Borboleta Negra

80 Capítulo Quarenta e Oito - Parte II


Notas iniciais
Boa tarde.... Olha só, mais um capítulo dessa nossa reta final. Obrigada pelos comentários, pela paciência... Espero que gostem do que vem por aí. BOA LEITURA!

Ao cruzar os portões de Apple White, Isabella suspirou aliviada, e foi com agradável surpresa que se sentiu de volta ao lar. Esperava sinceramente que o falatório sobre a ida do barão ao Jardim ou o sumiço da cafetina requisitada não alcançasse a mansão.

– Poderei dizer a vovó onde fomos? – A questão de Embry a distraiu.

– Sim, querido... Mas espere que sua avó lhe pergunte. Apenas gostaria que não dissesse nada sobre Sam ou Angela, está bem?... Agora temos uma nova família e apenas sobre eles devemos falar.

– Eu entendi. Devo ser discreto – disse Embry, comprometido.

– Exatamente – Isabella sorriu ao notar a expressão do menino.

– Nossa! – Embry exclamou ao olhar pela janela, atraindo a atenção da mãe.

A carruagem passava ao lado de três charretes abarrotadas de lírios do vale, heras e jacintos; a decoração do casamento. Isabella pousou as mãos sobre o ventre na tentativa inútil de acalmá-las.

Ao pararem diante da mansão, ainda pela janelinha da portinhola, Isabella viu a agitação de criados e entregadores, todos sobre a supervisão de Rosalie. A moça sempre seria capaz de abrir a porta e saltar, mas esperou que Jacob viesse ajudá-la, aproveitando os parcos minutos para a retomada de fôlego. A cada detalhe a realidade adquiria novos contornos.

– Senhorita – Jacob a chamou, entendendo-lhe a mão.

– Obrigada – ela murmurou ao descer, recebendo o sorriso da amiga.

– Até que enfim! – Disse Rosalie de modo divertido. – Estávamos preocupados... Jasper troçou sobre a noiva ter fugido... Edward riu, mas acredito que de alguma piada particular. Talvez por lamentar não dispor de uma pistola que calasse o duque.

Isabella tinha certeza, mesmo sabendo que seu noivo jamais o fizesse. Enquanto Jacob ajudava Embry a descer e pegava o embrulho com o novo casaco, ela considerou inofensivo revelar a parte publicável de sua relação com Carlisle.

– Precisei passar no banco para tratar de alguns assuntos. Sou correntista de sir Carlisle.

– Ah, sim? – Os olhos de Rosalie brilharam curiosos, mesmo que revezasse sua atenção com os criados.

– Sim – confirmou a moça antes de se voltar para Jacob. – Entregue-me o embrulho. Posso levá-lo ao entrar.

– Faço isso, senhorita.

– Não há necessidade, obrigada – ela insistiu e capturou o embrulho. – Já me ajudou muito por hoje.

Tão logo Jacob assentiu, Embry puxou a saia do vestido da mãe, chamando-lhe a atenção.

– Posso procurar por Lionel e John? – pediu.

– Sim. Assim que mostrar a sua avó que voltamos... Sabe que ela é sua responsável.

– Ele pode ir – a voz da baronesa soou da porta. Imediatamente Isabella olhou em sua direção em tempo de ver a senhora chegar à beira da escada. – Já vejo que estão de volta. Os meninos estão no estábulo, Embry, com seu pai, o duque e o conde. Vá com Jacob.

– Obrigado, vovó.

Para o menino foi o bastante e logo estava ao lado de Jacob. Isabella não entedia a razão, mas estava presa ao olhar da baronesa, esta estática aos pés da escada.

– Como está tudo na cozinha, mamãe? – indagou Rosalie.

– Tudo de acordo – respondeu a baronesa, sem deixar de encarar a futura nora. – E as flores? Não seria melhor verificar se estão deixando cada coisa em seu lugar?

– Sim, por certo – disse a duquesa, antes de olhar de modo solidário para a amiga. – Vemo-nos depois, Isabella.

A despedida da nobre dama livrou a moça de seu transe. Sozinha com Elizabeth, Isabella finalmente subiu para que pudesse entrar.

– Ouvi-a dizer que foi ao banco – comentou a baronesa.

– Sim. – Isabella parou para sustentar-lhe o olhar. – Edward soube que Embry comentou conhecer sir Carlisle e considerou acertado deixar que eles se encontrassem... Para eliminar a expectativa. De minha parte, quis agradecer tudo o que fez por meu filho.

– Edward soube... – Elizabeth repetiu. – Diz tudo ao meu filho?

– O que é relevante, sim... Errei ao omitir Embry – e outros detalhes que não comentaria, pensou –, e não quero reincidir na falta. Agora, se me der licença...

– Por certo Edward retribui a confiança – disse Elizabeth, deixando claro que a conversa não tinha chegado ao fim.

– Acredito que da mesma forma, senhora... Contando-me o que é relevante.

– Acaso ele considerou relevante dizer a razão de eu ter recusado a... a atenção do Sr. Zimmer?

Aquele era um terreno perigoso no qual Isabella não gostaria de pisar, ali, com criados a ir e vir, mesmo que talvez não as ouvisse pelo baixo tom que usavam. No entanto, via no semblante da baronesa que não seria dispensada sem fazê-lo. Assim sendo, Edward que a perdoasse, mas já possuíam segredos demais.

– Sim, ele considerou relevante.

– E o que lhe pareceu? Como considerou minha recusa?

Isabella duvidou de sua capacidade auditiva, e respondeu com sinceridade.

– Apenas a ouvi, senhora. Não me cabe considerar coisa alguma. Trata-se de vossa vida. É a senhora quem a vive e sabe o que é melhor para si.

– Não lhe aborreceu saber que ficarei? – Elizabeth escrutinava-lhe o rosto.

– Evidente que não! – Isabella uniu as sobrancelhas em estranheza. – O que quer saber de fato, milady?

– Acredito que já tive minha resposta – a baronesa desconsiderou o interrogatório ao mover a mão em um aceno curto. – Pode não ser verdade, mas parece mesmo não se importar que eu fique e cuide de Embry... Ou do filho que virá.

– Oh! – Edward lhe dissera a razão da recusa, não que contara à mãe sobre o outro filho. Ou teria sido Irina? Instintiva, Isabella tocou o ventre com a mão livre. – Então a senhora já sabe?

– Sei o q...? – A questão morreu na garganta da baronesa, que olhou para a mão protetora e então para os olhos da futura nora, e novamente para a mão.

Tarde demais Isabella entendeu que Elizabeth dissera o que dissera, hipoteticamente.

– Lady Westking, eu...

– Grávida? – Elizabeth murmurou após olhar para os lados, certificando-se de que não seria ouvida antes de se aproximar. – Espera outro filho de Edward? Quando pretendia me contar?

Negar um estado irreversível depois do seu ato falho seria pior.

– Mais uma vez, não cabia a mim... E acredito que Edward o fizesse depois do casamento.

– Bem, sem dúvida seria o momento adequado até mesmo para gerarem outro filho, mas todos sabem que aquela porta de ligação não se mantém trancada durante a noite.

Ou ao dia, Isabella pensou de imediato, mas aquele era outro detalhe impronunciável.

– Lamento que tenha sabido assim... – a Isabella não ocorreu nada mais a dizer.

– Não lamente – disse Elizabeth já a olhar para um dos criados que ajudavam a carregar as flores. – Ei, Beni! Entregue isso a outro e venha cá.

Isabella olhou de um ao outro sem entender a necessidade de chamar um criado. De súbito um pensamento insano cruzou sua mente, algo relacionado à expulsão de uma interesseira, caça-dotes. Maluquice, evidente, então tratou de esvaziar a mente e esperar que o criado viesse atender à senhora. Ao tê-lo diante de si, Elizabeth indicou a jovem e ordenou:

– A senhorita não deve carregar peso. Tome esse embrulho e leve...

Ao se interromper, Elizabeth encarou a moça. Isabella demorou bons minutos até compreender que deveria dar a direção ao criado.

– Ao quarto de Embry – disse num fio de voz.

– Com licença – pediu Beni antes de tomar o embrulho e obedecer à ordem.

– Você pode subir agora. Descanse até que seja hora do almoço.

– Mas...

– Vá! – Elizabeth encorajou-a, de súbito cansada. – Vá descansar. Não disponho de tempo, porém eu mesma preciso me deitar por um instante.

De fato Isabella gostaria de se deitar; sua cabeça girava. Confusa, ainda escrutinou o rosto da senhora por um instante antes de seguir o criado; e ser seguida.

– Beni – chamou-o quando este já abria a porta do quarto indicado. – Sei que tudo está tumultuado, mas poderia ir até Marie e lhe pedir que me trouxesse um de seus chás calmantes?

O criado assentiu, sorrindo-lhe com simpatia. Isabella maneou a cabeça em agradecimento e marchou ao próprio quarto. Decididamente precisava se recostar, ela pensou enquanto retirava os grampos que prendiam seu chapéu.

As cenas da manhã, desde o encontro com Carlisle, Sam e Angela, até a recente com a baronesa, dançavam em sua mente, atordoando-a. Ao se acomodar na cama, derreada nos travesseiros, Isabella previu que ainda seria preciso ser servida com muitos chás de Marie.

Ѽ

Edward tinha consciência de que não era boa companhia. Por vezes tinha ganas de chacoalhar o duque pela lapela para por fim às troças quanto à fuga de sua noiva. A salvação de Sua Graça se dava à boa educação que tivera o barão e também à presença do conde. Alguém que, mesmo tento cedido à brincadeira na tarde anterior, livre do álcool, voltou a ser comedido.

Estavam no estábulo, atendendo ao pedido de Emmett que durante o passeio daquela manhã pelas fazendas da região, demonstrou o interesse em um dos cavalos do barão. Na ocasião não lhe deu atenção por estar com a mente em Wisbury, então, distraidamente colocou todos seus animais à disposição do nobre; com exceção a Draco.

Por sorte, ao chegarem ao estábulo, Edward descobriu que Emmett gostaria de levar um de seus baios. Seria embaraçoso, porém retiraria sua palavra caso a escolha do conde fosse a Palomino.

– Não está me ouvindo? – Emmett indagou, consternado.

– Perdão, Whitlock, mas de fato não ouvi – pediu ao conde e alertou ao duque: – Antes que diga algo, não estou preocupado.

– Não é o que parece – Jasper retrucou, surpreendendo-o pela seriedade. – Provoquei-o na esperança de animá-lo, mas só consegui azedá-lo mais. Desde que cheguei vi-o rir francamente na tarde de ontem, e atribuo o feito à sua sidra. No geral parece estar em alerta constante, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer.

– Sinto o mesmo – Emmett fez coro, avaliando Edward com atenção. – Vi homens em campos de batalha menos consternados do que você, Westking.

– Nem parece que vai se casar amanhã! – arrematou Jasper, como esperado. – Fico a me perguntar qual a razão. Se não tivesse reparado como olha para sua noiva pensaria que é forçado a desposá-la.

– Apesar de reparar um erro, não faço por obrigação – disse Edward, aborrecido por sua transparência. Porém, tinha a melhor das desculpas. – É apenas ansiedade. Mesmo que seja simples, não quero que haja falhas amanhã.

– Não vai haver, Westking – garantiu Emmett. – Como disse, será algo simples, nos salões de sua casa, para poucas pessoas. Tudo correrá bem.

– É como penso – Jasper fez coro, animando-o. – Isso, se a noiva voltar...

Edward se obrigou a rir. Aborrecer-se com o duque não fazia sentido quando a consternação era dirigida a um homem que sequer estava ali, sim com sua noiva. Alguém por quem ela tinha grande apreço e que talvez não fosse capaz de romper as malditas amarras. Ainda a sorrir, Edward passou a mão enluvada pelos cabelos na tentativa de domar seus pensamentos, considerando que tudo ficaria melhor quando Isabella voltasse.

Como uma resposta ao seu pensamento, o barão ouviu a aproximação de sua carruagem. Depois de pedir licença aos nobres, caminhou a passos largos até a entrada do estábulo. Chegou a tempo de ver Embry saltar sem esperar pela ajuda de Jacob.

– Estou de volta, senhor! – Apresentou-se o menino como se não fosse visto, sorrindo.

– Por certo que está! – Edward respondeu no mesmo tom, feliz em vê-lo; sua noiva igualmente estava de volta. – Apreciou o passeio?

– Muito! – Embry garantiu e moveu uma das mãos para que o pai se aproximasse. Depois de curvar-se, Edward assentiu para que o menino prosseguisse e este segredou: – Obrigado por me deixar visitar sir Carlisle, papai. Prometo ser discreto e não falar que vi Sam e tia Angela.

A frágil paz deixou o coração do barão. Certificando-se de que não fora seguido pelos cunhados, evitando olhar para Jacob que, assim como Isabella, desobedeceu-o, indagou:

– Estiveram na casa de sua tia?

– Não, papai. Eles estiveram no banco de sir Carlisle.

– Eu os levei às lojas e diretamente ao banco – disse Jacob ao se prostrar diante de pai e filho. – E de lá, trouxe-os para Apple White.

– Muito bem... – Edward não gostou da novidade, mas reconhecia que a ação do banqueiro eliminou um problema. – Embry, seus primos estão com seus tios, Mike e Nero – disse ao se aprumar, apontando o interior do estábulo. – Vá com eles. Logo irei lhes fazer companhia.

Embry assentiu e fez como pedido, deixando o pai livre para conversar com seu criado.

– Viu algum conhecido?

– Não amigos próximos, senhor. Mas na verdade, todos são conhecidos. – Jacob rolava o chapéu em suas mãos. Antes que o patrão o interpelasse por sua postura, disparou: – Então, algo que observei em todos me incomodou.

– E o que seria? – Edward preocupou-se. Jacob não era um homem impressionável.

– Todos nos olhavam com curiosidade, senhor. Especialmente sua noiva. A senhorita Isabella não reparou por somente ter olhos para o filho, mas eu, sim... E digo que não gostei.

Edward desarmou-se.

– Como bem disse, curiosidade apenas. A notícia de meu casamento se espalhou. E não duvido que até a existência de um filho. Todos especulariam.

– Não sei, senhor... – Jacob torceu os lábios, incerto. – Os mais interessados eram os cavalheiros.

De súbito Edward elucidou. A especulação masculina tinha de ter base em sua ação intempestiva, ditada pelo álcool. Era a única explicação. E se estivesse certo, nada poderia fazer. Nem mesmo alarmar seu bom amigo.

– Esqueça! – Ordenou. – Obrigado por levá-los e trazê-los em segurança. Agora, desatrele o cavalo enquanto peço a Mike que venha lhe dar de beber e comer. Fique à vontade para tirar sua tarde de folga. Amanhã o dia será cheio. Já deixei Mark encarregado de cuidar dos serviços referentes à propriedade.

Jacob ameaçou insistir, contudo reverenciou-o, vestiu o chapéu e seguiu até a carruagem. Edward respirou profundamente e seguiu os passos do filho. De fato não tinha nada a fazer naquele momento além de efetivar uma venda e esperar que o falatório tivesse início.

Ѽ

Isabella despertou de um cochilo não programado ao ouvir o fechar da porta. Como o quarto se manteve mergulhado em silêncio, acreditou estar sozinha, com isso não se moveu. Marie a encontrou dormindo e a deixou, a moça considerou sem abrir os olhos. Por essa razão, praticamente saltou e caiu sentada na beira da cama ao ouvir a dura indagação:

– Conseguiu, não é mesmo?

– Sue?! – Isabella se odiou por tremer. – O que faz aqui?

– Para o azar da senhorita, praticamente todos os criados encontram-se ocupados e na falta de Marie, eu mesma lhe preparei o chá calmante a pedido de Beni – apontou para a pequena bandeja que dispôs sobre a penteadeira antes de cruzar as mãos diante do corpo em falsa subserviência. – Deseja experimentar agora para saber se está de seu agrado? Preciso voltar para as minhas panelas.

– Estou bem – disse Isabella, sem deixar de encarar a avó. – Fique à vontade para sair quando desejar.

– Como pode? – Sue maneou a cabeça com incredulidade, rindo escarninho. – Assume ares de boa dama e dita ordens à criada como se não fosse da mesma laia.

– Não sei nada sobre dar ordens, mas sei que não sou da sua laia – Isabella retrucou. O tempo de temer Sue Wood ficou no passado.

– Gosto quando as cobras reagem – Sue desdenhou –, mas é desnecessário apresentar sua peçonha. Desarme-se.

– Jamais! – Assegurou em alerta.

– Pode não parecer, mas não vim ameaçá-la.

– Realmente, não parece. E bem me lembro que tinha pressa, então... – Isabella apenas indicou a porta entreaberta. – Fique à vontade.

– Não tão rápido. Antes preciso confirmar minha conclusão – Sue a escrutinava. – Ainda custo a acreditar que de você tenha saído um bom menino.

– Não se atreva a se aproximar de meu filho! – Isabella reagiu reflexivamente, pondo-se de pé. – Proíbo-a até mesmo de olhá-lo!

– Poupe-me de seu sibilar, pequena cobra. Jamais faria mal ao menino... Ele é meu bisneto.

– Laços de sangue nada significam para a senhora. Bem sabemos!

– Não tenho problemas com o sangue que nos une – Sue redarguiu. – Sim, com a péssima conduta das mulheres dessa família desgraçada. Fiz tudo o que pude para que minha filha fosse decente, cordata e fizesse um bom casamento. E o que tive? Uma promiscua que se entregou ao primeiro pobretão que lhe fez juras de amor, condenando-nos a essa vida miserável.

– Não me recordo de ter sido miserável até que fosse viver com a senhora – Isabella não admitiria que a avó denegrisse a imagem de seus pais. – Sei que minha mãe era feliz! Havia riso em nossa casa!

– Risos não enchem barriga nem elevam o status de alguém – ciciou a cozinheira. – A mão de Renée era prometida a um prospero comerciante de Wilton. Enquanto esperava que ela completasse dezesseis anos para desposá-la, ele nos mantinha. Todavia a despudorada preferiu fugir com um borra botas. E quem pagou por isso? Quem foi obrigada a dispor de tudo o que tinha para ressarcir o dinheiro recebido? Eu! – Sue socou o peito. – Eu!

Isabella levou as mãos à boca, surpresa. Nunca poderia sonhar com nada parecido, e não teve tempo de externar suas impressões, pois a avó prosseguiu:

– Não me sobrou uma galinha para que vivesse da venda dos ovos. Nada! Passei por embusteira, por mãe de mulher perdida. Ao saber pelo o que eu passava, Renée foi me buscar, mas nem sei o que foi pior... A sorte foi ter encontrado essa casa, onde, mesmo trabalhando como mulas, nós tivemos um teto digno. E quando ela poderia se redimir, colocando no mundo um homem que provesse a família ao crescer, ela dá a vida a uma menina.

Sue indicou a neta com um gesto grandiloquente, em tom depreciativo.

– Alguém que nunca me enganou e que na primeira oportunidade se mostrou tão ou mais devassa do que a mãe.

– A senhora é louca! – Isabella exaltou-se ao elucidar o que tinha se passado; a razão do rancor doentio da avó. – Se queria ser sustentada, que tivesse se casado, não vendido a filha. E, por favor, pare de agir como se acreditasse no que diz. Sabe muito bem que não tive culpa do que aconteceu.

– Teve! – Sue a desdisse. – O barão jamais a atacaria se não o tivesse provocado. E tem mais! Pode enganar quem quiser, mas não a mim. Sei que o menino é filho de sir Edrick, não de sir Edward. A semelhança é inegável. Fiquei confusa por um momento, mas depois... Ao recordar como tudo se deu... Não há a mínima possibilidade de o segundo barão ser o pai.

– Cale a boca! – Isabella demandou e avançou um passo. Estacou enregelada no segundo seguinte ao notar um movimento no corredor. – Quem está aí?

A moça rogava para que fosse impressão, quando ouviu o farfalhar das saias e viu o vulto feminino cruzar diante do vão da porta, inexplicavelmente mais do que entreaberta. Ao reconhecer os cabelos castanhos e o vestido cinza chumbo, Isabella sentiu como se pudesse desfalecer, contudo demandou a si mesma que fosse forte. Ignorando a senhora que tentou detê-la, deixou o quarto e seguiu a odiosa espiã.

– Irina, pare – pediu. Não foi atendida e saber que a criada seguia para os aposentos da baronesa a desesperou. Tinha vontade de gritar, mas entendia que somente faria maior alarde quando precisava de discrição; e de alguma compaixão. – Pare, por favor... Eu lhe imploro.

Irina não lhe deu atenção e não parou até que estivesse ao lado da cama da baronesa. Isabella se apoiou ao limiar, arfante, aflita.

– Irina... – chamou num murmúrio, rogando para que a senhora estivesse dormindo. – Não faça isso... Por favor... Eu lhe dou o que pedir...

Irina Ulley a encarou. E enquanto Isabella via nos olhos argutos que nada demoveria a criada, além dela viu também quando a baronesa se sentou. Sem se dar conta de que a patroa as analisava com estranheza, Irina retrucou:

– O que eu pediria não viria a mim apenas porque você me daria.

Em um ato impensado, Isabella entrou e pegou Irina pelo braço para arrastá-la. A criada reagiu de imediato e lutou, levando a baronesa a intervir, horrorizada:

– Mas o que significa isso?! Solte a criada!

– Lady Westking... – Isabella sussurrou. – É um assunto nosso. Irina não deveria...

– Deveria, sim! – Interrompeu-a Irina, tentando se soltar.

– Parem com isso! Solte-a já! – Elizabeth se levantou, encarando a futura nora severamente. – Solte Irina, criatura!

Derrotada, Isabella a obedeceu e se afastou. Odiou ver o brilho vitorioso cruzar os olhos da criada, mas não desviou seu olhar. Estava apavorada, seu estômago dava voltas, mas não tornaria a suplicar a quem quer que fosse.

– Muito bem! – Elizabeth pousou as mãos sobre as saias, olhando de uma a outra. – Sente-se, senhorita Swan.

– Estou bem de pé – retrucou bravamente, mesmo que calafrios cruzassem sua coluna.

– Não sugeri – disse a baronesa, altiva. – Sente-se!

Isabella pensou em sair, mas soube que aquela não seria uma alternativa e se sentou no sofá próximo à janela.

– Melhor assim... Irina – a criada sorriu ao ser chamada. – Sirva um copo com água à senhorita.

O sorriso convencido morreu, dando lugar a um esgar enojado.

– A senhora não irá querer que a sirva quando souber o que tenho a dizer.

– Talvez, porém, como ainda não sei... Sirva-a!

Com os lábios travados e movimentos forçados, Irina obedeceu à patroa. Em outra ocasião, a moça não receberia nada que viesse das mãos da criada, contudo bastou ver a água para se sentir sedenta. Depois de beber tudo que lhe foi servido, devolveu o copo e, recuperada, preparou-se para o que viria, agradecendo a agitação de todos. Quando o mundo desabasse, ao menos teria privacidade.

– Agora sim – Elizabeth respirou profundamente, impassível. – Quem explicará essa cena lastimável?

Isabella se manteve calada. Sabia ser inútil iniciar sua defesa antes da acusação. Que fosse delatada! Pensou com resignação. Ante ao inevitável, lamentou por Edward que veria seu plano ruir muito antes do que poderia imaginar.

– Vamos, Irina! – Incentivou a baronesa. – Parecia tão ansiosa a me atualizar dos fatos e agora se cala?

De súbito a criada assumiu ares de uma profunda consternação e indicou a cama.

– Será melhor que se sente. O que tenho a lhe dizer é assombroso, milady. Eu mesma não sei como estou de pé.

– Eu sim! – Elizabeth ergueu uma sobrancelha em desafio, indicando conhecer bem sua criada. – Vai dizer ou terei de obrigá-la.

– Bem... – Irina olhou para Isabella brevemente. – Lamento profundamente ser portadora de tão odiosa revelação, milady, mas acabo de ouvir que o menino Embry... Bem...

– Diga! – A baronesa exasperou-se. – O que tem meu neto?

– Ele não é vosso neto, Lady Westking – disparou Irina com simulada comoção. – Todos estão sendo vítimas desta vil mentirosa. O menino é filho de sir Edrick, seu amado e saudoso marido. Em seu lugar, mandaria expulsar a traidora desta casa honrada. Se quiser, eu...

– Cale-se! – Ordenou a senhora, trêmula, lívida. – De onde tirou essa sandice?

– Ouvi Sue Wood atirar a verdade sobre a neta... Sabe que são parentes, não?

– Sim, eu sei que são parentes... – Elizabeth a mediu de alto a baixo. – Novo para mim é que você seja obtusa. Sempre a considerei, Irina. Como pode acreditar no que diz uma velha senil?

– Milady? – Irina uniu as sobrancelhas em estranheza. – Sue Wood...

– Há tempos Sue Wood sequer sabe em que dia estamos – cortou-a a baronesa. Sem saber o que pensar, obrigando-se a respirar, Isabella ouviu a altiva dama acrescentar: – Se ainda trabalha nessa casa é tão somente porque sou generosa, mas no dia em que me servir pedras, eu a interno em um asilo. Ou se um dia eu me aborrecer de fato com as ignomínias que inconsequentemente propaga.

– Senhora? Não creio que...

– Também posso me aborrecer com quem for temerário ao ponto de repassar tais infâmias que viriam a denegrir o bom nome de minha família. Ou ainda a perspicácia do novo barão. Acaso acredita que seu senhor se deixaria ludibriar?

– Senhora... Eu... – balbuciou a criada, estupefata.

Tão ou mais assombrada do que Irina, Isabella assistiu a baronesa apontar a porta enquanto dizia:

– Saia e diga a Sue Wood que ela se dedique às panelas, de boca fechada. Não preciso salientar que o acréscimo se aplica a você, não? Gosto de seus serviços e lamentaria ser obrigada a pedir que se retirasse de Apple White.

Irina conteve a respiração. Por um instante Isabella acreditou que a criada fosse enfrentar a patroa, porém esta baixou o olhar e anuiu:

– Perdoe-me, milady, por ter sido tola e acreditar no que diz alguém fora de seu juízo. Não tenha cuidados, pois de minha boca não sairá nenhuma palavra sobre o que ouvi. Apenas quis alertá-la.

– Sua dedicação me contenta – disse a baronesa –, portanto a perdoo. Agora vá.

Irina se inclinou com deferência e se afastou, contudo não deixou o quarto sem dirigir um longo e sugestivo olhar para Isabella. A moça soube que sua atenção ao que se referia à criada teria de ser redobrada. Ainda incrédula com o desenrolar da cena, Isabella se levantou. Voltaria ao próprio quarto, onde tentaria assimilar o que ouviu. Antes que pedisse licença, contudo, viu a senhora oscilar e cair sentada sobre a cama.

– Lady Westking?! – aproximou-se, preocupada. – O que houve?

– Há a necessidade de perguntar? – Elizabeth a encarou, escrutinando-lhe o rosto. – Creio que não.

Isabella lhe sustentou o olhar, confusa. A baronesa parecia abalada, porém, não faria sentido quando tinha refutado as palavras de Irina. A moça ainda tentava elucidar o que pensava a senhora, quando esta lhe pediu:

– Volte a se sentar... E me diga, sem rodeios, quantas vezes o primeiro barão a procurou.

Isabella agradeceu por estar ao lado da cama e, sem pedir licença, deixou-se cair sentada, pesadamente, sabendo que seus olhos estavam maximizados.

– Senhora – disse em um murmúrio. – Não há o que...

– Não dispomos de tempo – Elizabeth a interrompeu, sem ser grosseira. – Realmente não dispomos de muito. Considero um verdadeiro milagre que não nos tenham vindo chamar, então, por favor, me diga... Quantas vezes o primeiro barão a procurou.

– Baronesa... – enregelada, Isabella maneou a cabeça. – Não pode ter acreditado. A senhora disse bem... Minha avó está louca.

– Todos nós vivemos em meio à loucura – redarguiu a baronesa. – E o que mais lamento é estar certa quanto à paternidade de Embry. E não me olhe deste modo! Não sou cega ou parva.

– Sim, senhora... – Isabella novamente maneou a cabeça, confusa. – Digo... Não senhora... Não é.

– Sue Wood apenas deu voz a um pensamento que por dias calo. O que disse sua avó tem sentido, não as falas desse romance folhetinesco que Edward e você representam. Fui lenta de raciocínio. Eu deveria ter sabido, desde o primeiro momento. O homem que criei nunca tomou liberdades com as criadas. E se o tivesse feito, especialmente se tivesse roubado a honra da moça, iria exigir que prestássemos conta de seu paradeiro quando não a encontrasse. Mesmo que não tencionasse assumi-la. Portanto, imagine se Edward iria se calar caso a amasse como alegou...

Tolos, Edward e ela, Isabella pensou. Elizabeth era como Rosalie, conhecia-os. E pela devoção demonstrada a Edward, era preferível ter um marido adúltero a um filho inconsequente. Isabella a compreendia, mas não via como externar o que a senhora exigia ouvir.

– Confie em mim – Elizabeth pediu, perscrutando-lhe o rosto. – Esse é o momento. Seja o que for que tenha a me contar... O segredo mais torpe... A verdade mais aterradora... Se ouvir de sua boca, dou minha palavra de que a entenderei. Estou farta de mentiras, menina. E decididamente não quero ser obrigada a improvisar sempre que surgir alguém alardeando particularidades que deveriam ser mantidas em família.

Isabella não poderia. Como confiaria em alguém que sempre a desprezou? Sim, era fato que nos últimos dias mantinham uma convivência pacífica, mas... confiar ao ponto de expor seus segredos mais torpes?

– Confie – disse a baronesa, como se tivesse lido o pensamento de moça. – Edward a escolheu e nada mudará o fato de que amanhã será uma Masen Bradley, a nova baronesa de Westking. Assim sendo, devemos nos unir. Como disse, estou farta de mentiras.

Isabella não deveria. Procurava por uma forma de veementemente endossar a farsa, quando a senhora falou:

– Você não seria a primeira criada a ser procurada pelo barão. E eu sempre soube que aconteceria. Esse era um dos motivos que querê-la longe dos cômodos sociais, mas não havia muito que eu pudesse fazer uma vez que Rosalie não a largava nunca. Por vezes tinha a esperança de que não acontecesse, afinal, ele a viu crescer. E hoje descobri que nem isso o demoveu. Por favor... Não temos tempo. Apenas confie... E diga tudo que devo saber.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado e não estejam planejando uma caça à autora por terminar assim... Semana que vem, tem mais. ;) Bom final de semana, e até sexta!...