Borboleta Negra

31 Capítulo Trinta - Último da 1ª Temporada


Notas iniciais
Oie... Enfim chegamos ao final da temporada. Quero agradecer o carinho até aqui, dizer que conto com todas na continuação e pedir desculpas por ainda não ter respondido aos últimos reviews... Fora o lançamento do livro, estou ocupada tentando adiantar a 2ª temporada para não demorar a postá-la. Assim que estiver mais folgada, respondo a todos... Quero agradecer tbm à Lily pela indicação; OBRIGADA! Adorei!Agora vamos ao capítulo... BOA LEITURA!

O chamado vinha de longe, porém o torpor bom tornava impossível qualquer libertação das brumas que o mantinham preso ao sono. Caso fosse sua noiva, ele faria um esforço para atender, mas não era. E novamente a voz veio perturbá-lo, arreliando-o daquela vez, pois queria dormir junto a Isabella. Jake, não deveria... Então o entendimento o despertou. Aborrecido com a insubordinação, Edward abriu os olhos. Não importava que seu quarto ainda estivesse mergulhado em penumbra; encontrar seu criado de pé, perigosamente perto da cama onde dormia com sua noiva despertou a ira do barão.

– Está louco? – Edward ciciou rouco, tateando a cama ao lado para averiguar se Isabella estava devidamente coberta. – Eu não o...

O calar abrupto coincidiu com a falta sentida. Isabella ter levantado sem acordá-lo lhe trazia estranheza, porém o pacificava pela impossibilidade de Jacob vê-la despida. Edward então sentou, subindo o corpo para se acomodar contra os travesseiros, antes de encarar seu criado que permanecia mudo, olhando-o com uma expressão indecifrável.

– Vamos lá Jacob! – Edward o encorajou. – Diga por que está aqui? O que há?... É algo com a sidreria?

– A sidreria provavelmente está como deixou, Sir Masen. – Jacob falou com voz estranhamente soturna; preocupando mais seu amigo.

– Então diga de uma vez o que há – ele demandou olhando em volta, incomodado pela falta de Isabella. – Que horas são?

– Seis horas.

– Seis horas?! – Edward se reacomodou contra os travesseiros, prendendo a coberta junto ao corpo para que sua nudez não fosse revelada. – Por que veio me acordar antes da hora?... E onde está Isabella? Você a viu?

– Não a vi. Sir... Lamento... – ao se calar o criado lhe estendeu a mão esquerda.

O quarto estava de fato escuro, dificultando o entendimento de que havia algo entre o polegar e o indicador estendido em sua direção. Naquele instante o barão almejou que os resquícios do sono estivessem lhe embaralhando a visão, pois não havia motivos para Jacob lhe entregar aquele anel. Porém, estava bem desperto.

– O que faz com esse anel?

– Por favor, Sir, não sei como dar a notícia, então, apenas o receba e... entenda – o criado pediu igualmente rouco.

Edward agiu reflexivamente, tomando o anel para si. Muitas coisas lhe passaram pelo pensamento, todas perturbadoras, mas nada que lhe parecesse viável. Escolhendo uma das menos improváveis, falou:

– Foi Isabella quem lhe pediu que me entregasse?

– Eu disse a vossa senhoria que não a vi... Ela não está em parte alguma, Sir.

O barão mastigou a informação, e mesmo com a ênfase que lhe dava um toque indiscutível, não pode engoli-la.

– Não... – Edward esboçou um sorriso incrédulo, maneando também a cabeça, como se a dupla negação por si só desmentisse seu criado. – Ela não foi embora.

– Lamento discordar – disse receoso. – Nós já a procuramos por todo palácio, Sir Masen.

– Não... – o barão continuou a negar, jogando as cobertas para o lado sem se importar que pela primeira vez seu criado o visse completamente nu. Enquanto vestia sua ceroula, dizia: – É impossível que ela tenha ido embora.

– Talvez vocês tenham brigado... – Jacob sugeriu.

– Não brigamos.

Na verdade dormiram em perfeita harmonia, Edward pensou seguro, fizeram planos. Definitivamente havia ali algum engano e quando descobrisse o responsável, lamentava por ele, pois não relevaria a preocupação infundada que lhe impunha.

– Como esse anel chegou até você? – Edward iniciou sua investigação enquanto vestia a calça e a camisa da véspera.

– Foi Marie quem o encontrou no quarto de Lady Rosalie.

– Marie?! – Edward bradou, caso ela estivesse no corredor poderia ouvi-lo. – E por que ela não veio me acordar imediatamente para entregá-lo a mim?

– Palavras dela, quando encontrou o anel não soube o que fazer, como não queria aborrecê-lo talvez sem razão, resolveu procurar pela senhorita Swan. Ao não encontrá-la, temeu pelo pior e achou melhor que eu lhe desse a notícia.

– Pois agora são os dois que me aborrecem sem razão! – Edward calçava suas botas mesmo sem as meias; tinha pressa de desfazer aquele mal entendido.

Sir Masen... – Jacob começou com pesar.

– Cale-se e me siga! – Edward exclamou exasperado, levantando para seguir incontinenti rumo à porta. – Não se atreva a falar comigo como se ela tivesse ido embora deliberadamente. Será que vocês dois não percebem que algo grave pode ter acontecido?

– Como o quê, por exemplo, Sir? – Jacob perguntou descrente.

– Ela pode ter saído com Nero – sugeriu. – Está vendo ele em alguma parte?

– De fato não o vi... – o criado murmurou, demonstrando cogitar a hipótese. – Mas choveu até ainda há pouco...

– Mais uma razão para Isabella não ter deixado esta casa.

Ainda aborrecido pelo transtorno que lhe causavam o barão seguiu pelo corredor e desceu apressado para a cozinha. Ao entrar, incomodou-o os pares de olhos consternados que disfarçadamente o olhavam, contudo ignorou cada um deles. Não vendo a governanta em parte alguma, perguntou a quem soubesse responder:

– Onde está a Sra. Newton?

O silêncio foi sua resposta, até que Sue Wood, dissesse:

– Se não estiver no andar superior, eu não sei milord.

Edward não lhe deu atenção, uma vez que de nada lhe valeu. Apenas olhou em sua direção, quando não obteve nova reposta de outra criada; até mesmo Leah permanecia muda.

– O que aconteceu com sua mão? – Edward questionou ao reparar a faixa enrolada na palma direita.

– Queimei-me ontem, milord. – Sue respondeu tranquilamente, olhando para a mão ferida, como se nem ao menos lhe tomasse conhecimento. – Mas não é nada grave, não se preocupe.

Talvez outro dia o barão o fizesse, mas não naquela manhã. Sem temer parecer insensível, ignorou-a.

– Se acaso a Sra. Newton aparecer aqui, diga-lhe que quero vê-la.

O barão não esperou resposta. Sempre com Jacob a segui-lo, saiu para o quintal onde descobriu que novamente chovia e pelo cenário lúgubre de chão barrento, soube que esta veio forte durante a noite. Imediatamente maldisse a febre que o debilitou ao ponto de fazê-lo dormir tão profundamente não permitindo que acordasse quando Isabella deixou sua cama naquela manhã. Relutando em não deixar a aflição abatê-lo, perguntou descrente:

– Tem certeza de que olharam por toda a casa?

– Por todos os cômodos, Sir... – o criado assegurou.

– Até no salão de orações de minha mãe?

A pergunta trouxe uma ponta de esperança.

– Procurei por todos os cômodos, Sir Masen. – Jacob reiterou, enquanto seguia Edward que contornava a extensa varanda com os olhos ávidos a correr o entorno até onde sua vista alcança nos jardins.

Ao chegar diante da porta frontal, o barão se recostou contra a mureta e deixou que o olhar vagasse até o portão distante muitos metros. Pela primeira vez seu coração protestou dolorosamente em aceitação ao descobrir Nero a vagar pela chuva farejando o chão molhado inutilmente vez ou outra. Com um brado firme o chamou:

– Nero! Venha cá rapaz!

O cachorro ergueu a cabeça e correu até a varanda onde ao chegar farejou os pés de seu dono e a porta antes de fungar e voltar para a chuva. Edward assistiu toda ação com o cenho franzido, uma opressão brotando no peito. Sentia-se tão confuso quanto o galgo e sem desviar o olhar de seu cão, falou:

– Não havia razão para ela ir embora.

– Tem certeza de que não brigaram? – Jacob perguntou contrito.

– Absoluta! – Edward reafirmou convicto. – Estávamos bem... Combinamos de acertar os detalhes de nosso casamento hoje e...

Edward se calou ante a lembrança nítida; ele queria uma pronta posição quanto ao adiantamento da cerimônia, algo simples e breve, porém “ela” remarcou a decisão para aquele dia. Com a impossibilidade a ganhar força a cada novo detalhe perturbador, Edward deixou a mureta e fez o caminho de volta a passos largos. Nem cogitou tocar na porta principal, pois caso estivesse trancada, sentia-se bem capaz de arrebentá-la a pontapés.

Sem que fosse preciso chamá-lo, Jacob o seguiu de perto. Ambos passaram rapidamente pela cozinha, despertando mais uma vez a curiosidade dos presentes que interromperam suas atividades para olhá-los. O barão não enxergou nenhum deles; tinha um rumo certo e somente este lhe importava. Ao subir os degraus de dois em dois, praticamente correu até o quarto de Rosalie.

Abriu a porta com estrondo causando um sobressalto na governanta que, sentada sobre a cama, chorava copiosamente. A visão o enfureceu, porém o nobre não lhe dirigiu a palavra. Novamente apressado, seguiu até o guarda-roupa de sua irmã e escancarou todas as portas. Nem foi preciso vasculhar entre as vestes nele dispostas para notar a falta do vestido de veludo verde. O barão cambaleou um passo atrás como se a força vinda do bolo compacto formado em sua garganta fosse externa. Com a raiva a nublar-lhe a visão, Edward se voltou para a governanta que não havia se movido em tempo algum.

– Por que... não me... acordou? – Edward questionou pausadamente com voz muito rouca.

Como resposta teve mais soluços acompanhados por novas lágrimas que vertiam em abundância, exasperando-o.

– Pare já com a choradeira e me responda! – Edward bradou, levando a mulher a encolher os ombros. Tal inferioridade não o comovia, apenas irritava mais. Então insistiu grosseiramente: – Cale-se e responda. Por que não me acordou imediatamente?

– Eu... – ela começou entre soluços. – Eu vim... trazer o chapéu...

Ao falar apontou para a poltrona, somente então os olhos de Edward recaíram no chapéu de Isabella. Tal visão agravou a opressão em seu peito. Quando a empregada prosseguiu, ele não conseguiu olhá-la, sua atenção era somente para o acessório ornado por delicadas penas.

– Então... eu vi o... anel sobre o... criado mudo... – Marie se calou para uma nova sequência de soluços, mas logo se recompôs. – Eu... não soube o que pensar... Fui até... vosso quarto... e descobri Nero... a arranhar a porta... Eu sei que não... Não devia, mas... Eu a abri e... deixei que saísse... Perdoe-me!

– Acredite Marie... – Edward sibilou num fio de voz; sem ver razão para lhe ter alguma deferência. – Sinto-me inclinado a fazer muitas coisas com você e conceder-lhe perdão não é uma delas. Prossiga!

– Eu sei que... não o mereço, milord!... Mas eu não queria... preocupá-lo... Confesso que... ao deixar Nero sair... Como nenhum dos dois nada... dissesse, eu... entrei... Quando não vi Isabella ao vosso lado... me desesperei, mas... alimentei a esperança de ser... tolice de minha parte... Por essa razão a procurei pelo palácio... E então, pedi ajuda a Jacob... Eu lamento tanto milord!

– Não mais do que eu – o barão assegurou enraivecido. Ainda custava a crer que tudo aquilo estivesse acontecendo, então, pegando-se num mínimo fio de esperança, indagou: – Não havia nada mais além do anel? Isabella não partiria assim, sem uma palavra... Talvez ela tenha deixado algum recado.

A existência de um bilhete ou mínima nota que fosse não atenuaria o estrago causado com aquela fuga arbitrária, mas parecia ser o tipo de cuidado que Isabella tomaria. Talvez assim ele entendesse o que a moveu, contudo sua esperança minguou ao ter a resposta.

– Não havia nada além, Lord Masen...

Então aquele era o fim, ele pensou com pesar.

– Saiam os dois... – pediu sem olhá-los.

Marie, rendendo-se ao choro o atendeu prontamente, deixando o quarto numa breve corrida. Contudo o barão não ficou só. Logo ouviu a voz subitamente esperançosa de seu criado.

Sir Masen. A senhorita não pode ter ido longe. Está chovendo... Ela não pode cruzar o rio... Deve ter ido para Westking. Nós poderíamos...

– Eu pedi para que saíssem! – Edward pontuou fechando os olhos fortemente; não conseguia pensar.

– Venha Sir... Eu o ajudo a se vestir e...

– Deixe-me sozinho Jacob! – Edward demandou quase afônico, livrando-se bruscamente quando seu criado tentou movê-lo, segurando seu ombro.

O barão apenas se moveu ao ouvir a maçaneta sendo fechada. Com olhos turvos, perscrutou todo o quarto, sorvendo o ar com dificuldade. No cômodo vazio reviu cenas recentes; Isabella à porta com os cabelos negros ainda úmidos depois de acolhê-la, Isabella adormecida; Isabella lhe pedindo um beijo de boa noite. Isabella contente a abrir seus presentes. Isabella... Isabella...

Ao se sentar sobre a cama, Edward viu também uma cena que não presenciou. Em sua mente, acompanhou os passos de uma Isabella inacreditavelmente covarde a vagar pelo quarto, vestindo-se apressada para deixá-lo depois de depositar o símbolo de coisa alguma sobre o criado mudo. A incredulidade trouxe um riso nervoso e breve aos lábios do barão. Agir sorrateiramente e fugir não condiziam com a moça que ele amava.

Tinha que haver algum engano, Edward considerou exasperado. Contudo não conseguia pensar com clareza quando nem mesmo respirar parecia fácil. Preso em sua seca agonia, ele praticamente urrou para desobstruir a garganta enquanto, aflito, corria as mãos por seus cabelos. Ao notar uma falha, tudo estagnou. Com estranheza, Edward tateou as mechas desalinhadas até confirmar que lhe faltava um tufo considerável. A novidade trouxe de volta sua esperança, levando-o a correr até a porta.

– Jacob – chamou com um forte grito; desnecessário, pois descobriu o criado à sua porta.

Sir Edward?! – Jacob o encarava com espanto. – O que aconteceu?

– Você tem razão! Ela não tem para onde ir... Quero que vá preparar a carruagem. Devemos sair o quanto antes.

Iria encontrá-la, Edward determinou seguindo ao quarto de banho. Depois de atender as suas necessidades matinais, voltou ao próprio quarto onde, após abrir as cortinas para ter alguma claridade, e lavar o rosto com a água da tina, despiu a roupa usada e a substituiu por outras limpas. Completamente vestido, penteou os cabelos e os prendeu como pôde, com a parte cortada apenas apoiada atrás da orelha. Considerando-se pronto, o barão colocou o anel em seu bolso, juntamente com o relógio e saiu. Como sempre, Jacob o aguardava diante da porta principal. Sem cumprimentar quaisquer dos criados que encontrou em seu caminho, o barão se acomodou em seu veículo para que partissem.

Toda a ação lhe deu novo ânimo. Isabella poderia ter ido embora, mas o amava, caso contrário não levaria tão significativa recordação. A esse pensamento se seguiu outro, muito mais relevante e revelador. Uma mecha de seu cabelo seria nada se comparado a um filho. Ali estava a prova de que a moça estivesse apenas confusa; temerosa diante do que acreditava ser demais para uma criada.

– Minha tola Isabella... – Edward murmurou condescendente. – O que mais posso fazer para demonstrar que a amo de qualquer maneira?

O barão não tinha uma resposta, pois acreditava ter feito o que estava ao seu alcance. O que lhe restava era encontrá-la, tentar entender o que a fez agir impulsiva e sorrateiramente antes de levá-la de volta a Apple White. Era o que faria, então, tentando bloquear a lembrança vívida da moça naquela boleia, Edward cruzou os braços e aguardou pela chegada à cidade. Não tardou a transitarem pelas ruas com calçamento de pedra, circulando entre outras carruagens e algumas charretes, que indicavam a necessidade de atividades apesar da manhã fria e chuvosa.

– Para onde iremos Sir? – Jacob indagou além dos ruídos da rua.

– Fique atento para o caso de vê-la pela calçada e siga até o hotel.

Aquele lhe parecia ser o abrigo escolhido, contudo logo descobriu estar errado. Segundo os funcionários, nenhuma dama desacompanhada e surpreendida pela chuva havia se hospedado naquela manhã. Recriminando-se pela falta de atenção, Edward recordou que na bolsinha socorrida não havia muitos shillings o que descartava a possibilidade de se hospedar naquele hotel. Com isso percorreram as estalagens; sem obterem sucesso. Com a determinação um tanto abalada, o barão foi levado até a igreja onde brevemente conversou com o padre; Isabella não esteve por lá. Restou então a estação de trem onde, como em todos os lugares que esteve, nenhuma moça com as características citadas, havia sido vista.

– Obrigado – ele dizia ao vigia que em nada lhe ajudou, quando Jacob se acercou apressado.

– Acabo de me informar... Se acaso a senhorita tivesse vindo para cá, estaria à espera do próximo trem, pois é o único que a deixaria próximo a Wisbury, chegará daqui à meia hora.

E novamente a esperança foi restabelecida.

– Isso significa que ela ainda pode aparecer! – Edward exclamou. – Vamos esperá-la.

– Então não seria o caso de nos afastarmos da entrada para que ela não nos veja? – Jacob sugeriu preocupado.

– Que tolice! Fala como se ela estivesse fugindo de mim... Isabella está apenas confusa, assustada – ele acreditava que sim. – Ao me vir aqui ela ficará contente e verá o quanto verdadeiramente a amo.

– Se é como diz... – Jacob aquiesceu ainda descrente. – Esperemos. Não gostaria de se sentar?

– Estou bem de pé!

Permanecer sentado demandaria uma paciência que não sentia no momento. Ele estava ansioso por vê-la. Parecia que sua procura havia chegado ao fim, pois aquele era o único caminho que Isabella poderia seguir. Conferindo as horas no grande relógio da estação, o barão soube que o tempo passaria arrastado, pois não haviam transcorrido três minutos desde a notícia de seu criado. Logo o movimento na pequena plataforma aumentou. Praticamente todas as pessoas o cumprimentavam; alguns procuravam saber se iria embarcar no próximo trem e todos, sem exceção, olhavam-no com estranheza. Provavelmente por vê-lo com a expressão abatida, o lábio partido, a barba rala ao redor do cavanhaque crescido. E, enquanto mais pessoas chegavam e as perguntas aumentavam, a esperança de Edward se esvaia.

O trem chegou espalhando sua fumaça ao redor de todos. Alguns passageiros desceram; uns sós, outros encontraram com seus amigos e parentes e contentes foram embora. Outros passageiros embarcaram ao primeiro apito. Logo o maquinista novamente puxou o apito anunciando sua partida o que reduziu o movimento na plataforma à metade e a única que interessava ao barão, nunca chegou. Quando a fumaça mais uma vez envolveu o ar e a composição vagarosamente se moveu, Edward sinalizou ao seu criado para também partirem.

– Onde procuraremos agora Sir? – Jacob perguntou enquanto seguiam pela calçada.

– Ela não está aqui – assegurou olhando em volta; ele sentia. – Se acaso ela tivesse conhecidos na cidade os teria procurado naquela terça e não se aventurado a ir embora a pé!

– A senhorita pode ter embarcado mais cedo para qualquer outro lugar – o criado sugeriu vago.

– Sem a ponte essa hipótese é a mais provável. – Edward concordou; parando ao lado de sua carruagem encarou seu amigo e prosseguiu resoluto: – Seja como for, não importa como, ela tem somente um lugar para ir... E iremos para lá ainda hoje.

– Para onde?

– Prepare-se para cruzar o rio, meu amigo...

– Cruzar o rio?! – Jacob maximizou os olhos castanhos. – Mas está chovendo. Ele deve estar cheio.

– Draco dá conta – o barão assegurou decidido. – Se está com medo posso ir sozinho. Sei que ela ainda não estará lá, mas simplesmente não posso ficar parado. Ainda hoje conversarei com o patrão de Isabella.

– Patrão?... – Jacob novamente se espantou.

– Sim, ontem ela revelou ser criada na casa do Sr. Stevenson. Irei ter com ele. Exporei o que aconteceu e cuidarei para que ele não a despeça pelos dias de ausência e para que me avise tão logo ela chegue. Agora pare de me olhar como se eu tivesse três olhos e vamos embora de uma vez... Já perdemos tempo demais.

Jacob abriu a boca, porém voltou a fechá-la sem nada dizer. Edward agradeceu o súbito mutismo e finalmente entrou em seu veículo. Não trocaram novas palavras até chegarem à Apple White onde o criado avisou ao patrão que lhe faria companhia na arriscada empreitada. O barão não tinha fome, mas enquanto Jacob se dirigia ao estábulo para que voltasse com seus cavalos, foi até a cozinha à procura de algo que o fortalecesse para a travessia. No cômodo seguiu até a mesa e, sem atentar aos olhares de Sue ou Leah, descobriu travessas até encontrar alguns brioches.

– Sente-se milord – a cozinheira mais jovem ofereceu a cadeira próxima quando ele escolheu um deles. – Posso servi-lo antes de pegar uma toalha para que se seque.

– Não há necessidade, mas aceitaria uma xícara de chá... – falou antes de morder o primeiro naco.

Ao engoli-lo sua garganta doeu; exatamente como nos dias que se seguiram a morte de seu pai, levando-o a agradecer a xícara de chá prontamente servida pela criada. Enquanto passava pela tortura de engolir cada pedaço do brioche, o barão agradeceu que Marie não estivesse presente, assim como agradeceu o fato de Sue Wood se manter calada, sem externar as muitas perguntas que via em seus olhos escuros. Não estava com ânimo para ser condescendente nem mesmo com idosas.

– Aceita mais um pouco de chá milord? Um pedaço de bolo, talvez... – Leah ofereceu incerta, ao vê-lo terminar a parca refeição. – Não preparamos a mesa, pois esses dias...

– Nada mais, obrigado! – Edward negou já a deixar a cozinha; de fato não tinha fome então nada justificaria magoar mais sua garganta ou ser lembrado dos motivos que o deixaram longe da cozinha nos últimos dias.

Ao sair, agradeceu a competência de Mike que desde muito cedo deixava o andaluz e o baio encilhados. Então, com Jacob a esperá-lo, vestiu apenas seu chapéu, dispensando a capa; item completamente inútil uma vez que pretendia atravessar as águas do rio. Pronto, montou e assumiu a dianteira. Já iam a meio caminho quando Jacob expôs o que calou em Westking.

– Perdoe-me a intromissão, Sir, mas... Não se importou por ela ser criada?

– Eu deveria me importar exatamente por qual motivo? – Edward indagou impaciente.

– Se fosse como eu, nada! – Jacob exclamou dando de ombros. – Mas sendo um barão...

– Eu deveria me comprometer com moças que tivessem o sangue tão azul quanto o meu não é mesmo? Mas veja que interessante... Este abastado barão possui sangue vermelho como qualquer outra pessoa. Pouco me importa as origens de Isabella. É a ela que amo e é com ela que irei me casar.

– Quero apenas que seja feliz Sir Masen.

– Então me ajude a encontrá-la – pediu seriamente –, pois é o único jeito.

– Farei o que estiver ao meu alcance – prometeu.

Sem mais palavras seguiram até a obra da ponte. Apesar da chuva, os trabalhadores se encontravam em acelerada atividade. Edward estranhou que estivessem em sua maioria dentro d’água, movendo estacas já fincadas. Ao se aproximar notou que algumas estavam desalinhadas e os homens as reposicionavam. Logo desmontou, seguido de Jacob que tomou as rédeas de Draco que seu patrão estendia, antes que fosse se juntar a Harry Clearwater.

– Bom dia milord – o fazendeiro o cumprimentou, medindo-o de alto a baixo. Como está? Fiquei sabendo do ocorrido em sua sidreria... Não deveria estar em repouso?

– Bom dia! Estou bem, obrigado! – respondeu consciente de seu desmazelo. – Tenho alguns assuntos a resolver então não posso me dar ao luxo de permanecer acamado.

– Se está mesmo bem... – o amigo lhe sorriu, então desconversou: – Que chuva, não?

– Ainda bem que ela não fez subir o leito... – Edward comentou sem olhá-lo, prestando atenção ao trabalho efetuado no rio e no fluxo de suas águas.

– Agora baixou, mas estava mais cheio quando cheguei. E a correnteza ficou forte em algum momento, pois moveu as estacas. Agora teremos que refazer o trabalho.

– Então foi isso o que aconteceu... – o barão disse vago, sempre olhando em frente, agora para a margem que pretendia alcançar em breve.

– Foi sim... – Harry comentou também vago enquanto o barão acenava a quem o cumprimentava de longe.

– Bom que tenha baixado, pois pretendo atravessar.

– Quer atravessar o rio?! – Clearwater estranhou. – Perdoe minha intromissão milord, mas qual o motivo?

Edward olhou para o senhor ao seu lado. Não cogitou dizer-lhe a razão, mas considerou ser acertado especular sobre o rumo que tomaria.

– Preciso ir até a casa de Stevenson. Acaso o conhece bem?

– Não muito, afinal ele e a família são conhecidos pela reclusão. Acredito que pela dificuldade financeira.

– Dificuldade financeira? – Edward interessou-se.

– Ah, sim... O velho Stevenson já se desfez de boa parte de suas terras na tentativa de se recuperar, mas pelo o que sei não obteve resultado.

– Sendo assim... – o barão falou como que para si. – Como faz para manter a família e seus criados?

– Não saberia dizer milord – Harry respondeu num lamento –, mas se deseja mesmo saber, aquele rapaz trabalhava para ele – antes que Edward retrucasse o senhor chamou: – Ben!... Venha cá.

Sem saber o que pensar, Edward viu um homem alto e magro deixar o serviço e vir até eles, esfregando as mãos na lateral do próprio corpo, desconcertado ao ver o barão.

– Chamou senhor Clearwater? – perguntou de olhos baixos.

– Chamei... Deve conhecer o barão, não?

– Apenas de vista – disse olhando para Edward brevemente. – É uma honra conhecê-lo pessoalmente, milord...

Edward somente moveu a cabeça, sentindo-se adoecer antecipadamente com o que previa estar por vir. Como nada dissesse, Harry retomou a palavra:

– O barão deseja ter notícias de seu antigo senhor. Sabe como está Jared Stevenson?

– Depois que fui demitido nunca mais fui à fazenda milord – disse diretamente a Edward –, mas um amigo meu, que foi dispensado recentemente, me disse que lá as coisas estão de mal a pior. Parece que agora o Sr. Stevenson irá se desfazer de tudo o que possui para se mudar com a família. Parece que irão para a casa de uns parentes em Londres.

– E quanto a Isabella? – Edward indagou sem pensar; alarmado.

– Eu... – o criado começou incerto – não sei quem é essa, milord.

Como não havia meios de voltar atrás ou refrear sua inquietação, Edward falou sem se importar com o que pensassem:

– Isabella Swan. Ela é uma das criadas, talvez uma dama de companhia.

– Lamento Lord Masen, mas deve haver algum engano – sugeriu o criado. – Trabalhei muitos anos com o senhor Stevenson, conhecia todos da lida e até mesmo os criados da casa e nunca vi alguém com esse nome por lá.

Aflito em seu âmago, perdendo completamente o senso de reserva, o barão insistiu:

– Talvez ela usasse outro nome... A moça a quem me refiro tem por volta dos vinte e três anos, a pele clara, cabelos longos e pretos.

Mesmo que tenha lhe mentido o nome, ela jamais passaria despercebida, Edward concluiu em pensamento.

– Lamento senhor barão... – Ben disse com pesar, talvez por notar o quanto parecia importante. – Mas nunca houve uma criada tão jovem lá na fazenda. Havia apenas uma velha cozinheira e outra senhora que mantinha a limpeza na casa.

– Entendo – o barão exalou; Isabella havia mentido. – Obrigado por ajudar.

– Acho que isso é tudo, obrigado Ben. – Harry o dispensou. Ao ficar a sós com Edward, arriscou: – Era por essa moça que iria cruzar o rio?

Edward o olhou demoradamente, porém não se sentia animado a falar. Precisava pensar, e não conseguia tampouco. E assim, completamente incapacitado de proferir qualquer resposta coerente, tocou no ombro do fazendeiro, maneou a cabeça numa despedida muda e foi se juntar a Jacob, parado a poucos passos.

– Eu ouvi o que conversaram – este anunciou ao estender as rédeas. – Se me permitir eu prossigo com o plano, cruzo o rio e tento encontrá-la Sir.

– Exatamente onde? – Edward o encarou; a pergunta na voz rouca valendo para os dois. – Bateria de porta em porta na cidade e nas fazendas? Chamaria por qual nome?

Sir Edward...

– Ela mentiu Jacob! Todo esse tempo, provavelmente. Ontem mesmo lhe disse que não gosto de mentiras e justamente nessa hora ela mentiu mais. Pedi que não tratasse minhas declarações com leviandade e na calada da noite ela simplesmente foi embora.

– Lamento Sir... O que faremos agora?

Como as palavras custavam a sair por sua garganta obstruída, Edward mostrou em ação. Ao montar em Draco, moveu as rédeas e o incitou de volta a Apple White.

Para o barão, respirar deixou de ser reflexivo, demandando constante atenção para que aspirasse e expirasse. Com o esforço constante, ele não tinha ânimo para deixar sua cama. Havia perdido a noção do tempo restando acreditar em Jacob, então, estava separado de Isabella – caso este fosse seu nome – há seis dias. O fiel criado era a única pessoa que se atrevia a vê-lo e ainda assim as visitas sempre terminavam em discussão após as infrutíferas tentativas em reanimar o patrão. Estendido sobre a cama, tendo por companhia um anel no dedo mindinho da mão que apertava fortemente um dos lenços usados por “ela”, um chapéu esquecido sobre o travesseiro e um cachorro igualmente apático apoiado em sua coxa, Edward soube que aquela seria outra manhã na qual Jacob deixaria seu quarto chispando pelo atrevimento em comentar:

– A senhorita simplesmente foi embora. Não pode parar sua vida em função de um rompimento.

– Não houve um rompimento! – Edward exclamou sem encará-lo, mantendo o braço ferido, parcialmente recuperado, a lhe cobrir os olhos.

– Muito pior, então – o criado retrucou da poltrona na qual se sentara. – Se a senhorita não teve a decência de romper e se despedir corretamente, não merece que vossa senhoria fique como está!

O barão queria crer que ela não merecia e odiá-la eternamente, mas parecia impossível. Sim, era bem verdade que detestou sua ex-noiva dias antes. Durante toda à tarde de segunda-feira Edward dirigiu à Isabella ódio comparável ao seu amor após descobrir que lhe mentiu. Considerou-a trapaceira e vil; uma traidora sem palavra que abdicou dele e de algumas poucas responsabilidades que seu baronato requereria para permanecer entre a criadagem, talvez para fazer as pazes com seu amado Benjamin. Inflamado pelo ressentimento daninho, desfez-se dos presentes que lhe ofertou, atirando-os sobre a cama da irmã com ordens de que fossem entregues a Leah. Ordenou que Marie trocasse todos os lençóis e colchas de sua cama, pois não queria o mínimo odor que lhe lembrasse da passagem da moça. A governanta o atendeu prontamente, chorando em silêncio e lhe pedindo perdão a cada minuto.

Naquela tarde Edward também odiou a governanta, considerando-a conivente por não tê-lo acordado em tempo de encontrar, talvez, a futura mãe de seu filho. Somente não a destituiu do cargo por não desejar que seu despeito fosse notório. Tanto esforço em odiar igualmente lhe tomou as forças e se mostrou completamente vão ao flagrar Leah deixando o quarto de Rosalie levando as roupas que ganhou. Antes que ela se fosse, o barão confiscou de volta as roupas de montaria e o chapéu deixado para trás.

Naquela noite, ao preparar sua cama, para se deitar sem Isabella, dispôs as roupas ao lado na tentativa inútil de restabelecer o cheiro que impulsivamente ordenou ser eliminado. Apenas o conseguiu ao escolher um dos lenços usados para lhe secar as inúmeras lágrimas, apertando-o fortemente contra o nariz. Não dormiu e pela manhã novamente amava Isabella com todo seu coração, descobrindo então a necessidade de se ocupar em respirar e nada mais.

– Vossa senhoria nem ao menos escuta o que digo! – Jacob reclamou exasperado.

– Talvez você não esteja dizendo nada que seja interesse ouvir – retrucou sem se mover.

– Apple White não é de seu interesse? – Jacob indagou. – A sidreria não é de seu interesse? Desde segunda que não coloca os pés no galpão.

– Irei até lá amanhã... – prometeu vago, trocando o lenço de mão, para acariciar a pérola negra com o polegar; havia se tornado um vício.

– Disse o mesmo ontem... E antes de ontem... – o criado o lembrou.

– Então, talvez, devesse parar de me fazer prometer o que não pretendo cumprir. – Edward sugeriu rouco. – Assim que puder volto ao trabalho.

– Se continuar como está irá somente fazer companhia ao vosso pai – o moreno retorquiu inabalável. – Há dias não se alimenta direito; não se banha...

Como comeria se a comida não rompia o bolo instalado em sua garganta? De toda forma não tinha fome, então os caldos ralos que Marie enviava por Jacob eram suficientes. Quanto ao banho, não se animava a fazer sozinho aquilo que Isabella por dias fez ao seu lado. Ao recordar todas às vezes que a jovem o limpou, a obstrução em sua garganta se agravou.

– Estou bem como estou – falou num fio de voz. – E deixe meu pai fora de nossa conversa.

– Não! – Jacob insistiu. – Vamos falar de Lord Bradley. Na ocasião de sua morte vossa atitude seria entendida, no entanto, se manteve firme. Assumiu sozinho a sidreira e foi em frente. Agora que não houve perdas...

– Não houve perdas?! – Edward finalmente se moveu, levando Nero a saltar da cama; foi preciso gritar para calar o criado, pois sua voz falhava. – Se não tive perda mostre-me onde está Isabella. Vá buscá-la, traga-a aqui!

– Sei que não sofre sem razão e lamento por isso – Jacob falou conciliador –, mas... A garota está viva, talvez na cidade ao lado. Um dia poderão se reencontrar, já com vosso pai... A morte, sim, é uma perda. O que se dá agora é somente um desencontro.

Edward nada falou. Pela primeira vez deu razão ao criado, pois já havia cogitado a possibilidade. Muitas vezes naqueles dias de apatia, dizia a si mesmo que cedo ou tarde se encontrariam. Provavelmente antes do que imaginasse, pois se Isabella de fato esperasse um filho seu, cairia em si e voltaria.

– Mas se não acontecer o que pretende fazer? – Jacob prosseguiu. – Sabe que não pode se enterrar nesse quarto para sempre. Têm suas responsabilidades e pessoas que dependem de vossa senhoria. Irá condenar a todas por uma desilusão?

O barão novamente nada falou, sentindo o bolo em sua garganta se agravar. Jacob havia tocando um ponto antes não citado; não pensou naqueles que o cercavam. Isabella se sobrepunha a tudo e a todos.

– Nunca senti nada parecido Sir Masen, mas acredito que deva estar doendo muito... Ainda assim deve reagir caso contrário todos nós pereceremos. Não querendo menosprezar a senhorita, mas ela vale tantas vidas?

Naquele momento, sim, ela valia, mas Edward não diria. Em dias Jacob lhe dava motivos para reagir. Mover-se demandou dele grande esforço, levando-o a sorver o ar aos bocados depois de apenas se sentar. Encarando o criado que parecia muito pronto a ampará-lo, pediu:

– Faça-me apenas acreditar que ela irá voltar.

– Eu acredito que sim, Sir Masen. – Jacob disse seguro. – Como bem salientou, não houve um rompimento e nada termina dessa forma. E se não bastasse, a senhorita está em algum lugar na cidade ao lado... Quando a ponte for concluída, dou-lhe minha palavra que vasculho cada canto de Wisbury até encontrá-la se assim desejar.

– Não duvido que o faça. – O barão murmurou, sentindo as forças voltando aos poucos. Então externou uma ideia que formou na noite anterior. – Estive pensando também em deixar um ou dois homens de guarda em Westking para o caso de ela aparecer como da vez que a conheci.

– Faremos isso! – Jacob se pôs de pé, animado. – Todos a conhecem. Entende o que eu digo? Enquanto há vida há esperança. Acredito que vossa senhoria a encontrará e esclarecerá o quer que seja.

– Vou crer no mesmo – Edward assegurou, animando-se com as possibilidades.

– Se é assim e está disposto a encontrá-la, sugiro que se recomponha desde já e, por favor... Que comece por tomar banho.

– Não posso estar assim insuportável... – ele retrucou, cheirando os próprios braços.

– Com todo o respeito, Sir... O chiqueiro da Sra. Denali cheira melhor que este quarto.

– Muito bem... Prepare-me o banho. Mas não aqui – acrescentou rapidamente ao ver o criado se aprontar para sair. – Deixe a tina no quarto de banho.

Jacob o encarou por um instante, então se foi. Edward agradeceu, pois não queria ter que explicar o quanto agravaria sua saudade o simples fato de se banhar em seu quarto. Com isso ficou sentado até que o criado voltasse e anunciasse o banho pronto. Ao deixar o quarto encontrou Marie no corredor. De olhos baixos ela o cumprimentou ao que ele não se deu ao trabalho de responder; a governanta ainda tinha seu ressentimento por atrasá-lo. Esquecendo-se dela, seguiu até onde estava sua tina. Sob o olhar de Jacob, Edward se despiu, mantendo a ceroula e entrou na água morna. Como adivinhou imediatamente a lembrança de Isabella a banhá-lo veio nítida.

– Deixe-me esfregar suas costas Sir...

– Não me toque! – Edward vociferou, ao notar a aproximação do criado. Segundos depois, percebendo a grosseria inexplicável, falou mais calmo: – Não há necessidade, eu mesmo cuidarei de mim a partir de hoje, obrigado e... Desculpe-me.

– Como queira Sir Masen. – Jacob respondeu impassível, entregando-lhe a bucha para que ele mesmo se esfregasse. – Vou preparar a espuma para barbeá-lo, seu cavanhaque se perdeu em meio à barba.

– Também não será necessário – ele sabia que não suportaria. – Quero que fique como está, mas se quer mesmo fazer algo por mim, peça a Sra. Newton que me traga algo sólido para comer... Que seja pouco, pois realmente não sinto fome.

– Assim farei. Depois esperarei no corredor, caso precise de mim.

Edward agradeceu e foi deixado sozinho. Valendo-se da nova esperança esfregou sua pele com força para eliminar qualquer ranço mal-cheiroso. Lavou também o rosto e sua barba. Ao esfregar os cabelos tentou reafirmar o ânimo ao sentir a falha feita por Isabella. E havia seu filho. Cada vez mais Edward acreditava que ele viria; bastaria a futura mãe descobri-lo para voltar de livre e espontânea vontade. E ele a receberia. Não como antes, pois ela seria obrigada a se retratar pela mentira e então contar tudo sobre si. Sim, seria o que faria.

Sir Masen – seu criado o chamou, livrando-o de sua divagação. Sem esperar por resposta, prosseguiu. – Não queria apressá-lo, mas deve se adiantar... Uma pessoa quer vê-lo.

– Isabella? – Edward indagou esperançoso, preparando-se para deixar a tina.

– Não é ela, Sir... E, sim, vossa mãe. Ela acabou de chegar. Os criados estão descarregando a carruagem e ela pediu que o chamasse... Avisei que está no banho. Ela avisou que o esperaria no próprio quarto.

Edward ouviu o final da narrativa um tanto aborrecido consigo mesmo, pouco interessado nas razões que levaram a mãe a adiantar o regresso a Apple White. Com seu engano ficou claro que estava muito pronto a receber a moça de braços abertos, livre de cobranças imediatas como imaginou fazer; o amor o estragou. Minutos depois, já vestido e penteado, Edward ignorou a bandeja deixada por Marie e deixou o próprio quarto para seguir até os aposentos da baronesa. Após dois toques contra a porta a ouviu dizer:

– Entre!

– Com licença – ele pediu olhando para o interior do quarto, ainda a segurar a maçaneta.

Auxiliada por Amy, a baronesa Elizabeth estava às voltas com sua bagagem, tão bonita quanto o filho se lembrava dela, despertando uma saudade que Edward sequer sabia sentir. Ao vê-lo a mãe maximizou os olhos castanhos e ergueu as sobrancelhas em evidente assombro. Após um estalar de dedos, indicou a porta à criada que muda os deixou. Somente então ela indagou verdadeiramente preocupada.

– Por Deus Edward o que aconteceu a você?

– Nada aconteceu – ele disse; indo se encontrar com ela que vinha em sua direção para abraçá-lo fortemente.

– Como não? – Elizabeth insistiu sem soltá-lo.

– Estou bem... – afirmou incerto.

O calor dos braços maternos o aqueceu e vergonhosamente o comoveu. Ao ser afastado lutava contra as lágrimas que bravamente reteve por todos aqueles dias. Elas não vieram, mas a umidade deixada em seus olhos denunciava sua comoção enquanto a mãe o avaliava atentamente.

– Bem é tudo o que não está – ela o desmentiu. – Vejo sua magreza e palidez, o cabelo desalinhado – disse ao segurar a mecha que a fita não prendia por estar menor. Tocando-lhe os pelos do rosto, prosseguiu: – E substituiu aquele cavanhaque odioso por esta barba maltratada... Nunca o vi nesse estado lastimável. O que tem a me dizer quanto a isso?

– Foi uma semana ruim – o barão minimizou. Depois lhe contaria sobre o que havia se passado. Na tentativa de desviar a atenção, perguntou simulando interesse. – Como está nossa Alice.

– Falaremos de sua irmã em outra ocasião – a baronesa não se deu por vencida. Tomando o filho pela mão o levou até o pequeno sofá disposto próximo a janela e o fez se sentar ao seu lado para sem rodeios anunciar: – Fui informada que hospedava uma jovem em minha ausência. Pensei que a encontraria, mas ao chegar soube que ela já havia partido. Tanto melhor, mas quero que saiba que considerei esse episódio completamente inadequado.

– Folgo em saber o quanto os criados dessa casa são eficientes para repassar informações. – Edward retrucou com aborrecido enfado que o livrou de qualquer tristeza.

– E eu agradeço o fato – sua mãe retorquiu no mesmo tom. – Não fosse assim talvez eu nem soubesse o que se passa nessa casa quando não estou presente.

– Saberia senhora, pois não era minha intenção lhe ocultar nenhum detalhe da hospedagem oferecida por mim à jovem citada.

– Não duvido que me colocasse a par do oferecimento de um teto para abrigá-la da chuva, mas o barão estenderia a narrativa até a parte em que ofereceu também seu leito?

– Talvez não o fizesse, pois não haveria necessidade de ser tão descritivo. – Edward falou indiferente. Desconfiado com tamanho conhecimento, indagou: – Por que adiantou sua volta afinal? Estava certo que viria somente no final do outono.

– Sei o que espera ouvir e não vou negar. Fui avisada sobre a jovem e vim o mais rápido que pude.

– Eu não acredito! – Edward se pôs de pé, exasperado. – Quero saber quem a avisou. Isso já está indo longe demais.

– Longe foi você! – Elizabeth finalmente explodiu; a vermelhidão logo se espalhando por seu rosto. – Eu contava que esse detalhe fosse somente maledicência, no entanto, confirma que trouxe para esta casa uma, uma...

– Contenha-se senhora! – Edward ordenou, interrompendo-a. – Não admitirei que ofenda alguém que amo.

O barão se chocou com suas próprias palavras impensadas para logo em seguida aceitá-las; eram verdadeiras. Nutria por Isabella o ressentimento por ter sido deixado sem aviso, mas ainda a amava em demasia.

– Está louco! – Elizabeth vociferou completamente corada ao se levantar bruscamente. – É um homem comprometido. Se ao menos admitisse ter sido uma aventura, mas amor?!

– Não me recordo de ter assumido compromisso com quem quer que a senhora baronesa imagine. – Edward replicou impassível, movendo o polegar sobre a pérola do anel em seu dedo mínimo. – Sou livre para fazer aquilo que bem quiser de minha vida.

– Não enquanto eu for viva! – a mãe exclamou voltando a se sentar, levando as mãos ao peito. – Ai meu coração... Você quer me ver morta, é isso... Edward...

– Não quero vê-la morta mamãe. E nem mesmo corro o risco, pois bem sei o quanto seu coração é forte – falou indiferente aos achaques da baronesa. Caminhando para a porta, informou: – Vou pedir a Marie que lhe traga um chá calmante. Até que ela venha tente entender que não vou admitir que se intrometa em minha vida. Eu determino o destino de quem está sob meu teto, não o contrário.

– Edward... – a mãe o chamou antes que saísse; completamente recuperada do iminente enfarte. Quando o filho a encarou, pediu: – Ao menos tranquilize-me dizendo que mesmo sendo uma desavergonhada a jovem em questão é de boa família. Eu a conheço?

– Não tenho nada a dizer sobre ela – o barão respondeu e se foi decidido a completar o domingo em seu quarto.

Ao se trancar, antes de se deitar sobre os lençóis agora limpos, estendeu novamente as roupas de Isabella ao seu lado e depositou o chapéu sobre o travesseiro que pertencera a ela. Acomodado junto ao que restou da jovem, acariciou a pérola do anel em seu dedo mindinho desejando ter mentido para a mãe, no entanto, não o fizera. Nada sabia sobre sua noiva fujona e, baseado em uma única mentira poderia duvidar de todo o resto.

– A única verdade – ele disse ao anel. – É que sua dona de fato aprendeu a ser invisível.

Notas finais
Bom, meus amores... é isso! Espero que tenham gostado, não que ela realmente foi embora ou que alguma alma lazarenta tenha sumido com a carta, mas do conjunto da obra... ;)Me contem? E se liguem que depois vou deixar, como forma de spoiler, o prólogo e dois capítulos iniciais da próxima temporada... Obrigada pela companhia, pelos reviews, surtos, risos, simplesmente, OBRIGADA!Bom final de semana! ATÉ BREVE!