Borboleta Negra

72 Capítulo Quarenta - Parte II


Notas iniciais
Oieeeeeeeeeeee... Nem acredito que vou voltar a postar. Acreditem, já queria ter feito, mas a vida tá complicada. Bem, descomplicando agora, então já voltei a escrever, e ESPERO ir até o fim. Oremos! Como sempre quero agradecer os comentários e as indicações que me deram durante esse periodo de ausência. Obrigada! Ah, quero avisá-los de que sempre escrevi BN na versão original e converto para a fic, então, agora que decobri estar comentendo alguns erros no tratamento, fiz a correção. Vou manter o "lord" na fic, mas agora será lord Edrick em vez de lord Bradley e lord Edward em vez de Lord Preston. Espero que não se atrapalhem... :) Agora, vamos ao capítulo. BOA LEITURA!

– Diga-me mais uma vez por que preciso de um fraque, senhor? – Jacob perguntou pela quarta vez, torcendo os lábios para a própria imagem no espelho enquanto o ajudante do alfaiate fazia marcações no colete do traje citado.

– Porque até onde me lembro, vou me casar no sábado e o senhor é um dos convidados – respondeu Edward de seu posto onde também tinha seu traje marcado. – Se tivéssemos tempo eu encomendaria algo novo, sob medida.

– Posso fazê-lo, senhor – assegurou o velho alfaiate. – Já lhe disse.

– Prefiro não arriscar, obrigado – disse Edward, a analisar os punhos da sobrecasaca negra. – Este irá servir. Quanto a você, Jacob, não discuta. Até mesmo tive o cuidado de escrever um convite como fiz com os outros.

– E minha Leah quase desmaia ao ler. Se ficar viúvo, senhor, eu irei culpá-lo.

– Leah é forte. E não tem com o que se preocupar... Pedirei a Isabella que lhe empreste um vestido.

O casal simplesmente tinha de comparecer à cerimônia, não importando a opinião da baronesa ou de quem quer que fosse. E havia o detalhe que ainda não diria, pois conhecia bem seu amigo. Em momento oportuno exporia sua decisão.

Quanto à Leah, bem sabia que sua noiva não se importaria a lhe emprestar um vestido como dito. Isabella teria algo adequado. Ao pensar na noiva, todo resto se perdeu. Preocupava-o lembrar a palidez do rosto e a vertigem ao deixar sua cama aquela manhã, mas não poderia negar esta desvanecia na imagem deles dois moldurados no espelho de seu quarto.

Por vezes era assustadora a forma como ele a queria e, graças aos santos, com a licença especial, em menos de uma semana seria o senhor definitivo de sua borboleta. Deveria ter se valido da alternativa usada por seu cunhado, o duque, antes. Mas não o admirava ter esquecido. Os acontecimentos, desde que trouxe Isabella de volta à sua vida sucediam a uma velocidade alucinante. Mas não os temia. Sentia-se pronto para o que viesse.

Ѽ

Isabella esperava sinceramente um dia senti-se parte daquela cena. No momento, era impossível. Especialmente por ter sido convidada a participar do chá da tarde por Alice. Alice!

Estavam na quarta-feira e o tanto que vivera aquela semana, fora do leito do barão, poderia ser descrito como estranho. E não somente pela novidade de também estar sentada ao lado da condessa que, por incrível que pudesse parecer, era sua companhia quase constante.

Lady Elizabeth – Isabella jamais saberia por qual milagre – parecia ter abandonado os comentários ácidos, tratando-a com educada reserva. Por vezes, quando estritamente necessário, dirigia-se a ela para questionar algum detalhe pertinente ao casamento; como saber se teria alguma restrição quanto ao que seria servido; não tinha.

Isso era mais do que fazia a duquesa que não se dignava nem mesmo aos cumprimentos básicos. Os almoços e jantares eram feitos quase que em silêncio, e quando quebrado era por Alice ou Edward, contudo os temas sempre caiam no vazio.

Era constrangedor, angustiante até, e Isabella não se deixava abater. Ainda trazia no peito a esperança de que seu noivo estivesse certo e que um dia – que fosse breve – Rosalie a perdoasse pelo suposto descaso.

Sim, sua esperança era forte, mas Isabella reconhecia que ainda teria de conviver com a carranca da amiga por algum tempo. Ao surgir uma dúvida Sua Graça a sanava por intermédio de Marie, como ocorrido naquela mesma manhã, quando a governanta levou o café matinal ao quarto.

– A duquesa deseja saber quais flores você gostaria que enfeitassem a casa na ocasião de seu casamento – dissera a governanta enquanto a servia.

– Não faço à mínima ideia – foi sincera. – Diga à Sua Graça que ela poderia escolher uma que fosse preferência do barão.

Isabella gostaria de ser mais participativa, mas não se animava a cuidar de algo através de recados. Sequer sabia como sua resposta fora recebida, pois a amiga magoada nem mesmo a olhava.

O único detalhe a trazer leveza à casa era a presença das crianças e de um velho cachorro feliz. Estes a cada hora estreitavam os laços de amizade e não era raro ouvir uma reprimenda da baronesa sempre que se exaltavam além do esperado.

Nesses momentos os meninos se aquietavam e baixavam o olhar, obedientes, mas logo se podia ouvir que brincavam em outro canto ao redor da mansão, como naquele momento.

Estavam num intervalo de paz em meio à correria. O silêncio entre elas era opressor, tanto que Isabella cogitou especular sobre seu casamento apenas para ter assunto, mas não a animava perguntar o que fosse a nenhuma das damas. Para sua surpresa, como se interpretasse seu suspiro, Alice indagou:

– E então, tem alguma dúvida sobre a cerimônia, Isabella.

– Bem... – Ali estava a oportunidade de encerrar o silêncio. Isabella correu o olhar entre as senhoras presentes. Tinha apenas a atenção de Alice, então tratou de falar apenas com ela. – Saberia me dizer quem virá?

– Será como Edward determinou. Apenas os mais próximos e nossos maridos – disse, indicando a irmã. – Esperamos que cheguem amanhã pela manhã.

– Vou gostar de conhecê-los – disse por educação, pois suas mãos já suavam com a novidade. Edward poderia ter-lhe dito.

– Pelo menos sabe se comportar civilizadamente – comentou Elizabeth, talvez num momento de recaída. – Não nos vai matar a todos de vergonha.

– Não seja tão dura, mamãe – pediu Alice, sorrindo para Isabella. Esta retribuiu, porém voltou à seriedade ao flagrar o olhar que Rosalie dirigia a ambas.

A amiga baixou os olhos para o bordado e exalou um suspiro cansado. Isabella não saberia dizer o que a exasperou, mas de súbito ouviu as palavras de Edward e também considerou a atitude exagerada. Sim, foram muito amigas, mas a duquesa era adulta e deveria saber que nem sempre as coisas seguiam como esperavam. Havia lacunas no que lhe contou, mas se justificou. Não poderia se desculpar para sempre. Com o pensamento veio a decisão.

– Rosalie – atreveu-se a usar o primeiro nome. Quando a duquesa a encarou, com as sobrancelhas unidas, Isabella ignorou o leve tremor e indagou: – Chegou a alguma conclusão quanto às flores?

Corajosamente Isabella encarava Rosalie, mas sentia o olhar de espantado de Elizabeth e o admirado de Alice sobre si.

– Já que não se deu ao trabalho de escolher, Isabella – alfinetou-a Rosalie –, decidi usar lírios do vale, jacintos e heras. A última eu escolhi por meu irmão, pois sei que ele sempre primou pela fidelidade, pela amizade e pela afeição.

– Jacintos simbolizam a constância do amor – Alice salientou, talvez, novamente para socorrer a futura cunhada. Esta, cada vez mais fortalecida, retrucou à amiga:

– É uma boa escolha. Por certo combinará comigo, pois prezo pelas mesmas coisas.

– Se está dizendo... – Rosalie replicou, indiferente. – E o que pensa de murta para o buquê? Essa flor representa amor verdadeiro e também a inocência da noiva.

– Se não simbolizasse minha inocência, tendo em vista que tenho um filho, enalteceria o amor que tenho por Edward – Isabella redarguiu.

– Por favor, não briguem – pediu Alice. – Pensei em termos uma tarde agradável. Logo faremos parte da mesma família.

De fato era extraordinária a mudança de Alice, Isabella considerou, olhando-a com ternura. Quem diria?

– Não estamos brigando – disse Rosalie, novamente a analisar uma e outra antes de voltar ao bordado. – Apenas respondi. Caso a noiva deseje mudar alguma flor, basta dizer.

– Talvez devesse usar tulipas brancas.

– Talvez não – Rosalie replicou, sem olhá-la.

A sugestão fora uma tentativa de indicar que não esquecera as conversas que tinham no pomar, quando, por vezes, Rosalie salientava a predileção pela flor. Isabella tencionou insistir, e desistiu. Forçar uma aproximação poderia ter resultados catastróficos, determinou no momento exato em que a duquesa a olhou de esguelha, como se a desafiasse.

Revia sua decisão quando mais uma vez ouviu o riso de Embry, Lionel e John, vindo do jardim. Isabella fechou os olhos e, sem que pudesse evitar, sorriu mansamente. Não importava como estava sua relação com Rosalie, já amava os futuros sobrinhos, que por sua vez, adoravam-na. E ela nem se importaria que fosse pelos chocolates e caramelos que entregava de um a um antes de lhes contar alguma história.

– Não sei onde encontram tanta energia – comentou Alice, diretamente a Isabella, mudando de assunto por completo.

– São crianças – Isabella esboçou um sorriso. – Você se lembra como...

Isabella se interrompeu ao notar, tarde demais, que seu comentário não seria pertinente. Alice não tinha como se lembrar, pois nunca brincou daquela forma, fora de casa, correndo livremente.

Desconcertada, sentindo os olhos de Rosalie e de também os de Elizabeth em si, encarou a futura cunhada.

– Perdoe-me – pediu sincera.

– Não tem problema – Alice a tranquilizou. – Não tenho minhas próprias recordações, mas me lembro bem de como mamãe chamava a sua atenção e de Rosalie. Arrisco dizer que sempre valia à pena, pois vocês raramente obedeciam.

Instintivamente Isabella procurou a amiga com o olhar. Rosalie novamente dedicava toda sua atenção ao bordado.

– Duas selvagens – disse a baronesa, servindo-se de um pãozinho. – Isabella botou Rosalie a perder com seus maus modos. Viviam suadas, despenteadas e enlameadas. Eu nunca...

– Era eu quem arrastava Cora para o pomar – Rosalie corrigiu a mãe, sempre a bordar. – E era eu quem inventava as brincadeiras.

Admirada, mesmo que seus olhares não se encontrassem, Isabella mirou sua amiga, e tão pouco, reforçou sua esperança.

– Então, que seja – disse Elizabeth, indiferente. – Na verdade não importa quem estragou quem... E acho que seu irmão não vai gostar se ouvi-la usar esse nome. Eu, particularmente, também prefiro que se use o novo.

As novidades pareciam não ter fim! Pensou Isabella ao encarar a baronesa. Assim como Rosalie, não a olhava, mas ao menos na matriarca, aquela tarde, não havia frieza.

– Não há estranhos aqui – retrucou a duquesa. – E eu corria como uma selvagem com Cora. Não com outra.

– Está bem... – interveio a condessa. – Encerremos este assunto. Os meninos correm e riem, mas não se portam como pequenos selvagens. Assim como nenhuma das duas voltarão a fazê-lo, assim espero. É o que nos interessa.

– Embry é muito educado – Elizabeth comentou. – E apesar de não parecer é comedido. Isto é reflexo dos ensinamentos que recebeu no internato.

– Então ele esteve num internato? – Alice indagou diretamente a Isabella, interessada. – Por quê?

– Considerei ser o melhor. Fui mãe cedo demais. Não tinha experiência com crianças.

Isabella tentava parecer segura. O silêncio anterior não lhe parecia tão ruim agora.

– Você poderia ter procurado Edward para ajudá-la, não? Por que não o fez?

– Tive medo que ele me tomasse Embry. – Ao se calar Isabella olhou para Rosalie de esguelha. A amiga ainda bordava como se nada fosse dito. – Então preferi omitir sua existência.

– Não entendo. – Alice a analisava atentamente. – Pelas palavras do meu irmão, vocês se amavam... Então não haveria motivos para temer.

– Penso da mesma forma, mesmo sabendo que seria exatamente isso que eu aconselharia meu filho a fazer – admitiu Elizabeth.

– Teria coragem de separar uma mãe de seu filho? – Alice questionou a mãe, unindo as sobrancelhas. – Eu não seria a favor da união dos dois, mas Edward poderia prestar assistência ao filho. Ele poderia manter uma casa, em local afastado e quando Embry fosse maior ele o apresentaria à sociedade. Não seria a primeira vez que aconteceria.

– Bem, eu não vejo como separar um filho de sua mãe, sim uma forma de garantir o direito de Edward sobre o menino. Somente Deus sabe dizer em quais condições meu neto foi criado até que fosse levado para o internato. Até mesmo hoje não sei onde Isabella vivia, com quem, como...

– Ah! Então há um mistério? – A condessa se voltou para Isabella. – Conte-nos.

– Duvido que o faça. Já tentei e nada saiu daí – comentou Elizabeth. – Esta deixou de ser selvagem para se tornar uma esfinge.

– O que poderia ser para que não diga? – Alice claramente se dirigia à mãe, mas mantinha os olhos atentos em Isabella, corada, ao seu lado. – Teremos de decifrá-la?

– Não há mistério – forçou-se a dizer. – Apenas sigo a recomendação de Edward. Ele prefere que não citemos o passado.

– Mas ele não está aqui agora – insistiu a condessa. – Não contar dá asas à nossa imaginação. Teria algo em seu passado que realmente coloque em risco o nome de nossas famílias?

O pigarro vindo da porta livrou Isabella de uma situação cada vez mais embaraçosa. Como Edward pôde acreditar que uma mentira bastasse?

Aliviada, Isabella seguiu o olhar de todas as damas e encarou Marie, que já entregava um cartão à baronesa, esta imediatamente corou. Enquanto a senhora ainda conferia o nome, a governanta o proferiu:

– Vai receber o senhor Zimmer?

– Senior Zimmer?! – Rosalie se mostrou interessada, encarando a mãe, assim como Alice.

– Não sei o que ele pode querer. – Elizabeth devolveu o cartão à Marie. – Eu lhe disse da outra vez que esperasse até o dia em que Edward estivesse em casa.

– Teve outra vez?! – Alice maximizou os olhos, admirada. – E quando Edward não estava?

– E ele trouxe flores – disse Isabella.

Pelo olhar que recebeu de sua futura sogra, soube que seria eternamente odiada, mas não poderia perder a chance de tirar a atenção de si. Em especial quando a presença do senhor não a remetia a nenhum encontro entre eles em seu bordel.

– Isso está mesmo interessante! – Alice se levantou e, sem olhar para a mãe, disse a Marie. – Traga o Sr. Zimmer.

– Alice?! – Elizabeth se levantou de súbito, muito vermelha. – O que pensa que está fazendo?

– Eu gostaria de receber nosso vizinho. – A condessa explicou com simulada indiferença. – Não é inadequado, afinal uma faz companhia à outra.

Marie se mantinha no lugar, mirando mãe e filha, indecisa quanto a quem obedecer.

– Traga o homem, Marie! – demandou Rosalie por fim, deixando seu bordado de lado; de súbito animada.

– Não sei o que pretendem, mas já que insistem... Vá, traga o homem! – cedeu a baronesa, antes de desabar de volta à poltrona.

Isabella não se atreveu a falar. Apenas olhava de uma a outra; Rosalie e Alice não escondiam sua curiosidade, enquanto Elizabeth respirava pausadamente, tentando regular a respiração.

– Senhor Senior Zimmer – Marie anunciou, dando passagem ao senhor.

Este era bem apessoado, vestia-se com elegância própria aos fazendeiros e ostentava um belo bigode, grisalho como seus cabelos. E trazia um vasto buque de variadas e coloridas flores do campo.

Ao ver as damas, curvou-se educadamente. Beijou as mãos por importância de título o que deixou Isabella em último lugar.

– Esta é Isabella Swan, a futura baronesa – disse Elizabeth, ocultando seu dissabor. – Já deve ter ouvido falar.

– Sim, recebi o convite, escrito a próprio punho pelo barão – revelou a analisar Isabella atentamente. – Só não contava encontrá-la aqui. De onde vem senhorita? Sei que não mora nas redondezas.

Isabella abriu a boca, pronta para dizer a cidade onde nasceu, quando a voz de Rosalie encheu a sala.

– Ah, Sr. Zimmer!... Tenha piedade de nós. Já ouvimos sobre a ela tantas vezes que o assunto se tornou enfadonho.

– De fato – reiterou Alice. – É preferível que nos diga ao que devemos à honra de sua visita.

Senior Zimmer se aprumou e imediatamente mirou a baronesa.

– Bem... Eu... – hesitante, estendeu o boque para a senhora fortemente corada. – Bem, eu vim trazer essas flores para...

– Para alegrar a casa. Quanta gentileza! – Elizabeth completou já a tomar as flores, calando-o. Ato contínuo estendeu-as à Marie. – Sra. Newton, providencie um vaso e as coloque no hall. Por favor, Sr. Zimmer... Sente-se. Aceita uma xícara de chá?

– Bem... Sim – anuiu visivelmente desconcertado. – Sentarei depois das senhoras e... Senhorita – concluiu, indicando Isabella.

– Sra. Newton – a baronesa chamou antes que a governanta deixasse a sala. – Peça a Amy que venha repor o chá. Temos um convidado.

Com todas acomodadas, sendo o centro das atenções, Senior pigarreou. Com os olhos postos na baronesa, pediu:

– Perdoe-me. Não queria incomodá-la.

– Não incomoda – garantiu a baronesa.

– Não, não incomoda em absoluto – reiterou Alice, sorrindo, como sempre, avaliando quem tinha seu interesse no momento.

– Por certo que não – Rosalie fez coro.

Intimamente Isabella agradeceu a presença inesperada, pois aquela era a primeira vez que via sua amiga demonstrar alguma animação. Na verdade, parecia que ela e a irmã trocavam olhares cúmplices enquanto ocultavam um sorriso.

– Sr. Zimmer, diga-me como tem passado – pediu Rosalie.

– Eu? Bem... – o senhor correu os olhos por todas as mulheres antes de responder: – Apesar de ter sido um inverno rigoroso, posso dizer que tudo vai bem na fazenda.

– Não! Diga-nos como vai o senhor... – pediu Alice, divertia-se com o embaraço da visita. – Nunca o vi em Londres. Não viaja muito, não é mesmo?

– Não... Gosto daqui. Mesmo no inverno...

– Esqueçamos o inverno – sugeriu Rosalie. – Não voltou a se casar, não é mesmo?

Imediatamente Elizabeth encarou a filha com o cenho franzido, como se não a reconhecesse.

– Não... – Senior olhou furtivamente para a baronesa. – Ainda não.

– Interessante! – Rosalie lhe acompanhou o olhar e sorriu antes de disparar: – E acaso pensa em se casar?

– Mas que perguntas são essas?! – Elizabeth estava rubra. – Rosalie?

– Deixe-a, mamãe... – disse a condessa. – Estamos entre amigos, não é mesmo Sr. Zimmer? E então... Tem alguma pretendente?

– Bem... Eu... – Senior por fim olhou efusivamente para a baronesa que nervosa, pôs-se de pé, levando-o a imitá-la rapidamente.

– Vou ver por que Amy demora tanto – anunciou Elizabeth já a seguir para a porta. – Com licença.

– Eu disse algo errado? – Senior indagou a nenhuma em especial. Olhava para a porta.

– De forma alguma – tranquilizou-o Rosalie. – Sente-se. Mamãe logo voltará. Enquanto isso, responda a Alice.

Isabella se compadeceu pelo pobre homem que afundou na poltrona, tendo as bochechas vermelhas a evidenciar seu bigode. A aproximação improvável de Alice tinha o ônus da especulação, então poderia mensurar o quanto custava ao senhor ser duplamente sabatinado. Em especial por suas intenções serem claras.

– Talvez o senhor quisesse ir até Edward? – Isabella sugeriu sem nem pensar.

O senhor a encarou como se ela fosse uma corda salvadora atirada ao mar.

– Sim, por favor – disse ao se pôr de pé. – Ele estaria na sidreria?

– Não, não! – Rosalie se opôs, chispando o olhar repreensivo para Isabella. – O senhor veio nos ver... Trouxe flores para alegrar a casa. Por certo que não veio para ver o barão. Sente-se, por favor.

O tom não deixava margem para contestação. Com um suspiro resignado, Senior maneou a cabeça para Isabella em agradecimento e voltou a se sentar. Depois de mirar as jovens, o senhor aspirou o ar profundamente e, como se com este adquirisse coragem, disse por fim:

– Respondendo à condessa... Sim. Tenho pensando particularmente em uma dama e intimamente rogo receber a graça de ser correspondido.

– Oh!

A exclamação vinda da porta coincidiu com a queda da bandeja que Amy trazia ao lado da baronesa. A jovem criada agiu por reflexo para que pudesse socorrer a patroa que de súbito perdeu a força das pernas.

Todas as damas presentes se levantaram alarmadas, porém foi Senior Zimmer quem se adiantou para socorrê-la, oferecendo seu braço para que a senhora se firmasse. Esta, atordoada, se voltou contra a criada.

– Que desastrada Amy! O que o Sr. Zimmer irá pensar?

– Acidentes acontecem senhora... – tranquilizou-a enquanto a afastava da bagunça de cacos, chá derramado e biscoitos. – Sente-se. E, Amy, não se preocupe em repor o que trazia. Estou bem assim. Minha visita seria breve de toda forma.

A criada olhou aflita para a patroa que apenas moveu a mão nervosamente, indicando que limpasse o que derrubou.

– Perdoe-me por isso. Não deve saber como é difícil conseguir criadas mais cuidadosas – Elizabeth comentou, desconcertada.

Não foi importante a forma como a baronesa tratou uma de suas criadas preferidas, pois estava claro que a senhora era movida pelo nervosismo. O que pareceu contar para todos foi sua reação à revelação do visitante. O que a humanizava ainda mais aos olhos de Isabella.

– Esqueça-se da criada. A pobre já paga pelo susto... – Senior pediu amável e, sem importar com a pequena plateia, ele nunca lhe soltou a mão. – Teria se machucado?

– Mas o que está acontecendo aqui?

Todas as cabeças se voltaram para a porta em tempo de ver Edward passar por cima do que foi derrubado, quase como se Amy não estivesse ali, agachada, a recolher os cacos com cuidado.

Lord Edward – Senior o nomeou com reverência ao levantar, e se afastar um passo do sofá que ocupava com a baronesa. – Eu...

– O Sr. Zimmer nos trouxe flores! – Alice anunciou contente, como se o fato fosse o mais importante.

– Ele veio nos pedir uma sugestão de presente de casamento – mentiu Rosalie, descaradamente. Depois de encarar a noiva, indagou: – Não é mesmo?

Isabella ficou sem ação por um segundo. Apenas o tempo de ter o olhar inquiridor de Edward sobre si. Não gostaria de mentir para ele, mas no momento se fazia necessário. Depois de olhar cada uma das damas, a criada e até mesmo Senior Zimmer que se mostrava confuso, ela confirmou:

– Sim... – receber o olhar aprovador de Rosalie a animou. – Primeiro tentei desobrigá-lo de nos presentear. Como não pude demovê-lo, disse que ficasse à vontade para nos dar o que quisesse. O que vier, será bem recebido.

– Oferecemos chá e Amy se demorou – Alice emendou com a verdade. – Então mamãe foi buscá-la e ao voltar, Amy se desequilibrou e derrubou a bandeja.

Com o cenho franzido Edward olhou para Amy, ainda agachada, paralisada em meio ao caos, então voltou a encarar a irmã, que prosseguiu:

– Prestativamente o Sr. Zimmer socorreu mamãe que quase caiu e a fez se sentar.

– E então você chegou e esbravejou como o vilão da ópera – concluiu Rosalie quase... divertida?

Isabella por um instante reconheceu a velha amiga, após a comparação digna de suas brincadeiras no pomar. Contagiada pela nostalgia, Isabella riu mansamente para seu noivo.

– Eu prefiro vê-lo como o herói – gracejou. – Orfeu ao entrar submundo.

– E você por certo se considera Eurídice – retrucou Rosalie a manear a cabeça. – Sempre quer ser a donzela em perigo que suspira pelos heróis.

– Os vilões sempre foram interessantes para você, não para mim – Isabella não se intimidou em responder, ainda animada pela esperança ao ter a atenção da duquesa.

– Credo! – interveio Alice. – A história de Orfeu e Eurídice é trágica. Desejo um destino melhor aos noivos.

– E eu que as três encerrem a conversa sem sentido – Edward ralhou antes de encarar o senhor parado ao lado do sofá e indagar duramente: – O que de fato deseja, senhor? E diga algo melhor do que questionar sobre presentes... Trouxe flores. E sei que esta não é a primeira vez.

– Bem... Lord Edward... – Senior balbuciou.

Talvez indeciso sobre desmentir as jovens, talvez temendo a reação do filho ao expor seu interesse na baronesa, Senior nada disse. Isabella não poderia saber o que o calava, apenas lhe ocorreu mais uma vez tentar socorrer o pobre homem.

– Edward... – chamou-o num sussurro depois de levar uma das mãos à testa e cambalear. – Não me sinto bem... Acho que vou...

Quando deixou que seus joelhos cedessem para que tombasse no lugar que ocupou toda tarde, Edward já se aproximava para ampará-la.

– Isabella?!

O chamado soou repreensivo, não preocupado, porém a moça não o atendeu. Permaneceu amolecida nos braços fortes. Após um bufar exasperado, Edward a sustentou e a levantou no colo.

– Se me dão licença – pediu aborrecido. – Vou levar minha noiva até seu quarto. E o senhor me espere bem aqui.

Particularmente Isabella desejou que Senior Zimmer não o atendesse, pois como conhecia a curiosidade invasiva da condessa, conhecia a dureza com que o barão lidava com suas contrariedades. Uma que, a julgar a forma descuidada com que a carregava, seria dirigida a ela tão logo fosse atirada sobre a cama. Ou, antes disso.

– Muito bem... Uma vez que não há urgência não tenho porque carregá-la escada acima – Edward ciciou ao entrar na biblioteca.

Depois de fechar a porta com o pé colocou a noiva no chão num movimento brusco, obrigando-a a se equilibrar, abandonando o teatro. A rapidez da ação a tonteou e de fato a nauseou.

– Isabella?! – Edward exclamou surpreso ao novamente ampará-la. – Não esteve mentindo? Perdoe-me! Venha... Sente-se.

Ao ajudá-la a se sentar na chaise longe, Edward se abaixou ao lado, apoiou-se num dos joelhos e lhe segurou as mãos.

– Vou pedir que Marie lhe traga um copo com água.

– Espere. – Isabella o deteve, sem lhe soltar a mão. Ver o olhar consternado quebrou-a. – Eu estou bem... Estava bem – corrigiu apressadamente. – Até você me soltar como fez. Só fiquei um pouco tonta... Perdoe-me por enganá-lo, antes.

– Depois falaremos sobre isso. Agora está pálida. – Edward lhe tocou a testa com a mão livre. – O que pode ter para adoecer por tão pouco? Não fui rude. Fui?

– Jamais! – tranquilizou-o, tocando-lhe o rosto soturno. Enganava-o muito além do socorro a Senior Zimmer. Culpada, sorriu-lhe. – Você é mesmo o herói, não o vilão.

– Certo! Esqueça-se das óperas e dos contos encantados – Edward voltou à seriedade. – E não desconverse. Se não fui rude, o que pode ter? Você está doente, Isabella? Tentou disfarçar, mas ao deixar minha cama essa amanhã também não se sentia bem. Estava pálida como agora... E no almoço não estava melhor. Por isso vim mais cedo da sidreria.

Então o flagrante se deu por sua culpa! Mais do que nunca Isabella quis ajudar o senhor claramente enamorado. E até mesmo sua futura sogra, pois, Elizabeth poderia negar o quanto quisesse, também estava interessada. E bancar a alcoviteira tiraria a atenção de Edward de si. Não era hora de falar sobre sua “doença”.

– Ando nervosa com os preparativos para o casamento – desconversou, sempre a lhe acariciar o rosto. – E tem toda a situação com Rosalie. Os almoços são sempre tão tensos. Não se fie em minha aparência durante as refeições.

Edward lhe escrutinou o rosto por um instante, então suspirou, resignado.

– De fato a cor volta à sua face – comentou ainda a analisá-la –, mas não sei... Posso dizer que a conheço bem, Isabella. Não gostaria de estar certo, mas sinto que me esconde alguma coisa. Depois de tudo pelo que nós passamos... Depois do que você me prometeu, eu ficaria profundamente decepcionado.

Nesse instante o coração dela se partiu. Edward lhe dava tanto e ela retribuía com traição. Traição, sim, pois há dias amava mais alguém. E nem ao menos era habilidosa em ocultar sua perfídia. Sem que pudesse evitar, comoveu-se e seus olhos ficaram rasos d’água.

– Estou certo, não estou? – Edward elucidou por sua reação. O pesar na voz amada a massacrou e a levou às lágrimas.

– Perdoe-me... – pediu num sussurro.

– O que fez agora? – Edward se pôs de pé e passou a andar diante dela, encarando-a. – Não pode ter saído sem que eu soubesse, pois a casa está cheia. Alguém comentaria... Acaso marcou algum encontro com Cullen ou Angela? É isso? Está planejando voltar ao Jardim? Vamos! Diga!

Por ser novamente o foco da atenção do barão, nem ter como voltar a mentir, pousou as mãos sobre o ventre, protetoramente, e sussurrou a verdade:

– Eu acredito estar grávida... Sinto muito!

Edward estacou em meio a uma volta, sem nunca deixar de olhá-la. Primeiro acreditou não ter ouvido direito. Depois fez cálculos mentais. Na sequência recordou as vezes em que se deitou com ela sem prevenção, até mesmo a madrugada que passou no Jardim, ébrio. Antes disso, Amber lhe dissera para que não fosse até o fim, pois não estava preparada.

Nada fizeram na ocasião, mas... Ele saiu do quarto de meretriz e ao voltar, para o quarto dela, depois de trazer Isabella de volta, não pensava nas consequências ao amá-la. Ambos eram saudáveis então gerarem um filho seria natural. E os enjôos, o desmaio...

– Suas regras...?

– Ainda não é tempo – ela disse num fio de voz. – Virão, ou não... na próxima semana.

Não viriam, Edward sentia. Pois, sim, Isabella esperava um filho seu. Por fim ele estudou a última frase. De um modo geral, foi o que de fato o abalou.

– E você sente muito? – indagou num fio de voz, rouco, evitando desvendar o que ela estaria pensando para lamentar estar esperando um filho dele. Melhor ouvir dela, fosso o que fosse. – Por que sente muito?

– Não! – Isabella maximizou os olhos ao entender a confusão. – Não é nada do que possa estar pensando! Eu disse que sinto muito porque você sempre diz não ser o momento... Sempre se mostra preocupado em estarmos seguros quando nos amamos... E saiba que não tinha dito justamente por isso... Não queria entristecê-lo, nem...

– Entristecer-me, Isabella?

Edward maneou a cabeça, lutando contra a vontade de gritar. Por pouco não falhava, pois nunca antes, em toda sua vida, sentiu tamanha agonia vinda com a felicidade extrema. Então, esquecido que o esperavam na sala rosa, o barão estava de joelhos aos pés de sua noiva, afastando as mãos que cobria o ventre para olhar diretamente aquele ponto, como se pudesse ver além.

– Como poderia me entristecer com algo tão esperado? – indagou sempre a mirar o ventre ainda plano.

– Mas você disse... – Isabella não concluiu. Estava confusa, contente, comovida em ver a verdade nos olhos brilhantes de seu noivo.

– Quem sou eu para dizer alguma coisa, Bella? – Edward por fim a encarou, a sorrir. – Quem sabe do nosso tempo é Deus! E vamos admitir que nós não nos preocupamos muito em sermos cuidadosos.

– Está mesmo feliz? – Ela simplesmente precisava ouvir que temeu sem razão.

– Feliz? Eu seria capaz de rodar você pela sala se não corresse o risco de fazê-la desmaiar.

Edward alargou o sorriso antes de beijar-lhe o ventre demoradamente e, de súbito avançar para capturar-lhe os lábios, calando assim a nova comoção vinda com seu gesto.

Isabella soluçou, porém não chorou. Experimentando uma alegria indescritível, retribuiu o beijo de forma apaixonada. Sem nunca afastar as bocas, Edward se sentou e a puxou para o colo. Com delicadeza, acariciou-lhe o pescoço antes de pousar a mão no ombro nu.

– Vejo que a noiva está recuperada.

Com o comentário de Rosalie, o casal quebrou o beijo abruptamente. Isabella teria pulado para o assento caso Edward não a prendesse firmemente no lugar. Somente então deixou que escorregasse para fora de seu colo e se pôs de pé.

– Costumávamos bater à porta antes de abri-las – ele comentou, sustentando o olhar da irmã.

– Eu bati, mas estavam ocupados – Rosalie esclareceu, olhando para Isabella. – Mamãe pediu para vir ver o que acontecia e eu me ofereci. O Sr. Zimmer tem algo a lhe dizer.

– Ainda isso! – Edward resmungou, correndo as mãos pelos cabelos.

Recuperada, sentindo-se leve após dividir com Edward seu segredo, Isabella se pôs de pé e se dirigiu a Rosalie:

– Edward já vai atendê-lo em um instante... Poderia nos deixar a sós?

– Posso, mas espero que não voltem ao que faziam – ela retrucou antes de sair, deixando a porta aberta.

– Lamento pela intromissão – disse Edward à sua noiva. – Gostaria de poder demonstrar o quanto estou feliz.

Aquela era sua deixa, Isabella pensou. Não faria mal em se aproveitar de um bom momento para dividir sua alegria.

– Já demonstrou – disse ao se aproximar, aliciadora, confiante. Diante do barão, ela passou a brincar com os botões do colete, sempre a encará-lo. – E já que meu senhor está feliz, eu poderia fazer um pedido?

– O que desejar – liberou-a, rouco, acariciando-lhe a curva do queixo.

– Seja lá o que o Sr. Zimmer lhe pedir, não negue.

Notas finais
Então? Gostaram? Me contem... :D Não vou me estender pq vou postar mais um... Até já.