Borboleta Negra

23 Capítulo Vinte e Dois


Notas iniciais
Oie... Bom dia a todas!Quero agradecer os comentários, tem sido um prazer responder a todos... :)BOA LEITURA!

Os minutos passavam e a jovem não se movia. Parada diante da cama de Rosalie, vestida em sua pantalona e no espartilho, mantinha os braços cruzados sobre o peito e roia a cutícula no canto do polegar direito enquanto mirava as roupas dispostas sobre o colchão.

– Isabella, eu devo lembrá-la que logo Lord Masen estará a sua espera. – Marie falou às suas costas. – Ele marcou às cinco horas, não?

– Sim, às cinco horas – repetiu aflita a apontar a cama. – E vestida... Nisso.

– São roupas de...

– De montaria – ela interrompeu a governanta, porém sem grosseria, apenas exasperada consigo mesma por se descobrir tão provinciana.

Na tarde passada, depois de sufocar seus traumas e agradecer ao barão provando-o intimamente como queria desde a manhã de domingo e na sequência ser deixada sobre os lençóis de Rosalie ao término de um beijo tão indecente e satisfatório quanto o segundo que recebeu no pomar, Isabella passou a tarde tentando se acostumar com a ideia de montar como um homem; vestida como um.

Apesar de essencialmente masculina a vestimenta era bonita. Composta por uma camisa branca, colete de tecido xadrez mínimo em preto e bege, um lenço preto para o pescoço e a famigerada calça caqui com seu suspensório marrom já preso a ela. Suas formas não seriam reveladas, pois a peça era larga o suficiente para não marcá-las.

Até mesmo as vestiu na noite anterior, a pedido de Edward que se mostrou bem animado em retirar todas as peças lentamente castigando cada pedaço de pele exposto com seus beijos espinhentos; depois de cobri-la de elogios e tranquilizá-la. Com isso não entendia o que a travava. Sim, expunha-se muito mais em sua casa, contudo considerava diferente. Em seu bordel, apesar das peças diminutas, invariavelmente estava revestida com a frieza crua e profissional que a fazia suportar o ônus de seu ofício.

Ali era apenas Isabella, mulher experiente, sim, mas não exibicionista para outros olhos que não fossem os do barão. Todavia deveria agir, pois não queria decepcioná-lo. Durante o almoço daquela terça-feira Edward novamente a acalmou, relembrando-a que ela não seria a primeira nem a última mulher a se vestir daquela forma; citando até mesmo Maria Antonieta que no século passado chocava a sociedade ao usar trajes masculinos para o mesmo fim.

– Bem o sei – ela dissera.

Rosalie havia lhe contado muitas histórias da conhecida rainha consorte da França, contudo o comportamento avançado da nobre que veio a ser decapitada não vinha ao caso; assim como toda tranquilidade que Edward pudesse lhe passar. Simplesmente não se imaginava cruzando a porta do quarto e então deixando o palácio com cada uma de suas pernas num lado diferente da roupa.

Novamente voltava a roer o polegar quando ouviu a voz despretensiosa de Marie.

– Entendo que esteja com vergonha... Nem todas as jovens são dadas ao modernismo que nos são impostos. Fico realmente satisfeita em ver que é diferente de Tanya Cullen, por exemplo.

– O que tem ela? – Isabella indagou aborrecida à menção do nome em meio ao seu dilema particular.

– Ah, Isabella... – a governanta moveu a mão vagamente. – Em minha opinião ela é muito avançada. Quando vem a Apple White sempre traz um traje de montaria como este para os passeios com...

– Com seu Milord. – Isabella completou de mau humor quando a criada se calou abruptamente.

Em seu íntimo a revolução se formava. Não soube o que levou Marie a citá-la, contudo não gostou de saber que a outra se vestia da forma que Edward deixou claro apreciar; tanto que já se encontrava bem estimulado ao despi-la na noite anterior. Imaginar que a filha de Carlisle pude ter alguma parcela de participação em tamanha empolgação inflamou seu ciúme e acendeu-lhe o despeito. Se a outra era boa amazona, seria ainda melhor.

– Entregue-me as meias, Marie – pediu com a mão estendida.

Ao recebê-las, calçou-as rapidamente, assim como vestiu a camisa que abotoou com dedos trêmulos. Dispensando o lenço, logo vestia a bendita calça e colocava o suspensório sobre os ombros. A governanta já segurava o colete para que vestisse com expressão indecifrável.

– Sente-se que vou fazer uma trança – pediu quando a moça já terminava de calçar as botas de cano longo. Ao ser atendida a governanta opinou. – Acho que devemos enrolá-la num coque.

– Deixe apenas a trança. – Isabella ruminou entre os dentes. – Não quero me atrasar.

– Pois bem! – sem nada acrescentar, Marie fez como anunciado prendendo os cachos negros e uma volumosa trança que terminava um pouco acima do quadril da jovem. Com sua tarefa concluída, exclamou para o reflexo das duas no espelho. – Está linda!

– Obrigada – agradeceu duramente; o ciúme fazendo com que economizasse palavras. – Agora devo ir. Venha Nero.

Com o comando o galgo deixou o tapete próximo à lareira e a seguiu. Assim como Marie que se despediu anunciando que iria supervisionar o jantar e tomou o caminho que levava a ala dos criados.

Àquela hora da tarde não havia trabalho a ser feito no palacete, deixando os corredores vazios e também o hall principal que Isabella cruzou a passos largos. Queria ser a primeira a chegar ao local determinado, porém avistou Edward a conversar com Jacob onde havia marcado para ministrar suas aulas; o gramado diante do palácio. Distraído, acariciava o pelo de Luna com uma das mãos enluvadas e na outra tinha um rolo de corda. Nenhum dos dois se voltou para vê-la até que Nero saltasse em seu redor.

Jacob ao avistá-la retirou o chapéu respeitoso, despediu-se de seu patrão e veio em sua direção.

– Boa aula senhorita – desejou ao cruzar por ela.

– Obrigada Jacob.

Isabella respondeu, olhando-o brevemente ao se cruzarem, pois toda sua atenção estava voltada ao barão, vestido para a lida diária em sua costumeira calça escura, camisa branca e colete; preto e vinho daquela vez. Não usava chapéu deixando a mostra os cabelos castanhos presos por uma fita. Sua postura altiva e segura alimentava mais o ressentimento sentido; enquanto ali estivesse, ele era seu.

Alheio quanto aos pensamentos da moça que caminhava até ele, o barão mantinha os olhos fixos nela desde que se despediu de seu criado e afagou a cabeça de Nero. Considerava-a ainda mais bonita do que na noite anterior, vestida para sua primeira aula de equitação. Com sua aproximação, Edward percebeu como o tempo longe dela distendia cruelmente, pois se descobria com saudades.

– Oi – cumprimentou num murmúrio estendendo a mão para que ela segurasse.

– Oi – Isabella respondeu por reflexo, assim como deixou seus dedos serem beijados por mero costume; estava magoada, acreditando estar sendo comparada a outra mulher de alguma forma.

A aridez do cumprimento e dos gestos deixou o barão em alerta. Ao invés de libertar a mão após o beijo, prendeu-a fortemente quando a moça tentou recolhê-la.

– Aconteceu alguma coisa entre o almoço e nosso encontro? – Edward indagou.

– Não – a resposta foi sucinta, dita a mão livre dela que acariciava o pescoço da égua castanha. – Podemos começar?

– Não, não podemos – a negativa veemente levou Isabella a encará-lo. Encontrar a dureza no olhar azul a desnorteou, assim como rigidez das palavras. – Não até que me diga o que se passa. E não venha dizer que nada aconteceu, pois se há algo que sei sobre você é reconhecer suas mínimas mudanças de humor. Conte-me de uma vez o que a perturba.

Ali, abaixo do rosto taciturno, seu ciúme simplesmente minguou e num sopro se esvaiu, tornando sua atitude defensiva tão infantil quanto patética.

– Estou esperando – o barão anunciou; impaciente.

– Bem... – ela correu os olhos para a própria mão ainda pousada no pescoço de Luna.

– Olhe para mim! – Edward demandou, cortando-a antes que prosseguisse; levando a égua a se agitar ao seu lado. – Contei os minutos para estar aqui, então é o mínimo que mereço.

– Foi uma bobagem. – Isabella admitiu sustentando-lhe o olhar corajosamente, ainda que suas pernas tremessem. Como ele nada comentasse, confessou. – Não gostei de imaginar Tanya usando roupas como essas nos passeios que faz com você.

A voz clara da jovem se tornou vacilante e sumida até que terminasse a frase num murmúrio quase inaudível, contudo foi o absurdo propagado por ela que chamou a atenção do barão.

– De onde tirou uma estória dessas? Ela jamais se vestiu assim... Ao menos não em minha presença.

A incredulidade contida na pergunta a fez se calar. Impossível duvidar de sua palavra então imediatamente soube que Marie lhe mentiu para despertar alguma reação. Isabella tinha certeza que não fizera por mal, apenas jogou com a competição natural entre moças. O que a governanta não poderia saber era de sua possessividade recém descoberta. Não iria delatá-la.

– Como disse, eu imaginei que fosse o caso... E não gostei.

Analisando o rosto levemente ruborizado, Edward deixou que a vaidade o invadisse levando a contrariedade pelo frio encontro.

– Que adorável ciumenta está se saindo – murmurou. – Começo a acreditar que verdadeiramente seria capaz de expulsar a moça a vassouradas caso aparecesse por aqui.

– Não duvide. – Isabella assegurou; feliz por saber que a atração demonstrada na noite passada era por ela.

Edward terminou por de derreter com o sorriso seguro que endossava a ameaça. De fato contou o tempo até poder estar novamente com ela, esteve ansioso pelo início das aulas, então a mudança o preocupou. Todavia saber que tudo não passava de mais uma demonstração desvirtuada de afeto, abrandou seu coração. Como ainda segurava a mão pequena, trouxe para si e a abraçou.

– Recolha as armas minha pequena possessiva – troçou embalando-a. – No seu caso as vassouras... Esqueça Tanya e vamos à nossa aula, pois logo escurecerá. Ou será que está inventando toda essa estória para fugir?

– Não. – Isabella negou decidida, afastando-se. – Ainda acho muito estranha essa novidade de montar como você, mas quero muito aprender.

Invenção de Marie ou não, queria ser melhor do que Tanya Cullen. E havia a vontade de aprender para contar a Embry.

– Então comecemos... – Edward depositou-lhe um terno beijo nos lábios antes de assumir um ar didático. – Quando conseguir familiarizar-se com Luna, eu lhe ensinarei como encilhá-la, por ora será o bastante conhecer as peças do arreio.

– Tudo bem, mas... O que é encilhar? – ela indagou; curiosa. – E arreio. De tudo citou eu só conheço a Luna.

O barão sorriu dividido entre a descrença e o contentamento. Embry era um incompetente por não ensiná-la nada além da capacidade de reconhecer as muitas raças; melhor para ele que a transformaria numa excelente amazona.

– Arreio é essa estrutura que veste o cavalo – explicou com benevolente paciência indicando pelego, sela, estribo, cabresto, e todos os outros apetrechos que Mike usou para preparar a égua, por fim acrescentou. – Ainda faltam algumas peças, mas nada que nos faça falta. E encilhar é colocar todas essas coisas em Luna.

– Então vou aprender até mesmo isso? – Isabella arqueou as sobrancelhas, parecia tão complicado.

– Vai... – Edward confirmou. – Quero ensiná-la até mesmo a preparar o animal que desejar montar. Porém, depois. Como lhe disse, primeiro terá que se familiarizar com ela. Preparada?

– Para lhe ser sincera acho que não, mas não costumo correr de um desafio. E esse agora é um deles.

– Não esperava menos de você, my lady. – confessou orgulhoso.

O tratamento usado nos momentos de intimidade a aqueceu reforçando sua coragem. Esta foi novamente abalada quando Edward lhe instruiu a montar.

– Não poderei colocá-la sobre a sela sempre, então quero que segure firmemente na sela, apóie seu pé esquerdo no estribo e impulsione o corpo para que possa montá-la, acha que consegue?

– Vamos saber agora – ela retrucou, posicionando-se.

Segurar a sela foi fácil. O estribo é que se mostrou um tanto alto, porém não reclamou. O que restou foi impulsionar o corpo para que sentasse na sela com uma perna de cada lado. Ao relembrar às vezes que viu cavaleiros a fazerem o mesmo lhe pareceu algo simples, porém a prática se mostrou completamente oposta. As primeiras tentativas foram um completo fracasso; piorado ao perder as forças quando começou a rir de si mesma e suas tentativas frustradas.

– Se não se concentrar não conseguirá – seu instrutor a repreendeu, sem qualquer convicção. O riso livre e fácil o contagiava, restando a ele segurar firmemente a corda atada ao cabresto de uma égua um tanto impaciente, prendendo-a com pulso firme no lugar.

– Vou conseguir – ela prometeu se afastando de Luna para respirar profunda e pausadamente.

Como Edward salientou com a entrada do outono os dias escureciam cada vez mais cedo e não queria que seu primeiro dia de aula fosse um completo fiasco. Ao se sentir refeita, inspirou e espirou pausadamente uma última vez antes de se aproximar e apoiar o pé esquerdo no estribo. Segurando-se no pito da sela, tentou calcular a força necessária para impulsionar o próprio corpo e agiu.

– Ah! – exclamou feliz ao pousar sentada sobre a sela; admirada com seu feito. – Não lhe disse?

– Meus parabéns! – Edward comemorou com ela, entregando-lhe as rédeas. Isabella havia feito tão pouco; o primordial básico. E ainda assim o deixou muito mais orgulhoso. – Vou me afastar. Quando estender a corda, instigue Luna a andar batendo de leve os calcanhares contra a barriga dela. Se associar com um estalar de língua será ainda melhor.

– Não existe um chicotinho que serve para isso? – ela indagou ainda a se recuperar da adrenalina liberada com a subida bem sucedida.

– Rebenque – o barão nomeou afastando-se como anunciado, apagando o sorriso. – Há alguns no estábulo, mas aqui não usamos. Mantenha uma boa relação com o animal que ele a obedecerá sem ser preciso fustigá-lo.

– Certo, manter uma boa relação... – repetiu como recado mental.

Já afastado com boa parte da corda estendida, Edward pediu:

– Faça-a andar. Caso ela acelere muito o passo, tente freá-la puxando as rédeas bem devagar para que não pare completamente, como lhe expliquei da outra vez.

– Está bem... – dito isso, imitou-o no trato com Draco, tocou a égua com os calcanhares e emitiu três estalos com a língua. E então Luna andou.

– Ótimo! – Edward parabenizou-a; contente em finalmente ver égua e amazona girar ao seu redor.

Isabella conseguiu manter o ritmo compassado, vez ou outra lançava um olhar para seu instrutor a procura de confiança. Esta era prontamente restaurada ao receber um sorriso encorajador. Logo o desconforto pela falta das saias e a estranheza de ter um animal abaixo de si a deixou, restando apenas o despertar de uma nova sensação de liberdade. Creditando-se alguma experiência, Isabella cutucou mais a barriga de Luna para que ela trotasse.

– Vá com calma. – Edward alertou; sua aluna ia bem, mas ainda era cedo para desejar ir além. – Freie um pouco. Sinta os movimentos e tente segui-los, não a apresse.

– Está bem... – com uma leve puxada nas rédeas, a égua reduziu o passo, voltando ao caminhar anterior. – Assim está melhor?

– Está perfeito! – ele podia sentir a ansiedade vinda dela, então garantiu. – Amanhã ou depois, caso se sinta segura, poderá ir um pouco mais rápido.

Em agradecimento Edward recebeu um sorriso animado que a deixava ainda mais jovem.

– Isso será bom – ela disse ainda a sorrir. – Bem... Já que não correrei para parte alguma, conte-me como foi sua tarde.

– Nada de novo. – Edward comentou contente; começava a apreciar aquele questionamento sobre seu dia. – Recebi alguns compradores na sidreria e os levei para conhecer as instalações. E você, o que fez?

– Nada de novo – imitou-o e então troçou. – Antes de me aprontar para a aula, estive na biblioteca. Toda novidade foi a troca de lugares durante a leitura.

– Não há muito que fazer aqui, não é mesmo? – Edward comentou condoído por ela. Não havia pensado no quanto os dias em Apple White poderiam ser vazios para a moça. – Não queria que considerasse sua estada em minha casa algo entediante.

– Entediante? – Isabella arqueou as sobrancelhas e o encarou. Logo percebeu a sombra que encobria o olhar azul, antes tão brilhante. Desejando-o de volta assegurou. – Não há nada de entediante aqui. Veja, até estou aprendendo a montar!

– Isso se dará durante uma hora – o nobre retrucou, acompanhando o girar resignado de Luna. – O dia é longo... Não quero que se sinta sozinha.

– Não me sinto! – garantiu a se reacomodar sobre a sela, suas nádegas começavam a ficar dormentes. – Estou acostumada a estar sozinha, gosto de silêncio e adoro ler, então... Estou no paraíso!

– Se é como diz... – Edward foi vago, pois sua mente ocupava-se com a possibilidade de descobrir mais sobre ela além do apego a solidão, ao silêncio e a leitura. – Se estivesse em sua casa, o que faria em suas tardes?

– Estaria em meu quarto, talvez lendo... – foi igualmente vaga. – Não sei... Estou aqui agora.

– Sim, você está aqui agora – o comentário o remeteu a uma dúvida nascida durante sua primeira conversa no pomar. – E antes? Onde esteve?

– Não entendi sua pergunta? – foi sincera.

Isabella o encarava com as sobrancelhas unidas. Edward parecia muito sério, divergindo de momentos antes o que a confundia; parecia que o brilho de satisfação não voltaria facilmente ao olhar azul.

– Quero saber se de fato mora em Wisbury ou se está de passagem – Edward deu voz ao seu temor. – Como não tem família pode muito bem viver onde desejar pelo tempo que quiser. Talvez por isso colecione relacionamentos; um em cada lugar que se estabeleceu. É esse o caso?

– Não. Eu moro em Wisbury... Não ter família não me tornou uma nômade. Ou aproveitadora.

– Perdoe-me, não quis ofendê-la.

– Não ofendeu – assegurou. Nem poderia se sentir quando era a culpada por levá-lo às suposições.

Tanto melhor o barão pensou, pois não fora mesmo a sua intenção. Apenas precisava de mais afinal, se a queria em sua vida indefinidamente, por mais que às vezes se acovardasse ante ao que poderia descobrir, precisava de mais informações. Saber que ela não era suscetível a palavras mal colocadas não lhe trazia o alívio esperado, assim como confirmar que era de fato sua vizinha não o acalmava. Somente o levava de volta a outra incômoda questão. Cogitava verbalizá-la quando Isabella prosseguiu.

– Acho que não vou aguentar ficar aqui por mais tempo. Minhas pernas estão dormentes.

Não mentia; não somente suas pernas, como as nádegas estavam insensíveis e sua coluna levemente dolorida pela falta de costume em ficar na mesma posição. Ao barão, porém, soou como escapatória de um iminente interrogatório.

– Freie-a então – demandou.

Isabella fez como ordenado, parando Luna para que o barão enrolasse a corda e pudesse ir até ela.

– Segure-se firme, solte o pé direito, apóie o esquerdo e desça – ele instruiu ainda, segurando Luna pelo cabresto.

A seriedade não estava somente no olhar ou nos gestos rígidos, estava também na voz de Edward, deixando Isabella preocupada com o rumo que aquela conversa interrompida ainda pudesse tomar. Preferia quando o barão não a crivava de perguntas. Rogando que pudesse dissuadi-lo de fazê-las, tentou obedecer-lhe. Soltar o pé e impulsionar seu corpo a fazer o movimento contrário ao da subida fora relativamente fácil a despeito da insensibilidade. Todo o problema se deu ao tocar o solo.

Edward ainda cismava com a questão tardiamente sugerida por seu recém-descoberto ciúme, quando a viu pousar sobre o solo e então pender para trás. Isabella não caiu, pois rapidamente segurou-lhe a mão estendida e a puxou para si. Ledo engano considerar que ao abraçá-la com um dos braços pudesse sustentá-la, pois a jovem simplesmente não se firmava sobre os pés.

– Eu disse que minhas pernas estavam dormentes – ela o lembrou em tom de escusa, passando um dos braços por seu ombro.

– Sim, você disse. – Edward se recriminou por duvidar.

Sem soltar a corda que segurava Luna, o barão levantou o corpo pequeno em seus braços. Sua intenção era deixar a jovem sobre os degraus em frente a casa para que pudesse livrar a égua da corda liberando-a para voltar por conta própria ao estábulo, porém antes que se voltasse ouviu a voz tímida ao seu lado.

– Deixe que eu cuide de Luna Milord.

Foi com surpresa que Edward viu Mike milagrosamente surgir ao seu lado, antes que indagasse sobre sua presença, este se desculpou.

– Perdoe-me a intromissão Lord Masen, mas estava vendo vossa senhoria ensinando a senhorita a montar.

Ao se delatar o moço mirrado apontou para o ponto onde esteve até então. Acompanhando o movimento da mão trêmula, Edward ainda pôde ver outros a deixar seu entorno. Esteve tão absorto em Isabella a girar em seu eixo que não atentou para a diminuta plateia que os observava dos arredores de sua casa. Tamanho desligamento o exasperou, conferindo rispidez a sua voz.

– Já que estava bisbilhotando junto aos outros – disse severo, entregando-lhe a corda –, cumpra sua função e cuide de Luna.

– Assim o farei Milord. – Mike anunciou servil a baixar a cabeça. – E novamente, por favor, perdoe-me. Eu só queria...

– Está bem Mike. – Edward o cortou. – Vá de uma vez.

Sem esperar por novos pedidos de desculpas que o irritariam mais, o barão marchou em direção a casa.

– Você sabe que ele não fez por mal, não sabe? – Isabella defendeu o pobre rapaz.

Há bons vinte minutos havia dado por sua presença, assim como as dos outros funcionários, porém simplesmente os ignorou. As sensações experimentadas eram maiores e mais importantes do que aborrecer-se ou envergonhar-se com meia dúzia de pessoas que os observava de longe.

– E você sabe que isso não importa, não é mesmo? – Edward retrucou já a cruzar o hall principal rumo à escadaria. – Cada um deve ficar em seu lugar e o de Mike é cuidando dos cavalos. Ele, assim como cada um ali tem sua própria obrigação e não deveria ficar espionando o que faço.

– Sei que se aborrece com o que falam sobre nós e talvez por isso não tenha gostado de vê-los a nos espionar, mas esse que acabou de falar não se parece com o Edward que conheço. – Isabella comentou mirando o rosto taciturno, as sobrancelhas unidas rigidamente tanto quanto os braços que a sustentavam.

– Talvez não me conheça – o barão retorquiu; já estavam no topo da escada. – Assim como eu não a conheço.

O comentário confirmou a ela o que já sentia; a irritação que roubou o contentamento da primeira aula era destinada a ela, apenas estava sendo direcionada aos funcionários. Optando pela cautela, Isabella nada retrucou. Apenas deixou-se ser levada para o quarto do barão em silêncio.

Encontraram Jacob no cômodo, próximo a lareira a encher uma grande tina d’água com a ajuda de um segundo criado – o mesmo que os flagrou no pomar. Este os olhou brevemente e voltou sua atenção à tarefa, enquanto o criado particular do barão se aproximava preocupado.

– O que houve? – indagou ao patrão. – Ela caiu?

– Não. – Edward respondeu deixando-a sobre a cama. – As pernas ficaram dormentes, apenas isso.

– Apenas falta de costume. – Jacob disse diretamente para ela.

– Mas já estou melhor. – Isabella lhe assegurou, com um sorriso incerto.

– Já terminaram? – o barão perguntou aos criados ignorando a rápida conversa, colocando as mãos sobre o quadril.

– Sim Sir Edward. – Jacob respondeu inabalável ante ao notável mau humor. – Faltava terminar de encher a tina.

– Então poderiam se retirar, por favor. – pediu indicando a porta.

O criado auxiliar se foi após a costumeira reverência. Jacob o seguiu, contudo já sob o batente se voltou para avisar que depois voltaria para retirar a tina. Ao que um barão de secas e parcas palavras o dispensou do serviço, ordenando que voltasse somente na manhã seguinte. Finalmente a sós, Edward retirou as luvas e passou a desabotoar o colete. Sem olhá-la, indagou.

– Sente-se de fato melhor?

– Sim – assegurou e, mesmo sabendo não ser o caso, desculpou-se. – Lamento ter encerrado a aula pela metade.

– Não foi sua culpa – eximiu-a retirando o colete e se sentando numa das poltronas para descalçar as botas. – Como Jacob comentou, é apenas falta de costume. Caso queira prosseguir, logo isso não acontecerá novamente.

– Caso queira prosseguir? – ela repetiu num murmúrio. – Edward...

– Tire suas botas – o barão ordenou. Não havia arrogância mesmo que a tivesse cortado. – E também essa roupa.

– Antes eu gostaria que conversássemos. – Isabella sequer se moveu. – Queria entender o que aconteceu com você.

– Conversaremos enquanto tomamos banho – anunciou invernal, ainda sem olhá-la, descendo o suspensório para então desabotoar o colarinho e a camisa.

– Tomei banho antes da aula, então não vejo razão para incomodar as criadas com o preparo de outro... – ela se calou ao compreender as palavras ditas. – Quer que eu tome banho com você?

– É preciso. – Edward retorquiu, retirando a camisa exibindo o dorso nu. – A água quente ajudará a normalizar a circulação de seu sangue e evitará que fique muito dolorida amanhã. Como salientou, não deve incomodar as criadas para que lhe preparem outro banho.

Estava certo quanto às propriedades terapêuticas da água, o que não lhe disse era que o banho recuperador serviria também aos seus propósitos, pois a contrariedade que o enrijecia desde que vislumbrou a verdade tornava urgente a necessidade de saber mais. Com a jovem onde não poderia escapar, seria fácil expor suas questões e exigir respostas.

Ao livrar-se da calça, por fim olhou na direção da jovem e descobriu-a estática.

– Precisa de ajuda? – indagou arqueando uma das sobrancelhas. – Se for o caso avise-me, pois a água não deve esfriar.

Não, ela não precisava de ajuda, pensou ao se levantar para fazer como ordenado. O que ela precisava era entendê-lo. Sabia que Edward sempre iria querer mais detalhes sobre sua vida; imaginava o quanto suas meias respostas deveriam instigá-lo tanto quanto exasperá-lo, mas não via como a falta de conhecimento poderia fazer seu bom humor se extinguir de um minuto ao outro.

Já estava livre das roupas de montaria quando ele despiu a ceroula e entrou na tina de madeira. Trêmula pela ansiedade que sempre a acometia ao vê-lo nu, soltou os colchetes do espartilho e livrou-se dele assim como de todas as outras peças de roupa que a cobria. Aproximou-se com o coração aos saltos. Nem mesmo o calor vindo da lareira acesa, conseguia eliminar os calafrios que corriam seu corpo.

– Venha. – Edward chamou estendendo a mão para ela.

Isabella a segurou e entrou agitando a água que por instantes transbordou.

– Estamos molhando todo o chão – observou desnecessariamente quando o barão a sentou diante de si; suas costas contra o peito molhado.

– Há quem o seque – a resposta resumida veio enquanto passava um dos braços pelos ombros de Isabella, acima dos seios e prendia os tornozelos dela com os seus; não havia para onde ir. – Agora acho que podemos conversar.

Era uma armadilha, ela percebeu tarde demais. O barão não imprimia força sobre ela, mas Isabella tinha certeza de que se caso se movesse com o intuito de deixar a tina, ele não hesitaria em contê-la. Aceitando a inocência que a colocou em xeque, aquiesceu.

– Sim, podemos... E com o que começaremos? Vai me dizer o que aconteceu que o levou a mudar de repente ou...

– Há quanto tempo mora em Wisbury, Bella?

A pergunta saiu ligeira, sem preâmbulos. Seria novamente muita ingenuidade de sua parte caso não soubesse o quanto Edward já havia entendido. Como não havia meio de fuga, disse a verdade.

– Há oito anos.

Era o que ele temia. A confirmação de que havia se relacionado com homens próximos, provavelmente conhecidos, mais uma vez tornou seu antagonismo ao Embry algo menor. Movido por uma curiosidade mórbida, perguntou:

– Quem foram eles? – como a jovem nada dissesse insistiu. – Além de Embry, com quem se relacionou?

– Não bastaria saber que foram insignificantes em minha vida? – perguntou amável, segurando o braço que a envolvia. – Eu disse que nenhum deles me deu o que você me dá... Para que saber mais?

Ela tinha razão, pensou recobrando a lucidez. Isabella em tempo algum lhe enganou e conhecer identidades nada lhe acrescentaria. Repetia a verdade para que a aceitasse quando um pedido, feito num fio de voz lançou sua aceitação ao chão, reacendendo ressentimentos por um instante arrefecidos.

– E eu gostaria de pedir um favor... Esqueça Embry. Eu já disse que minha relação com ele não é como imagina.

– Então como é? Explique-me para que então eu possa esquecer.

– Não há o que explicar, apenas esqueça. O que ele representa para mim não afeta o que nós temos hoje.

– Como não afeta? Para ele não há insignificância nem você usa verbos no passado. Ele é especial, ele representa... Desde o começo admitiu que o ama – com as observações quase acusatórias veio uma leve pressão no braço que a prendia pelos ombros, como se assim Edward confirmasse alguma posse. – Disse que ele ocupa todo o seu coração, então não entendo por que deixá-lo de fora.

– Não todo o coração. – Isabella sentia sua garganta arder ao corrigi-lo. – Você conquistou seu próprio espaço. Eu o admiro. Quero ficar com você... Desejo você my lord!

Com o despeito a lhe atacar o peito, Edward apertou os olhos e comprimiu o nariz nos cabelos escuros. Nem mesmo aquela declaração o acalmou, pois um espaço para si era pouco. Desejo e admiração? Pouco. Queria ouvi-la dizer que ele ocupava todo o seu coração com a mesma convicção. Queria ouvi-la dizer que o amava sem que fosse preciso pressioná-la como estava prestes a fazer. Com um gemido comprido que exprimia sua frustração, prendeu-a pelo ventre com a mão livre, apertando-a mais contra si e rogou diretamente em seu ouvido.

– Conquistadores recebem os espólios do inimigo, então se consegui meu espaço mereço saber ao menos o que tão estimado cavalheiro foi para você. Um noivo? Um amante?

Inimigo?... Pobre e inocente Embry, Isabella pensou com pesar. Como explicá-lo? Como contar que suas vidas estavam ligadas eternamente sem revelar mais do que deveria? E, sem expor os laços que os unia, como pediria ao barão que não alimentasse qualquer forma de ciúme por ser completamente infundado? Não havia como, não para Edward. Especialmente para Edward.

– Nem uma coisa nem outra – ela disse por fim, pesando cada palavra. – Embry não ameaça o que vivemos aqui. Não nutro por ele os mesmos sentimentos que dispenso a você, então entenda que ele não é seu inimigo nem jamais será.

Queria acreditar, contudo nunca iria se esquecer da carta melosa repleta de declarações de amor. Amor este que ela verbalizou ao outro, não para ele a quem dizia admirar, desejar.

– Não me sentiria ameaçado se deixasse de nutrir qualquer sentimento por Embry. Ou se ele fosse um irmão ou um filho. – Edward retrucou antes de imitá-la. – E ele não é uma coisa nem outra.

A jovem não sabia de onde vinha a certeza; talvez da forma excepcional com que Edward a desvendava equivocadamente. Seja como for, estava provado que não havia como explicar sua ligação com Embry sem desenterrar assuntos indigestos que deveriam permanecer sepultados. O melhor a ser feito era encerrar aquele assunto de uma vez por todas, mesmo que de uma forma não agradável aos dois. Com a garganta ainda mais ressequida, pediu:

– Poderia me soltar, por favor.

– Não vou deixar que fuja sem saber o que quero. – Edward a abraçou mais.

– Não vou à parte alguma – garantiu. – Quero apenas poder olhá-lo.

Edward então a libertou. Apreciava conversas francas e estas realmente só eram endossadas por contatos visuais. Aquele seria o caso, pois a seriedade na voz contrita confirmava sua impressão. Teria chegado o momento da verdade?

Enquanto a moça se voltava da melhor forma possível no espaço exíguo, o barão se sentiu acovardar. Admiração e desejo nunca se interporiam ao amor. Teria ido longe demais? O brilho resignado dos olhos de noite lhe dizia que sim.

– Quer mesmo saber a verdade? – Isabella indagou, evitando enxergá-lo com os olhos do amor para não fraquejar.

Edward consultou seu temor por um instante. Determinou que não havia mantido os negócios de seu pai nem conquistado seu próprio prestígio sendo um covarde. No amor e na vida os princípios deveriam ser os mesmo, então apenas lhe restava uma resposta.

– Quero.

– Pois bem... Não importa o quanto insista Edward, nunca falarei de Embry para você; nada além do que já sabe então terá que acreditar em mim. Quem ele é ou deixa de ser não lhe interessa. A você basta saber que ele e eu jamais ficaremos juntos como homem e mulher... – Isabella o tocou no peito, suas mãos tremiam. Ou seria o barão? Provável que fossem eles dois, ela sentenciou ao prosseguir. – Pode entender?

– Sinceramente não sei. – Edward respondeu ainda a digerir o que ouviu. – Como duas pessoas se relacionam sem se conhecerem? É natural querer saber dos detalhes.

– Os detalhes que interessam – ela replicou. – Disse-me certa vez que eu deveria contar tudo o que você devesse saber. Então... Já sabe que sou órfã; não tenho irmãos nem irmãs. Sou católica não fervorosa, mas gosto de ir às missas aos domingos e me confessar. Gosto de cachorros e de cavalos; acho coelhos tão fofos que considero um crime comê-los. Tenho receio de gatos, medo de cobras e de trovões. Não sou supersticiosa, mas considero segundas-feiras dias azarados. Já lhe disse que gosto do silêncio e de leitura. Também gosto de dançar, mas contraditoriamente não gosto de ir a festas...

– Bella... – Edward a tocou no rosto, comovido com a dissertação.

– Prefiro caramelos a chocolates – ela continuou com os olhos a brilhar. – Chá a sucos; vinho seco ao doce. Gosto de sol e calor, mas aprecio o recolhimento que o inverno traz. Gosto de margaridas, lavandas e rosas, sendo as vermelhas minhas preferidas. Gosto de azul porque é a cor do céu e agora gosto mais, pois é a cor de seus olhos.

– Minha Isabella... – ele murmurou tornando o leve toque que não quebrou, num afago mais intenso.

– E o mais importante... – ela acrescentou ainda sem se deixar interromper. – Sou uma mulher perdida, mas não sou uma criminosa Edward. Nunca roubei, nunca matei. Possuo sim um passado do qual não me orgulho e tento esquecê-lo sempre que posso. A única boa lembrança é justamente Embry por isso quero conservá-lo. Ele é como você que trouxe beleza para minha vida. Nunca terei palavras para agradecer a Deus por colocá-los em meu caminho e não importa a forma como aconteceu. Saiba que no dia que eu não estiver mais aqui, também vou guardá-lo em meu coração, somente para mim.

O que quer dizer com o dia que não estiver mais aqui?! – o barão indagou abalado. – Quando voltamos a isso?

– Não percebe o que acaba de acontecer aqui? – ela rebateu com outra pergunta. – Esse tipo de situação será uma constante entre nós caso insistamos nesse relacionamento. Acabo de dizer várias coisas ao meu respeito, mas sei que não é nada disso que deseja saber e o que quer não vou lhe dar. Eu sabia que seria assim desde o começo, por isso sempre tentei alertá-lo de que não sou adequada... Não sirvo para homem algum. Quanto antes aceitar, será melhor para nós dois. Essa é a verdade.

Notas finais
Bom, é isso... Espero que tenham gostado, qlq coisa me contem... ;)Bjus suas lindas, BOM FIM DE SEMANA!