Borboleta Negra

11 Capítulo Dez


Notas iniciais
Oie... Bom dia a todas!Hoje serei breve... rsMas não vou deixar de agradecer os reviews e o carinho que vcs têm sempre... OBRIGADA!Agora vamos ao Lordward e sua borboleta... BOA LEITURA...

Torcendo os dedos nervosamente, Isabella cismava a andar em círculos; o coração insistia em palpitar aflito desde antes de sua chegada ao quarto cedido. O pior que poderia acontecer naquele momento seria um encontro com Carlisle no palacete dos Bradley. Temia que o banqueiro interpretasse sua presença de forma errônea.

Não seria delatada; o que de nada valia, pois conhecia Sir Cullen o suficiente para saber que não mediria esforços até ter uma aproximação privada onde lhe cobraria explicações. Caso o observador barão se distraísse e lhes desse a oportunidade de uma conversa reservada, poderia explicar o ocorrido, porém de toda forma era certo que seu protetor tentasse levá-la embora.

O que seria o correto a fazer; tanto que uma parte dela – a desacreditada e ferida – gritava no fundo de sua mente para que aproveitasse a chance e deixasse Apple White o quanto antes. Poderia se hospedar no mesmo hotel onde Carlisle provavelmente ainda estava instalado, pois de fato abandonar suas defesas para se render ao barão parecia estupidez. Todavia havia aquela outra parte dela – ainda trêmula após ter sido despertada como mulher – que mesmo minoritária estava decidida a ser insensata e experimentar mais.

Esteve tão presa às suas considerações que algumas batidas contra a porta fizeram-na levar as mãos à boca para calar um grito vindo com o sobressalto. Quando Marie falou a moça sentiu como se pudesse desfalecer de alívio, pois por um segundo insano considerou que fosse o amigo a procurá-la.

– Isabella, o barão mandou que viesse saber onde desejaria receber seu almoço?

– Aqui. – pediu apressada, tentando domar as batidas de seu coração. – Mas antes de buscá-lo, entre, por favor...

Estava de costas então novamente se assustou quando a criada exclamou.

– Nossa senhora! O que houve com você?

A jovem se voltou e ao notar os olhos espantados que a percorreram de alto a baixo, entendeu o alarme.

– Eu caí. – mentiu.

– Acho que o barão também caiu, pois as roupas dele estão em igual estado. – ela observou, desconfiada.

Seria preciso mais empenho, pois não diria a ela que rolou sobre as folhas do pomar nos braços do barão.

– Na verdade caímos praticamente juntos. – a moça riu brevemente, imprimindo certo gracejo na narrativa. – Foi um acidente tolo. O barão me levou para conhecer o pomar. Foi lá que escorreguei. Quando ele veio em meu auxilio caímos.

– Aquele terreno pode ser bem traiçoeiro. – a mulher comentou ainda a avaliando. – Machucou-se?

– Não, eu estou bem... Somente preciso me limpar, pois acho que ainda tenho folhas nos cabelos. Poderia me ajudar antes que providenciasse o almoço?

– Certamente Isabella. – Marie se mostrou prestativa. – Vou providenciar a água. Se quiser me aguardar na sala de banho...

– Farei isso.

Marie se foi deixando Isabella com a impressão de que não havia acreditado em uma única palavra. Nervosa, a moça contorceu os dedos enquanto voltava a caminhar de um lado ao outro.

O que fora fazer? Não deveria chamar a atenção sobre si, muito menos a dos criados.

– Agora já está feito. – exclamou ao léu.

Não poderia se esquecer que além das desconfianças de Marie, havia sido flagrada por um criado nos braços do barão. Talvez, por ter sido um homem a vê-los, pudesse contar com alguma discrição. Já Marie se mostrava simpática e prestativa tanto quanto falastrona. Não queria que o ocorrido no pomar fosse sequer insinuado entre os trabalhadores do palácio; ainda mais com Carlisle estando nele.

Quando completava mais uma volta, Isabella bufou exasperada. Deveria seguir a determinação de Edward e parar de pensar, ainda mais quando se encontrava numa bifurcação e apenas um caminho serviria para uma mulher perdida; ou para o barão. Ir embora antes que fosse tarde. Caso surgisse o mexerico sobre a troca de beijos no pomar, esta seria nada quando Edward deixasse claro que lhe faria a corte.

– Acalme-se. – Isabella disse para si, parando seu caminhar ininterrupto. – Não há ninguém na casa que ele deva satisfações e por dias não iremos a lugar algum.

Ao se ouvir dizer a verdade, expirou um tanto mais aliviada. Analisando a situação, perceberia que não tinha mais problemas do que antes. E sendo sincera, se tivesse a chance não faria diferente. Como prova, Isabella estremeceu somente por se lembrar dos beijos tórridos e das mãos indecorosas que vagaram por seu corpo.

– Não, eu não faria diferente.

Correndo dois dedos sobre os lábios que ainda sentia ardidos pelo contato com o cavanhaque, a jovem se obrigou a não pensar no banqueiro e determinou que deveria se apegar ao que pensou no pomar; poderia ter mais até que fosse hora de partir. Longe de Apple White a atração findaria; os dois esqueceriam.

– Uma lástima que tenha ficado preso deste lado do rio. – Edward comentou para o amigo que herdara do pai enquanto lhe servia uma taça de licor. – Mas me diga... Ao que devo a honra de sua inesperada visita?

Ao indagar, voltou-se para servir Harry Clearwater – um dos fazendeiros que arrendavam parte de suas terras e que também recebia o bagaço de suas maçãs – que acompanhava Carlisle Frederick. Ele era um dos que estiveram na reunião improvisada às margens do rio na quarta pela manhã. Era fiel em suas obrigações com ele assim como fora com seu pai; mantinham boas reações, mas não eram próximos. Não tinha por ele o mesmo apreço dispensando ao banqueiro sentado numa das poltronas e em ambos os casos, preferia que não aparecessem sem aviso prévio.

– Estava entediado. – o amigo confessou depois de tomar um gole da bebida doce. – Vim à cidade a negócios e quando soube do ocorrido, confesso que pensei em pedir hospedagem a vossa senhoria, mas antes que o fizesse encontrei-me com meu bom amigo Harry

– As portas de Apple White estarão sempre abertas Sir Cullen. – Edward assegurou.

Não mentia, mas na presente situação internamente o barão agradecia ao fato da hospedagem não se fazer necessária. Tudo o que não precisava era ter alguém para atrapalhar seu avanço em direção a Isabella. Imaginar o que ela estaria fazendo naquele momento o distraiu.

Lord Masen? – ouvir seu nome na voz do amigo o despertou.

– Perdoem-me. – pediu concentrado. – O que disse?

– Perguntei se não seria incômodo passarmos essa tarde aqui em Apple White.

– Ah... – ele exclamou ensaiando um sorriso. – Se não se incomodarem em me acompanhar durante meus afazeres, por mim não haverá incômodo algum.

– Que boa notícia! – Carlisle exultou. – Estou mesmo entediado por ter que ficar preso aqui. Não há um só canto da fazenda de Harry que eu não conheça como a palma de minha mão.

Edward apenas sorriu assim como Clearwater; estava claro que os dois conheciam bem as declarações exageradas do amigo em comum.

– Pois espero que a tarde lhe seja agradável, caro amigo. – Edward desejou e em seguida avisou. – Contudo ainda não almocei e como vêm, preciso me trocar.

– Iria mesmo perguntar. – o banqueiro começou em tom jocoso, medindo-o. – Por acaso lutou com um animal selvagem?

– Quase isso. – o barão respondeu com um sorriso genuíno.

Não estava mentindo. Pelo o que notava de Isabella, teria que lutar com ela ainda algumas vezes até conquistá-la. Todavia parecia estar no caminho certo. Depois do beijo e do prazer que inadvertidamente ousou proporcionar-lhe, sentia-a mais receptiva, mesmo que ainda alternasse a entrega com a reserva habitual.

– Está novamente disperso. – Edward ouviu o banqueiro acordá-lo. – Haveria uma razão?

– Trabalho! – o nobre exclamou. – Trabalho.

– Imagino que não deva ser fácil comandar sozinho a fabricação de vossa sidra. – comentou seu vizinho.

– Meu pai faz muita falta na sidreira, mas tenho me saído bem! – disse orgulhoso; de fato se saia. Com um suspiro encerrou o assunto nascido de uma mentira. – Se me derem sua licença, irei me recompor. Depois aceitariam acompanhar-me no almoço?

– Não, obrigado! – negaram em uníssono. O banqueiro prosseguiu. – Já almoçamos.

– Sendo assim, tentarei ser breve.

Ao deixá-los, o barão seguiu para a escadaria e a subiu em passadas ligeiras. E diante da porta de Rosalie bateu discretamente.

– Isabella?

– A senhorita Swan não está aí Milord. – Marie informou ao seu lado; vindo pelo corredor, com as roupas usadas por Isabella em seus braços. – Deixei-a a se vestir na sala de banho. Precisa falar-lhe?

– Não! – negou prontamente. – Queria apenas me certificar de que chegou bem...

– Está preocupado pela queda?

– Queda? – Edward franziu o cenho. – Ela está machucada?

– Refiro-me à queda no pomar. – Marie comentou sem tom especial, indicando-o. – A mesma que também sujou vossas roupas.

– Ah, sim... – ele assumiu um ar altivo. – A queda do pomar. Não, não estava preocupado quanto a isso... Como disse, queria apenas me certificar que estava de volta a casa.

– Pois então lhe digo que está. – Marie informou. – Vou levar essas roupas para lavarem e trazer-lhe o almoço aqui mesmo no quarto. A senhorita disse que prefere assim. Posso fazer alguma coisa por vossa senhoria? Vejo que Jacob ainda não voltou.

– Jake está de volta, mas ocupado com algo que lhe pedi. – Edward correu as mãos pelos cabelos. – Peça que levem água ao meu quarto e avise a Sra. Wood que logo irei almoçar, obrigado!

Sem mais recomendações, o barão se dirigiu para o próprio quarto. Ao retirar o relógio do bolso se lembrou da recomendação. Deixou-o reservado para testar a teoria e passou a se despir. Enquanto retirava as roupas sujas considerava a necessidade de tantas mentiras até chegar à conclusão de que Isabella havia feito o correto ao inventar que caíra. Não era sua intenção escondê-la, mas como ela bem observou, não deveria expô-la aos falatórios; por ela tentaria ser cauteloso. Tentaria.

Logo batiam à porta livrando-o dos pensamentos. Um dos criados lhe trouxe a água pedida. Ao ficar só, com ela se lavou e então vestiu roupas limpas. Tão logo penteou e prendeu os longos cabelos, capturou o relógio e saiu.

Ao passar pela porta de Rosalie refreou o desejo de novamente bater. Ciente da necessidade de ser breve desceu pela escada que o levaria mais rapidamente até a cozinha. Encontrou com Marie a subir carregando uma badeja pequena contendo uma xícara de chá.

– É para a senhorita Swan. – explicou antes que o barão a questionasse. – Recomendei que ela repousasse à tarde... Para se recuperar da queda.

– Folgo em saber que está cuidando dela como pedi. – disse impassível; estava claro que a criada não aceitara a versão de sua hóspede. – Por favor, lembre-a do horário que é servido o jantar.

– Lembrarei Milord. – ela inclinou a cabeça, reverente.

– Antes que se vá leve isto e o coloque sobre a lareira da biblioteca. – disse entregando-lhe o relógio.

– Como queira Lord Masen. – sem mais palavras, ela recolheu o relógio e se foi.

Apreciando que Isabella se mantivesse em seu quarto durante toda tarde, Edward seguiu para a cozinha; os momentos inesperados passados com ela abriram-lhe o apetite. Após cumprimentar as criadas do cômodo, assumiu o lugar à mesa reservado para si e, sob o olhar reprovador de Sue devorou o que lhe foi servido. Dispensando a sobremesa, deixou a cozinha e tratou de ir se juntar às suas visitas.

Encontrou Carlisle Cullen e Harry Clearwater a circularem diante da entrada principal. Conversavam animadamente entre si e ao vê-lo o receberam com um sorriso.

– Ah, Milord! – Carlisle exclamou contente. – Estava nesse instante contado a Harry há quanto tempo frequento vossa casa.

– Tanto que nem me recordo. – Edward comentou sincero; tinha a impressão de que o amigo de seu pai sempre estivera presente em Apple White.

– Dezoito anos para ser exato. – o banqueiro pôs o barão a par, seguindo ao descer as escadas. Já com eles a caminho do galpão.

– Apenas dezoito anos? – Edward espantou-se; pareciam mais.

– Exatamente! – ele confirmou. – Conheci vosso pai durante o retorno de uma viagem a Londres e desde então nossas famílias estreitaram os laços de amizade. Vossa senhoria era um rapazote mirrado de dezesseis anos em vias de se mudar para a capital do país.

– É verdade. – Edward finalmente sorriu contagiado pelas lembranças.

Nostálgico sentiu saudades daqueles tempos. Olhando para além das árvores, pareceu ouvir o riso de Rosalie sempre a correr com sua amiguinha. Era interessante ver como a irmã se identificava mais com a filha de criados do que com a própria irmã caçula. Não que ignorasse a ligação com alguém aquém de sua posição, pois ele mesmo ainda tinha em Jacob o bom amigo de infância, contudo era inusitado ver duas crianças tão diferentes, com dois anos de diferença entre si sempre tão unidas.

Edward recordava a criaturinha assustada que se portava como um bicho acuado quando o via, mas não tinha em sua memória uma única imagem nítida do rosto invariavelmente sujo de terra ou fuligem. Lembrava-se sim dos cabelos escuros mal domados e com isso seu pensamento vagou para a possuidora de cabelos da mesma cor. Esta adulta e bem formada, com madeixas espessas e lustrosas que inicialmente também se portou como um animal arredio, mas que no momento felizmente rendia-se a ele.

– O que ouvimos teria sido um suspiro? – Edward ouviu o amigo exclamar. – Seria equivocado de minha parte imaginar que Lord Masen esteja pensando em uma jovem dama?

O barão sequer cogitou dizer a verdade. Não por saber a situação irregular de sua hóspede e sim por não ter tamanha intimidade com o amigo do pai; assim sendo desconversou.

– Como disse é apenas trabalho. Tive uns problemas com alguns tonéis na tarde passada. Estava a me lembrar...

– Uma pena! – Carlisle lamentou. – Conheço uma jovem que ficaria feliz em saber que vossa senhoria suspira por alguém.

Se acaso fosse a filha Tanya, Edward tinha suas dúvidas. Num primeiro momento até se alegrasse, mas logo seu contentamento cairia por terra ao saber que ela não era aquela que povoava seus pensamentos. Aproveitando a deixa cedida pelo pai da moça, falou cauteloso.

– Melhor deixarmos a jovem citada sem maiores informações. Cada coisa ao seu tempo.

– Nisso concordamos. – Carlisle retrucou livre de afetação; sendo o pai preocupado. – Nunca quis abordá-lo quanto a esse assunto, mas quero que saiba que seria de meu agrado se um dia me pedisse permissão para cortejar minha filha.

– Fico feliz em saber. A senhorita Tanya é uma jovem muito agradável. Feliz daquele que desposá-la, mas no momento eu ainda não poderia dar esse passo. Como disse... Cada coisa ao seu tempo!

– Acho que está certíssimo Milord. – o amigo retrucou antes de acrescentar em tom um tanto malicioso e lhe piscar. – Eu mesmo, antes de me comprometer, aproveitei bem minha solteirice. Acredito que queira o mesmo.

Edward meteu as mãos nos bolsos e chutou uma pedra imaginária; decididamente não se sentia a vontade para conversar sobre aqueles assuntos com o amigo ainda mais perante alguém que nem mesmo era de seu seleto círculo de amizades.

– Na verdade não penso muito sobre isso. – disse olhando em frente.

– Entendo! – Carlisle murmurou e, não se dando por vencido, indagou. – Perdoe-me a indiscrição, mas não tivemos como não ouvir as recomendações que fez à sua criada. Está com visitas, não?

Era evidente que o banqueiro o ouviu, tendo a audição comparável a de um alce, como se suas orelhas também pudesse girar em muitas direções, Edward comparou contrafeito. Como seria pior negar, respondeu indiferente.

– Estou acolhendo uma jovem que também está presa desse lado do rio.

– Uma jovem! – ele exclamou animado. – Que providencial!

– Acaso deseja insinuar alguma coisa? – Edward perguntou mirando-o com o cenho franzido; tinha-o em alta conta, mas não lhe concedia as liberdades apenas toleradas em Jacob pelo apego quase fraternal.

– Não... – Carlisle tratou de reparar sua ousadia. – Digo providencial para a jovem que talvez não tenha condições de ir embora por outras vias.

– Como assim? – o barão parou e o encarou. – Não há como ir embora.

– Como não Milord? – foi a vez de o banqueiro demonstrar espanto. – Fico aqui a lamentar minha sorte, mas vossa senhoria, assim como Harry, sabem que é apenas meu exagero pessoal... Poderia ter ido embora desde terça-feira caso o quisesse. Não o fiz por necessitar voltar para Westking durante todos os dias até hoje, então seria inviável dar a volta por Watlin da divisa do condado. Contudo, para alguém que apenas necessitasse ir embora... Perder dois dias de viagem seria melhor do que ficar aqui até a recuperação da ponte.

Edward sentiu seu sangue enregelar. Esteve tão distraído em sua atração pela moça que nem lhe ocorrera as demais alternativas, além da citada. Parecia que assim como ele o mundo da jovem se resumia às cidades mais próximas, talvez por essa razão nem ela mesma se recordasse das muitas opções, caso contrário já teria partido.

Milord? – o amigo o chamou, perscrutando-lhe o rosto consternado. – Eu disse algo que o aborreceu?

– De forma alguma. – falou seguro. – Evidente que me lembrava dessas alternativas, mas como salientou, elas se tornam inviáveis pela distância... Conhecendo minha hóspede sei que ela é orgulhosa o suficiente para recusar minha ajuda financeira para seguir em uma longa viagem de volta.

– Ah, então a jovem é sua conhecida? – o velho abutre não deixaria nada passar? Edward se perguntou já arrependido de ter consentido com a visita estendida. – Alguém que eu conheça, talvez... Quem é ela?

– Não creio que a conheça. – e antes que o banqueiro voltasse à carga, Edward acrescentou. – Também acredito que não a veja esta tarde, pois segundo minha criada a jovem está indisposta e repousará pelo restante do dia.

– Que lástima!... Adoraria conversar com essa jovem misteriosa e orgulhosa...

– Um dia desses lhes apresento, por ora veja... Chegamos à sidreira... – o barão indicou o galpão a frente, rogando que a tarde passasse ligeira para que tão inconveniente visita chegasse ao fim.

Ao despertar Isabella espreguiçou-se languidamente antes de abrir os olhos. Desde que se separou de Embry não tinha por hábito dormir à tarde, então não se recordava do quanto poderia ser bom e recuperador. O estranho chá de Marie também merecia o mérito da tranquilidade sentida, assim como os momentos extraordinariamente prazerosos que passou nos braços do barão.

Ao se recordar do ocorrido pela manhã, lembrou-se também da visita de Sir Cullen e toda a paz a deixou. Alarmada abriu os olhos e se sentou sobre a cama. Pela claridade vinda da janela Isabella considerou ser tarde, então rogou silenciosamente que o amigo já tivesse deixado as terras do barão. Daquela vez, pensar em seu anfitrião a encheu de uma súbita saudade. Quem poderia prever que nutriria tal sentimento? Não ela, no entanto, lá estava desejando estar com ele o mais breve possível.

Deixando a cama, Isabella foi até a cômoda e descobriu a ânfora cheia d’água; Marie era de fato eficiente. Logo a moça lavou o rosto e a boca e tratou de se vestir. Poderia chamar pela criada – bastaria tocar uma sineta –, mas odiava aquele som desde sua infância então não se valeria dele. Poderia bem se arrumar sozinha. Teria que dispensar o espartilho, mas não importava. Colocou o vestido azul apenas sobre a combinação e uma anágua simples. Não apreciava anáguas muito volumosas ou crinolina; esta última intimamente agradecia aos céus por Rosalie não ter deixado nenhuma para trás. Nunca fora afeita à armação que dava volume às saias. Os cabelos ela prendeu novamente numa trança, calçou-se e saiu.

Milagrosamente o galgo não lhe fazia companhia, então Isabella seguiu sozinha pelo corredor até a escadaria apurando os ouvidos. Sua intenção era investigar se Sir Cullen ainda estaria no palácio. Caso lhe ouvisse a voz, voltaria sem demora para a proteção do quarto e o barão que a desculpasse pela falta durante um jantar que para ela se tornaria insustentável.

Com o coração aos pulos, a jovem desceu os degraus cautelosamente. Até o momento não havia ouvido um único som, fato que considerou auspicioso. Já no corredor que a levaria até a sala onde Edward a esperou para o jantar na noite de terça, Isabella arriscou uma breve corrida para alcançar a porta da mesma. Em seu caminho passou pela biblioteca e pelo vão da porta entreaberta viu que Edward estava ali; sozinho.

Antes que entrasse analisou o que via. Seu anfitrião estava sentado no sofá, segurando um livro, muito compenetrado na leitura tendo um pincenê equilibrado no alto do nariz. Isabella se lembrava de cenas parecidas, contudo com outro barão no mesmo lugar. Por sorte apenas a situação era a mesma; Edward nem mesmo tinha as feições do pai. Com a nova imagem a varrer a antiga, Isabella aproveitou que não havia sido vista e escorregou para dentro da sala.

Descobriu Nero enroscado em si mesmo a dormir sobre o piso a frente da lareira acesa. O calor logo a envolveu, assim como odor de tabaco que vinha de um charuto esquecido sobre o cinzeiro ao lado de uma taça do que poderia ser xerez. Antes que anunciasse sua presença, sua respiração falha a denunciou.

– Ora, ora... Até que enfim acordou! – Edward exclamou contente em vê-la, fechando o livro, retirou os pequenos óculos e os colocou ao lado para rapidamente se pôr de pé. Com voz aveludada perguntou. – Teve um bom descanso?

– Tive sim, obrigada! – ela respondeu subitamente acanhada ao ter os olhos azuis a encarando avaliativos. Mirando um dos botões do colete bordado, acrescentou. – Dormi tanto que temi ter me atrasado para o jantar.

– Ainda é cedo. – o barão informou delicadamente. – E não se atrasaria para nosso primeiro jantar. Estava esperando que chegasse a hora para chamar por Marie.

– Sendo assim não quero atrapalhá-lo. – ela se apressou em dizer, dando um passo em direção à porta. Nesse instante Nero acordou e a encarou preguiçosamente enquanto seu dono estendeu a mão para detê-la.

– Não atrapalha! – assegurou. – Fique.

– Posso voltar depois... Vejo que está num daqueles momentos masculinos de charutos e xerez... – disse indicando a mesinha ao lado do sofá.

– O cheiro a incomoda? – ele indagou já apagando o charuto no fundo do cinzeiro.

– Não precisava tê-lo apagado. O cheiro não estava incomodando...

Muito pelo contrário, pensou enquanto o via também terminar seu xerez num só gole. Nunca fora amante do odor de tabaco, mas parecia que o que viesse associado ao novo barão, seria interessante para ela. Edward simplesmente combinava com todas aquelas coisas. Talvez não com o pincenê que o envelhecia, assemelhando-o ao outro. Para espantar a imagem que ameaçava voltar deu um passo à frente indicando o objeto que lhe avivou péssimas lembranças.

– Com que então precisa de óculos! – exclamou jovial procurando leveza.

– Apenas para leitura. – Edward falou, novamente reparando como ela estava bonita.

E desejável com a saia do vestido a lhe marcar as ancas, por estarem livres da habitual armação que as damas costumavam usar. Sentiu-lhe tanto a falta, principalmente após a lembrança desnecessária de Sir Carlisle. Somente por imaginar que ela desejasse ir embora ao saber que poderia, seu peito protestava. Por essa razão, se Isabella não cogitasse por conta própria, não seria ele a lembrá-la. Se aquele temor em perdê-la não fosse indicação de que estava irremediavelmente apaixonado, não sabia o que seria.

Sua presença tornava aquela casa enorme menor e aconchegante, assim como o sorriso que lhe abria o tornava maior e o aquecia por inteiro.

– O pobre barão está ficando velhinho... – ela zombou, procurando por uma naturalidade entre eles que ainda não sentia, tentando dissipar a intensidade que notava nos orbes azuis. – A visão já está cansada, cansada...

– Em contrapartida os outros sentidos do velhinho funcionam muito bem. – Edward retrucou já a se aproximar. Diante dela, sem cerimônias atendeu a saudade de sua mão e a correu pela lateral do pescoço nu. – O tato está bom...

– Folgo em saber. – ela murmurou alarmada consigo mesma por seu corpo já corresponder prontamente ao bom tato.

– O olfato do velhinho também está dos melhores. – o barão seguiu com a perturbadora brincadeira, curvando-se para vagar o nariz pelos cabelos que rescindiam a alecrim, levando-a a fechar os olhos e exalar um murmúrio vago ao se arrepiar.

– Ouvi seu suspirar, então a audição também está boa. – ele falou, beijando-lhe a ponta do nariz, fazendo-a aspirar ao hálito de tabaco e álcool que juntamente com a colônia almiscarada de suas roupas a inebriaram antes que posicionasse a boca sobre a dela. – Resta conferir o paladar...

Quando teve a boca coberta, Isabella já ansiava pelo beijo, completamente amolecida. Enquanto tinha a língua provada avidamente pelo barão, ela soube que poderia se acostumar facilmente a ser beijada por ele. Imediatamente estava mais uma vez acesa, então, desejando senti-lo como no pomar, passou os braços pelos ombros largos e o abraçou.

Edward por sua vez enlaçou-a pela cintura e a trouxe mais para perto de si. Com um gemido incontido aprofundou o beijo, experimentando cada recanto da boca delicada. Ao sentir a primeira fisgada de desejo, o barão tomou a iniciativa de separar as bocas. Com a respiração entrecortada, assim como a dela, Edward uniu as testas e de olhos fechados indagou.

– E então... Estou assim tão velhinho?

– Diga-me você... – ela começou, agradecida por ele ter lhe dado a chance de se recuperar. Sentindo a necessidade de se acostumar a ele, ainda atrás de naturalidade, ela perguntou como se não soubesse. – Quantos anos você tem?

– Diga-me você primeiro... – ele sugeriu levando-a para o sofá, apreciando a oportunidade de saber mais sobre ela.

– Tenho vinte e três. – ela disse ao se sentar e cruzar as mãos sobre as coxas. – Agora sua vez...

De fato era nova como Jacob bem salientou. O barão considerou grande a diferença de idade entre eles, por isso troçou curvando lábios e cavanhaque já acomodado ao lado dela.

– Tenho o suficiente para uma jovenzinha me considerar de fato velhinho.

– Trinta e quatro nem é tanto assim. – ela retrucou com um sorriso apaziguador.

A intenção era animá-lo, contudo Isabella o viu unir as sobrancelhas e indagar com desconfiança.

– Como sabe quantos anos eu tenho?

Tarde demais ela percebera sua falha; Edward a confundia com sua rústica beleza; com seus odores tão masculinos. Perdida na incerteza dos olhos azuis, ela respondeu mediando as palavras.

– Perguntei somente para entabular uma conversa, afinal todos sabem sua idade barão. É uma figura pública, esqueceu-se?

– Então já havia conversado com alguém sobre mim? – ele aceitou sua resposta envaidecido por saber que Isabella o citava antes mesmo de conhecê-lo.

– Não necessariamente. – ela disse sincera; afinal a vida da família Bradley há anos não era seu assunto preferido. – Mas sempre se pesca um caco de conversa aqui e ali... Ouvi sua idade certa vez, comparei-a a minha, então nunca mais esqueci.

Estava explicado! Edward pensou um tanto decepcionado. O que esperava? Que Isabella no final das contas se declarasse ser uma jovem secretamente apaixonada que realizava o sonho de ser acolhida em Apple White e ter a chance de estar com o jovem barão?

– Muito bem... – ele disse tomando-lhe as mãos nas suas. – Então não sou tão velho. O que mais soube a meu respeito?

– Prefiro falar de agora, se não se incomodar... – Isabella falou mordendo o lábio inferior; não importava o antes e sim o presente momento. Principalmente quando ainda precisava saber sobre o ocorrido naquela tarde e descobrir quais as chances de tropeçar em Carlisle Frederick. – Conte-me como foi sua tarde...

Pareceu a ela que aquela seria a pergunta que uma moça faria a alguém que lhe propôs a corte.

– Arrastada e entediante. – Edward respondeu sincero, erguendo a mão para fazê-la parar de morder a boca. Ao conseguir circulou os lábios entreabertos com o polegar. – Preferia ter ficado mais no pomar com você; talvez levá-la aos outros.

E novamente o corpo dela reagia com tão pouco estimulo. Forçando-se a não sucumbir, falou a verdade.

– Eu também preferia, mas não é minha intenção atrapalhar seus afazeres. Nem privá-lo de estar com seus amigos.

Edward exalou um bufar exasperado.

– Apenas Sir Cullen é amigo da família... O outro é meu vizinho, mas nosso contato é limitado ao campo profissional. – o barão esclareceu enquanto movia a mão novamente para o pescoço descoberto.

Sir Cullen, o banqueiro? – ela indagou vacilante ao estremecer com o carinho falsamente despretensioso.

– Ele mesmo... – Edward interrompeu o carinho, receoso. – Conhece-o?

Antes da resposta o barão imaginou a cena completa; os dois se reconhecendo e iniciando uma aminada conversa onde o prestativo amigo muito rico ofereceria a ela meios de voltar para casa antes do tempo esperado; e novamente o peito do nobre protestou num aperto súbito.

– Não. – ela negou, sem ser enfática. Não poderia recair sempre nos mesmos erros. – Apenas de nome, afinal ele possui três bancos aqui na região.

– Sim, Sir Cullen é bem conhecido. – Edward deu o assunto por encerrado, levemente enciumado ao imaginar que talvez se fosse o banqueiro a abordá-la na loja de doces, ela prontamente o reconhecesse.

– Eu disse alguma coisa errada? – Isabella questionou ao ver o rosto do barão endurecer subitamente.

– Acho que nós dois estamos fazendo tudo errado! – Edward disse conciso, varrendo-lhe o rosto com os olhos escurecidos.

Com o coração incerto, ela foi obrigada a lhe dar razão, mesmo considerando que o arrependimento tivesse vindo rápido demais durante um assunto não relacionado aos dois. O que poderia ter dito para fazê-lo desistir da corte sugerida?

– Por que entristeceu? – ele ergueu-lhe o rosto rapidamente ao ver apagar o brilho dos olhos pretos.

– Não estou triste. – mentiu; na verdade não tinha o direito de estar triste, nem deveria ter aceitado estar ali. – Sabia que cedo ou tarde veria o erro de querer estar comigo, então é melhor que fosse agora. Se preferir eu posso...

Edward acompanhava-lhe o raciocínio incrédulo. Ao vê-la levantar constrangida, alarmou-se e antes que terminasse a ação ou a frase, prendeu-a pela mão e a puxou de volta ao sofá.

– Está doida? – ele perguntou rouco, afetado pela ideia absurda dela de que estivesse arrependido. – Estava me referindo a falarmos demais sobre quem não nos interessa.

– Oh!... – ela suspirou. O alívio que sentiu a abalou tanto quanto a tristeza de ver chegar ao fim o nem havia de fato começado; se não se acautelasse estaria perdida. – Que falha a minha...

– O que chama de falha, considero descrença quanto ao que lhe proponho. – Edward replicou severo. – Devo fazê-la acreditar, e...

Milord, eu estou procurando por... – com a interrupção eles olharam em direção a voz de Marie que ao vê-los de mãos dadas estacou. Mirando o chão ela pediu. – Perdoe-me Lord Masen, não quis interromper...

– Não interrompe. – ele assegurou aborrecido pelo flagrante; deveria ter fechado a porta. – O que deseja?

– Estava à procura da senhorita. – disse olhando Isabella brevemente. – Não a encontrei no quarto.

– Desculpe-me por não esperá-la para me ajudar. – a moça pediu. – Pensei que estivesse atrasada para o jantar e desci.

– Deveria ter me chamado mesmo assim. – ela começou em indisfarçado tom reprovador. – Eu a teria ajudado a melhor se compor.

– Não se preocupe com isso... Não vi a necessidade de usar o espartilho. – Isabella disse simplesmente. Estava mesmo habituada a usar a peça somente para sair. O que não contava era com o ruborizar que cobriu o rosto da criada nem com o riso leve do barão até então taciturno ao seu lado. – O que foi?

– Marie, pode avisar na cozinha que o jantar deverá ser servido no horário habitual agora que já encontrou sua fugitiva. – Edward dispensou a encabulada criada contendo o riso; livre da tensão que se formou com o engano de sua espontânea hóspede.

Com a saída, o barão foi até a porta da biblioteca e a fechou, levando consigo o livro e seus óculos de velhinho para depositá-los sobre a mesa maior. Ainda a sorrir se voltou para Isabella e comentou.

– Acho que você chocou a pobre mulher ao comentar uma indumentária feminina tão íntima em minha presença.

– Nossa! – foi a vez de Isabella sorrir, mas não se envergonhar, pois estava acostumada a comentar todas as peças femininas em sua casa com total liberdade.

– Marie se recuperará então não se preocupe. – ele pediu indo até a lareira para resgatar o relógio que a criada havia deixado sobre ela mais cedo. O ouro estava muito quente, ainda assim Edward levantou a tampa para ver que felizmente a indicação de Isabella havia dado bons resultados. Satisfeito voltou ao sofá e o indicou. – Veja! Deu certo... Agora basta acertar as horas.

– Fico feliz. – disse sincera pela alegria que nele por recuperar algo valioso para si. Como não permitir que a paixonite ganhasse força? Seria melhor não permitir que a conversa voltasse ao tom intimista em primeiro lugar. – Bom, já que o jantar será servido em seu devido tempo, acho que devemos nos...

– Temos tempo. – Edward a cortou deixando o relógio sobre a mesinha, ao lado do cinzeiro e a taça de xerez vazia. Voltando a encará-la anunciou. – Muito tempo na verdade. Como disse ainda era cedo...

– Muito bem... – ela anuiu afastando-se disfarçadamente. – Então sobre o que conversaremos até o jantar?

– Não pensava em conversar. – ele então passou o braço pela cintura naturalmente delgada e a puxou para perto de si. – Considero que aproveitarei melhor o tempo, retomando o assunto anterior. Não quero que duvide de minha palavra.

– Edward eu...

Isabella não pôde terminar o que diria, pois foi beijada prontamente. O barão a segurava pela nuca, cobrando a imediata entrega dos lábios macios como em todas as outras vezes que a beijou. E ela o correspondeu, pois uma vez presa, não conseguia se afastar. Para encurtar ainda mais a pouca distância, Edward a puxou sem trabalho algum para seu colo.

Ao sentir-se sobre as coxas do barão, ela tentou protestar, porém ele não lhe deu chances de escapar.

– Fique quieta... – pediu segurando-lhe a lateral o pescoço para aplicar-lhe a tortura meio carícia de seus lábios e pelos na outra, excitando-a.

– Marie pode voltar Edward... – ela o lembrou tombando a cabeça ao sentir a língua morna em sua pele, preocupada em não ser capaz de encobrir a vermelhidão do rosto que sentia em chamas.

– Ela não seria atrevida o bastante para entrar sem bater. – garantiu pousando a mão no centro de suas costelas para com dedos ágeis passar a desabotoar os botões do vestido. – Preciso ver como está sem o espartilho...

Antes que Isabella encontrasse alguma argumentação a frente da combinação branca já estava exposta e a mão de dedos longos e captores experimentava a textura das rendas, desfaziam os laços.

– Edward... – ela praticamente miou ao ter um seio exposto, então outro.

– Você é tão bonita. – ele murmurou, acariciando-a, estimulando mais bicos já muito endurecidos. – Muito bonita...

Como que hipnotizada pela voz rouca e a ação, Isabella assistia a manipulação de seu corpo que a fazia arder sobre o colo do barão, extasiada. Além de um poderoso e imediato desejo, Edward inspirava nela a certeza de ser bonita. Sabia que o era, por vezes gostava de ouvir, porém com ele acreditava e sentia. Quando a boca ladeada de pelos ásperos se fechou sobre um cume róseo, a jovem fechou os olhos e exalou um gemido comprido; completamente esquecida de que poderiam ser flagrados em pior situação por Marie.

Milord? – a criada lembrada bateu a porta, confirmando as palavras do barão.

– O que deseja Marie? – ele perguntou rouco sem dar-lhe permissão de entrar, contrariado pela nova intromissão em tão curto espaço de tempo; aborrecido também com Isabella que tentava deixar seu colo quando ainda precisava dela, ordenou. – Fique quieta!

– Como já estava tudo pronto na cozinha e a preparação da sala de jantar quase concluída, tomei a liberdade de adiantar o jantar... Não prefeririam já se dirigirem para lá? – a criada indagou do corredor.

Edward não sabia o que acontecia com a criada, mas acreditava ter uma vaga ideia. Para Marie ele era um homem experiente sozinho com uma moça indefesa e desacompanhada. Deveria ser-lhe grato pelo cuidado, mas no momento sua vontade era suspendê-la do serviço de aia particular.

– Iremos num instante. – anunciou e, voltando sua atenção para Isabella, cobriu-a e tornou a amarrar os laços da combinação. – Por mim, não iríamos, mas acho melhor a atendermos antes que ela invada a biblioteca para lhe salvar. Talvez até me morda como Nero ao perceber o que eu fazia.

– E como está a... região da mordida. – ela perguntou com voz instável, arrepiando-se com o esbarrar dos dedos em seu corpo estimulado enquanto Edward abotoava o vestido; imaginando como poderia deixar o cômodo estando tão afogueada.

– Sobreviverei. – Edward troçou terminando a tarefa e depositando um beijo no colo cheio; minando qualquer chance de recuperação.

– Não está com fome senhorita? – eles ouviram a voz de uma temerária criada que indicava não desistir facilmente da tarefa que atribuiu a si mesma em defender a honra da pobre moça. – Comeu tão pouquinho no almoço...

– Estou sim Marie... – Isabella anunciou mirando os olhos azuis que logo se tornaram acusadores; era a traidora por se apressar em deixá-lo, ainda assim disse sem se abater. – Tenho muita, muita fome.

Não diria a Edward que era ele quem lhe despertava várias; algumas contraditórias. Por ele passou a ter fome de vida, após se considerar morta internamente por anos a fio. Fome de liberdade, quando estava irremediavelmente presa à lama na qual o primeiro Edward a lançou. E por sua ousadia começava a ter muita fome dele mesmo, ainda que soubesse não ser possível tê-lo indefinidamente.

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SPOILER...

Apesar da presença contaste de Marie, o jantar transcorreu agradável. Para Isabella não fora surpresa encontrar um serviço simples sobre a extensa mesa coberta por uma toalha de linho, com poucos talheres e apenas duas taças, uma de água e outra de vinho rose que casou a perfeição com o lombo suíno defumado servido com arroz e batatas, oferecido após a sopa de aspargos.

A princípio comer sob o olhar insistente do barão, naquele cômodo luxuoso decorado com tapetes persas, prataria sobre os móveis e um afresco com querubins sobre sua cabeça, fora um tanto incômodo. Todavia logo Isabella se habituou e até se atreveu a fazer o mesmo, analisando Edward sobre a borda da taça; descobriu que olhá-lo a aquecia tanto quanto estar em seus braços.

Com o passar dos minutos, a moça começou a sentir a naturalidade que desejou na biblioteca. Para ela, comer em conjunto sem constranger-se era indicação de intimidade entre as pessoas.

– Gosto quando sorri. – ele declarou, entre um gole de água e outro de vinho.

– Disse-me isso no pomar... – ela o lembrou num sussurro para que Marie, parada a alguns passos às suas costas, não a ouvisse.

– Pois então direi sempre, pois a prefiro assim. – Edward anunciou, voltando a atenção à carne para cortá-la com mãos precisas. – A comida está de seu agrado?

– Está divina! – ela exclamou e brincou. – Meus cumprimentos à cozinheira!

– Gostaria de agradecer a Sra. Wood pessoalmente? – indagou animado. – Ela é nossa cozinheira há anos. É ranzinza muitas vezes, mas merece um elogio novo.

O barão estava prestes a chamar por Marie quando Isabella lhe baixou a mão.

– Não é necessário. – sua voz saiu estrídula. Com ele a encará-la com o cenho franzido, pigarreou e tratou de dizer com um sorriso incerto enquanto lhe prendia os dedos. – Não sou boa com elogios, ficaria mortificada ao ter que fazê-lo... Amanhã lhe diga o quanto apreciei o jantar. Assim não fico constrangida e ela ficará feliz.

Por segundos desesperadores a jovem esperou, com as palmas a suar, que o barão expressasse sua opinião quanto à ideia. Se alguém naquele palácio poderia reconhecê-la, esse alguém era Sue Wood. Daquele momento em diante tinha a confirmação de que deveria manter distância da cozinha.

Notas finais
Bom minhas lindas, por hoje é isso. Barão se descobrindo apaixonado. Bella descobrindo que pode ter mais prazeres vindos dele. A naturalidade ao poucos crescendo mesmo com tantos "empatas". Resta saber se esse envolvimento impossível irá vingar... Vamos lendo. Semana que vem tem mais... Espero que estejam gostando... qlq coisa, me contem!Bjus amores... Tenham uma linda sexta e um bom final de semana!