Borboleta Negra
81 Capítulo Quarenta e Nove
Notas iniciais
Decididamente Isabella não deveria, porém as palavras da baronesa a desarmaram. E espantoso não era descobrir não ter sido a primeira a ser “procurada” pelo porco, sim a mudança no tom da senhora, o pedido livre de altivez. Talvez se arrependesse, mas confiaria.
– Duas vezes – disse de chofre e baixou o olhar quando Elizabeth conteve a respiração. Como não havia volta, reiterou: – Sir Edrick me procurou por duas vezes.
– Onde?
– Uma vez na cozinha, quando todos dormiam... E outra na dispensa, quando poucas pessoas estavam na casa, na tarde do dia de minha expulsão. E não foi por minha vontade – acrescentou ao ter coragem de encarar a baronesa.
– Eu sei que não foi – Elizabeth garantiu. – Com nenhuma delas, jamais foi por vontade. Que meus filhos não me ouçam, mas o pai deles era um monstro. Eu o odiava!
– Mas... – Isabella não soube o que dizer ou pensar.
– Não temos intimidade – disse Elizabeth como se sequer a tivesse ouvido. – E não pense que passei a considerá-la uma boa escolha para meu filho, pois não é... Mas admito que aos poucos meu coração se acalma ao observar o modo como você o trata ou como ele a olha. Vejo também que é boa mãe e mesmo que não a agrade, mesmo que transgrida ordens, insiste para que o menino as siga e respeite aos mais velhos. Se antes eu tinha isso em alta conta, agora, com a verdade revelada, apesar de tudo, admiro-a.
– Admira-me? – Isabella uniu as sobrancelhas. Era muito para que pudesse acreditar.
– Sim – reiterou a baronesa. – E revelei como me sinto para justificar o que farei agora... Irei confiar em você e contarei por que eu o odeio e por que a admiro. Na verdade, sempre quis ter alguém com quem dividir o “meu” segredo aterrador e por extraordinário que possa parecer, hoje sei que você é esse alguém.
– Senhora... – Isabella estava confusa, mas decididamente não queria ser confidente da futura sogra. Contudo, não dependia de sua vontade.
– Imagino como tudo se deu com você, com todas, pois aconteceu o mesmo comigo.
– O quê?! – A moça ameaçou se levantar, porém a senhora a deteve, segurando-a pelo braço.
– Fique quieta e me ouça. Nunca disse nada a alguém. Nem mesmo meus pais jamais souberam... Apenas meu sogro, mas sua palavra não foi levada em consideração, pois Edrick fazia com que todos tratassem o pai como alguém senil.
Imediatamente Isabella se lembrou da péssima relação entre pai e filho. Começava a descobrir a razão, e talvez compreendesse, mas acreditar que sir Edrick estuprou a esposa... Como poderia? Isabella não sabia como, mas sabendo que não seria liberada de ouvir, considerou alarmante o pouco tempo que dispunham e incentivou a senhora a prosseguir:
– Estou ouvindo, milady.
Elizabeth assentiu e por fim a soltou. Após um suspiro resignado, disse:
– Nossas famílias sempre foram amigas, vizinhas... A propriedade hoje arrendada por Cameron Hope pertencia ao meu pai. Edrick nunca escondeu seu interesse por mim, contudo eu não o correspondia. Ele chegou a pedir ao meu pai que prometesse minha mão a ele. Disse que esperaria até que eu debutasse para que pudéssemos nos casar, porém mamãe tinha planos mais ambiciosos para mim. Ela tinha em vista o herdeiro de um ducado, o filho de uma velha amiga de Londres, então não sossegou até que meu pai recusasse o acordo.
Isabella apenas assentiu, envolvida demais para tecer qualquer comentário.
– Eu não queria um nem outro – disse a baronesa, dispersa, como se visse as cenas do passado. – Meus pais não poderiam imaginar, mas eu amava um de meus primos. E era correspondida. Sempre que nos víamos, trocávamos juras de amor. Durante a última estada de Zachary em nossa casa, Edrick nos flagrou. Na ocasião, jurou que não nos delataria. Mostrou-se amigo e prometeu nos ajudar... E eu acreditei. Era tola e crédula aos dezesseis anos. Depois de Zachary ter partido, Edrick me enviou um recado pedindo que fosse encontrá-lo no pomar de sua propriedade.
– E a senhora foi – Isabella falou sem pensar. Também via a cena e se reconhecia, pois também acreditou no velho barão e foi até ele.
– Sim... Eu fui e caí em uma armadilha. Edrick não somente me sequestrou como tirou minha honra, à força. Disse que o fazia por amor, que se não o aceitaram como genro por bem, seria por mal, mas que não perderia a sua menina. Acredita nisso? O pulha assim me chamava na intimidade, minha menina... Argh!
Nem que quisesse Isabella poderia se mover, estava em choque. Não havia razão para duvidar do que dizia a baronesa. De fato, o primeiro barão era pior do que poderia imaginar.
– Pela manhã, Edrick me levou para casa. Encontramos os pais dele com os meus, pois o trapaceiro deixou um bilhete dizendo que fugiríamos. Todos estavam aflitos demais para me ouvir. Apenas o velho Edward acreditou em mim, mas como lhe disse, o filho ridicularizava sua palavra, então fomos ignorados. E não houve muito que ele ou eu pudesse fazer...
– E seu primo?
– Enviei uma mensagem, pedindo que me ajudasse – revelou a senhora com os olhos fitos em um ponto no tapete, estoica. Como se a emoção tivesse se esvaído com os anos. Após um suspiro, acrescentou: – Zachary não acreditou na minha palavra. Em sua resposta, disse que Edrick era um homem honrado. Que, se algo tinha acontecido entre nós, foi porque eu lhe dei esperanças. Ele era minha última esperança... Sem ter a quem recorrer, casei-me obrigada em duas semanas. Nos dias que se seguiram comecei a traçar planos que abreviassem minha vida.
– Lamento por isso, milady – disse Isabella, comovida.
– Também lamentei – Elizabeth assegurou. – E mesmo que fosse contra o que prega o vigário, quando passei a sentir nojo de mim sempre que era procurada por meu marido, atendei contra minha vida, recusando-me a comer. Mas o destino me preparou uma surpresa e descobri estar grávida.
– De Edward...
– Sim... – a voz da baronesa tremeu, porém ela se manteve firme na narrativa. – E foi por ele que resolvi viver. Aquela criatura de Deus não tinha culpa do meu péssimo destino. Apenas lamentei que não fosse filho de Zachary, mas jamais o odiei por não ser. Pelo contrário... Dei a ele todo meu amor para que anulasse um péssimo caráter e fosse alguém melhor do que o pai. Amo minhas filhas, mas Edward é literalmente a minha vida.
Isabella não conteve suas lágrimas ao ouvir como se sentia nas palavras da baronesa.
– Apesar de tudo, Embry é a minha vida – disse sem pensar.
– Sei que sim... E agora entendo a razão de escondê-lo. Se eu tivesse tido essa oportunidade, eu faria o mesmo. Livraria meu filho da influência nociva no pai. Felizmente, para os filhos e para a sociedade, Edrick apresentava sua outra face. Edward, talvez, tenha sido o mais iludido.
– Até descobrir o que se deu comigo, milady – Isabella revelou. – Por mim, ele jamais saberia. Por essa razão eu tentei me manter distante, mas já era tarde... E ele não me deixou ir.
– O que prova minha palavra – salientou a senhora, esboçando um fraco sorriso. – Edward, sim, é um homem honrado e se a tivesse seduzido, exigiria saber para onde a enviamos quando não a visse em Apple White.
Isabella assentiu, escrutinando o rosto da baronesa, descobrindo uma nova pessoa.
– E para onde foi? – indagou Elizabeth. – Agora sabe o meu segredo. Deixe-me saber o seu. O que se deu depois de deixar Apple White?
A moça se sentiu enregelar. O segredo confiado a ela era nada se comparado ao seu. Deveria se calar, mas de repente as palavras que ouvira de Angela há pouquíssimas horas, vieram-lhe à mente. A ida do barão ao Jardim já era comentada à boca miúda. Quanto demoraria até que os sussurros do salão cruzassem a ponte?
Por mais que seu estômago protestasse e seu senso de preservação ordenasse que ficasse calada, Isabella dava à baronesa toda a razão. Antes saber por um dos envolvidos do que ser abordada e ouvir relatos maldosos. Isabella procurava por coragem para narrar os passos que trilhou até ali, quando bateram à porta. Ambas se sobressaltaram e antes que qualquer palavra fosse dita, quem as interrompeu entrou sem esperar pela ordem.
– Milady, o... – Marie estacou ao vê-las. – Mil perdões, senhora! Não sabia que conversava. Eu...
– Saberia se tivesse esperado por minha resposta – retrucou Elizabeth, voltando a ser a senhora altiva que Isabella conhecia. – O que deseja?
– Avisar que o almoço será servido em quinze minutos, milady. E que vossas filhas pedem por sua presença, Sua Graça no salão onde se dará a cerimônia e a condessa na Sala Rosa.
– Para tratarem de detalhes – disse a baronesa antes de se pôr de pé. – Vá e lhes diga que descerei em instantes.
Enquanto se curvava em reverência, Marie olhou para Isabella atentamente, como que para certificar-se de que a moça estivesse inteira. Ao flagrar o olhar aborrecido da patroa, sobressaltou-se, encerrou o movimento e saiu.
– O que pensou essa criatura? – Elizabeth indagou ainda a olhar a porta. – Que eu a mordi?
– Quem poderia julgá-la – disse Isabella, sem pensar. Elizabeth se voltou e a encarou não ocultando sua surpresa. Ao entender o que fizera, a moça maximizou os olhos e se levantou, aflita. – Milady, perdão! Eu não deveria ter dito tal coisa... Ainda mais agora... Depois que conversamos... Fui indelicada...
– Foi sincera – corrigiu a senhora, ainda com altivez, mas sem aborrecimento; demonstrava somente resignação. – Essa é uma das qualidades que vejo em você e nas quais me apego para aceitar a escolha de meu filho. Deus é testemunha dos planos que eu tinha para ele, mas desisti de forçá-lo a fazer o que não quer. E se também posso ser sincera...
– Como sempre, Lady Westking – Isabella a liberou.
– Com a verdade exposta, decididamente eu preferia que Edward tivesse se encantado por outra jovem. Ele ter se enamorado justamente por você foi uma zombaria do destino... Em especial com todos os detalhes que traz consigo. Todavia, se estamos enredados nessa trama de humor duvidoso é certo nos unir e proteger uns aos outros. Em grupos ou em pares.
Isabella lhe sustentou o olhar, mesmo confusa.
– Milady, eu creio não ter entendido.
– Fecharei meus olhos e ouvidos. Refutarei a maledicência para coibir o falatório. Agora entende a razão e espero que saiba retribuir meu esforço, guardando para si o que eu contei. Sei que entre Edward e você não há segredos...
– Não há – Isabella assegurou reflexivamente.
– Sendo assim, posso também saber que meu filho realmente conhece a verdadeira face do pai. – A moça assentiu. – Pois bem! Que fique então com uma decepção. Ele não precisa saber que até mesmo a mãe foi uma das vítimas de um louco. Eu não suportaria que Edward descobrisse como foi concebido.
E então Isabella a entendeu.
– Seu segredo morrerá comigo, Lady Westking – ela empenhou sua palavra. – Seu cuidado é o mesmo que tenho para com Embry. – Ao citar o filho, Isabella empertigou-se e indagou: – Agora que sabe a verdade, despreza-o?
Elizabeth maneou a cabeça e piscou, simulando confusão, então retrucou com outra questão:
– Como poderia desprezar um neto? Embry me foi apresentado como tal... Se Edward o assumiu como filho, é o que ele é... Apenas rezarei para que a criança em seu ventre seja uma menina, pois nem quero imaginar a confusão que gerará caso não seja. Ou não haja qualquer embrulhada, afinal Edward dá tão pouca importância ao título que não me surpreenderia caso o passasse a um filho adotado, não a um legítimo. De toda forma... Essa seria outra história e quero crer que meu filho viverá por muitos anos ainda para já pensarmos nesses detalhes.
Há algum tempo Isabella não ouvia o discurso da baronesa. Perdeu-se ao ouvi-la assegurar que Embry ainda seria considerado como neto e ficou a lhe escrutinar o rosto, novamente sem reconhecê-la. Talvez nunca a conhecesse, considerou.
– Está chorando? – Elizabeth uniu as sobrancelhas. – Mas o que foi que eu disse?
– Eu... Eu... – a moça não sabia o que dizer, pois apenas sentia um impulso muito forte de abraçar a senhora à sua frente.
– Bem... – Elizabeth maneou a cabeça. – Se não sabe o que dizer, fique mesmo quieta. E pare de chorar, pois para mim parece que nos entendemos, não que brigamos. E nosso pouco tempo decididamente expirou. Agora devemos ter dez minutos antes do almoço. Irei ver o que desejam minhas filhas. Enquanto isso vá recompor-se... E, por favor, evite atritos com Irina. Deixe que de minha criada, cuido eu.
Sufocando o desejo inadequado de estreitar a baronesa em um abraço, Isabella assentiu e a seguiu para fora do quarto. Separaram-se sem despedidas e cada uma seguiu em direções opostas. Ao se fechar em seu quarto, Isabella sentiu o peso das emoções que sufocou e, trêmula, recostou-se contra a porta.
Batidas aflitas no lado de fora, fizeram-na saltar e gritar, assustada.
– Isabella, o que houve? – indagou o barão. – Abra!
Com o coração aos saltos, a moça fez como ordenado. Edward passou ao seu lado, escrutinando-a de alto a baixo e manteve a inspeção mesmo depois de parar no meio do cômodo.
– Você está bem? – indagou com o cenho franzido. – Marie me disse que esteve com minha mãe, a portas fechadas... O que ela queria? Forçá-la a contar onde esteve?
– Não! – Ao perceber que a veemente negativa a obrigaria a revelar a verdade, reconsiderou: – Digo, sim... Ela quis saber onde estive.
As rígidas sobrancelhas desceram mais sobre os olhos azuis enquanto o barão lhe perscrutava o rosto.
– Tem certeza? O que me esconde?
– Nada! – Recuperando-se do susto, ciente de que deveria cumprir a palavra dada à baronesa, ela esboçou um sorriso para tranquilizá-lo. – O que poderia esconder que envolvesse sua mãe?
– Ela a ter maltratado, por exemplo. Sei que sabe cuidar de si, mas não quero que minha mãe a atormente. Em especial quando não pode se abalar... – ao se calar, Edward se aproximou e sem reservas pousou uma das mãos no ventre ainda plano de sua noiva. – Nada pode acontecer a você.
Isabella não teve certeza de que o barão falava com ela ou com a vida que crescia nela. Fosse como fosse, gostou do cuidado, assim como da aproximação. Tanto aconteceu desde sua chegada que não tinha atinado o quanto lhe sentia a falta; até aquele momento. Após um suspiro a moça segurou a mão masculina sobre sua barriga e correu a palma livre pelo queixo escanhoado e seu noivo contrito.
– Nada vai acontecer... Estamos bem! Nada do que sua mãe possa dizer irá me aborrecer.
Depois do que ouviu, Isabella confiava no que dizia. A prepotência da baronesa de fato encobria a infelicidade de uma mulher solitária. Tanto que apenas se mostrou a outra mulher de destino infeliz. E por pouquíssimo tempo, pois Isabella sabia que jamais veria Elizabeth livre de seu pedantismo outra vez. Com isso, melhor seria cuidarem de assuntos práticos. Para Edward, importante era saber o que se passava em Wisbury.
– Na verdade – disse –, devemos esquecer a baronesa e falarmos de minha ida ao banco. Não se aborreça, mas... Carlisle convidou Angela e Samy para...
– Eu sei – interrompeu-a gentilmente.
– Embry... – Isabella murmurou ao elucidar a descoberta.
– Embry... – Edward anuiu. – E não há nada que eu mais queira do que ouvi-la, mas não temos tempo. Vim apenas ver como estava, pois a preocupação de Marie me contagiou. Ou talvez tenha sido o clima que encontrei na cozinha. Sue e Irina pareceram-me estranhas... Assim como Marie se mostrava aflita... Então...
– É natural – foi a vez de Isabella interrompê-lo, conformando-se em esperar. – Amanhã nos casamos e a casa está em polvorosa. Não creio que apenas essas que citou estejam estranhas e aflitas.
– De fato, todos na cozinha trabalham a pleno vapor – Edward observou. Desarmando-se, sorriu. Com a mão livre imitou-a e tocou-lhe o queixo delicado. – Conversaremos melhor à noite, mas me diga agora... Voltou livre!
– Como um pássaro – garantiu Isabella, contente por ser verdade.
– Como uma borboleta – ele corrigiu, acariciando a face. – Uma borboleta só minha.
Isabella assentiu comovida pela assertiva; não lhe incomodava ser borboleta desde que de um só senhor.
– Bella... – disse Edward roucamente, movendo a mão até a delicada nuca. – Nunca será capaz de saber como está bonita nesse momento!
Isabella parecia feliz, mas tinha os olhos marejados, o rosto corado. Ainda que não se convencesse de todo quanto ao que se passou entre a noiva e sua mãe, no momento Edward pensava apenas em beijá-la. Estava prestes a fazê-lo, quando pigarrearam à porta.
– Sim? – indagou o barão, maldizendo a interrupção.
– O almoço, senhor? – disse Marie. – Logo será servido. Todos aguardam...
– Obrigado, Sra. Newton – Edward sequer olhou para a governanta. – Isabella, nós temos tanto a conversar, mas...
– Mas nos esperam – ela completou gentilmente, afastando-se. – Vamos?
– Melhor não descermos juntos... – Edward igualmente recuou um passo, empertigado. – Descerei pela cozinha e você pelo saguão. Vemo-nos na saleta.
Isabella anuiu e o seguiu para fora do quarto. Sem mais palavras, separaram-se. Enquanto seguia em direção à escadaria, Isabella recordou a perseguição que se deu naquele corredor, encerrada apenas aos pés da cama da baronesa. O que se passou a seguir, no momento parecia um sonho distante.
Nos últimos tempos não obtinha sucesso em se manter calada, mas por Edward – mais do que pela baronesa – faria o possível para que o segredo de anos ficasse bem guardado.
– Oh! Até que enfim! – Alice exclamou ao vê-la entrar na saleta. – Esteve sumida por toda a manhã.
– Isabella saiu com o filho, querida – disse Elizabeth, sem olhar para a recém-chegada. – E depois esteve comigo, resolvendo assuntos particulares.
Desconcertada, Isabella avançou pelo cômodo, sentindo o olhar de Rosalie sobre si. Ao encará-la, soube que a amiga estava preocupada. Natural, uma vez que tinha sido dispensada pela mãe para que esta conversasse a sós com a futura nora. Sorrindo para tranquilizá-la, Isabella maneou a cabeça em muda negativa ao questionamento que via nos olhos azuis.
– Desculpe-me, mamãe, mas não há tempo para assuntos particulares – retrucou Alice. – Temos tanto a arrumar. E o casamento já é amanhã! A noiva sequer deveria ter se ausentado.
– Tenho certeza de que tudo estará de acordo – disse o conde. – E não vejo o que ainda tenha a ser arrumado. Estive no salão onde será realizada a cerimônia e tudo me pareceu no lugar.
– Minha irmã prima pelo exagero – disse Edward ao entrar, baseado no pouco que ouviu. – Marie pediu que os avisasse que o almoço está servido.
Daquela vez, Isabella foi conduzida pelo conde, atrás do duque que dava o braço à baronesa e à condessa.
– Como disse seu noivo – falou Jasper, confidente –, Alice prima pelo exagero, então não se preocupe com que diz.
– Não me preocupo, milorde – Isabella assegurou. Não mais, pensou ao mirar as costas de mãe e filha à sua frente. Em poucos dias de convivência poderia dizer que as conhecia, compreendi-as. – Não me preocupo – reiterou.
Poderia sorrir para endossar suas palavras, mas o conde era de fato intimidador.
– Antes assim – ele prosseguiu. – Vi os salões e há pouco a ser organizado. Tendo como base as festas das quais participei desde os preparativos, o que resta será arranjado amanhã.
– Gosta de festas, milorde?
– Maria me ensinou a gostar – ele disse vagamente.
Curiosa, a moça indagou sem pensar:
– Maria?
– Minha primeira esposa – foi a resposta simples. Esta coincidiu com o olhar sentido de Alice, por sobre o ombro.
Isabella desejou ter mordido a língua. Iniciou o diálogo para manter uma conversa amena. Jamais poderia imaginar que provocaria a lembrança do conde ou que magoasse a nova amiga. Inabalável, Jasper sorriu para a esposa empertigada que seguia à frente e acrescentou:
– Por um tempo, festas perderam o sentido para mim. Entretanto, minha segunda esposa me fez recordar o real conceito do divertimento.
Alice não voltou a olhá-los, e Isabella quis acreditar que não o tivesse feito por se acercar da mesa ricamente posta para o almoço. Edward puxou a cadeira para que Rosalie se sentasse e então para ela.
Depois de aceitar a mesma gentileza vinda do conde, Isabella se acomodou e manteve os olhos na condessa. Esta mirava o prato, não o marido, acomodado na cadeira ante a dela. E novamente Isabella desejou ter mordido a língua.
De seu posto, Edward esperou que todos fossem servidos, analisando cada postura e ação. Conhecia as restrições de sua mãe e ouvira as palavras do conde então entendia que os únicos a ter a expressão leve fossem o duque a duquesa. Lamentava que Alice tivesse sido lembrada da primeira esposa de Jasper em tom terno, mas em parte se irritava por ela entristecer-se.
A paixão que Jasper nutriu por Maria era algo conhecido até mesmo por ele, Edward, que antes do casamento com Alice pouco se relacionava com o nobre. Um sentimento que ao ser tragicamente interrompido, lançou o jovem viúvo em uma amargura profunda e eliminou qualquer respeito pela vida. Portanto, a nova condessa deveria se alegrar por tê-lo resgatado e hoje ser amada.
Ao pensamento, Edward mirou sua noiva e condenou-se por sua leviandade. Tempos atrás sentiu na pele o despeito por não ser o preferido. Caso Alice sentisse o mesmo, ele deveria considerar admirável que apenas se entristecesse. De imediato, Edward se compadeceu da irmã.
– Com toda essa correria para o casamento não tivemos tempo para tantas conversas como gostaria – disse despretensiosamente, iniciando sua refeição. – Gostaria de saber de minhas irmãs se em algum momento sentem falta de Apple White.
– Eu cuido para que Sua Graça nunca sinta – disparou o duque, sorrindo para a esposa à sua frente. Contudo, subitamente sério, indagou: – Ainda assim seria possível que sentisse?
– Não, querido – Rosalie garantiu. – Apenas sinto falta de um passado feliz – acrescentou, sorrindo para Isabella –, mas nada que me deprima ou me faça desejar voltar para Apple White. Estou feliz em McCarty Castle.
– E Alice? É feliz em Whitlock House? – Edward especulou.
Jasper não tomou a palavra da esposa como fizera o duque, apenas ergueu os olhos, fitou-a e aguardou por sua resposta. Alice ergueu o olhar do prato, retribuiu o olhar do marido, porém desviou sua atenção para o irmão.
– Sim – disse seguramente, contudo não sorria. – Não tenho recordações lúdicas como Rosalie, mas gosto muito de Apple White, porém não ao ponto de sentir falta do lugar. Apenas de mamãe e você. Todavia, isto nós resolvemos com visitas.
Sem mais palavras, Alice mirou o prato e voltou ao seu almoço.
– Muito me agrada que seja assim – disse Jasper. – Caso sentisse falta do lugar e quisesse retornar ao lar, seria extremamente complicado arranjar uma mudança para que pudesse acompanhá-la.
– Que bobagem! – Manifestou-se a baronesa. – Com todo o respeito, milorde... Devo salientar que é a esposa quem segue o marido, não o contrário.
– Igualmente, com todo o respeito, milady – retrucou o conde educadamente depois de pousar os talheres na borda do prato. – Devo dizer que de minha parte, neste caso não faço distinção dos gêneros ou dos deveres maritais. Seria complicado, mas eu arranjaria a mudança e seguiria para onde estivesse meu coração.
– Oh! – Alice engasgou e baixou os talhares antes encarar o marido com os olhos maximizados.
– Os tempos estão mudando – comentou Elizabeth. – Que bom!
Não havia entusiasmo no tom da baronesa, Isabella reparou. Agora, depois de saber o que passou, entendia a aridez nas palavras. Se há trinta e quatro anos os tempos fossem como ela via ser atualmente, provavelmente ela teria se rebelado e não seguido um marido odiado e imposto. Vendo-a com novos olhos, Isabella sorriu compadecida ao ser furtivamente encarada pela senhora.
Ainda satisfeito com a declaração do cunhado, Edward não deixou passar despercebido a significativa troca de olhares entre sua mãe e sua noiva. Ou o mais perturbador, o barão não pôde deixar de ver o sorriso que Isabella dirigiu a Elizabeth ao que esta maneou a cabeça agradecida e voltou a mirar o tanto que lhe foi servido.
Ante a novidade, Edward dirigiu toda sua atenção para ambas, porém novos olhares ou sorrisos não foram trocados entre sogra e nora, levando-o a crer que tivesse imaginado a ação anterior.
– Westking – chamou-o Emmett –, estive pensando que, após o almoço, poderíamos ir até a vila. Devemos partir na manhã de domingo, logo não teremos outra oportunidade. O que lhe parece, Whitlock?
– Será um passeio agradável – disse Jasper.
– Eu poderia dizer que é injusto os senhores passearem enquanto nós, mulheres, trabalhamos – comentou Alice, com renovado humor. – Mas estou considerando divertido.
– Dar palpites sempre foi sua diversão favorita – Rosalie alfinetou, acompanhando-a no humor.
A partir daquele ponto, com as irmãs a se arreliarem novos tópicos foram sugeridos e comentados, porém Isabella não se atreveu a participar ou a olhar de modo diferenciado a quem quer que fosse, pois sabia que estava sendo alvo da atenção do barão. Fora inapta ao sorrir para a baronesa. Agora poderia saber que pela mente de seu noivo inúmeras questões se formavam e que teria de ter cautela para não trair a confiança de Elizabeth.
– Chame Jacob para que nos faça companhia – sugeriu Jasper, quando o passeio à vila voltou a ser discutido. – Será interessante conhecermos seu padrinho um pouco mais.
– Padrinho? – Elizabeth encarando o conde com estranheza.
Em vez de respondê-la, Jasper olhou para Edward de modo indagador.
– Ainda não tive tempo de atualizar minha mãe quanto às novidades – disse Edward, impassível.
– Qual novidade? Jacob não é padrinho de... – a baronesa interrompeu-se ao compreender. – Ah, sim...
Novamente, por considerar que a conhecia, Isabella acreditou que a senhora se conteve apenas por estar acostumada a manter as aparências. Que Edward estivesse preparado, ela rogou, pois Elizabeth iria cercá-lo na primeira oportunidade para lhe cobrar satisfações.
– Não é nada extraordinário – disse Edward, minimizando sua decisão. – Vossa Graça e Whitlock compreenderam minha escolha.
– E não objetamos – salientou Emmett.
– Eu nem mesmo poderia – Jasper disse em seguida. – E admiro a iniciativa do barão. Devemos reconhecer quem está ao nosso lado.
– Ah, milorde, acredite... – Elizabeth se dirigiu ao conde. – Edward reconhece tudo o que faz seu criado de confiança, mas não creio que tenha feito boa escolha. Ao redor existem homens tão ou mais prestativos, cuja tarefa de ser padrinho do barão lhes traria muito gosto e estreitaria os laços de amizade. Mas... – ela ergueu a mão para calar nossos comentários. – Esse assunto não deve ser discutido nesse momento. Vamos dar seguimento ao nosso almoço. Os senhores têm um passeio a fazer e nós, preparativos a concluir.
Dito isto, ninguém se animou a contradizê-la e a refeição seguiu até o fim sem novos temas. Após a sobremesa, os cavalheiros se escusaram e seguiram para o estábulo. Isabella foi dispensada da ajuda por uma baronesa irredutível, restando à moça subir ao quarto do filho, onde o encontrou na companhia dos primos e de Nero.
O galgo saiu de seu posto e foi até a moça para farejar a barra da saia. Fez alguma festa, mas, cansado, voltou a se deitar diante da lareira.
– O que há com o dragão? – Isabella indagou ao se sentar junto aos meninos.
– Hoje ele está especialmente cansado, senhorita – disse Lionel, mirando o cão.
– Então vamos deixá-lo dormir – ela sugeriu, sorrindo para ocultar sua preocupação. Não queria alarmá-los, mas a verdade é que Nero poderia ser considerado um senhor sexagenário, não um garoto como eles. – Acho que vocês três podem brincar sem ele, não?
– Embry estava nos dizendo que a senhorita lhe conta histórias, às vezes – disse Amy, ajudando-a a distraí-los.
– Sim, mamãe! – Embry exultou. – Conte a Lionel e a John sobre Kalil e Yasmim. O cavalo do Kalil se chama Draco, como o cavalo do meu pai – ele solenemente informou aos primos.
Isabella sorriu mansamente e, depois de se acomodar no tapete, tentou absorver a paz que mentes inocentes emanavam para acalmar seu coração. Estava na metade de um dia que parecia ser infinito: pelo arrastar das horas, pelas inúmeras emoções. Não fossem os desfechos satisfatórios de todas elas, a moça sabia que sucumbiria. Algo que não poderia acontecer, pois deveria manter-se vigilante.
E não poderia se fiar na benevolência da baronesa. Sim, agora ela sabia a verdade sobre Embry, mostrava-se condescendente, mas ainda havia a parte não revelada. Apesar de tudo, ela ainda era considerada inadequada. O que pensaria a baronesa quando descobrisse que a moça abusada se tornou prostituta?
Isabella estremeceu e maneou a cabeça minimamente para expulsar o pensamento. Decidida a ocupar-se do presente, fitou os rostos ansiosos, suspirou e iniciou sua narrativa, contando a história de Yasmim desde o princípio. Embry não se importou de ouvir ações já conhecidas. Antes disso, por vezes dava o toque dramático, assustando-se antes dos primos ou antecipando os acontecimentos.
Ao deixar os meninos, pouco antes do chá, Isabella seguiu para seu quarto. Ao entrar, por temer ser novamente confrontada, trancou-se. Abriu a porta apenas para Jane que trazia uma bandeja bem guarnecida. Antes que Isabella a interrogasse, explicou:
– As damas dispensaram o chá, mas a baronesa pediu que este lhe fosse servido aqui, com recomendações de que se alimentasse e repousasse até o jantar.
Isabella não tinha fome, tampouco cansaço, mas agradeceu o cuidado. Uma vez que não lhe era permitido ajudar, ficar longe da agitação e de que criadas cujas faces ela não desejava ver, pareceu providencial.
Ao ficar novamente sozinha, depois de pedir a Jane que deixasse a bandeja sobre o aparador e a dispensar até que precisasse se vestir para o jantar, Isabella tornou a trancar a porta e voltou a se recostar nos travesseiros. Como não comandava seus pensamentos, as imagens do que se passou naquela manhã iam e vinham. Na tentativa de ordenar o caos mental, Isabella focou sua atenção em Sam e Jessica. Sorriu ao ver o casal improvável e fez uma prece, pedindo que fossem felizes.
Logo era visitada pelo sono proporcionado por seu estado e, sonolenta, a moça pensou ainda na declaração de Carlisle, em Angela e em Kate.
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