Borboleta Negra
8 Capítulo Sete
Notas iniciais
Meninas, quero agradecer o carinho dispensado ao nosso Lordward... (amei o apelido Lorrayne). Estou amando os reviews e fazendo o possível para responder a todos... Obrigada!
Agora vamos ao novo capítulo...
BOA LEITURA!
A segunda noite de Isabella no palácio não foi melhor do que a primeira. Como na anterior acordou no meio da madrugada sendo assediada pelo barão pai que tentava agarrá-la na dispensa. Daquela vez sua agitação fora tão intensa que fez despertar o cachorro que por sua vez a acordou com seus latidos.
Assustada a moça se sentou sobre a cama com a nítida sensação de que alguém esteve no quarto e de fato a tocou. Não acreditava em fantasmas, mas ver o galgo latir para o vazio a levou a fazer uma oração e a benzer-se antes de deixar a cama para tomar um copo com água. De volta ao calor dos lençóis acariciou o pelo de Nero para se acalmar e acalmá-lo dos rosnados que ainda faziam tremer seu peito.
– Estamos bem Nero. – ela disse ao cão. – Aqueles que nos maltratou não estão mais aqui. O melhor que temos a fazer é dormir...
Como resposta ela obteve um ganido baixo antes que o galgo se acomodasse sobre suas pernas e fechasse os olhos. Sorrindo para o cachorro, Isabella igualmente se ajeitou entre as cobertas, contudo não conseguiu conciliar o sono como na noite anterior. Vários pensamentos corriam por sua cabeça; pensava em Embry, em sua casa novamente sem sua supervisão. E brigando com ambos havia a lembrança da saída intempestiva do barão.
A tarde passou, a noite veio e vivia a madrugada sem que tivesse descoberto o que havia acontecido para ser deixada de forma abrupta e exacerbada. Esperou que Edward fosse vê-la considerando tocar no assunto, porém o barão nem mesmo especulou seu estado de saúde por detrás da porta, agravando sua confusão.
– Na verdade não tenho que entendê-lo. – ela disse para o teto. – O barão é somente meu anfitrião até que a ponte seja restaurada. Depois que eu for embora minha passagem por esse lugar ficará na lembrança. Será diferente da outra, mas ainda assim, será somente uma lembrança...
Ao escutar suas próprias palavras e aceitá-las, Isabella fechou os olhos e livrou sua mente dos pensamentos sobre fatos que não poderia resolver ou solucionar. Somente então dormiu. Como um dia antes, despertou com Marie a bater na porta. Ao abrir os olhos notou que os raios do sol entravam filtrados pelas cortinas e iluminavam o quarto. Mais uma vez havia embalado no sono; nem mesmo sonhou.
– Senhorita, já despertou? – Marie chamou. – Sente-se melhor? Eu trouxe seu café da manhã.
– Estou bem. – ela assegurou. – Espere que eu vou abrir a porta.
Ao se calar atirou as cobertas para o lado, passou as mãos pelos cabelos e fez como pedido; descobriu-se faminta. Nero a seguiu preguiçoso e como na manhã passada, ao ver a porta aberta saiu. Marie segurava a conhecida bandeja de prata como na manhã passada, porém mais fornida.
– Com sua licença! – a criada entrou para depositar a bandeja sobre a escrivaninha então se voltou para avaliar a moça. – Está mesmo bem, não?
– Estou! – Isabella lhe sorriu. – Devo agradecê-la. Seus chás operaram milagres.
– Especializei-me neles quando o pai do barão caiu doente.
– Entendo. – ela comentou vaga sentindo o prazer por estar recuperada se esvair, assim como sua fome ser reduzida pela metade à menção do barão pai. Movida por uma curiosidade mórbida, perguntou. – O que exatamente ele teve?
– Começou como uma forte gripe. – a criada disse já contrita. – No início ele melhorava com meus chás, mas a tosse somente se acalmava nunca findava até que um dia...
– Prossiga. – Isabella a encorajou.
– Acho que não quer saber senhorita... – ela titubeou.
– Pode me contar. Não sou impressionável.
Marie pareceu considerar por um instante então retomou a narrativa.
– Bem... Como eu disse a tosse não se curava até que um dia Lord Bradley expeliu sangue.
– Ah! – Isabella exclamou satisfeita. Ao ser encarada pela serviçal, fechou a expressão e disse em lamento. – Que coisa horrível!
– De fato foi horrível. Depois desse dia não havia o que fizéssemos que o ajudasse. Os melhores médicos foram consultados, viagens para cidades de clima ameno foram feitas, contudo o barão somente piorava. Quando todos se conformaram que não tinha nada a ser feito prepararam um dos quartos da ala oeste e o acomodaram lá.
– Nossa! – a moça murmurou verdadeiramente consternada; com os criados, Rosalie e também Edward. – Deve ter sido horrível para todos.
– Sim. Separamos todos os seus utensílios, seus lençóis e roupas eram lavados separadamente. Muitas foram queimadas. Alguns criados foram dispensados por se recusarem a servi-lo. A reserva somente parou de ser punida com a dispensa quando Lord Masen liberou a todos, assumindo a maior parte do trato do pai. Quem ajudava o fazia voluntariamente, não por imposição.
A atitude de Edward não a surpreendia; combinava bem com sua postura. Com mais aquele detalhe para ser somado às qualidades já notadas, Isabella nada disse deixando a criada salientar cada detalhe tétrico dos últimos dias do porco abusador de menores. Como pensou antes, lamentava por Edward filho, não pelo Edward pai.
– Os últimos dias foram os piores. O velho barão definhava a olhos vistos, logo não conseguia comer nem mesmo os caldos ralos que Sue lhe preparava.
– E a baronesa? – Isabella se ouviu perguntar; a digerir tudo o que ouvia.
– Ah... A pobre senhora não aguentou ver o marido em tal estado e foi passar uns dias na casa da duquesa Rosalie que não podia vir ver o pai, pois estava grávida de seu segundo filho.
– Então o barão tinha ao seu lado somente Lord Masen e a outra filha? – perguntou admirada.
– Somente Lord Masen. – Marie esclareceu entristecida. – Lady Alice não ficaria aqui sem a mãe então foi com ela para Ascot. Infelizmente não voltaram a tempo de encontrar o barão com vida.
Isabella sentiu seus olhos marejarem, tentou conter as lágrimas, mas estas caíram velozes. Sim, lamentava que o herdeiro do título estivesse sozinho durante o horror dos últimos dias da enfermidade do pai, mas o que a compelia a chorar era a sensação de justiça feita. Não a considerava completa, pois o barão pai não findou completamente sozinho, mas ser abandonado pela maior parte de sua família quando mais precisava já a satisfazia. Principalmente por saber que Alice, a pequena megera, era a sua preferida.
– Não chore senhorita. – Marie foi até ela para consolá-la. Segurando-lhe as mãos passou a desferir-lhe breves tapas para acalmá-la. – Eu sabia que não deveria ter contado. Tudo isso foi há três anos... Já passou.
Para ela jamais passaria, porém sentia sua alma leve por saber com riqueza de detalhes que o velho asqueroso teve o fim que mereceu. Como não conseguia sequer lamentar de forma simulada, nada comentou. Deixou que Marie a reconfortasse até que conseguisse domar suas lágrimas.
– Sente-se melhor? – ela lhe perguntou preocupada.
– Sim... – como não estava disposta a mentir, contou uma meia verdade. – Considerei muito triste que Lord Masen tivesse que passar sozinho por todas essas coisas.
– Não quero entristecê-la mais, mas foi mesmo ruim para ele. Os dois eram muito próximos.
– Posso imaginar sendo Lord Masen o primogênito e o único filho homem. – ela comentou vagamente.
– E também o único que dividia com ele a paixão pela produção da sidra.
– Sim... A famosa Sidra Apple White.
– Exatamente. – Marie disse nostálgica. – Os dois muitas vezes ficavam o dia inteiro no galpão de fermentação. Quando o barão morreu achamos que Lord Masen esmoreceria, pois ficou abalado pela perda do pai. Para nossa surpresa já no dia seguinte ao enterro ele passou a se dedicar com maior afinco.
– Edward demonstra ser um homem admirável e tal atitude apenas comprova.
Isabella percebeu que dera voz ao pensamento antes mesmo que Marie falasse ao receber seu olhar admirado.
– A senhorita o considera admirável?
A moça sabia que a admiração da criada fora pelo tratamento informal, não por suas considerações, então apenas rebateu.
– E o barão não o é?
– De fato é... – Marie concordou e se agitou. – Mas veja só. Fiquei aqui falando e seu café esfriando. É melhor comer logo senhorita. – então dando a conversa como oficialmente encerada, avisou. – Quando vier arrumar o quarto eu recolho também a bandeja. Venha ver se está tudo de seu agrado... Se desejar algo mais eu posso providenciar.
– Está tudo perfeito! – Isabella olhando brevemente para a bandeja, disposta a estender a conversa um pouco mais. Não era como se sentisse sua falta, mas quis saber.
– Já que falamos dele, onde está Lord Masen?
– Ele não tem por hábito dizer aos criados aonde vai, mas acredito que deva ter ido ver o andamento dos reparos da ponte tão logo tomou o café da manhã. Se não, deve estar no galpão. – e novamente avaliando-a indagou. – Por que a pergunta? Gostaria de falar-lhe? Se for o caso eu posso...
– Não! – Isabella a interrompeu com as mãos erguidas. – Era apenas curiosidade. E não se preocupe muito comigo. Hoje não lhe darei trabalho algum.
– Não está me custando nada cuidar da senhorita. – Marie assegurou.
– Obrigada! – agradeceu e movida por um desejo súbito de encontrar com seu anfitrião, acrescentou. – De toda forma, caso seu senhor não se oponha farei as refeições com ele, assim todos terão um único trabalho.
– Ah, não terão senhorita. – a criada exclamou amável. – Quando a baronesa não está Lord Masen raramente toma o café da manhã completo. Seus almoços são rápidos e muitas vezes feitos na cozinha. Ele dispensa um pouco mais de tempo ao jantar então não se preocupe com essas coisas. Trarei suas refeições aqui ou a servirei onde desejar com todo o prazer. Basta me informar qual a melhor hora.
– Sendo assim, mais uma vez obrigada! – finalmente ela se aproximou para conferir a bandeja atentamente; a fome restaurada. Enquanto quebrava um naco de bolo com os dedos, Marie falou.
– Irei buscar água para que se limpe após a refeição. Depois fique a vontade para fazer o que quiser. Lord Masen pediu que lhe avisasse para se sentir como que em sua própria casa. Caso deseje posso lhe mostrar onde fica a biblioteca. Ela é o recanto preferido dele e de Lady Rosalie. Não sei por que, mas algo me diz que a senhorita também gostará de lá...
A grande biblioteca sempre fora seu recanto preferido também e gostaria muito de revê-la, contudo, depois de citar os mortos, havia um lugar que gostaria de visitar primeiro. Sabia que não seria inteligente ficar rondando pelos arredores nem pelos corredores do próprio palácio, mas também ela não poderia ficar dias e dias trancafiada naquele quarto. Por essa razão falou.
– Adoraria conhecer a biblioteca, mas antes gostaria de dar uma volta.
– Quer que a acompanhe?
– Pensarei a respeito... – ela sorriu agradecida. – Agora me deixe comer mais desse bolo maravilhoso.
Marie lhe sorriu de volta e se foi em busca da água. Uma vez sozinha Isabella praticamente devorou tudo o que a criada levou para ela sabendo que deixaria aquela casa sozinha. Com a decisão tomada, o espírito leve pela justiça divina e o corpo saciado da fome, a moça considerou aquela quinta-feira de sol ainda mais bonita; desejou intimamente que Edward tivesse um bom dia como o seu já iniciara sendo.
Com Draco a pastar pela grama que crescia às margens do rio, Edward mantinha os olhos fixos no trabalho dos homens que recuperavam a ponte. Naquele segundo dia quase nada havia sido feito. Basicamente separavam o material que usariam, assim como escolhiam outros troncos roliços que juntamente com o da árvore tombada forneceria a madeira para a obra. Analisando a movimentação, o barão chegou à conclusão de que talvez tenha calculado o tempo de execução da mesma de forma leviana; parecia que seriam preciso mais dias para findar o trabalho.
Depois da noite passada ele nem sabia mais se a demora seria boa ou ruim. O jantar na companhia dos Black havia sido agradável e até mesmo divertido depois que Leah relaxou com sua presença. O problema era que a leveza de espírito sofreu um forte abalo ao se aproximar de sua casa; rareou ao passar diante da porta fechada de um quarto silencioso. E se esvaiu de vez ao não conseguir conciliar o sono.
Completamente desperto havia novamente se valido da passagem entre os quartos e fora olhar sua hóspede em seu sono. Confirmar a beleza de Isabella não lhe trouxe qualquer resposta para o turbilhão de sentimentos que o visitava. Sua única certeza era saber que mesmo sendo errado a queria. Com isso, ignorando os rosnados de advertência que recebia de Nero, estendeu a mão e tocou a bochecha rosada. E foi nesse ponto que ela se lamuriou.
– Não barão...
Edward recolheu a mão imediatamente e o galgo passou a rosnar mais alto enquanto ela se agitava aflita.
– Tire as mãos de mim!
Isabella bradou forte mesmo que dormisse, fazendo com que o coração do barão afundasse no peito. Nesse momento Nero passou a latir em sua direção o obrigando a deixar o quarto apressadamente. Edward fechou a porta no exato momento em que a ouviu gritar. Daquela vez nem cogitou ir socorrê-la, pois como na outra noite não abriria a porta para receber quem a atormentava em sonho.
Depois do ocorrido, dormir se tornou impossível. Edward não atinava o que poderia ter feito que a desagradasse de tal maneira. Mesmo sendo comprometida a reação era exagerada; de fato ele não era nenhum pestilento.
Novamente contrariado, o nobre montou em seu cavalo e partiu em galope sem se despedir de ninguém. Correr um pouco pelo bosque talvez o ajudasse a esquecer.
Quando Marie retornou com a ânfora d’água, a jovem já havia terminado o desjejum.
– Agora acredito que esteja bem disposta! – a criada exclamou ao ver os utensílios vazios.
Isabella apenas lhe sorriu enquanto a mulher despejava a água numa bacia de louça. Como na ocasião de sua chegada, retirou suas vestes sem cerimônias e foi se lavar parcialmente. Marie a ajudou a se secar e então foi escolher a roupa que usaria naquele dia entre as poucas disponíveis. Já havia assistido a moça vestir a pantalona e a anágua e, enquanto a ajudava com o único espartilho deixado por Rosalie, perguntou.
– A senhorita pensou sobre ter minha companhia no passeio?
– Não será necessário. – então avisou. – E pode me chamar de Isabella caso queira.
– O barão não aprovaria. – retrucou já amarrando o espartilho. Estava ali mais uma forma de Isabella confirmar o que já sabia.
– Acha mesmo que não? – perguntou se voltando para encará-la e analisar suas reações. Como esperado a criada lhe sorriu.
– Pelo tanto que o conheço, acredito que ele não se importaria.
– Então estamos combinadas, Marie...
– Muito bem Isabella. Deixe-me ajudá-la com o vestido. – após deslizar a peça pelo corpo da moça e passar a abotoá-lo, ofereceu. – Quer que eu penteie seus cabelos?
– Por favor, faça uma trança. – moça pediu.
Em silêncio ela se deixou ser arrumada. Logo estava pronta para sair.
– Use isso. – Marie determinou já colocando o chapéu de palha adornado com uma larga fita e um laço de cetim amarelo que combinava com o vestido escolhido. – O sol não está muito forte, mas deve proteger sua pele. Talvez fosse o caso de levar uma sombrinha...
– Mantenho o chapéu, mas dispenso outros acessórios. – recusou delicadamente. Então abrindo os braços deu uma volta completa. – Como estou?
– Um refresco para os olhos de tão bonita. – a criada elogiou lhe sorrindo.
– Obrigada! – Isabella agradeceu feliz; eram raras as vezes que gostava que a considerassem bonita. – Na volta saio à caça da biblioteca. Se não a encontrar chamo-a para me ajudar.
– Estarei a sua disposição. Bom passeio, mas não se afaste demais... Cuidado com o bosque.
Isabella agradeceu a recomendação e se foi. Novamente passeava pelos corredores superiores do palácio. Em seu tempo não tinha permissão para subir, então tinha maior familiaridade com o andar inferior. Ainda assim não se perdeu e logo descia a grande escadaria rumo à porta principal. Sairia por ela da mesma forma da qual entrou; era a convidada.
Em todo o percurso não encontrou viva alma, avistando um criado somente ao acessar o pátio diante do palácio. Educadamente o cumprimentou e seguiu seu caminho. Logo se encontrou com outros trabalhadores, mas como estavam distantes não lhes deu maior importância. Satisfeita por sentir os raios do sol em seus ombros e braços caminhou pelo calçamento frontal que a levaria diretamente até os portões. Não olhou para trás; conhecia bem a fachada neoclássica do palacete, assim como a vasta varanda.
Estava a meio caminho quando ouviu o latido de Nero que em segundos fazia festa a sua volta.
– Quer passear comigo? – perguntou ao cão. – Sabe bem aonde vou, não?
O cachorro saltou e latiu contente levando-a a sorrir. Sabia que não era uma resposta, mas considerou engraçado acreditar que fosse.
Com o galgo a correr a sua frente para então voltar até ela, Isabella deixou o calçamento e seguiu lateralmente pelo extenso gramado que o margeava até entrar no bosque. Uma vez nele procurou pela trilha que sabia existir ali e ao encontrá-la, seguiu-a. Caminhou alguns metros considerando com os botões do vestido emprestado que não se lembrava do lugar procurado ficar tão longe do palacete.
Minutos depois considerava ter se perdido quando avistou o local que procurava. Sem que pudesse evitar sua garganta se fechou e seus olhos marejaram. Jamais poderia imaginar que um dia voltaria ao túmulo dos pais. Com o coração apertado, Isabella entrou no pequeno cemitério e vagou por entre as lápides. Agradeceu o fato de não ter uma pertencente ao barão pai, pois seria bem capaz de fazer uma oração herética pedindo ao diabo que o mantivesse bem guardado para que não viesse perturbá-la nem em sonhos.
Engolindo sua raiva, a moça procurou por quem lhe importava. Ao encontrar as lápides de Charlie e Renée McHale refreou o desejo de se ajoelhar e chorou mesmo de pé; distante alguns passos. Considerava que mal os conhecera, pois morreram ao contrair tifo epidémico, juntamente com mais três trabalhadores de Apple White, quando ela tinha apenas seis anos de idade. Ainda assim sentia a falta deles quase todos os dias. Talvez estivesse errada, mas acreditava que se não fosse órfã, seu destino teria sido completamente diferente; uma mãe a acolheria e um pai lavaria sua honra.
Ali parada diante das pedras enegrecidas pelo excesso de musgo e limo, Isabella não podia ver quem a observava. Edward a seguia desde que a viu caminhar em direção ao portão. Por um minuto perturbador acreditou que a moça estivesse de partida e somente não foi até ela por ter sido atacado por uma poderosa paralisia. Até que a jovem mudasse de direção e pisasse no gramado, o barão acreditou que nem mesmo seu coração se atreveu a bater.
O alívio em perceber seu erro o fez se mover, pois imediatamente se preocupou ao vê-la entrar no bosque. Por duas vezes cogitou chamá-la, mas a certeza de que sua companhia não seria bem vinda o fez se calar e somente segui-la a pé levando Draco pela rédea. Temia que Isabella se perdesse, contudo lhe pareceu que ela seguia pela trilha muito segura de onde chegaria.
O barão descartou a impressão por saber o óbvio; sua hóspede nunca havia estado nas suas terras. E se fosse o caso, não sairia à caça deliberada de um cemitério. Ter essa certeza o fez desejar chamá-la uma terceira vez, pois não havia nada a ser visto além de lápides velhas e algum mato. Todavia novamente se calou e apenas a observou de longe até perceber que ela chorava. Imediatamente o cavalheirismo do barão se sobrepôs a reserva e, depois de amarrar Draco na árvore mais próxima, caminhou apressadamente até a garota.
Por causa das folhas Isabella ouviu os passos atrás de si quando estes já estavam muito próximos. Mal teve tempo de secar o rosto quando ouviu seu nome ser dito em tom consternado pelo barão.
– Isabella? Está sentindo alguma coisa?
– Não! – ela negou sem se voltar. Então imaginou que seu anfitrião não aceitaria tal resposta mentirosa e vaga quando sabia que chorava. Com um pigarro finalmente se virou para encará-lo. – Bom... Na verdade, sempre me comovo em cemitérios e esse me pareceu tão abandonado e triste.
Aquela era parte da verdade. Quando ouviu a aproximação do nobre cogitava ir até as lápides dos pais para retirar o mato que as cercava. Era doloroso vê-los abandonados em morte como ela fora em vida.
Sem respondê-la, Edward lhe estendeu seu lenço. Tão logo ela o pegou para secar o rosto, ele olhou em volta. De fato o espaço destinado ao repouso eterno dos funcionários que moraram em Apple White estava mal cuidado. Depois designaria alguém que fosse limpá-lo. No momento sua preocupação estava voltada para aquela que desejava ouvir a voz desde o dia anterior. Para tranquilizá-la, externou sua decisão.
– Tão logo voltemos para casa, enviarei alguém aqui para limpá-lo. Este cemitério está mesmo muito abandonado. Para lhe ser sincero tenho tantas tarefas a cumprir que eu acabo por negligenciar outras; mesmo uma tão importante quanto esta.
– Considera mesmo importante cuidar desse cemitério? – ela perguntou sem pensar, esquecida do cheiro bom que sentia no lenço, afinal ali havia apenas trabalhadores. Ao perceber uma possível falha visto que não tinha razão para duvidar de sua palavra, corrigiu-se. – Mas que pergunta boba fui fazer!... É evidente que sim, afinal são seus parentes.
– Não são. – Edward disse prontamente avaliando-a. Era como se Isabella dissesse uma coisa, pensando outra. Não teria como ter certeza, então esclareceu. – Meus parentes são enterrados no cemitério atrás da igreja de Westking. Aqui estão os empregados que não tinham família ou moravam em nossas terras.
– Ah... – ela exclamou com a explicação. Quando o elogiou foi sincera, movida pela admiração que até mesmo demonstrou para Marie. – Muito nobre de sua parte se preocupar com aqueles menos favorecidos.
– Com pessoas. – ele a corrigiu, sem entender o brilho fugaz que cruzou os olhos negros ainda úmidos. – Todas iguais a mim...
– Pensar assim torna o gesto ainda mais nobre! – ela retrucou delicadamente, abrindo um tímido sorriso enquanto lhe devolvia o lenço.
Normalmente Edward o cederia para a jovem chorosa, contudo no caso dela se viu a tomá-lo e enfiá-lo de volta ao bolso. Era patético, Jacob rolaria os olhos, mas para ele era como se adquirisse uma lembrança da moça.
– O que disse é apenas a expressão da verdade. – falou rouco, abalado também pelo sorriso.
– De fato.
Quantas surpresas boas naquela manhã, ela pensou. Havia a narrativa da morte lenta e sofrida do velho barão, havia o reencontro com seus pais e naquele instante tinha a confirmação definitiva de que Edward era bom como Rosalie vinda de seus próprios lábios. Os mesmos que se curvavam num sorriso incerto, talvez em reflexo ao seu. Sentir pela segunda vez o ímpeto de tocá-los com sua boca a fez recuar e ocultar o sorriso, porém sem sobressaltos. Apenas sabia que não devia.
– Fico feliz que pense como eu. – Edward falou ao vê-la recuar. Para sua sorte fora apenas isso; um recuo sem expressões que denunciassem algum desagrado por sua presença. Aproveitando o clima ameno, sugeriu. – Agora que sabe que eles ficaram bem, podemos ir embora? Não acho prudente deixá-la aqui no bosque nem que fique muito tempo fora de casa... Ontem mesmo esteve febril.
– Sim, podemos ir... – ela aceitou a sugestão; não havia mais nada a fazer ali.
Ao se voltar Isabella desequilibrou-se sobre as folhas escorregadias e imediatamente estendeu o braço para ser amparada. Edward a segurou com suas mãos enluvadas e a sustentou até que firmasse o pé. E novamente não a liberou em seguida. Os dois ficaram a se encarar com as mãos unidas, muito cientes da proximidade um do outro.
Sintonizados no mesmo intuito, ambos desceram os olhos a boca próxima a sua, porém antes que qualquer movimento fosse feito Nero saltou sobre eles latindo e pulando, quebrando o encanto.
– É melhor irmos de uma vez. – Edward falou após um pigarro, não estava preparado para receber um tabefe.
– Sim, é melhor. – Isabella concordou tomando o devido cuidado para não mais escorregar; repetindo mentalmente que em sua vida não cabiam flertes.
Ao caminharem poucos passos em silêncio ela avistou o cavalo amarrado a uma árvore. Como simplesmente adorasse a espécie, esqueceu-se do ocorrido e exclamou sem nem pensar.
– Que lindo andaluz!
– Reconhece a raça? – o barão indagou admirado, alertando-a em seguida ao vê-la se adiantar na direção de seu animal. – Espere. Draco não é muito receptivo.
– Oh... – ela exclamou entristecida. – Queria sentir-lhe o pelo.
O barão se compadeceu da expressão sentida então se adiantou para soltar o cavalo para segurá-lo firmemente.
– Se não tiver medo – começou – pode acariciar-lhe o pescoço. Draco é antipático, mas ainda assim muito educado. Não a morderia.
Ao se calar Edward desejou que o cavalo não o embaraçasse quando conseguia manter uma conversa tranquila com a moça. Também gostaria de saber até onde ela iria para estar perto de um animal que prontamente reconheceu. O barão não se lembrava de ter conhecido outra mulher que se interessasse por cavalos. Expectante a viu se aproximar e bem a sua frente estender a mão pequena para tocar o pescoço de Draco. Como todo bom companheiro deveria ser, o cavalo sequer se moveu, enchendo seu dono de orgulho.
– Ele é tão macio... – ela murmurou enquanto corria a mão espalmada logo abaixo da crina tão negra quanto seus próprios cabelos. E virando-se para encará-lo sob a curta aba do chapéu de palha, comentou acusadora. – E muito simpático. É feio difamar assim uma criatura tão linda.
– Sinto muito senhorita! – o barão murmurou em falsa contrição. E em tom normal, lembrou-a. – Não me disse como reconheceu a raça.
– Eu apenas sei. – ela deu de ombros voltando a acariciar o cavalo. Não iria dizer a ele que assimilara a paixão de Embry por todos os tipos de cavalos. Nostálgica, sussurrou. – Gosto deles...
E em contra partida o nobre apreciava e muito que ela gostasse de cavalos; e de cachorros, assim como ele. Isabella confirmava ser diferente, mas não de uma forma ruim como lhe pareceu num primeiro momento. Além da beleza natural, era forte e determinada, por vezes grosseira, mas sem jamais deixar de ser feminina. Era sensível sem ser afetada e preocupada com o próximo. O inconveniente de reparar em todas aquelas coisas era cada vez mais querê-la perto quando ela lhe queria distante. Era saber que ela era comprometida e muito ansiosa em partir quando a queria para si.
Mas ela esta aqui agora, disse uma voz em sua cabeça. Com a animação inspiradora, Edward ofereceu.
– Já que gosta de cavalos o que me diz de ir até o estábulo? Temos muitos cavalos...
– Agora? – os olhos negros novamente brilharam. – Não iria atrapalhá-lo, afinal acabou de dizer que tem muitas tarefas a cumprir...
– De fato as tenho, mas nada que não possa esperar... E então, aceita?
– Aceito! – ela disse feliz; estar em meio a muitos cavalos a lembraria mais de se amado Embry; seria como se estivesse com ele mais uma vez.
Ainda mais animado pelo sorriso completo que recebeu, Edward falou.
– Já que Draco se mostrou tão bem educado e simpático, aceitaria fazer um teste?
– Qual? – Isabella indagou sem entender.
– Permita-me. – pediu e agiu.
A ação era arriscada, afinal lidava com duas criaturas ariscas, porém o barão não se importou com os riscos, apenas segurou a moça pela delicada cintura e a sentou de lado sobre a sela de Draco. O cavalo apenas recuou um passo e Isabella mordeu o lábio inferior para não gritar de susto, segurando-se firmemente. Quando o encarou tinha o rosto corado pelo choque e o formigamento onde ele a havia tocado.
– Poderia ter me avisado. – ela falou sem acusação; estava gostando de estar sobre tão magnífico animal.
– Não gostou da surpresa? – ele sabia a resposta.
– Adorei! – ela disse com um sorriso. – A cada minuto Draco prova que é um difamador, senhor barão.
– Então é isso que importa!
Edward não deixou que a formalidade estragasse o momento leve, aquele era somente um detalhe quando claramente conquistava pontos em seu favor. O passo seguinte seria esquecer os malditos pesadelos e conseguir muitos outros pontos. Segurando Draco pelas rédeas e tendo Nero em seus calcanhares, ele caminhou pela trilha deixando que o silêncio pacífico os envolvesse.
Ao chegar ao gramado e depois ao calçamento diante do palácio, Edward estava de tal forma encanto pela proximidade e a desenvoltura dela sobre seu andaluz que nem percebeu os olhares que ambos recebiam ao passarem. Muitos dos criados pararam seus afazeres para assistir a cena inusitada; nunca antes ninguém além dele mesmo havia montado em seu cavalo.
O cavalariço igualmente não ocultou seu espanto ao ver o patrão chegar a pé com outra pessoa sobre o animal, porém nada disse nem o barão reparou. Ansioso por novamente tocá-la segurou sua hóspede pela cintura e a fez descer. Com ela diante de si, recebeu mais um sorriso em agradecimento que foi capaz de amolecer seu coração.
– Obrigada pelo passeio.
– Agradeça também a Draco. – disse com voz rouca. – Dê-lhe alguns torrões de açúcar. – instruiu estendendo a mão para o cavalariço sem olhá-lo; o recado fora dado. Quando este depositou três pedrinhas em sua mão o barão as estendeu a ela. – Tome. Pode oferecer sem medo. Ele não ria mordê-la.
Isabella acreditava que não, então, tomando as pedrinhas de açúcar, estendeu-as para o cavalo e as capturou rapidamente.
– Obrigada pelo passeio Draco. – ela agradeceu como se ele entendesse. E se sentindo íntima do animal, acariciou-lhe o focinho. – Você é lindo, sabia?
Ela que era muito bonita, o barão pensou admirando a cena. Ansiava por mais então a chamou.
– Vamos conhecer os outros?
Antes que Isabella lhe respondesse um dos funcionários do galpão entrou no cercado do estábulo montado em se próprio cavalo.
– Lord Masen! Que bom que o encontrei... É preciso que venha ver uma coisa...
– Agora? – quais as chances, ele pensou aborrecido.
– Um dos tonéis está se partindo...
O homem não precisou dizer mais nada. Apreciava aquela aproximação com a moça, mas a iminência de perder parte do estoque de sua sidra era sem dúvida algo de maior importância. Voltando-se para ela, escusou-se já preparado para montar em seu cavalo.
– Preciso ir... Poderemos marcar essa visita para outra hora.
– Ou eu posso fazê-la com ele. – Isabella apontou para um assombrado cavalariço. – Vá sossegado, tenho certeza de que estarei em ótimas mãos.
– Evidente que estará. – Edward ciciou já tentando conter Draco que marchava no lugar ao sentir a agitação do dono. – Caso contrário eu as corto, ouviu Mike?
Sem esperar por resposta se foi sendo seguido pelo funcionário que fora estragar o instante perfeito; estava claro que nem sempre a providência intercederia em seu favor.
Isabella por sua vez assistiu à saída abrupta novamente sem entender a mudança de humor considerando que o barão fosse somente em parte como Rosalie. A amiga tinha seus momentos, mas não era tão instável.
***************************************************************
Notas finais
Isabella está reconhecendo as qualidades do nosso nobre e ele está bem aproveitando... ;)
Sobre o próximo capítulo... ele ficou pequeno, não tive como desmembrá-lo, então vou postá-lo no sábado como bônus e trago aqui...
Até lá então... Bjus suas lindas...
Fale com o autor