Borboleta Negra

49 Capítulo Dezessete - Parte II


Notas iniciais
Oie... Ainda "morrida" por não poder comentar os reviews de vcs direito... Me perdoem!... :/

July Monte obrigada por sua indicação tão linda... :D
Autora e barão agradecem... *-*

Mas obrigada a todas, pelos comentários nessa fase do casal. Conturbada ainda, mas com eles juntos. Agora vem a hora da verdade... Nada bonita, nada fácil, porém imprescindível ser dita...

"Bora" ler... BOA LEITURA!

Enquanto Isabella se vestia, primeiro sua camisola, depois o robe de veludo verde, ambos sem desviar o olhar do homem largado sobre sua cama, uma voz insistente no fundo de sua mente lhe alertava para ter cautela com o que sentia, porém ela não conseguia sufocar o contentamento nem a esperança. Seu corpo doía pela falta de cuidado, todas as dúvidas persistiam, o barão em tempo algum esteve consciente ao ponto de entender que deveria ir embora, e somente Deus saberia como estaria seu humor ao acordar, mas, para Isabella, era especial tê-lo ali, em sua cama, apagando as péssimas lembranças que tinha daquele quarto.

Com isso um sorriso satisfeito não lhe deixava o rosto e nele se fixou enquanto descia até a cozinha para arrumar uma bandeja onde colocaria o que Brenda já tivesse preparado para levar ao seu quarto, antes que as moças despertassem. Sabia que seria sabatinada, tendo entre as inquiridoras uma traidora, mas não se importava. Apenas não era o momento de lidar com a curiosidade de todas. Então seu tempo na cozinha deveria ser mínimo, decidiu ao empurrar a porta.

Encontrou Brenda ao fogão preparando o café da manhã, como de costume, contudo, para seu espanto, a mesa estava completamente tomada, não faltando nenhuma das meninas em seu redor, tendo Angela numa cabeceira e Kate na outra. O silêncio incomum nos encontros entre elas a enganou completamente, e a surpreendeu tanto quanto vê-las de pé àquela hora. Ficaram todas estáticas e mudas até que Isabella cumprimentasse a cozinheira e então se voltasse para elas.

– Devo dizer bom dia...? – indagou a nenhuma em especial.

– Nós é que queremos saber... – disse Maureen com um sorriso sugestivo, levando as outras a liberar risinhos contidos. – Dormiu bem?

Evidente, ela pensou, revirando os olhos. Se todas não estivessem em trajes de dormir, algumas com tocas, outras com papelotes a prender os cachos, a moça acreditaria que tinham passado a noite inteira a esperá-la. Deveria ter imaginado que seria daquela forma; afinal “ela” estava quebrando as regras, e não com um homem comum. Com um suspiro condescendente, saciou-lhes a curiosidade com um gracejo; estava feliz, oras.

– Na verdade não foi como se eu “tivesse dormido”.

A comoção que causou com seu comentário a assustou e divertiu na mesma medida, então, sorrindo para todas pediu que silenciassem os gritos e risadas.

– Por favor... Não façam tanto barulho.

– Ele ainda está dormindo? – Susan indagou já imitando o gesto da jovem cafetina para que as amigas silenciassem. – Não vamos acordá-lo.

– Ai meu Deus! – Jessica piscou enlevada, tomando Isabella pela mão para que se sentasse entre todas. – Você esteve mesmo com o barão? E ele está dormindo na sua cama?

– Meninas, deixem Amber respirar... – pediu Angela, contendo um sorriso satisfeito. – Depois ela lhes contará o que tiver que contar.

– Ah, não! – reclamaram algumas; outras apenas negaram com a cabeça, inconformadas.

– Eu nunca a vi receber ninguém – Susan comentou. – E homens não podem passar a noite aqui. E logo quando essas duas coisas acontecem não podemos saber dos detalhes? Não é justo!

– Concordo! – Maureen fez coro, animada. – Queremos os detalhes mais picantes. Estamos vendo que o barão é selvagem... – apontou o queixo e pescoço da jovem. – O que mais ele faz além de morder? Como ele é quando...?

– Quão grande é a “nobreza” dele? – indagou outra ao mesmo tempo, com uma piscadela.

Isabella tocou o queixo e apenas riu da sucessão de perguntas pervertidas que se seguiram, sem a intenção de saciar-lhes a curiosidades, evidente. Apesar da notória magreza, o barão continuava espetacular naquilo que sabia fazer muito bem, mesmo estando ébrio ou sonolento, pensou sentindo o rosto afoguear-se.

– Vejam como ela está vermelha – a voz de uma delas se sobrepôs às demais. – Acho que ela nem precisa nos responder.

Então todas irromperam em risadas e gracejos. Silenciaram gradativamente, olhando em direção à porta que levava ao quintal. Isabella acompanhou-lhes o olhar e também apagou seu sorriso ao ver Sam parado sob o batente, encarando-a seriamente.

– Bom dia Sam – ela o cumprimentou e lhe sorriu, visto que o criado nada dizia.

O moreno piscou rapidamente e trocou o peso sobre as pernas, mãos postas para trás.

– Ele a machucou – disse duramente, sem cumprimentá-la, os olhos postos no rosto da patroa.

– Não Sam, não machucou... – Isabella assegurou, cobrindo o colo.

O moreno pensou por um instante até que a sombra escurecida deixasse sua expressão. Novamente se movendo sobre os pés, indagou:

– Não está zangada comigo? Eu falhei. Juro que não o deixei entrar deliberadamente. Eu deixei a porta por um instante...

– Sam – a moça o interrompeu. – Não precisa se desculpar. Nada que eu também não quisesse aconteceu. Está tudo bem.

Ele ainda a analisou, como se ponderasse sobre as palavras, então, aceitando-as, fechou os olhos e assentiu com a cabeça.

– Obrigado, senhora! – agradeceu e, com o semblante mais leve, falou. – Encontrei o cavalo do barão amarrado em uma das árvores próximas à entrada. Tentei trazê-lo para os fundos, mas o animal é tinhoso.

– Draco passou a noite ao relento? – Isabella se pôs de pé, preocupada. Como não pensou na possibilidade antes?

– Você sabe o nome do cavalo do barão?! – Jessica perguntou, estarrecida.

À pergunta se seguiram várias outras, todas ininteligíveis. Isabella apenas olhou de uma a outra de relance antes de deixar a mesa. Não havia como ter pensado em coisa alguma, então precisava vê-lo. E rápido, antes que Edward acordasse.

– Acalme-se senhora. – Sam pediu, quando estava a sua frente. – Ele não me deixou soltá-lo, mas o cobri com uma manta.

– Leve-me até ele. – demandou. Antes de perguntou a Brenda. – Temos maçãs?

– Temos sim, senhora.

A criada interrompeu o que fazia para pegar a fruta, porém Jessica se adiantou, levando-a até a moça.

– Posso ir com você? – ofereceu-se, sendo seguida na intenção por todas.

Aquela era a hora de voltar a ser a dona do bordel, não a colega, então, reassumindo sua costumeira seriedade, negou.

– Não. Está frio demais e como Sam disse, Draco é arisco. Deixem-me lidar com ele...

– Ai meu Deus! – Jessica exclamou com os olhos a brilhar, sonhadora. – Além de saber o nome tem como lidar com o cavalo do barão... O que nós perdemos?

– Nada que seja da conta de vocês. – Angela retrucou, levantando-se para retirá-la da porta como se a moça fosse capaz de desobedecer e acompanhar Isabella mesmo sem permissão. – e isso vale para todas. Já disse que “depois” Amber nos contará o que considerar que deve.

– Isso! – Isabella confirmou, apertando a maçã em sua mão. Para Brenda pediu. – Arrume o que tiver feito para o café da manhã numa bandeja, na volta eu a levarei para o barão.

– Vai sair assim senhora? – Sam se mostrou preocupado, já retirando o próprio casaco e o colocando sobre os ombros da patroa antes mesmo que ela lhe respondesse.

– Obrigada – agradeceu e finalmente saiu.

Sem interromper os passos, apertou a frente do casaco para aquecer-se; quando comentou na cozinha não imaginou que estivesse tão frio. Compadecida do andaluz, adiantou-se, contornando a casa rapidamente até que estivesse diante dela. Logo avistou Draco, coberto pela manta e graças ao bom Deus, abrigado do sereno pela copa da árvore escolhida por seu dono para amarrá-lo.

– Fique aqui – ela ordenou ao criado, retirando o casaco para que ele segurasse; não entedia de olfato equino, nem se Draco se lembraria dela, então achou melhor não arriscar.

– Pode ser perigoso senhora – Sam advertiu, tocando-lhe o ombro, segurando o casaco sem questioná-la como se entendesse sua intenção.

– Tomarei cuidado – ela disse segura. – Draco me conhece. E só quero tirá-lo daqui... Levá-lo até o telheiro.

Com um suspiro resignado, ela girou a maçã em sua mão e foi até o cavalo. Ao notar sua aproximação, Draco girou a cabeça para encará-la de frente.

– Bom dia Draco... – ela começou mansamente, aproximando-se com cautela. – Acho que hoje é um bom dia para confirmar o que seu dono disse. Se for antipático, ao menos não me morda, está bem?

Estava a três passos do animal que apenas a olhava, impassível, fazendo-a se sentir ridícula por conversar daquela forma com um ser irracional. Ainda assim continuou, estendendo a maçã.

– Está com fome?

Draco então se moveu, tentando alcançá-la. Confiante, Isabella deu um passo à frente, até que o cavalo capturasse a fruta de sua mão. O andaluz a comeu rapidamente, derramando um pouco de saliva e sumo, porém sem desperdiçar a polpa.

– Certo... Você está com fome. – ela falou manso, aproximando-se mais. – Para sua sorte temos um pouco de feno e alfafa que guardamos para os cavalos que às vezes passam a noite aqui, mas para tê-lo, você precisa me deixar levar você até os fundos da casa. Você me deixa soltá-lo?

Como resposta recebeu um piscar preguiçoso e novamente um par de olhos castanhos impassíveis nos seus.

– Muito bem rapaz... Já que você não bufou, nem relinchou, vou acreditar que se lembre de mim e que não vá me machucar...

Como se acreditasse em suas próprias palavras, Isabella finalmente se pôs diante do andaluz e desfez o nó dado por Edward ao chegar. Não estava apertado e logo se desfez. Segurando a rédea firmemente, como fazia com Luna, a moça experimentou puxá-lo, dizendo a si mesma que, na pior das hipóteses, Draco empinaria e correria de volta para Apple White. Sim, ela se enganava, pois duvidava que o animal fosse capaz de voltar para casa de tão longe.

Por sorte, ou reconhecimento, Draco se deixou levar. Sinalizando para que Sam ficasse distante, Isabella o levou até o telheiro citado, nos fundos do casarão, onde seu criado costumava deixar os cavalos dos coches que alugavam para devolver somente no dia seguinte. Como dissera ao cavalo, para sua sorte aquele fora o caso na noite do baile; então havia ração para alimentá-lo. Depois de amarrá-lo, Isabella se aventurou a afagá-lo.

– Bom menino... Sabe que senti saudades de você? – Na verdade sentia falta de ver o barão sobre ele, altivo e garboso, mas não precisava ferir os sentimentos do andaluz. – Agora continue a orgulhar seu dono e deixe que Sam ao menos o alimente. Preciso ver como seu dono acordará.

Ao se voltar viu a sombra de um sorriso nos lábios sempre rígidos de Sam. Provavelmente achava graça de sua conversa unilateral com o animal, porém nada disse além de dispensá-la.

– Entre agora senhora. Está mesmo muito frio. Deixe que daqui eu assuma.

– Dê-lhe comida e água... E obrigada por se arriscar a cobri-lo.

– Era o mínimo depois de minha falha... – ele correu os olhos para o chão. – Eu saí mesmo por alguns instantes, senhora... Precisei aliviar-me e quando voltei... Vi o cavalo, ouvi a voz exaltada do barão... Lamento.

– Eu já disse que está tudo bem – ela o tranquilizou. – Agora cuide de Draco.

Deixando-os, voltou à cozinha. Encontrou todas à mesa, da mesma forma que as deixou, porém elas haviam iniciado o desjejum.

– Como estava Draco? – Kate perguntou.

– Bem... Sam o cobriu. – Isabella respondeu, olhando em volta. Ao encontrar a bandeja que pediu para ser arrumada sobre a mesa que Brenda usava para preparar suas comidas, foi até ela, dizendo. – Depois conversaremos mais... Agora é melhor voltar ao quarto.

Então o silêncio se desfez, rompido por risinhos e novos gracejos. Isabella considerou que deveria ralhar com elas, mas foi contagiada pelo bom humor. Apenas maneando a cabeça, reprimindo um sorriso, ela foi até uma bacia, onde lavou a mão antes de pegar a bandeja e se preparar para deixar a cozinha.

– A arrumação ficou linda Brenda. – elogiou.

– Obrigada senhora... – agradeceu a mulher, baixando os olhos.

Sorrindo para as mulheres sentadas à mesa começou a dizer.

– Depois conversaremos e...

– Espere! – pediu Jessica, deixando seu lugar e tomando a bandeja de suas mãos. – Deixe que eu leve isso...

Antes que a moça negasse, Maureen se juntou a ela e segurou o bule.

– Assim fica mais leve...

E então Susan veio pegar a cesta de pães, Anne a geleia, outra a manteiga e então a bandeja estava praticamente vazia, pois todas, com exceção de Angela e Kate fizeram questão de ajudar. Todas deixaram a cozinha rumo ao quarto de Isabella, antes que ela pudesse detê-las. Com um olhar aflito para as duas meretrizes mais velhas, ela seguiu as nove meninas até tomar à dianteira e pedir.

– Por favor, façam silêncio. – e mais firme acrescentou. – A ajuda é só até a porta de meu quarto.

Todas aquiesceram, após breves lamentos. Ao chegar ao seu destino, Isabella se colocou à porta e tomou a bandeja das mãos de Jessica.

– Agora arrumem tudo como estava, ou se verão comigo. – ordenou seriamente às outras.

Uma a uma, com a expressão mais comicamente inconformada de que Isabella poderia se lembrar, elas a obedeceram.

– Não podemos nem dar uma olhadinha? – Maureen pediu a torcer os lábios. – Ele não nos verá. Está dormindo...

Evidente que não aconteceria de forma alguma, ainda assim Isabella se aborreceu com o pedido. Naquele instante entendeu todas às vezes nas quais Edward ralhou com seu criado por flagrá-la em trajes de dormir. Imaginar que qualquer uma das meretrizes veria o mínimo pedaço de pele que cobria o peito do barão reacendeu o ciúme da moça, não lhe deixando nenhum remorso ou reserva ao dizer a verdade.

– “Eu” as veria.

Isabella desejou ter sido incisiva e ameaçadora, porém suas meninas, cansadas do eterno tédio matinal, lamuriam-se e imploraram com sussurros desencontrados, levando-a a revirar os olhos antes de equilibrar a bandeja com uma só mão para girar a maçaneta e entrar.

– Não se atrevam a espiar... – sibilou entre dentes, baixinho, olhando-as duramente. – Se me fizerem derrubar isso, já sabem...

A ameaça surtiu efeito, pois nenhuma se aventurou a entrar, nem mesmo brevemente. Indicando com a cabeça para que se fossem, Isabella finalmente fechou a porta. Depois de segurar a bandeja com ambas as mãos, ela olhou para sua cômoda e penteadeira, indecisa de onde colocá-la.

– Traga-a até aqui.

O pedido do barão, totalmente inesperado, quase a fez derrubar a bandeja sem a ajuda das meninas. Segurando-a firmemente, apesar de trêmula, Isabella olhou na direção do som. Descobriu que o barão não somente havia acordado como estava sentado, recostado contra a cabeceira, coberto até a cintura, exibindo seu peito nu. Sua visão preferida em tudo o mundo, inquietando-a apenas por não saber o que viria à luz daquele dia.

Ter Isabella a encará-lo com os olhos negros maximizados, vestida num grosso robe a segurar a bandeja, parecia tão surreal quanto fora despertar nu naquela cama desconhecida; ver suas roupas dispostas sobre o sofá. A recordação vívida que tinha era a de estar em sua biblioteca, cismando sobre o que lera na carta deixada, ou o que ouviu dos próprios lábios da moça, enquanto bebia. A partir dali, tudo lhe vinha à mente como um sonho; meio pesadelo ao se vir no meio de um salão, exposto a alguns conhecidos e mulheres seminuas, Isabella seminua. Então despida de fato num quarto de rameira.

Voltava a ser sonho em cenas passadas naquele quarto. Um aposento tipicamente feminino, com um sofá próximo à janela, muitas almofadas, tecidos, franjas e rendas sem ser vulgar. O quarto de uma moça decente, situado num bordel. Sim, sabia onde estava, a despeito de não saber como chegara até ali. Por ver as marcas no pescoço da moça, estar nu, e pelo tanto que se lembrava, sabia também o que havia feito. Somente não imaginava se lamentava ou não as recordações não serem nítidas, pois não sabia o que esperar.

Contudo agradecia não ter acordado doente, com a cabeça a doer. Toda a indicação de que bebeu além do limite – fora despertar onde não deveria – era o gosto ruim em sua boca. Agradecia também que Isabella não tivesse demorado a aparecer, quando não sabia o que fazer, trazendo comida justamente quando seu apetite resolver voltar. Estranhou e temeu as muitas vozes que ouviu serem murmuradas do outro lado da porta por não saber quem o flagraria ali, porém, naquele instante considerava tudo perfeito.

– Bom dia... – Isabella se obrigou a murmurar, testando sua voz.

– Bom dia... – Edward retribuiu no mesmo tom. Como ela não se movia, nem nada mais dissesse, ele apontou a bandeja. – Seria para mim?

– Sim! Claro! – A moça despertou do transe definitivamente, indo até a cama para depositar a bandeja sobre o colchão, ao lado do barão. Endireitando-se, passou uma mecha de cabelo atrás da orelha e cruzou os braços; defensiva.

– Eu... Eu trouxe Draco para os fundos...

– Draco! – Edward se agitou, fazendo a louça sobre a bandeja tilintar; havia se esquecido do andaluz completamente.

– Acalme-se – ela estendeu a mão para que não se levantasse. – Ele está bem. Sam o cobriu a noite e minutos atrás eu o prendi sob um telheiro que temos nos fundos. Poderá vê-lo se for até a janela. Pedi ao Sam que lhe desse feno e água.

– Ele foi educado com você? – perguntou mirando a marca deita por seus dentes no queixo alvo, dispensando ver seu cavalo, acreditando estar sendo bem cuidado.

– Um verdadeiro cavalheiro – ela tentou sorrir; tentou.

– Fico contente. – falou o barão, indagando-se qual poder era aquele que ela exercia sobre seus animais. Em seguida se lembrou que Nero não contava; eles já se conheciam.

O silêncio desceu sobre eles, nenhum dos dois nada disse ou se moveu. Tomando a iniciativa, Isabella indicou a bandeja modesta.

– Desculpe não ser nada comparado ao que Rosinda prepara, mas... Brenda tem seus méritos. Coma!

– Brenda... – ele testou o nome; no fundo de sua mente havia outro, Angela. Precisava comer. Apesar de certa culpa e do ressentimento que voltava ao seu peito, estava com fome.

– Sim, nossa criada – ela explicou sentindo o coração pular frenético ao ter os olhos azuis nos seus; indecifráveis. – Ela cuida da comida e nos ajuda na limpeza.

– Pois diga a Brenda que está tudo muito bom... – Edward falou, descendo os olhos para examinar a bandeja.

– Mas ainda nem provou nada – Isabella comentou, finalmente conseguindo formar um sorriso descrente; nervoso.

– Mas o cheiro está bom! – retrucou o barão, beliscando a ponta de um pãozinho. – E estou faminto, então...

Ele deixou a frase morrer no vazio como se o seu apetite por si só transformasse o que havia na pequena bandeja num verdadeiro banquete. A moça nada replicou, vendo-o mastigar o pão sem guarnição com evidente gosto. Sua vontade era servi-lo, contudo não sabia como agir. Era algo insólito tê-lo nu em sua cama, a conversarem sobre as reações de Draco ou comida, como se nada houvesse ocorrido na noite anterior; no baile, ou nos meses passados.

Depois de engolir o pedaço de pão – delicioso – Edward não soube mais o que fazer. Era estanho ter Isabella ao lado, imóvel e muda. Podia sentir os olhos dela sobre si e ineditamente se constrangia. Não deveria estar ali. O certo seria ter seguido seu primeiro impulso ao despertar, sozinho e confuso, e partir. No entanto, resolveu esperar para saber o que aconteceria então se encontrava completamente sem base. Tinha a certeza de que não tocaria em nenhum assunto indigesto estando de estômago vazio, ainda mais quando este clamava por alimento depois de dias, mas como enfim conversariam se nem ao menos sabiam como agir?

– Quer que eu lhe sirva?

– Não gostaria de acompanhar-me?

Indagaram ao mesmo tempo, constrangendo-se.

– Não há a necessidade...

– Estou sem fome...

Novamente as falas se cruzaram. Isabella sentiu as bochechas arderem, Edward franziu o cenho.

– Fale você primeiro... – disseram juntos; ele a ordenar, ela a pedir.

– Não, você primeiro! – Eles cederam a vez, simultaneamente.

Edward então maneou a cabeça, contendo um sorriso, sendo imitado por ela que riu da coincidência embaraçosa; engraçada, porém que a comoveu; a naturalidade entre eles estava perdida. Sinalizando para que a moça se mantivesse calada, o barão sugeriu.

– Mesmo que não esteja com fome, acompanhe-me – e, conhecendo o quanto era prestativa, acrescentou. – Aceito que me sirva se não for abuso de minha parte.

– Abuso algum – ela assegurou, sentando-se na beirada do colchão, agradecida por poder se ocupar.

Instintivamente ergueu as mangas do robe para que não esbarrassem em nada e estendeu uma das mãos para pegar o bule. Sequer o tocou ao ter o pulso contido pela mão do barão.

– Fui eu quem também fez isso? – ele perguntou, correndo o polegar pela mancha arroxeada.

– Fico marcada a toa – ela tentou livrá-lo da culpa que notava no tom, mas não pôde evitar o embaraçoso eriçar de seus pelos.

– Tire esse robe – ele ordenou duramente; deveria ter dosado sua força.

– Edward, por favor...

– Tire.

Não queria começar uma discussão, então novamente se pôs de pé para atendê-lo. Apenas em sua camisola, sabendo o que Edward desejava ver, Isabella exibiu o braço pelo qual ele a prendeu.

– Este aqui também foi você.

– Eu sinto muito... – disse sem desviar o olhar do hematoma que deixou ao arrastá-la até a bacia; não era sua intenção.

– Vai desaparecer – ela o tranquilizou, dando de ombros. – Não se preocupe.

Não estava preocupado, e, sim, culpado. Não havia como ser diferente, mesmo que nada pudesse fazer. Com um manear de cabeça, concordou com a moça. Isabella então voltou a se sentar, sentindo o olhar do barão sobre seu corpo. Derramou um pouco de chá, pois suas mãos tremiam, mas aquele descuido era preferível a ser analisada estando de pé, sem saber o que fazer com elas.

Ao estender o pires, os dedos do barão tocaram os seus; liberando a conhecida descarga entre eles, estremecendo-os. Edward a encarou sobre a borda da xícara ao beber enquanto ela espalhava geleia num dos pães para entregá-lo. Novo roçar de dedos; novo abalo de nervos.

– Lembro que estive em outro quarto – ele comentou para saciar a curiosidade nascida quando estava sozinho; para quebrar o silêncio que ameaçava envolvê-los. – Um vermelho.

– Tomei emprestado de Angela para... recebê-lo – ela revelou com voz instável, mirando as próprias mãos enquanto espalhava geleia na metade de um pãozinho.

– Pensei que fosse seu quarto. – Edward revelou, aliviado por não ser. – E este é seu?

– Sim, este é... – ela correu os olhos em volta, evitando encarar o barão; sim, a naturalidade estava perdida.

– Olhe para mim Isabella – era uma ordem, porém o tom ameno. A moça o obedeceu, aproveitando para lhe entregar o pedaço de pão. Com os olhos negros a encará-lo, Edward indagou: – Por que não me trouxe para seu quarto antes?

Revestindo-se de coragem, Isabella sustentou o olhar azul e disse a verdade.

– Se tivesse dito que queria conversar eu teria lhe trazido para este quarto, ou o levado para o escritório... Contudo deixou claro que queria outra coisa. Para o que pretendia ter tive que levá-lo ao lugar certo. Eu não recebo homens aqui.

Após a revelação Edward imitou-a, olhando em volta. Se acaso ela o tivesse trazido até ali na noite passada, não se sentiria inspirado a levar seu impulso adiante; aquele não era um quarto de rameira e ficava satisfeito que naquela cama não se deitassem outros homens.

Voltando a encará-la, o barão nada mais falou. Recebia os pães que ela lhe entregava, lamentando que não pudesse ser em sua própria cama, sem que todas aquelas novas situações estivessem entre eles; que não fosse como antes. E assim, em silêncio, com toques despretensiosos, silêncio e uma tensão estranha, ambos comeram o que Brenda dispôs na bandeja.

– Espero que tenha gostado... – ela desejou, baixando a xícara que tomou emprestada para beber um pouco do chá. Descobriu ao comer que estava com fome.

Ao não ter nenhum comentário, Isabella ergueu os olhos e encontrou os do barão postos em si. Como antes, Edward nada disse, porém ela soube que o momento havia chegado. Agora, lúcido e alimentado, o barão iria procurar por aquilo que veio buscar na noite anterior; entendimento e... Libertação? Deus lhe mostraria, pensou resoluta. Expectante, aguardou por qualquer pergunta, exceto...

– Por que me deixou?

Então o coração já frenético, pulsou mais ligeiro. Indicando seu entorno Isabella indagou, sem ser grosseira.

– Ainda não lhe parece óbvio? Olhe em volta.

– Poderia ter me dito – ele falou sempre a encarando. – Evitaria a surpresa. Vinda justamente por quem? Sabe o quando odeio aquele homem. Odeio-o mais agora que sei o que houve entre vocês.

– Não houve nada entre nós! – Isabella negou veementemente. – Disse-lhe ontem, aquele senhor foi um cliente e só.

Como se Laurent Hunt tê-la possuído, fosse como fosse, pudesse algum dia ser visto como algo menor. Apenas poderia ser pior, caso...

– Em algum momento nutriu qualquer sentimento por ele?

– Sim! – disse prontamente, estarrecendo o barão. Porém antes que ele externasse a raiva que instalou em seu peito, ela enumerou: – Asco, desprezo e ódio são sentimentos que nutro até hoje por aquele cavalheiro.

– Até hoje? – perguntou roucamente, ainda afetado pelo susto. – Por que até hoje?... Lembro-me que disse não recebê-lo há quase quatro anos.

– Por que Laurent Hunt é uma pedra em meu caminho – revelou. – Desde que me recusei a recebê-lo, tenho sido infernizada por ele. Se eu tenho alguma paz, devo-a ao Sam que o mantém afastado.

– Então... – Edward começou – Quando disse que fomos descobertos...?

– Foi por ele. – Isabella confirmou. – Ele soube que estive em sua casa e veio cobrar satisfações... Alguém, eu ainda não descobri quem, deixou-o entrar nesse quarto. Quando retornei de nosso... encontro no Natal, encontrei-o aqui.

– Aqui?! – Ao se agitar Edward fez a louça tilintar sobre a bandeja, refreando-o. Diminuindo os olhos em fendas raivosas, o nobre indagou: – Quais direitos ele acredita ter?

– Os que ele acredita ter? Todos. – Isabella revelou sem se abater. – Acredito que Laurent seja louco, pois em tempo algum fiz algo que justifique sua fixação. Como disse, ele nunca passou de um cliente. Nunca houve sentimento, nunca o tratei de forma especial.

– Então este pode muito bem ser o problema... – Edward falou como que para si mesmo.

Evidente que Isabella ser uma moça bonita tornava a “fixação” mais atraente. Contudo, aquele homem estranho, de passado duvidoso, sempre se mostrou interessado em ter mais do que os outros; em ter aquilo que não podia. Escrutinando o rosto corado à sua frente, Edward sentiu ganas de caçar Laurent Hunt naquele momento, pois Isabella era o bem mais precioso dentre tudo o que ele jamais deveria desejar.

– Também penso assim, mas nada posso fazer para dissuadi-lo – a voz da moça veio livrá-lo de sua fúria crescente. – Ultimamente nem Sam parece amedrontá-lo tanto. E saiba que ele o espancou quando eu estive em Apple White, pois acreditou que Laurent me tivesse sequestrado ou algo parecido.

O barão se lembrava da coça, e agora sabia a quem deveria agradecer. Somente não se contentou em saber, por sentir crescer sua preocupação. Se o comportamento do fazendeiro era assim, tão temerário, Isabella corria perigo real ao simplesmente contar com a proteção do criado. Naquele instante a fuga dela se tornou ainda pior aos seus olhos.

– Ele temeria a mim! – assegurou duramente. – Se sofre esse tipo de assedio por mais de três anos, essa seria mais uma razão para ter ficado ao meu lado. Por isso insisto. Por que você não me contou todas essas coisas antes? Dei-lhe todas as oportunidades.

– Eu quis contar, acredite – pediu seriamente. – Estava decidida quando me propôs casamento, assim, talvez aceitasse minha proposta de vivermos juntos clandestinamente para que minha vida não enlameasse a sua, mas aconteceu isto... – ela apontou para a cicatriz no braço esquerdo. – Hoje posso acreditar que ele o temeria, mas antes, com tudo acontecendo rápido demais e com o atentado que sofreu para piorar tudo...

– Pois não deveria ter mudado de ideia por isso – censurou-a duramente, odiando saber que, em parte, Hunt era também o culpado pela separação. – Não tem a mínima noção do quanto foi horrível ouvir aquele cretino delatá-la.

– Foi essa a razão da briga? – Isabella encolheu os ombros; poderia imaginar o quanto fora ruim.

– Sim... – o barão fechou os punhos instintivamente. – Eu seria capaz de matá-lo caso não nos separassem. Sem dúvida, eu preferiria estar preparado... – acrescentou, encarando-a acusadoramente. – Deveria ter confiado e, já que estava decidida, revelado tudo de uma vez.

– Lamento que tenha descoberto dessa maneira, mas... Pensando bem, acho que quando chegasse a hora eu não teria coragem de revelar “tudo”, pois minha condição não é o tipo de coisa que diz a quem...

– A quem...? – Edward a encorajou.

Isabella ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha e, repentinamente deixou a cama, levando a bandeja para depositá-la sobre a cômoda. Somente então se voltou e respondeu, emendando seu deslize.

– A quem talvez não entendesse.

Edward se calou por um instante, até retrucar:

– Você e seu péssimo hábito de prever o futuro. Como poderia saber o que eu entenderia ou não?

– Homem algum entenderia.

– Inúmeras vezes eu lhe disse não ser como os outros – retorquiu prontamente.

– Não é? – Isabella não queria afrontá-lo, porém Edward não se portou como o mais compreensivo dos homens. – Entendo que estivesse ébrio e com muita raiva, mas acho que se lembra. Disse que veio aqui à procura de explicação, no entanto, a primeira coisa que vez foi tentar pagar por meus favores.

O barão sentiu o rosto arder. Sim, ele lembrava, e não se orgulhava de seu comportamento. Não culparia a bebida, pois ela apenas o liberava a fazer o que conscientemente quis. Já havia se desculpado, então não havia a necessidade de repetir.

– Eu disse que lamentava e a deixei – igualmente relembrou-a. – Não a tratei como uma...

– Uma prostituta – ela completou por ele, inabalável. – Pode dizer a palavra, não me ofenderá.

– Que seja! – ele exclamou. – Não a tratei como uma prostituta. Ao perceber meu erro, pedi desculpas e saí. Nem deveria estar aqui na verdade, afinal minha palavra deve valer. E acredite, eu não viria procurá-la depois das coisas que me disse ou do que soube por aquele estafermo, contudo ontem...

– Ontem...? – Ela prendeu a respiração, temerosa. O que mais poderia ter acontecido?

– Ontem eu... – Edward correu as mãos pelos cabelos. – Eu encontrei a carta que você deixou, e o que relatou não era algo que se poderia ignorar. Vim para tentar entender, mas de fato estava com muita raiva por ter me preterido a essa vida, então me excedi ao chegar daquela forma. Acho que no fundo ainda alimentava a esperança de que não fosse você a dona desse lugar. Quando não restaram dúvidas, eu... Eu não sabia o que fazer, não tinha um plano.

A eterna sinceridade do barão despedaçou o coração de Isabella. Afinal Edward havia lido sua carta, desaparecida de alguma forma, então na noite passada ele já sabia quem era ela. Naquele instante tudo mudou. Ela poderia imaginar os choques pelos quais passou e antevia os que ainda viriam. Ao falar, Isabella foi cautelosa, sentia nascer um novo temor.

– Bem... Não tenho como mudar quem eu sou ou minha realidade. E... Agora que sabe? Qual é seu plano?

– Ainda não o tenho um. Sua realidade pode ser conhecida, mas... Quem é você afinal? Isabella? Cora?... Amber? Eu nem sei quem hospedei... Por quem me apaixonei.

O barão a desconcertava. Não sabia o que esperar vindo dele, mas sem dúvida jamais seria aquela exposição irrestrita de seus sentimentos; não depois de tudo que lhe fez. Restava a ela ser igualmente sincera. Sustentando bravamente o olhar escurecido, caminhou de volta à cama e se sentou para murmurar ao barão.

– Apaixonou-se por Isabella, mas foi a Cora quem lhe correspondeu, pois nunca o esqueceu... E quem as obrigou a partir foi Amber. O passado dela não cabia no futuro que propunha, porém todas as três morreram um pouco a cada passo dado. Até ontem à noite, elas não passavam de uma sombra sem vida.

A declaração aqueceu o coração do barão. Não deveria dispersar, porém, por aquela mulher, sempre seria um rendido, bem sabia. Deveria aceitar que, não importava a profissão, o nome, estava condenado a amá-la até o último dia de sua vida. Seu título, seu orgulho, sua vontade eram nada perante ela. Desde que acordou após a partida era também uma sombra sem vida, e era imperioso que mudasse aquela situação. Num movimento rápido, pegou-a pelo braço e a trouxe para si, fazendo-a subir na cama e pousar sobre seu corpo.

– Quero saber apenas com qual delas estou agora... – disse muito rouco, afastando as mechas negras que lhe cobriram o rosto na ação inesperada.

Com o coração a bater acelerado pela surpresa, e por estar nos braços do barão; ciente da passagem de Hunt em sua vida, sóbrio, lúcido, ela mais uma vez murmurou, comovida:

– Com as três... Sempre com as três Edward.

Edward reconheceu a verdade vinda dela. Havia tanto a ser dito, contudo ao tê-la assim, sobre si, com a mão apoiada em seu peito, movendo os dedos ansiosamente em seus pelos, o barão não se animava a prosseguir. Não sem antes senti-la vividamente, livre do álcool e do rancor.

Antes que ela pudesse prever, correu sua mão até a nuca, sob os cabelos e a puxou para cima, para que sua boca cobrisse a dela. Confusa com aquele ataque, Isabella se deixou ficar sobre o barão e ser beijada possessivamente enquanto suas mãos masculinas vagavam ao longo suas costas. Queimando-a mesmo sobre o tecido da camisola. Amava-o, mesmo não o merecendo ou sabendo no que implicaria tudo o que fosse dito naquele quarto, então, seguiria conforme a vontade do barão. Edward ditaria sua vida, não o contrário. Nunca mais o contrário, reforçou o pensamento ao senti-lo enrijecer sob seu corpo.

– Edward... – ela gemeu ao ter a boca em seu queixo.

– Eu machuquei você? – indagou roucamente, segurando-a pela nuca para analisar de perto onde havia mordido. – Perdoe-me por isso... Excedi-me na bebida... Perdi o tino ao ler sua carta.

Com razão, ela pensou subitamente aflita, mirando os olhos azuis tão próximos aos seus. Quanto tempo levaria até que Edward se lembrasse dos pesadelos, da história que lhe contou? O que aconteceria ao descobrir ter sido seu adorado pai a condená-la àquela vida? Depois de tudo o que disse ou fez o que pensaria dela?

O medo que da rejeição lhe oprimiu o coração, calando-a a qualquer comentário para que segurasse o barão pelo rosto e novamente unisse suas bocas num beijo urgente; não queria perdê-lo quando parecia que havia uma esperança. Como se desejasse confirmar a presença dele junto ao seu corpo, apertou-se contra o dele, movendo o quadril, estimulando-o.

– Bella... – Edward mais uma vez segurou-lhe o rosto e a afastou para escrutinar olhos escuros. Apreciaria tamanha urgência caso não sentisse haver algo errado. – O que há?

– Eu o amo tanto Edward! – ela declarou apressadamente; embargada. – Eu nunca deveria ter dito o contrário. Acredite... Não tive coragem de dizer a verdade, pois não suportaria se me rejeitasse. Negar o que sinto foi uma das piores coisas que fiz na minha vida... Quando você foi embora, ferido, eu quis morrer...

– Acalme-se Bella... – o pedido valia para si mesmo, pois as palavras dela o afetavam profundamente, mais do que as lágrimas que os olhos negros passaram a verter. – Eu sei que mentiu...

– Não, não sabe! – ela teimou; o medo a dominá-la. – Disse que me desprezaria, não recebeu minha carta... Eu o magoei... Feri seu orgulho... E eu morri por isso, pois sempre vou amar você, não importa o que aconteça. Não importa se me aceita ou não... Sempre, sempre amei e sempre vou amar... Perdoe-me por tudo o que o fiz passar, por tudo... – que ainda passará por mim, ela quis dizer, mas lhe faltou coragem.

– Shhh... Não chore! – ele tentou acalmá-la, esboçando um sorriso, admitiu: – Gosto dessa parte onde diz que sempre me amou... Quero saber mais sobre isso, conte-me como foi...

– Não agora! – negou. Aquela seria justamente a parte que traria luz às lembranças do barão. Não estava preparada, então, novamente deslizando sobre ele, valendo-se da mobilidade nos tecidos que os separava, ela implorou. – Preciso de você my lord...

Pedido daquela forma, como negar-se a ela? Especialmente quando igualmente necessitava dela para aplacar aquela falta imposta por meses? Não havia como. Quando a boca dela, salgada pelas lágrimas, mais vez cobriu a sua, o barão não a afastou, beijando-a profundamente antes de rolá-la sobre o colchão e livrá-la da camisola, das cobertas que a cobriram ao se mover, para admirar-lhe estendida sobre a cama.

Naquele instante o barão confirmou as palavras dela; sempre esteve com as três que a compunham. Aquela mulher despudorada que não se incomodava com a própria nudez, sabia ser Amber, sem medo de errar. Reconhecia também o que sempre esteve presente no fundo de seu coração, soube o que ela era desde a tarde na lagoa, e se recusou veemente a aceitar, preferindo a versão criada por seu medo e, sim, preconceito, preferindo vê-la como amante de um único homem. Provavelmente jamais se conformasse com a verdade, contudo também deveria admitir o quanto amava a meretriz. Estava viciado nela como em todas as outras.

– Você é linda... – disse num fio de voz, rouco. – Não menti todas as vezes que disse sentir sua falta.

– Então vem... – ela chamou languidamente, confirmando a falta de pudor, separando os joelhos. – Prove o que diz...

Sim, ele provaria. Muito pronto se estendeu sobre ela e num único movimento tornou-os um. Enquanto se movia, mordeu os lábios com força, temendo confundir os nomes e magoá-la. Bastou apenas senti-la até que estremecesse e o apertasse contra si. Aquela era hora de parar. Gentilmente se retirou dela para ter a sua satisfação sobre o lençol.

– Desculpe por isso... – pediu com voz ainda instável. – Eu deveria ter esperado que você se preparasse.

Esperava que ela se preparasse? Isabella se questionou em meio às brumas do orgasmo arrasador. Acaso ele havia se esquecido de todas as outras vezes nas quais chegaram ao fim sem qualquer cuidado? Ao que parecia, sim.

– Não se preocupe com isso – ela pediu, obrigando-o a deitar para se acomodar sobre seu peito.

– Temos que nos preocupar Bella, não pretendo deixar que me escape, mas ainda não sabemos o que faremos... – novamente falava para si; continuava sem um plano, apenas agradecia que estivessem juntos. – Então não devo engravidá-la.

– Sobre isso... – Isabella se obrigou a esclarecer, tentando não criar expectativas com o que ouviu do barão. Sentando-se, ainda trêmula, pousou uma das mãos sobre o peito largo, e prosseguiu. – Sobre... Engravidar de você... Saiba que lamentei que não tivesse acontecido antes. E se acaso eu esperasse um filho seu, jamais o usaria para conseguir dinheiro ou quaisquer favores. Por favor, perdoe-me pelos absurdos que eu disse.

– Ah, Bella... Acho que sempre a desculpei. Desde que você partiu, eu a desculpo. Acreditei piamente que voltaria e quando não voltou, depois, quando considerei que fosse amante de Sir Kelton, desculpei-a por não me contar e decidi tê-la de volta... Não quis admitir esses dois dias, ontem pela manhã não recebi sua carta, mas provavelmente fosse apenas meu orgulho, pois, mais uma vez, eu já a desculpara.

– Ah Edward... – como acreditar que o merecia?

– Contudo... – ele prosseguiu, prendendo-a pelo olhar de uma azul profundo naquele instante. – Eu consigo entender que não se considere boa bastante para ser minha esposa, por ser... o que é, mas... Se você não tencionava me contar a verdade, e já planejasse partir, por que correr o risco de engravidar? Você teria voltado caso esperasse um filho meu?

Edward esperou pela resposta, expectante. Aquele era uma dos temas inquietantes vindos depois da leitura da carta. Para que ela não quebrasse o toque em seu corpo ainda estimulado, segurou-lhe a mão sobre seu peito. Com a mão livre a moça ajeitou uma mecha de cabelo que insistia em lhe cair sobre os olhos, apenas para ganhar tempo. Ver o anel que foi seu no dedo mindinho da mão que segurava a sua não ajudava a dizer a verdade, porém, era esta que Edward sempre mereceria por ser-lhe devotado. Rogava que não o magoasse quando seguisse pelo caminho correto.

Notas finais
Bem, cerco se fechando, próximo capítulo Bella não tem para onde correr... Trarei amanhã e se conseguir, na sexta trago outro, assim novamente igualo às postagens do face... ;)

Sei que não mereço, mas me contem o que acharam... u.u

Bjus amores... Boa noite e bom dia amanhã!