lo. – Ai! – exclamou de susto, não de dor.
– Não me agradeça, pois não lhe faço nenhum favor ou concessão – ciciou; o rosto muito perto. – Não pense que dormirá naquele lugar mais uma noite sequer, ou que irá se despedir dos clientes que frequentam a “sua casa”.
Isabella queria assegurar que aquela nunca fora sua intenção, mas como dizer qualquer palavra quando tamanha intransigência “nele” parecia tão atraente? Tudo que lhe ocorreu foi erguer os pés e espremer sua boca contra a do barão.
Pego de surpresa, Edward demorou alguns segundos até participar do beijo, aproveitando-se da mão que já a prendia pela nuca para mantê-la no ângulo certo, onde poderia explorar-lhe cada recanto da boca quente e macia. Comprazendo-se com o pouco que tinha, mais uma vez apertou-a contra si, calando um gemido.
Isabella por sua vez não teve o mesmo cuidado, exalando uma lamúria audível demais ao senti-lo rígido. A contragosto, o barão desfez o beijo para alertá-la sobre presença na cabine.
– Shhh... Lembre-se de que...
– O que está fazendo com ela?! – A voz de Embry soou alta; alarmada.
Imediatamente ambos olharam para a cama em tempo de ver o menino afastar as cobertas e se levantar. Somente então se afastaram, Isabella a arrumar os cabelos, Edward a fechar o sobretudo para ocultar sua situação.
– Embry, volte para a cama! – a mãe demandou, sentindo seu rosto corar.
Ignorando-a Embry foi até eles para separá-los mais, afastando-os com as mãozinhas apoiadas em suas barrigas, encarando o barão com o pequeno cenho franzido, o queixo endurecido.
– Está machucando minha senhora! – acusou.
– Não Embry. – Edward negou, tentando tocar-lhe os cabelos alvoroçados, ao que o menino afastou-lhe a mão.
– Estava sim... Eu ouvi. – teimou seriamente. – Pensei que fosse cuidar de nós.
– E ele vai! – Isabella assegurou, trazendo-o para sua frente pelos ombros. Foi preciso segurar-lhe o queixo para que ele deixasse de encarar o barão e a olhasse. O erro fora seu, no entanto, aquela não era hora para condescendência, então o repreendeu duramente. – Não deve retrucar aos adultos. Se seu pai disse que não me machucou, ele não machucou, fui clara?
– Sim senhora... – resmungou, voltando apenas o olhar enfezado ao barão.
– Então, agora lhe peça desculpas e volte para a cama – ela ordenou.
– Desculpe-me senhor... – pediu num novo resmungo, antes de dar meia volta e se sentar sobre a cama, encarando-os ainda sério.
– É melhor ir agora... – ela recomendou ao barão, possivelmente tão frustrada quanto ele, murmurou: – Desculpe-me...
– A falta foi minha. – Edward retrucou roucamente, antes de deixá-los.
Sim, render-se ao encanto de Embry fora fácil como se molhar em chuva repentina. Conquistá-lo ao ponto de deixar um estranho participar do mundo restrito onde habitava apenas ele e sua “senhora” é que seria o grande desafio, reconheceu o barão, seguindo para sua cabina; mais uma vez sozinho.
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