Borboleta Negra

64 Capítulo Trinta e Dois - Parte II


Notas iniciais
Oie... Nem tenho mais cara para me desculpar... Mas é que ando mega ultra power ocupada com as revisões e adpatações. Vamos contar que tudo se acerte logo. Amores, obrigada pelos comentários sempre inspiradores. Desculpem tbm a pressa... :/ agora... BOA LEITURA!

– Deixe-me ver se entendi. Vossa Senhoria está me dizendo que possui um filho com a jovem que deseja desposar?

Com a questão admirada, o barão recordou as palavras da mãe. Sim, ele escandalizou o velho padre, mas nada poderia fazer.

– É uma longa história que não convém expor em detalhes – disse amável, porém seguro.

Estavam parados a meio caminho na nave central. A mesma que Isabella não poderia cruzar. Edward a segurar o chapéu, tencionando ser objetivo. O velho padre a encará-lo avaliativo, demonstrando não ter pressa alguma. Para que prevalecesse a própria vontade, o barão resumiu apressadamente:

– O fato é que circunstâncias além de nossa vontade nos mantiveram afastados e somente agora nos reencontramos. Assumo toda a culpa, merecida, por ter desvirtuado a moça, deixando-a desgarrada a criar, sozinha, o menino ilegítimo. Agora quis o destino dar à chance de reparar meu erro. O senhor seria impiedoso e me condenaria à vergonha pública de viver amasiado com a mãe de meu filho?

– Não sou eu quem julga ou castiga Lord Edward – salientou o vigário –, e, sim nosso Senhor que a tudo vê. Ainda assim precisa reconhecer o inusitado do que me pede, e perdoar meu assombro. Nunca poderia imaginá-lo capaz de arruinar a vida de uma moça, ainda mais sendo tão nova.

– De certa forma eu também era novo – justificou.

– Sei fazer contas, milord. – O padre era tão amável e incisivo quando o barão. – Pelo o que me disse contava com vinte e seis anos. Já era um homem feito, muito ciente do mau passo. O que igualmente me espanta por nunca ter se arrependido de seu ato.

Edward soube que o senhor se referia às poucas confissões feitas durante a semana que antecedia a Páscoa. O barão não saberia explicar, mas, de súbito, sentiu que sua mentira fora descoberta. Como se confirmasse sua impressão, o pároco prosseguiu:

– Não é um exemplo de bom cristão, escapa de muitas de minhas missas e das obrigações para com vossa paróquia, mas compensa sendo justo, honrado e sempre generoso em vossas doações. Com isso, perdoe-me milord, mas o que relata não condiz com o caráter do homem que batizei e vi crescer.

– Sou apenas humano – disse a palavra o mais dignamente possível, repreendendo-se por não mentir com veemência.

O padre sustentou o olhar do barão, analisando-o sem reservas, então falou pausadamente, pousando as mãos sobre o ventre avantajado.

– A confissão é um pré-requisito para o matrimônio. Gostaria que Vossa Senhoria se confessasse agora. Até mesmo como forma de adiantarmos os preparativos que me pediu com urgência.

– Não estava em meus planos fazer uma confissão, e...

– Tenho certeza de que terá alguns minutos e que em meu confessionário encontrará uma forma de resumir essa história tão cheia de detalhes dispensáveis. Irei me preparar e em instantes estarei com Vossa Senhoria.

Sem mais palavras, o padre se retirou, não deixando ao barão outra opção além de retirar o casaco para ficar mais a vontade e comunicar a Jacob a mudança nos planos.

– O que houve? – o criado indagou ao ver a expressão do patrão.

– Tenho que me confessar – revelou contrafeito.

– O que vai dizer? – Jacob se mostrou verdadeiramente preocupado, recebendo o casaco e as luvas que Edward lhe estendia.

– Não sei... – ele foi vago, olhando a rua em frente sem vê-la. Após um suspiro disse intimista. – Não se pode mentir num confessionário.

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A volta para Apple White seguia tensa e silenciosa. Como se pressentisse o humor irritável do barão, Jacob apenas o olhava de esguelha, vez ou outra. Edward agradecia a falta de comentários inoportunos, pois precisava ordenar os pensamentos.

Para sua consternação, a quietude durou até que estivessem a meio caminho, entre a vila e Apple White.

– Não vai mesmo me dizer como foi?

– Eu deveria saber que não aguentaria muito tempo! – Edward observou, retribuindo o olhar enviesado, empertigado sobre Draco.

– Não correu tudo como pretendia? – o criado voltou a indagar, resolvido pela especulação. – Ele não os quis unir?

– Nunca temi uma negativa – revelou o barão, olhando em frente. – Meu casamento sairia de toda forma, afinal igrejas constantemente precisam de reparos e verbas para as tantas obras caridosas, e eu sempre fui um colaborador generoso, como o padre bem salientou.

– Então o que houve que está assim? Já sente falta dos pecados que purgou após a confissão?

– Não diga bobagens – Edward o repreendeu sem vontade, estava disperso. Então, como sempre, decidiu dividir com o amigo suas impressões. – Estou apenas intrigado com o que se deu depois.

– Vossa Senhoria disse a verdade?

– Não tive meios de mentir – confirmou. – E também não tive receio, pois segredo de confissão é sagrado. Agora o padre sabe que Embry é na verdade meu irmão; fruto de um crime cometido por meu pai.

– Então...?

– Minha revelação foi recebida sem espanto. – Edward encarou o amigo. – E ao final da confissão o velho Angus se mostrou satisfeito em realizar minha união. Chegou a dizer que poderia realizá-la lá, na igreja. Que consideraria Isabella uma moça tão virtuosa quanto qualquer outra. Bastava eu aceitar.

– Não entendo o espanto. É evidente que ele admira vosso gesto, afinal não tem obrigações – elucidou o criado. – E então, Vossa Senhoria aceitou?

– Absolutamente! Nada mudou. Ainda preciso de discrição. E foi mais do que admiração, foi como... Se ele já soubesse.

– Como somos cegos! – Jacob exclamou subitamente e deu uma palmada na própria perna. – É óbvio que o padre sabe! Esqueceu quem deu a extrema unção ao Lord Bradley? Nessa hora os padres ouvem a última confissão, o arrependimento dos pecados para que se possa entrar no reino dos céus. Não precisa ser uma carola para saber dessas coisas.

Fazia sentido, Edward considerou. In extremis o falecido barão se mostrou arrependido, tanto que delirava a chamar a “menina”. O nobre sentiu o estômago revirar, com a lembrança, mas se conteve.

Indigesto ou não, aos poucos tudo se encaixava. A verdade dita por Jacob esclareceria até mesmo o conhecimento de Marie. Por certo ela estava obrigada a manter segredo por, de alguma forma, ter participado da última confissão.

– Você é um linguarudo na maioria das vezes, mas invariavelmente acerta – Edward reconheceu. – Creio ser esta a resposta.

– Acho que deveria aceitar a proposta – opinou o criado, empoado pela aquiescência do patrão.

– Agora enlouqueceu!

– Não. Pense bem... Casar-se às escondidas, às pressas como um criminoso não eliminará o risco de o passado da senhorita ser descoberto e alardeado. E já que é assim, ao menos deveria dar a jovem uma cerimônia de verdade, à altura do sentimento que tem por ela.

– Isabella não quer nada grande tanto quanto eu. Hoje mesmo, durante o almoço deixou claro que se contentaria com bem menos.

– Por que não acredita ter opções – Jacob insistiu. – Ao menos exponha à alternativa. Não crê que ela mereça?

– Isabella merece muito mais!

Era aborrecido reconhecer a razão nas palavras do criado, ainda mais quando ele mesmo gostaria de dar o melhor para a noiva, mas não deveria desviar de sua decisão. Isabella concordaria.

– Muito bem, sir – Jacob falou como se lesse os pensamentos do barão –, faça como considerar melhor. Mudemos o tema. O que faremos amanhã? Vamos mesmo ao Jardim como mandou avisar? E como fica a questão do carregamento?

– A bendita confissão me atrasou um pouco, mas sei que Eleazar Denali não sairia antes de meu retorno – comentou acelerando o passo de Draco para um galope ao se lembrar da obrigação. Ao ser acompanhado por Jacob, acrescentou: – Vamos até a sidreria saber se há alguma boa novidade.

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Para infortúnio do barão, não havia. O carregamento não foi entregue, como da última vez, o que deixava Edward sem opção. Telegramas não resolveriam o problema.

Em casa não encontrou situação melhor. Novamente as duas mulheres ocupavam o mesmo cômodo, porém não estavam próximas; orbitando ao redor de Embry que passeava diante das muitas estantes da biblioteca, olhando cada exemplar com interesse.

– Senhor! – ele exclamou ao ver o barão parado sob o batente.

– Olá, Embry... Senhoras... – Edward inclinou a cabeça em cumprimento.

Ambas retribuíram o gesto em silêncio, mas apenas Isabella se deteve a olhá-lo um instante a mais antes de voltar à atenção ao menino que se aproximou do barão para relatar:

– Esta tarde mamãe e vovó leram histórias para mim. O senhor sabia que Páris roubou Helena de um rei mau e a levou para Tróia?

– Soube de algo parecido – Edward respondeu, permitindo-se divertir com a narrativa infantil.

– Nossa! – Embry maximizou os olhos azuis, impressionado. – Então também soube que Menelau, o rei malvado, a quis de volta e começou uma guerra que durou dez anos?

– Sim, foi informado quanto a isso – o barão lhe sorriu. – Gostou dessa história?

– Gostei – assegurou o menino com o rosto completamente erguido para encará-lo. – Havia um cavalo gigante de madeira. Quando verei seus cavalos, senhor? Pode ser amanhã?

Edward sorriu ainda mais, com o entusiasmo e sucessão de assuntos. Quisera poder atendê-lo, pensou ao tocar os cabelos do menino. Seu sorriso se extinguiu, porém o barão ainda manteve no peito a leveza que a criança lhe proporcionou.

– Amanhã não será possível, mas prometo que em breve o levo até o estábulo.

– O que há Edward? – indagou a baronesa. – Parece abatido?

– Problemas na sidreria – tranquilizou-a. – Mas nada com que deva se ocupar. Depois que trocar de roupa e puder tomar uma taça de xerez ficarei melhor.

– Aproveite para limpar seu rosto – sugeriu a mãe. – Tenho certeza que ao se livrar dessa barba igualmente se sinta melhor.

Instintivamente o barão levou a mão ao queixo e o esfregou. Realmente a barba estava crescida, mas ao negligenciá-la tinha um propósito.

– Talvez... – disse vago. Depois de lançar um breve olhar à noiva, pediu: – Se me derem licença, vou ao meu quarto. Jacob me espera.

Antes de deixar a biblioteca Edward novamente relanceou o olhar para Isabella. Ela apresentava uma expressão melhor do que a vista pela manhã.

Enquanto seguia ao quarto, o nobre rogou que a presença de Rosalie animasse mais sua noiva, e que um dia, a convivência com a baronesa não fosse tão penosa como sabia estar sendo.

Paciência, ele determinou. Não esperava que fosse fácil.

– Muito bem, Embry – chamou-o a baronesa, após a saída do barão. – Creio que já seja hora de também subir para seu quarto. Logo Amy levará seu jantar.

O menino correu os olhos para a mãe em evidente pedido de ajuda, mas realmente já era hora.

– Faça como determinou sua avó – disse amável. – Logo será tarde para estar fora da cama. Irei também me preparar para o jantar. Na sequência irei vê-lo.

– Está bem, mamãe – anuiu a criança, aceitando a mão que Lady Elizabeth lhe estendia.

Deixaram a biblioteca em silêncio. Isabella apreciaria se pudesse ficar com Embry um pouco mais. Se vivessem na casa que quis comprar em Londres, provavelmente teria regras flexíveis. Que terminariam por estragá-lo reconheceu.

A situação era outra e não era ruim. As regras da baronesa fizeram de Edward quem era e se Embry fosse como o barão um dia, ela não haveria de lamentar as horas que não estiveram juntos.

Com esse pensamento Isabella deixou a biblioteca. Ao subir a grande escadaria considerou esgueirar-se até o quarto do barão pela porta da parede, porém logo desistiu.

Era preciso aprontar-se para o jantar e o barão necessitava se banhar depois de um dia de trabalho. Faria melhor se o surpreendesse, esperando-o na saleta. A súbita vontade de agradá-lo era tamanha e dispersiva que a moça se sobressaltou ao entrar no quarto e encontrar o nobre a esperá-la.

– Pensei que Jacob o aguardasse para o banho – comentou apenas para se recuperar do choque, enquanto fechava a porta atrás de si.

– Ele está finalizando a preparação de tudo o que lhe pedi – Edward informou, encarando-a com curiosidade. Estava vestido como ao chegar indicando que nem mesmo passou no próprio quarto – Eu não deveria ter vindo? Atrapalho?

– Não. Eu iria apenas me refrescar e vestir para o jantar. Queria esperá-lo com uma taça de xerez e um charuto.

Edward sorriu e finalmente despiu o grosso casaco.

– Aprecio o cuidado, mas dispenso estas preliminares. Na verdade há outro agrado que me faria mais feliz.

Foi impossível a Isabella não sorrir, mesmo que ainda considerasse inadequado se meterem na cama antes do jantar. Com aquelas propostas o barão tinha o dom de dissolver as inquietações que a assombraram durante a tarde.

– Não é o que pensa, pequena despudorada – Edward assegurou, sorrindo mais. Contente por confirmar o ânimo melhorado de sua noiva. Ao notar a leve decepção, mesclada à confusão, ele esclareceu: – Tenho um serviço que somente você pode realizar e gostaria que o fizesse agora para que eu não a acorde cedo amanhã.

– O que é? – indagou curiosa, aproximando-se.

– Logo saberá – disse enigmático. – Ao meu pedido Jacob avisou Marie para que não venha auxiliá-la, então pode vir sem medo.

Antes que a moça novamente o questionasse, o barão a tomou pela mão e a fez passar pela porta secreta. Ao entrar no quarto do barão, Isabella avistou o criado terminando de encher a conhecida banheira.

– Boa tarde, senhorita Swan – cumprimentou-a.

– Boa tarde, Jacob! Como está Leah?

– Ansiosa em vê-la senhorita. E está muito feliz por saber que retornou.

– Também quero revê-la – Isabella assegurou. – Assim que puder se estiver bem para vocês, irei visitá-los.

– Sempre que desejar senhorita – disse Jacob, gentil como sempre.

– Havia me esquecido como gostam de trocar amabilidades – Edward comentou enquanto se despia. Não parecia aborrecido, ainda assim se apressou em encerrar a conversa. – Deixe Leah avisada que amanhã à noite iremos visitá-los.

– Amanhã à noite? – estranhou o criado. – Não estará cansado?

– Caso esteja, adiaremos, mas não creio que aconteça – Edward respondeu seriamente. – Agora, se já terminou, considere-se dispensado. E não se esqueça das recomendações para o que “você” tem a fazer amanhã.

– Não esquecerei – assegurou o moreno. Ao recuperar seu chapéu, inclinou-se para o patrão. – Sir Edward... Senhorita... Tenham uma boa noite.

– O que fará amanhã? – Isabella indagou ao ficarem sós.

O barão terminou de despir botas e meias e se levantou para, sem rodeios, retirar as calças, ficando somente vestido com a ceroula. Como esperado, a moça sentiu seu rosto arder ante a visão do peito nu, mas não deixou de encará-lo.

Edward por sua vez, foi até o aparador conferir se o criado linguarudo havia separado tudo o que pediu. Sentindo o olhar de sua noiva sobre si, entrou no tema que abordaria durante o jantar.

– Amanhã farei uma breve viagem. Gostaria de adiá-la, mas não há como.

– Para onde vai? – Isabella se acercou do barão, apenas curiosa, pois ao marcar o jantar ele deixou claro que retornaria no mesmo dia.

– Vou à Castleville, resolver assuntos da sidreria.

– O problema que citou para sua mãe?

– O mesmo, mas não deve se ocupar, assim como disse a ela.

Edward se voltou e lhe sorriu. Imediatamente se arrependeu de não tê-la beijado antes. No momento bem sabia que se o fizesse não a deixaria se afastar, então se ateve aos assuntos pendentes. Começaria pelo mais agradável.

– Veja – disse, indicando os acessórios dispostos sobre o aparador. – Recorda-se?

– Como eu poderia esquecer? – indagou ao pousar os olhos no jogo de barbear.

– Espero então que não tenha perdido a mão, pois aprecio a ponta de meu nariz – Edward gracejou ao se sentar e erguer o rosto. Olhando-a significativamente, liberou: – Faça como desejar.

Novamente a surpresa varreu as inquietações. A moça desejava saber mais daquela viagem, e também especular sobre o recado que deveria ser enviado ao Jardim, mas se calou ao ter o queixo oferecido para ela.

Faça como desejar. As palavras brincaram nos ouvidos da moça. Antes de tratá-lo, Isabella correu os dedos pela barba crescida, mas ainda não cerrada, levando o barão a fechar os olhos.

– O que eu quiser? – quis confirmar.

– O que quiser.

Com a aquiescência do barão, ela tratou de executar o pedido, sabendo bem o que faria.

Ainda de olhos fechados, Edward permaneceu imóvel, revivendo as boas sensações que os dedos delicados incitavam ao tocar seu rosto desde o início, até mesmo ao aplicar da toalha quente. Depois a espuma, e então mais espuma até que ela finalmente começasse a correr a lâmina em seu pescoço.

Abalado por reviver o que por meses acreditou ter perdido, Edward se moveu.

– Fez-me cortá-lo! – Isabella ralhou, procurando a toalha para limpar o corte mínimo.

– Perdoe-me – ele pediu, olhando-a por entre os cílios. Não sentia dor, somente a adrenalina vinda com o contato correndo suas veias. – Vou me comportar.

Sem retrucá-lo, Isabella esperou que o sangue estancasse e então voltou à ação. Compenetrada, movia a lâmina nos sentidos conhecidos, até trazer de volta o rosto de seu barão.

– Pronto! – anunciou orgulhosa de seu trabalho; admirando-o.

Edward conferiu o resultado previamente conhecido, porém ainda estranhado.

– Tem certeza? – ele indagou, mirando a noiva pelo espelho, unindo as sobrancelhas, entre divertido e surpreso. – Pensei que fosse trazer de volta meu cavanhaque, afinal sempre o elogiou.

– Mesmo que eu o quisesse de volta não havia barba suficiente para deixá-lo como deve ser, então, por enquanto vamos deixar assim. Descobri que seu rosto é bonito demais para ficar escondido.

– Não considera feia minha cicatriz? – O barão se voltou para encará-la diretamente. Foi inevitável recordar que Tanya a repudiava.

– Por Deus! O que poderia ser feio em você?

De verdade Edward desejou ter o cavanhaque de volta, principalmente por acreditar que Isabella também o quisesse, mas depois da pergunta admirada, sua vaidade quase se equiparou ao carinho que sentiu brotar em seu coração. Sua noiva era doce e perfeita.

Sem respondê-la, o barão eliminou a distância e, postando-se diante da moça, sem hesitar, passou a despi-la.

– Edward?! – Isabella indagou confusa.

– Quero que tome banho comigo como antes – ele explicou, abrindo botões e desfazendo laços. – E nem se atreva a citar minha mãe.

Com o recado antecipado, a Isabella restou se deixar despir em silêncio. Ficou evidente que banharem-se seria a última coisa que fariam tão logo o barão a acomodou dentro da tina diante dele e puxá-la para um beijo urgente.

Ao que parecia Edward estava disposto a recuperar tudo o que tiveram antes que ela partisse. Isso sem se importar que ainda não estivessem casados ou que na casa houvesse uma senhora avessa à união e um menino enciumado.

Isabella ainda se importava com ambos e se fosse capaz de opinar, pediria que Edward ao menos esperasse pela noite para se entregarem aos prazeres da alcova, mas era fraca. Muito fraca, confirmou ao ser possuída pelo barão.

Nunca admitiria, mas ao eliminar o cavanhaque garantia um pouco de sanidade e controle sobre si, pois se voltasse a ter os beijos espinhentos em horário tão impróprio, transformaria as silenciosas escapadelas em algo conhecido e chocantemente escandaloso.

Não, pensou quando o gozo a fez estremecer e apertar-se mais ao barão, bastaria morrer aos poucos nas manhãs em que a barba amanhecesse crescida.

– Não sabe como é bom estar com você aqui depois do dia que tive – Edward comentou minutos depois, enquanto mantinha a noiva acomodada contra seu peito, acariciando-lhe um dos ombros, distraidamente.

– Conte como foi – ela o encorajou, fechando os olhos ao carinho.

– Primeiro, conte-me como se sentiu ao ser chamada de mãe.

– Sabe como me senti – ela comentou após um estremecimento de puro deleite à lembrança. – Jamais vou esquecer e nunca vou me cansar de ouvir. Foi... Sublime! Obrigada por me proporcionar todas essas coisas. Acho que nunca poderei retribuir a alegria que me dá.

– Não espero que retribua – assegurou o barão, seriamente. – Fazê-la feliz é um compromisso de meu lado egoísta, pois feliz me sinto.

– Como sempre disse – ela começou, sorrindo – você é perfeito!

– Não sou – negou veemente. Sem deixar de acariciar o ombro nu da moça, disparou: – Tanto que vou cobrar por essa felicidade que alardeia. Depois que resolver suas questões, lá, naquele lugar, quero que o esqueça, assim como quem nele vive.

– Edward... – Isabella se desprendeu para encará-lo. Encontrou-o mais sério do que esperava, mas não se calou. – Não posso simplesmente esquecer Angela, ou Sam. Deus, Sam morreria se eu lhe virasse as costas. Eles dois, e Carlisle, têm sido meus anjos bons. Meus melhores amigos.

– Verá sir Carlisle nesta casa. Não posso evitar, mas quanto...

– Não – ela o calou antes que concluísse. – Sei que com Carlisle você está apenas de má vontade, pois sabe que ele não é uma ameaça. Não intercederei por ele, mas por Angela, a quem desejarei visitar...

– Isso nunca! – Edward igualmente a interrompeu num sibilar aborrecido. – Nunca mais porá os pés naquele lugar, está me entendendo?

– Não precisa ser no Jardim – ela contemporizou, tocando-lhe as mãos para acalmá-lo. – Posso vê-la na igreja. Não importa o lugar... Apenas não me peça para esquecer quem me acolheu e é... como uma mãe para mim.

– Mãe?! Uma mãe não... – Edward se calou antes mesmo que Isabella protestasse, sabia que estava sendo irracional. Sabia que iniciou o assunto indigesto de forma errada e antecipada. – Muito bem... Perdoe-me. Estou nervoso por não poder ir com vocês ao Jardim amanhã.

– Eu irei amanhã? – Ela queria resolver tudo o quanto antes, mas depois de tanta insistência, acostumou-se à ideia de irem juntos. – Não seria melhor se fossemos depois de sua viagem?

– Seria, mas já havia enviado o recado que me pediu e nele avisei que iríamos amanhã. Pedi que Angela adiantasse o que pudesse – revelou, correndo as mãos pelos cabelos molhados. – De toda forma é necessário que desfaça os vínculos antes que minhas irmãs estejam aqui. Com isso não temos tempo. Já acertei tudo com Jacob. Ele ira em meu lugar, fazendo-lhe companhia. Jacob irá protegê-la como eu faria.

– Não corro perigo indo ao Jardim – garantiu ainda lhe acariciando as mãos. – E já que citou proteção... Tenho um pedido a lhe fazer.

– O que seria? – Edward a encarou duramente, pronto a negar o que viesse.

– Quando pensei em me mudar para Londres, prometi a Sam que daria um jeito de levá-lo comigo.

– Não pode estar pedindo para que o receba aqui? – A surpresa calou qualquer negativa ensaiada.

– Sam é tão devotado a mim – Isabella tentou adulá-lo, aproximando-se, tocando-lhe o peito. – Tenho certeza de que ele quererá vir.

– Sua colocação não ajuda em minha resposta – Edward retrucou, sentindo renascer o ciúme. – Tamanho apego pode estar encobrindo outro sentimento.

– Não está – assegurou amável, sempre deslizando os dedos por entre os pelos do peito largo. – Sam tem uma triste história. Não conseguiu salvar a esposa de ser atacada por fanáticos religiosos e se compadeceu de mim quando... Fui espancada.

Se a intenção era apaziguar o ânimo do barão a reação foi contrária. Num gesto inesperado, ele deixou a tina, espalhando água por todos os lados. Depois de atar uma das toalhas ao quadril, passou a zanzar pelo quarto como um animal bravio.

– Vê?! É justamente por essa razão que não a quero metida com ninguém daquele lugar. Quero que esqueça as situações pelas quais passou sem que eu nunca pudesse imaginar.

– Não vai acontecer – Isabella disse sem se mover, em tom baixo e seguro, levando o barão a parar e encará-la. – Não deve se punir por um erro que não é seu. Nem querer que outros inocentes paguem por aquilo que não devem.

Ao mirar a resignação nos olhos de noite, o espírito do barão se desarmou. Reconheceu estar descompensado, irritado por não poder acompanhá-la, pela confissão que abriu uma possibilidade que temia ser aceita pela moça e que, ao negar que se casassem na igreja, seu gesto fosse consequentemente confundido com vergonha de expô-la.

Aquele foi o motivo de pedir a Jacob que preparasse o banho e os acessórios para a barba. Queria reviver os dias anteriores, quando se entendiam, para que então abordasse temas controversos.

Entretanto, o barão recordou que mesmo naqueles dias, nos banhos em conjunto, na cama ou onde fosse não havia somente paz. E tinha idade suficiente para entender que paz era um estado de espírito passageiro. Nada que perdurasse por dias e dias sem fim.

– Vou fazê-la cansar de meu pedido, mas, perdoe-me – pediu sincero. – Ainda insisto que não exponha seus laços de amizade com Angela, mas verei o que posso fazer por Sam, caso ele expresse o desejo de segui-la. Ter alguém que a proteja quando eu não esteja por perto pode não ser má ideia.

– Obrigada my lord.

– Não me agradeça – pediu sisudo –, pois não o faço de bom coração. Agora deixe essa água antes que adoeça. Temos que nos preparar para o jantar e... Depois... Quando estivemos novamente a sós, tenho outros assuntos a tratar.

– Sobre qual tema? – Isabella indagou, não saboreando a vitória após a declaração; não queria aborrecê-lo.

– Depois.

Com a resposta sumária, a moça o obedeceu, sabendo que falhou em acalmá-lo, e que remoeria a curiosidade até a hora que se recolhessem. Com isso, previa um jantar longo e penoso.

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Contrariando as péssimas expectativas, o jantar seguia tenso, sim, porém pelo silêncio mantido entre os dois ocupantes da mesa elegantemente posta, não por outro motivo.

Com a ausência da baronesa, que alegou indisposição súbita, tão forte que a impediria de acompanhá-los, Edward e Isabella comiam sozinhos.

Depois de prontos após o banho, seguiram para o quarto de Embry onde encontraram o menino a jantar e a baronesa a pastorá-lo. Foram abertamente analisados pela nobre senhora que se deteve nos cabelos levemente umedecidos, antes de inesperadamente adoecer.

Isabella sabia que a coincidência não era prova do delito conjunto, isto para outra pessoa que não fosse a baronesa. A moça sentia em seus ossos que a futura sogra sabia perfeitamente tudo o que se passava além daquelas paredes e, evidentemente, não aprovava. Ficou claro ao, secamente, elogiar o filho.

– Está bem livre daquela barba odiosa. Começava a temer que o desleixo, próprio aos sem berço, fosse algo contagioso.

Edward não retrucou, mantendo-se taciturno como antes de entrar no cômodo.

Isabella por sua vez não se abalou, estava pronta para o que viesse. Não estava pronta era para o silêncio sepulcral que pairava entre o barão e ela à mesa, rompido apenas pelo leve mover de talheres e copos. Até mesmo as criadas pareciam ausentes.

Considerando ter atingido seu limite, Isabella perguntou, pousando garfo e faca na borda do prato:

– Poderia adiantar algum dos assuntos que tem a tratar comigo?

– Depois do jantar – Edward respondeu, após tomar um gole de vinho. – É providencial que minha mãe tenha se recolhido cedo, pois presumo que você irá ver nosso filho antes de fazer o mesmo, não?

– É o que farei. Tudo ainda é muito novo para ele. Você o ouviu dizer que me esperaria.

– Certamente – confirmou o barão antes de voltar ao silêncio.

Isabella gostaria de reconsiderar seus pedidos. Não o fazia por considerá-los válidos. Amava o barão com a força de sua alma, mas não via como voltar às costas a quem tanto lhe valeu nos últimos anos.

Após a sobremesa, que Edward não a deixou dispensar, encaminharam-se à saleta de braços dados. Depois de fechar a porta atrás de si, o barão conduziu sua noiva até um dos sofás e se sentou tão logo a acomodou.

– Direi o que mais me arrelia, sem rodeios, e rogo para que compreenda minha decisão – começou, segurando-lhe as mãos, olhando-a diretamente.

– Pois fale – pediu ansiosa, preparando-se para a nova defesa de suas convicções. – Tanto suspense está me matando.

– Pois bem... Como disse durante o almoço, quero que nosso casamento aconteça em breve e se realize aqui.

– Sim – Isabella se sentiu confusa. Jamais imaginaria se tratar daquilo. – O que tem isso?

– Tem que hoje, também como disse, fui à vila tratar dos preparativos com o padre. – Edward se calou e esperou. Como a noiva não teceu qualquer comentário, prosseguiu: – O velho Angus desconfiou de nossa história e me arrastou ao seu confessionário... Enfim, contei-lhe tudo.

– Oh, não! Agora ele é contra realizar nosso casamento. Você bem sabe que por mim ficaríamos como estamos, mas se faz questão, poderíamos conversar com o padre de Wisbury, ele...

– Não se trata disso, meu amor – tranquilizou-a. – É justamente o contrário. Agora entendo que o padre sempre soube de sua história. Jacob e eu acreditamos que meu pai tenha pedido perdão na hora da morte. Por essa razão, o padre ofereceu de realizar nosso casamento lá mesmo, na igreja.

– Em Westking?! – Isabella se agitou, aflita. – Não, Edward! Não me peça tanto. Não isso. Eu não suportaria.

O barão sufocou sua alegria ante a recusa desesperada por novamente temer ser mal interpretado. Abraçando-a, passou a alisar-lhe os cabelos, acalmando-a.

– Não a obrigaria – assegurou, mansamente, embalando-a. – Nem mesmo se fosse essa minha vontade, pois saiba que não é. Protelei o assunto por considerar que talvez você assim preferisse. Entenda que não me envergonho, mas não quero alardes.

– Nem eu tampouco – disse contra o casaco do barão. – Eu nem mesmo sei como será aqui.

– Não pense sobre isso ainda.

– Edward – Isabella se afastou para olhá-lo. – Já que o tema é este... Estive pensando sobre a vinda de suas irmãs... Como será? Com Alice creio não ter problemas, mas Rosalie... Sempre fomos amigas. Se um dia o inimaginável acontecesse e ficássemos juntos, eu contaria para ela no minuto seguinte.

– Sei o que pretende, mas devo pedir que mantenha nossa versão.

– Edward...

– Lamento meu amor, mas terá que ser assim – ele insistiu. – Quanto menos souberem, melhor. Inclusive Rosalie.

Isabella não ousou voltar ao assunto, mesmo sabendo o risco que corria. Não sabia como seria recebida na condição de cunhada, e ser apresentada com um detalhe negativo, poderia não ser nada bom.

– Agora que estamos acertados, quero saber exatamente o que se deu essa manhã com o tal incidente com o sabão – Edward mudou o tema, deixando a noiva e seguindo até a mesa onde guardava os charutos. – Imagino que a desculpa pueril encubra algum comportamento condenável de minha mãe.

– Não foi nada grave – Isabella quis liberá-lo do aborrecimento inevitável e, provavelmente, ininterrupto. – Lady Elizabeth foi até meu quarto com o propósito de sanar sua curiosidade. Não foi delicada, como bem sabe.

– Até aí nada é novo – o barão comentou, indo até a lareira para acender a lâmina de cedro. – Quero saber por que chorou.

– Porque fui pega de surpresa, mas agora estou preparada. E é minha vez de pedir que não se ocupe da diferença que há entre mim e a baronesa. Eu sei me defender.

– Gostaria de poupá-la. – Edward a encarou, esquecido de acender o charuto. – Sei o quanto minha mãe é difícil.

– Não tenha tantos cuidados – pediu. – Sei que a culpa é minha por me mostrar tão temerosa, mas já passou. Sei exatamente como a baronesa pretende tratar-me e saberei lidar com ela. Não quero que se indisponha com sua mãe por minha causa.

Aproveitando-se do que ouviu clandestinamente, acrescentou:

– Gostaria também que não lhe respondesse com rispidez. Principalmente em minha presença, pois somente agravará a situação. Lady Elizabeth já entendeu que nada vai demovê-lo, então seus protestos é tudo que lhe resta. Deixe-a dizer o que quiser até que se canse. Se for o caso, eu a retrucarei. Como disse, agora que passou o susto, saberei me defender. Entendi que sou adulta agora, não tenho porque temê-la.

O barão levou o charuto e a lâmina de cedro ao bolso; admirado com o breve sermão. Foi chamado à atenção por alguém pequena em estatura e nova em idade, mas que demonstrou possuir perspicácia além da dele. Que pedia para a oponente o direito de lutar com as armas que dispunha. Como não amá-la?

– Se tem certeza... – Foi tudo que externou; ainda admirado.

– Tenho – garantiu e também mudou o tema. – O que mais tinha a me dizer?

– Isso era tudo.

Com a conclusão dos temas, Edward recuperou o charuto e a lâmina. Isabella esperou que o barão o acendesse e liberasse duas lufadas da fumaça aromática antes de retomar algo que ficou pendente.

– Acabou que nunca me disse como foi seu dia.

– Não há muito a ser dito – Edward comentou vago, encarando-a enquanto degustava o charuto. – Os cuidados de sempre, as mesmas inspeções.

– E a viagem... – ela acrescentou. – Tem certeza de que estará bem disposto para o jantar na casa de Jacob?

– Como disse, caso esteja cansado não iremos.

Isabella moveu a cabeça afirmativamente e lhe sorriu, encorajadora. Naquele instante o barão sentiu um calafrio estranho correr sua coluna, como um mau presságio.

– Se não fosse de extrema importância sair, pediria para que você ficasse em casa amanhã – ele falou o que sentiu.

– Será breve. – Ela novamente lhe sorriu, não dissipando a má impressão com o gesto.

Sem nem saber por que, o barão descansou o charuto sobre o cinzeiro deixado perpetuamente no console da lareira e voltou a se sentar ao lado da noiva. Trouxe-a para junto de seu peito sem aviso, assustando-a.

– Edward, o que há?

Não que o abraço inesperado a desagradasse, mas havia aquela urgência acentuada que a preocupou.

– Não sei – respondeu sincero, beijando-lhe os cabelos. Então lhe procurou a boca e também sem aviso a beijou com arrebatamento sufocante, estreitando-a em seus braços.

– Edward...? – Isabella o chamou entre um beijo e outro, arfante.

E como a prendeu o barão a soltou. Ela não entendia o que se passava, mas de súbito desejou que o dia seguinte viesse logo para com a mesma brevidade se acabasse.

– Não tinha planos de visitar Embry antes que fosse dormir?

– Ainda os tenho, mas... – ela optou por se calar ao perceber que não teria respostas.

– Então vá – o barão demandou, voltando à lareira para recuperar o charuto. – Assim que terminar este aqui eu irei para seu quarto. Preciso estar bem disposto amanhã logo cedo.

– Prometo não demorar.

Sem despedidas Isabella se foi. Antes de deixar o barão a sós, deteve-se a olhá-lo por um instante. Precisava de respostas então se consolou ao acreditar que ele estivesse ansioso com o que cada um faria no dia seguinte.

Por fim, confiante em sua dedução, Isabella seguiu ao quarto do filho sabendo que logo estaria novamente com seu noivo. Naquela noite não temeu que a baronesa saltasse de um vaso ou tapeçaria.

Dentre todos os problemas, a cada situação exposta, a sogra se revelava ser o mais irrelevante.

Notas finais
Bom, espero que tenham gostado... Semana que vem eu posto mais. todos os capíulos para ficar igual ao face... :) Bjus minhas lindas...