Borboleta Negra
52 Capítulo Vinte - Parte II
Notas iniciais
Obrigada pelos reviews suas lindas!
"Bora" ler... BOA LEITURA!
Nunca, em tempo algum, o barão se sentiu tão esgotado quanto ao finalmente voltar a Apple White. Sim, estava exausto, contudo o cansaço extremo era aplacado pelo sentimento de dever cumprido. Carregava algo no bolso de seu casaco que, queria crer, serviria para reparar os erros cometidos por Isabella. A tarde passada em Westking fora proveitosa, com isso seu pai poderia descansar em paz. Jamais deixaria que nada manchasse seu bom nome; não senhor.
Enquanto o barão avançava rumo ao portão de sua propriedade, queria crer também que a moça estivesse apenas confusa sobre os acontecimentos de anos antes. Como salientou, ela era nova – nova demais, reforçou uma voz no fundo de sua mente – e ingênua. Talvez seu pai...
Não! Edward ordenou-se a parar. Não suportaria imaginar Edward I e Isabella, juntos, seria demais para sua sanidade. A pouca que ainda tentava conservar. Tudo o que se permitia pensar era que o pai a amou; isto poderia aceitar e apenas isso. Poderia? Bem, estava tentando.
O barão cismava com seus conflitos quando chegou aos portões de Apple White; estranhou que estivessem abertos até ver a movimentação diante a porta principal de sua casa. Jacob conversava com Mark e outros criados, todos montados em seus cavalos, tendo Nero a vagar entre eles antes que o visse e corresse em sua direção. Ficou claro ser ele a razão da mobilização ao ser avistado também por um de seus criados. Este o nomeou, com evidente alívio em vê-lo, levando todos os outros a olharem em sua direção.
– Milord! – exclamaram ao parar o andaluz.
– Sir Edward! – Jacob desmontou rapidamente e veio aflito segurar os arreios de Draco para que o patrão apeasse. – Onde esteve?
– Toda essa comoção é por minha causa? – quis confirmar sua impressão olhando a todos depois de retirar seu chapéu, ignorando a pergunta deliberadamente enquanto tentava afagar a cabeça do galgo que pulava em suas pernas.
– Sim... – o moreno respondeu, sendo seguido por um coro de assentimentos, enquanto todos desmontavam de seus cavalos.
– Tudo está um caos. – Jacob prosseguiu. – A baronesa deu por vossa falta e veio a mim. Disse que passou a noite fora. Esperamos que voltasse logo nas primeiras horas da manhã, mas não foi assim. Fui a todos os lugares que poderia estar e nada. Então organizamos uma busca pela propriedade e arredores. Como também não o encontramos eu estava dizendo a eles que iria comunicar seu desaparecimento ao inspetor. Pensamos que talvez tivesse sido vítima de alguma emboscada, Sir... Em represália à vossa briga com Sir Hunt.
– Aquele pulha não é homem para tanto! – bradou aborrecido, sendo novamente visitado pelo desejo primitivo de dar fim a tal criatura.
– Pode ser que sim – Jacob argumentou –, pode ser que não... Não tínhamos como saber. O fato é que não o encontramos em parte alguma.
– Estou aqui agora – disse ao criado; voltando-se aos demais, agradeceu. – Obrigado pelo esforço. Lamento se os preocupei sem razão. Agora, por favor... Fechem os portões, depois, quem estiver de folga volte para casa e descanse... Os demais... Vão cuidar de seus afazeres. Asseguro-lhes de que estou bem!
Apesar da educação, havia um comando inquestionável no pedido final, reconhecido prontamente por todos que, cumprimentando-o, partiram um a um até que restasse Jacob.
– Bem, restamos nós... – observou o criado, seguindo o patrão que partia rumo ao estábulo; ambos levando seus cavalos pelas rédeas, seguidos por Nero. – Vai me dizer agora onde esteve?
– Em Westking... E antes em Wisbury – o barão revelou sem interromper os passos. – Na velha mansão dos Krane.
– Foi procurá-la! – admirou-se o criado. – E como foi?
Edward repetiu a pergunta a si mesmo sem ainda obter uma resposta; não sabia o que pensar. A única certeza era o que faria dali em diante.
– Sinceramente não sei Jacob – exalou, fatigado.
– Bem... Tempo para conversarem tiveram a gosto – gracejou o criado, livre da preocupação. Seu patrão não retrucou, causando-lhe estranheza. – Nada foi resolvido Sir Masen? Confesso que cogitei uma ida até lá quando vossa mãe mandou me chamar para comunicar que não havia dormido em casa, porém descartei a ideia. Parecia tão decidido a não fazê-lo.
– E estava – confirmou ao chegarem ao estábulo; estranhando não ver seu cavalariço, questionou, franzindo o cenho. – Onde está Mike?
– E ainda mais essa novidade, Sir... A Sra. Newton pediu demissão essa manhã, para ela e o filho.
Como se ela fosse se livrar assim tão fácil! Pensou o barão, aborrecido.
– Eles ainda estão em Apple White, presumo – comentou, retirando sua capa para pendurá-la no gancho próximo, junto com seu chapéu.
– Sim. A baronesa aceitou o pedido, mas até onde eu os vi, mãe e filho ainda estão na casa que ocupam.
– Então vá chamá-los – demandou o barão, indo até Draco para afagá-lo como se lhe pedisse desculpas pelo pouco cuidado da noite e das últimas horas. – Quero os dois aqui imediatamente.
– Sir Masen, não seria melhor primeiro nós...?
– Agora Jacob – salientou incisivo.
Jacob dirigiu um olhar interrogativo ao patrão, porém não demorou a montar e partir. Uma vez sozinho, o barão tratou de seu cavalo, livrando-o de todas as peças do arreio, da sela e da manta antes de levá-lo até sua baia para dar-lhe água e comida.
– Desculpe este seu dono por seu esquecimento... – pediu afagando a crina do animal. – Prometo nunca mais deixá-lo ao relento.
Em troca recebeu um olhar brilhante e indiferente. Por sorte o guarda costas de Isabella o cobriu e ela mesma tratou de abrigá-lo logo pela manhã; sempre atenciosa. Apaixonante, Edward reconheceu sentido. Sim, apaixonante, determinada e cruel com aqueles que caíssem aos seus pés, vítimas de seus encantos.
– Milord? – a voz incerta de Marie chegou até ele, livrando-o dos pensamentos inquietantes. – Mandou-nos chamar?
– Mandei – confirmou afastando-se da baia de Draco e indo até a porta do estábulo para se encontrar com seus criados, com Nero a farejar suas botas. Diante dos três, indagou a Marie. – O que pretende? Ordenei apenas que esperasse em sua casa, não que se demitisse.
– Ah, milord... – a senhora exclamou, irrompendo em pranto. – Nunca há de me perdoar... O melhor que temos a fazer é...
– É voltarem ao trabalho – completou taciturno, diretamente a Mike. – Quem assumiria o trato da Palomino agora que está tão perto de parir?
– Milord eu... Eu nem sabia dessa intenção de minha mãe... Perdoe-me! Eu não queria ir, juro... Gosto daqui!
– Então se gosta de seu trabalho trate de fazê-lo – Edward retrucou indicando Draco. – Veja se está tudo de acordo com ele e, por favor, esteja aqui quando eu precisar de seus serviços.
– Sim, milord... – Mike inclinou a cabeça e correu até Draco.
– E a senhora – Edward se voltou para a chorosa criada –, lembre-se de que deve se dirigir a mim, não a minha mãe. A palavra final sempre será minha sobre qualquer decisão. Evidente que não está perdoada e, talvez, nunca aconteça quanto àquele assunto, contudo nossas diferenças pessoais não devem interferir em suas funções. Por certo que perdeu minha confiança irrestrita, mas é eficiente e... Sempre manteve uma boa relação com Isabella. Precisarei que continue a cuidar dela quando voltar para essa casa.
– O quê?! – Marie praticamente engasgou com seu espanto.
– Sir Masen...? – Jacob igualmente demonstrou sua surpresa. – Isto já está certo?
– Irrevogavelmente – assegurou o barão; estóico ante ao assombro de seus criados. – Encerre o choro Sra. Newton, e volte também ao seu trabalho. Quero que apronte o quarto de Rosalie para Isabella e aquele ao lado oposto ao meu para mais um hóspede.
– Qual hóspede milord? – Jacob perguntou cautelosamente.
– Meu filho!
O brado da baronesa os surpreendeu e então ela cruzou os criados e se atirou contra Edward, prendendo-o num abraço aflito.
– Onde esteve? Queria me matar de preocupação?
Ainda surpreso com a aparição da mãe tão abertamente aflita o desconcertou, levando o barão a abraçá-la um tanto culpado.
– Acalme-se, estou aqui agora – pediu sem afastá-la, somente então a fez desprender-se dele. Tentando não se comover com os olhos vermelhos, pediu: – Volte para casa. Irei até a senhora num instante.
– Deveria ter ido a mim imediatamente – ela retrucou unindo as sobrancelhas, olhando para Marie acusadoramente –, e não procurar por quem hoje não cumpriu com suas funções e quis me abandonar quando mais precisava.
– Milady, eu... – a criada tentou se justificar, porém o patrão a cortou.
– A senhora Newton estava sob minhas ordens, por isso não a serviu ontem à noite, nem veio trabalhar essa manhã. Quanto a abandonar-nos, ela não o fará. Não é mesmo? – indagou diretamente para a senhora temerosa à sua frente.
– Por certo milord – anuiu, baixando a cabeça. – Não farei mais do que minha obrigação ao servo-li, na posição que determinar.
– Continuará com sua posição Sra. Newton e quero contar que não mais cometerá qualquer deslize.
– Qual deslize? – A baronesa questionou curiosa, olhando de um ao outro.
– Nada que deva saber senhora... – Edward se absteve de responder, encarando a governanta que o olhava incrédula, ordenou: – Vá cuidar do que lhe pedi. Quero tudo de acordo para terça-feira.
– O que deve estar de acordo para terça-feira? – Elizabeth insistiu, sendo novamente ignorada.
– Quem ocupará o outro quarto milord? – Marie perguntou, olhando brevemente para a baronesa; receosa.
– Não tenho certeza – de fato não tinha –, então apenas deixe-o preparado para receber um hóspede. Agora vá!
– Com vossas licenças – Marie pediu a baronesa e ao barão, inclinando-se antes de partir.
– Que história é essa de hóspede Edward? – A baronesa se mostrou aborrecida. – Por que me ignora?
– Gostaria que a senhora me esperasse dentro de casa – Edward falou seriamente, prevendo a tempestade. – Lá conversaremos.
– Por que não agora? – Ela olhou para Jacob rapidamente. – Não me importa que diga na frente dele, que sempre é tão atencioso comigo. Quem virá?
Ignorando a pergunta e a crítica velada, o barão se voltou para o amigo; que o encarava tão ou mais curioso quanto à baronesa e pediu:
– Gostaria que me preparasse o banho, caso não esteja muito cansado da busca.
– De forma alguma – Jacob assegurou, indicando com o olhar resoluto que, durante o banho, esperaria por respostas; e Edward as daria. Seu amigo as merecia.
Ao se vir sozinha com o filho, Elizabeth o segurou pelo braço, livre da comoção, para fazê-lo encará-la.
– O que está acontecendo Edward? Onde passou a noite? Quem virá?
– Venha, vamos entrar... – ele a chamou, passando um dos braços por seus ombros. – Melhor conversarmos em casa. Logo escurecerá e está frio aqui.
– Uma mãe aflita não sente o frio – a baronesa retrucou, deixando-se levar.
– Essa mãe aflita não tem mais razão para permanecer assim.
Edward tratou de ser amável uma vez que ainda se sentia culpado por deixá-la sozinha, e também por novamente reconhecer que ela tivesse razões muito fortes para deixar seu pai. Precisava saber.
– Como não? – ela insistiu, enquanto contornavam a casa para entrar pela porta principal. – O senhor está todo misterioso para mim... Ainda não acredito que passou a noite fora sem ao menos avisar-me! Onde esteve afinal?
Edward suspirou resignado. Não haveria como seguir com seu plano sem revelá-lo – em parte – para a mãe. Não seria fácil e no momento não se sentia preparado para a tormenta que viria.
– Saberá senhora. Prometo que lhe responderei tudo o que quer saber, direi onde dormi, quem virá, tudo... – deu sua palavra. – Contudo, depois. Estou cansado... E faminto. Poderia providenciar algo que me satisfaça até o jantar?
– Está com fome? – Elizabeth maximizou os olhos. – E irá jantar comigo?
– Por certo que irei e depois de nosso jantar conversaremos – assegurou; melhor daquela forma, pois não havia motivos para estragar o apetite da mãe; ou o seu.
– Sim, verei o que se pode fazer. Devo enviar a bandeja ao seu quarto?
– Por favor, sim... – Edward procurou por seu melhor sorriso e o exibiu para a baronesa.
– Sinceramente não sei o que pensar... – ela comentou, escrutinando o rosto do filho. – Parece estar bem, mas sinto que não está. No entanto, voltou a ter apetite então me contentarei com isso por enquanto. Vá tomar seu banho sossegado. Coma e depois descanse, pois após o jantar não nos separaremos sem que me diga exatamente o que está acontecendo.
Aquela também era uma promessa, Edward sentiu. Como aquele era seu desejo, não se abateu. Faria como recomendado, descansando como pudesse até que fosse hora de confrontá-la.
Sem mais palavra se separaram à subida da escada. A baronesa rumo à cozinha, o barão ao seu quarto, com Nero a segui-lo. Ao abrir a porta surpreendeu-se por Jacob ter levado sua tina para o cômodo. A visão o chocou por um instante, tão desacostumado estava com aquela cena. Evidente que foi remetido no tempo e viu a moça a fazer o mesmo, preparando seu banho perto da lareira enquanto o galgo se enrodilhava aos seus pés, porém, logo tratou de expulsar a imagem.
– Por que trouxe isso para cá? – indagou já retirando seu casaco.
– Imagino que, agora que encontrou a senhorita, as lembranças não mais o assombrem – foi a resposta simples do criado ao depositar o balde ao chão.
Isabella sempre o assombraria, pensou não se admirando por seu amigo conhecer a razão da mudança anterior. Sem nada retrucar, o barão se despiu e, vestido apenas em sua ceroula, entrou na tina, afundando-se na água morna. Queria que esta tivesse o poder de relaxar seus músculos, ciente de que nada poderia fazê-lo. Seus instantes de paz, adquiridos nos braços de Isabella, estavam novamente perdidos. E, uma vez que não poderia fugir do que descobrira, ergueu os olhos para o criado que o encarava silenciosamente para recomendar:
– É melhor que se sente para saber o que consegui ao ir atrás da verdade.
– Seria assim tão chocante? – Jacob duvidou, sem se mover. – Afinal já sabia o que ela fazia. Não foi apenas conferir por que ela não agia de acordo?
– Fui para confirmar com meus próprios olhos. – Edward começou, não insistindo para que o amigo se sentasse. – Como lhe disse, não iria procurá-la, porém surgiram novos fatos...
– Novos fatos? – O moreno franziu o cenho.
– Sim... De início descobri, ainda aqui em Apple White, que Isabella já havia vivido nesta casa... E lá, no bordel onde mora, descobriu que ela tem um filho...
– A senhorita já viveu aqui? – Jacob se mostrou confuso. – Quando? E que filho pode ser esse? Ela é tão nova! E... Quem é o pai?
– Meu pai.
A revelação feita de chofre, sem preparação chocou o criado que, lívido, tardiamente atendeu ao patrão, recuando alguns passos para cair pesadamente sobre cama. Sem nem atinar onde havia se sentado, Jacob balbuciou:
– Vosso, vosso pai?... Como...? Como Sir...?
O barão lhe explicou como a um criado apático e cada vez mais incrédulo, revelando até mesmo os pesadelos da moça que deveriam lhe fazer acreditar na violação, mas para ele, apenas expressavam o que já havia lhe dito; ela era nova demais e confundiu o que se passou.
– Não acredito nisso Sir... – Jacob disse por fim, ainda pálido feito uma folha de papel. – Vosso pai seria incapaz.
– Pois é o mesmo que penso! – Edward exclamou, também para si mesmo que, por vezes, titubeava quanto ao bom caráter do pai.
Certo, não tão bom e ilibado quanto sempre acreditou, reconheceu. Afinal, Isabella era pouco mais do que uma menina quando ele... Esqueça disse para si. A verdade que nunca se permitiu cogitar era que ninguém jamais seria perfeito e seu pai por certo não seria a exceção, porém, estupro? Forte demais para alguém como ele.
– Então... – o criado começou cautelosamente. – Acha que eles foram amantes? A senhorita e vosso pai?
– Acho... – reconheceu roucamente; odiando aquela relação. – E quando a avó descobriu e a expulsou ela tratou de levar uma lembrança dele.
Naquele ponto a garganta do barão se fechou; ela havia assegurado tê-lo amado desde sempre, então como pôde? Sentia-se traído, aquela também era a verdade que se recusou a ver; era como se a relação se desse no tempo corrente.
– Sir Edward... – Jacob o chamou, resgatando-o do ciúme violento que lhe espremia o peito. – Não estou dizendo que vosso pai fosse capaz de tal atrocidade, mas... Se eles foram amantes, sendo ela tão nova, com ele a amando ao ponto de chamá-la em seu delírio antes da morte, por que não cuidou dela? Mesmo longe de Apple White para evitar um escândalo?
– Por que ela é teimosa! – Edward ciciou. – Sem dúvida desde muito cedo foi tão obstinada quanto é agora. E ela admitiu, disse que nunca revelou sobre o filho por medo que meu pai o tomasse. Ela preferiu aquela vida à qual Sir Cullen levou-a a ter!
– Sir... Vossa senhoria percebe que não faz muito sentido? Não lhe parece que há algo errado?
– Tudo está errado Jacob! – Edward precisou altear a voz para conseguir falar, então, depois de respirar para se acalmar, baixou o tom e prosseguiu: – Hoje descobri que a mulher que amo estava disposta a se manter longe para sempre, mesmo se tivesse um filho meu. Quando imaginei que não cumprisse sua palavra, tive a prova de que ela seria capaz, pois já o fazia... Isso com um filho de meu pai. “Meu pai”!
– Entendo Sir...
– E isso há oito anos! – Edward prosseguiu como se o criado nada tivesse dito. – Ela não voltaria Jacob. Já estava de mudança para Londres e talvez eu nunca mais a visse, e onde por certo, viveria com o filho. Vindo de uma relação que ainda não entendi, não aceitei, não digeri... Tudo, tudo está errado! – repetiu. – Para piorar, o único que poderia esclarecer não está entre nós, e hoje me decepciona profundamente, pois se revelou não ser ilibado como, minha vida inteira, pensei que fosse!
– Entendo Sir Edward – o criado repetiu, condoído. – Também estou surpreso quanto a vosso pai e é compreensível que se sinta assim... E quanto à senhorita, como se sente? Como a considera?
– Uma traidora – revelou sem nem pensar; era o que sentia.
– E ainda assim vai trazê-la para cá? – Jacob se mostrou confuso, então arregalou os olhos ao entender. – E trará também vosso irmão? É ele o hóspede?
– Sim – Edward confirmou, antes de jogar água contra o próprio rosto, como se daquela forma pudesse apagar o ardor que lhe queimava os olhos.
– Isto também não faz sentido Sir Masen! Agora que sabe dessas coisas e se sente traído... Por que trazê-la? E ainda envolvendo uma criança nessa confusão?
– Ele é meu irmão – o barão disse o óbvio. – Não vou deixá-lo trancafiado num internato em Londres. Quero-o aqui, onde deveria ter morado desde que nasceu. Quanto a Cora... Isabella... Ou Amber... – acrescentou cansado – Só me resta cumprir o que esse destino zombador nos reservou.
– Que seria...? – Jacob o encorajou a ir além.
– Tê-la em minha vida, em minha casa. Em minha cama... – acrescentou muito rouco. – Amando-a ou odiando-a...
– Sir...
– Não se preocupe Jacob – pediu o barão, incomodado com o pesar que percebia nos olhos escuros. – Ficarei bem!
– Assim espero Sir Edward! – o criado rogou; descrente. – Se tiver algo que eu possa fazer para ajudar...
– Ajudar-me-ia se não revelasse a ninguém o que lhe contei neste quarto. Nem a Leah; nunca! O que ouviu aqui morre com você. Não quero que ninguém saiba a real ligação entre Embry e meu pai.
– Como será isso se vai trazê-lo para Apple White?
– Não se preocupe com isso agora – Edward aconselhou. – Quanto ao que virá será de minha responsabilidade... Por agora, quero que vá até o Jardim e avise a Isabella que amanhã bem cedo irei buscá-la, às cinco horas. Ela deve estar pronta, pois partiremos o quanto antes para Watlin.
– Iremos buscá-la e então voltaremos até Westking?
– Não... Não quero alardes ao deixar a cidade, então pretendo seguir até Watlin em minha carruagem. De lá tomamos o trem até Londres. Gostaria de não lhe dar este trabalho, porém não há outro jeito.
– É o melhor a ser feito Sir Masen – Jacob respondeu. Eficiente como sempre. – Então vou já passar vosso recado e na volta irei verificar as condições de vosso veículo.
– Faça isso... – Edward anuiu.
– Algo mais que eu deva dizer para a senhorita? – perguntou o criado, pondo-se de pé.
– Não... Saliente apenas que não perdoarei atrasos. Ela que esteja pronta para partirmos às cinco horas.
– Como queira...
Jacob inclinou a cabeça e, sem nada mais acrescentar, se foi. Tão resignado quanto seu patrão, que, ao ficar só, retirou a ceroula para se banhar corretamente. Sim, pensou enquanto se esfregava, não perdoaria atrasos, pois como o bom paspalho que era já ansiava ter a moça novamente à sua volta, entorpecendo seus sentidos com o odor de jasmim, inflamando seu ressentimento a cada novo detalhe perturbador de sua história; exortando-o, de fato, a amá-la e odiá-la.
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A ausência de um som despertou a moça. Abrindo os olhos, Isabella encontrou o quarto mergulhado em penumbra, o fogo na lareira, quase extinto, deixando o quarto frio. Dormira de exaustão sem nem notar. Quanto tempo teria dormido?
– Amber?
Ao ouvir a voz de Angela soube ter sido outro chamado como aquele que a despertou, então, subitamente alerta, sentou sobre a cama.
– Pois não Angela...
– Amber, tem um cavalheiro à nossa porta. Disse que traz um recado do barão. Sam está com ele... O nome é Jacob Black.
– Jacob?!
A moça saltou da cama apressadamente. Com dedos trêmulos tratou de acender a lamparina para se olhar no espelho.
– Traga-o até o escritório Angela... Irei em seguida.
– Muito bem...
– Espere! Que horas são?
– Seis e quinze.
Havia dormido praticamente toda à tarde! Fato raro nos últimos tempos, assim como ter seu estômago a protestar pela falta de comida. Enquanto ajeitava os cabelos como podia, Isabella tentava dizer a si mesma que a fome e o cansaço nada tivessem a ver com a presença de certo barão em sua cama durante a noite e toda a manhã.
Não toda a manhã, corrigiu-se. Boa parte dela foi dispensada às revelações e à discussão. Edward não a deixou com o coração pacificado, assim sendo, a presença de seu criado de confiança no bordel poderia significar muitas coisas; todas inquietantes.
Resistindo ao desespero que tentava atacá-la, a moça alisou a saia de seu vestido e deixou o quarto. Chegar ao escritório antes de Jacob e Angela aumentou sua ansiedade, deixando-a beira de uma crise de nervos até que a porta fosse aberta e ela se visse diante do conhecido rosto moreno, vermelho como um pimentão.
– Jacob! – exclamou ao vê-lo, dando um passo à frente; um tanto comovida. – Quanto tempo!
– Tempo demais senhorita... – ele respondeu impassível, mirando o chão, enquanto Angela fechava a porta ao sair, deixando-os a sós.
Isabella estacou, em alerta. Lembrando-se de onde estavam, reconheceu que o moreno não fora procurá-la para uma visita entre amigos e, sim, dizer-lhe algo vindo do barão. Por isso o rosto vermelho; constrangimento por estar num bordel, diante de uma meretriz. Erguendo os ombros, a moça tentou parecer tão centrada quanto o criado, e indicou a cadeira diante de sua mesa.
– Deseja se sentar?
– Não senhorita – negou, rodando o chapéu pela aba com dedos ansiosos. – Preciso voltar para Apple White o quanto antes. Vim apenas lhe trazer um recado.
– Então diga. – pediu, sentindo se formar um bolo em sua garganta e estômago; Edward mudara de ideia.
– Sir Masen manda avisar que amanhã pela manhã, às cinco horas em ponto, estará diante de sua porta para partirem rumo a Watlin. Pediu que a senhorita estivesse pronta, pois não perdoará atrasos.
– Pediu?
Isabella duvidava de tamanha delicadeza vinda do barão, tendo em vista a gravidade da situação. Evidente que não se aborrecia com a ordem, apenas comentou por não conseguir conter o gracejo. Ao perceber a sombra de um sorriso nos lábios de Jacob, ela sentiu seu coração se aquecer; ele poderia estar ali a serviço, provavelmente soubesse de toda sua história, de Embry, mas não a julgava. Antes de respondê-la, confirmando sua impressão, Jacob alargou o sorriso.
– Pediu à maneira dele, então não se atrase senhorita.
– Não vou me atrasar, prometo. – ela lhe retribuiu o sorriso. Sentindo-se mais confiante, arriscou. – Como tem passado Jacob? E Leah?
– Estamos bem senhorita. Obrigado por perguntar. – ele novamente rolou o chapéu, descendo os olhos para as mãos. – Minha esposa sentiu por sua partida.
– Também senti ter que deixá-los Jacob – assegurou; novamente emotiva. – Na ocasião considerei ser o melhor a fazer. Acho que agora entende, não?
– Sim, hoje a entendo... Mas deveria ter exposto o que a impedia de ficar – Jacob opinou, encarando-a. – Acredito que, apesar do choque, Sir Masen saberia ouvi-la e... Mesmo que não entendesse, juntos haveriam de resolver os problemas, como farão agora.
Então resolveriam juntos? Isabella gostou do que ouviu mesmo não sabendo em quê, exatamente, aquelas palavras implicavam. Aventurando-se mais, indagou:
– Ele lhe disse o que pretende fazer? Quanto a mim e a...?
– Ao seu filho? – Jacob completou ao se interromper. A moça confirmou com um manear de cabeça, então o criado ergueu os ombros para dizer o que ela sempre soube. – Sim, Sir Edward disse o que pretende, mas eu seria incapaz de adiantar-me a ele. Lamento.
– Não... Eu quem lamento ter cometido tal indiscrição.
– Não por isso senhorita. Agora se me der sua licença, preciso partir.
– Sim, Jacob. Obrigada por trazer o recado e... Dê lembranças minhas à sua esposa – acrescentou, constrangida.
– Ainda não as darei senhorita – falou sincero –, pois ela me crivaria de perguntas às quais não poderia responder, mas... tão logo seja possível, eu revelarei que a vi e que perguntou por ela.
– Compreendo...
– Passar bem senhorita.
– Passar bem você também Jacob.
Isabella o assistiu sair, sentindo um aperto em seu coração. Estava claro que o criado do barão não lhe fazia distinção, porém algo havia mudado. Ou talvez fosse sua conhecida inferioridade soprando-lhe bobagens ao ouvido, ela disse a si mesma, repreensiva. Não deveria ocupar sua mente com a opinião de Jacob, e, sim, com a de seu patrão. Era Edward o único que não deveria julgá-la, pois somente a parti de sua aceitação que viriam as outras.
E lá estava ela divagando, mais uma vez, ralhou com seu pensamento. Nem sabia quais as intenções do barão. Provavelmente fosse fazer por ela o que Hunt sempre lhe propôs; colocá-la-ia numa casa afastada dos olhos de todos, onde a visitaria sempre que pudesse, pois... Não havia alternativas!
– E eu aceitarei – disse a ninguém, esperançosa. – Aceitarei o que ele me der...
– Ele quem? – Susan questionou ao entrar, seguida de Anne, Maureen e Jessica; todas as moças a conter sorrisos sugestivos, vestidas em suas combinações.
– Aposto que está sonhando acordada com o “barão”... – suspirou Maureen, indo se sentar na cadeira que, minutos antes, Jacob recusou.
– Penso o mesmo... – Anne fez coro, ao se colocar às costas da amiga sentada e segurar-lhe os ombros.
– Aquele moço que acaba de sair veio a mando dele, não? – Jessica perguntou logo em seguida, sem dar chance a Isabella sequer de pensar. – Eu o vi com Lord Masen algumas vezes. Ele é bem bonito também...
– E casado – Isabella salientou.
Todas as meretrizes a encararam então irromperam num riso conjunto.
– Não nos importamos desde que ele pague bem... – avisou Maureen num gracejo.
O aborrecimento de Isabella durou apenas um instante, logo sorria condescendente para todas. Seu comentário fora no mínimo hipócrita, afinal todas ali viviam com o dinheiro de homens casados. Na verdade apenas salientou o fato por conhecer e gostar de Leah, o que não se dava com as outras senhoras que ficavam em suas casas enquanto os maridos se divertiam em seu bordel.
– Muito bem... – ela falou acima do riso, para contê-las. Considerando ter entendido a razão do rosto corado do criado. – Vocês não o assediaram, não é?
– Só um pouquinho – admitiu Susan. – Foi tão lisonjeiro vê-lo corar com nossos gracejos.
– O que faço com vocês? – Isabella questionou a nenhuma em especial, deixando-se contagiar pelo bom humor de todas para acalmar-se.
– Conte-nos o que está acontecendo – pediu Jessica. – Estamos curiosas desde ontem. Diga-nos o que há entre você e o barão. Mudou de ideia e passará a atendê-lo?
– Ai meu Deus! – Maureen exclamou, abanando-se. – É isso? Seria muita sorte ser exclusiva do barão!
– Não meninas, não é isso... – Isabella corrigiu e, depois de escolher as palavras, prosseguiu. – Não é nada relacionado à nossa profissão. Digamos que o barão e eu já nos conhecíamos e agora nos reencontramos...
– Eu diria que ele a encontrou e que foi algo meio explosivo, não?... – Susan questionou, contendo um sorriso. – Ou selvagem...
– Não a interrompa – ralhou Jessica. – Amber, você dizia que já se conheciam... de onde poderia conhecer o barão?
A moça encarou os quatro pares de olhos ansiosos atenciosamente. Em breve elas teriam que se aprontarem para a noite, contudo decidiu dar algo para elas. Após um suspiro, contou-lhes, resumidamente, sobre sua passagem por Apple White meses antes; a acolhida no dia da tempestade, o envolvimento e sobre não ter revelado a Edward sobre sua condição. Omitindo o que era desnecessário citar, finalizou contando que o barão finalmente a descobriu ali, justificando a raiva demonstrada na noite anterior e naquela manhã.
– Senhor misericordioso!... – Maureen suspirou. – Se ele veio até aqui e fez aquela cena já a conhecendo, isso significa que nutre um sentimento verdadeiro por você. Ele estava com ciúmes!
– Não saberia dizer... – mentiu a moça.
– Que lindo Amber! – exclamou Anne, enlevada.
– Você não devia contar essas coisas para elas – Kate a repreendeu da porta, indicando ter ouvido seu relato. – Agora essas cabeças de vento vão acreditar que algo do tipo pode acontecer a elas.
– Não somos cabeças de vento! – Maureen retrucou por todas.
– E por que não poderia acontecer? – Anne desafiou a meretriz mais velha.
– Realmente não vejo problema algum – Isabella falou; sua voz se sobressaindo a de todas. – Sonhar traz um pouco de graça a essa nossa vida. E eu não sou melhor do que nenhuma delas. “Se” acontecer de o barão se interessar por mim, por que outro senhor não faria o mesmo por uma delas?
– Realmente, você não é melhor do que ninguém Amber – a velha meretriz replicou – Ainda assim tudo parece tão mais fácil em sua vida. Tornou-se dona desse bordel aos dezenove anos, aposentou-se, e quando volta à ativa é justamente na cama do nobre da região. Isso sem contarmos que é o objeto de desejo de Laurent Hunt, a queridinha de Sir Cullen. Acha que essa sua boa estrela brilharia para cada dessas meninas? Considera justo encher o coração delas de esperança quando tudo o que as espera é entreter homens que não estão à procura de romance?
Em parte não poderia contestá-la, porém Isabella estranhou o tom; a forma quase hostil com que salientou sua “boa estrela”. Correndo os olhos para as moças, agora livres do humor anterior, a moça pediu:
– Poderia nos deixar a sós, por favor...
– Isso! – Kate atalhou. – É hora de descer das nuvens e se aprontarem. Logo a porta será aberta. – Quando uma a uma seguiu para a porta, a senhora aconselhou. – Vejam se não vão ficar esperando seus príncipes encantados. Apenas trabalhem.
– Ditar o que elas devem fazer não cabe a você! – Isabella a repreendeu; aborrecida. – Não é porque está aqui há mais tempo que deve se considerar superior a elas, ou a mim!
– Jamais superior a você patroa – a mulher ergueu as mãos em sinal de derrota, mordaz. – Apenas você dita às ordens aqui e, como se não bastasse todos os protetores que tem, agora é a escolhida do barão de Westking... Contudo sou mais velha do que elas, então, por respeito, devem me obedecer, sim.
– Não, não devem – Isabella retorquiu, unindo as sobrancelhas, verdadeiramente irritada. – Se tem o costume de comandá-las pelas minhas costas exijo que pare. Quem responde por mim na minha ausência é Angela, não você.
– Amber...
– E que essa também tenha sido a primeira e última vez que me diz o que posso ou não conversar com elas – cortou-a. – Sei mais do que qualquer uma de nós o quão é difícil termos chances de sermos felizes livres dessa vida abjeta, mas sei também que não é impossível, então não tente impedi-las de sonhar.
– Uma rameira que sonha, termina seus dias, velha e frustrada. – Kate rebateu altiva, indicando que deixaria o escritório. – Como não poderia deixar de ser, você é a exceção.
– Volte aqui Kate! – Isabella demandou enquanto a senhora deixava o cômodo.
– Preciso me preparar, como todas as outras – respondeu, sem interromper seus passos. – Não sou a queridinha de ninguém...
– O que aconteceu aqui? – Angela entrou alarmada, olhando para Isabella e Kate que já cruzava o batente.
– Pergunte a sua amiga – a moça retrucou ainda raivosa. – O que tem ela afinal?
– Ouvi as vozes lá de meu quarto – a amiga comentou. – Eu perguntaria o que aconteceu com as duas.
– Como posso saber? – Isabella não conseguia se acalmar. – Ela ouviu minha conversa com as meninas, onde contei em parte sobre mim e o barão, então simplesmente teve um ataque.
– Não fique assim... – pediu Angela, apaziguadora. – Hoje foi um dia estranho, agitado para todas nós, com a presença do barão... E teve a notícia anterior, sobre sua mudança. Os ânimos estão exaltados, mas logo tudo voltará ao normal. Você deveria estar se preparando para a noite, não metida em mais uma discussão.
– Como se eu procurasse por elas... – a moça ciciou, antes de anunciar. – Não descerei essa noite.
– Nem por uma hora? – Angela indagou incrédula.
– Nem por uma hora... – reafirmou; cumpriria sua promessa de não mais se expor. – Quero cuidar dos preparativos da minha ida a Londres.
– Já está acertado? Por isso o criado do barão esteve aqui?
– Sim... Partiremos amanhã logo cedo. Conto que você tome conta do Jardim, como sempre.
– E eu que você vá em paz e encha nosso pequeno de beijos, por mim.
Ah, ela o beijaria, por certo. Tentando acalmar-se, deixou que a expectativa do novo encontro com Embry, em apenas dois meses de separação, arrefecesse a raiva que Kate despertou.
A alegria, no entanto, cedeu lugar à inquietação. Em pouco mais de 24 horas estaria com seu pequeno, tendo Edward ao lado. E aquele era exatamente o tema que povoou sua mente antes que dormisse durante toda à tarde. Despertou, reviu Jacob, narrou o romance vivido em Apple White, brigou... E ainda não sabia como apresentaria um irmão ao outro. Sem dúvida aquele acesso inexplicável da velha meretriz era nada, se comparado ao que ainda iria enfrentar.
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A refeição se deu em silêncio; providencial ao barão que ordenava os pensamentos, escolhendo as palavras a serem ditas para a mãe dali em poucos instantes. Após a saída de Jacob de seu quarto, Edward acreditou que seria mais fácil expor os mesmos temas para a baronesa, contudo ao longo do jantar reconheceu não ser daquela maneira. Para a senhora não poderia ser tão sincero.
De toda forma, para ela valeria o que por final revelou ao criado, contudo, após sua volta de Londres, não antes, pois não sabia se seu plano seria bem sucedido. A Elizabeth bastaria revelar onde esteve o que se sucederia a partir dali. E foi o que decidiu fazer ao se dar por satisfeito depois de consumir tudo o que fora posto em seu prato.
– Fico tão feliz em ver seu apetite renovado! – exclamou a baronesa, enlevada. – A que devo creditar esta súbita disposição?
– Deve creditá-la ao motivo que me levou a passar a noite fora – respondeu sem rodeios, baixando o guardanapo com o qual limpou o canto da boca.
– Então devo temer este “motivo” e não agradecê-lo? – Elizabeth foi direta, indicando pelo olhar castanho, saber mais do que deixava transparecer. – Afinal não me agradou que tivesse dormido fora de casa... E recuso-me a imaginar com quem.
Acreditando na boa intuição da mãe, Edward comentou, novamente sem preâmbulos.
– Não se recuse... Nem tema, afinal, a senhora sempre esteve muito inclinada a me vir comprometido.
– Comprometido?!... Não! – gritou a baronesa, deixando a mesa. – Não com ela! Não admitirei!
Então, rodando as saias, deixou a sala de jantar a passos decididos, aviltada. Edward suspirou profundamente e, sem olhar para a governanta ou a criada que por certo já haviam entendido o que se passava, seguiu a mãe de perto até que entrasse na saleta onde costumava tomar seus chás.
– Senhora... – começou ao fechar a porta.
– Não Edward! – ela o cortou, alterada, enquanto caminhava de um lado ao outro. – Não com ela! Qualquer uma, menos ela! Onde a encontrou? Marcaram um encontro já no baile?
– Não mamãe – respondeu pacientemente.
– Então onde a encontrou? Passou a noite na casa dela? Na cama dela por certo! – salientou contrariada. – Essa mulher faz bem o tipo! Seduziu-o uma vez e agora ataca novamente! Justo agora, quando estava recuperado do mal que lhe causou.
– Não fale sobre o que não sabe... – pediu o barão, vendo a mãe a vagar diante de si.
– Como não sei? – Elizabeth o questionou. – Estava, sim, melhor e depois de encontrá-la brigou feito um animal, passou a noite fora... – então maximizou os olhos ao entender o que ouviu durante a tarde. – E pretende trazê-la de volta a esta casa?!
– Sim... – confirmou. – Tão logo voltemos de uma breve viagem.
– O quê?! Vai viajar com aquela mulher e depois trazê-la para Apple White? Para morar comigo?!
– Talvez traga outra pessoa conosco – Edward a preparou, cautelosamente; sem detalhes ainda. Como poderia interrogá-la sobre o pai estando tão exaltada?
– Outra pessoa? Quem?... Um pai moribundo, uma mãe desvalida? A vigarista armou o bote e você caiu. Vai sustentar ela e a família? – escarneceu.
– Acalme-se, por favor... – pediu sincero, indo até ela para segurá-lo pelos ombros, obrigando-a a encará-lo. – Não estou caindo em golpe algum. Acredite, ela é minha responsabilidade. Preciso reparar um erro cometido no passado.
– Passado? – estranhou a baronesa. – Qual passado pode compartilhar com essa mulher? Conhecia-a de antes? O que deixou de me contar Edward?
– Deixei de contar aquilo que nem mesmo eu sabia. Agora tudo mudou e preciso agir corretamente. Tente entender...
– Jamais! – Elizabeth exclamou veemente. – Se lhe deve algo, compense-a em dinheiro. Temos muito, e ela por certo irá preferir! Mas, pelo amor de Deus, não me diga que se comprometerá com ela por alguma bobagem que tenha feito anos antes. Seja o que for, livre-se dela e do problema!
– O problema dela sempre foi meu e o assumirei... – não que considerasse o menino como sendo um fardo; agora entendia a colocação da moça.
– Meu querido... Não tem que ser assim – a baronesa mudou o tom, tocando-o carinhosamente no peito, apaziguadora. – Qual é o problema? Conte-me e juntos poderemos encontrar uma solução.
– Já tenho a solução mamãe e gostaria muito que me ajudasse a fazer o que é certo. Preciso trazer Isabella de volta.
– Não! Será a minha morte quando ela entrar em minha casa!
– Minha casa – Edward a lembrou, ainda mansamente; não brigaria. Não para defender alguém que talvez tivesse sido amante de seu pai.
– Quer que eu deixe a “vossa” casa, é isso? – ela indagou, sentida.
– Jamais... – o filho ergueu uma das mãos para tocar-lhe o rosto delicadamente. – Quero apenas que entenda minha posição, respeite-a e me ajude a agir corretamente. Acha que poderia fazer isso? Por mim?
– Por você sou capaz de qualquer coisa, mas não quero ser obrigada a conviver com aquela mulher... Se ao menos eu sentisse que está feliz... Mas não está! Age por obrigação.
Talvez sim, Edward não sabia. Para fazer o que tinha em mente revestiu-se do senso de dever, e este veio forte. Porém queria estar com Isabella novamente sob seu teto. Queria-a por perto, vê-la, ouvi-la... Senti-la.
Não, não estava feliz com a situação colocada daquela forma; apenas contentava-se. Aquela mínima satisfação não era notada, pois era ofuscada pelo ressentimento dirigido ao pai, por Edward ainda se sentir sufocado por um amor tão poderoso quanto aviltante.
– Sou homem – disse à mãe e para si. – E não importam os sentimentos quando se deve seguir a convenção.
– Vocês homens e seu senso de dever exacerbado! – Elizabeth se afastou indignada. – Às vezes os sentimentos importam, sim, e fazem muita diferença na vida de um casal!
Aquela era a chance.
– Pensei que o fundamental fosse o respeito – comentou baseado na derradeira conversa que tiveram sobre o tema.
– Por certo que sim! – A baronesa exclamou. – Porém os sentimentos igualmente importam. Ainda mais se apenas quer seguir as convenções.
– Perguntei, certa vez, e a senhora não respondeu – ele comentou, ignorando o comentário. – Algum tempo amou meu pai?
– Quando mudamos o foco para mim? – Elizabeth maximizou os olhos, surpresa.
– Preciso saber como era o relacionamento de vocês dois – o barão a encarava avaliativo. – Se o amou ou apenas...
– Este tema não lhe diz respeito! – A mãe o interrompeu; muito corada. – Estamos tratando de vossa união com aquela criatura, não a minha.
– Pois quero saber como era a “vossa” união. – Edward insistiu, o peito novamente oprimido; tinha que descobrir então preferiu ser direto. – Amou ou não amou? E... Se o amou, por que o deixou antes que morresse? Acaso sabia algo sobre meu pai que o desmerecesse?
– Que perguntas são estas?! – A baronesa recuou um passo; visivelmente horrorizada. – Não se especula sobre a vida particular de um casal, muito menos de seus pais! Não importa se amei meu marido e, sim, que o respeitei até o fim...
– Mesmo que ele não a respeitasse? – Edward estava no seu limite, sem senso algum. – Mesmo que a traísse?
– Não repita isso! – Elizabeth foi até ele e desferiu-lhe um tapa na boca, como se fosse uma criança malcriada. – Aonde quer chegar com isso? Edward sempre foi um bom pai e o amava. Como, de repente, quer diminuí-lo?
– Não restam dúvidas de que ele foi um bom pai... – o barão retrucou muito rígido, ofendido pelo tratamento inadequado, irredutível. – Mas quanto a ser um bom marido, tenho minhas dúvidas... A senhora o abandonou!
– Sabe que não! – Ela negou veemente. – Eu não sei lidar com doentes, apenas isso... E Edward se recuperou tantas vezes... Como eu poderia saber que morreria na minha ausência?
A questão surpreendeu o barão. Nunca colocou daquela forma, e para confundi-lo, fazia sentido. Edward I esteve à beira da morte por mais de uma vez, recuperando-se em seguida; muitas vezes quando o padre já estava a lhe da à extrema unção. Seria possível que por todo aquele tempo se ressentisse indevidamente pela mãe?
– Então não teve razão para abandoná-lo? – questionou intimista.
– Deliberadamente jamais fugiria às minhas responsabilidades – ela replicou altiva; arrasando-o.
Edward permaneceu a encarar a mãe a procura de algum traço que indicasse engano em suas palavras. Não encontrou nenhum. Somente resignação, e obstinação, que indicava ser inútil prosseguir com o interrogatório. E, ao não obter respostas, o barão confirmou o que dissera ao seu criado. O único que poderia esclarecer a questão estava morto e enterrado; levando a verdade ao túmulo, onde não havia como resgatá-la.
Bem, uma vez que saber ou não, não mudaria suas decisões, Edward tratou de se recuperar para replicar:
– Se jamais fugiria às vossas responsabilidades, não peça que eu esqueça as minhas! Farei o que tiver de ser feito para reparar o passado, então, prepare-se.
– Como já lhe disse – ela começou, cansada –, estaria preparada caso percebesse que está satisfeito. Nunca estarei pronta para ver algum de meus filhos infelizes. Especialmente você!
– E quem lhe disse que serei infeliz? – Edward uniu as sobrancelhas em estranheza, ainda aborrecido com a conversa infrutífera. – E o que eu tenho de diferente para merecer mais de sua preocupação do que minhas irmãs?
A baronesa então deu um passo atrás; assombrada, como se não soubesse o que dizer. Sem encará-lo, moveu nervosamente os olhos; pensado. De súbito, lançou as mãos ao ar, para responder apressadamente.
– Vossas irmãs já estão estabelecidas e vivem muito bem. Não tenho que me preocupar com elas nunca mais... Já não posso dizer o mesmo quanto ao senhor, não é mesmo? Está muito estranho desde que voltou...
– Não desconverse – ordenou o barão, estava farto de enganos e segredos. – Não me pareceu ser nesse sentido que quis colocar e insisto, o que tenho de diferente de minhas irmãs?
Elizabeth aspirou e expirou pesadamente antes de unir as sobrancelhas e exclamar:
– É um irresponsável! Essa é a diferença! E não tente inverter a situação novamente... Não é minha vida nem minhas palavras que devem ser interpretadas, mas as vossas ações. E quer que lhe diga uma última coisa? Faça o que bem desejar!
– Mamãe? – Edward a desconheceu, alterada como estava; ela, sim, mais uma vez invertendo os papéis. – O quê...?
– Já chega! – A baronesa o cortou. – Não quero mais saber o que fará, nem quem trará para esta casa. É de fato um homem, adulto, responsável por seus atos. Tudo o que me competia fazer por você já o fiz... Agora se me der vossa licença, vou me recolher.
– Tem toda...
O que mais poderia fazer? Pensou ao vê-la partir. Obrigá-la a ficar e dizer o que escondia? Impossível. Estava farto de discussões por aquele dia, principalmente por continuar sem respostas.
Precisava igualmente se recolher e tentar conciliar o sono para que na manhã seguinte, muito cedo, antes mesmo que o dia raiasse, deixasse Apple White rumo ao Jardim para então seguirem em viagem, após a qual, a verdadeira tempestade viria.
Notas finais
Espero que tenham gostado! :D
Bjus suas lindas... Bom restinho de semana!
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