Borboleta Negra

34 Capítulo Dois - Parte II


Notas iniciais
Oie... Boa noite! Como no face já postei até o capítulo cinco, vou atualizando aqui por esses dias, depois é esperar...

Obrigada pelos reviews, estou respondendo como posso... Então, desculpem a demora... :)

Agora vamos ver o que vem pela frente...

BOA LEITURA!

Como nas manhãs anteriores, o silêncio reinava na sala de jantar. Pela vontade de Edward, ele receberia seu desjejum na cozinha, como nas vezes em que estava sozinho, pois era preferível o olhar apiedado de suas criadas ao avaliador de sua mãe. Estava farto de ser julgado, cobrado ou qualquer outro aborrecimento que ela poderia lhe impingir. Se acaso ele descobrisse quem era o responsável por seu retorno precoce, seria bem capaz de expulsar de sua propriedade.

Ao levar um pedaço de bolo à boca, o barão olhou duramente para Marie que de cabeça baixa se mantinha ao lado de Amy, responsável por servir à mesa. Ao menos aquela insolência ele não atribuía a ela. A governanta poderia ser a responsável por ele não ter encontrado Isabella a tempo, mas sua devoção à moça era real e ele acreditava que jamais faria nada que os prejudicasse.

– Devo esperá-lo para o almoço? – indagou a baronesa ao abaixar a delicada xícara de porcelana e pousá-la sobre o pires com o mais leve ruído.

– Bem sabe que não. – Edward respondeu sem olhá-la, cortando outro pedaço de bolo, recusando-se a lembrar as vezes que sua noiva o alimentava. – Terei um dia cheio.

– Antes assim do que os dias de clausura. – Elizabeth o salientou antes de despretensiosamente indagar: – Para onde vai? Demora a voltar?

– É bom que esteja fora, pois hoje é dia de limpeza nos quartos milord – Marie falou rapidamente, antes que respondesse.

– E quem lhe perguntou alguma coisa, sua insolente? – vociferou a baronesa.

– Perdoe-me milady, mas considerei que seria bom o barão saber que hoje limparemos seu quarto.

A brava insistência da governanta fez estalar algo na mente do barão. Pela primeira vez em muitos dias, viu um motivo para lhe ser agradecido. Esboçando um fraco sorriso em entendimento, maneou a cabeça afirmativamente antes de se voltar para a mãe e alertar:

– Sim, eu demorarei senhora e ficaria de fato aborrecido caso descobrisse que algo foi retirado de meu quarto durante minha ausência. Limpe o quanto quiser, porém deixe tudo como está, cada item em seu devido lugar.

– O lugar daquelas porcarias é no fogo, pois nem o lixo deveria recebê-las.

– Se por porcarias se refere às roupas e ao chapéu de Isabella, devo salientar que as quero onde deixei. E não estou pedindo.

– Agora insiste em ditar ordens à sua mãe? – Elizabeth questionou ofendida.

– Absolutamente senhora, apenas troco favores... Se algo que estimo for retirado de meu quarto, ou pior, destruído, várias coisas que igualmente estima serão prontamente retiradas de seus aposentos e não serão lançadas ao fogo e sim, distribuídas entre a criadagem.

– O filho que conheço não ousaria! – A baronesa ciciou muito vermelha.

– Se acredita me conhecer tanto assim mamãe, siga em frente com sua limpeza. Agora... Com vossa licença.

Sem esperar pela liberação, o barão afastou a cadeira e deixou a mesa. Não voltou a olhar Marie e, ouvindo o chamado quase histérico de sua mãe para que retornasse, deixou a sala e então a casa. Seu dia seria realmente cheio e não o desperdiçaria com os achaques da baronesa. Passaria a manhã no galpão e, como nas últimas duas terças-feiras, iria até Westking. Sabia que apenas se enganava, remarcando seus compromissos para aquele dia, mas não conseguia evitar. Os homens que ficavam a espera de Isabella nunca a viram, no entanto ele acalentava a esperança de que ela aparecesse no mesmo dia no qual a conheceu. E com a liberação da ponte, Edward se sentia especialmente animado.

– Ela virá, eu sinto – disse a ninguém, acariciando a pérola negra. – Virá!

***

– Você tem certeza de que deve ir? – Angela indagou pela terceira vez naquela tarde, enquanto apertava o espartilho de Isabella. – Eu, mais do que ninguém quero notícias de Embry e que você retome sua vida, mas depois de tudo o que me contou...

– Eu estou bem, juro! – Isabella a acalmou. – E não me demorarei. Sam estará comigo, o dia está lindo então não se preocupe.

Era aquilo que dizia a si mesma, desde que despertou naquela manhã, a rolar a mecha usurpada dos cabelos de Edward entre os dedos; não haveria como se encontrarem como da outra vez. E seria breve. Isabella acalmaria Carlisle, receberia sua carta, escreveria a resposta e então partiria diretamente de volta para casa.

– Se é assim... Já escolheu o vestido?

– Quero o azul... Quem sabe se ao me vir com um de seus presentes, ele se distraia e não me crive de perguntas.

– Você ainda se lembra de Sir Cullen, não? – Angela indagou trocista, voltando com o vestido pedido. – Ele a crivaria de perguntas mesmo que aparecesse com tudo o que ele já lhe deu.

– Acredito que sim... – ela murmurou desanimada; não estava preparada para um novo interrogatório e com o banqueiro não poderia falhar como aconteceu na tarde anterior. – Mas não posso fugir ao meu compromisso.

– Então, deixe-me ajudá-la.

Entregando-se aos cuidados da amiga, Isabella terminou de se aprontar, deixando para o final a colocação do chapéu que lhe ocultaria o rosto empalidecido manualmente com pó-de-arroz que ocultava as pesadas olheiras. Alcançando sua bolsinha com a mão enluvada, a moça marchou porta afora, seguida por Angela. No andar inferior encontrou algumas meninas a se ocuparem com a limpeza do salão. Não era atribuição delas, mas faziam como forma de preencher o tempo livre. Eve externou o que Isabella via nos olhos de todas as moças presentes.

– Vai ao seu passeio mensal?

– Sim, mas dessa vez volto hoje mesmo – ela respondeu mansamente. – Não se preocupem.

– Sabe que ficamos preocupadas da outra vez – disse Pepper, pousando o braço sobre o cabo da vassoura.

– E voltou tão estranha e doente – completou Kate, a mais velha antes de Angela. – Não nos disse o que aconteceu, mas sabemos que foi algo ruim... Espero que não se repita. Vai levar Sam, não vai?

– Vai sim... – Pepper respondeu por ela. – Vi que ele está lá fora, esperando em um coche de aluguel.

– Exatamente – Isabella acrescentou agradecida pela preocupação sincera. – Não sairei mais desacompanhada. Sam ira garantir que eu volte ainda hoje. Até mais tarde meninas.

– Que Deus a acompanhe! – disseram todas; era costume.

Ao deixar a casa, Isabella fechou os olhos habituados à meia luz do interior, ofuscada pelo sol daquele início de tarde que rescindia na copa das árvores, lançando um brilho vívido sobre tudo a sua volta. Testando olhar em volta, Isabella reparou em como as folhas já estavam amareladas, lembrando a proximidade do inverno. Que viesse ligeiro, ela rogou, pois assim o movimento no jardim reduziria e ela poderia novamente estar com Embry.

– Venha senhora... – Sam disse ao seu lado, segurando-lhe o cotovelo respeitosamente. – Deixe que a ajude.

Antes que ela lhe agradecesse, o homem forte e moreno a ajudou a descer os degraus, deixando-a somente ao instalá-la na boleia. Daquela vez Isabella preferiu que fosse seu criado a levá-la, pois não voltaria a confiar em outro condutor. Na verdade, mesmo se resolvesse arriscar não aconteceria, pois Sam já estava comprometido a nunca mais deixá-la sozinha. E Isabella lhe era agradecida pela atenção, pois um conhecido lhe daria forças para não ter nenhum pensamento temerário como o de procurar pelo barão; ninguém, jamais poderia vê-los junto.

Com o veículo em movimento, Isabella se permitiu olhar pela janela. Logo deixaram a clareira na qual o bordel fora construído e seguiam rumo a Wisbury. A cidade era muito próxima, menos de um quilometro. Passaram pela porta da igreja e em dois minutos atravessavam a ponte. Naquele ponto o coração de Isabella se oprimiu, pois logo passaria por caminhos que percorreu ao lado do barão. Passaria diante dos portões de Apple White e também os da fazenda na qual fora pedida em casamento.

Antes que todas essas coisas se dessem, ela fez correr a cortina pela janelinha e se refugiou no banco, fechando os olhos fortemente. Rogando que Deus realmente a acompanhasse, mesmo que estivesse em falta com Ele por não ter ido à igreja em nenhum domingo após sua volta, iniciou uma fervorosa oração, pedindo que não fraquejasse e seguisse sempre em frente. Distrair-se com as muitas preces de fato ajudou, pois quando menos esperava, Isabella sentiu o coche parar e então ouviu o anuncio de Sam.

– Estamos a uma quadra do Hotel senhora. Não quer que chegue mais perto?

– Não, aqui está bom! – disse já a saltar, sem esperar por nova ajuda; tinha pressa.

– Pare em outro lugar e venha vigiar a porta. Não sei quanto tempo esse encontro me tomará, mas assim que me vir sair, eu quero que vá buscar o coche e venha me encontrar.

– Sim senhora – o moreno aquiesceu com um maneio de cabeça, abraçado ao seu chapéu.

Com um sorriso tímido pela fiel devoção, Isabella o liberou e se foi, seguindo em largas passadas até o hotel. O movimento era o mesmo de sempre e, como se o tempo sequer tivesse passado, o conhecido recepcionista veio recebê-la para levá-la até o quarto de Carlisle.

– Isabella! – este exclamou, deixando a costumeira poltrona para vir até ela, antes mesmo que a porta fosse completamente fechada. Sem esperar que a moça retirasse o chapéu ou o repreendesse pelo uso do nome, abraçou-a fortemente. – Minha pequena Isabella, por onde andou todos aqueles dias?

– Direi se não me sufocar – ela gracejou, retribuindo o abraço; descobriu naquele instante que também lhe sentia a falta.

– Minha pequena, deixe-me olhá-la – o banqueiro pediu, afastando-a para erguer o tule do chapéu enquanto Isabella o desprendia dos grampos que o afixava em sua cabeça. Juntando as sobrancelhas sobre os olhos azuis, lamentou: – Oh, está tão pálida! Esteve doente, eu sei.

– Sam fala demais – ela comentou, deixando-o para depositar o chapéu sobre outra poltrona e retirar as luvas. – Estive apenas indisposta.

– Não minta para um velho preocupado – pediu o amigo, tomando-a pela mão, como sempre sem se importar por estar em trajes sumários. Ao se sentar sobre a cama e fazer a jovem imitá-lo, beijou-lhe os dedos e prosseguiu: – Conte-me onde esteve... O que aconteceu para sumir assim?

– Bem... – ela começou a mentira ensaiada. – O cocheiro me abandonou naquela tarde, então fui obrigada a me hospedar em uma das pousadas aqui de Westking. Depois soube da ponte e fui ficando, ficando...

O banqueiro amiudou os olhos, desconfiado.

– Está me dizendo que, por duas semanas sem qualquer notícia, você esteve hospedada aqui?

– Estou! – confirmou tentando ser convincente. – Precisava desse tempo.

– Eu não acredito! – Carlisle exclamou sem liberá-la. – Desculpe-me, mas não tem como acreditar que deixaria a mim, Angela e especialmente o pobre Sam sem qualquer indicação de onde estivesse somente porque aproveitou os imprevistos da vida para “pensar”. Essa não é você, minha cara. Sempre levou os outros em consideração, antes até de si mesma. Por favor, não tente me iludir e conte a verdade.

– Acredite ou não, essa é a verdade – insistiu com o coração aos saltos por magoá-lo. – E eu estava disposta a ir embora somente quando a ponte estivesse de pé, mas... Justamente por pensar em vocês que voltei antes do que previ.

– Então nós devemos ser gratos pela deferência? – questionou magoado; sentido lhe soltou a mão para se pôs de pé e lhe voltar às costas.

Antes, Isabella o adularia. Provavelmente o abraçaria pelas costas ou beijaria suas bochechas para então apertar seus lábios aos dele, conciliadora. Naquele momento, contudo, tais ações lhe eram inimagináveis, mas não poderia simplesmente deixar que o amigo sofresse sem sua atenção. Ao se levantar, foi até o banqueiro e lhe tocou o braço, de leve, antes de beijá-lo em uma das bochechas.

– Perdoe-me... – pediu candidamente. – Jamais foi minha intenção magoá-lo, Carlisle. Ou a Angela, Sam e até mesmo as meninas. É que... Simplesmente aconteceu. Fatos que não posso revelar me levaram a ficar e repensar minha vida. Por favor, não me vire às costas, pois agora, mais do que nunca precisarei de seu apoio.

– Então, é apenas para isso que sirvo? – Ele cruzou os braços e lhe voltou o rosto. – Para ajudá-la quando precisa?

– Sabe que não! – Isabella exclamou colocando-se a frente dele, apoiando-se nos braços cruzados. – Você é meu melhor amigo, uma das raras pessoas em quem confio. Na verdade, há quase quatro anos você tem a minha vida em suas mãos. Não pode apenas entender que, razões além de minha vontade, me levaram a esse recolhimento? Estive confusa, perdida demais para tomar esses cuidados que agora me cobra.

O banqueiro ainda manteve-se rígido por um instante, antes de descer o olhar azul e encontrar os olhos lacrimosos dela. Imediatamente se entregou e, abraçando-a de súbito, pediu:

– Perdoe-me, sou um velho fútil e egoísta! Não chore por minha causa pequena. Eu mais do que ninguém deveria saber que um dia você precisaria desse tempo para avaliar a própria vida. Que horrível eu sou!

E lá estava a conhecida afetação indicando que o amigo estava de volta. Ainda comovida, Isabella novamente o abraçou e não se importou em ter seus cabelos beijados; “ele” nunca a exasperaria com suas demonstrações de carinho.

– Estou perdoado? – Carlisle indagou contra seus cabelos.

– Somente se também me perdoar – ela retrucou contra o peito acolhedor.

– Sou um velho de coração mole – ele a afastou para tocar-lhe o rosto delicadamente. – E seria tolo de minha parte perder mais tempo com essa cobrança sem sentido quando temos tanto a fazer. Estou com a carta de Embry, mas antes de entregá-la quero o tratamento de sempre.

– E você o terá meu amigo – ela assegurou; contente por ter conseguido se livrar de mais perguntas. Seu segredo estava seguro.

***

Edward correu os dedos por entre seus cabelos crescidos, impaciente. As horas corriam arrastadas naquela tarde onde estava evidente que sua esperança novamente fora vã. Isabella não viera à cidade e para piorar seu humor, os rótulos de sua sidra não estavam a contento. As mudanças pedidas na semana anterior não foram feitas em sua totalidade e a arte final estava – como bem nomeou – um lixo.

– Não tenho a tarde toda – anunciou ao ilustrador. – Poderia me apresentar uma imagem que preste?

– Estou trabalhando nela Lord Masen – disse o homem, com a cabeça inclinada sobre sua prancheta a rabiscar nervosamente com seus dedos pretos de carvão. – Seria mais tranquilo para nós dois se me deixasse trabalhar e voltasse amanhã.

– Foi exatamente isso que me disse antes, e hoje não tinha nada decente a apresentar – retrucou, acomodando-se mais sobre a cadeira. – Prefiro ver como ficará antes que imprima outra temeridade.

O responsável pela arte dos rótulos lhe lançou um olhar dardejante, mas nada falou. Apenas se entregou ao trabalho com maior afinco.

Cruzando os braços sobre o largo peito e batendo um dos pés no assoalho de madeira lustrosa, Edward se preparou para esperar o tempo que fosse preciso. Esquecendo-se do desenhista questionou se em sua casa a mãe teria se atrevido a tocar nos pertences de Isabella. O barão rogava que ela não fosse insana ao ponto de desobedecê-lo, pois estava muito disposto a confiscar suas preciosas jóias e estimadas peles para antecipar o melhor presente de Natal que suas criadas poderiam receber.

Coçava sua barba distraidamente, alimentando um prazer maldoso por imaginar a mãe que o infernizava há dias, lívida a segui-lo pelos corredores enquanto fizesse a generosa distribuição quando um de seus criados apareceu em seu campo de visão, fora da sala do ilustrados. Ao perceber que fora visto, este lhe acenou com urgência, pedindo que saísse.

– Com sua licença – pediu ao carrancudo desenhista antes de se retirar. Ao fechar a porta envidraçada atrás de si indagou ao criado. – O que faz aqui?

– Perdão por atrapalhá-lo, mas Jacob pediu que eu viesse lhe avisar que a moça está na cidade.

– Ela está?! – indagar demandou certa força do barão, pois o ar subitamente lhe faltou. Já tomando o caminho que o levaria à rua, acrescentou: – Onde?

– No hotel milord – disse o homem, praticamente a correr para seguir-lhe os passos largos. – Fui até Apple White avisá-lo e só depois que fui até a sidreria eu soube que já estava na cidade; aqui na gráfica.

– Isso tem quanto tempo? – perguntou preocupado com um desencontro; e ainda descrente que finalmente iria vê-la.

– Quase uma hora Lord Masen.

– Quase uma hora?! – Edward exclamou aborrecido, apertando mais o passo.

– Perdoe-me milord... Eu corri o mais que pude, mas não o encontrei imediatamente como ordenou.

– Acalme-se, não o culpo – o barão o tranquilizou, estranhando não ver seu criado. – Onde está Jacob afinal?

– Ele pediu que lhe avisasse e foi para a porta do hotel – explicou o homem, já com pouco fôlego.

– Entendi... Bem, não precisa me seguir. Pode voltar para sua casa e... Obrigado pelo aviso.

Edward não esperou por respostas ou agradecimentos. Pouco atentando também aos cumprimentos que recebia em seu caminho, acenava em direção ao som de seu nome e seguia sempre em frente, rumo a duas ruas além daquela. Logo estava na via principal, atravessando diante dos poucos veículos, até que avistasse seu criado. Jacob estava só, indicando que talvez tivesse igualmente dispensado o outro criado.

– Ela ainda está lá? – Edward indagou tão logo parou ao lado do amigo.

– Segundo Jeremy, sim... – informou a rodar o chapéu entre as mãos.

– Tem certeza de que ela não saiu sem que a visse?

– Certeza absoluta Sir Masen – assegurou. – Acalme-se.

– Estou calmo! – exclamou alto demais; não estava.

– Percebo... E ainda acho que deveria deixar a moça em paz – Jacob opinou. – Ela não ter voltado como acreditou que faria é prova suficiente de que não...

– Cale-se Jacob! – Edward ordenou.

Ao inferno com a opinião alheia. Tinha que vê-la e somente um autocontrole que nem sabia possuir o mantinha na calçada, impedindo-o de invadir o hotel. Pela mente do barão passavam as mais variadas possibilidades do que Isabella estaria fazendo ali; depois de abandoná-lo sem nunca voltar. Cometeu o erro de não perguntar da primeira vez, mas não repetiria o feito. Naquele momento sua mente fervilhava exortando-o a tomar conhecimento de muitas coisas; por que ela o deixou quando afirmou amá-lo? Estaria carregando um filho seu? Onde morava? Com quem estaria? Havia voltado para Embry? Caso não conseguisse todas as respostas enlouqueceria.

Na verdade já se considerava um tanto insano por se prestar àquele papel de vigiar a entrada de um hotel sem chances de escapar aos cumprimentos daqueles que o reconhecia, dispensando quem se aventurava a parar. Tudo para rever aquela que, segundo seu criado e sua mãe, não se importava com ele. Exasperado consigo mesmo Edward bufou e deu as costas ao hotel, fechando os olhos fortemente. Nesse instante Jacob o alertou:

– Ali está ela!

Edward se voltou imediatamente em tempo de ver aquela que pisou em seu coração descer os poucos degraus da entrada do hotel e correr os olhos ao longo da rua, em ambas as direções. Como da primeira vez que a viu tinha o rosto coberto, daquela vez pelo véu de um chapéu de tecido azul escuro como o vestido. Seu pescoço, colo e braços estavam cobertos por uma pequena capa permitindo que o barão apenas visse o antebraço e as mãos enluvadas que ela mantinha pousadas uma sobre a outra em frente ao corpo a segurar uma bolsinha. Claramente esperava por alguém.

– Vossa senhoria não vai até ela? – Jacob o livrou do transe.

– Ela continua tão bonita... – o barão murmurou intimista. Percebeu ter dado voz ao pensamento quando o criado o recordou.

– A senhorita é muito jovem ainda. Continuará bonita por muito tempo.

– Não preciso ser lembrado disso – ciciou finalmente se movendo e, ao notar também a movimentação do criado, ordenou: – Não me siga!

Livre da admiração que o estacou, o barão caminhou a passos largos em direção a moça alimentando o ressentimento por considerá-la muito disposta diferentemente dele próprio que de modo geral se sentia miserável sem ela. Tão logo a teve ao alcance de suas mãos, Edward a segurou fortemente pelo braço oculto pela capa. Reflexivamente ela lutou por liberdade, porém parou completamente ao ver seu captor, encarando-o com olhos alarmados, encobertos pelo véu.

My lord?! – exclamou correndo os olhos para ambos os lados da calçada ante de novamente encará-lo; a respiração falha.

– Não sou mais “seu lorde” não é mesmo? – Edward indagou sem conseguir ocultar a raiva sentida; odiando a si mesmo por reagir fortemente a ela. – Afinal me deixou.

– Edward eu...

Isabella não sabia o que dizer. Temeu aquele encontro, mas não contava que este se desse logo em seu primeiro dia depois de seu recolhimento. O choque em ver o barão somado à saudade sentida não ajudava a juntar duas palavras com coerência. Considerá-lo abatido sob a barba crescida e ainda assim muito bonito, não melhorava sua situação; nem mesmo o rancor nos olhos azuis. Antes que Edward lhe dirigisse outra palavra, levou-a para longe da entrada do hotel até estarem diante de uma loja desativada. Naquele ponto, sem se importar com coisa alguma, virou-a para si.

– Exijo saber com quem esteve naquele hotel Isabella!– Edward ciciou ainda a segurando com força desmedida.

Abalada com aquela proximidade, reprimindo o desejo de tocar-lhe a barba e o rosto magoado, Isabella apenas abriu e fechou a boca; o que lhe diria?

– Responda Isabella! – demandou o barão. – Diga alguma coisa! Esse é mesmo seu nome? Por que fugiu de Apple White? Foi para ficar com outro homem? É ele que está no hotel?

– Eu disse que não havia outro... E sabe meu nome, assim como sabe por que parti... – ela conseguiu externar; havia explicado tudo na carta, não havia? Pensou aflita. Em voz alta concluiu: – Considerei que tivesse entendido.

– Como poderia entender coisa alguma quando não me disse nada? – Edward sibilou muito próximo.

– Como não? – Isabella indagou novamente olhando em volta antes de avisar: – Deveria me soltar, pois estão olhando...

– Não devo nada a ninguém dessa cidade, se a senhorita deve é problema seu – ele disse ainda enraivecido, saudoso; nem sabia mais o que sentia. – Quero uma explicação e também saber se carrega um filho meu.

– Não... – ela murmurou com pesar. – Não tem o que temer, pois...

Isabella não pôde concluir ao ser solta bruscamente quando o barão foi afastado dela por seu segurança.

– Afaste as mãos de minha senhora! – Sam ordenou se colocando diante dela.

– Não intervenha quando não foi chamado, senhor. – Edward o enfrentou de queixo erguido, cerrando os punhos mesmo que os mantivessem abaixados. – Tenho assuntos a tratar com esta senhorita, então nos dê licença.

– Conversarão caso ela assim o queira, cavalheiro. – Sam retrucou e afastou a lateral do casaco para pousar a mão discretamente no cabo da arma que sempre levava a cintura.

Edward assistiu a cena e franziu o cenho tentando olhar Isabella sobre os largos ombros do homem a sua frente.

– Acaso o conhece?

– Sim, ele cuida de mim... – ela falou num murmúrio; incomodada com toda aquela situação. – É melhor ir embora Lord Masen.

– Algum problema aqui? – Jacob finalmente se aproximou e igualmente ameaçou puxar sua arma, caso o outro se atrevesse a tocar em seu senhor mais uma vez.

– Não há problemas, não é mesmo Isabella? – Edward perguntou incisivo.

– Não, não há... Assim como nada a ser dito – a moça sentenciou. – Peça a Jacob que se afaste que seguirei meu caminho em paz.

– Não respondeu às minhas perguntas – o barão salientou medindo o homem que a defendia; sem se abater com a expressão de poucos amigos no rosto moreno.

– Respondi – ela replicou. – Não estou grávida e bem sabe as respostas para o restante... Vossa senhoria siga com vossa vida que farei o mesmo... Passar bem Lord Masen, Jacob, lembranças à Leah... Vamos Sam!

Segurando o braço do segurança, ela o fez se mover e sem olhar para trás se afastou. Algo lhe dizia que não seria fácil fugir de alguém tão obstinado quanto Edward e teve a prova ao ser novamente abordada enquanto Sam a ajudava a entrar no coche.

– Isabella você me deve uma explicação – disse Edward, barrando sua entrada.

– Barão ou não o senhor está acabando com minha paciência. – Sam o advertiu.

– Acalme-se Sam, ele não está me ameaçando... – para Edward, falou: – Está apenas confuso, mas não tenho como ajudá-lo. Posso apenas agradecer pelo tempo que me acolheu e só... Desculpe por mentir, perdoe-me se o decepcionei, mas não posso mudar nada do que fiz... Agora, por favor, deixe-me em paz.

O choque por ela, descaradamente, admitir que lhe mentisse por todos aqueles dias atordoou o barão por um instante que foi prontamente aproveitado por Isabella em sua nova fuga.

– Deixe-a ir Sir Masen. – Jacob pediu, segurando-o pelo peito quando fez menção em embarcar na boleia. – Não vê que não há nada mais a ser dito?

– Sim, agora vejo! – Edward falou alto o suficiente para que ela o ouvisse; infantilidade ele sabia, pois ao que parecia, Isabella mentiu até mesmo sobre seu amor.

Ao ver o coche ganhar distância o barão sentiu todo o resto de esperança perecer até se extinguir. Esperou tanto por aquele encontro; ele viera de fato ao ter a ponte concluída, mas somente para aniquilá-lo por completo. Não havia um filho nem um sentimento que os unisse; talvez, nunca tivesse havido nada.

– Tire-me daqui Jacob – pediu num fio de voz, incapaz de dar um passo adiante.

Dignamente, sem querer demonstrar que o amparava o criado lhe tocou no ombro e o fez se mover, incitando-o a ir em frente. Ignorando os olhares que ainda tinha sobre si, Edward caminhou contando os passos até que subitamente estacasse.

– O que houve Sir? – Jacob indagou preocupado. – Não está se sentindo bem? Se quiser esperar aqui, vou até nossos cavalos e...

– Não será preciso, estou bem. Espere aqui!

Movido pela raiva que inundava suas veias, mesclando-se a sua decepção, o barão encontrou suas forças e marchou até o hotel. Seguiu diretamente até a recepção, onde chamou por um dos atendentes.

– Boa tarde! O que... – o rapaz começou servil até que o reconhecesse. – Lord Masen?! O que o traz aqui? Deseja se hospedar?!

– Por certo que não – retrucou impaciente. – Quero uma informação. Há poucos minutos uma moça deixou este hotel. Estatura mediana, cabelos negros, trajava um vestido azul escuro e tinha o rosto coberto. Quero saber com quem ela esteve.

Sim, Isabella não lhe disse, mas era certo que esteve ali para se encontrar com alguém; um homem, ele não tinha dúvidas. Começava até mesmo a aceitar que ela fosse... Não, calou seu pensamento.

– Mil perdões milord, mas... Além de ser estritamente proibido comentar sobre os hóspedes, eu não vi tal moça então nem que pudesse, saberia lhe dizer.

– É impossível que não tenha visto a moça! – Edward ciciou. – Ela acabou de sair. Não quero prejudicá-lo rapaz, mas sabe que posso. Principalmente se insistir em me fazer de tolo.

– Desculpe-me milord... – aproximando-se o jovem sussurrou rapidamente. – A moça vem mensalmente se encontrar com um conhecido cavalheiro e...

Lord Masen?!

Ouvir seu nome na voz de tão conhecido cavalheiro enregelou o sangue do barão. Empertigando-se, ele conteve sua respiração e se voltou na direção do chamado.

– É mesmo vossa senhoria! – Carlisle exclamou contente em sua eterna afetação. – Agora assumiu uma barba. As moças devem apreciar a novidade... O que faz aqui?

– Pedia uma informação a esse rapaz – disse indicando o atendente rígido atrás do balcão –, mas ele não me pôde ajudar.

– É mesmo? – indagou interessado. – E o que seria, caso eu possa ajudar...

– Na verdade, acho que já ajudou. – Edward exalou rouco, engolindo a bili que lhe subia a garganta.

Eles eram amantes, não existia outra explicação. Estava nos olhos do recepcionista ao corrê-los com significativa cumplicidade de um ao outro. Estava na familiaridade de Isabella ao naturalmente nomear o banqueiro e, antes disso, na forma quase apavorada com que estacou ao vê-lo nos primeiros dias de sua estada, quando o amante esperava com Harry Clearwater nos degraus de sua casa. E o mais perturbador... Estava na satisfação acintosa que Carlisle ostentava em seu semblante. Todavia, como se não bastassem todas as evidências, Edward se ouviu indagar:

– E o caro amigo, o que faz aqui?

– Por favor, meu jovem... – Sir Cullen pediu esboçando um sorriso com pretensões enigmáticas. – Livre este velho casado de confessar seus pequenos deslizes.

– Por certo o livrarei!

Milord? – Carlisle o chamou ao ser deixado sem acréscimos.

– O que houve Sir Masen? – Jacob indagou preocupado, seguindo o patrão quando este passou ao seu lado na calçada, pisando duramente. – Foi tentar descobrir o que a senhorita fazia no hotel?

– Sabe que sim então deixe as perguntas idiotas – Edward vociferou, novamente cruzando pelos transeuntes sem cumprimentá-los; não os via.

Diante de si tinha apenas dois rostos; o da traidora e seu amante.

Sir, fale comigo... – o criado implorou, ao alcançá-lo. – O que descobriu é assim tão ruim? Vi Sir Cullen a segui-lo... Ele tem...?

– Cale-se Jacob! – ordenou o barão, estacando subitamente para encarar o amigo; seu rosto rubro indicando toda a indignação sentida. – Cale-se ou eu juro por Deus que...

A ameaça inacabada pairou entre eles até que recuperassem seus cavalos, montassem e tomassem o rumo de Apple White. Edward, preso à sua fúria, magoava os francos de Draco, exortando-o a correr mais e mais, esquecido do desenhista que deixou a concluir a nova estampa de seus rótulos. Tinha pressa em realizar o desejo de sua mãe, sendo ele a dar o merecido fim às porcarias deixadas pela traidora mentirosa.

Diante dos portões, esperou impaciente que Jacob os abrisse e então, a sua porta, desmontou rapidamente, desferindo uma palmada na anca do andaluz para que voltasse ao estábulo. Agradecendo aos céus por não ver a baronesa em parte alguma, Edward correu escada acima e marchou apressadamente pelos corredores até se trancar em seu quarto com a mente a gritar: Isabella e Carlisle, amantes!

Em largas passadas foi até sua cômoda de onde retirou os lenços que emprestou à traidora. Então avistou o chapéu verde sobre o travesseiro, bufou enraivecido e também foi buscá-lo; aquele monte de pano, penas e forros, igualmente faria parte das primeiras coisas que lançaria ao fogo por trazerem as recordações mais vívidas.

Diante da lareira, atirou os lenços nas chamas que sabia ter sido acessas há pouco por uma silenciosa e sempre prestativa governanta. Iria lançar o chapéu para lhes fazer companhia, porém, no último instante o barão se deteve impressionado ao ver os pedaços de pano branco, bordado com suas iniciais, ser tomados pelo fogo, enegrecendo-se gradativamente até perecerem em cinzas. Com a determinação extinta, saboreando o sabor amargo da nova perda, Edward recusou alguns passos, caiu sentado sobre a cama e, acomodando o chapéu num punho fechado, analisou-o como se este estivesse sobre os cabelos negros de sua dona.

Ainda era trespassado pela fúria, mas se obrigou a ponderar. Era fato que Isabella lhe mentiu, entretanto... A quem teria traído? O caso ilícito com o banqueiro já existia quando a conheceu, considerou. Por quantas vezes ela tentou alertá-lo sobre sua inadequação? Muitas, sem que ele lhe desse a devida atenção. E havia a preocupação em nunca expô-lo, a insistência em serem apenas amantes e sempre discretos. Evidente que Isabella ficaria confortável em tal posição, afinal estava acostumada a ligações clandestinas. Tanto que se encontrava mensalmente com Carlisle. Um velho com idade para ser seu pai!

O barão exasperou-se ao imaginar os dois juntos num dos quartos daquele hotel. Com o pensamento suas considerações condescendentes se esvaíram fazendo com que atirasse longe o chapéu. Sim, era consumido pelo mais ardente ciúme, porém não via como esquecê-la. Em sua mente barulhenta ouvia as declarações ditas naquele quarto; sobre aquela cama. E contra elas não encontrava argumentos que as desmerecessem.

A verdade era que Isabella o amou e tomou por amante e esteve disposta a deixar o banqueiro. Não havia erro em tal conclusão, pois quão fácil teria sido se apresentar ao velho e pedir que a levasse de Apple White quando este foi visitar a propriedade? Bastava sair do bosque, entretanto ela preferiu se refugiar, dando seguimento ao romance recém iniciado. E naquela tarde Isabella mal conseguira ocultar os tremores que abalavam seu corpo ou sua voz, assim como pareceu lamentar não esperar um filho que os unisse.

Sim, ele ainda a afetava agora via. Todo o problema era o que fazer com aquela situação, pois, apesar de sua mente entender ser ele o intruso na antiga relação, em seu coração o barão se sentia o traído. Especulava qual passo daria a seguir, quando um fato derrubou seus argumentos. Talvez ele estivesse completamente enganado ao atribuir sentimentos legítimos ao que poderia ter sido uma primorosa encenação. Como Jacob tanto salientou, a mudança se deu rápido demais. Agora que sabia a verdade, deveria enxergar que nos primeiros dias ela o rejeitasse em detrimento do amante, porém, ao experimentar o conforto de sua hospedagem, tenha considerado mais vantajoso se esconder de um banqueiro para se unir a um barão.

Um ganido seguido de um arranhar em sua porta o livrou dos pensamentos inquietantes, porém não da raiva que crescia em seu íntimo. Deixando a cama, Edward foi dar passagem para Nero, considerando-se um tolo, romântico e completo idiota por ter caído de amores por uma interesseira com ares de moça simples e preocupada em não expô-lo. Sem dúvida era o pior dos imbecis, pensou ao finalmente abrir a porta.

Edward, então, surpreendeu-se ao encontrar a governanta a fazer companhia ao galgo. O cão, como sempre, pouco lhe deu atenção, cheirando suas botas brevemente antes de entrar e se deitar diante da lareira. Marie por sua vez, permaneceu em seu lugar a olhar o chão, com as mãos postas sobre a vasta saia de seu vestido preto.

– Desculpe-me vir sem ser chamada milord, mas fiquei preocupada que vossa mãe tenha livrado seu quarto de seus pertences e queria lhe dizer que nada tenho com isso. Fui impedida de supervisionar a limpeza. Não quero que fique ainda mais insatisfeito comigo. Já basta...

– Olhe para mim Sra. Newton. – Edward pediu cansado. Lentamente ela o atendeu, erguendo o rosto até encará-lo. O barão então pôde ver a vermelhidão dos olhos da criada. – Esteve chorando?

– Estava mesmo preocupada milord... – murmurou embargada. – Gosto de Apple White e não queria ter que partir por algo que não fiz... Se acaso Lady Elizabeth...

– Acalme-se. Minha mãe deixou tudo como estava – tranquilizou-a. – Não tenho qualquer queixa grave o suficiente para dispensá-la. Ao contrário, hoje lhe sou grato por me alertar quanto às intenções da baronesa.

– Apenas entendo o quanto essas recordações são importantes e não quero vê-lo triste. Perdoe-me, pois sei que não é de minha conta.

– Talvez não seja, mas fico grato pelo cuidado... Contudo – disse imediatamente após uma ideia súbita – Hoje sei não ser saudável manter tais recordações. Venha!

Marie titubeou por um instante até que seguisse o patrão. Este foi até as roupas de montaria e as entregou à governanta.

– Leve-as daqui... E também o chapéu – pediu, indicando o ponto onde o havia atirado.

Lord Masen...? – indagou incerta. – Tem certeza?

– Absoluta!

Sim, ele tinha. Não poderia continuar endeusando uma vigarista que, ao vir o cerco se fechar, impossibilitando assim seu plano de seguir adiante, prontamente, arbitrariamente o deixou para voltar aos braços do velho amante.

– Assim sendo, irei levá-las para...

– Apenas as leve daqui. – cortou-a. – Não quero saber o que fará com estas coisas, assim como não desejo que volte a falar de sua dona. A passagem daquela senhorita deve ser esquecida.

Milord? – Marie perscrutou-lhe o rosto. – Está seguro quanto a isso?

– Certamente! – assegurou decidido. Sabia que não seria fácil esquecer, porém tentaria sendo que nunca mais voltaria a nomeá-la. – Agora vá.

Como ordenado, a governanta deixou o quarto, levando os últimos pertences “dela”. Diante da lareira, com Nero aos seus pés, Edward se lembrou que havia restado o anel. Decidido, o barão fez menção de tirá-lo; chegou a movê-lo, porém se deteve e o recolocou no lugar. Não precisa eliminá-la completamente, não naquele instante, e adquirira o hábito de esfregar a pérola nos momentos de tensão.

Com um suspiro cansado, Edward correu as mãos pelos cabelos crescidos e então por sua barba. Esteve enganado, pensou; restaram muitas recordações “dela” e algumas... Seriam impossíveis de eliminar.

SPOILER

Capítulo Três – Segunda Temporada

– Senhora...

A jovem meretriz sobressaltou-se ao chamado do fiel guarda-costas. Estavam embrenhados no bosque, próximos a estrada a alguns metros da ponte. Talvez o coche de aluguel chamasse a atenção de algum passante, porém Isabella não se importava. Antes de voltar para casa, queria silenciar o choro que insistia em cair desde que Sam a tirou de Westking. Não era para ter visto Edward; não desmazelado e abatido, tão distante do barão altivo que conheceu. Sabia, sem pretensão, ser ela a causadora de tal abandono. Decididamente deveria haver um sortilégio que os fizessem retornar no tempo para que seus caminhos jamais tivessem se cruzado.

– Senhora. – Sam chamou mais uma vez, às suas costas, um pouco mais perto. – Está me preocupando... Acaso aquele homem a machucou? Quer que eu dê um jeito nele e no intrometido? – indagou profissional.

– Não! – Isabella negou alarmada, voltando-se para encará-lo em meio às lágrimas. Foi preciso altear a voz para que esta se sobressaísse à rouquidão. – Jamais faça nada contra o barão, mesmo se um dia vier a me abordar novamente. Apenas... Mantenha-o longe.

Sam moveu a cabeça, indicando seu entendimento, sem esconder seu pesar por ver sua senhora em tão lamentável estado. Com aquele encontro inesperado não somente soube a gravidade do mal que causou a Edward como agora, eram dois a conhecer seu envolvimento com o barão.

– Sam... Quanto ao que viu... Eu...

– Não tenha cuidados senhora! – Sam assegurou, comprometido. – Vejo e ouço o que me mandar ver e ouvir. Apenas me tranquilize dizendo que aquele cavalheiro não é como o outro.

– Não é – ela disse num novo acesso de lágrimas. – Ele é completamente diferente do outro. Seria incapaz de fazer-me algum mal... Eu é que... É que...

Isabella não conseguiu concluir e antes que percebesse, seu criado se acercava dela e num raro momento de liberdade, abraçou-a e a embalou.

– Shhh... Não diga nada senhora, acho que já entendi.

Aquela era a segunda vez que Sam a abraçava e Isabella simplesmente se deixou ficar entre os braços acolhedores de seu protetor até que o pranto finalmente cessasse. Recuperada, ela se moveu para que ele a soltasse.

– Lamento não ter um lenço – disse envergonhado.

– Não se preocupe – ela lhe sorriu indicando o seu próprio. – Este me basta.

Ao secar o rosto, evitou lembrar a delicadeza de Edward em sempre lhe socorrer com seus lenços, pois não queria irromper em novo choro. Já começava a escurecer; era hora de voltar para casa. Estendendo a mão para o amigo, Isabella se deixou ser guiada até o coche. Tão logo se acomodou, pediu:

– Pare diante da igreja, sim?

Sam apenas inclinou a cabeça antes de fechar a porta e assumir seu lugar. O restante do caminho foi feito livre de novo pranto, contudo, vez ou outra ela soluçava sentida; era uma pessoa horrível. Ao pararem, Isabella verificou o movimento da rua e saltou.

– Espere aqui Sam. Serei breve.

Ao pisar no corredor principal, ainda distante do altar, Isabella respeitosamente se benzeu e escolheu um dos bancos próximos onde rapidamente se sentou. Ato contínuo ajoelhou-se e iniciou uma fervorosa prece, não pedindo perdão pelo mal cometido, pois sabia serem imperdoáveis. Rogou apenas que Deus desse alento ao barão e o ajudasse a confiar na carta deixada, esquecendo-a definitivamente. Esteve tão absorta em sua oração que não atentou ao som dos passos que ecoavam pelo corredor lateral, nem ao homem que sentava ao seu lado. Sentir a mão que se fechou em um de seus pulsos, não a sobressaltou mais do que a voz.

– Finalmente você!

– Laurent – ela exalou; sufocada pelo susto. Seria seu castigo?

Notas finais
bom é isso... Espero que tenham gostado... Depois me contem o que sentiram com esse encontro e as conclusões de Edward...

Bjus minhas lindas, até amanhã...