Borboleta Negra
89 Capítulo Cinquenta e Sete - Parte II
Notas iniciais
Vozes sussurradas, isto foi tudo o que Isabella ouviu até que restasse o silêncio. Estava acomodada na chaise long desde que voltou à biblioteca, de olhos fechados, rezando. Supunha que as mulheres ao seu redor faziam o mesmo enquanto o tempo parecia se arrastar sem que tivessem qualquer notícia.
Horas depois, Marie surgiu e especulou sobre o almoço. Elizabeth determinou que este fosse servido no horário habitual. As crianças foram chamadas e extraordinariamente se sentaram à mesa. Isabella entendeu que aquela seria uma forma de manterem-se distraídas e seguras de assuntos inquietantes.
Com seu apetite abalado, Isabella se forçou a comer por seu filho, evitando pensar que este pudesse vir ao mundo já sem o pai. A esse pensamento agradeceu a iniciativa da baronesa-mãe, pois apenas por estar diante de Embry que não se desesperou e chorou.
Após ser servida a sobremesa, os meninos foram levados para o andar superior com a recomendação de que não descessem sem que fossem chamados. O pretexto para tanto foi dado pela súbita mudança de clima. Acompanhando o espírito conjunto, a tarde se mostrou chuvosa e fria, tornando a espera em algo exasperante, lúgubre.
― Se não souber o que está acontecendo, morrerei ― falou Isabella quando estavam de volta à biblioteca. ― Por que um dos senhores não...
A moça se calou ao ouvir a porta ser aberta. Como se tivesse ouvido seu comentário, Senior Zimmer se apresentou e informou, olhando diretamente para Elizabeth:
― Enfim o Dr. Morrigan finalizou seu procedimento.
― E como está meu filho ― esta indagou.
Para agravar a ansiedade, o senhor correu os dedos pelos fartos cabelos grisalhos, então por suas costeletas antes de finalmente dizer:
― Vamos nos alegrar por ele estar vivo, mas sua situação ainda é preocupante ― A conclusão fora dita para Isabella. Então Senior olhou para todas as senhoras ao seu redor. ― De toda forma, não percam a esperança. É só o que resta.
Elizabeth liberou um lamento que levou o futuro marido imediatamente para seu lado. Depois de acomodá-la, Senior se sentou e passou a consolá-la. Isabella por sua vez, nada disse nem se moveu. Ficou a mirar a porta, considerando ir até o gabinete para saber do médico a realidade sobre a situação de Edward.
Antes que o fizesse, Jasper e Emmett vieram se juntar ao grupo. Os resquícios de sangue em suas roupas e as expressões soturnas não colaboravam com a citada esperança. Isabella estava ao ponto de gritar com todos eles por seus olhares de piedade. Se não era o caso de apresentarem suas condolências, que lhe transmitissem confiança.
― Algum dos senhores poderia nos contar o que aconteceu? ― pediu Isabella com toda calma que ainda dispunha.
― Para isso viemos antes de nos trocarmos ― disse Jasper. ― Poderiam se sentar, por favor?
Isabella cogitou negar, mas suas pernas a traíram e falharam, não restando opção além de obedecer antes que o conde e Emmett se acomodam ao lado de suas respectivas esposas. Com todos os olhares sobre si, Jasper narrou o que presenciou pela manhã.
Entrelaçando os dedos em seu colo, Isabella ouviu sobre a espera na clareira até que Laurent chegasse, sobre as provocações, a análise dos floretes. Como se não conhecesse o desfecho, animou-se quando soube que o inspetor tentou manter o duelo nos padrões atuais, algo que o finalizaria ao primeiro sinal de sangue.
Evidente que Edward e Laurent não se contentariam e, ainda como se não estivesse com seu marido inconsciente na sala ao lado, afligiu-se ao ouvir do conde que os duelistas se afastaram do grupo.
― Agora vejo o quanto erramos ao deixar que o fizessem ― Jasper acrescentou, aborrecido. ― E continuamos a errar quando os vimos parar a disputa para provocarem-se.
― Conversavam ― disse Emmett para amenizar a culpa do amigo. ― E não parecia que voltassem a brigar.
― Contudo brigaram ― retrucou Jasper, sempre a olhar para Isabella. ― Nós não ouvimos o que foi dito, mas ficou claro que o barão levou Hunt ao limite. Tanto que ele abandonou o florete e o chamou para uma luta corporal.
― Não... ― Isabella murmurou ao recordar das marcas no rosto de Edward, da luta à saída da casa de Carlisle.
― Sim e lamento dizer que continuamos a errar ao deixar que prosseguissem ― Jasper maneava a cabeça, demonstrando sua inconformidade. ― Aquilo não era digno de cavalheiros.
― Eram dois homens resolvendo suas questões ― Emmett justificou.
― Foi o que me disse e o que me levou a esperar ― o conde por fim encarou o duque ―, mas ali não estavam dois cavalheiros.
― Não poderíamos prever que Hunt fosse desleal ― redarguiu Emmett. ― Sequer Edward pôde...
― E fomos obrigados a assistir tal desfecho.
Isabella agradeceu intimamente por Jasper não descrever como a arma fora parar no tórax de Edward. Não saberia como lidar com tantos detalhes. Se ela estivesse lá, teria previsto o que fosse, pois Laurent não perderia a oportunidade de se livrar do barão. No entanto, sabia que sua presença em nada ajudaria, pois simplesmente seria ignorada.
Mas havia alguém além dela que teria voz, lembrou.
― E Jacob?
― Ele estava de acordo com a espera ― disse Jasper. ― Parecia seguro do fim favorável.
Que não se confirmou, Isabella pensou com pesar. Por não existir meios que mudassem o ocorrido, ainda a torcer os dedos, indagou:
― Foi então que um dos senhores atirou em Laurent Hunt?
― Não foi nenhum de nós ― disse Emmett. ― Quando tentamos sacar nossas armas para impedir Hunt de finalizar o que começou, seus empregados nos detiveram. Nem mesmo as ameaças do inspetor foram ouvidas.
― Mas... Se não foi nenhum dos senhores...? ― ela não compreendia.
― Hunt foi atingido por alguém que não estava entre nós ― esclareceu Jasper, depois de sorrir brevemente para a esposa que lhe apertava as mãos.
― O tiro veio da direção oposta, por alguém que estava em meio às árvores ― Emmett prosseguiu com a explicação. ― Não pudemos ver quem foi, pois aproveitamos a surpresa para nos livrarmos dos homens de Hunt. O inspetor foi o primeiro a disparar, então tivemos de ajudá-lo.
― Nossa! ― Rosalie arfou. Imediatamente Emmett a abraçou pelos ombros para confortá-la.
― Querida, já passou! ― murmurou carinhosamente.
― E descobriram quem atirou naquele infeliz? ― Elizabeth indagou, raivosa. ― Gostaria de cumprimentá-lo.
― Não, milady ― disse Jasper. ― Depois que os tiros cessaram e pudemos socorrer seu filho, soubemos que o inspetor tinha guardas a esperá-lo na fazenda. Por considerar que estivesse do seu lado, Hunt não se opôs. O Sr. Cooper os colocou para percorrer o bosque, mas não encontraram ninguém. Evidente que quem matou aquela criatura não ficaria esperando para ser preso.
Sam! De algum modo que ela não poderia atinar, ele teria descoberto sobre o duelo e se colocado à espreita para cuidar do barão, Isabella elucidou, quase como um pressentimento, orgulhando-se do fiel amigo. Por fim Sam se livrava do homem que odiava. Ela lamentava que não tivesse sido em tempo de evitar que ferisse Edward.
― Então nunca saberemos quem salvou meu filho?
― Se preza por essa pessoa, milady, peça para que não seja descoberta porque a função do inspetor é prendê-la por assassinato.
Foi a vez de Isabella arfar. Não cogitou a possibilidade. Mesmo que confirmasse sua dedução, jamais poderia citar a ação de seu amigo.
― É o que farei ― assegurou Isabella ao encontrar sua voz. ― Seja quem for estará em minhas preces para sempre.
― Fiquei curiosa quanto a um detalhe ― disse Alice ao marido. ― Comentou que sir Laurent considerou que o senhor Cooper estivesse ao seu lado. Foi o que todos nós pensamos... E no fim, não estava? Por que a encenação?
― Enquanto esperávamos o retorno de Jacob, Otto Cooper nos contou que há quase um ano vinha forçando uma amizade com Laurent Hunt para que tivesse a liberdade de investigá-lo.
― Investigá-lo? ― Rosalie se surpreendeu. ― Por qual motivo?
― É uma longa história ― começou o conde. ― Todavia, resumidamente lhes digo que Hunt era suspeito de esconder parte de cargas roubadas ainda em alto mar. Armas, pedrarias, tecidos e bebidas.
― Como espólios de pirataria? ― Isabella não calou seu espanto. Ao ver Jasper assentir, disse o óbvio: ― Mas estamos longe da costa.
― Talvez seja justamente por isso que os comparsas de Hunt escolheram sua fazenda como depósito ― comentou Emmett. ― Ficamos sem maiores detalhes, pois Jacob apareceu e, para nós, salvar a vida de Westking era mais importante do que ouvir a história fantástica do inspetor.
― Fantástica sem dúvida ― disse Elizabeth. ― Eu sempre acreditei que aquele senhor nada valia, mas... esconder mercadoria roubada? Custo a crer.
― O mesmo se dá conosco. Ainda mais que Otto Cooper assegurou que por meses vinha mantendo guardas em vigília nos arredores de Dawolds House sem que vissem qualquer movimentação anormal. Fazer-se de amigo foi a solução extremada para que conseguisse provas. De minha parte ― Jasper falou, antes de se pôr de pé ―, espero que ele seja feliz em suas buscas. E por ora, se estiverem satisfeitas, peço a licença das senhoras para subir e melhorar meu estado.
― Tem toda, milorde ― Elizabeth o liberou. Para Emmett, indagou: ― E o doutor Morrigan? Ainda está com Edward?
― Está ― respondeu ao também se levantar para seguir os passos do conde. Ao notar a intenção na movimentação das baronesas, avisou-as: ― E pediu que lhes dissesse que tivessem paciência. Em breve ele virá chamá-las para ver o barão. Com vossa licença...
― Tem toda, Sua Graça ― foi a vez de Isabella liberar o cavalheiro.
Como Alice, Rosalie seguiu o marido para fora da biblioteca, ávida por mais informações. Isabella igualmente as queria, mas se descobriu sem forças até mesmo para obtê-las através da testemunha restante. Em vez de sabatinar Senior Zimmer, ela o cumprimentou.
― Parabéns por seu compromisso com Lady Westking. A novidade muito me alegra.
― Obrigado, senhora ― disse, deferente. ― Acredito que tenha apreciado... Acabou que nunca a agradeci por tentar me salvar aquela tarde.
― Não se preocupe com isso ― pediu Isabella. ― Agradeça-me cuidando de minha sogra. Agora... Se também me derem licença... Sinto que preciso de descanso antes que possa estar com meu marido.
A moça ouviu as respostas quando já se encaminhava para a porta. Saiu no momento exato em que Marie deixou o gabinete, abraçada a um grande cesto. Sem atentar que era observada a governanta deu vazão às lágrimas que parecia ter contido com muito esforço.
― Marie?! O que houve?
Isabella quis se aproximar, porém, apesar do susto, a governanta sinalizou para que esperasse. Depois de deixar o cesto à porta, foi se encontrar com a baronesa.
― Acalme-se ― disse ainda embargada. ― Não pense o pior. Sir Edward está bem, na medida do possível. Eu que sou tola e me impressionei ao vê-lo machucado. Acredite em mim.
― Acredito ― pelo menos tentaria, Isabella pensou. ― O que tem no cesto? Por que não posso ver?
― E eu considerando que a distrairia ― Marie esboçou um sorriso, porém logo voltou à seriedade. ― São as roupas do barão. Estão rasgadas, sujas... Perdidas. Irei me livrar delas e prefiro que não as veja.
― Não quero ver... ― Isabella recuou um passo como se a governanta fosse obrigá-la. Sua vontade era invadir o gabinete, mas se descobriu com medo do que encontraria, então recuou outro passo. ― Ficarei com Embry até que possa estar com Edward.
― Gostaria que eu pedisse a Kate que lhe servisse algo?
― Não, Marie... Acho que nada ficará em meu estômago. Nem mesmo seus chás.
Sem despedidas, Isabella se afastou deixando a governanta livre para fazer seu trabalho. Agradecendo o fato de não encontrar ninguém em seu caminho, ela se refugiou no quarto do filho. Queria um pouco mais da leveza que teve durante o almoço, mas para sua surpresa encontrou o filho sentado ao lado da cama, acariciando a cabeça de Nero, deitado ao seu lado.
― Senhora, que bom que veio! ― Amy suspirou. ― Estava mesmo pensando em ir chamá-la.
― O que houve? ― indagou à criada, porém a sustentar o olhar do menino.
― Bem... Enquanto subíamos, ouvimos algumas criadas tecendo certos comentários... Irina era uma delas. Não quero criar intrigas, mas... Ela falou mais alto ao ver o menino.
Isabella assentiu, compadecida pelo filho.
― Pode nos deixar a sós por um instante, Amy?
― Sim, senhora... Volto quando chamar. Com sua licença ― depois de uma mesura, a criada se foi.
Isabella suspirou profundamente antes de ir se sentar na cama, ao lado de Embry. O menino não se moveu, assim como Nero que permaneceu a dormir mesmo que fosse afagado.
― Embry, o que ouviu?
Quando Isabella considerou que fosse obrigada a insistir, Embry murmurou:
― Que a culpa de meu pai estar morrendo é sua... Que a senhora deveria ser expulsa porque é uma... uma... Desculpe-me, eu não entendi a palavra.
― Provavelmente não era uma palavra importante ― disse firmemente. Aquele era seu limite. Seu bom relacionamento com a sogra era recente e frágil, mas não toleraria que Irina ficasse sob o mesmo teto que Embry. ― E seu pai não está morrendo ― acrescentou no mesmo tom. ― Mas se estivesse, acha que eu teria alguma participação?
― Não senhora ― Surpreendeu-a ver raiva nos olhos infantis, não tristeza. ― E era o que queria ter dito, mas todos me dizem que não posso responder aos mais velhos. E aquela criada é mais velha do que eu. Acho que é até mais velha do que a minha avó... Ela é uma bruxa!
Sem que pudesse conter, Isabella riu. Logo gargalhava, tanto que chegou às lágrimas. Estas continham sua carga de tensão das últimas horas, mas sem dúvida eram em sua maior parte por genuína diversão. Era aquela a leveza de que precisava.
― Venha cá ― chamou o menino para seu colo. Embry não se fez de rogado e em instantes estava acomodado sobre as pernas da mãe. Depois de abraçá-lo, ela disse: ― Sim, ela é uma bruxa e sua alma ruim a envelhece. Por isso quero que fique longe dela, está bem?
― Sim, senhora! ― Embry passou a brincar com uma das mechas do cabelo negro. ― Meu pai não vai morrer, não é? Também ouvi alguns criados dizendo que ele chegou machucado. Mas é mentira, não é?
― Não, querido ― ela não tinha por que mentir. ― Seu pai realmente chegou ferido, mas o médico está cuidando para que ele logo se recupere.
― Poderei vê-lo?
Isabella mais uma vez suspirou, derretida sob o olhar implorativo. Não fazia ideia de quando o menino poderia estar junto ao barão, então decidiu distraí-lo.
― Em breve ― disse vagamente antes de sorrir e jovialmente indagar: ― O que acharia se eu lhe dissesse que em minha barriga tem uma surpresa para você?
― Na sua barriga?! ― Como esperado, Embry maximizou os olhos e os desceu até o ponto citado. ― Dentro dela? Que surpresa pode haver aí?
― Um menino ― disse diretamente. ― Um irmão, como Lionel tem ao John. O que diria?
Isabella não sabia qual reação esperar, mas não a surpreendeu ver o menino unir as sobrancelhas com seriedade.
― Eu diria que não quero essa surpresa ― Embry resmungou. ― Se a surpresa e essa fique à vontade para devolvê-la. Não quero um irmão.
E mais uma vez o menino a divertiu, porém ela teve o cuidado de não rir.
― Bem... Pois ele já está aqui e lamento dizer que para esse tipo de surpresa não há devolução.
Embry cruzou os braços e liberou um bufo aborrecido. Rígido sobre as pernas da mãe reclamou:
― Ele vai querer tudo que é meu! A senhora, meu pai, minha avó... Até mesmo Nero! A senhora não sabe, mas Lionel e John brigam o tempo todo.
― Mas você não precisa brigar com seu irmão ― comentou com ternura. ― E tenho certeza de que você é um menino generoso que vai ceder um pouquinho de nós para ele. ― Ao notar que suas palavras não surtiram o efeito desejado, lembrou: ― E se em vez de um irmão, viesse uma irmã? Uma menina, pequena, na medida para que você cuidasse dela como não pode fazer comigo?
― Uma irmã? ― Embry considerou a possibilidade. Com a fronte suavizada, respirou profundamente e disse de modo solene: ― Eu sou um cavalheiro, mamãe. Não me importaria de dividir o que é meu com uma menina. Então está decidido... Se a surpresa é minha, escolho ter uma irmã. Como vamos chamá-la?
Isabella sorriu ante a retomada do conhecido entusiasmo e intimamente rogou para que em seu ventre estivesse uma menina. Ao que parecia, seria a única maneira de evitar mais confusão.
Contagiada pelas sugestões de nomes femininos, a moça se sobressaltou quando Amy retornou ao quarto sem que fosse chamada.
― Perdoe-me, senhora ― pediu a criada. ― Mas está sendo esperada na biblioteca.
Dissimulando seu alarme, Isabella sorriu para o filho.
― Mais tarde eu voltarei para continuarmos nossa conversa ― disse já a afastá-lo de seu colo. Para Amy, pediu: ― Fique com ele, por favor.
Após a anuência da criada, Isabella deixou o quarto e com passos apressados retornou à biblioteca. Considerou que estivesse sendo esperada por todos os adultos da casa, porém encontrou apenas Elizabeth e Senior Zimmer na companhia do médico.
― Que bom que chegou! ― exclamou Elizabeth. ― O Dr. Morrigan não quis adiantar o que tem a dizer.
― Apenas para não me repetir, Lady Westking ― disse o médico, pacientemente. Para Isabella sorriu, encorajador. ― Sente-se, Lady Westking.
Para Isabella ainda era cedo para se acostumar ao tratamento, em especial daquele modo, usado logo após ouvi-lo para a sogra, contudo o que teve sua atenção era o tom do doutor, a situação em si. Depois de obedecê-lo, ela cruzou as mãos sobre o colo e esperou.
― Bem, senhoras... ― começou William Morrigan. ― Lamento que estejam passando por esse momento que deveria ser reservado para a alegria.
― Dr. Morrigan, esperei para que não se repetisse então entenda minha angustia e seja objetivo ― impacientou-se Elizabeth. ― Como está meu filho?
― Ainda não sei dizer ― ele a atendeu, respondendo sem preâmbulos. ― A lâmina foi removida com todo cuidado, sei que não causamos maior dano... Posso dizer que nenhum órgão vital foi atingido, mas... Apesar de esta ser uma boa notícia, sir Edward sofreu uma violenta agressão, perdeu sangue, está inconsciente... As próximas horas serão cruciais. As senhoras devem observar se ele terá febre, o que indicaria uma infecção e...
― As senhoras?! ― Elizabeth o interrompeu. ― Por que não o senhor?
― Lady Westking, eu preciso ir até minha casa. Estou fora por todo dia... Não tenho mais idade para acompanhar essas sandices apaixonadas e machistas. Necessito de um bom banho, de comida e repouso para que possa voltar restabelecido na primeira hora da manhã.
― Mas... O senhor poderia descansar aqui ― argumentou a baronesa-mãe. ― Providenciaremos o que precisar.
― Necessito ir até minha casa, senhora... Estarei às ordens. Qualquer novidade mande Jacob me chamar.
― E onde está Jacob? ― Isabella indagou.
― Bem, depois que cuidamos de sir Edward ele nos deixou. Disse que iria até a fazenda de sir Laurent para acompanhar o trabalho de Otto Cooper. Eu não me opus. De todos, Jacob era o mais agitado.
Isabella compreendia a inquietação do bom amigo, assim como entendia que preferia ser ela a cuidar do marido. Algo que não pôde fazer ao ser expulsa, meses atrás. Estava de volta ao ponto de partida, assim entendeu.
― Pois bem ― disse ao se levantar e estender a mão para o exausto doutor. ― Vá descansar, doutor... Eu tomarei conta de seu paciente. Mas, por favor, venha mesmo pela manhã.
Elizabeth protestou, porém no fim, venceu a vontade do médico. Depois de pedir que prometessem não se impressionar, William Morrigan as levou até o gabinete. Da palavra dada, Isabella apenas não externou seu assombro, como Elizabeth que ao ver o filho entendido sobre a cama, tão pálido quanto o lençol, irrompeu em pranto, obrigando Senior Zimmer a retirá-la do cômodo.
No mais, sim, Isabella se impressionou. Aproximar-se da cama disposta em um dos cantos do gabinete demandou dela grande esforço. Com a faixa o tomar boa parte do dorso despido, tendo no rosto algumas marcas da luta corporal, Edward lhe pareceu muito frágil.
― Agora ― a voz do médico a sobressaltou, porém ela não se conseguia deixar de olhar para o barão ―, vendo-a aqui, penso que talvez seja o caso de aceitar o oferecimento de Lady Elizabeth. Parece-me que não terá condições de...
― Diga-me apenas o que fazer ― pediu sem atentar que o calou.
― Na melhor das hipóteses, apenas velá-lo. Caso sir Edward tenha febre, mande me chamar imediatamente e tente manter sua temperatura aplicando compressas de água fria. Deixarei a medicação para febre e para a dor, mas lhe dê apenas se for necessário.
― Posso fazer isso ― assegurou. ― Diga-me a quantidade e vá tranquilo. E doutor... ― ao se voltar, esboçou um sorriso. ― Obrigada!
William Morrigan assentiu. Depois de explicar como ministrar a medicação, recolheu seus pertences, despediu-se e partiu. Ao ouvir a porta ser fechada a baronesa se aproximou mais para escrutinar o rosto marcado do barão. Com dedos mais firmes do que poderia esperar, afastou o cabelo que lhe cobria a testa. Acariciando a pele morna pelo calor do fogo da lareira, ela tocou o maxilar e sorriu de leve ao senti-lo espinhento.
― Amanhã irei escanhoá-lo ― anunciou.
Maneando a cabeça para seu gracejo, Isabella desceu seu carinho até o ponto que ansiava tocar desde que se acercou da cama. Delicadamente, com a respiração suspensa, ela espalmou a mão sobre o peito largo. Ao sentir as batidas estáveis do coração, sorriu e chorou.
― Continuo acreditando em sua palavra, meu senhor ― murmurou. ― Disse que voltaria e cá está... Agora cumpra sua promessa completamente e acorde. Quando acontecer, estarei bem aqui.
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