Borboleta Negra

61 Capítulo Vinte e Nove - Parte II


Notas iniciais
Oie... Olha a autora sumida aqui de volta. :D Brincadeiras a parte, desculpem o sumiço. É que estou mega atrapalhada com outros trabalhos. Mas não as abandonarei. Demoro, mas venho e logo, com fé em Deus, tudo volta ao ritmo de antes. Obrigada pelos reviws, pelas cobranças... E obrigada Thais Vidolin, pela linda recomendação! Adorei! Bem, vamos ao capítulo... BOA LEITURA!

As batidas eram insistentes e irritantes, ecos distantes. Isabella se moveu, mas foi contida. Demorou alguns segundos para perceber que estava sobre uma superfície acolhedora e macia, presa por braços fortes. O súbito entendimento a fez se agitar até que se desprendesse.

– Edward! – chamou-o, balançando-o pelo peito nu. – Edward acorde! Estão batendo em alguma porta.

– Se não é aqui, deixe que batam... – ele resmungou, tentando puxá-la de volta, sem nem abrir os olhos.

– Não Edward. – Isabella resistiu. – Acorde. Você nem deveria estar aqui! E se não estão batendo à minha porta, provavelmente é na sua. E se for a baronesa?

O barão resmungou algo ininteligível e liberou uma imprecação antes de abrir os olhos e procurar por sua noiva. Ao sentir a forte ardência em suas órbitas, ele se lembrou do pranto vexatório e de todos os detalhes que o levaram a chorar. Com isso ciciou uma nova imprecação. Queria poder ficar na cama com Isabella e esquecer de todo o resto, mas havia uma vida inteira a enfrentar e nela, mais diretamente, constavam sua mãe e Embry.

– Tem razão – ele anuiu ao se sentar, já passando a mão pelos cabelos em desalinho. – Parece que estão mesmo batendo à minha porta.

– E agora? – Isabella indagou aflita quando Edward deixou a cama. – Se for mesmo sua mãe ela o verá saindo daqui.

Depois de alcançar sua calça, o barão mirou os olhos negros que brilhavam de pavor genuíno. Por ele não veria problema algum em deixar aquele quarto aos olhos de quem quer que fosse, mas entendia o desejo de sua noiva em resguardar algum decoro. Para tanto só havia uma maneira. Apoiando-se, Edward beijou a testa de Isabella rapidamente.

– Não se preocupe – recomendou ao se afastar.

– Como não?! – Isabella sentia seu coração bater disparado; ainda ouvia as batidas. – Aconteceu o que eu temia!

– Tudo ficará bem... – ele prometeu. Não queria revelar seu segredo, mas era preciso. – Você verá uma coisa agora, mas não se espante. Voltarei assim que puder para explicar... Espere um instante.

– Vai voltar?!... Edward?...

– Apenas espere.

Após repetir o pedido, o barão caminhou até a parede e, depois de mover uma parte do adorno que enfeitava toda a sua extensão, simplesmente a abriu. Quem o procurava ainda batia contra a porta, impaciente. Edward reconheceu no pulso nervoso o toque de sua mãe. Tomando o devido cuidado de fechar a passagem, ele caminhou rapidamente até sua cama e gritou enquanto remexia as cobertas.

– Um instante!

– Edward?! – Elizabeth exclamou. – Começava a me preocupar... Por que a demora?

Não precisaria tomar cuidados com a própria aparência, pois de fato acabara de despertar, então apenas foi abrir a porta.

– Estava dormindo... – disse ao encarar o semblante aborrecido da baronesa.

– São esses os trajes de atender a sua mãe? – ela indagou indicando o peito despido ao entrar sem prévio convite, os olhos vagando em todas as direções, investigativos. – Poderia ter tido a decência de se cobrir.

– Perdoe-me – pediu o barão já a vestir seu robe. – O que deseja de tão urgente?

– Como o que desejo? – Elizabeth se voltou para encará-lo. – Falta pouco para o jantar. Pedi que Amy viesse chamá-lo, mas ela voltou dizendo que não a atendeu. Sugeriu que talvez nem estivesse aqui.

Abelhuda intrigante, Edward cismou. Amy, como todos os criados, bem sabia o teor de seu envolvimento com Isabella. Assim como a baronesa, ele acrescentou sem deixar de sustentar o olhar da mãe. Não fosse pela moça, e por todas as contrariedades que ainda estavam por vir ele trataria de confirmar o mexerico da criada, assim se veria livre para trazer sua noiva de volta àquele quarto.

– Estava exausto da viagem e de todos os acontecimentos que vieram a seguir – disse altivo para não haver contestação. – Dormia tão profundamente que não ouvi o chamado de sua criada.

– Pois muito bem... – a baronesa aquiesceu, voltando a analisar o quarto até pousar os olhos na grande cama. – Sente-se mais bem disposto agora?

– Sim senhora. – Edward respondeu, caminhando até a bacia sobre seu aparador para lavar o rosto. – Em instante estarei pronto para o jantar.

– Era sobre ele que queria lhe falar... – ela começou e se calou.

O barão terminou de lavar o rosto e o secou antes de encarar a mãe. Esperou que ela continuasse, mas como parecia ter emudecido de vez, ele a encorajou.

– Pois fale...

– Seus olhos estão inchados – Elizabeth observou, indo até o filho para tocá-lo no rosto. – E está abatido. Estaria doente?

– Não mamãe... Não estou doente. Sabe que não é meu costume dormir à tarde, especialmente, praticamente até a hora do jantar. Agora diga o que quer.

– Bem... – ela lhe deu às costas. – Eu gostaria que me liberasse de acompanhá-los.

– Não quer jantar conosco?! – Na verdade esperava por aquilo, só não entendeu um detalhe. – Nunca antes pediu permissão para deixar de fazer as refeições em minha companhia. Por que a novidade?

– Eu gostaria que me desobrigasse de todas as refeições conjuntas. Se não se opuser, a partir de hoje, passarei a receber todas elas em meu quarto, ou no quarto de meu neto.

– Isto está fora de cogitação! – Edward se aborreceu.

– Sou sua mãe! – a baronesa igualmente se exaltou, voltando-se para encará-lo. – Quis ter o mínimo de consideração ao vir aqui, mas não pode me obrigar a me sentar à mesma mesa com quem não me agrada.

– Ela é a mãe de vosso neto! – o barão a lembrou, incisivo. Não admitiria desfeitas.

– Um mero detalhe – ela retorquiu. – Para mim, Embry é apenas seu filho. E aquela “moça” sempre será uma de minhas criadas. O que considero inadmissível é...

– Seus preconceitos não me interessam – ele a cortou. – Se hoje não quiser descer, não desça. E seu café da manhã ou os chás da tarde, tenha-os onde bem entender, mas durante as demais refeições, estará em nossa companhia. E sugiro que sempre bem educada com minha noiva.

– É um disparate! Somos a nobreza e ela veio da criadagem... – Elizabeth lançou as mãos ao alto. – O que teremos em comum para conversamos? Provavelmente essa criatura nem saiba se portar à mesa!

– “Isabella” sabe se portar muito bem em qualquer lugar – Edward rebateu, levando as mãos aos bolsos do chambre.

– Pois sim! – sua mãe escarneceu. – Vossa Senhoria confunde o bom comportamento da criada sobre uma cama a outras situações. Está enfeitiçado!

– E a senhora passando dos limites! Ainda não notou ser inútil tecer comentários depreciativos sobre ela? Enfeitiçado ou não, é com Isabella que me casarei... “Se” ela não souber de algo referente ao comportamento esperado ou ao protocolo, aprenderá... Mas somente para agradar uma a parte dissimulada e pedante de nossa sociedade que valoriza mais os modos à mesa do que os atos fora dela, pois para mim ela é uma dama completa.

– Edward?!

– Se acaso tiver algo a acrescentar que possa ajudá-la, ensine-a. – Edward continuou a falar como se ela não o tivesse chamado, sem se abater ante o rosto ruborizado da baronesa. – Se tiver assunto, exponha-o... Mas se não for o caso, aceite-a em silêncio.

– Quando muito posso calar minha contrariedade, não aceitá-la. – Elizabeth retrucou de queixo erguido. – Se o mundo fosse justo a mãe de meu neto seria outra e ele nascido no tempo certo, depois do casamento, como tem que ser.

Contrariado, Edward pensou que se o mundo fosse de fato justo, alguns senhores não seriam corruptores nem deflorariam criadas inocentes, assim filhos ilegítimos não seriam gerados. O nobre se calou, pois estava farto de argumentações, assim como lhe pareceu errado desejar que Embry nunca tivesse nascido.

– Conforme-se senhora – aconselhou seriamente –, pois o mundo não é justo, seu filho é imperfeito e seu neto, fruto de um romance ilegítimo. Se acaso disse tudo o que desejava, já teve minha resposta.

– Sim, meu pedido era tudo... – falou resignada.

– Sendo assim, se me der licença... Essa nossa conversa já se estendeu por demais. Preciso me aprontar para o jantar e antes de descer gostaria de ver como está meu filho.

– Sim, vá vê-lo... – incentivou. A carranca se desfez perceptivelmente. – Mas lhe adianto que ele está bem. Já providenciei para que tivesse seu jantar. Amy está com ele nesse exato momento.

– Obrigado por isso.

– Não me agradeça. Embry é minha responsabilidade agora. E é tão encantador!... Ainda me tira o ar lembrar a forma inadequada como foi gerado, mas estou feliz que ele exista. Não canso de olhá-lo ou de ouvi-lo.

Edward se preocupou, considerando se a resistência em se juntar a eles durante as refeições não fosse por alguma indiscrição cometida pelo pequeno.

– Ele é mesmo um primor – concordou com cautela, antes de especular. – O que de interessante ele lhe disse para querer ouvi-lo indefinidamente?

– A princípio ele quis saber sobre o bisavô Embry, depois fez perguntas sobre o avô, sobre nossa família. Quando finalmente pareceu ter sua curiosidade saciada, basicamente narrou sobre seus dias no internato... Sobre como era ruim estar longe de casa... – ela disse.

– E Embry lhe falou? Sobre a casa dele?

– Confesso que fiz perguntas, estou curiosa, mas ele disse que não se lembra – a baronesa uniu as sobrancelhas. – Não gosto da ideia de meu neto num internato qualquer, mas devo reconhecer que foi a melhor atitude de “Isabella”, mantendo-o longe da pocilga onde provavelmente morava.

Com o alívio por confirmar que Embry se mantinha firme no jogo, Edward nem mesmo se aborreceu com o comentário.

– Decididamente preferia conversar com ele até que dormisse, mas... – Elizabeth prosseguiu novamente aborrecida, caminhando rumo à porta. – Uma vez que não serei liberada de minha pena, não há razão para adiar a penitência. Vou até meu quarto, aprontar-me para o jantar. E que Deus me livre de ver “sua noiva” picar a comida com as mãos ou parti-la com os dentes.

Como uma lufada de vento forte, a baronesa de foi, batendo a porta, sem esperar resposta. Sim, ela o irritou, porém Edward conseguiu ver certa graça no comentário maldoso associado à saída teatral. Seria interessante ver sua surpresa ao notar o quanto Isabella era de fato muito bem educada.

Ao pensar na moça, o barão olhou para a porta secreta. Não conseguia atinar o que Isabella estaria pensando depois de tê-lo visto deixar seu quarto pela parede. Talvez o jantar fosse atrasado, mas lhe devia um esclarecimento.

Depois de correr as mãos pelos cabelos, Edward tomou o cuidado de trancar a porta de seu quarto e voltou para junto de sua noiva, passando pela porta não mais secreta. Encontrou Isabella como a deixou; sentada sobre a cama, olhando o ponto por onde atravessou.

– Como nunca me disse que havia essa passagem? – Isabella disparou a pergunta que se repetia em sua mente desde que seu noivo a deixou; sumindo por um vão na parede.

– Não vi a necessidade de dizer – foi sincero, indo se sentar na beirada do colchão. Encarando-a, desmereceu a novidade. – Mas não é nada extraordinário.

– Não é extraordinário?! – ela se moveu, passando duas mechas de seus cabelos para trás das orelhas. – Eu poderia ter usado essa passagem no dia em que Marie nos flagrou... Teria sumido de seu quarto e nosso envolvimento ficaria em sigilo.

– Cedo ou tarde eles descobririam – Edward se defendeu. – E se bem se lembra, já acreditavam que mantínhamos um caso antes mesmo que este começasse, então...

– Sim, eu me lembro – a moça retorquiu –, mas não precisavam ter certeza. Você poderia ao menos ter me dado a opção de escolher ser descoberta ou não.

– Não pensei nessa possibilidade, perdoe-me... Está aborrecida?

Após a pergunta o barão a tocou no pé que aparecia por baixo da colcha, encarando-a com ar culpado. Isabella reconhecia aquele olhar um tanto ansioso, porém nada arrependido do feito. O tinha visto várias vezes numa versão menor, semelhante a ele, sempre que trapaceava em suas brincadeiras nos jardins do internato.

Num manear de cabeça ela negou. Não havia porque se aborrecer, mas por algum motivo que ela nem atinava qual, ao descobrir a passagem, sentiu-se ludibriada.

– Não... – respondeu também em palavra quando o barão já sorria, contudo, num reflexo perguntou o que lhe veio à mente. – Alguma vez usou essa porta durante minha hospedagem?

– Sim... – Edward sequer cogitou mentir. Sem se importar com o novo mover impaciente de Isabella sobre a cama, acrescentou. – Especialmente nas primeiras noites.

– Oh... – ela não tinha palavras. Era estranho imaginar que enquanto dormia alguém a rondava; mesmo sendo Edward.

– Já que estou sendo sincero, admito que de a ordem para colocá-la neste quarto exatamente por esse motivo. E não se espante, pois nunca escondi minhas intenções.

– É mais forte do que eu... – Isabella disse enfim, de fato foi ludibriada. – O que fazia? Ficava... me olhando enquanto eu dormia?

O barão abriu um largo sorriso antes de indiretamente confirmar.

– Você me pareceu tão mais bonita... Acordada parecia uma vespa, pronta para me cravar o ferrão, mas adormecida... Com os cabelos de açafrão adornado seu rosto... – Edward se calou por um instante, olhando-a vagamente como se tivesse diante de si a cena que descrevia. Estendendo a mão tocou as pontas dos cabelos de noite e prosseguiu. – Eu quis tanto sentir a textura de seu cabelo, mas Nero... Aquele cão traidor, não me deixou.

– Fez ele muito bem! – Isabella defendeu o fiel amigo, mesmo derretida com a narrativa. – Onde já se viu invadir assim o quarto de uma hóspede?

– Não de uma hóspede – ele corrigiu, aproximando-se –, o “seu” quarto. Você despertou minha curiosidade desde o primeiro instante e todas as suas atitudes só vieram agravar meu interesse.

– Com que então é atraído pelas vespas? – provocou-o; afetada pela proximidade.

– Apenas por uma em especial – o barão salientou, descendo os lábios para a boca rosada. Depois de recordar também que naquela noite a ouviu rechaçar seu pai, quis beijá-la para confirmar que todo o mal ficou no passado, seu retorno àquela casa e que não precisaria se valer da passagem para espioná-la. Infelizmente não havia tempo. – Gostaria de demonstrar em ação, mas estamos atrasados para o jantar, então... Se me desculpou por nunca ter revelado meu pequeno segredo, sugiro que nos aprontemos.

– Não estou aborrecida – disse em simulada altivez –, mas pensarei se o desculpo.

– Terei imenso prazer em implorar pelo perdão de tão bondoso coração. – Edward soou contrito, aceitando o jogo antes de puxá-la pra fora da cama sem aviso. – Agora se vista.

– Edward... – Isabella murmurou; mais embaraçada com a iminência de encontrar com a baronesa do que o fato de estar completamente despida.

Pelo súbito receio exposto nos olhos negros, o barão acreditou saber o que a fez estacar ao lado da cama, então lhe sorriu encorajador.

– Estaremos juntos! Prometo que minha mãe irá se comportar... E de toda forma, não temos como adiar esse encontro. Não é melhor seguirmos adiante de uma vez por todas?

– Tem razão! – Isabella sorriu apenas para agradá-lo. – Poderia me ajudar com o espartilho antes de ir?

– Será um prazer...

Edward reconhecia que suas palavras não trouxeram a tranquilidade que desejava dar à sua noiva, contudo não havia muito que pudesse fazer. As duas mulheres dividiriam aquela casa e, já que não liberou sua mãe do jantar, não o faria com Isabella. Enquanto via a moça rapidamente se limpar e se secar, confirmava a si mesmo que decidiu pelo certo. O barão não se comoveu nem mesmo ao sentir sua noiva trêmula, quando finalmente veio até ele para que apertasse as fitas do espartilho.

– Obrigada – ela agradeceu quando Edward se afastou. – Daqui eu assumo. Quando estiver pronta vou até o quarto de Embry.

– Farei o mesmo... – sabendo que provavelmente deixaria seu quarto antes dela, acrescentou. – Esperarei até que vá se juntar a nós. Apenas, não demore.

Isabella assentiu com a cabeça e o acompanhou com o olhar até que desaparecesse pela passagem na parede. Diante do que a esperava, a novidade perdeu sua importância. Não havia retorno, em minutos estaria sentada à mesa com a baronesa de Westking.

– Isabella... – A voz de Marie lhe causou um sobressalto. – Já acordou? A hora do jantar se aproxima. Precisa de minha ajuda?

– Sim, Marie, por favor... – subitamente ter alguém que a vestisse passou a ser essencial; sentia os membros dormentes.

– Isabella! – a governanta exclamou alarmada ao olhá-la – Está pálida! Não se sente bem?

– Para dizer a verdade, não... – admitiu indo se sentar à penteadeira. – Se ainda houvesse tempo eu pediria um de seus chás calmantes.

– Nunca falta água quente na cozinha – Marie disse com orgulho servil. – Se deseja uma xícara de chá eu posso providenciar num instante.

– Preciso de sua ajuda para me vestir... – a moça anunciou num muxoxo.

– Façamos assim... Escolha o vestido. Enquanto isso eu vou até a cozinha e preparo o chá, trago-o e, depois de pronta você o bebe.

A moça assentiu com a cabeça. Tão logo fico sozinha, se obrigou a levantar, recriminando-se pela súbita covardia. Era adulta agora, Edward estaria com ela e não haveria nada que a baronesa pudesse fazer para mudar aquela situação. Tentando se valer daquela verdade irreversível, Isabella escolheu o melhor vestido dentre os deixados por Rosalie.

Sentindo-se mais confiante, começou a vesti-lo mesmo sem ajuda, deixando apenas seu fechamento para Marie. Calçou-se e, seguia de volta à penteadeira quando a governanta entrou, trazendo a bandeja com a xícara de chá.

– Obrigada Marie – sua voz soava mais firme. – Deixe-o sobre a penteadeira e venha fechar o vestido.

– Bela escolha! – elogiou a mulher ao se colocar às suas costas. – Nunca entendi por que Lady Rosalie não levou este vestido. Ele era um dos preferidos de milady. Ela o usou na noite em que Lord Emmett a pediu em casamento.

– Sendo assim, talvez eu não devesse usá-lo – sugeriu a moça, olhando-se no espelho. O traje de cetim era divino, amarelo claro, com pequenas pedras brilhantes adornando o corpete e a renda do busto. – É um vestido especial.

– Bobagem! – Marie deu de ombros, finalizando o fechamento dos colchetes. – Ficou lindo em você. Tenho certeza de que Lord Edward aprovará a escolha. Agora se sente para que eu penteie seus cabelos. Farei a trança que tanto gosta.

Isabella aceitou a ajuda em silêncio, olhando-se no reflexo, tentando ter a visão de sua amiga naquele traje. Sem dúvida esteve radiante, ainda mais por se na noite de seu noivado. Rosalie casou por amor, Edward lhe disse certa vez, não havia como não estar feliz. Também se sentia especial no vestido. Sim, estava feliz, mas a importância do jantar ainda a abalava. Com a lembrança do que viria, Isabella alcançou a xícara de chá e passou a tomá-lo em pequenos goles enquanto Marie arrumava seus cabelos na trança frouxa.

– Imagino o que a está preocupando... – Marie falou, após um minuto em silêncio. – Se ajuda saber, a baronesa pode ladrar, mas o barão jamais deixará que a morda.

– Marie! – Isabella exclamou entre divertida e repreensiva.

– Não falo por mal, ou por falta de respeito – defendeu-se a governanta. – É apenas a verdade. Sempre soube que milady não a aceitaria pacificamente.

– Todos sabem – disse depois de beber mais um gole de seu chá. – A baronesa me recebeu de luto.

– Sei que pouco posso fazer, mas o que precisar de mim, eu estarei aqui por você. – Marie lhe sorriu pelo espelho, um tanto constrangida.

– Obrigada... – Isabella agradeceu mesmo sabendo que a governanta somente lhe serviria de companhia, nada mais.

Terminou seu chá em silêncio, deixando que a prestativa Sra. Newton concluísse a arrumação de seu cabelo. Para disfarçar sua palidez, Isabella beliscou suas bochechas levemente antes de se levantar; estava pronta!

– Está linda! – Marie exclamou, dando um passo atrás para admirá-la. – Acredito que caiba desejar boa sorte...

– Cabe totalmente, obrigada... – disse a moça, indo até a porta, sendo seguida pela governanta. No corredor, despediu-se. – Até já... Irei ver meu filho antes do jantar.

– Talvez a baronesa esteja com ele – avisou.

– Estou ansiosa, então... Quanto antes encontrá-la, melhor...

Isabella sorriu para Marie e se foi. Tinha a impressão que a cada passo dado seu coração falhava uma batida. O ponto positivo era que suas pernas não falhavam. Bendito chá!

Ainda que temerosa, estava decidida, então, ao chegar ao quarto, a moça não titubeou. Apenas respirou fundo, deu dois toques anunciando sua presença e entrou. Para seu alívio – e, sim, também decepção – seus olhos avistaram somente o barão e seu filho, tendo Nero ao lado. Parecia que conversavam, porém ao vir ser ela a chegar, Embry interrompeu o que dizia e correu para abraçá-la.

– Senhora! – disse com o rosto apertado em sua barriga. – Tenho tantas novidades!... Estou feliz que esteja de volta!

– Sim... Vim buscá-lo para o jantar, mas vejo que está com suas roupas de dormir.

A última frase foi dita com os olhos negros postos no barão, indicando que esperava vir dele alguma explicação. O nobre não hesitou em lhe esclarecer, antes que o menino o fizesse.

– Ele já teve sua refeição. Ao que parece, mamãe fará como com todos nós, que jantamos separadamente dos adultos até completarmos doze anos.

– E estava tudo maravilhoso! – Embry tomou a palavra, soltando-a para pular repetidas vezes, no mesmo lugar adiante dela. – Tinha uma sopa tão cremosa que parecia nuvem. O pão estava quente e fofinho... Teve até sobremesa!

– Fico contente que tenha gostado meu querido – Isabella pousou as mãos nos seus ombros, contendo tamanho entusiasmo, sorrindo. Se ele estava feliz, também ficaria. – O que mais queria me contar?

– Vovó não queria que Nero ficasse – disse arregalando os olhos azuis e maneando a cabeça como se aquele fosse o maior dos absurdos. – Disse que ele é uma fera indo... indomina...

– Indômita – o barão o socorreu, com um leve sorriso nos lábios; não havia feito a barba, a moça reparou.

– Isso! – Embry concordou sem olhá-lo. – Vovó disse que Nero é uma fera indômita e que ele deveria estar no canil, bem longe dos quartos.

– Nossa! – A surpresa foi exagerada, porém Isabella se recordava daquela opinião. Afagando o cabelo do menino, quis saber qual o milagre operado, uma vez que Rosalie nunca conseguiu manter o galgo por perto muito tempo. – E como ele ainda está aqui? – perguntou por fim, especulando se seria pela intervenção de Edward.

– Eu pedi que ela o deixasse ficar, pois ele é meu amigo – o menino respondeu com certo orgulho. – E vovó deixou. Só me fez prometer que ele não subiria na cama.

– É um pedido justo... – Isabella murmurou incrédula, procurando o barão com o olhar.

– Embry tem o dom de amansar feras – disse Edward, levando as mãos aos bolsos; ele mesmo foi facilmente domado.

– Acredito que sim... – ela novamente murmurou, correndo os dedos pelo rosto corado.

– Do que estão falando? – Embry olhou de um ao outro. – Eu amanso qual fera? Nero?

– Sim! – Edward retirou as mãos dos bolsos e avançou alguns passos até estar junto deles. – Nero é mesmo muito indisciplinado e você o mantém quieto, veja como agora dorme. Tornou-se um preguiçoso! – O menino apenas riu divertido. O barão prosseguiu. – Agora que já nos viu, deve se deitar. Precisamos descer para o jantar.

– Já?! – indagou num muxoxo, subitamente desanimado. – Nem contei para minha senhora sobre meus primos, tios e tias... Sabem que tenho um tio que é duque e outro que é conde?

– Sim, eu sei meu querido... – ela ainda o acariciava no rosto. – Mas depois você me conta mais detalhes. Agora devemos mesmo descer ou sua avó se aborrecerá.

– Mas como vou ficar aqui sozinho? E se apagarem as luzes?

– Ninguém virá apagar a luz – prometeu o barão.

– E voltarei para vê-lo assim que terminar o jantar – disse Isabella. – Está bem?

– Está... – anuiu o menino, com os ombros caídos.

– Então, deite-se e me espere – a mãe recomendou, sorrindo, encorajadora.

– Irão descer juntos? – Embry questionou, novamente olhando de um ao outro, agora com desconfiança.

– Vamos. – Edward respondeu enfático; estava rendido aos encantos do menino, porém não aceitaria suas cismas.

Imediatamente Embry fechou a expressão e marchou aborrecido até sua cama, onde afastou os lençóis e se deitou, cruzando os braços sobre o peito.

– Vou esperá-la como disse – falou. – Só a senhora.

Isabella apenas assentiu com a cabeça e seguiu para a porta, tendo Edward às suas costas.

– Durma bem Embry – desejou o barão.

– O senhor também – o menino retribuiu, mesmo com o cenho franzido.

Edward evitou tocar em Isabella até que estivessem no corredor, não precisava deliberadamente provocar a criança. Porém, depois de a porta ser fechada, em vez de oferecer seu braço para a moça, ele a puxou de encontro ao peito.

– Posso dizer o quão bonita está esta noite? – indagou enquanto ela ainda arfava com o susto.

– Edward... – ela murmurou, olhando de um lado ao outro antes de voltar a encará-lo; o barão lhe roubou as palavras com o gesto inesperado.

– Esse vestido lhe caiu muito bem – ele disse, sem se importar com o tom repreensivo.

– Sim, ele é lindo. – Isabella concordou, apoiando as mãos no peito amplo do barão, abalada com a proximidade –, mas sabe que preciso de meus próprios vestidos e...

– Eu sei. – Edward torceu os lábios e a soltou. – Não esqueci. Amanhã preciso me dedicar à sidreria. Fiquei muitos dias afastado. Se tudo estiver de acordo, na sexta-feira pela manhã iremos até aquele lugar.

– Eu poderia ir amanhã mesmo – ela sugeriu. – Assim não o...

– Está fora de cogitação! – o barão a cortou aborrecido. – Não vai sozinha àquele lugar!

– Aquele lugar tem sido minha casa há oito anos – a moça salientou sem se importar com a carraça de seu noivo. – Não tem se preocupar se eu...

– Assunto encerrado! Estamos nos atrasando para o jantar... – Edward novamente a interrompeu e a tomou pelo braço, enlaçando-o ao dele antes de seguir pelo corredor.

Isabella bufou exasperada, olhando incrédula para o rosto endurecido do barão. Que mal poderia haver em ir até o jardim para acertar tudo o que precisava ser resolvido? Por um instante ela considerou questioná-lo, porém achou por bem adiar a argumentação. No momento tinha assuntos mais urgentes.

– Sobre a baronesa... – começou com cautela após um pigarro. – Quando disse que explicou toda a situação...?

– Pode saber que contei o que combinamos – ele respondeu seriamente, iniciando o descer da escada. – Disse que nos relacionamos no passado e que desse romance nasceu Embry.

– Meu Deus... – Isabella arfou, mirando os degraus, temendo cair. – Com certeza a baronesa está me odiando. Ela nunca gostou de mim...

– Minha mãe não tem que gostar de você – Edward retrucou; ainda aborrecido com o desejo dela em ir sozinha ao bordel. – Basta respeitá-la.

– Não é tão fácil – ela retrucou, refreando o desejo de se refugiar em seu quarto à medida que chegavam aos pés da escada. – Mesmo que me respeite ela fará perguntas. Não sei se estou pronta para respondê-las. E se eu cair em contradição.

– Evite detalhes – o barão sugeriu, compadecendo-se ao sentir sua noiva estremecer. – Se minha mãe se mostrar curiosa, simplesmente não responda. Ela não tem como obrigá-la.

– Edward... – o nome, dito em tom incerto saiu num murmúrio.

– Coragem meu amor... Não temos como fugir de nada do que virá.

O pedido foi reforçado por um sorriso encorajador quando já chegavam à saleta onde normalmente era tomado o xerez antes do jantar. Isabella tentou sorrir de volta, mas não foi capaz. Estava rígida e aflita demais até mesmo para simular tranquilidade. Com o coração aos saltos, preparando-se para o choque ao encontrar com a baronesa, a moça se deixou ser conduzida para o interior da sala. Foi com alívio quase sufocante que viu o cômodo vazio.

– Mamãe ainda não desceu – Edward comentou desnecessariamente antes de soltar o braço da noiva. Ao notar o quanto Isabella estava pálida, ofereceu. – Aceita uma taça de xerez? Talvez a bebida a acalme e traga cor ao seu rosto.

– Sim, obrigada!

Sentindo as pernas bambas, Isabella foi até o pequeno sofá e se sentou. Em instantes o barão vinha até ela para lhe entregar a bebida e se sentar ao seu lado.

– Não fique assim tão aflita – pediu carinhosamente, segurando a mão livre da moça. – Estou aqui com você.

Milord – A voz de Marie veio da porta. Quando o patrão mirou a governanta, esta prosseguiu: – Está tudo pronto para servir o jantar.

– Sabe por que a baronesa ainda não está aqui? – Edward indagou sem se mover, apertando os dedos de Isabella nos seus, pois a sentiu estremecer.

– Amy avisou que Lady Elizabeth virá exatamente à hora do jantar e se juntará a Vossa Senhoria e vossa noiva à mesa. Isso daqui a instantes...

– Sim – Edward anuiu –, nos atrasamos. Pode ir Sra. Newton. Iremos em seguida.

A governanta os deixou e ao ficarem a sós, sem se importar com os bons modos de uma dama, Isabella entornou todo o conteúdo da taça em sua boca para bebê-lo a um só gole. O líquido a aqueceu, mas não pareceu exercer qualquer efeito em seus nervos, novamente abalados com a iminência do encontro.

O barão ainda se compadecia com o evidente nervosismo de sua noiva, ele mesmo estava ansioso com o momento de juntar Elizabeth e Isabella, porém conseguiu achar certa graça na forma desesperada com que a moça fez desaparecer o xerez de sua taça. Como ela nem mesmo tossiu, Edward sorriu e ofereceu sua própria bebida.

– Beba este também... Talvez ajude a acalmá-la.

Isabella não se fez de rodada, sentia que começava a se desesperar. Sem esperar novo oferecimento, tomou a taça de seu noivo e novamente sorveu o líquido âmbar a um só gole.

– Não sei se ajudou, mas a cor voltou ao seu rosto. – Edward comentou mais divertido depois de recuperar as duas taças para se levantar e depositá-las sobre a mesa.

– Por favor, não ria... – Isabella pediu quase às lágrimas. – Estou apavorada!

Edward então voltou à seriedade, mirando-a com compaixão. Isabella parecia um bichinho acuado, rolando os dedos uns nos outros sobre a saia do vestido, encarando-o com os olhos negros brilhando em poças rasas de um pranto que não vertia. Como se fosse possível, naquele instante ela lhe pareceu muito frágil e inspirou nele um instinto de proteção infinita. E céus... Como estava linda!

Se pudesse, escoltá-la-ia até seu quarto e nunca deixaria que se encontrasse com sua mãe, alguém que ele sabia estar disposta a dificultar a boa convivência entre elas, porém não podia. Estar frente a frente com a baronesa de Westking era a menor das batalhas que seriam obrigados a travar e quanto antes Isabella se acostumasse a enfrentá-las, melhor.

Como não poderia liberá-la, nem tinha novas palavras de conforto, Edward voltou até sua noiva em passos largos e a fez levantar abruptamente. Ato contínuo, tomou-a em seus braços e a beijou profundamente, capturando na língua dela o gosto do xerez que não provou.

Ao fechar os olhos para retribuir aquele beijo inesperado, as lágrimas de Isabella finalmente seguiram seu curso, porém novas não vieram. Afogueada pela bebida e pelo arroubo do barão, a moça o enlaçou pelo pescoço, esquecida de qualquer assunto, apenas ciente de uma mão que a segurava pela cintura e outra que lhe apertava o seio fortemente sobre o bojo do vestido. Excitada, Isabella sentia seus mamilos se eriçarem e agravarem a comichão abaixo de seu ventre ao roçarem no tecido limitante do espartilho.

Sem se importar com um possível flagrante, o barão insinuou sua mão muito atrevida no decote baixo e fez saltar um seio para espremer seu cume entre os dedos, lutando bravamente contra seu próprio desejo, disposto apenas a provocá-la, distraí-la.

– Edward... – ela assobiou, lançando a cabeça para trás quando o barão desceu seus beijos até cobrir com a boca o seio que antes beliscava.

Isabella mantinha os olhos turvos na porta entreaberta, morrendo lentamente de medo e prazer, sentindo suas pernas falharem, tamanha a força do desejo que a consumia enquanto o barão parecia beber dela com fome inesperada. Com seu centro a pulsar, ela juntou seu corpo ao do barão, ansiando sucumbir ao estímulo, porém este cessou abruptamente. Involuntariamente Isabella exalou um lamento baixo e tentou manter o barão próximo a si.

– Depois meu amor... – Edward prometeu soprando seu hálito morno sobre o bico molhado. – Seja forte como sei que sempre foi e depois do jantar continuamos o que paramos.

– Sim, por favor... – ela pediu num murmúrio, cobrindo-se com mãos trêmulas, tomando consciência apenas do temor. – Nem sei o que aconteceria se a baronesa nos visse.

– Mamãe costuma manter sua palavra. Ela avisou que nos encontraria à mesa, e será exatamente o que fará. – Após a explicação, feita em tom baixo e rouco, o barão estendeu seu braço. – Vamos então?

Uma vez que não havia escapatória, melhor que se apressassem, Isabella pensou, aceitando o braço oferecido. Em silêncio, ainda excitada e trêmula, ela se deixou levar até a mesa. Acreditava que veria a baronesa somente na sala de jantar, então foi com um sobressalto que avistou a bela senhora enquanto esta descia a escada rumo ao hall principal, acompanhada de Amy.

– Mamãe... – Edward lhe estendeu a mão e Elizabeth a segurou tão logo pôde alcançá-la. Soltou-a apenas ao estar diante do casal. Amy os olhos com curiosidade indisfarçada e se foi sem qualquer palavra. O barão esperou que a criada se fosse e em tom solene, apresentou-as como se não se conhecessem. – Isabella, esta é Lady Elizabeth, baronesa de Westking... Mamãe, esta é Isabella Swan, minha futura esposa.

Isabella não encontrou palavras, assim como não entendeu a apresentação. Dizer “muito prazer” não somente seria infundado, como pareceria provocação. Com isso a moça manteve a atenção na firmeza de suas pernas, fechou os olhos e inclinou o corpo numa reverência respeitosa à baronesa. Esta parecia feita em mármore, pois parecia nem piscar, mantendo os olhos castanhos e escrutinadores na moça que segurava o braço de seu filho, mirando-a de alto a baixo.

– O nome é outro... As mudanças físicas são impressionantes... – Elizabeth disse após um instante, sempre encarando a moça com ar altivo. – Mas assim de perto confirmo que apresentações são desnecessárias. Como tem passado Cora Hupert?

Isabella novamente não soube o que dizer. Coube ao barão socorrê-la; impassível.

– Como bem salientou senhora, o nome agora é outro. E poderá saciar sua curiosidade durante o jantar caso queira... Vamos?

Como se fosse natural conduzir as duas, o barão ofereceu o braço livre para a mãe. A baronesa ainda lançou um olhar dardejante para a futura nora, porém aceitou a gentileza. E assim, ladeado pelas mulheres de sua vida – uma a tremer e outra a suspirar exasperada –, Edward seguiu para a sala de jantar. Uma vez no cômodo, o nobre acomodou sua mãe à cadeira antes de fazer o mesmo por sua noiva. Somente então se sentou à cabeceira.

Isabella manteve os olhos postos no prato vazio, sentindo o peso da avaliação da baronesa sobre si. A moça tinha plena consciência de que não devia, mas era impossível não se sentir uma impostora naquela mesa. Quando em seus sonhos mais delirantes poderia imaginar que um dia jantaria diante de Lady Elizabeth, a mulher que a intimidava desde que se entendia por pessoa.

– Senhorita Swan?

A voz de Amy veio de longe, a moça sequer se moveu. Isabella somente despertou de seu torpor quando o barão pigarreou exageradamente. Num sobressalto, ela ergueu os ombros e instintivamente olhou em frente, sendo capturada pelo olhar castanho da baronesa que a encarava num misto de incredulidade, mofa e divertimento.

– Isabella, Amy deseja servi-la – Edward falou, chamando sua atenção.

– Ah, sim! – Isabella piscou e desviou os olhos para a criada. Rapidamente acomodou o guardanapo sobre o colo e deixou que esta a servisse.

Ainda presa a uma espécie de encantamento, Isabella olhou para a sopa em seu prato, sem fazer qualquer menção de prová-la.

– É creme de aspargos, senhorita Swan – disse Marie. – Pedi que preparassem esta entrada especialmente, em razão de sua volta.

A baronesa chispou o olhar para a governanta, assim como Isabella, porém esta, agradecida.

– Obrigado senhora Newton – o barão agradeceu muito sério, deixando claro que não desejava novas informações. Para as duas mulheres que o ladeavam, indagou. – Podemos iniciar nossa refeição?

– Se essa criatura for capaz de segurar uma colher... – Elizabeth murmurou, segurando o próprio talher para se servir do creme, como se nada tivesse dito.

– Caso não saiba todos beberemos na borda. – retrucou o barão, impassível como se comentasse o tempo.

Isabella por sua vez, moveu-se incomodada sobre a cadeira e sentiu seu sangue se agitar, incitada a reagir. Mirando a pérola de seu anel, disse a si mesma que há muito tempo não era uma criança, nem criada daquela casa. Era adulta, e já havia enfrentado situações piores, infinitamente mais desconcertante e odiosamente degradantes para se intimidar com a altivez de uma senhora esnobe.

Naquele instante Isabella entendeu a insistência do barão em promover aquele encontro, já naquela noite. Quanto antes perdesse o medo e se impusesse, mais cedo seria respeitada. Determinada, a moça alcançou a colher disposta à sua direita e colheu uma pequena porção do caldo grosso, movendo o talher do centro para a borda do prato, delicadamente. Depois, sempre ereta, sorveu o caldo que levou à boca, pela lateral do talher. Isabella viu por sua visão periférica que a nobre senhora e seu noivo acompanharam toda a ação. Orgulhosa de si mesma, a moça repetiu o movimento.

Foi ocultando um sorriso de satisfação e orgulho que Edward voltou sua atenção ao próprio prato deixando que apenas sua mãe se ocupasse de assistir a futura nora tomando seu caldo com elegância e comedimento, como ele bem sabia que ela era capaz. Não deveria ser surpresa para a baronesa, pois foi avisada de que Isabella sabia como se portar em todas as situações; não somente em sua cama, acrescentou, também, maldosamente.

O prato principal foi servido e depois dele a sobremesa e em todas às vezes Isabella se saiu muito bem, desde o corte da carne sem nunca raspar a faca no fundo o prato, beber a água de lavanda disposta para que os dedos fossem lavados ou se servir de vinho antes da água. Durante todo o jantar nenhuma palavra foi trocada, ainda assim a moça sentiu o olhar intrigado da baronesa todo o tempo em si e a tensão latente no ar.

– Se me dão licença – Elizabeth se pronunciou ao deitar os talheres sobre o prato de sobremesa ao terminar sua tortinha caramelada – Eu gostaria de me recolher agora. O dia foi longo e desgastante.

Edward cogitou retê-la e forçar uma conversação na saleta para que toda e qualquer curiosidade fosse sanada diante dele, porém achou por bem não forçar a mãe. Havia a sua própria curiosidade acerca da visita de Verne. Muito a tratar naquela noite de um dia verdadeiramente desgastante.

– Tem toda – disse apenas se pondo de pé.

– Então boa noite... – a baronesa desejou ao se levantar, olhando-o. Ao receber de volta um franzir aborrecido de cenho, acrescentou. – A ambos.

– Obrigada – Isabella retribuiu mais segura enquanto Edward voltava a se sentar. – Tenha também uma boa noite Lady Elizabeth.

A baronesa abriu a boca e fechou, antes de girar as saias e deixar a sala de jantar, dirigindo-se à criada.

– Estarei em meu quarto esperando aquele chá calmante que lhe pedi Amy.

– Levarei em instantes, milady – disse a jovem, porém sua patroa já se encontrava demasiadamente longe para ouvi-la.

– Podemos seguir-lhe o exemplo? – Edward indagou amável, cobrindo a mão que Isabella mantinha sobre a mesa.

– Sim... – a moça olhava para as mãos postas, tentando reconhecer como se sentia depois do jantar silencioso e tenso. – Embry está a minha espera.

– Pretende dispensar quanto de seu tempo a ele? – A pergunta mascarava a ansiedade do barão para que sua noiva estivesse livre naquela primeira noite de sua volta, mas o polegar que se movia nas costas da mão pequena indicava sua intenção.

– Não sei – ela disse sincera, erguendo os olhos negros para seu noivo. – Tudo agora é novo e Embry já deixou clara sua insegurança. Quero que meu filho se sinta confortável.

Edward aprovou o reconhecimento fácil e a dedicação, mas ainda preferia que Isabella não alimentasse os temores do menino e rogou que ela não inventasse de ficar com o Embry até que amanhecesse. Logo o nobre se recriminava por seu ciúme. Aquela era a primeira noite para o pequeno também. Temer o escuro e a solidão depois de anos dividindo o quarto com seus colegas era totalmente aceitável.

– Sendo assim – começou, resignado. – Vou ficar mais um pouco aqui em baixo antes de me recolher. Venha...

Deixando a mesa, ajudou-a a se levantar e ofereceu seu braço. Despediram-se das criadas e deixaram a sala de jantar rumo à escadaria. Longe de ouvidos curiosos o barão avisou num sussurro cheio de promessas.

– Irei esperá-la em seu quarto para terminar o que começamos.

– Tentarei ser breve. – ela assegurou, estremecendo ante a lembrança. – Irei para meu quarto tão logo Embry durma.

Despediram-se com um olhar e um sorriso cúmplice. Edward seguiu para a saleta onde degustaria um charuto apenas para ocupar o tempo ocioso de espera. Isabella por sua vez, rumou diretamente ao quarto de Embry como havia prometido. Não era sua intenção, mas percorreu os corredores com o coração expectante, como se a baronesa fosse saltar das sombras para abordá-la. Não aconteceu, e foi com alívio que se recostou à porta do cômodo depois de fechá-la.

– A senhora demorou. – Embry reclamou num muxoxo.

– Vim o mais rápido que pude – a moça lhe sorriu conciliadora, aproximando-se. – Para mim o jantar foi mais complicado. Não tive apenas que tomar sopa e comer pão.

– Ah, não? – ele indagou interessado. Isabella confirmou com um aceno ao que ele seguiu. – Mas comeu tudinho? Conseguiu sua sobremesa?

– Sim... Tive minha sobremesa. Agora me deixe deitar um pouco aí com você.

Embry sorriu e se afastou, porém mediu-a e observou apreensivo.

– Por que está assim vestida? Não vai dormir aqui comigo?

– Não meu querido – a mãe se acomodou e o puxou para um abraço. – Aqui também há regras e cada um de nós tem que dormir em seu próprio quarto.

– Mas eu pensei... – ele começou com voz subitamente trêmula. – Pensei que a senhora fosse ficar aqui comigo para não deixar que apaguem as luzes.

– Ninguém vai apagar. – Isabella assegurou, acariciando os cabelos castanhos, sentindo seu coração ser inundado por uma alegria súbita por estarem ali; juntos. – De toda forma, sempre haverá a luz da lareira e Nero está aqui.

Ao ser nomeado o galgo ergueu a cabeça por um instante. Registrou-a e então voltou a baixar a cabeça, fechando os olhos em seguida. Isabella suspirou divertida, fora trocada.

– Você gostou dele? – a moça indagou para mudar o tema. – De Nero?

– Sim. – ele respondeu mais animado, ajoelhando-se do colchão para olhá-la de frente. – Mas ele é mesmo uma fera – acrescentou arregalando os olhos azuis. – Nero rosnou para a vovó quando ela o mandou sair.

Isabella conteve um sorriso ao saber que a relação entre o cão e a nobre realmente não havia mudado em nada.

– Mas mesmo assim Lady Elizabeth o deixou ficar – salientou. Puxando o menino de volta para seus braços, mais uma vez mudou o tema. – E você gostou dela? De sua avó?

– Gostei – disse sincero, passando a brincar com as pedrinhas que enfeitavam o corpete do vestido. – Ela me contou sobre meus primos, sobre meu bisavô Embry e vovô Edward.

– O que ela disse sobre seu avô? – inquiriu enregelada.

– Que ele morreu porque estava muito doente.

– Ah... – Isabella suspirou aliviada. Antes que formulasse uma nova pergunta, Embry falou:

– Vovó quis saber como era nossa casa. – a moça novamente se retesou.

– E o que você disse?

Embry novamente se desprendeu do abraço e a encarou incrédulo.

– Eu disse que não lembrava... A senhora esqueceu que estamos num jogo? Não quero perder.

– Exatamente! – a moça simulou ter esquecido dando um tapinha contra a testa. Depois mais uma vez o trouxe de volta ao círculo de seus braços e pediu. – Faça de tudo para não perder.

– Não vou perder – assegurou. Então, com seriedade disse. – Obrigado por ter me tirado do castigo. É bom estar aqui.

Isabella apenas o apertou, afundando o nariz nos cabelos macios, comovida. Para ela, apesar do que viria, também estava sendo muito bom tê-lo definitivamente de volta à sua vida. Com Edward acreditando em sua palavra e “seu filho” ao lado, ela tentaria ser forte para vencer o que viesse. E pelo silêncio avaliativo da baronesa depois de tentar sanar sua curiosidade através do neto, poderia deduzir que já na parte doméstica, não seria pouca coisa.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado. Me contem, please. :) Bjus meus amores. Até breve! Tenham um lindo domingo.