Borboleta Negra
3 Capítulo Dois
Notas iniciais
E obrigada pelos comments... :)
Boa Leitura!
Isabella nada lhe respondeu. O barão gostaria de entabular uma conversa amena, de preferência uma onde conseguisse algumas respostas, contudo sua passageira se mantinha rígida sobre o assento, tentando equilibra-se como podia para não ser atirada fora do assento pelos solavancos da carruagem.
O olhar perdido num ponto qualquer no bico das próprias botas enlameadas; muda como as tantas estátuas de seu palacete. Gostaria de saber mais, além do que observou. Isabella Swan tinha medo de relâmpagos. Para cada um que irrompia o céu dava um leve salto sobre o banco. Quando nervosa retorcia os dedos constantemente e mordia o canto direito da boca.
Também dava mais valor aos seus pertences do que a sua vaidade. Agora estes estavam depositados ao seu lado no assento, mas quando puxou a moça para dentro da carruagem, ele reparou que seu chapéu serviu de proteção para a bolsa e o pacote de doces. Ela não se importava que seu cabelo negro estivesse livre dos cachos; grudado ao seu rosto, pescoço e colo. Ele se lembrava apenas de uma menininha estranha de cabelos da mesma cor, mas esta não tinha berço e segundo soube, aos quinze anos havia partido misteriosamente de Apple White para nunca voltar.
Percebia-se que aquela a sua frente possuía fino trato; não pertencia a nobreza, mas poderia ser filha de alguma família abastada que ele ainda não tivera o prazer de conhecer, poderiam ter se mudado a pouco para a região.
Aquela era uma jovem singular. Alegou desconforto por não estar apresentável, todavia não poderia imaginar como parecia bonita para ele. De rosto lavado, apenas corado pelo inusitado da situação; a boca rosada naturalmente livre dos cremes coloridos que as mulheres usavam para se enfeitar. Sim, seu vestido estava sujo, mas até mesmo este no contexto a deixava mais bela. Sob quaisquer aspectos ela era uma dama.
– Fale algo sobre você. – o nobre pediu sem nem pensar.
– Não há nada de interessante em minha vida que possa...
Isabella não pôde terminar sua frase. A carruagem que seguia aos solavancos parou subitamente projetando Edward para o assento a sua frente, ao lado da moça e então tombou para o lado, levando seus dois ocupantes a se chocarem com violência contra a parede da cabine. Edward se recompôs primeiro; tendo sua convidada sobre si, tateou-lhe o rosto e os braços; alarmado.
– Está bem senhorita? Feriu-se?
– Estou bem... – ela respondeu num fio de voz. O susto causado pelo acidente dizimado pelo choque que percorreu seu corpo ao estar sobre aquele homem e ter seus ombros apalpados inadvertidamente por duas mãos enluvadas; fortes e decididas. Agitando-se as afastou para dizer com um pouco mais de convicção. – Já disse que estou bem!
– Perdoe-me, eu... – Edward iniciou e se calou; confuso com a reação exagerada. Contudo se interrompeu ao ouvir o lamento de Jacob e os relinchos do cavalo. – Fique aqui!
Ordenou contorcendo-se para retirar o casaco e o paletó; estes de nada lhe adiantariam na chuva. Como o melhor meio de saída estava no lado erguido, ele teve que se apoiar e pular para o caminho enlameado. Antes que chegasse até seu criado sua camisa branca, seu colete e calças já estavam completamente molhados.
Encontrou Jacob caído, gemendo de dor abraçado a uma perna, mas socorreu primeiro o animal assustado ainda preso a carruagem inclinada. Ao desatrelar o cavalo um raio poderoso explodiu no céu, assustando-o fazendo com que saísse em disparada tão logo se viu livre. Com uma imprecação, Edward voltou sua atenção para o criado.
– Jake, o que houve? – perguntou alteando a voz para ser ouvido além do trovão.
– A carruagem caiu num buraco, Sir Masen. Avistei a poça d’água, mas não tive como saber que era tão funda. Vi que o cavalo fugiu... Mil perdões...
– Sabe que ele vai para casa, então fique quieto! – demandou aborrecido; acaso estava reclamando com ele? Preocupava-se com sua perna ferida. Tentou tocá-la, porém o criado gemeu ainda mais.
– Acha que está quebrada? – ele ouviu a voz feminina ao seu lado.
– Eu não mandei que esperasse na carruagem? – indagou sem responder-lhe.
– Não tenho que obedecê-lo... – Isabella retrucou prontamente.
O barão poderia olhá-la enraivecido o quanto quisesse, mas de fato não lhe devia obediência; não era sua criada. Não ficaria sentada sem nada fazer, acatando ordens enquanto poderia ajudar. Por essa razão retirou as luvas e ali estava. Ignorando o cenho franzido, prosseguiu.
– De toda forma já me encontro molhada o suficiente então não havia razão para ficar onde não posso ajudar. – abaixando-se junto ao mestiço caído, perguntou a ele. – Como se chama?
– Jacob, senhorita... – respondeu olhando de esguelha para seu senhor.
– Consegue mover o pé Jacob? – Isabella perguntou delicadamente.
Edward não pôde conter certo despeito. Em todo aquele tempo não conseguiu daquela moça voluntariosa o mesmo tom dispensado ao seu criado. Contrafeito afastou as mãos pequenas, livres das luvas, que tentavam tocar a perna de Jacob.
– Deixe que eu cuide disso! – disse azedo. – Acha que consegue mover o pé?
Isabella se levantou ostentando um sorriso debochado que não foi visto por nenhum dos dois homens; não sabia por que ainda se surpreendia com tamanha arrogância. Que mal havia em ajudar o pobre criado? Aborrecida, ela cruzou os braços e passou a assistir a cena. Esqueceu-se até dos raios e de si. Havia uma lembrança no fundo da mente dela que a fazia odiar ver a supremacia dos patrões sobre os subalternos.
Pronta para defender o criado esperou pela reprimenda que logo viria, porém não aconteceu. Para sua surpresa o patrão o calou – com certa rispidez – todas as vezes que Jacob tentava se desculpar pela roda danificada, assegurando que ele era o mais importante.
– Roda quebrada? Amanhã se arranja outra novinha. – o barão retrucou a certa altura, quando determinou que nenhum osso havia se quebrado. – Já você é que seria difícil de substituir.
Então era aquilo! Ela se enraiveceu consigo por ter acreditado em tamanho desapego. Toda a preocupação do patrão era a perda da mão de obra durante os dias que o criado precisasse ficar de repouso.
– Isso é um absurdo! – bradou chamando a atenção do nobre e seu criado. – Então uma roda tem mais valor para vossa senhoria do que a integridade física de um homem? Criados não são objetos... Eles...
– Por quem me toma senhorita? – Edward levantou com o ânimo tão acirrado quanto o dela. – Até há pouco tempo não me conhecia e agora se acha bem capaz de interpretar minhas palavras?
Por mais que fosse sua vontade não diria à pequena pretensiosa que sua preocupação era quanto à saúde de Jacob. Não o queria incapacitado da mesma forma que não desejaria ver uma de suas irmãs feridas.
O discurso do nobre nada revelava então ela guardou sua primeira impressão. Estava decidida a retrucar, porém ao ser encarada por olhos acusadores e glaciais, desistiu. Aquele assunto não era seu. Deveria era se preocupar em ir embora para Wisbury antes que escurecesse completamente. Assumindo o mesmo tom servil que usou na carruagem, baixou os olhos e pediu.
– Desculpe-me Lord Bradley... Não devo me meter em assuntos que não me competem.
A mudança de atitude novamente o confundiu. Estava já arrependido por tê-la ajudado, no entanto, naquele momento sentia o desejo de mais uma vez se desculpar. Não o fez, contudo. Apenas passou as mãos pelos cabelos ensopados e a tranquilizou.
– Não se preocupe com isso. Sei que não se repetirá... – olhando para a carruagem arruinada, acrescentou. – Até porque temos problemas maiores... Estamos presos aqui.
– Caso vossa graça não se importe em caminhar, estamos perto de casa. – Jacob avisou sugestivo.
Olhando em volta Edward viu que ele tinha razão; estavam perto de Apple White.
– Você pode caminhar? – perguntou ao criado.
– Se tiver ajuda... – este respondeu encolhendo os ombros.
– Então vamos! – Edward lhe estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar. – Nunca apreciei me molhar com a chuva.
Livre de seu teatro, Isabella o viu ceder o ombro para que o criado se apoiasse. Ainda não sabia o que pensar quando ele a olhou de soslaio.
– A senhorita não vem?
– Para... – ela engasgou. – Para vossa casa?
– Para onde mais? – Edward replicou com cenho franzido. – Não acha que a deixaria aqui, não é mesmo?
– Não posso ir para vossa casa!
A veemência na voz feminina chamou a atenção de Edward. O que havia de errado com seu palácio? Iria questioná-la, porém ela logo se retratou.
– Eu adoraria, mas preciso ir para a minha própria...
– Olhe ao seu redor senhorita. – ele pediu com simulada paciência. – A noite cai e ainda está a alguns quilômetros de Wisbury. Meu palácio fica em meio ao bosque, naquela direção... – indicou com sua mão enluvada. – Teremos que caminhar, mas em poucos minutos estarmos lá...
Isabella Swan consultou a renda de seu decote. Não queria entrar no palácio dos Bradley. Todavia o barão tinha razão. Seria estupidez de sua parte caso firmasse o pé e partisse numa jornada solitária. Já havia sido temerário da primeira vez quando deixou Westking. Não chegaria a Wisbury antes que escurecesse. Se não fosse a chuva, talvez tivesse sido saqueada ou coisa pior. As estradas não eram seguras a noite. Com um suspiro, ergueu os ombros e anunciou.
– Aceito vosso convite! – quando o barão lhe sorriu, pediu. – Mas antes poderia me fazer a gentileza de pegar os pertences que deixei na carruagem?
– Pegar...? – Edward exalou estarrecido. Queria sair do lamaçal e da chuva o quanto antes.
– Por favor... – pediu docemente; o barão era um cavalheiro acima de tudo, ela sabia.
Sem nada dizer, Edward deixou Jacob apoiado na perna sã e marchou até a entrada de sua carruagem. Tentou endireitá-la puxando com toda força da qual foi capaz, mas esta estava de fato afundada na lama do buraco traiçoeiro e profundo.
Nem mesmo lançar seus oitenta quilos distribuídos harmoniosamente em um metro e oitenta e cinco de altura sobre a porta a fez se mover, obrigando-o a saltar para conseguir entrar. Para seu infortúnio o peso que não ajudou a nivelar a carruagem o derrubou pesadamente no interior declinado do veículo virando-o por completo.
– Sir Masen? – ele ouviu a voz assombrada de Jacob logo após o grito breve e assustado daquela que o colocou naquela situação. Calando alguns nomes feios, o barão se levantou, pisando na lateral da carruagem tombada.
– Eu estou bem! – avisou num vociferar enraivecido. – Fique onde está Jake. Não vá se machucar mais. E você senhorita, espero que seus doces valham a pena.
– Esqueça os doces! – ela pediu verdadeiramente consternada. Não gostava daquele homem, mas não o queria machucado. Assim como não poderia perder seu bem mais precioso. – Pegue apenas minha bolsa e meu chapéu para que eu possa protegê-la.
E se confirmava a preocupação com seus bens materiais, Edward pensou preso a um deboche ressentido. Ele mesmo nem se lembrava de suas roupas deixadas ali. Ao pegar a bolsa não se acanhou em abri-la para ver por qual razão quase teve o pescoço quebrado. Encontrou apenas um molho com três chaves, alguns shillings e uma grossa carta. Sua curiosidade aflorou, mas não poderia abri-la sem molhá-la. Ainda assim considerava a hipótese quando Isabella o chamou. Sua voz vinda de muito perto.
– Precisa de ajuda para sair?
– Não, obrigado! – retrucou fechando a bolsa apressadamente. Depois de guardá-la na copa do chapéu, apoiando-se como pôde nos suportes dos assentos e emergiu pela abertura. – Aqui estão seus pertences... Espero que nada se perca.
Tão logo ela os capturou de sua mão, disse livre de esnobação, acusação, recato, submissão ou qualquer dos sentimentos contraditórios que demonstrou naquela noite.
– Também espero! O que tem aqui me é muito caro!... Obrigada!
O sentimento que Isabella deixou transparecer era novo; ela estava comovida? Tal impressão atiçou mais a curiosidade do barão fazendo com que ler aquela carta fosse de extrema importância. Em Apple White daria um jeito de capturá-la de volta. Traçando planos de como conseguiria seu intento, atirou seu casaco para ela.
– Cubra-se. – e antevendo que ela retrucaria, adiantou-se. – Sei que já está molhada o suficiente, mas ele deve ajudar um pouco a amenizar o frio.
Isabella analisou o casaco por um instante. Não queria nada do barão sobre seu corpo, mas considerou que recusar mais uma vez a atendê-lo talvez gerasse suspeitas, então se cobriu com o casaco e se afastou para que o nobre deixasse a carruagem.
Um tanto surpreso por não ouvir uma recusa, Edward se dedicou a deixar o interior da cabine. Não foi tarefa fácil por causa da chuva que deixava todo o que segurava muito escorregadio, mas saiu sem mais acidentes.
– Obrigada! – a moça de múltiplas faces novamente o agradeceu quando se juntou a eles; parecia sincera.
– Ao seu dispor...
Isabella não compreendeu o tom, nem lhe interessava. No momento sua preocupação se dividia entre a importância de salvar sua carta, o incômodo de ter aquele casaco pesando em seus ombros e o que sentiria ao pisar em Apple White, o palácio dos Masen Bradley. Segurando sua bolsinha firmemente sob o chapéu, ignorou todo o resto, tentando não saltar a cada raio que retumbava sobre sua cabeça.
Às costas dela seguiam Edward e Jacob, o criado amparado pelo patrão. Este não desprendia os olhos da figura a sua frente. Por vezes a moça de comportamento contraditório desequilibrava-se, mas no geral seu caminhar era firme e altivo. Passava-lhe a impressão de alguém que seguia para uma execução ou algo do tipo. Salvo seu exagero a cena, tinha que ter algo errado com aquela jovem, mas o quê?
– Ela é estranha, não? – o moreno indagou num sussurro, mais uma vez dando voz à sua consciência.
– Muito estranha... – o nobre concordou também num sussurro. Não considerava certo falar às costas de alguém, contudo aquela moça o intrigava; precisava externar. – Ela nem me conhecia.
Para surpresa do barão seu criado riu de forma contida.
– O que foi? – perguntou contrariado. – Acaso contei-lhe alguma pilheria?
– Deveria se ouvir Sir... – Jacob falou ainda contendo o riso. – Como se todo o problema com ela fosse não conhecê-lo. Desde quando se importa com isso?
Nem ele mesmo sabia. Invariavelmente considerava aborrecido ser prontamente reconhecido e todos os rapapés que se seguiam. Os homens o tratavam como amigo de longa data mesmo que fosse a primeira vez que trocassem parcas palavras. As mulheres mantinham-se em duas variantes; mostravam-se recatadas ou depois de uma resistência inicial indicavam a disponibilidade para um compromisso – até mesmo as já casadas –; e todas, tardiamente atiradas ou não, derretiam-se como manteiga ao sol.
Não era vaidoso ao ponto de desejar que fosse sempre daquela forma, mas era homem. A familiaridade com o comportamento comum o ajudava na aproximação de alguma dama que de fato o interessasse como fora o caso daquela que caminhava a sua frente como se contasse os passos. Contudo ela anulou sua tática de aproximação e o desarmou com sua frieza. E no momento o instigava com seu comportamento contraditório.
– Não me importo. – disse por fim; sincero. – Não com isso...
– Então, por que a considera estranha?
Caso soubesse não seria preciso desvendá-la, pensou a contragosto. Ajeitando o braço do criado sobre os ombros, replicou seriamente.
– Diga-me você, afinal foi quem começou essa conversa.
Jacob se calou por um instante então falou.
– Estranha não é bem a palavra... Considerei-a corajosa por enfrentá-lo. Nunca vi isso em outra moça... E também a considerei esperta, afinal sabemos que não queria nada sério.
– Deveria ter torcido a língua não o pé. – Edward ciciou. – Talvez assim deixasse de ser abusado.
– Corrija-me que me retrato. – o criado pediu sem se abalar.
Edward apenas exalou um bufar exasperado. Jacob não estava errado, não seria certo fazê-lo se desculpar. Não era um conquistador inveterado, mas era fato que de tempos em tempos gostava de ter a companhia de uma moça atraente; que mal haveria? Era solteiro e nunca enganou ninguém. Muitas se mostravam interessadas, mas indicavam desde cedo a necessidade de comprometimento, ao que ele atenciosamente desfazia o mal entendido e as deixava. Contudo também havia aquelas de espírito livre que não se importavam em viver com ele dias e noites agradáveis sem laços eternos a lhes unirem.
Ao assistir mais um passo vacilante que de vez enquanto quebrava a altivez da moça misteriosa, o barão desejou que aquele fosse o caso. Isabella era uma moça bonita e ao que parecia independente. Entrou sozinha no hotel e na loja de doces deixou claro que prezava a liberdade para as próprias escolhas. Detalhes comuns em todas que passaram por sua cama. A diferença estava na reserva, na indiferença quase hostil que ruía sua esperança de fazê-la uma amante eventual. Lamentável.
– Apenas se cale Jake. – ordenou contrafeito após constatar que daquela moça peculiar nada teria.
Como que atraída pelas vozes baixas, ou apenas por pressentir que eles falavam dela, a moça os olhou sobre os ombros. Edward não soube identificar qual a razão nem a natureza do correr de olhos entre ele e Jacob apoiado em seu ombro. Antes que ela novamente olhasse em frente, tropeçou e por muito pouco não caiu.
– Fique aqui. – o barão pediu ao criado e imediatamente foi até ela para ampará-la pelo cotovelo.
– Está tudo bem senhorita? – indagou preocupado ao senti-la se encolher.
– Está! – ela assegurou desprendendo-se rapidamente como na carruagem. – É somente o caminho enlameado demais para minhas botas nada próprias.
– Lamento não oferecer-lhe meu braço, mas...
– Não se preocupe com cavalheirismos agora. – ela o cortou encarando-o com seus olhos negros marejados pela chuva. – Mesmo que Jacob não precisasse de ajuda eu dispensaria o suporte. Sei me virar sozinha, obrigada... Podemos seguir?
Antes que lhe respondesse ela retomou o caminhar resignada. Ao menos não foi grosseira, apenas sucinta ao confirmar sua independência. Ainda mais intrigado Edward voltou para junto do criado e lhe ofereceu o ombro.
– Tenho permissão para falar? – Jacob novamente cochichou.
– Sabemos que falará de toda maneira, então diga de uma vez. – Edward ruminou. – O que é agora? Vai novamente ressaltar o quanto ela é corajosa e esperta?
– Não. Eu iria comentar o quanto ela é nova... Parece ter metade de nossa idade. Não se envergonha em assediá-la?
– Ela não deve ser tão nova. – o barão observou para então acrescentar com zombaria. – E o que sugere? Que eu vire padre, afinal mulheres mais velhas são casadas e até mesmo mães. Sobram-me as mais novas.
– Com todo o respeito, Sir... A santa igreja não merece alguém como vossa senhoria a correr pelos conventos. Minha sugestão seria a de que se case como vossa mãe tanto deseja...
– Devo alertá-lo para que não confunda minha ajuda com permissão para ter mais liberdade do que a inconveniente que já demonstra. – retrucou. – Não vou tolerar que me chame de velho ou tente dizer o que devo fazer de minha vida. Por acaso minha mãe está lhe pagando para me dizer essas coisas?
– A baronesa apenas se preocupa como todos nós, Sir. Suas irmãs já se casaram. Agora é a hora...
– De deixá-lo aqui na beira do caminho caso não feche a boca imediatamente. – interrompeu-o azedo. – Não sou dado a romantismos, mas espero me casar com alguém que faça valer a pena estar preso eternamente. Sabe muito bem o que penso sobre o assunto, então, por favor, se não tem nada agradável a dizer, cale-se.
– Perdoe-me Sir... Eu só...
– Veja! – Edward novamente o interrompeu. – Aquela me parece uma pedra bem confortável. O que acha de esperar por ajuda enquanto tento ceder meu ombro a alguém mais jovem e bonita?
Finalmente Jacob se calou deixando-o com seus pensamentos. De fato teria que obrigar Isabella a aceitar sua ajuda caso fosse preciso e saber o instigava. A determinação em se manter distante eclipsava qualquer outro assunto. Não lhe importava se ela fosse muito nova nem que ele estivesse passando do ponto de se casar. A verdade é que a cada obstáculo colocado por ela, e até mesmo por Jacob, desejava mais entendê-la e alimentava a esperança de ainda ser bem sucedido em seu intento.
Ter alguém que não derretia prontamente nem se curvava ante o peso de seu nome, poderia ser bem interessante.
SPOILER...
Como que para lembrá-la de que sua estadia não seria tão breve quanto gostaria, Isabella ouviu o barão demandar a um dos criados.
– Leve esta jovem até Marie e diga-lhe para providenciar um banho quente e roupas limpas. Acho que as de Rosalie devam lhe servir. E que preparem também uma xícara de chá bem quente e o quarto de minha irmã para que ela o ocupe por essa noite.
O criado, vestido num uniforme de tecidos claros, fez uma solene reverência para ele e então para a moça encharcada.
– Por favor, queira me acompanhar senhorita...
A partir de seu próximo passo, Isabella esqueceu-se de todas as coisas ao perceber que sua entrada no palácio seria real. Na verdade esteve bloqueando as sensações que aquela visita inesperada lhe traria até que visse a porta principal crescer em sua direção. Subiu os poucos degraus com passos incertos e ao se vir diante da madeira entalhada, recuou.
– Não devo entrar por aqui...
– Mas aqui é por onde entram os convidados do barão! – o criado explicou levemente enfadado; como se fosse aborrecido ter que explicar o óbvio.
– Tem razão! – ela retrucou de queixo novamente erguido. – Sou convidada!
A determinação caiu por terra ao pisar no grande hall de alto pé-direito. Várias emoções cruzaram seu peito fazendo com que algumas lágrimas traiçoeiras brincassem na borda de seus olhos. Odiando-se por ser sentimental, ela as secou e se recompôs. Possuía problemas maiores do que se emocionar ao entrar pela porta da frente daquele palácio maldito.
– Espere aqui que irei chamar Marie.
Isabella apenas assentiu com a cabeça e ao ficar sozinha imediatamente retirou o casaco de seus ombros. Contendo o impulso de largá-lo ao chão olhou em volta. Maldosamente nutriu o desejo de caminhar um pouco fingindo apreciar o lugar, somente para emporcalhar o chão com a lama de suas botas e vestido, contudo se lembrou que quem a limparia seria alguém que nada havia lhe feito.
– Senhorita? – ela ouviu a voz suave atrás de si. Ao se voltar se deparou com uma mulher uniformizada, com as mãos pousadas sobre o avental branco. – Tenho ordens de cuidar da senhorita, podemos subir?
– Subir?
E as emoções não tinham fim! Pensou olhando para o alto da escadaria. Entrou pela porta principal, dormiria em uma das camas, vestiria as roupas de uma das damas da casa e para tanto era óbvio que precisaria conhecer a ala superior. Se alguém lhe dissesse naquela manhã que passaria por todas aquelas coisas naquele dia teria rido até perder o ar; ou chorado em desespero. Percebendo que era observada pela criada, tratou de explicar.
– Estou tão suja...
– Não se preocupe com isso senhorita! – ela a tranquilizou amável. – Logo alguém virá limpar o chão. Agora deve se banhar e se secar antes que adoeça. Venha!
Notas finais
E feliz dia das mulheres...
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