Borboleta Negra

73 Capítulo Quarenta e Um - Parte II


Notas iniciais
Pela demora hoje vou deixar mais esse. Semana que vem trago mais... Bora, ler! BOA LEITURA!

Seria admirável se ele pudesse ter um dia completamente normal depois que Isabella passou a fazer parte de sua vida, Edward pensou, mirando-a com estranheza. Desde que ela deixou sua cama na manhã anterior, sentia-a estranha e a partir dali passou a analisá-la. Não saberia dizer o que lhe chamava a atenção, mas algo na postura, na falta de apetite, na apatia seguida de sorrisos intimistas lhe deu a impressão de que ela lhe escondia algo.

Fosse o que fosse sua noiva conseguia distraí-lo quando se entregava à sua luxúria sem reservas, durante a noite. Ao dia, contudo, ficava evidente ter um segredo, fato que o arreliava e distraia em suas obrigações. Principalmente por Isabella ter prometido que nada esconderia, nem o desobedeceria.

Aquele dia ele passou pela manhã disperso e, ao voltar do almoço, mal trabalhou. Tanto que repassou suas tarefas a Jacob para que pudesse voltar à mansão a fim de encontrar Isabella.

Chegou disposto a interpelá-la, mas qual não foi sua surpresa em encontrá-la junto às outras mulheres de sua vida? A cena era inusitada, com Amy agachada na porta, suas irmãs e noiva a mirar sua mãe, sentada ao lado de Senior Zimmer que lhe segurava a mão e a olhava com preocupada devoção.

Não queria aquela aproximação. Como antes pensou sua mãe não estava ali para ser cortejada. Então, aborrecia-o descobrir que todos sabiam da intenção daquele senhor que o esperava na sala rosa, assim como o irritava que Isabella se aproveitasse de um dos momentos mais felizes de sua vida para fazer aquele pedido.

– Não – negou veemente, mesmo que ainda lhe acariciasse o rosto e mirasse os olhos pidões. – Não vou sequer ouvir o que Zimmer tem a dizer.

– Edward, por que não? – Isabella tentou se afastar, porém ele não permitiu, mantendo-a junto a si segurando-a pelas costas.

– Porque não é adequado. Minha mãe é uma viúva respeitável.

– Desculpe-me por lembrá-lo, mas... Antes disso, ela é mulher. E uma mulher ainda muito bonita por sinal. Talvez outros senhores, além de Senior Zimmer reparem nesse detalhe.

– Desculpe a mim, por perguntar, mas... – Edward não queria brigar com ela, nem teria tempo, contudo era impossível não pensar daquela forma. – Acaso deseja se livrar de minha mãe casando-a com quem está a mão?

– Claro que não! – mais uma vez Isabella tentou se afastar, e novamente não teve sucesso, restando destilar sua bronca ali, entre os braços restritivos. – Por quem me toma?! Posso ter diferenças com a baronesa... Aliás, ela as tem comigo, mas eu jamais iria querer vê-la pelas costas. Eu não seria melhor do que Sue se fizesse isso do que me acusa! Empurrá-la para qualquer um seria o mesmo que expulsá-la. Se eu lhe fiz esse pedido em momento tão especial foi tão somente por saber que ela tem algum apreço pelo cavalheiro.

Edward ainda era atacado pela contrariedade, mas apreciou o pequeno discurso. E ficou curioso.

– Como poderia saber?

Isabella jamais admitiria ter ouvido atrás da porta, e nem seria preciso.

– Basta ter olhos para ver. Se ainda não notou é completamente cego! – replicou. – Nunca imaginei que fosse tão obtuso, senhor!

– Obtuso? – Edward uniu as sobrancelhas. – Considera-me desprovido de inteligência?

– Perdão! – pediu sinceramente. – É inteligente, sem dúvida, mas falta-lhe uma consciência. Sabe o que ele fazia comigo antes que fosse expulsa. Nunca se perguntou se a baronesa, em algum momento, tenha tido algum dissabor? Nunca lhe ocorreu quais os motivos que a levaram para longe na ocasião da morte dele? Edward... Pense! Se sua mãe teve um casamento infeliz, compete a você negar-lhe a oportunidade de experimentar algo novo?

Edward não tinha palavras. Aquela sempre foi uma questão recorrente. Chegou a questionar a mãe nos últimos tempos, sem que nunca obtivesse uma resposta. E talvez jamais a tivesse, tento em vista a reserva da baronesa, mas coube a Isabella – mais uma vez – trazê-lo à razão.

Por mais que odiasse a ideia de ver sua mãe ser cortejada, sabia que não conhecia seu pai e tinha de admitir que sua noiva pudesse estar certa. Não competia a ele. Seu papel seria tão somente ouvir...

Depois de libertar sua noiva, Edward recuou um passo. Antes de sair segurou-lhe o rosto e a beijou brevemente.

– Vá descansar – recomendou e logo a calou ao notar que retrucaria. – Não discuta comigo. Pedirei para que me deixem a sós com Zimmer, então não irá ficar mais desinformada do que todas as outras.

Sem mais palavras ele deixou a biblioteca e marchou para a sala rosa. Também seria admirável se Isabella o obedecesse. Em silêncio ela o seguiu de perto e parou no limiar, deixando que entrasse sozinho para encarar cada uma das mulheres presentes e o senhor que imediatamente se pôs de pé à sua chegada.

–Lord Edward – disse Zimmer apressadamente. – Folgo em ver que sua noiva se recuperou. Se agora pudesse...

Edward ergueu a mão para que ele se calasse então pediu:

– Saiam todas, por favor. E espero que não fiquem a ouvir atrás da porta – acrescentou quando todas o obedeceram sem protestar.

Isabella deu passagem às senhoras contrariadas e, depois de um último olhar incerto para o noivo, fechou a porta e as seguiu. Sobressaltou-a encontrar Rosalie a olhar para ela, com o cenho franzido, enquanto Alice ia com a mãe à frente, ouvindo-a reclamar por ser afastada quando o assunto seria ao seu respeito.

Imaginando se tratar de algum aborrecimento por encontrá-la aos beijos com Edward, Isabella ignorou Rosalie, deixando que sua mente tentasse decifrar o brilho que viu nos olhos do barão.

Este, sem deixar de encarar seu vizinho, indicou o sofá.

– Sente-se.

– Se não se opor, prefiro ficar de pé – disse Senior, depois de cruzar as mãos às costas. – Talvez nossa conversa seja breve.

– Ou talvez não – Edward redarguiu. – Sente-se!

Senior ainda titubeou, porém fez como indicado.

– Deseja beber algo? – Edward ofereceu. – O que lhe seria servido se perdeu.

– Eu... – Senior pigarreou. – Eu estou bem assim, senhor. Se não se importa, acho que prefiro ir direto ao ponto.

– Aprecio a objetividade de um homem. – Edward se recostou, doutrinando-se para ouvir o que fosse. Repetindo as palavras de Isabella em sua mente. – Pois então, diga.

– Bem... Gostaria de lhe falar sobre vossa mãe.

Edward respirou profundamente e assentiu.

– E o que gostaria de falar sobre minha mãe?

Foi a vez de Senior respirar pausada e profundamente antes de dizer a um só fôlego:

– Com sua aprovação, sendo o responsável por ela, gostaria de lhe pedir permissão para vir visitá-la mais vezes.

– É o que quer? Apenas vir visitá-la?

– Na verdade... Não apenas isso, senhor. Eu gostaria de... poder dizer a ela que ficaria imensamente feliz se aceitasse se casar comigo.

– Entendo.

– Bem... Também gostaria de pedir ao senhor que desculpasse minha ousadia e acreditasse que nunca, jamais, Lady Westking deu motivos para que eu tomasse a iniciativa de vir até vossa casa... Trazendo flores...

– Por duas vezes – Edward salientou.

– Sim, por duas vezes... – Senior repetiu. – O senhor acredita no que eu disse?

– Westking – corrigiu-o. Então lhe respondeu: – Não conheceria minha mãe caso duvidasse. E justamente por isso fico curioso. Se ela nunca, jamais, deu-lhe indicações de estar disponível, por que se animou a vir aqui... Trazendo flores? Por que lhe propor casamento?

– Por essa mesma razão – disse Senior demonstrando mais segurança. – Lady Westking é discreta, boa mãe, correta... Alguém agradável com quem conversar. Qualidades que admirava em Berenice.

– Entendo...

Era estranho tratar daquele assunto, mas levando as palavras de Isabella em consideração e baseando-se no que sabia de seu pai, Edward aceitou definitivamente que não tinha o direito de se opor. Ainda, segundo sua noiva, deveria ter tido olhos para ver. Senior e Elizabeth não engrenavam uma animada conversação sempre que tinham a chance? Talvez o fazendeiro estivesse apenas sendo discreto ao não expor qualquer movimento positivo da baronesa em uma dessas tantas conversas.

– Deseja conversar com minha mãe, ainda hoje, a sós? – indagou, sufocando sua reserva.

Senior maximizou os olhos castanhos e se reacomodou no sofá.

– Se estiver de acordo, Westking... Sim, eu gostaria.

– Pois muito bem – Edward se levantou e prontamente foi imitado pelo fazendeiro. – Está convidado para o jantar. Esteja aqui às dezenove horas e minha mãe irá recebê-lo. Saiba que o que ela decidir será respeitado por todos nós. Até lá não diga nada do que conversamos. Por ora...

Ao se calar Edward educadamente indicou a porta. Senior assentiu e lhe estendeu a mão.

– Obrigado, Westking!

– Não por isso, Zimmer. Tenha um bom retorno. Até mais tarde.

Dando a pequena reunião por encerrada, Edward fez com que o senhor seguisse para a porta e seguisse pelo corredor. Ao passar pela saleta foram seguidos por Alice, Rosalie e Elizabeth. Todas falando mais com seus olhos curiosos do que se falassem em realidade.

– Até mais tarde – disse Senior de modo geral enquanto recebia seu chapéu e seu casaco das mãos de Marie. Uma fez pronto para sair, despediu-se: – Boa tarde, senhoras!

– Mas o senhor já vai assim? – Elizabeth indagou por fim, seguindo-o. – Não vão dizer-nos o que falaram?

– Até a noite, senhora – Senior se voltou para despedir-se, beijando-lhe a mão, sem nada explicar.

– Zimmer é nosso convidado para o jantar – disse Edward, indicando que o senhor se fosse.

Este montou em seu cavalo sob os olhares de todos, tocou a aba de seu chapéu e partiu. De imediato as três mulheres passaram a falar ao mesmo tempo, cobrindo o barão de perguntas.

– O que ele disse? – indagou Alice.

– Por que o convidou para o jantar? – quis saber Rosalie.

– Edward, eu exijo saber o que conversaram! – demandou Elizabeth com altivez matriarcal.

– Por certo irá saber, mas antes... – Edward as interrompeu. – Onde está Isabella?

– Ela subiu – disse Alice. – Disse que você mandou que descansasse.

Edward assentiu e sorriu em agradecimento, sem ignorar um brilho fortuito que cruzou o olhar de Rosalie. Não dispunha de tempo para a bronca da irmã, então se voltou para a mãe.

– Agora nós dois, senhora... Por favor, acompanhe-me até a saleta.

– Ah, por que só a mamãe? – resmungou Alice. – Queremos saber o que está acontecendo.

Edward a mediu e pousou os olhos na barriga distendida. Imediatamente se enterneceu ao imaginar que em breve seria Isabella a se apresentar daquela forma.

– Vá você também descansar até o jantar – sugeriu amável, beijando-a na bochecha de súbito. – Saberá de tudo ao seu tempo. E você – disse a Rosalie – vá ver como estão os meninos. Não os vi ao chegar e começo a estranhar tanto silêncio.

Sem mais, tomou a mãe pelo braço e a conduziu até a saleta, sentindo o olhar dela sobre si.

– Edward, por que tanto mistério? – Elizabeth indagou depois que o filho fechou a porta. – O que o Sr. Zimmer lhe disse?

– Antes de respondê-la, gostaria que me respondesse, sem rodeios, pois preciso saber... – ele disse ao se prostrar diante dela para que se encarassem. – A senhora foi feliz enquanto era casado com meu pai?

– Voltamos a esse assunto? – Elizabeth exasperou-se tentou se afastar, porém Edward a segurou pelos ombros. – Mas o que é isso?!

– Por favor, mãe! – ele pediu. – Não se envergonhe, nem desconverse... Apenas me diga. É tão simples.

Elizabeth perscrutou-lhe os olhos, então travou os lábios. Não para demonstrar resistência, mas por de súbito se comover. Embargada, com o queixo a tremer, disse apenas:

– Ele me deu você.

– O que devo entender disso? – Edward se preocupou com a comoção, pois via não se tratar de seus conhecidos dramas teatrais. – E minhas irmãs?

– Deus sabe que as amo, mas você é diferente...

– Por que sou diferente? Essa não é a primeira vez que expõe sua predileção. Se não tivesse acabado de dizer que dele a senhora teve a mim, juraria ser filho de outro.

De súbito Edward apreciou a ideia. Seria perfeito se descobrir filho de outro que não um homem vil, corruptor de menores. Embry seria somente seu filho, não irmão.

– Está louco? – Elizabeth se recuperou e lutou até que fosse solta. – Sugere que traí seu pai?

– Não! – Edward a seguiu, alimentado a nova esperança. – Mas podem ter acontecido alguns fatores, talvez antes que se casasse... E o Sr. Bradley a aceitou, e a mim...

– Não, Edward! – Elizabeth se voltou para encará-lo, tinha os olhos úmidos, mas não chorava de fato. – Edrick é o seu pai... E já que quer tanto saber, eu te digo. Não, eu não era feliz com ele, mas não me importava. Eu tinha você... E depois tive suas irmãs. Era o que me bastava.

Edward estacou digerindo a decepção de ser filho do primeiro barão.

– Certa vez disse que casamentos também se baseiam em respeito. Ao menos aquele senhor a respeitava?

– Aquele senhor? – Elizabeth estranhou o tom. – O que se passa, Edward? Quando o pai que adorava passou a ser aquele senhor?

Tarde demais Edward reviu sua postura. Deveria Sr mais cuidadoso com as palavras.

– Foi apenas uma forma de falar... A senhora admitiu não ter sido feliz. Perdoe-me!

Elizabeth o mediu por um instante, então lhe respondeu:

– Como uma mulher pode ter certeza de que é respeitada? Em minha presença nunca seu pai nunca fez nada que me ofendesse, mas não estava com ele todo o tempo. Ainda assim, quero crer que tenha, sim, me respeitado.

Edward assentiu e indagou ainda:

– Por isso não estava aqui quando ele morreu?

– Já lhe respondi a isso – disse ela, cansada. – Foi uma infeliz coincidência. Eu não fugiria de minhas obrigações logo no final. Rosalie também precisava de mim e seu pai teve tantas recaídas das quais se recuperava... Como eu poderia saber que aquela seria a última?

– Sim... Perdoe-me. – Com um suspiro resignado, aceitando o fato de que o primeiro barão era mesmo seu pai, agora ciente de que sua mãe não fora feliz, indagou: – Acha que poderia encontrar o que não teve com meu pai ao se casar com outro?

– Casar-me com outro? – Elizabeth recuou um passou e levou a mão ao peito, lívida. – De onde tirou isso?

– Ora, vamos, mamãe... Bem sabe que foi sobre esse tema que Zimmer quis tratar comigo.

– O Sr. Zimmer?... Ele... falou em... casamento?

– Sim... Pediu-me permissão.

– Edward, eu nunca... – a baronesa negava também com a cabeça, agora muito vermelha. – Eu nunca... Nunca dei a entender...

– Não precisamos de tanto, mamãe – Edward a tranquilizou. Saber como a mãe se sentia arrefeceu sua reserva. – Basta nos interessarmos e Zimmer está interessado na senhora. É um fato! Minha pergunta é... A senhora estaria interessada nele?

– Edward, eu... – Elizabeth olhou de um lado ao outro, confusa.

– Não precisa me dizer nada – ele a desobrigou. – Apenas saiba que ele virá jantar aqui essa noite para conversarem. Pense bem até lá e tome sua decisão. Como disse a ele, o que a senhora decidir, eu respeitarei.

– Edward...

Edward se aproximou a com dois passos, segurou-lhe os ombros e se curvou para beijar-lhe o rosto.

– Não diga nada a mim, mamãe... Guarde a surpresa para seu pretendente. Receba-o na biblioteca ou na sala rosa. Ele virá às dezenove horas.

Elizabeth maximizou os olhos, então chamou a plenos pulmões antes de seguir para a porta, sem despedidas:

– Amy! Irina! Onde estão suas molengas?

Caso não se sentisse esgotado, Edward teria rido agora que tinha olhos para ver e antevia a decisão de sua mãe. Não era hora, mas foi até a mesinha e escolheu um charuto. Depois de acendê-lo, foi se colocar à porta que dava para a varanda. Apenas a abriu e passou a degustar a fumaça que retinha em sua boca, rogando para que o sabor eliminasse o fel de saber ser mesmo filho de quem era. Alguém que por algum motivo particular jamais fora capaz de fazer sua mãe feliz.

Como pensou na alfaiataria nada temia e agora descobria que nada o surpreenderia. A revelação apenas alimentava certo remorso pelos anos de ressentimento que dirigiu a mãe, e ele desejou estar certo em sua dedução e que Elizabeth aceitasse o que Zimmer lhe propusesse e experimentasse um sentimento novo em sua união. Assim como Isabella tinha a chance de recomeçar e ter uma família digna.

Com o pensamento Edward se lembrou de que em breve seria pai, de verdade. Bem, com Embry já se sentia pai, mas agora seria pai de um menino seu. Ou de uma menina. Linda, com os cabelos negros como os da mãe.

Por fim Edward sorriu, olhando em frente, como se assim pudesse ver ele ou ela a correr por entre as árvores do bosque, do pomar mais além...

Esteve tão distraído, devaneando e decidindo se apagava ou não o charuto para ir ter com a mãe de seus filhos, quando sentiu o leve carinho em seu ombro. Contente por ela ter vindo até ele, Edward se voltou, ainda a sorrir. Contudo seu sorriso se desfez ao se deparar com Irina, que lhe sorria de volta.

– O que deseja? – Edward indagou já a reparar na penumbra da saleta; não atentou ao tempo.

– Vim ver se precisa de alguma coisa, senhor – disse solícita, sem se afastar.

Edward não gostou de reconhecer a velha adoração nos olhos verdes.

– Se quisesse algo pediria a Sra. Newton – disse indiferente. – Se bem me lembro é criada da minha mãe. Por que não está com ela. Não a ouviu lhe chamar?

– Ouvi, sim, senhor. E já a ajudei... E também já levei os meninos para seus respectivos quartos. As senhoras se preparam para o jantar e vossa noiva está dormindo. Por isso vim...

Edward gostou menos ainda da ambiguidade inserida no comentário.

– Pois está dispensada. Vá ver se precisam de sua ajuda na cozinha. Hoje teremos um convidado.

– Sim, o Sr. Zimmer... A baronesa está ansiosa para recebê-lo. Eu poderia parabenizá-lo por aceitar essa... corte? Vossa mãe não diz muito, mas sei que nutre algum apreço pelo cavalheiro em questão.

– Cumprimentos aceitos, mas dispensaria sua indiscrição – replicou duramente, afastando-se para apagar o charuto no cinzeiro sobre o console da lareira. – O que sabe de seus patrões deve guardar para si.

– Então não devo revelar o que ouvi sua noiva comentar com Marie outro dia? – Irina indagou despretensiosamente.

Edward não deveria dar-lhe atenção, mas sua curiosidade falou mais alto. Talvez ainda houvesse algo que não soubesse... Talvez ela tenha revelado a gravidez para desviar o foco de alguma ação futura, como salientou ao abordá-la...

– Pois bem... Diga o que ouviu.

Irina sorriu e se aproximou para cochichar, cúmplice:

– Ela está grávida e não quer que o senhor saiba – revelou. – Não quero intrigá-lo, mas... Por que ela esconderia tal coisa sendo que já têm um filho? Eu soube que estiveram separados por anos... Ocorreu-me que talvez o senhor não seja o pai e ela queira...

– Já basta! – Edward a cortou, odiando-se por ouvi-la. Trocando-se por uma criada tão ou mais mexeriqueira do que aquela de língua viperina que tinha diante de si.

– Perdão, senhor, mas é possível – retrucou Irina, inabalável. – Também é sabido que ela não é uma dama, sim criada, como eu. Em nosso meio não temos tantos pudores e...

– Mais uma palavra, Irina, e não garantirei sua permanência nessa casa – avisou-a, beligerante. – Não julgue minha noiva a partir de suas licenciosidades. E também espero que não me prive do direito de dar a notícia à minha família.

– Então o senhor sabia!

– Evidente. E, caso resolva anunciar que Isabella espera um filho meu, faça-o com suas malas já à porta.

– Não me ocorreu fazê-lo, Lord Edward. – Pela primeira vez Irina demonstrou alguma preocupação. – Juro que não quis ofendê-la. Não imaginei que tivesse por ela tanto apreço. Eu... Bem... Achei que fosse apenas seu senso de responsabilidade que o levava para esse casamento inadequado, afinal... nunca deu oportunidade de outra criada se aproximar do senhor...

– Pela última vez – Edward a encarava duramente –, quando diz essas coisas, não a ofende, sim a mim! Com quem me confunde para acreditar que eu devesse dar oportunidades a essa ou àquela criada? Deve se lembrar de que, apesar tolerar seus gracejos, nunca permiti que se ocupasse comigo e é assim que deve ser. Ocupe-se de sua senhora, Srta. Ully.

Ao deixar a saleta, Edward não esbarrou em Marie porque esta se afastou ao vê-lo. Ele sequer a cumprimentou e seguiu para o hall e depois escada acima. A tranquilidade, vinda com o charuto e o devaneio com seu filho, de todo se perdera.

Ao entrar no quarto de sua noiva, o barão teve de se conter para não bater a porta com violência. Por vezes ter considerado divertido tal interesse e até ter sido condescendente com alguma insinuação agora lhe trazia aquela contrariedade. Deveria ter vetado os pequenos avanços desde a primeira vez que Irina indicou estar pronta para se meter sob seus lençóis.

E não por Irina ser uma criada, apenas por jamais lhe despertar o desejo ser assediado abertamente. E agora, Edward pensou a mirar sua noiva adormecida, seu coração e suas calças estavam terminante fechados para qualquer outra.

Ao se deitar junto a Isabella e puxá-la para seu peito, Edward ainda se sentia um tanto raivoso, mas tentou se deixar levar pela placidez da mulher que amava. Tanto que o veneno de Irina nem por um segundo o adoeceu. Sim, Isabella escondeu, mas já sabia da gravidez. E, usando a mesma redundância de Senior Zimmer, nunca, jamais, duvidaria que aquele filho fosse seu.

– Hum... – Isabella resmungou, meio espreguiçando-se, meio se escondendo sob o dorso do barão, ainda que o abraçasse. – Eu cochilei... Estou me tornando uma preguiçosa.

– Aqui, você pode ser o que quiser – Edward gracejou com a verdade. – Essa casa é sua!

Isabella sorriu e o encarou ainda sonolenta. Linda, com os cabelos de noite em desalinho, o rosto corado.

– A baronesa teria argumentos para desdizê-lo, senhor.

– Graças à senhorita – ele lhe tocou a ponta do nariz, agradecido por finalmente sentir seu peito acalmado –, talvez a baronesa tenha outra casa para administrar.

Completamente desperta, Isabella se sentou para encará-lo. Edward apenas cruzou as mãos atrás da cabeça para admirá-la mais, considerando-a adorável.

– Então o Sr. Zimmer pediu a mão da baronesa?! – Quem poderia imaginar que, mesmo com o embaraço, o senhor tivesse coragem? Isabella admirou-se. – E você aceitou?

– Como uma moça bem me lembrou essa tarde, não me cabe decidir. Apenas ouvi o que o homem tinha a dizer e o convidei para o jantar. Cabe à minha mãe, aceitar ou não.

– Oh, Edward! – Isabella se atirou sobre o peito do barão, sorrindo, verdadeiramente feliz pela baronesa. – Estou tão orgulhosa de você! Agora que me mostrou que a felicidade pode ser mais do que alguns momentos, quero que todos experimentem a mesma sensação.

Abalado com a declaração, Edward a abraçou de súbito.

– Eu mostrei? – indagou, rouco.

– Claro! – Isabella o encarava com estranheza. – Você me deu Embry, um lar para ele, uma família com avó, tios, tias, primos e em breve um irmão. Eu sei que me ama, pois não apenas diz, mas demonstra até mesmo na forma como me olha, como me toca... Como eu não seria constantemente feliz?... Edward? O que há?

Edward ouviu tudo com atenção, as questões finais, consternadas, mas não pôde responder. No fundo de sua mente a voz da mãe repetia algo similar: ele me deu você.

Tinha algo mais ali e, de repente, Edward temeu o que pudesse ser. Sim, pois, assim como Embry era especial para Isabella, ele o era para a mãe. Ambos eram filhos do mesmo homem.

E no caso do primeiro barão era diferente. Jamais poderia negar que o canalha fora bom pai, mas nunca sentiu o amor pela esposa nos olhos, nos toques. Aliás, estes eram inexistentes. Raramente os pais se tocavam, salvo as situações de praxe como ao ajudar a esposa a subir ou a descer da carruagem; os cumprimentos em datas festivas... Era surpreendente o grau de sua cegueira!

Ele me deu você.

Não! Decididamente, inexplicavelmente, Edward não queria saber. Agora, mais do que nunca, desejava que sua mãe aceitasse a proposta de Zimmer. Todas as vítimas de Lord Edrick deveriam ser felizes.

– Edward, você me preocupa!

– Fiquei sem palavras com o que me disse – falou a esboçar um sorriso antes de deixar a cama e fazer com que Isabella se ajoelhasse sobre o colchão para abraçá-la. – Por favor, perdoe-me por ter de sair logo agora, mas temos de nos aprontar. Hoje teremos visitas.

– Sim, eu entendo. – Isabella ainda estranhava o recente silêncio, mas não o deteria. – Logo Marie virá me ajudar.

– Faça isso – Edward lhe acariciou os cabelos. – E comece a pensar em substituí-la. Até o momento, cuidar de você não tem atrapalhado seus outros afazeres, mas em breve você requererá maior cuidado, de preferência exclusivo.

Isabella apenas assentiu e o abraçou. E de repente, aquilo era tudo o que Edward mais precisava e queria. Ter ao seu redor os braços da mulher que desde já fazia feliz.

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado... Se possível, me contem! Boa noite meus amores... Semana que vem tem mais. Bjus