Borboleta Negra
30 Capítulo Vinte e Nove
Notas iniciais
Não havia mais como enganar sua avó. Isabella se sentia nauseada com aquele toque e nem mesmo os rosnados de Nero intimidavam a mulher, obrigando-a a libertá-la. Passado o choque, a moça finalmente reagiu.
– Solte-me! – ordenou tentando desprender os dedos ossudos de seu braço com sua mão livre. – Tire suas mãos de mim sua velha nojenta.
Imediatamente a senhora a largou. Limpando a mão no vestido preto, falou com expressão enojada.
– Solto porque não quero me emporcalhar.
– A única pessoa suja aqui é a senhora – ela retrucou nervosa.
– Eu sou suja? O que dizer então de uma desavergonhada que se hospeda sozinha sob o teto de um homem solteiro? – escarneceu. – Você não é somente imunda, é também ordinária... Eu a reconheci desde o dia em que o barão cruzou essa cozinha carregando você nos braços.
– Se sempre soube por que nunca me delatou? – Isabella queria entender.
– Eu tentei avisar ao barão, mas ele não quis ouvir... Também tentei me aproximar de você, mas Marie nunca a deixava sozinha e hoje foi Leah a servir como cão de guarda. O que ajudou foi saber da febre do barão, justamente num domingo. As chances eram pequenas, mas contei que fosse você a vir buscar água.
– Então foi a senhora! – Isabella exclamou incrédula, recordando que em seu sonho estranho havia visto a avó. Com certeza deve ter despejado a água dentro da tina – Invadiu os aposentos do barão!
– Sim e acredite... Eu faria novamente caso tivesse a chance de livrá-lo de uma víbora.
– Como pode me odiar tanto... Eu sou sua neta! Por que não acredita em mim?
– Por que confiaria numa cobrinha metida à rica. Desde pequena deixava o trabalho para correr com Lady Rosalie como se fossem iguais. Com certeza em sua cabeça acreditou que pudesse ter mais se fosse a queridinha do barão e o seduziu.
– Continua louca! – Isabella nunca acreditou em alguma mudança.
– Pode me insultar o quanto quiser... Sei que está desesperada por ter sido desmascarada. Mas afinal... O que essa boa família fez para você?... Desgraçou o pai, agora quer arruinar a vida do filho.
– Desgracei o pai?! – indagou estupefata. – Ainda crê em tal absurdo? Foi aquele porco nojento que acabou com minha vida!
A bofetada em seu rosto veio sem aviso, desnorteando-a por um instante. O galgo imediatamente atacou, mordendo a mão ainda estendida. Presa em seu ódio a velha nem sequer gritou, apenas grunhiu e abraçou a mão ferida enquanto Isabella segurava o galgo.
– Acalme-se Nero! – demandou com voz trêmula. – Não vale a pena.
O galgo se aquietou, porém continuou a rosnar para a senhora que ciciou inabalável:
– Isso, segure essa cria dos infernos e limpe sua boca com sabão antes de falar de Lord Bradley. Que Deus o tenha!... O barão era um homem bom e fiel até você lhe virar a cabeça com suas artimanhas.
– Como pode acreditar no que diz? Eu era pouco mais do que uma menina! – Isabella vociferou entre dentes, contendo o ímpeto de gritar.
– Vadias já nascem vadias! Tenho certeza de que Lord Bradley jamais tocaria numa “menina” se ela não se oferecesse – a velha replicou. Então a medindo com desprezo, acrescentou: – Agora ataca novamente... Como pode ser tão vagabunda? Enfeitiça o filho como fez com o pai... Desde que a trouxe para cá, Lord Masen não é o mesmo. Age como se não fosse um nobre. O que deseja? Destruí-lo?
– Não tenho que lhe dar satisfações da minha vida. – Isabella retorquiu altiva. – Não diz respeito à criadagem o que possa haver entre mim e o barão.
– Mas diz respeito à baronesa. E ao próprio barão... Acaso ele sabe que anda fornicando com a filha de antigos criados? – Sue a encarava; desafiadora. – Contou para Lord Masen que era amante do pai dele?
– Nunca fui amante daquele velho nojento. E não se atreva a me bater novamente! – avisou ao notar a intenção. – Ou esqueço que é minha avó e revido.
– Seria bem capaz de bater numa velha – Sue falou com desprezo. – Alguém como você não tem respeito, moral ou escrúpulos.
– Dou aos outros àquilo que recebo. – Isabella rebateu. – Diante de mim não há ninguém digno de consideração.
– Então falemos de alguém que talvez mereça... – a avó sugeriu. – O que quer com Lord Masen? Vingança? Embaraçá-lo diante de todos por estar com a neta da cozinheira? Ou talvez com uma rameira, pois esse é o destino de toda vagabunda... Acredita mesmo que quando ele souber do seu passado ainda irá aceitá-la?
– Isso não é da sua conta. – Isabella ciciou.
– Olhe para si mesma Cora. – Sue prosseguiu sem lhe dar atenção – Pode estar bem cuidada, mas no fundo sempre fará parte da criadagem... Lord Masen não tem somente o nome a zelar, tem também prestígio e um título. Merece se casar com alguém de berço que o abrilhante mais, não se juntar a uma vadiazinha da pior espécie que já foi usada pelo próprio pai. Ou ele já sabe e a aceita?
Odiava reconhecer que a avó não havia dito nada do que ela mesma não pensasse. Ainda assim, Isabella quis erguer o queixo e dizer que Edward a aceitava com todos seus piores defeitos, mas foi traída por duas lágrimas traiçoeiras que não pôde conter.
– Eu sabia! – Sue exclamou vitoriosa. – Quer tão somente enredá-lo como fez com o pai... Quando o barão souber de seus encontros com Lord Bradley vai escorraçá-la e eu estarei aqui para assistir seu jogo chegar ao fim.
– Talvez ele me aceite... – murmurou; a voz falha. Sufocava. Sabia que nem tentaria. Tudo já estava perdido.
Sue então sorriu sarcástica e debochou:
– Um barão?!... Fabricante da sidra preferida da rainha Vitória. Cunhado do duque de Ascot e do conde de Albuquerque? Aceitar viver ao lado de uma ninguém que fornicava com seu pai na dispensa e com ela frequentar as casas mais respeitadas da corte? Caia em si Cora... Mulheres da sua laia circulam pelos esgotos, não por nobres salões.
– Isso é ele quem resolve... – exalou; seu peito doía.
– Então talvez devamos acordá-lo e descobrir de uma vez por todas... – a velha sugeriu, precipitando-se para a porta.
– Não! – Isabella se ouviu gritar. Quando a avó parou e a encarou ela pediu: – Não faça...
– Sabe que eu estou certa, não sabe? – Sue indagou inexpressiva.
– Sei... – aquela mínima palavra teve sabor de fel.
– Então também sabe o que deve fazer.
– Já estava decidida a ir embora quando a ponte fosse restaurada – contou seu plano inicial.
– E isso só prova a espécie de cobra que é... Até lá o que faria? Brincaria com os sentimentos do barão como fez com Lord Bradley? Talvez tentasse arrancar dele algum dinheiro e jóias. Vejo que até um anel já carrega em seu dedo... Você é mesmo uma ordinária, mas não vou permitir que pilhe os bens dessa família.
– Eu juro que não quero nada. Dê-me alguns dias... – implorou. – Seu senhor está doente. Ele precisa de mim!
– Para quê ele precisaria de uma aproveitadora mentirosa? – Sue indagou impassível. – Lord Masen estará melhor sem você... Quero que deixe essa casa o quanto antes. Tem até o raiar do dia. Logo choverá e não quero ter que responder por uma alma desgraçada. Mas é somente até que o dia clareie. Se Marie a encontrar no quarto pela manhã, o barão, você e eu teremos uma conversa.
– Essa será a segunda vez que me expulsa dessa casa. – Isabella murmurou.
– E espero em Deus não ser obrigada a expulsá-la uma terceira. Volte para o buraco de onde não deveria ter saído Cora... E deixe o barão em paz!
Como não havia mais argumentos, pediu derrotada:
– Posso pegar água? Edward precisará dela.
– Edward... – a velha salientou debochada. – Quanta petulância tratá-lo pelo nome de batismo. Pior até do que usar as roupas dele... Vá, pegue a água e tudo mais que seu patrão precisar, mas antes quero que limpe a bagunça que vez.
Isabella olhou os cacos por um instante. Seu primeiro desejo foi mandar sua avó ao inferno, mas a conhecia bem o suficiente para saber que voltaria sua palavra atrás e encerraria com sua farsa no segundo seguinte. Não precisava dela para distorcer a verdade e muito menos daria àquela velha odiosa o prazer de assistir Edward escorraçá-la. Engolindo em seco, indagou:
– Onde estão a vassoura e a pá?
– Se não fosse uma preguiçosa imprestável saberia, pois elas estão no mesmo lugar – escarneceu antes de dizer. – Ao lado...
– Sei bem onde ficavam – ela a cortou, indo buscar o que precisaria ao lado do grande armário. Logo voltou e ao começar a juntar os cacos, igualmente zombou. – Sua mente doente não lhe deixa lembrar muita coisa... Nunca deixei de cumprir com minhas obrigações nessa casa, muitas vezes fazendo até as suas... Não, espere... Eu estava aprendendo, não é mesmo?
– Exatamente! – Sue concordou. – Deus é testemunha do quanto cuidei para que se tornasse uma mulher decente e trabalhadeira, livre de pecados... Depois que descobri sua sem-vergonhice eu pedia perdão todas as noites por ter falhado, mas então entendi que a culpa não era minha... Como lhe disse, você já nasceu estragada. Estava fora de meu alcance consertá-la.
Isabella ouviu calada, juntando os cacos. Tão logo os recolheu e os jogou no balde reservado ao lixo, pegou uma das jarras dispostas sobre a mesa junto a alguns copos e, sempre sentindo a vigília nefasta sobre si, encheu-a d’água. Então, decidida, recuperou a lamparina e marchou até a porta. Antes de sair, porém, encarou a avó e murmurou:
– Sinceramente eu tenho pena da senhora. Deve ser horrível conviver com tanta amargura todos os dias. Deus foi generoso ao levar meus pais, livrando-os de sua companhia.
– Ele poderia ter sido generoso comigo, livrando-me de você – ela retrucou.
– Ah... Mas ao menos isso a senhora consertou, afinal tratou de me matar!
E repetia o feito naquela noite, Isabella lamentou. Sem mais palavras, finalmente deixou a cozinha. Seguida pelo galgo, rumou corajosamente até o meio da escadaria onde suas pernas falharam, obrigando-a a sentar num dos degraus. Deixando ao lado a jarra e a lamparina que sentia escorregarem de suas mãos, curvou-se sobre o estômago e deu vazão às lágrimas que sufocou diante da avó. Sentia-se como um dos piões de seu pequeno Embry. Rodou, rodou e caiu no mesmo lugar.
De verdade, nunca houve alternativas. Qualquer uma que tenha almejado era apenas delírio, pois sempre só houve um caminho a seguir. E por conhecer seu único destino, Isabella não entendia porque doía. Talvez o corte em seu peito fosse o preço a pagar por se atrever a deixar sua insignificância, permitindo-se amar. Fora feliz naqueles dias então não devia lamentar; apenas recolher seus cacos e ir adiante. Resignada com a sina imposta pelo barão pai, Isabella secou as lágrimas e se levantou. Ainda vacilante recuperou a jarra e a lamparina e voltou a subir os degraus.
Ao chegar ao topo já dominava suas pernas o suficiente para seguir ao quarto de Edward decidida a acordá-lo. A hora da despedida havia chegado, então daria para ambos a melhor. Após fechar a porta atrás de si ficou a olhar o barão em seu sono enquanto Nero voltava a se enrodilhar sobre o tapete. Edward estava como o deixou; deitado de bruços. O braço ileso abraçado a um travesseiro; algumas mechas do cabelo castanho cobrindo uma pequena parte do rosto sereno. Isabella soube naquele instante que morreria a cada dia ao lhe sentir a falta, mas tinha que deixá-lo. Não somente pelas ameaças de sua avó, mas porque não queria torná-lo motivo de chacota e, principalmente, não queria vê-lo ameaçado por Laurent Hunt.
Não, sua partida não era de todo altruísta, Isabella admitiu abraçando-se ao chambre. Havia nela boa dose de covardia, pois sabia que não resistira caso visse qualquer nota de horror ou asco quando o barão soubesse que o enganou e que era, sim, uma criminosa; como ele mesmo nomeou sua profissão. Suportaria tomar conhecimento de que se casou com outra, ser escorraçada por todos e até ser tratada como pária da sociedade por sua avó, mas morreria caso fosse desprezada por Edward. Tal pensamento lhe deu forças para ir além. Antes de se juntar a ele apagou a lamparina deixando o quarto ser iluminado apenas pela luz vinda da lareira. Daquela forma ele não veria as marcas de suas lágrimas nem a vermelhidão de seu rosto que ainda ardia.
Aos pés da cama retirou seu pesado robe e ao fazê-lo se sentiu desprotegida. Apenas Edward poderia varrer a sensação ruim; mesmo que pela última vez. Então, sem desviar os olhos do dorso escurecido pelas sombras, Isabella se despiu para então, lentamente se ajoelhar aos pés de seu barão. Com o coração aos saltos beijou-lhe uma das coxas sob a ceroula. Edward se moveu, mas não pareceu ter despertado. Subindo seus beijos por uma perna enquanto acariciava a outra, Isabella alcançou as nádegas firmes; uma apertou e a outra mordeu de leve.
– Nero é você? – Edward murmurou sonolento.
Isabella sorriu, lutando com novas lágrimas; o bom humor seria uma das tantas qualidades de que sentiria falta. Como aquele não era um momento só seu, engoliu o choro e entrou na brincadeira.
– Au, au... – simulou latir, antes de apertar os lábios onde havia mordido e tornar a subir seus beijos, sempre o acariciando com uma das mãos.
– Hum... Ganhei um novo bichinho de estimação? – Edward falou com voz mais desperta, movendo-se quando Isabella mordeu-lhe a escapula. – Mas é tão desobediente quanto o outro. Não sabe que não deve morder o dono.
Dito isso, ainda meio confuso com aquele ataque, Edward se moveu rapidamente capturando Isabella para deitá-la sobre a cama. Ao tê-la segura, excitado por descobri-la nua e com os carinhos que recebia, mirou o rosto escurecido pela penumbra e lamentou:
– Uma pena que estamos no escuro. Sempre irei querer vê-la meu bichinho...
– Não precisa... – ela ergueu a cabeça e beijou brevemente os lábios do barão antes de acrescentar: – Como meu dono conhece cada detalhe.
Não precisava entendê-la afinal, então Edward exalou um gemido alto e prendeu sua boca à dela. Isabella correspondeu ao beijo com fome, segura de que o corte não mais abriria, marcando cada mover das línguas, decorando o sabor da boca e os sons que seu barão liberava; apreciando a aspereza do cavanhaque que deixaria sua boca ardida. Infelizmente não para sempre.
Saudoso, Edward desprezou a dor de seu braço e prendeu os seios em suas palmas, beliscando os bicos para enrijecê-los. Estimulada pela carícia descuidada, logo Isabella também o tateava, apertando-lhe as costas, os ombros, o peito. Puxou-lhe os pelos levemente antes de descer a mão pelo abdômen bem marcado para tocar também seu sexo, levando-o a urrar contra sua boca.
– O que fiz para receber tantos agrados bem no meio da noite? – Edward perguntou rouco afundando o rosto na curva do pescoço simulando mordê-lo.
– É nada menos do que perfeito my lord – disse a verdade, excitando-se com o arranhar em seu pescoço; em troca estimulando-o mais. – Merece todos os agrados, sempre.
– Hum... Você já me dá todos os agrados Bella e devo dizer que agora parece especialmente mais empenhada, levando-me a imaginar até onde poderia ir...
– Sou seu bichinho esqueceu? Faça de mim o que quiser...
– Quero marcá-la – ele anunciou, enquanto a imitava descendo sua mão pelo ventre saliente para tocá-la intimamente. – Assim quando afastar seus cabelos amanhã eu terei a prova de que é minha.
O barão não veria tal prova, mas era dele para sempre então consentiu:
– Marque-me my lord...
Edward não esperou por um novo consentimento, acariciando-a de forma perturbadora, com fome abocanhou um pedaço de carne macia na base do pescoço e a sugou. Para a moça foi uma dolorosa e prazerosa tortura sentir a ação dos lábios a marcá-la com o símbolo dos amantes pervertidos. Ao macular a pele clara, o barão se sentou e a puxou para o colo, amparando-a pelas costas para provar-lhe os seios; ora sugando, ora mordiscando os mamilos hirtos; enlouquecendo-a.
– Edward, por favor... – ela implorou; precisava de alívio para a dor latejante.
– Dispa-me – Edward pediu, deixando que ela saísse de seu colo.
Obediente ela o atendeu, correndo a ceroula pelas longas pernas até deixá-lo nu. Ao ver o falo ereto foi inevitável não adiar a posse e beijá-lo.
– My lady... – ele exalou, atirando-se contra o travesseiro. Sentindo-se novamente febril apenas pela expectativa de ter a boca morna em si. – Faça novamente, faça...
Não havia a necessidade de pedir, pois Isabella já o lambia em toda sua extensão muito ansiosa por descer os lábios sobre ele. Seu centro pulsava reclamando a distração, mas a moça desprezava sua vontade ao notar o quanto satisfazia ao barão por prová-lo cada vez mais forte.
Deixou-o apenas quando sua dor se tornou insuportável. Então, erguendo-se, apenas atravessou sua perna pelo quadril de Edward como se montasse em Luna e encaixou-se na rija hombridade. Gemeram juntos e se abraçaram cada qual segurando o cabelo do outro como se daquela forma nada os separasse. Unidos naquela posição, cabia a Isabella ditar os movimentos então serpenteou o quadril, agravando a excitação de ambos até elevá-la a um nível insustentável.
– Bella, precisa parar... – Edward a lembrou muito rouco.
Não precisava. Não podia, nem queria. Amava incondicionalmente a lembrança viva de um estupro, então considerou que seria sublime o sentimento dado à recordação de seu verdadeiro amor. Subitamente desesperada por levar consigo um pedacinho do barão, Isabella se moveu mais. Edward tentou segurar-lhe, mas não mais se comandava.
– Não posso esperar mais... – avisou num lamento. – Isabella...
– Edward... – ela exalou quando o gozo a fez estremecer.
Com o estimulo final o barão se rendeu e entregou a ela sua semente. Não entendia o que a fez mudar de ideia, mas sentia-se pleno por finalmente amá-la até o fim sem qualquer prevenção. Satisfeito com a iniciativa, apertou-a mais em seus braços até que os espasmos findassem deixando apenas a sensação de leveza e paz.
– O que deu em você? – Edward perguntou manso, afastando-a para olhá-la. – Não se preocupa mais em engravidar antes da hora?
– Entendi que não seria um problema – falou receosa de que tivesse ido longe demais; em seu momento de loucura não parou para pensar em como a contradição seria entendida.
– Não, não seria – ele concordou contente. – Na verdade seria a resolução definitiva de nossas divergências de pensamentos, pois assim a senhorita nunca mais se diminuiria. Caso já não fizesse de boa vontade, agora seria obrigada a se casar comigo, afinal abusou de mim.
Isabella novamente sorriu mesmo comovida. Lá estava o bom humor para apaziguar assuntos perturbadores. Aliviada por não ser julgada, ela se deixou ser estendida sobre a cama. Animado com suas próprias palavras, Edward se pôs ao largo com a cabeça próxima ao ventre morno onde pousou a mão.
– Se acaso Edward Edrick III estiver nesse instante lutando por sua vida, vou exigir que nosso noivado seja o mais breve possível, ouviu bem senhorita Swan?
Isabella nada disse. Estava comovida e parcialmente arrependida; a lembrança seria só sua. Para não deixá-lo enveredar por caminhos impossíveis de seguir, ela imprimiu jovialidade a voz e salientou:
– Talvez nada tenha acontecido. Então teremos muito tempo para planejar nosso casamento, my lord.
– Posso cuidar disso daqui a alguns minutos – ele retrucou, colocando-se corretamente ao lado dela, mirando-a na penumbra. – Até que possa providenciar a vinda de nosso filho vou tentar convencê-la a ir à igreja comigo, lembrando-a o quanto a amo.
Que hora Edward escolheu para novamente se declarar, Isabella pensou com o coração espremido. Tocando o rosto bonito, áspero pela falta do barbear, ela o ouviu insistir:
– Amo-a tanto que tenho pressa. O que acha de irmos à igreja e marcarmos nosso casamento para daqui a duas semanas?
– Duas semanas é pouco tempo para todos os preparativos. Vamos esperar pela conclusão da ponte – sugeriu correndo o polegar pelo cavanhaque, decorando; sempre decorando.
– Não podemos esperar muito my lady. Acaba de arriscar engravidar de um filho meu – ele retrucou livre do humor, sentando-se rígido. – Por que de repente me parece que esteja protelando?
– Eu não estou, eu... – ela tentou lhe tocar a coxa ao que o barão capturou a mão e a manteve longe, segurando-a firme.
– Não está inventando uma desculpa para voltar atrás, não é mesmo? – indagou num rouco ciciar.
– Não! – Isabella negou veemente. – Jamais o faria!
– Então me explique por que não quer ir à igreja.
– Eu não disse que não iria – ela começou, ignorando o leve incômodo em seus dedos –, apenas penso que devemos fazer tudo corretamente. Sua mãe nem sabe de seu noivado. Ou suas irmãs... Já estamos noivos, então não há pressa. Nem sabemos se ficarei grávida. Eu apenas quero que seja perfeito.
– Será perfeito! – Edward então cedeu a pressão sobre os dedos delicados e pousou a mão dela em sua coxa. – Todavia sinto que tem algo mais a me dizer... Saiba que jamais me declarei para mulher alguma, então, por favor... Que tudo isso que passamos não esteja sendo tratado com leviandade.
Sim, ele a odiaria, mas já se habituava à ideia. Com isso não recuou um passo no caminho que deveria seguir.
– Como poderia Edward? Eu o amo!
Não havia nada naquela declaração que ele pudesse contestar. Talvez ainda estivesse sob a influência da sabotagem ou fosse a debilidade pela febre recente que o confundia, levando-o ao erro. O fato era que seu instinto falhava e mais uma vez cismava com ela sem razão. Com isso, na penumbra a moça o viu sorrir antes de usar o braço sadio para puxá-la até que a abraçasse.
– Repita – o barão ordenou.
– Eu o amo Edward. Hoje, você ocupa todo o meu coração!
Com um expirar profundo, como se mantivesse a respiração suspensa, Edward prendeu-lhe a cabeça e a beijou apaixonadamente. Isabella retribuiu aflita, depois da declaração necessitava dele. Tanto que subiu em seu colo e o abraçou forte entre seus braços e pernas como se assim se fundissem.
– Bella... – Edward murmurou entre o beijo. – O que há?
– Beije-me... Faça-me sua, Edward...
– Você já é... – ele assegurou, beijando-lhe o pescoço.
– Mostre-me... – pediu movendo em seu colo para provocá-lo.
Com um gemido incontido o barão a derrubou na cama e se colocou sobre ela.
– Não sei o que está acontecendo com você, mas digo que estou gostando muito.
Dito isso o nobre passeou as mãos e sua boca espinhenta pelo corpo já estimulado de Isabella, excitando-a mais. Levando-a ao pranto silencioso e sufocado por tudo o que abdicaria. Quando novamente Edward se fundiu a ela e a beijou, sentiu o gosto de sal no rosto molhado.
– Está chorando... – sussurrou.
– Seu amor me comove... – Isabella murmurou, movendo-se abaixo dele. – Confirme que sou sua... Ame-me até o fim.
– Até o fim...
Com a promessa o barão serpenteou seu quadril ritmicamente até que gritassem seus nomes enquanto o mundo parecia girar. Exausto Edward se estendeu ao largo e a abraçou para repetir arfante:
– Não sei o que aconteceu com você, mas gosto muito.
Igualmente cansada, Isabella lhe acariciou o rosto, recriminando-se por extenuá-lo quanto deveria estar em repouso; mas não havia como ser diferente. Quando falou sua voz era rouca, a garganta lhe doía.
– Eu lhe disse que desde cedo aprendi a ter o que quero sem esperar para depois. Acordei e apenas quis você.
– Isso foi bom de ouvir – ele lhe sorriu. Lembrava-se daquele comentário, feito na primeira vez em que ficaram juntos quando descobriu sua nudez de Eufrásia. Logo a curiosidade lhe abateu, levando-o a correr os dedos pelo rosto delicado e comentar: – Na verdade você disse ter aprendido duas coisas... Qual foi a outra?
– Ser invisível – ela respondeu sem rodeios, relevando a dor que o carinho provocava em sua bochecha estapeada.
– Invisível?! – Edward riu contido; incrédulo. – Por que uma mulher tão bonita iria desejar tal coisa?
Justamente para que não notassem sua beleza. E depois para que não a perturbassem em seu refugio. Para tanto se mantinha quieta em seu canto; trocara de nome, sepultando Cora Hupert para assumir em definitivo a alcunha de Isabella Swan. Não poderia revelar tal coisa, então, deu de ombros e desconversou:
– Bobagens minhas... – e para ter mais a recordar, pediu: – Eu repeti que o amava, poderia fazer o mesmo?
– Eu amo você!... – Edward disse seriamente. Tomando-lhe uma das mãos beijou seus dedos e falou: – Não entendo esse seu desejo de ser invisível, mas em algo concordamos... Não devemos deixar para depois o que queremos agora, então Bella... Esqueça os preparativos. Caso queira podemos esquecer até os convidados e minha família, a rainha... Apenas se case comigo o quanto antes... Vamos avançar mais essa etapa.
– Edward... – novamente seus olhos marejaram.
– Sei que não tem família então forme uma comigo – ele a cortou gentilmente. Soltando-lhe a mão tocou seu ventre. – Dê-me um filho. Ou uma filha com seus cabelos de noite.
– Edward, eu...
– Diga que sim! – ele ordenou, prendendo-a pela nuca. – Já aceitou meu pedido, não há motivos para esperar mais.
– Vamos conversar sobre isso amanhã. – Isabella disse num sussurro exalado.
– Promete? – Edward correu os dedos por entre seus cabelos para acariciar-lhe a cabeça. O toque a dispersava, mas tinha consciência de que não poderia prometer, então apenas repetiu.
– Amanhã... – e como estava naquela cama com um propósito, atirou-se sobre o barão, fazendo-o deitar para se apoiar sobre seu vasto peito. – Agora desejo unir-me a você de outra forma, my lord... Teria forças?
– Não tenho vinte e três anos, você sabe – ele troçou.
Sim, ela sabia; condenou-se mais por querer que ele a amasse tantas vezes em seguida.
– Estou forçando você, desculpe-me... – ela tentou deixá-lo.
– Não! – Edward a prendeu, repentinamente aflito. Sem entender a razão, abraçou-a mais forte e correu uma das mãos ao longo de suas costas para apertar-lhe as nádegas de encontro a si. Sufocando a inesperada sensação de perda, voltou a brincar: – Não pode provocar e correr... Percebo sua clara intenção em me matar quando ainda me convalesço, mas não me importo. Tenho uma reputação a zelar...
– Não está mais com febre – ela retrucou, beijando-lhe a base do pescoço; agradecida por ser verdade. Então acrescentou segura: – E de tanto amar não se morre.
– Lamentável, pois não imagino melhor forma de morrer... – foi o comentário murmurado, enquanto ele movia a cabeça para receber o carinho dos lábios em seu pescoço.
– Ainda assim, vamos com calma. – Isabella determinou, deixando-se ficar sobre ele, aninhada contra o peito. – Sua reputação sempre estará intacta.
– Obrigado! – Edward agradeceu sincero; nunca iria se negar a ela, mas estava cansado. Apreciando o peso dela sobre si, fechou os olhos e passou a lhe acariciar os cabelos lentamente.
Finalmente decorando o calor de todo aquele corpo, ela também lhe acariciou os cabelos da nuca e murmurou:
– Queria que o tempo parasse agora.
– Desejo estranho – ele comentou. – Posso dizer que também apreciei muito essa noite. Especialmente por você ter assumido sua condição e dito onde mora, mas não quero que tudo pare aqui... Amanhã e os dias que se seguirem serão ainda mais especiais, Bella.
– Serão... – a moça concordou. Talvez não amanhã, pela pensou comovida. Mas quando ele a odiasse e seguisse em frente, haveria de ter muitos dias especiais, como ele tanto merecia. Sem se conter, novamente beijou o peito largo e insistiu: – Mesmo assim, eu queria que esse momento durasse para sempre. Não sei o que o futuro me reserva, então considero esse meu instante perfeito. Aqui, sobre você, onde me sinto tão amada e protegida.
Edward sorriu orgulhoso de si mesmo, pois tinha absoluta certeza de que Isabella nunca havia se sentido daquela forma. Quis dizer que ela não deveria ter cuidados, pois a amaria e protegeria para sempre, porém não se animou em fazê-lo. O calor que vinha dela, assim como o carinho em seu cabelo e deixava preguiçoso. Como resposta apenas moveu a cabeça e lhe beijou a testa ternamente, determinado a descansar um pouco antes de atender ao seu pedido anterior; queria se unir a ela quantas vezes seu corpo permitisse até que fosse hora de deixar aquela cama. Bastaria dormir alguns minutos.
A primeira sensação foi o calor bom do corpo no qual estava deitada e fios macios entre seus dedos. Ainda sonolenta Isabella os moveu até reconhecer serem os cabelos crescidos do barão. Lembrou-se então que estava sobre seu peito e sorriu manso. Corria o nariz por sua clavícula, sentindo-lhe o cheiro tipicamente masculino, quando ele ressonou alto, acordando-a de vez. A compreensão do que se passava, coincidiu com o trovão que estourou ao longe. Curiosamente não o temeu; era hora de partir.
Imediatamente sua garganta travou, mas não chorou. Deveria ser grata por sua avó ter lhe dado algumas horas e por ter tido a chance de se despedir; de decorar cada detalhe do homem que amava. Movendo-se lentamente para não despertá-lo, Isabella se afastou. Imediatamente o barão protestou em seu sono e se virou sobre o braço bom. Isabella se manteve imóvel, contendo o ímpeto de abraçá-lo por medo de ser segura de forma que não conseguisse se soltar.
Vendo que Edward dormia profundamente, apertou seus lábios contra os dele demoradamente e lhe acariciou o rosto pela última vez. Embargada, finalmente deixou a cama. Nero despertou e ergueu as orelhas quando ela calçou os chinelos e não voltou a dormir enquanto ela recolocava suas roupas íntimas sem deixar de olhar para Edward. Uma vez vestida, tratou de cobrir o corpo nu do barão. Nesse momento o galgo já se encontrava sentado sobre as patas, assistindo atento a cada movimento de sua amiga.
Sem dar atenção ao cachorro, a moça conferiu as horas; 3h20. Após recolocar o relógio no lugar, ao lado da tipoia esquecida, acariciou os cabelos do barão, remanchando em deixá-lo. Corria os dedos pelos longos fios quando uma ideia lhe ocorreu. Como não havia tempo para avaliar sua ação, Isabella tratou de acender a lamparina e foi até o aparador. Logo voltou trazendo a navalha, com cuidado separou uma mecha considerável e a cortou. Cheirando-a deixou a navalha de volta em seu lugar e, de onde estava, olhou para Edward, para a cama, a tina; o quarto inteiro até que seus olhos pousassem em Nero.
– Agora não posso levá-lo – disse baixinho, agachando-se. Com a mão livre o acariciou, induzindo-o a se deitar. Quando o galgo a atendeu e virou sua magra barriga para cima, ela a afagou dizendo. – Quero que fique aqui, está bem?... E quieto de preferência... Faça isso por mim.
O galgo então se virou, cruzou as patas dianteiras, mas não deitou a cabeça. Continuou a olhar para Isabella, atento.
– Eu nem lhe agradeci. Obrigada por morder aquela velha bruxa... – ao se levantar e notar que o cão ainda estava disposto a segui-la, falou com firmeza. – Fique aí Nero. Eu já volto.
Reconhecendo a autoridade, o galgo finalmente se deitou, deixando-a livre para partir. Com isso, Isabella olhou para Edward pela derradeira vez. Completando seu acervo de recordações, ela se obrigou a deixar o quarto. Segurando a mecha fortemente, ela pegou a lamparina e, sem olhar para trás, deixou o quarto. No corredor sentiu sua determinação voltando aos poucos. Não ter o barão em seu campo de visão parecia atenuar a partida. Então, decidida entrou no quarto que por alguns dias foi seu e, depois de deixar a mecha e a lamparina sobre a penteadeira, foi recolher seu vestido e suas botas.
Já completamente vestida, pelo amor desmedido e todo apreço que tinha por seu barão, Isabella decidiu ir contra sua crença em jamais escrever aquilo que deveria ser dito e resolveu deixar ao menos uma carta. A explicação, ainda que tardia, talvez não permitisse que Edward a odiasse tanto, ou não tentasse encontrá-la. Com a determinação, depois de também penteada, marchou até a escrivaninha e, separando papel e a caneta tinteiro, tentou escrever. Travou logo no cabeçalho sem saber como se referir a Edward. Na dúvida iniciou a escrever o que sentia.
Lord Masen, a quem pude chamar de Edward e então de my lord...
Desejo por meio desta, explicar-lhe as razões de minha partida. Por diversas vezes tentei dissuadi-lo de suas boas intenções para comigo. Contando que me entendesse, assegurei não ser exatamente o que acreditava que eu fosse. Infelizmente não o convenci e reconheço minha culpa em agravar sua boa impressão. Por favor, agora que não estou perto, acredite, és um homem integro e não merece o castigo de amar uma mulher sem berço ou valor.
Conhecendo-o, sei que discordará, todavia insisto, e para convencê-lo confesso tê-lo enganado durante todo o tempo no qual gentilmente me recebeu em vossa casa. Casa esta que já conhecia perfeitamente, assim como eu o conheço desde sempre Edward. Quando criança, vivi ao seu lado. Embora não se lembre, conheceu-me como Cora Hupert. Entre mim e vossa irmã havia um estreito laço de amizade. Nero foi o único que me reconheceu prontamente e, dias depois, a pobre Sra. Brown. Calei-me ao chegar e com o passar do tempo não vi meios de revelar a verdade.
Ontem, menti-lhe ao dizer ser uma criada. Os Stevensons sequer me conhecem, sendo que apenas usei seu bom nome para satisfazer-lhe a curiosidade que nunca pude sanar. Espero que acredite e não imagine me encontrar onde não estarei. Apenas voltarei para minha casa de onde não deveria ter saído em tão tenebrosa terça-feira.
Não, não lamento tê-lo reencontrado Edward, pois também confesso que o amo desde pequena. Você foi e para sempre será minha melhor recordação. Depois do que vivemos será a mais adorada. Sinto apenas que, enganado em seu julgamento, tenha correspondido ao meu amor e me oferecido seu nome e uma nobre posição a qual eu jamais deveria ter ousado aceitar.
Por favor, my lord, sei que com este relato não mereço sua confiança, mas acredite quando afirmo que o amo e nunca se sinta preterido, pois minha partida não resultará em uma troca. Em meu coração nunca houve nem haverá outro homem além de você. Também peço encarecidamente que não dispense a mim o mesmo cuidado, esqueça-me.
Merece ser feliz então apague o que sente por mim e siga sua vida como se seu engano nunca tivesse ocorrido. Com meu eterno amor, Isabella...
Adeus
Os olhos de Isabella ardiam. Sua caligrafia não estava firme, e sua mão tremia ao prensar o mata borrão sobre a folha, porém ela não chorou. Ao menos confessar seu amor aliviou em parte o peso de tantos outros detalhes que não podia revelar. Quis lhe contar sobre seu meretrício, mas considerou melhor não fazê-lo por receio de que Edward corresse os poucos bordeis da região até encontrá-la.
Temeu também que se desse o contrário; que alimentasse a esperança de ser encontrada e nunca ocorresse, confirmando assim toda indiferença do barão. Não deveria alimentar ilusões quando nem deferia desejar um final feliz para sua vida. Aquele envolvimento findava ali. De Edward levaria um bilhete e uma mecha de cabelo, guardados junto à carta de Embry e, com sorte, um filho para lembrá-lo eternamente.
Sabendo que o tempo corria e a chuva logo viria, Isabella tratou de dobrar sua carta. Depois de guardá-la num envelope que lacrou com cera vermelha, beijou-a e a depositou sobre o criado-mudo. A parte mais difícil foi retirar o símbolo de seu breve noivado do dedo anular, contudo o fez, deixando o anel sobre a carta. Com a ação, seu tempo em Apple White chegava ao fim. Após pegar sua bolsa e a lamparina, Isabella saiu.
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