Borboleta Negra
90 Capítulo Cinquenta e Oito - Parte II
Notas iniciais
Se fosse possível Isabella montaria guarda ao lado da cama do barão, porém seria algo tanto insano quanto desnecessário. Depois de levemente beijá-lo nos lábios, ela foi se sentar na poltrona do lado oposto, de onde poderia velar-lhe o sono sem cansar-se. Minutos depois Marie entrou para acender mais velas e questioná-la sobre o jantar.
― Não queria sobrecarregá-la ― disse em tom de escusa ―, mas Lady Westking parece não estar em condições e como agora é a senhora da casa...
― Fique tranquila, Marie ― pediu ao se pôr de pé. Depois de lançar um demorado olhar para Edward, determinou: ― Avise a todos que o jantar será servido no horário habitual, mas desculpe-se em meu nome por não me juntar a eles... Se não for atrapalhá-la, quero que você traga meu jantar aqui. Não suportaria novos olhares pesarosos.
― Trarei, com certeza.
Com um sorriso encorajador Marie se foi. Isabella suspirou e voltou a se aproximar da cama. Com as costas da mão esquerda testou a quentura na testa de seu marido. Ao considerá-la normal, esboçou um sorriso.
Nenhum órgão vital foi perfurado, o médico dissera, então seria questão de tempo para que Edward acordasse e se recuperasse; ela tinha fé que assim seria. Portanto, não havia a necessidade de tratarem-na como se estivesse viúva.
O tempo da consternação tinha ficado para trás. Edward estava vivo o que lhes dava motivos para comemorar e renovar a esperança, não para lamentos.
― Mas acorde logo, está bem? ― disse para Edward, acariciando-lhe o cabelo que caia sobre a testa. ― Nem sei se sabe que estamos livres de Laurent. E preciso lhe contar que Embry já sabe sobre o irmão. Aliás... irmã. E que ele tenta me convencer a chamá-la de Yasmin. Pode acreditar?
Nenhum mínimo músculo do rosto do barão se moveu, indicando que ele ainda não a ouvia. Contudo, Isabella não se abateu. Era muito cedo para esmorecer. Segundo o médico, teriam horas para festejar ou se desesperar.
Quando vieram bater à porta, Isabella acreditou que Marie adiantara seu jantar, porém ao responder foi Elizabeth, na companhia de Senior Zimmer, quem entrou. Recuperada da comoção, a senhora se aproximou da cama, alternando o olhar entre a nora e o filho.
― Como ele está? ― indagou, olhando para Edward.
― A temperatura está estável, senhora. Se assim permanecer, logo ele se recuperará.
― É o que tenho pedido em minhas orações... ― De súbito Elizabeth a encarou. ― E você, como está? Espero que não esteja planejando dispensar o jantar.
― Não, senhora. Marie o trará até mim. E... ― uma ideia lhe ocorreu. ― Já que está aqui, poderia me ajudar? ― Antes que Elizabeth externasse a questão que brilhou em seu olhar, disse: ― Preciso me trocar e também gostaria de desejar boa noite a Embry.
― Pois vá! ― Elizabeth indicou a porta. ― Caso queira, posso passar a noite com Edward.
― Depois veremos o que fazer ― sorriu agradecida.
Após um breve aceno para o casal, Isabella deixou o gabinete. Em seu caminho se encontrou com as visitas que desciam para esperar que fosse servido o jantar. Brevemente respondeu às perguntas de Jasper e Emmett sobre o estado de Edward, sorriu para as cunhadas e seguiu seu caminho.
Kate foi chamada para ajudá-la. Ao ver a criada sua determinação de estar apenas com Marie ganhou força. Era aquele olhar de pesar que queria evitar. Como não brigaria com a moça, Isabella evitou conversas desnecessárias e a liberou tão logo se considerou pronta.
No quarto de Embry a baronesa se demorou um pouco mais, pois precisou acalmar o espírito ansioso de seu filho, prometendo que o deixaria ver o pai o quanto antes. Depois de beijar o rosto do menino, Isabella se despediu de Amy e saiu. Decidida a desculpar-se pessoalmente com as visitas, a baronesa foi até a saleta.
Encontrou somente os cavalheiros que conversavam diante da lareira.
― Sua Graça e a condessa foram ver como está o irmão ― Jasper informou.
Isabella assentiu.
― E como estão os senhores? Descansados, espero.
― Descansados, sim, porém preocupados ― disse Emmett. ― Disse que Westking não despertou nenhuma vez.
― Ainda não ― confirmou. ― Mas o Dr. Morrigan disse que seria normal nas primeiras horas.
― Vi feridos em guerra ficarem desacordados por muitos dias ― Jasper comentou ―, contudo prefiro que esse não seja caso. Aflige-me ter de partir e deixá-los nessa situação.
Isabella tentou não parecer ansiosa, mas a verdade é que a iminência de ter a casa de volta à sua normalidade a animava. Ainda mais que em seu íntimo acalentou a possibilidade de convencer sua sogra a dispensar os serviços de Irina. Seria perfeito se a criada fosse embora com Alice. Teria tal poder?
― Já sabe quando irá? ― indagou impassível.
― Gostaria de ir amanhã pela manhã, mas a condessa se mostra resistente ― disse Jasper, sem demonstrar contrariedade com o impedimento da esposa.
― Rosalie também se opôs ― Emmett fez coro com o conde. ― Disse que só irá depois que o irmão estiver fora de perigo.
― Aprecio a presença dos senhores ― disse ela, diplomática ―, jamais terei palavras para agradecer o que fizeram por meu marido hoje, mas rogarei para que sua permanência em Apple White seja reduzida e que não interfira em seus negócios.
Ansiosa por estar com Edward, Isabella se desculpou, despediu-se e seguiu para o gabinete. Nem por um instante imaginou ser impressão o silêncio que se seguiu à sua entrada. Enquanto se aproximava da cama, sentia os olhares das três damas sobre si.
― Onde está o Sr. Zimmer? ― indagou. Aproveitaria a ausência para quebrar a estranha tensão.
― Senior deixou seus cumprimentos e partiu, está exausto ― informou Elizabeth.
― Sim, ele merece ter algum descanso ― ela sorriu para a sogra. ― Assim como a senhora o merece. Estive pensando em dormir aqui. Amanhã pela manhã, quando estivesse recuperada, a senhora poderia cuidar de Edward enquanto eu durmo.
― Por mim você ficaria em repouso todo o tempo, mas posso dizer que a conheço bem para acreditar que ficaria longe ― retrucou a senhora. ― Então está bem!
― Mamãe nos contou de seu estado... interessante ― disse Alice. ― Parabéns!
― Obrigada, em meu nome e em nome de Edward ― Isabella tocou o ventre plano. ― Estamos felizes com a vinda de outro filho. E eu lhes contaria ― acrescentou para Rosalie. ― Não tive a chance, pois tudo fugiu ao controle...
― Não se preocupe ― disse sua amiga, agitando as mãos para que se calasse. ― Não é como se precisasse nos dar satisfações de todos os acontecimentos.
― Estou farta de omissões e de mal-entendidos ― replicou um tanto cansada.
― Este não é o caso ― Rosalie redarguiu ―, sim um assunto particular entre Edward e você.
― No entanto, há outros que se tornaram públicos ― observou a condessa.
― Alice, agora não é momento ― a irmã ralhou em baixo tom.
Isabella lhe sorriu em agradecimento, porém realmente estava farta.
― Deixe-a perguntar o que quiser ― liberou no mesmo tom. ― Não vejo melhor hora para saciar a curiosidade de Alice.
― E eu não vejo razão para voltarmos a esse tema ― a voz da baronesa-mãe soou trovejante se comparada aos sussurros anteriores. ― Ontem se ouviu tudo o que foi dito. Era isso o que eu dizia antes que chegasse, Isabella... Laurent Hunt sempre odiou meu filho e, graças ao que ele mesmo procurou, jamais saberemos o motivo... Ainda assim, independente da razão que o movia, ficou claro que a intenção era a de desmoralizar o barão. Dar-lhe ouvidos ou insistir será uma ofensa a Edward, à nova baronesa, à nossa família. É isso que quer?
― Não mamãe, mas...
― Duvida da palavra de sir Carlisle? ― Elizabeth baixou o tom, mas manteve sua postura rígida. Quando a filha caçula maneou a cabeça, disse: ― Pois bem! Então questiona a palavra de lorde Stuart?
― Evidente que não! O que ele ganharia ao mentir?
― Se é assim, o que ainda não foi esclarecido?
― Sinceramente não sei ― Alice exasperou-se ainda que não alteasse a voz. ― Tudo referente a essa história envolve tanto mistério! Desde que cheguei sinto como se pudesse tocar cada segredo e não ajudou ouvir relatos truncados, situações insólitas. E então sir Laurent...
― Aquele homem chegou ao limite da loucura ― interrompeu-a a mãe. ― E quase conseguiu o que sempre quis... Destruir seu irmão. Se acreditar, ele terá conseguido.
― Mamãe... ― Alice ergueu as mãos em sinal de paz. ― Acalme-se. O que acredito deixou de ter importância nos últimos dias. Se tivesse ouvido o mesmo ao chegar, talvez eu voltasse para Whitlock House sobre meu rastro, mas não agora que consigo ver quem ela é ― sorriu para Isabella com simpatia. ― Sou adulta e sei discernir sobre o que é certo ou errado.
― Todas nós sabemos... Mas acredita que se fosse o contrário, importaria? Olhe para seu irmão... Veja até onde ele foi para defender a esposa. Devemos agradecer o fato de Isabella não ser quem sir Laurent disse ser, pois se fosse, nossa família estaria dividida.
― Não estaria porque mesmo não aceitando, eu entenderia que mulheres não têm a mesma sorte dos homens. Eu não julgaria a baronesa caso houvesse verdade nas palavras de sir Laurent.
― Assim sendo, acredite que não há ― retrucou Elizabeth. ― E deixe sua cunhada em paz. O passado deve ser enterrado com aquele infeliz. Todas de acordo?
Houve uma anuência conjunta ao que a senhora maneou a cabeça, satisfeita.
― Não vou pedir que empenhem sua palavra porque confio na educação e respeito das meninas que criei. E isso inclui a senhora ― apontou para Isabella. ― Não quero saber que voltaram a esse assunto pelas minhas costas. Quero cada uma cuidando da própria vida. Fiz-me entender?
― Em cada ponto e vírgula ― disse Rosalie.
Como Alice, Isabella somente voltou a assentir. Esteve decidida a revelar a verdade, pois sabia que Rosalie acreditara na delação, afinal, ela tinha visto a máscara, a veste indecente. Entretanto estava claro que guardaria o que sabia para si.
― Obrigada ― disse reflexiva quando os olhos da duquesa encontraram os seus.
― Minha mãe está certa ― disse, indicando tê-la entendido. ― Que o passado seja enterrado com aquele infeliz.
Um discreto pigarrear chamou a atenção das senhoras para a porta.
― Perdoem-me ― pediu Marie que entrou trazendo a bandeja requisitada pela baronesa. Depois de deixá-la sobre a mesa, aprumou-se e anunciou: ― Senhoras, o jantar será servido.
― Em tempo! ― exclamou Alice, escrutinando o que tinha na bandeja, jovial como se ela não tivesse levado uma carraspana. ― Parece delicioso e toda essa agitação deixa o bebê com fome.
― Sim, o bebê ― Rosalie revirou os olhos, mas não sorriu. Séria, tomou a irmã pelo braço e seguiu para a porta. ― Vamos ou nossos maridos vão pensar que os abandonamos. Isabella... Se precisar de algo, a qualquer hora...
― Vá em paz ― disse agradecida. ― Sei que posso contar com todas.
Após assentir, Rosalie se foi com Alice, logo depois de Marie. Elizabeth afagou o braço do filho e se preparou para segui-las. Isabella a deteve.
― Sim? ― disse a senhora ao sustentar-lhe o olhar. ― Se está pensando em me agradecer, esqueça! Estou ansiosa para virar essa página de nossa história.
― Não, agradeceria... digo, agradeceria, mas não agora ― consertou-se ao notar o quanto soou arrogante. Não queria estragar a boa relação. ― O que quero é lhe falar a respeito de Irina.
― O que aquela criatura aprontou agora? ― agastou-se. ― Já lhe dei ordens expressas de deixá-la em paz.
― Acredito que nada do que diga irá freá-la, senhora. Sua criada não aceita ter de respeitar alguém que considera uma pária.
― Não se trata do que ela aceita, sim de cumprir com seu dever ― insistiu a senhora. ― Falarei com ela mais uma vez.
― Perdão, milady ― aquela era a hora de testar seus limites. ― A senhora já o fez e nada adiantou. E... Eu não queria delatá-la, mas Irina até mesmo aborda Embry.
― Ela não ousaria!
― Pois ousou... Reproduziu em bom tom o que disse sir Laurent para que Embry ouvisse.
― Víbora ― ciciou Elizabeth, rubra. ― Não posso chamá-la agora, pois não quero estragar o jantar... Com tudo o que aconteceu, será um momento de normalidade. No entanto, antes de me recolher a dispensarei de seus serviços. Ela que volte para Whitlock House ou vá para onde bem entender. Envolver uma criança é de uma baixeza inominável!
― Obrigada, senhora! ― Isabella esboçou um sorriso.
― Não agradeça. É uma de nós agora ― disse Elizabeth. ― Virei ver meu filho antes de ir ao meu quarto, então... Até breve.
― Até breve ― Isabella inclinou a cabeça com deferência antes de a senhora sair.
Contente, sentindo-se acolhida e livre pela iminência partida de Irina, ela foi até a cama e beijou o rosto de Edward. Depois de admirá-lo por um minuto, disse:
― Ouviu sua mãe? Lady Westking acaba de dizer que sou uma de vocês... Quando despertar, seremos uma família unida.
― Quem poderia imaginar, não é mesmo?
― Jacob! ― Isabella se sobressaltou ao ouvir a voz masculina vinda da porta.
― Perdoe-me, senhora ― ele se mostrou preocupado. ― Não queria assustá-la.
― Estou bem... Entre!
― Obrigado. Lady Westking não queria que eu viesse, mas a convenci de que seria breve ― disse, aproximando-se com os olhos postos no amigo. ― Como ele está?
― Acredito que esteja bem, na medida do possível. ― Isabella agradecia por Jacob não olhá-la com piedade. ― A temperatura está estável.
― Esse é um bom sinal ― falou o moreno, apertando seu chapéu, de súbito bravio. ― Aquele desgraçado não pode ditar a última palavra! Perdão... ― pediu rapidamente ao se dar conta de suas palavras.
― Não se desculpe. Eu concordo com você. ― Jacob assentiu. ― Diga-me, você ouviu o que eles conversaram antes que...?
― Não, nem uma palavra ― disse ainda bravio. Então avistou a bandeja. ― Seu jantar... Não quero atrapalhá-la. Talvez seja melhor...
― Não! Não vá... Quero saber como aconteceu, por você...
― Tentarei ser breve ― prometeu. ― Bem... Realmente nada ouvi. Eles estavam afastados. E não me conformo e não tê-lo impedido de... ― calou-se como se externar o que viu reavivasse a dor. ― Antes disso ― apontou a faixa que circundava o dorso do amigo. ― Eles estavam lutando. Parecia que o barão levaria a melhor... E então...
― Está tudo bem, Jacob ― Isabella se aproximou e o tocou no braço, confortando-o. ― Não foi sua culpa.
― É no que quero acreditar... Foi tudo tão rápido. Nem mesmo Sam previu o que o biltre faria.
― Você sabia sobre Sam?! ― Isabella recuou um passo, surpresa.
Jacob a escrutinou com o mesmo assombro.
― A senhora sabia sobre isso? Como?
― Para mim não foi difícil deduzir quando soube como tudo se deu. Porém, pelo que me foi dito, ninguém encontrou o autor do disparo, por isso meu espanto.
― Estávamos combinados ― revelou, recuperado do choque. ― Ontem, assim que deixei Leah em nossa casa, fui ao jardim pedir ajuda a Sam.
― Jacob... ― murmurou enternecida. ― Somente você para ter esse cuidado.
― Não fiz nada além do meu dever ― salientou com altivez. ― Não importa o nome que dêem à nossa ligação, sempre irei proteger meu senhor. E a senhora bem sabe que Sam lhe tem a mesma devoção. Ele concordou comigo de que não deveríamos confiar em Hunt e também em Otto Cooper, que tudo levava a crer seria contra o barão. Enfim, foi de Sam o plano de ficar escondido no bosque... Fui vê-lo essa tarde e ele está tão consternado quanto eu por não ter impedido que acontecesse o pior.
― Mas até onde sei, ele impediu. Laurent poderia ter matado Edward ― pensar na possibilidade a enregelou.
― Sim... Chegou a pegar o outro florete. Foi quando Sam conseguiu um bom ângulo e o acertou no coração.
― Sam... Imagino como ele esteja se sentindo ― ela dividia o sentimento com o fiel amigo. De repente ela se agitou. ― Jacob, acha que podem chegar a ele? A guarda? Agora sabemos que o Sr. Cooper não está contra nós, mas ele ainda deve exercer sua função.
― Não há a mínima possibilidade ― assegurou. ― Sam não esperou para ver o que aconteceria. Mesmo preocupado com o barão, escapou pelo bosque. Se um dia alguém encontrar um elo entre eles, as moças do Jardim de bom grado dirão que ele não deixou o casarão essa manhã.
― Folgo em saber ― ela suspirou com alívio. ― Não quero que nada aconteça a Sam. Quanto às moças do Jardim... Seria possível que você tenha especulado sobre a aparição de Amber?
― Não senhora ― Jacob negou também com a cabeça. ― Estive com Sam para parabenizá-lo e para me assegurar de que estava seguro. Depois voltei para Dawolds House.
― Jacob, sente-se ― ela indicou a poltrona ao lado da que ocupou. ― Já que citou a fazenda daquele infeliz, quero que me conte tudo que sabe.
― É um assunto aborrecido ― Jacob refutou. ― Não quer ouvir isso. Além do mais, seu jantar esfriará.
― Não me importo. Eu preciso ouvir, Jacob ― ela insistiu em indicar a poltrona. ― Conte-me se a desconfiança do inspetor se confirmou.
Resignado, Jacob se sentou.
― Bem... Sim, se confirmou. Depois de uma busca minuciosa, encontraram um porão sob o piso da adega. Não havia muita coisa, mas o bastante para condená-lo. O mais impressionante foi descobrirem como o carregamento entrava e saia da propriedade sem levantar suspeitas.
― Como? ― indagou ansiosamente, ávida em saber todos os detalhes daquela história.
― Há um túnel que liga o porão ao bosque, distante da casa. O cretino era esperto, quem diria?
― Um criminoso, isso sim ― ela sibilou. ― E a casa? Descobriam se ele a conseguiu mesmo por meio ilícito?
― Não sei dizer... Enquanto estive com Otto Cooper e seus homens, o objetivo era encontrar provas e também cuidar da remoção do corpo. Mas descobrirão, se for o caso... Vi que muitos documentos foram confiscados para posteriores análises.
De súbito um pensamento lhe ocorreu.
― Quem cuidará do enterro?
― Não faço a mínima ideia... Por mim ele ficaria lá, servindo de comida aos corvos.
― Não ― a rouca negativa soou tão baixo que Isabella e Jacob demoraram a entender que viera da cama. A baronesa foi a primeira a saltar e se aproximar. Logo Jacob estava às suas costas, perscrutando o rosto do barão. Ele nada dizia, mas seu cenho franzido denunciava sua consciência.
― Edward, fale comigo ― rogou Isabella, ansiosa. ― Fale comigo, meu amor.
― Senhor, por favor... ― Jacob fez coro.
― Edward ― o barão o corrigiu, ainda de olhos fechados. ― Nunca vai... aprender?
― Sim, Edward! ― Jacob repetiu, sorrindo. ― Parece que já está recuperado.
Com a respiração pesada, ainda a franzir o cenho, Edward finalmente abriu os olhos; minimamente, como se a iluminação precária do cômodo o incomodasse. As pálpebras formavam finas fendas, mas para Isabella foi o bastante ver o vivaz brilho cerúleo entre elas.
― Edward... ― ela sorriu, comovida. ― Como se sente? Está doendo? Quer alguma coisa?
― Primeiro... ― sussurrou ― Quero que... falem mais baixo... Sempre esqueço como gostam... de falar entre si... Tagarelas.
― Definitivamente ele está bem ― Jacob sorriu mais.
― Estou com sede ― Edward resmungou.
― Eu pego a água ― prontificou-se Jacob.
Ainda a sorrir, a chorar, agradecendo aos céus por ele ter despertado, a jovem acariciou o rosto do barão.
― Não chore... Deixaram-me sem... um lenço...
― Paro de chorar se parar de gracejar ― disse repreensiva. ― Deve poupar-se.
― A água ― Jacob estendeu o copo para Isabella. Somente ao pegá-lo ela notou o quanto tremia, mas se conteve antes de encostá-lo nos lábios do marido.
Com o coração aos saltos, repetiu o movimento mais três vezes para que Edward sorvesse pequenos goles, então devolveu o copo a Jacob.
― Acho que é o bastante. Dr. Morrigan recomendou que lhe desse água em pequenas quantidades. E não me respondeu... Sente dor?
― Suportável... ― disse Edward, de olhos fechados, respirando com dificuldade.
― Se quiser, tenho permissão de medicá-lo ― ela o informou, maldizendo Laurent por deixá-lo naquele estado.
― Estou cansado... ― ele revelou em um murmúrio.
― Então fique quieto ― recomendou Isabella. ― Iria mandar avisar aos outros que despertou, mas isso pode esperar.
― Não quero... ninguém... ― Edward voltou a olhá-la pelas pálpebras semicerradas. ― Apenas... pedir um favor. Sem... questionamentos...
― Pois peça ― incentivou-o, curiosa. ― O que quer que eu faça?
― Não você... ― ele maneou a cabeça minimamente então procurou por seu amigo. ― Jacob.
― O que seria, Edward ― Jacob se prontificou.
― Vá até o... inspetor e... diga que cuidará... do enterro.
― O que disse?! ― Isabella duvidou de seus ouvidos. ― Não é sua responsabilidade. Ele trapaceou!
― Sem questões... ― reiterou ao fechar os olhos. ― Apenas... faça.
― Essa é outra brincadeira, Edward? ― Jacob indagou. ― Edward?
Isabella tocou o rosto do marido. Não precisou reparar que a respiração se normalizava para saber que ele estava de volta à inconsciência. Jacob percebeu o mesmo e, inconformado, afastou-se.
― O que devo fazer? ― perguntou à baronesa. ― Isso não pode ser! Ele estava delirando?
― Não creio ― Isabella maneou a cabeça, igualmente incrédula. ― Por mais extraordinário que possa parecer, acho que deve atendê-lo.
Isabella tomou cuidado com a palavra, pois agora Jacob não devia obediência e por abominar Laurent Hunt poderia muito bem rebelar-se. Ela não compreendia o que movia o barão ― desejo real ou delírio ―, mas não gostaria de vê-lo aborrecido caso seu pedido fosse legítimo.
― Gostaria de não fazê-lo ― Jacob resmungou ―, mas conheço bem seu marido, senhora, para saber que irá me infernizar caso não o faça. Se me der licença, tenho algumas providências a tomar. Espero não ter arruinado seu jantar.
― Fique à vontade e... obrigada. Tenha uma boa noite!
― Não será o caso, senhora... Mas, obrigado!
Jacob afundou o chapéu na cabeça sem ocultar sua contrariedade e partiu pisando duramente. Isabella permaneceu a mirar o rosto agora sereno do barão. Gostaria de entender o que se passava por sua mente confusa para que fizesse tal pedido.
Sem que chegasse a alguma conclusão, determinou que ele estivesse apenas sendo o homem de nobre coração por quem sempre fora apaixonada. Seria um ato de benevolência extrema. Assentindo para seu pensamento, Isabella sorriu contente pelo fato de Edward ter despertado e finalmente deu atenção ao seu jantar.
A comida de Sue Wood esfriara, mas não ao ponto de eliminar seu sabor. Com apetite renovado, Isabella comeu tudo o que Marie lhe levou. Com particular divertimento, a moça considerou que seria capaz de comer um pouco mais, contudo não o fez.
Quando Marie voltou para recolher a bandeja, somente a agradeceu. Satisfeita por sua patroa estar bem alimentada, a governanta se foi. Não sem antes se colocar à disposição, assegurando que Isabella poderia mandar chamá-la a qualquer hora da noite.
Desejando que não fosse preciso, ela parou ao lado da cama e passou a acariciar os cabelos do marido, o rosto marcado, porém sereno. Desnecessariamente ajeitou o lençol sobre o dorso enfaixado, então correu os dedos delicadamente ao longo do braço forte até que chegasse à mão, que apertou na sua e nunca soltou.
Isabella não saberia dizer o que chamou sua atenção para a porta, e ao olhá-la, sobressaltou-se ao descobrir sua sogra parada sob o limiar, observando-a. Sem identificar a emoção contida no olhar especulativo ou sem atinar por quanto tempo a baronesa-mãe estaria ali, convidou-a a entrar. Ao saber que seu filho estivera acordado por ínfimos minutos, a senhora lamuriou-se por não ter sido chamada.
― Não daria tempo de vê-lo acordado ― garantiu Isabella, tentando ignorar o modo como era escrutinada. ― Foi de fato por alguns instantes. O bastante para que bebesse água e voltasse a dormir. Deveria fazer o mesmo, senhora... O dia foi desgastante.
Elizabeth titubeou, porém por fim anuiu.
― Está bem! Sei que cuidará bem de meu filho... Importa é que ele despertou e não tenha febre. E ainda preciso ter uma séria conversa com Irina.
Como Marie, Elizabeth garantiu que estaria pronta a ajudar caso fosse preciso. Uma vez sozinha Isabella dedicou sua atenção ao marido. Novamente lhe testou a temperatura e ajeitou uma mecha do cabelo; como às vezes fazia com Embry. Escrutinando-lhe o rosto, ela recordou o modo como as íris azuis a fitaram, tão cheias de vida.
― Você cumpriu sua promessa, meu senhor ― disse em meio a um sorriso. ― Apesar de tudo, está aqui essa noite.
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