Borboleta Negra

39 Capítulo Sete - Parte II


Notas iniciais
Oie... Boa noite chuvosa para todas... Atualizando mais um capítulo... Novamente, desculpe não responder a todas, mas saibam que como sempre estou ADORANDO seus reviews... Vcs são demais comigo, me deixam sempre sem palavras às vezes... ♥Agora vamos até a Inglaterra... BOA LEITURA!

No final das contas, na vida nada mudava num passe de mágica e mulheres perdidas não tinham finais de contos de fada. E para piorar, as imagens reservadas no tempo que passava com Embry nunca seriam suficientes, Isabella considerou enquanto via as árvores enegrecidas pela noite que passavam como um tétrico borrão pela janela do vagão dormitório que ocupava. Vestida em sua camisola sobre a combinação, apertando o lenço junto ao rosto, ela liberou um longo suspiro. As lágrimas sempre vertidas após cruzar os portões de Saint Joseph já estavam extintas, deixando apenas o sufocamento e a letargia que logo a levariam à febre.

– Sabe? – Carlisle, também à vontade no leito em frente, lembrando-a de sua presença. A moça não se moveu, ou respondeu ciente de que a falta de atenção não o calaria. – Sinto-me no dever de parabenizá-la. Todas as vezes que a trago até Londres espero que reveja sua decisão e resgate seu filho, no entanto, jamais o faz. Sua obstinação é admirável.

– Não cabe um elogio – ela retrucou ainda sem olhá-lo, dispersa, determinando que os olhos de Embry assemelhavam-se ao azul da noite enquanto os de Edward, ao azul do dia.

– Por certo que cabe! – o banqueiro exclamou com exagerada ênfase. – Outra mãe em vias de se manter afastada de seu filho por seis meses sucumbiria.

– Não se a mãe em questão for uma cafetina. – Isabella salientou aborrecida. Finalmente encarando-o, indagou: – O que pretende com essa conversa?

– Nada, nada... – o senhor ergueu as mãos em sinal de paz. – Estava apenas comentando...

– Não – cortou-o –, estava tripudiando sobre a minha dor. Sabe que sofro por deixá-lo tanto quanto sabe ser necessário.

– Sim, eu sei – ele anuiu –, perdoe-me. Foi desnecessário. Todavia devo admitir que essa determinação, de fato, me espanta.

Por vezes parecia que Carlisle e Angela estavam de conluio para irritá-la, pois nos últimos tempos não mediam as palavras, ferindo-a impiedosamente. Não se sentia inclinada a questioná-lo, então murmurou apenas antes de voltar a olhar a noite.

– Está bem, esqueça...

– Sim, vamos esquecer. Não se aborreça comigo às vésperas do natal.

– Haveria uma data propícia? – ela o provocou. – Gostaria de reservá-la.

– Não, não gostaria. – o banqueiro negou seguro, deixando seu leito para se sentar ao lado da moça. Com a intimidade que os anos lhe conferiam, puxou-a da janela e a abraçou junto ao corpo. – Sabe que jamais se aborrecerá comigo, afinal me ama, não?

– Sabe que sim – Isabella respondeu retribuindo ao abraço; como negaria? – Você é o melhor amigo que alguém como eu poderia ter.

– Ah, minha cara... – Carlisle suspirou junto aos cabelos negros. – Quando deixará de supervalorizar minha amizade. Sejamos sinceros, se hoje estamos aqui é porque não fui um amigo tão bom. Jamais deveria tê-la levado para Angela. Se eu...

– Pare com isso Carlisle. Você fez o que pôde por uma menina que mal conhecia. – Isabella o interrompeu. – Não tinha quaisquer obrigações para comigo e ainda assim me tirou da rua e tentou conseguir um teto decente para mim.

– Consegui apenas “um teto”. – Carlisle teimou. – Eu deveria ter insistido.

– Não havia nada que pudesse fazer...

– Por certo que haveria. Já estava em boa posição. Poderia ter alugado um quarto numa pensão e...

– E o quê? – ela novamente o cortou. – Ir me visitar regularmente? Expor-se? Assumiria o erro de seu amigo e sustentaria a mim e ao Embry? Ou cobraria reparação de seu amigo barão?

– Talvez fosse o caso – ele retrucou. Quando ela fez menção de se libertar, o banqueiro a segurou junto a si. – Disse-lhe isso certa vez Isabella. Ele jamais me diria, pois acredito que partiu sem confessar seu delito, mas sei que se arrependeu. Lord Bradley mudou desde sua partida e nunca mais voltou a ser o mesmo.

– Lamentável que o arrependimento não provoque ataques fulminantes. – Isabella replicou imprimindo maior força para se libertar; incomodada com aquele assunto. – Toda a Inglaterra se tornou um lugar melhor depois que o barão morreu.

– Sei o que sente, mas tente não odiá-lo tanto. Leve em conta que ele é o pai de seu filho...

– Não! – Isabella exasperou-se e finalmente se pôs de pé. Depois de atirar o lenço sobre a cama, passou as mãos pelos cabelos, aflita. Não gritou apenas em respeito ao local onde estavam. – Pouco me importa se Lord Bradley era seu amigo, muito menos seus remorsos. Aquele desgraçado sempre será o porco que acabou com minha vida! Eu lhe disse antes e repito, não o cite para mim. Se voltar a fazê-lo, juro por Deus que nunca mais lhe dirijo a palavra. Sabe que sim!

– Sim, eu sei. – Carlisle falou sem se mover. – Não acabei de comentar sua obstinação? Não vejo como afasta todos que ama, mesmo que morra pouco a pouco todas às vezes?

– O único que amo e mantenho afastado é Embry. – Isabella retrucou prontamente; conhecia as artimanhas do amigo e não lhe daria espaço para falar do futuro genro. Sem se deixar desviar do tema, prosseguiu:

– E se não quer ser o próximo, não volte a falar do barão pai. Bem sabe que apenas tolerei tudo o que fiz e hoje sigo resignada em minha casa, mas se fosse preciso escolher entre o meretrício ou ser novamente entregue ao barão, ficaria com a primeira opção. E hoje eu não lhe seria agradecida e, sim, o odiaria na mesma medida, Carlisle.

– Você está certa – concordou mansamente. – Confesso que uma vez cogitei dizer a ele onde encontrá-la, porém desisti. Como disse, Lord Bradley ficou mesmo estranho depois de sua partida e temi pelo o quê pudesse fazer.

– Obrigada pelo cuidado. – Isabella agradeceu com um estremecimento, abraçando-se para esfregar os braços subitamente enregelados; sempre temeu que aquele encontro se desse justamente por não saber o que esperar.

– Sim, eu não o fiz e com isso a deixei no mesmo lugar... Não fui um bom amigo!

– Pare de repetir esse absurdo! – ordenou Isabella, voltando a se sentar para segurar as mãos do amigo. – Você, Angela e Sam são as melhores pessoas que pude encontrar na vida! O que lhe deu para tocar nesse assunto?

Carlisle, antes de responder, inverteu a posição das mãos para prender as dela entre as suas. Após um suspiro profundo, encarou-a e disse:

– Estou preocupado com você, minha cara... Parte meu coração vê-la como estava ainda há pouco, sofrendo em silêncio por mais uma vez ser obrigada a deixar nosso pequeno para trás.

– Você sabe que ficarei bem... – ela tentou lhe sorrir. – Não entre em crise por algo que não poderia mudar.

– Esse é o problema. – Carlisle novamente a abraçou. – Este tem sido um tema constantemente sugerido por minha mente. Se eu tivesse me responsabilizado por você, hoje tudo seria diferente. A falsa viuvez poderia ter sido usada desde cedo, livrando-a até ser apontada como mãe solteira e jamais teria se tornado uma meretriz.

– As coisas são como devem ser meu querido Carlisle. – Isabella se libertou do abraço para beijá-lo na bochecha rosada. Quando os olhos azuis estavam nos seus, os rostos próximos, ela acrescentou: – Minha imaturidade, somada às adversidades que a vida me impôs fizeram de mim o que sou. Esqueça esse tema, por favor... Pense que jamais foi sua obrigação cuidar de mim e mesmo assim você o fez. Cuida até hoje.

– Então sou mesmo um bom amigo? – o senhor indagou, tocando-lhe o rosto num leve afago.

– O melhor que tenho! – Isabella assegurou para animá-lo; agradecendo que a breve argumentação a livrasse da letargia anterior. Adoecer e lamentar sua partida não mudaria coisa alguma.

– Essa benevolência para com todos faz de você uma jovem especial, sabia?

Carlisle ainda corria os dedos pela linha do rosto que analisava atentamente; como se decorasse cada detalhe. O toque não exasperava a moça que, confiante no decoro do amigo, não se afastou.

– Muitas vezes Angela chama de estupidez – ela troçou; contente que a rusga tenha sido breve.

– Muitas vezes eu também chamo minha cara! – ele lhe sorriu antes de beijar a ponta de seu nariz. Ao novamente encará-la, questionou: – Por que não pude tomá-la para mim? Ter feito de você minha amante, seria uma boa solução para que hoje tudo fosse diferente.

– Talvez fosse. – Isabella admitiu tranquila com a verdade; de todos os senhores quem lhe tocaram, o banqueiro fora o único que não lhe causou repulsa. – E nós tentamos, esqueceu?

– Senhor misericordioso, por certo que me esqueci! Qual homem iria querer se lembrar do que houve entre nós? – Carlisle exclamou com exagero, porém logo voltou à seriedade: – Gracejos a parte, depois que me recuperei do fiasco que foi nossa “tentativa”, agradeci que tudo se desse daquela forma. Se acaso tivesse ido até o fim, considerar-me-ia pior do que meu amigo barão. Por Deus, você era uma criança!

– Não exagere, estávamos comemorando meu aniversário de dezoito anos e, já que você esqueceu eu lhe recordo, fui eu quem o assediou. Foi consensual.

– Não importa sua idade na época, muito menos quem começou minha querida... – Ele argumentou, voltando a afagar-lhe o rosto. – Naquela tarde eu estava disposto a seduzi-la, pois já a amava.

– Eu sabia que sim – ela admitiu. – Então dei o passo que nunca ousou avançar. Eu queria saber se seria diferente. E até onde chegamos, foi...

– Eu sei que foi – ele não demonstrou convencimento –, e teria sido melhor, caso eu não percebesse o quanto fui inapto em não saber que confundia meu afeto.

– Foi isso que aconteceu?

Isabella estava de fato interessada; na ocasião, depois da desistência da consumação do ato após estímulos infrutíferos para que sua hombridade despertasse, o banqueiro não se mostrou aberto às explicações e depois nunca mais voltaram ao assunto.

– Sim, querida, foi o que aconteceu. Eu nunca lhe disse essas coisas, mas agora que enveredamos por este assunto, sinto que devo. Talvez essa seja minha última oportunidade, pois acredito que momentos como esses não se repetirão.

– O que quer dizer com isso? – ela se alarmou. – Carlisle?

– Não vá se agastar com as divagações de um velho – pediu carinhosamente. – Acalme-se e me deixe confessar...

– Confessar o quê? – Isabella analisava-lhe o rosto, aflita; ameaçou-o de abandono minutos antes, porém não queria jamais ser privada de sua companhia.

– Confessar o quanto apreciei beijá-la... – disse correndo o polegar pelos lábios trêmulos e rosados da moça, antes de segurá-la pelos ombros e escorregar as mãos ao longo dos braços cobertos pela camisola até que lhe segurasse as mãos, que ela sabia estarem frias – Confessar que foi bom tocar sua pele fresca e macia... Também o quanto foi envaidecedor me sentir desejado por uma jovem tão bonita.

– Carlisle... – O relato a comovia.

– Porém algo mudou ao despi-la – ele prosseguiu como se ela nada dissesse. – em vez de inflamar o desejo que sentia, este arrefeceu. Insisti movido apenas por meu orgulho masculino que se recusava a admitir qualquer falha, justamente ao possuir alguém como você.

– O que mudou? – Isabella indagou num sussurro rouco; não queria chorar.

– Eu percebi que não a amava como mulher. Não importava que você tivesse amadurecido, adquirido um corpo desejável ou estivesse disposta a me aceitar... – disse mansamente e, tocando-lhe o rosto com a mão espalmada, prosseguiu: – Para mim, você sempre será a menina mirrada que resgatei da rua. A pequena e frágil Isabella, que até hoje se protege do mundo sendo estupidamente obstinada. Eu a amo da mesma forma que amo Tanya, então minha função é protegê-la, não cobri-la como um cavalo no cio ou resfolegar sobre você. Entende agora porque eu me sentiria pior do que meu amigo barão se acaso, por pura vaidade, tivesse sido capaz de ir até o fim?

– Entendo... – ela murmurou, falhando em reter as lágrimas.

Era esclarecedor saber que com o banqueiro acontecia o mesmo. Não que o considerasse um pai, mas seu amor por ele era fraterno. Naquele instante Isabella lamentava que fosse daquela forma, pois de fato tudo teria sido tão mais fácil se fossem amantes. Ela então não teria sido usada por tantos senhores, talvez nunca tivesse reencontrado Edward e hoje não sofresse com aquela distância. Estaria ao lado de seu pequeno Embry, formando uma família. Clandestina, sim, porém unida.

Ainda a escrutina-lhe o rosto contrito, Isabella considerou se, uma vez exposto os sentimentos, não pudessem, juntos, moldá-lo para então fazer com que aquele arranjo desse certo. Talvez o banqueiro um dia viesse a amá-la como mulher, assim como ela o aceitasse em sua cama. Sabia que jamais sentiria por homem algum o mesmo que Edward lhe despertou, porém seria um sentimento tranquilo e com o tempo o sexo poderia deixar de ser apenas indiferente.

Com esse pensamente, e também aflita por saber que em quatro dias o barão se comprometeria com outra, Isabella precipitou-se para frente, deixando que seus lábios tocassem os de Carlisle. O contato durou ínfimos segundos, antes que ela se afastasse, assim como banqueiro que saltou da cama, alarmado; os olhos azuis maximizados, demonstrando o espanto que sentia.

– O que foi isso Isabella? – questionou, levando a mão ao coração. Antes que a moça soubesse o que dizer, ele cerrou o cenho, parecendo estar subitamente muito bravo. – Ou devo chamá-la de Amber como insiste? Qual das duas é responsável por esse ataque despropositado?

– Carlisle, perdoe-me... – ela pediu; ainda mais aflita. Sentindo seus lábios queimarem e o coração fundo no peito, fazendo dela a pior das traidoras. – Estou confusa... E você me disse essas coisas... E também estou triste por Embry... Eu...

– Entendo que esteja confusa e sensível, mas não prestou atenção ao que eu disse, menina?!... Eu jamais serei capaz de tocá-la. Não com segundas intenções e a isso se incluem os beijos reais.

– Eu sei! – ela anuiu, cobrindo o rosto com ambas as mãos. – Foi horrível o que fiz, perdoe-me. Perdoe-me...

– Muito bem – Isabella ouviu Carlisle dizer antes de voltar a se sentar e segurá-la pelos ombros. – Não vamos deixar que esse seu “rompante” atinja proporções desnecessárias. Venha aqui...

Com o pedido a fez se deitar sobre seu colo e passou a acariciar-lhe os cabelos.

– Estou desculpada? – a pergunta seria feita a si mesma muitas vezes ainda, pois talvez jamais se perdoasse pelo ato impulsivo.

– Evidente que está! – tom da afirmativa indicou à moça que o banqueiro estava disposto a minimizar o acontecido. Após um suspiro profundo ele exalou com falso convencimento. – Que culpa tem uma jovem por não resistir aos meus encantos?

Isabella sorriu em meios às lágrimas e, mesmo deitada se voltou para encará-lo.

– Nenhuma, pois você é adorável!

– Pois não é mesmo? – concordou afetado, erguendo o queixo, levando a moça a rir mais. – Isso minha pequena, sorria e ria... Quero que seja feliz, meu amor.

– Estou feliz agora que voltamos a nos entender... – Era verdade.

– E eu serei feliz se você confirmar que vai à minha festa. – Carlisle disse de chofre, mudando o tema completamente.

Pega de surpresa, Isabella não soube o que dizer. No coche esteve prestes a confirmar sua presença, porém sabia que jamais seria capaz de estar diante de Edward. Aquele beijo malfadado serviu para mostrar a ela o quanto ainda o amava; não importando que ele se casasse e fosse feliz ao lado de outra mulher.

– Carlisle... – tentou se esquivar do convite, porém o amigo a cortou.

– Eu lhe disse que não aceitaria recusas. Será uma data importante para mim e a quero comigo, em minha casa, como minha convidada. Prometo manter Laurent sob controle e quanto ao barão... Também já lhe disse que ele não a perturbará. Você é passado em sua vida, minha cara. Como determinou que fosse.

Como deveria ser, ela pensou, voltando à seriedade, porém sem novas lágrimas. Em seu íntimo, sem que pudesse evitar, sentiu nascer certa revolta. Queria ser esquecida, mas não com tamanha rapidez, afinal, Edward lhe jurou amor eterno! Ali, tendo os cabelos afagados pelo amigo, a parte consciente dela tentava acalmar a outra, a que gradativamente ressentia-se mais e a exortava a ver o dito casal com os próprios olhos. O certo seria que se mantivesse longe, porém antes que deliberasse consigo mesma, afirmou:

– Será um imenso prazer ir à sua festa.

– Perfeito! – Carlisle exclamou feliz, contornando-lhe a linha do queixo delicadamente. – Comprei-lhe um presente de natal que espero vê-la usar em minha festa. Infelizmente o esqueci no banco, mas encontrarei um meio de entregá-lo.

– Não precisava.

– Precisava, sim... – ele insistiu. – Você merece ser mimada, menina.

Então Isabella ficou sem palavras. Talvez por estar de fato sensível e até mesmo confusa, finalmente se rendeu ao sentimento que sempre tentou negar baseando-se na intimidade que eles mantinham. Não importava a tentativa de copula fracassada, não importava que ficassem um diante do outro em trajes menores ou as vezes que apertou seus lábios ao do banqueiro, amava-o sim, como amaria seu pai.

– Não acabei de dizer que deve sorrir? – Carlisle indagou capturando uma lágrima furtiva. – O que a entristece agora?

– Não estou triste – assegurou, voltando a sorrir. – Muito pelo contrário. Nesse momento estou muito feliz por ter alguém tão adorável e nada convencido como você em minha vida. Eu amo você Carlisle!

Dito isso ela se levantou para abraçá-lo. O banqueiro retribuiu ao abraço e se deixou ser apertado por alguns instantes antes de afastá-la. Com um pigarro que trouxe estabilidade a sua voz, ele comentou:

– Os dias que antecedem o natal amolecem nossos corações.

– Acho que sim – ela concordou, capturando seu lenço para secar as últimas lágrimas. E, subitamente animada, deixou a cama para ir até sua bolsa de viagem. Enquanto remexia em seu interior, revelou. – Comprei algo para você... Espero que goste.

– Para mim?! – Carlisle se mostrou surpreso, como se nos últimos anos não fosse hábito receber dela algum presente no natal. – O que seria?

– Como sempre – ela falou ao voltar para a cama – algo que você compraria a si mesmo, para que sua esposa não desconfie.

Ao entregar o pequeno embrulho, esperou pacientemente que o amigo desfizesse o laço e destampasse a caixinha.

– Abotoaduras! – Carlisle exclamou contente. – São lindas! Obrigado.

– E vendedor me disse que o ouro e a gema vieram do Brasil – ela explicou, enquanto o banqueiro tomava uma e a avaliava.

– Âmbar – Carlisle murmurou com experiência ao mirar a pedra dourada, encarando a moça ao seu lado. – É uma bela forma de tê-la comigo, minha querida, mesmo não apreciando essa alcunha.

– Amber me protege – Isabella disse novamente emocionada.

– Sei disso – ele retrucou, voltando a abotoadura ao seu lugar e tampando a caixa, antes de novamente encarar a moça e acrescentar seriamente. – O problema é que para protegê-la, ela mantém todos afastados, inclusive quem você mais ama. Então... vou acreditar que esse presente tenha um significado simbólico de que Amber esteja aberta a mais proximidade... Primeiro de mim, por já estar perto. Depois veremos a quem mais ela dará espaço...

– Carlisle, não...

– Shhh... – ele a silenciou tapando-lhe os lábios com seu indicador. – O presente é meu e dou a ele a interpretação que desejar.

Isabella então suspirou, derrotada. Não pensou em nada daquilo ao escolher o presente e tinha certeza de que não estava aberta a “dar espaço” para mais ninguém, contudo seria perda de tempo argumentar. Como Carlisle salientou, era esperar para ver que nada mudaria.

– Que assim seja então – ela disse por fim.

– Que assim seja! – O banqueiro repetiu e, deixando a caixinha sobre o móvel afixado na parede do vagão, gracejou. – Adorei meu presente, mas não pense que com ele se livrará de me dar o que quero, justamente quando a tenho horas e horas junto a mim...

– Isso jamais me passou pela cabeça – Isabella o acompanhou na brincadeira para logo em seguida acrescentar um tanto mais séria. – Se bem que qualquer dia desse eu vou acabar agravando o mal de sua coluna em vez de repará-la.

– Não corremos esse risco minha querida – ele a tranquilizou, já retirando sua camisa para se deitar de bruços sobre a cama. – Tenho seguido a risca as recomendações do Dr. Morrigan. Tomo os chás terapêuticos que ele recomenda e não faço esforços... Suas mãos apenas ajudam a manter a coluna danificada este velho em bom funcionamento.

– Se é como diz... – ela deixou no ar, sentando-se sobre as coxas do banqueiro para iniciar sua massagem.

Como das outras vezes, desde o encontro após a reinauguração da ponte, Isabella tentou não lembrar às vezes nas quais fez o mesmo com o barão, massageando-o para livrá-lo da tensão e depois, de suas dores. Ali, a correr os dedos pela pele não mais jovem, a moça se questionou como pôde acreditar, mesmo que por um instante, que poderia preencher o espaço deixado por Edward. Nem mesmo todo o afeto que tinha pelo banqueiro seria capaz de substituir aquele que amaria para sempre.

E não importava que já tivesse sido esquecida, pensou aborrecida. Edward poderia se estabelecer com quem bem quisesse – como ela mesma determinou. De sua parte daria uma boa olhada no barão e em sua noiva no dia do baile para se convencer de uma vez por todas que havia escolhido o melhor caminho, e então, seguiria o que próprio. Talvez colocando em prática a ideia surgida enquanto ia ao seu encontro com Embry onde conseguiria uma casa em Londres e recomeçaria uma nova vida; tão digna quanto à do barão.

Aquela Yasmin tinha que dar um rumo à própria vida.

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Leves toques contra a porta aberta do escritório levaram Edward a despertar de seus devaneios. Aborrecido consigo mesmo por novamente dispersar em meio às suas obrigações na sidreria, o nobre olhou para aquele que o procurava.

– O que quer Jacob? – indagou secamente. – Não acabei de dispensá-lo?

– Perdoe-me por interrompê-lo Sir – o moreno começou, entrando sem ser convidado, para se colocar diante da mesa do patrão e lhe estender um envelope lacrado. – Estava já de saída quando um enviado de Sir Cullen pediu que lhe entregasse isto.

Sir Cullen? – Edward estranhou mesmo tento reconhecido o sinete com o símbolo do banco.

– Foi o que o mensageiro informou ao deixar a encomenda – o criado reiterou desnecessariamente, pois a pergunta fora retórica.

Com o envelope em mãos, Edward tomou seu abridor de cartas e partiu o lacre. Curioso quanto ao conteúdo da missiva, apressadamente retirou o papel dobrado ao meio e o abriu. Num primeiro momento a letra lhe trouxe certa familiaridade, porém o barão não deu importância à sensação, estava mais interessado em ler o que seu futuro sogro tinha a lhe dizer. O mesmo parecia ocorrer com seu criado mexeriqueiro, pois uma vez que lhe entregou o envelope, deveria partir e seguir até Westking como pedido, para finalmente fazer suas compras de natal. Ignorando a presença do amigo, Edward leu:

Caro Lord Masen

Por motivos que não convém citar, estive ausente esses últimos dias com isso não tivemos tempo para tratarmos de certos assuntos de nosso interesse. Contava em vê-lo ontem, dia de minha chegada, porém não se deu desta forma. Com isso se torna urgente um encontro entre nós. Conheço vossas obrigações, assim como sei que poderíamos ter nossa conversa amanhã, véspera de natal, em minha casa, porém tomarei a liberdade de ...

Num ato reflexivo o barão atirou a carta sobre a mesa. Seu gesto inesperado e brusco causou um sobressalto em seu criado.

– Credo Sir Edward! – Jacob exclamou alarmado. – O que diz essa carta para assombrá-lo dessa maneira?

O barão ouviu cada palavra, porém elas não se fixaram em sua mente para que formulasse uma resposta. Edward simplesmente não pensava, e tudo o que “enxergava” era a palavra casa, escrita daquela forma arredondada, como todas as outras palavras na verdade, porém com características próprias que o levou a reconhecer todas as outras. Cada maldita palavra desenhada em nanquim sobre aquele pedaço de papel que pareceu queimá-lo. Embry, o amante meloso que o assombrou por dias era Carlisle! Fora ele todo o tempo, a mente do barão gritava incessantemente.

Sir Masen? – Jacob novamente o chamou. – Vossa senhoria está me preocupando? O que houve? É algo com o banqueiro? Com a senhorita Tanya? Fale alguma coisa, por Deus!

O barão novamente o ouviu e entendeu, porém não tinha nada a dizer, então somente ordenou:

– Deixe-me sozinho.

– Não considero prudente, Sir – o criado discordou. – Está estranho. Visivelmente abalado por...

– Deixe-me sozinho Jacob! – Edward o encarou enraivecido. – Não, nada aconteceu ao meu futuro sogro. Ele goza de boa saúde e passa muito bem se lhe interessa saber... E não, também nada de grave houve com a adorável senhorita Cullen, então suma daqui. Vá às suas compras de uma vez, antes que me arrependa e lhe arranje o que fazer.

– Irei... – Jacob seguiu até a porta, impassível, recuperado do susto. – Mas na volta, quando estiver mais calmo, gostaria de saber o que há.

– Adianto-lhe não ser nada que seja de sua conta, então não venha me aborrecer. – Edward retrucou, deixando sua mesa para andar de um lado ao outro, já distraído da presença de seu criado, que ainda o olhou por alguns instantes antes de finalmente deixá-lo e fechar a porta.

Sentindo o mesmo sufocamento dos dias que seguiram sua separação, o barão obrigou o ar a entrar em seus pulmões, recriminando-se por ficar desestruturado apenas por um novo detalhe sobre algo que já conhecia. Sabia do caso amoroso, ainda que em tempo algum nos últimos meses tivesse flagrado o ilícito casal. Então, não havia razão para padecer como se descobrisse a perfídia naquele momento.

Não, não havia motivos, contudo Edward sentia seu peito urrar incomodado enquanto recordava às vezes em que Isabella proclamou o amor sentido pelo odioso “Embry”; do quanto tentou mantê-lo protegido evitando explicações ou o quanto salientou a impossibilidade de estarem juntos. Evidente que não poderia estar com ele como deveria afinal Carlisle sempre seria um homem casado. Provavelmente a alcunha servia para que o velho sem vergonha não fosse delatado caso um dia as cartas infernais fossem descobertas. Como teria acontecido quando ele mesmo leu uma delas sem consentimento, enquanto Isabella dormia.

– Inferno! Inferno! Inferno! – Edward vociferou, socando o tampo de sua mesa a cada palavra.

Naquele momento, mais do que antes, odiava-se por ser inapto. Cumpria a risca o papel na farsa que criou, porém em tempo algum de sua corte a Tanya conseguiu a mínima informação que o colocasse perto de Isabella. Frequentava Wisbury mais do que o usual. Ia a todas as festas, acompanhando a família do rival para se mostrar verdadeiramente interessado, quando era permitida a saída a sós, passava horas entediantes sentado à mesa da confeitaria ouvindo toda sorte de assunto irrelevante que a moça estivesse disposta a incluí-lo, sem que nunca visse, por um segundo que fosse, a única que lhe interessava. E à medida que o tempo passava o banqueiro continuava a ter de Isabella o que deveria ser dele, Edward.

– Inferno! – praguejou mais uma vez, correndo as mãos pelos cabelos, ignorando a dor vinda com os golpes desferidos contra a mesa.

De olhos fechados, o barão respirou profundamente, demandando a si mesmo que se acalmasse. Perder o controle não o levaria a lugar algum. Talvez o êxito de seu plano estivesse interligado ao banqueiro e não necessariamente à sua filha. Como bem pensou, “ele” sabia do caso e já havia deixado claro não mais se interessar por Isabella, então nada o impedia de comentar o deslize do sogro, despretensiosamente. Para todos os efeitos eram bons amigos, e amigos tinham liberdade para conversarem sobre todos os assuntos.

Com esse pensamento a arrefecer a explosão que se deu em seu íntimo, o barão voltou à sua cadeira. Começaria a tratar o assunto urgente que levou seu “bom amigo” a lhe enviar aquele bilhete revelador. Uma vez acomodado, Edward alcançou o papel repentinamente descartado e voltou a vê-lo, tentando ignorar a letra maldita.

... Conheço vossas obrigações, assim como sei que poderíamos ter nossa conversa amanhã, véspera de natal, em minha casa, porém tomarei a liberdade de rogar que venha até a casa bancaria esta tarde, precisamente às três horas, para esclarecermos todos os pontos da proposta que pretende fazer em nossa ceia natalina.

Atenciosamente, Carlisle Cullen

– Pois bem Sir Cullen! – Edward falou a si mesmo, ao dobrar o bilhete antes de tomar o relógio que pertenceu ao pai para conferir as horas. – Se assim deseja, em uma hora estarei a sua frente.

E assim se deu. O barão deixou a sidreria em tempo de seguir até sua casa, trocar a camisa e ajeitar uma gravata sobre o colarinho, novamente vestir o casaco e sair. Encontrou com sua mãe à saída, porém ao avisá-la da urgência do encontro e o possível teor da conversa, a baronesa o dispensou sem questionamentos, recomendando apenas que transmitisse seus cumprimentos ao antigo amigo. Com isso, depois de seguir até a cidade vizinha montado em seu andaluz, exatamente às três horas daquela tarde, Edward se fazia anunciar na antessala do banqueiro. Novamente odiando-se pela ansiedade sentida.

Sir Cullen pediu que o deixasse entrar, sem anunciá-lo milord – disse o secretário, depois de se pôr de pé ao reconhecê-lo.

– Obrigado – Edward agradeceu educadamente, aproveitando para testar sua voz; estava estável apesar do nervoso sentido. Após duas leves batidas contra a porta, o barão a abriu sem esperar por qualquer consentimento.

Lord Masen! – Carlisle exclamou ao vê-lo, exagerado em entusiasmo, como sempre.

Foi impossível ao barão não deixar reacender a antipatia pelo senhor afetado e a alegria que demonstrava ao vê-lo quando ele mesmo não nutria sentimentos nada nobres.

– Boa tarde Sir Cullen! – Edward obrigou-se a cumprimentar.

– Venha... – pediu ao se pôs de pé e estender a mão. Quando o barão a apertou o senhor indicou a cadeira a frente de sua mesa. – Sente-se... Fico satisfeito que tenha conseguido essa hora para vir encontrar-me.

– Era necessário, afinal deixou claro que pretende esclarecer algo sobre meu noivado com sua filha. – Edward comentou.

Reconhecendo o ressentimento que o visitava naquele instante, deixou que este crescesse e correu os olhos pelo rosto do senhor diante de si, perguntando-se como um homem, em vias de completar sessenta anos de idade se prestava ao papel de enviar cartas melosas a sua amante, narrando um sonho ridículo no qual a comparava a uma fugidia borboleta; patético!

– Sim, sim... – Carlisle concordou; já em sua cadeira. Indicando todas as coisas dispostas sobre sua mesa, falou. – Tenho muito a fazer, assim como vossa senhoria, mas essa conversa se faz necessária.

Edward seguiu o movimento das mãos por puro reflexo e, mesmo que estivesse num banco, com alguém que tinha duas damas em sua família, estranhou haver um estojo largo, com interior forrado com seda branca a servir de base para um ostensivo colar de rubis e brincos da mesma pedra preciosa. Talvez tenha mantido o olhar no conjunto por tempo demais, pois foi trazido da hipnotizante observação pelas palavras do banqueiro.

– São lindos, não?

– Sim, de fato! – concordou o barão, sentindo um forte desconforto em seu peito. Não tinha como saber, mas parecia certo a quem pertenciam tais jóias, então, antes que medisse suas palavras, indagou à procura de confirmação. – De quem são?

Edward flagrou o brilho furtivo que cruzou os astutos olhos azuis, antes que o banqueiro sorrisse mansamente e dissesse num murmúrio cúmplice:

– Não tenho segredos para vossa senhoria, então posso revelar... Este será meu presente de natal para Isabella, acha que ela gostará?

O barão cerrou os punhos sobre os braços da cadeira, relutando em se manter impassível. Não era o que queria? Deveria agradecer a brevidade impressionante com que o tema fora abordado, e não padecer do mais corrosivo ciúme; nem sentir o renovar do despeito ao recordar a singeleza dos presentes que ofereceu à Isabella.

Não adoeceu, ali, diante do senhor que lhe escrutinava o rosto, ao lembrar como fora agradecido na ocasião somente por acreditar piamente que tal obscenidade fora exclusiva a si, pois nem a mentirosa mais leviana poderia encenar o violento repudio ao seu pedido devasso, antes que finalmente cedesse.

– E então – o senhor insistiu. – Acha que acertei na escolha?

Edward sabia que deveria dizer qualquer coisa que o livrasse do desconforto, algo breve e leve que agradasse ao banqueiro, porém se ouviu dizer:

– Não tive tempo de conhecê-la tão bem, porém, baseado no pouco que vi, acredito que estas jóias sejam consideradas ostensivas demais. Isabella me pareceu ser uma moça de gostos simples. Seria acertado escolher um cordão com uma única pedra, ou talvez, gemas menores...

– Sou obrigado a concordar. – Carlisle anuiu, recostando-se, após girar o estojo para olhar as peças escolhidas e divagar. – Ela é simples e discreta. Conheço-a bem, há tanto tempo, não sei como pude errar... Isabella insiste em viver a margem de todos, como se fosse invisível.

Invisível! Era daquela forma que a tinha, Edward pensou, reacomodando-se sobre a cadeira. Daquela vez, reconheceu a sabedoria em se calar, porém não foi capaz.

– Não restam a ela muitas opções. Não é mesmo? – indagou seriamente; simplesmente não conseguia evitar, tanto que tratou de responder a si mesmo. – Não quando se liga a quem nada tem a lhe oferecer.

– “Mea culpa” – Carlisle murmurou, num exalar, conferindo as horas em seu relógio rapidamente. Finalmente pareceu abalado com as palavras do barão, contudo, ao voltar o relógio ao bolso do colete, logo reassumiu a postura e retrucou seguro. – Não sou o homem ideal para dar a ela tudo que precisa, porém, sou melhor do que qualquer outro. Como bem lhe disse, Isabella é sozinha no mundo. Tem somente a mim e a Angela.

– Angela? – Edward indagou interessado; finalmente um novo nome, um novo detalhe. – Quem é essa?

– Aquela amiga que citei em vosso jardim... A única que ela possui. – Então, analisando-o, o banqueiro perguntou: – Por que o interesse? E o que devo entender dessa declarada defesa? Pensei que ela fosse insignificante para vossa senhoria.

– Perdoe-me – Edward pediu rapidamente, temendo que a conversa fosse interrompida justamente quando se habituava a ela e recebia informações que poderiam lhe valer futuramente. Assumindo um ar conciliador, sabendo que o prêmio por sua tolerância seria ter Isabella de volta, imprimiu leveza à voz e prosseguiu: – Não era minha intenção criticá-lo...

– Ah, não? – Carlisle ainda o avaliava.

– Absolutamente! Apenas fiz um comentário óbvio, pois jamais poderá oferecer algo concreto à moça, mas é certo que ela está bem sob vossa proteção. Sobre ser insignificante, não é verdade. Não brigamos, nem devemos nada um ao outro que justificasse uma inimizade.

– Então por que colocou desta forma? – O banqueiro indagou, novamente conferindo seu relógio.

– Confesso que nossa única conversa sobre ela me pegou de surpresa. Não soube o que dizer, então tentei indicar que, o que houve entre nós, estava no passado.

– Entendo. – Carlisle murmurou após um suspiro impaciente. Fechando a caixa das jóias com estrondo, reacomodou-se sobre sua cadeira. – Melhor que seja assim. Agora vamos ao assunto que o trouxe até aqui...

Não, Edward rechaçou em pensamento. Não queria o distanciamento brusco que o levaria a algo desnecessário; desposaria Tanya, sem mais a acrescentar. Isabella era um tema promissor que, domado o ciúme, poderia discorrer por horas a fio. Antes que pensasse sobre o que responderia, o secretário do banqueiro bateu à porta e prontamente a abriu para anunciar:

– Com vossa licença, Sir Cullen, está aqui um senhor que deseja vê-lo... É “aquele” senhor.

Edward não poderia saber qual senhor era apresentado com tamanha ênfase, contudo soube, pelo semblante contrariado de seu futuro sogro, que o recém-chegado não lhe agradava. Com o rosto comumente pálido, subitamente ruborizado, Carlisle permitiu a entrada do dito senhor. Somente então seu secretário deu passagem ao último homem que o barão poderia imaginar reencontrar, vestindo um grosso casaco de lã que p protegia do frio intenso.

– Boas tardes senhores – o moreno os cumprimentou a rodar seu chapéu entre os dedos, sem desviar os olhos do nobre que, de sua cadeira, também o encarava; incrédulo.

– Sam – Carlisle o chamou com velada contrariedade, depois que ambos lhes responderam, já de pé. – Não esperava vê-lo...

– Trago um recado – disse o homem ao banqueiro, porém novamente a encarar o barão.

– Pois o diga – Carlisle o liberou.

Edward considerou a hipótese do segurança de Isabella simplesmente pedir que saísse, alegando a necessidade de sigilo, porém o moreno voltou os olhos escuros ao banqueiro e falou.

– Minha senhora não pôde atendê-lo, pois se encontra indisposta, então pediu que eu viesse saber o que deseja.

Ao término da explicação o barão precisou de novo controle para não se abalar com o que entendia estar acontecendo ali; Carlisle armou um encontro entre ex-amantes? Antes de animar-se com o evidente progresso de seu plano, Edward especulou quais as razões que moviam o banqueiro. Não teve tempo de descobri-las, pois os homens continuaram a conversar entre si, como se ele não estivesse presente.

– Indisposta? – Carlisle questionou. – O que ela tem?

– “A febre” Sir Cullen – Sam respondeu, salientando o mal.

Para agravar consternação do barão, nascida com a visível preocupação de seu incompreensível rival, veio o pronto entendimento que imediatamente apaziguou o senhor. Edward então se aborreceu por não saber a qual “febre” o moreno se referiu, ou como esta enfermidade poderia ser tão rapidamente ignorada. E, de fato, ele sentiu como se não estivesse ali; sobrava.

– Ah, sim... A conhecida febre – as palavras leves do banqueiro vieram corroborar os sentimentos demonstrados. – Então não é nada grave, ainda assim ela fez bem em permanecer em repouso.

– Evidente Sir... – Sam concordou com certo enfado, novamente com os olhos castanhos postos no barão.

Sentindo-se um intruso entre os dois homens, Edward se impacientou e deixou a segurança da cadeira, mesmo não confiando na firmeza de suas pernas; estava trêmulo. Não via como uma febre poderia ser desconsiderada daquela forma, assim como também lhe incomodava notar a familiaridade que um tinha para com o outro.

– Bem – Carlisle tomou a caixa com as jóias para travar o fecho e entregá-la ao criado de Isabella. – Não há razão para demora, pois não é prudente que se afaste de sua senhora. Tome, entregue a ela, juntamente com minhas sinceras felicitações natalinas.

– Assim farei Sir Cullen – Sam disse servil, vestindo o chapéu para pegar a caixa com cuidado. – Minha senhora pediu também que lhe desejasse um feliz natal e à vossa família.

– Diga a ela que agradeço. – Carlisle falou com um sorriso satisfeito.

– Com vossas licenças – o moreno pediu a guisa de despedida.

Com a saída do criado, ficou o silêncio incômodo. Este foi quebrado, segundos depois da porta ser fechada, quando Edward, em meio às suas cismas, teve uma epifania.

Sir Cullen, eu lamento, mas nossa conversa terá de ser adiada – disse o barão já se encaminhando para a saída.

– Aonde vai? – Carlisle questionou, sem sair do lugar.

– Lembrei de um compromisso importantíssimo. Vemo-nos amanhã!

Sem esperar por mais questões, o barão deixou o escritório do banqueiro com o ânimo renovado. Ainda se sentia desestabilizado por não gozar da mesma intimidade com o criado protetor, ou não conhecer Isabella ao ponto de não se preocupar com seus males, porém via nascer à esperança de, em pouquíssimos minutos, descobrir onde ela se escondia. Bastaria seguir o corpulento Sam; contentar-se-ia com o endereço, depois veria como faria para abordá-la.

Agora trêmulo pela ansiedade em seu estado bruto, Edward parou a porta do banco já mirando a armação onde se costumava prender os cavalos, em tempo de ver o moreno montar sobre a sela de um tordilho e prepara-se para partir. Distraído em sua pressa, Sam não o viu, o que foi considerado providencial pelo barão que se precipitou em direção ao seu andaluz; cada minuto contava.

Lord Masen!

A voz animada o enregelou. Por um instante Edward considerou ignorá-la, então outra pessoa igualmente o chamou.

Milord, que bom vê-lo aqui!

O barão ainda ficou a ver o criado de Isabella ganhar distância desviando de dois coches e uma carroça até dobrar a esquina, antes de fechar os olhos por um segundo, aspirar e expirar profundamente, indagando qual artifício maligno fizera as duas deixarem o aconchego de sua casa para estarem ali numa tarde tão fria e úmida.

Milord? – Esme Cullen novamente o chamou.

Respirando profundamente uma vez mais, Edward se voltou e encarou as duas mulheres que esperavam ansiosas.

– Como têm passado senhora Cullen e senhorita Tanya?

– Estamos bem. – disse Esme, deixando a estranheza pela demora do barão em atendê-las, para lhe sorrir abertamente.

– Estávamos na confeitaria e então decidimos vir buscar papai – informou Tanya sem ser questionada. Desprendendo-se da mãe, a jovem veio até o barão para discretamente tocá-lo no braço e perguntar sugestivamente. – E vossa senhoria? Esteve com ele? Tratando de algo referente a nós, talvez...

– Sim, estive... – Edward respondeu seriamente, doutrinando-se para não dirigir a ela toda a frustração que sentia.

– Que maravilha! – ela exultou. – O que disseram?

– Não chegamos a tratar dos detalhes, pois me lembrei de um compromisso inadiável. Mas, não há nada de extraordinário a ser dito.

Edward não queria ser tão duro ao dizer tais palavras. O certo seria sorrir para as duas mulheres, porém ele não via como fazê-lo. De fato elas não eram culpadas de coisa alguma, na verdade mãe e filha eram vítimas de dois homens dissimulados, apaixonados pela mesma mulher, tão embusteira quanto eles ao ponto de, descaradamente, desejar-lhes boas festas. Não, nada deviam, ainda assim Edward as odiava naquele instante, quando “via” o criado moreno ganhar distância até estar junto àquela a qual jamais deveria deixar. Por que a constante proteção?

Não saberia a razão de tamanho cuidado, assim como talvez jamais soubesse de coisa alguma, com o destino a pregar-lhe peças a todo instante. Fosse por seu futuro sogro que tentou colocá-lo diante de Isabella, ou por suas duas quase parentas que o impediram de reparar a falha do plano. E definitivamente, não. Não era justo que, depois das contrariedades sentidas na sala do banqueiro, ao final não tivesse sua recompensa. No momento sentia-se tão inútil quanto o dia em que Isabella o deixou; mil vezes inferno! Quem teria um bom natal afinal?

Notas finais
Bom... o que acharam da relação Bella/ Carlisle? Era o que esperavam? Não? E esse encontro frustrado no banco? Me contem... Bjus meninas... Obrigada como sempre... Essa semana trago o oito... :)