Borboleta Negra
91 Capítulo Cinquenta e Nove - Parte II
Notas iniciais
De livre vontade Isabella não teria pensando em se colocar mais confortável, porém em sua vida havia Marie. Por ordem da governanta, antes que se recolhesse Kate foi até o gabinete levando os chinelos forrados de sua patroa, assim como um casaco para protegê-la caso o fogo da lareira minguasse durante a noite.
Antes que dormisse, Isabella rogou a Deus pelo pronto restabelecimento de seu marido, para que ele tivesse um sono tranquilo. Não foi de todo atendida, mas agradeceu que Edward por vezes despertasse e lhe pedisse água. Mesmo que ele não se queixasse, fez com que bebesse as gotas recomendadas para aliviar a dor; não queria que seu marido sofresse desnecessariamente.
Em uma dessas vezes, Edward se mostrou preocupado com os preparativos para o velório de Laurent Hunt, aumentando a estranheza de Isabella. No entanto, o barão não se manteve lúcido sequer para ouvir sua resposta.
A baronesa ficou a acariciar-lhe os cabelos, tentando decifrar a mente consternada. Poderia estar errada, mas não lhe parecia ser somente humanidade ou nobreza que o movia. Parecia ser o senso de dever aguçado, o mesmo que a colocou onde estava, mas... Qual dever Edward poderia ter para com Laurent?
Aquela questão tumultuou os pensamentos da jovem até que finalmente fosse vencida pelo cansaço e adormecesse na poltrona. Despertou sobressaltada, ouvindo resmungos abafados. Por saber que no gabinete estavam somente ela e o barão, Isabella se assustou ao ver alguém debruçado sobre Edward. A claridade impediu que identificasse a pessoa de imediato. Ela soube somente se tratar de uma mulher.
― Quem...? ― a questão morreu em sua garganta ao reconhecer o vestido cinza escuro. ― Irina! ― bradou e se pôs de pé. ― Afaste-se!
A criada não lhe deu ouvidos e continuou a acariciar o rosto que Edward mantinha virado para o lado oposto, com isso forçando o dorso. À frente do ciúme a preocupação em ver o marido na incômoda posição fez com que Isabella corresse até a cama e empurrasse Irina para longe.
― O que está fazendo? Enlouqueceu? Mandei se afastar.
― Não recebo ordens de criadas ― retrucou Irina com altivez, arrumando uma mecha de cabelo que saiu do lugar. ― Precisava vê-lo antes de ir embora.
― Tem noção do que faz ou diz? ― Isabella exasperou-se. ― Entendo que não me respeite, mas ao seu senhor?
― Meu amor não reconhece limites ― redarguiu a criada, sem nunca baixar a cabeça. ― Meu amor que é puro e legítimo. Se houvesse justiça nesse mundo onde um senhor se casa com uma criada, hoje seria eu a esposa do barão. Se assim fosse, ele não estaria ferido... Não seria motivo de chacota por ter se casado com uma rameira.
― Cale-a... ― Edward pediu em um murmúrio.
― Já fez o que queria, agora vá embora ― disse Isabella, controlando-se como podia.
― Não me dê ordens! Já basta ter enfeitiçado a todos dessa casa... Até minha senhora caiu de amores, mas a mim não engana... Irei, sim, mas depois de juntar meus pertences, não antes nem porque você determinou.
― Faça como quiser. Apenas saia daqui e não se atreva a voltar... E também não volte a cruzar o caminho de meu filho, ou não responderei por mim ― alertou-a.
― Fique tranquila ― Irina riu com escárnio. ― Não é minha vontade chegar perto de uma criança espúria... Por acaso, sir Edward, o senhor sabe que assumiu o filho de vosso pai? Que o bastardo...
Irina foi calada por um vigoroso soco em sua boca. Cega pela fúria, Isabella sequer percebeu quando exatamente cerrou o punho. Ao dar por si estava debruçada sobre a criada caída que a encarava com os olhos maximizados, tendo as mãos a cobrir a boca.
― Repete o que disse sobre meu filho! ― Isabella ordenou. ― Repete para que eu a parta em duas!
Em vez de atendê-la, Irina engoliu em seco. Imediatamente franziu o cenho e afastou as mãos da boca para examiná-las. Assim como Isabella a criada viu o sangue e gritou.
― Olhe o que você fez! Eu engoli um dente! Eu engoli um dente!
Sim, ela tinha engolido o canino. Isabella podia ver a falha, mas não se arrependeu. Trêmula, sem saber de onde vinha tanta força, entendia que seria capaz de muito mais caso Irina afrontasse seu pequeno. Algo que, pelo olhar colérico da criada, a baronesa soube que não voltaria a acontecer; ela era o alvo.
― Vou matá-la! ― Irina bradou antes de se pôs de pé, exibindo os dentes avermelhados.
Alucinada, a criada avançou sobre a jovem. Por mais que não reconhecesse a inédita força, Isabella estava acostumada a conter as brigas entre as moças do Jardim então sem esforço segurou o pulso que vinha na direção de seu rosto e o girou. Evidente que sempre seria mais fácil conter alguém estando em trajes menores, contudo, mesmo com a dificuldade imposta pelas muitas saias, a baronesa não soltou sua oponente.
― Solte-me, sua rameira! ― Cansada de ser desrespeitada, Isabella torceu o braço contido um pouco mais. ― Ai! Ai!
― A cada ofensa ficará pior. Aconselho que fique calada.
Sem nunca soltar Irina, Isabella a levou para fora do gabinete e a arrastou pelo corredor.
― Você é louca! ― rugiu Irina. ― Lady Westking vai saber disso!
― Não por você ― retrucou.
Logo cruzavam pelas primeiras criadas que paravam para assistir a cena e segui-las.
― Façam alguma coisa! ― ordenou Irina. ― Socorro! Não veem que ela enlouqueceu? Estou sangrando!
Em vez de socorro ou piedade, Irina conseguiu alguns risos nada discretos. Ao chegar à cozinha, as criadas que cuidavam do café da manhã estacaram. Entre elas estava Sue Wood, porém Isabella a ignorou. Sem diminuir a velocidade de seus passos, que Irina acompanhava com dificuldade, seguiu até a porta.
Adivinhando sua intenção a criada mais próxima à saída abriu a porta e lhe deu passagem. Somente então Isabella soltou a criada.
― Agora, suma daqui! ― ordenou. Ao ver que seria afrontada, acrescentou: ― Já teve a prova de que não tolerarei desaforos. Meça suas palavras ao se dirigir à dona dessa casa. Quem não estiver de acordo, que fique à vontade para acompanhá-la.
O desagradável episódio lhe deu forças. Sua sogra tinha razão. Precisava se impor para que fosse respeitada, especialmente depois da delação. Portanto, que Irina servisse de exemplo caso a simpatia das criadas tivesse sido perdida.
― Preciso pegar o que é meu ― disse Irina.
― Não precisa ― replicou Isabella. ― Uma das moças recolherá o que lhe pertence. Sua bagagem será entregue onde estiver.
― E para onde irei? Não pode me tratar assim... Alguém, por favor, vá chamar a verdadeira baronesa ― pediu, olhando para as criadas às costas de Isabella.
Se alguma delas atendeu ao pedido, Isabella não soube. Enfrentaria a raiva da sogra, depois, no momento não poderia fraquejar. Como que por ajuda divina, um dos criados se aproximou, trazendo uma braçada de lenha.
― Beni ― Isabella o chamou. ― Pegue a carroça e leve essa mulher até uma das pensões da vila. Diga que seus antigos patrões irão se responsabilizar pelas despesas até que sua bagagem e pagamentos pelos serviços prestados lhe sejam entregues.
― Vagabunda! ― gritou Irina quando Beni deixou a lenha e correu para atender sua nova patroa.
Isabella não retrucou à ofensa, apenas desceu os poucos degraus, pronta a calar a criada. Esta sabiamente recuou, porém não sem desdenhar:
― Tranquilize-se, baronesa... Não direi mais uma palavra. Irei para onde me levarem e agradecerei por não ser obrigada a assistir seu teatro. Lamentarei somente por não estar aqui quando as cortinas se fecharem para a senhora... Porque hão de fechar! Tem tido sorte, mas uma hora vamos conseguir livrar nossos patrões de suas mentiras e eu terei o prazer de pisar em seu túmulo.
― Acalente esse sonho, Irina ― disse Isabella, ignorando um agourento calafrio. ― Mas o faça longe daqui ― apontou para a carroça que se aproximava. ― Suma!
Como último desaforo, Irina cuspiu no chão, girou as saias e subiu na carroça sem aceitar a ajuda de Beni. Empertigada ao lado do criado, ela manteve os olhos em frente, a cabeça erguida. Quando Beni agitou as rédeas e partiu, palmas, risos e vivas irromperam às costas de Isabella, assustando-a.
Incrédula ante a algazarra, a baronesa se voltou e escrutinou cada rosto. Leah estava entre as moças que aplaudiam e riam. As exceções eram Sue e Marie, porém esta última não escondia seu contentamento. A avó da baronesa era a única que se mantinha impassível. Seria impossível saber o que pensava caso Isabella não a conhecesse muito bem. Era evidente que se compadecia com o destino da criada rechaçada.
Pois que seguisse seu conselho, fizesse as malas e seguisse o rastro de Irina, Isabella determinou. Sem demonstrar contentamento ou orgulho pela aprovação generalizada, ela passou pelas criadas e entrou. Na cozinha, com a seriedade que sua nova posição exigia, pediu a uma das sorridentes moças.
― Por favor, vá até o quarto ocupado por Irina e junte seus pertences. Quando Beni retornar, peça que volte à vila e lhe entregue a bagagem. Sra. Newton... ― chamou por Marie. Esta não demonstrou surpresa ante o tratamento formal, somente se apresentou servil.
― Sim, senhora.
― Faça as contas do que devemos à Irina Ulley. Quero que o pagamento lhe seja entregue junto com a bagagem.
― Farei isso agora mesmo, senhora ― disse sem ocultar seu orgulho.
― E vocês ― ela se dirigiu às demais criadas. ― Sinto que tenham sido obrigadas a ver essa cena lamentável. Posso imaginar o que pensam ao meu respeito, e não me defenderei, pois nada devo... Apenas direi que tratei Irina Ulley dessa forma porque seu desrespeito ultrapassou todos os limites. Sim, fui criada dessa casa, mas esse fato não me desmerece nem me desqualifica a ser a nova baronesa. Pelo contrário... Entendo e reconheço o esforço de cada uma. Seja como for, não exigirei que me aceitem como sua senhora, somente que me respeitem.
― Não precisa pedir por isso, Lady Westking ― disse Amy. ― Todas nós gostamos da senhora e a respeitaremos, independente do que digam. Ainda mais depois de nos livrar daquela peste. Não pode imaginar como Irina nos infernizava quando os patrões ou Marie não estavam por perto. Era como se ela fosse a dona da casa. Um horror!
Houve um assentimento geral e sussurros que externavam o alívio sentido. Isabella igualmente assentiu para todas, abstraindo o fato de sua avó ser a única a encará-la sem especial emoção.
― Bem... ― disse por fim, pois estava ansiosa para voltar ao gabinete. ― Se outra pessoa quiser ocupar o lugar de Irina, arreliando-as, avisem-me. Tenham um bom dia!
― Senhora! ― Leah a deteve. ― Diga como está sir Edward, por favor.
― Muito bem ― Isabella sorriu para a morena. ― Acredito que em breve estará recuperado.
Entre novos assentimentos a baronesa se foi. Para seu desespero, encontrou Edward sentado na borda do colchão.
― O que está fazendo?! ― correu até ele, disposta a fazê-lo se deitar. ― Está fraco! Pode cair!
― Precisava me aliviar... E estou crescido para molhar a cama ― ele disse com esforço.
― Pois bem! Agora se deite... ― ela pediu, tocando-lhe o braço.
Sem obedecê-la, Edward lhe segurou a mão e levou ao peito, na altura do coração. Com o seu a bater fora do compasso, Isabella procurou pelos olhos azuis que tanto amava.
― Estou aqui, Bella... ― murmurou. ― Não lhe disse que voltaria?
― Disse... Mas ainda está em observação. Não deve se esforçar... Considero um verdadeiro milagre que não tenha febre e já esteja lúcido... Não zombe da sorte, por favor.
― Sim, acredito em um milagre. ― Com a mão livre, o barão passou a lhe acariciar os cabelos. ― E este nos foi concedido por merecimento, então, acalme seu coração... E também me traga água...
― Sim, água ― Isabella correu para servi-lo, tentando se apegar às palavras do marido. De fato seria castigo se ele esmorecesse depois de se apresentar tão bem, dentro de suas limitações. ― Aqui está!
Confiando que ele não sentisse dor, e por tê-lo sentado, deixou que bebesse mais do que os poucos goles que lhe serviu durante a noite.
― Deve estar faminto ― ocorreu-lhe o óbvio. ― Pedirei que Marie providencie um caldo e...
― Caldo? ― Edward entregou o copo e torceu o nariz. ― Prefiro pão, ovos e toucinho.
― Toucinho?! ― Isabella lhe tocou a testa. Edward só poderia estar delirando. Ele não estava com febre, indicando que apenas gracejava como de costume. ― Nada de toucinho para o senhor. O Dr. Morrigan não disse anda quanto à comida, mas acredito que não haja restrição para caldos ralos, portanto será tudo que terá. E trate de se deitar ― ordenou. ― Vou ajudá-lo.
― Sim, senhora... ― Edward disse roucamente, contorcendo seu rosto pela dor sentida até que estivesse deitado.
― Está vendo? ― ela ralhou. ― Como saberemos se não vai piorar seu ferimento interno se ficar se mexendo?
― Prometo... me comportar... ― ele a mirava com olhos ainda turvos pela dor, mas seu humor não foi abalado. ― Não quero... enfrentar sua... fúria. Como... a pobre Irina.
― Pobre Irina? ― Ao recordar a cena, ela se permitiu relaxar e sorrir. ― Pois digo que demorei a estapeá-la.
― Não deveria ter... chegado a tanto. Você não pode se exaltar ou... fazer esforço. Reconheço que errei. Fui condescendente desde que ela deixou claro seu interesse.
― Estou bem. Não se preocupe comigo. Quanto a ser condescendente, discordo. Foi um cavalheiro... Posso entender que haja sentimento, afinal eu mesma o nutri. Mas se não foi correspondida ela deveria aceitar e respeitá-lo, não vir atacá-lo!
― E isso... diante de uma esposa ciumenta... Sorte dela que... você não tivesse uma vassoura à mão.
― As vassouradas estão reservadas à outra mulher ― disse livre do humor. ― Se Tanya Cullen se atrever a voltar, darei a ela o que merece.
― Algo me diz... que ela não virá... ― Edward confiava em suas palavras. ― Esqueça-a.
Se a senhorita em questão não tivesse senso de preservação, seu pai o teria. E não estava disposto a falar de Irina ou Tanya, ele reconheceu. Desde que a consciência tinha voltado nada mais fazia além de agradecer, pois, mesmo que não visse o florete em sua carne, sentia a estocada, revia o ódio nos olhos de Laurent. Simplesmente não era para ele estar ali, sentindo-se tão bem apesar do enjoo, da falta de ar, da dor, da fome. Incômodos que lhe garantiam a única verdade que importava: estava vivo.
― Nem que eu viva mil anos, Edward ― assegurou sua esposa. ― Entendo que mesmo sem sua ajuda nada seria diferente, mas a senhorita Cullen tornou tudo pior. Por pouco não...
― Ela terá o fim que merece por... sua maldade ― disse amavelmente, sem deixar de tocá-la, queria senti-la. ― Esqueça-a e... mostre-me seu pescoço.
― Meu pescoço? ― Isabella estranhou o pedido até que a mão de seu marido afastasse seu cabelo para um dos lados, lembrando-a da razão de mantê-los soltos. Sorrindo, ela maneou a cabeça. ― Não acredito que se lembre disso!
― Nunca esqueci ― ele sussurrou, acariciando a marca que deixou na pele sensível. ― Perdi de ver da primeira vez... Não agora... Você é mesmo minha, não é?
― Mais do que nunca ― garantiu. ― E já que confirmou, por favor... Fique quieto. Vou pedir que preparem o caldo. E avisar a todos que despertou.
― Eu soaria como um mal-agradecido se... dissesse que preferia não ver ninguém?
― Não soaria.
Edward assentiu em muda concordância. Estava cansado. Nem mesmo a fome parecia ser capaz de deixá-lo acordado. Contentava-o gracejar com sua esposa, mas sua mente não lhe dava tréguas, exaurindo-o mais do que seu corpo ferido. Gostaria de esquecer novos detalhes de seu estimado pai, porém, como não poderia, fechou os olhos e especulou:
― Quando Jacob virá nos dar notícias? Preciso saber se atendeu ao meu pedido.
― Tenho certeza de que o atendeu ― disse Isabella ternamente. Depois de capturar a mão que ainda se movia em seu pescoço, beijou-a e a baixou até a cama. Sem soltá-la, indagou: ― Por que isso é importante, Edward? Por que tomou essa responsabilidade para si?
― Não acreditaria... ― ele abriu os olhos e a encarou. ― Eu mesmo ainda custo a crer.
― Sabe que está me matando de curiosidade, não? Conte-me ― por um instinto inexplicável, acrescentou: ― Tem relação com o que conversaram antes que ele o ferisse?
― Antes que tentasse me matar ― corrigiu-a. ― Sim... Totalmente...
― Por Deus, Edward, conte-me ― ela rogou, apertando-lhe os dedos de modo confortador. ― Se for algo que precisa manter em segredo, eu...
― Por certo esse será outro detalhe que vou preferir manter em sigilo... ― interrompeu-a. ― Mas não de minha família... Todos têm o direito de saber qual o alcance da maldade de sir Ludwig...
― Agora estou realmente preocupada ― Isabella se empertigou. ― Como o falecido barão pode estar relacionado a Laurent?
― Hunt era meu irmão, Bella ― revelar não tornou crível. ― Pode imaginar tamanho disparate? Consegue conceber que aos dezessete, dezoito anos, meu pai tenha tido um filho que renegou?
― Oh, Edward... ― murmurou compadecida. Depois de tudo pelo que passou nada mais que estivesse relacionado ao porco a surpreenderia, nem mesmo o insólito parentesco entre ele e o fazendeiro. ― Sinto muito!
― Eu também... ― Edward voltou a fechar os olhos. ― Por culpa daquele senhor eu quase me tornei um fratricida. Não que a verdade redima Hunt dos crimes que cometeu... De anos e anos de inimizade, mas... Sem dúvida o justifica. Em sua lógica... eu roubei o que era seu de direito.
― Esqueça isso ― aconselhou-o. ― E descanse... Depois poderá me contar todo o resto. Agora precisa se alimentar.
― Bella, eu...
― Oh! Está acordado! ― Elizabeth exclamou da porta. Em instantes a senhora estava ao lado da cama, fitando o filho com desmedida adoração. ― Sim... Está mesmo acordado! Como se sente? Devemos mandar chamar o Dr. Morrigan?
― Mamãe... ― Edward a olhos pelas pálpebras semicerradas e sorriu. ― Estou bem...
― Estou vendo ― disse ao descer os olhos para as mãos do casal, ainda unidas. ― E algo me diz que essa pronta recuperação tem nome e atende por novo sobrenome.
― Mamãe... ― dessa vez o chamado soou repreensivo. ― Pelo o que vi nos últimos dias pensei que já estivesse acostumada a Isabella.
― Ah, não venha em defesa de sua esposa ― a baronesa-mãe agitou as mãos. ― Não falo por mal, apenas a verdade. Que Deus me perdoe a blasfêmia, mas é tão obstinado por ela que seria capaz de voltar dos mortos para não perdê-la.
― Será perdoada, senhora, pois não mente ― ele gracejou. ― Posso contar que sejam amigas? Ainda seria pedir demais?
― Não desperdice seus pedidos de convalescente, senhor aproveitador ― disse Elizabeth no mesmo tom. ― Não digo que somos amigas, mas nos entendemos. Dadas as devidas diferenças, a cada momento vejo que o amor dela é como o meu, é genuíno e incondicional. Tranquilize-se, pois gosto de sua escolhida.
― Vossas palavras tranquilizam também a mim ― disse Isabella. Gostaria de ter ânimo para comemorar a declaração, mas chegava ao limite. ― E já que nos entendemos, poderia assumir o cuidado do barão?
― Vim justamente para assumir meu posto ― disse Elizabeth. ― Você e meu neto precisam de descanso. Vá deitar-se.
Edward não queria que sua esposa o deixasse, porém, ao ser recordado de seu estado delicado, fez coro com a mãe. Isabella assentiu, aproximou-se para beijá-lo no rosto e, depois de avisar que pediria o caldo a Marie, partiu. Imediatamente a mãe segurou a mão que antes sua esposa apertava.
― Não pode imaginar como me alegra vê-lo acordado... Nunca mais quero sentir tamanha aflição. Jure que agora se encerra toda essa loucura. De verdade aceito sua esposa... Aquele infeliz está morto, então diga que acabou.
― Acabou, mamãe... Tudo ficará bem!
― Com licença ― Marie pediu da porta. ― Vim ver como está o senhor e avisar que estou indo agora providenciar um caldo de carne e legumes.
Edward gostaria de troçar, pedindo algo substancial, contudo não tinha forças. Somente sorriu para a governanta e assentiu. Ao ficar a sós com sua mãe, inverteu a posição das mãos, sendo ele a segurar a dela. Após um suspiro resignado, pediu que prestasse toda atenção ao que diria.
Como Isabella, Elizabeth não esboçou qualquer reação que demonstrasse surpresa ao saber de seu parentesco com Laurent Hunt, reforçando a teoria de que ela também tenha sido uma das vítimas de seu pai. Se fosse o caso, Edward preferia não saber. Igualmente queria a paz.
― Sinto muito ter de lhe dizer essas coisas ― concluiu com estável, a respiração regulada.
― Agora que me contou ― disse Elizabeth, impassível ―, vejo que faz todo sentido o desfecho da visita de Laurent Hunt, anos atrás. O barão ficou possesso... Praticamente o escorraçou. Por algum tempo eu acreditei que aquele senhor tivesse transferido a raiva que sentia de seu pai para você.
― Por que nunca me disse? ― Até mesmo respirar começava a cansá-lo.
― Porque considerei irrelevante... E há de concordar que Laurent Hunt sempre foi um homem estranho, antipático... Com o tempo cheguei à conclusão de que ele invejava sua popularidade.
Pelas palavras da mãe, Edward reconheceu que seu irmão tinha herdado o que havia de pior no pai deles dois.
― Vamos deixar que os mortos descansem ― sugeriu Elizabeth.
― Sabias palavras, milady ― disse Jacob ao entrar. ― Bom dia, senhora! Edward!
― Bom dia ― mãe e filho responderam em uníssono.
― Perdoem-me a intromissão, mas soube pelas criadas que o barão estava acordado. Sei que ele espera por notícias.
― Eu preferia que as deixasse para depois, mas sei que minha vontade nada conta ― disse Elizabeth sem soar aborrecida como quis parecer. ― Vou supervisionar o preparo do caldo, pois são bem capazes de ficarem a conversar sobre a assombrosa recuperação do patrão... Jacob, apenas não o canse mais, por favor.
― Não tenha cuidados, senhora. Não acontecerá ― comprometeu-se. Depois da partida de Elizabeth, Jacob se voltou para amigo. ― Como se sente?
― Cansado dessa pergunta ― murmurou. ― Diga-me logo o que desejo saber...
― Vejo que está bem ― Jacob troçou. ― Continua a resmungar como um velho.
― Jacob...
― Está bem! Está bem! ― Jacob ergueu as mãos. Porém, assumindo a seriedade que o momento pedia, disse: ― Já cuidei dos preparativos para o velório de sir Laurent. Agora, mais do que antes acho que deveríamos nos benzer ao pronunciarmos esse nome.
― Como disse minha mãe... vamos deixar que descanse em paz... Obrigado, Jacob! Esse cuidado era muito importante para mim... Antes que pergunte a razão...
― Edward ― Jacob o deteve. ― Eu já descobri o motivo.
― Como? ― De súbito Jacob tinha toda a atenção do ex-patrão. Sem respondê-lo, Jacob retirou algo do bolso de seu casaco. Ao baixar o olhar para o grande envelope dobrado, Edward franziu o cenho. ― O que é isso?
― O contrato de compra de Dawolds House ― disse por fim ao retirar o documento do envelope e abri-lo diante Edward para que o visse. Laurent não mentira afinal.
― Ai está apenas o nome de meu pai ― comentou ao sustentar o olhar do amigo. ― O que pode ter deduzido?
― Não houve dedução, Edward ― Jacob guardou o documento no envelope. Depois de colocá-lo na gaveta da mesa próxima, voltou para o lado da cama e esclareceu a um barão ansioso: ― Otto Cooper estava mesmo empenhado em descobrir todo o mistério que cercava Hunt e passou a noite analisando os papéis que confiscou.
― Quais mistérios poderia haver? ― indagou em um rouco ciciar. ― Eram cúmplices...
― Não eram ― Jacob negou antes de narrar tudo o que aconteceu enquanto o amigo esteve desacordado, esperando socorro. E até mesmo o que sucedeu depois, com ele fora de perigo, medicado. ― Como vê ― concluiu ―, Otto Cooper nos enganou. Queria somente conseguir provas contra Hunt.
― Por isso ele eliminou Alec Gruen... Foi uma prova definitiva de lealdade ― Edward admirou-se. Jamais poderia imaginar que houvesse no mundo alguém mais obstinado do que ele próprio. Ainda a digerir a novidade, retomou a parte em que estava direitamente envolvido. Ao que parecia, seu desejo de manter o parentesco com Laurent em segredo não seria atendido: ― Disse que não houve dedução... O que Cooper descobriu?
― Naquele envelope que guardei em sua gaveta, tem também quatro cartas... ― Jacob revelou. ― Do seu pai para a Sra. Hunt... Sabemos que Laurent era seu irmão. Lamento por isso.
― Não mais do que eu... ― Edward suspirou e fechou os olhos. Estava no limite de suas forças. ― No fim... Poupou-me o trabalho de contar.
― Sim... Pelo visto, sou eu quem tem as novidades. Porque há mais.
― Mais?! ― o barão encarou o amigo. ― O que mais pode haver?
― Laurent Hunt tinha um testamento. Um que foi renovado há pouquíssimos dias.
Edward duvidou que quisesse ouvir, pois soube que odiaria o que viria, mas não havia escapatória.
― Otto Cooper ainda não teve acesso ao testamento, mas encontrou um recado do advogado de Hunt onde ele comunicava que a troca de sua única beneficiária para Embry fora feita com sucesso.
― Hunt fez de Embry seu herdeiro?! ― Com o assombro Edward tentou levantar, porém a dor o manteve no lugar. ― No que estaria pensando?
― Ouviu que houve uma troca... Realmente não sabe o motivo? ― Jacob devolveu a pergunta.
Sim, Edward sabia. E teve também a prova de que o irmão dizia a verdade sobre seu amor. Evidente que a única beneficiária citada era Isabella. Laurent poderia ser confiante, porém não era tolo. Ele tramou a delação para forçar um desafio e, sabendo que poderia morrer no embate, não quis que sua amada tivesse o nome jogado à lama. Seu alvo sempre foi o irmão. Deixando suas posses para Embry, apenas soaria como última provocação; ou remissão.
Bem, Edward agradecia o cuidado, contudo dispensava sua generosidade.
― Pois Embry não há de querer nada que venha daquele infeliz...
― Pelo o que vimos no bilhete, parece que ninguém poderá tomar essa decisão pelo menino ― Jacob informou. ― Hunt pediu que o testamento fosse incontestável e que nenhum dos responsáveis pelo menino tivesse poder de decisão. Quem decidirá o que fazer com a herança será o próprio Embry, quando chegar aos vinte e um anos. Caso tudo isso se confirme quando o testamento for lido.
Era um pesadelo! Edward considerou.
― Quando Cooper irá anunciar suas descobertas?... Ou já o fez?
― Ainda não. Segue analisando o que confiscou, mas no que se refere ao seu parentesco, o inspetor pediu que o tranquilizasse. Disse que ficará ao seu critério revelar ou não. Tanto que me entregou o documento. Restará se acertar com o advogado de Hunt quando ele vier procurá-lo.
Edward entendeu que aquela era a forma de Otto Cooper lhe acenar com a paz depois de enganá-lo. E ele a aceitou. Para encerrar aquele assunto, agradeceu a Jacob e pediu que fosse descansar.
― Preciso que esteja bem disposto para assumir o controle da sidreria por esses dias.
― É o que farei. Melhoras, Edward ― Jacob curvou a cabeça, deferente, pediu licença e saiu, deixando o amigo sozinho com seus pensamentos.
O barão não teve muito tempo para remoer as últimas descobertas. William Morrigan entrou poucos minutos depois. Surpreso por encontrar seu paciente melhor do que esperava, examinou-o, refez os curativos no peito e nas costas. Confiando que o quadro não mudaria, prometeu voltar ao final da tarde.
Elizabeth que pacientemente esperou pela partida no médico se aproximou e, ignorando os protestos inicias, fez com que o filho botasse o caldo servindo-lhe as colheradas à boca, como em seu tempo de menino. A parca refeição se revelou surpreendentemente saborosa e deu ao barão um pouco mais de força para ouvir os relatos de sua mãe.
― É impressionante o modo como todos o consideram ― disse Elizabeth, entre uma colherada e outra. ― Praticamente todos os nossos convidados fizeram questão de deixar claro seu apoio a você e à sua esposa. Não tive condições de ficar até o fim das despedidas, mas foi o que Senior me contou pela manhã.
― Senior? ― O tratamento era surpreendente, não sua popularidade junto aos moradores da vila. ― O que perdi?
A nova surpresa foi ver o rosto de sua mãe corar fortemente. A senhora tentou disfarçar seu embaraço durante o tempo em que se afastou para deixar o prato vazio na bandeja sobre a mesa, porém sem sucesso algum. Ao retornar para o lado do filho ainda se encontrar ruborizada.
― Não perguntei para constrangê-la ― Edward tentou tranquilizá-la. ― Mas preciso saber.
― De fato ― Elizabeth esboçou um sorriso, que desfez após um suspiro. ― Não há novidade. Aconteceu como imaginou. O Sr. Zimmer e eu nos entendemos e aceitei seu pedido de casamento. Com isso, não há razão para a formalidade.
Edward escrutinou o rosto sereno de sua mãe e foi como se a visse pela primeira vez. Daquela nova senhora ele não sentia qualquer tipo de possessividade filia.
― Pois receba meus cumprimentos, mamãe ― disse solenemente. ― Faço votos para que seja feliz.
― Serei ― ela assegurou, voltando a sorrir. ― Especialmente depois de o senhor se recuperar e de sua esposa se comportar como uma dama. Já deve saber o que aconteceu à Irina Ulley... Não a condeno pela expulsão, mas agredir a criatura? No estado em que se encontra?
― Sim, seria preferível que tivesse sido diferente, mas acredite, foi necessário. ― Edward, em parte, concordava com sua mãe, porém sabia que a esposa estava bem e não deixaria que a senhora fugisse do assunto. Queria também estar seguro. ― Quando pretende se casar?
Elizabeth voltou a suspirar e, embaraçada, respondeu:
― Não temos idade para esperar mais, então concordamos em realizar uma cerimônia como a sua aqui em Apple White, no próximo sábado. Suas irmãs e cunhados já se dispuseram a esperar. Todos acreditam que até lá você esteja em condições de participar. O que os deixará também tranquilos para partir.
Edward assentiu. De fato não queria ser mal-agradecido com quem esteve presente nos momentos mais difíceis, mas queria que se fossem. Queria até mesmo que sua mãe fosse viver a própria vida. Enfim a tão sonhada redoma, pensou antes de ser vencido pelo sono.
Isabella, por sua vez, recusou-se a ocupar seu novo quarto sem a companhia do marido, com isso dormiu na cama que pertenceu a Marguerite. Sequer foi ao quarto do filho anunciar que naquele dia ele poderia ver o pai. Logo acordou assustada, com o encerramento de um som. Em instantes soube ter sido da porta que fora fechada e antes mesmo que se sentasse e visse a mulher que a encarava, sentiu um estranho déjà vu.
Com uma xícara fumarenta na pequena bandeja em suas mãos ossudas, Sue Wood sustentava o olhar incrédulo da neta com a mesma inexpressividade demonstrada durante a expulsão de Irina Ulley.
― O que quer aqui?
― Precisava vê-la.
― Não há razão para isso. Entende que eu não quero vê-la?
― Mas tenho algo a dizer. Eu...
― Sei tudo o que tem a dizer ― Isabella a interrompeu, defensiva ―, mas não importa que me considere uma intrusa, que me odeie... Nada do que diga me afeta. Hoje, este é meu quarto e não é bem-vinda aqui. Saia!
― Desarme-se e me escute ― pediu sua avó. ― Há dias que me arrependo do que fiz, mas sou ignorante. Não sei usar as palavras certas... Desde nosso último encontro eu tento dizer que quero paz, e não consigo. Acabei falando demais e Irina nos ouviu. Acredite, eu não queria prejudicá-la.
― Por que devo acreditar? ― Isabella lhe escrutinava o rosto envelhecido. ― Diz que não sabe usar as palavras, mas sempre teve um eloquente discurso para me humilhar, para deixar claro o que pensa de mim... Para me expulsar dessa casa.
― É passado ― Sue baixou o olhar. ― Reconheço que exagerei. Eu era movida por um rancor antigo, enraizado em meu coração desde antes de seu nascimento... Contei-lhe a história. Por favor, aceite meu pedido de desculpas.
O rancor estava também enraizado no coração da moça, porém lhe parecia errado alimentá-lo quando estava tão feliz. Quando, contrariando sua crença, ela continuava a merecer novos milagres. Tinha seu pequeno e seu antigo amor sob o mesmo teto, em breve voltaria a ser mãe. Ainda temia os meses que viriam, mas tinha fé que ao final da gestação poderia experimentar as maravilhas da maternidade sem nenhum receio. Todas essas coisas tornavam-na benevolente.
Friamente pensando, a maldade da decrépita mulher parada aos pés de sua cama não a atingiu ao ponto de torná-la amargurada. Nada do que a avó tinha feito, assim como barão pai, não alterou o desfecho de sua história. Portanto, nada lhe custaria conceder o perdão, Isabella considerou.
― Está bem... Eu a desculpo.
― Obrigada ― Sue esboçou um sorriso que não lhe suavizou a expressão, somente enrugou ainda mais seu rosto, tornando-o soturno.
― Mas entende que não voltarei a considerá-la como antes, de uma hora para a outra. Nossa aproximação se dará aos poucos. E vejo que merece algum descanso. Posso pedir ao meu marido que a libere de seus serviços. Talvez até mesmo haja uma casa que possa ocupar.
― Oh! Como é generosa! Isso será mais do que mereço ― Sue avançou um passo. ― Veja... Sei que aprecia os chás de Marie e como prova de minha boa vontade, pedi que ela preparasse um especialmente para essa ocasião. Também pedi permissão para trazê-lo. Nunca mais invadirei seu quarto. Tome... ― a senhora estendeu a bandeja para a neta.
― Obrigada! ― Um dos chás de Marie seria perfeito para eliminar a secura em sua garganta, pensou Isabella ao pegar a xícara.
― Beba ― disse a avó com indisfarçada ansiedade. ― Antes que esfrie.
Isabella uniu as sobrancelhas em estranheza, porém decidiu que não tentaria decifrar o que se passava na mente de Sue. Seria preferível atendê-la para que a senhora a deixasse, encerrando aquela parte de sua vida. Preparava-se para provar o chá, quando a porta abriu de súbito.
Sem pedir permissão ou cumprimentá-las Embry entrou e correu para a cama da mãe, obrigando-a a deixar a xícara sobre o criado-mudo para que não derramasse o chá. Nero parou ao ver Sue Wood e passou a rosnar.
― Fique quieto, Nero! ― Isabella ralhou antes de dar atenção ao filho que a apertava em um abraço. ― Embry, o que houve?
― Precisava ter certeza de que a senhora estava aqui ― disse sem se mover, a cabeça pousada no colo da mãe.
― Embry... Não o entendo. Se não estivesse aqui, estaria com seu pai... Para onde mais eu iria?
― Para o céu. Eu vi no meu sonho que a senhora tinha partido. Não quero que vá ― choramingou.
― Acalme-se, querido... ― ela murmurou, acariciando-lhe os cabelos desalinhados. ― Teve um pesadelo. É o que acontece quando dorme no meio da manhã.
― Na verdade, esses descansos são benéficos ― opinou a avó. ― O menino poderia dormir um pouco mais... Mande-o de volta ao quarto junto com Nero e tome seu chá.
― Sim, o chá! ― Isabella teve uma ideia. Afastando o filho com delicadeza, apontou para a xícara e ofereceu: ― Os chás de Marie são ótimos para apagar essas más impressões. Não quer esse para você?
― Não! ― Sue gritou, assustando mãe e filho que a encararam sem nada entender.
― Por que não posso oferecer meu chá a... ― Isabella se interrompeu ao ver a expressão de pavor de sua avó que maneava a cabeça freneticamente. Recusando-se a aceitar o que sua mente lhe dizia, indagou: ― O que tem no chá?
― Nada! Nada! ― Sue negou, porém seus olhos saltados a desmentiam.
― Se não há nada ― a moça sussurrava para não gritar ―, Embry pode bebê-lo.
Ao se calar Isabella recuperou a xícara e a estendeu para o filho. Evidente que não o deixaria tocá-la, porém o menino sequer se moveu antes que Sue avançasse e tomasse a xícara das mãos da neta.
― Não o inocente ― ciciou a senhora, deixando cair sua máscara. ― Esse chá era para você! Para que todos dessa casa enfim tivessem a merecida paz.
― A senhora está louca! ― elucidou Isabella, abraçando fortemente o menino que tremia ao seu lado. ― Lady Westking disse que estava senil, e é verdade. Quando ela souber o que tentou fazer irá mandá-la a um asilo.
― Para o asilo? Não! ― Sue se desesperou. ― A ideia não foi minha... Foi de Irina! Ela soube como eu me sentia e me disse que essa era a única solução.
― Se tivesse sido Irina a me servir ― retrucou a moça, sem emoção ―, eu entenderia. Não a senhora. Ninguém há de entender. Deve juntar o que possui, pois quando seus senhores souberem o que fez a mandarão embora, ainda essa manhã.
Sue maneava a cabeça, mirando a neta com olhos maximizados.
― Aceite ― Isabella aconselhou. ― E escolha. Sairá daqui para o asilo ou para a cadeia.
― Pior é saber que tem razão ― sibilou Sue. ― Dei minha vida a todos dessa casa, e no fim, ainda ficariam do seu lado. Ingratos!
― Justos ― redarguiu. ― Será possível que não entenda o que tentou fazer?
― Tentei salvá-los!
― De mim, talvez, já que acredita nos absurdos que pensa e diz, mas... E quanto ao filho do barão? ― Isabella pousou uma das mãos em seu ventre. ― Eu entendi que não atentaria contra inocentes.
― Está grávida?! ― Sue mirava a mão sobre o ventre com olhos vidrados. ― Grávida?! Então não resta o que fazer... Serei mesmo escorraçada ou levada a um asilo.
― Saia por bem ― Isabella opinou, agradecendo intimamente por aquela partida, fosse como fosse. ― Não lhe devo favores, especialmente agora. Porém está velha e cansada. Manterei minha palavra e darei um jeito de ajudá-la, longe dessa casa. Apenas...
Antes que Isabella pudesse prever, Sue maneou a cabeça, fechou os olhos e bebeu o chá.
― Não... ― a moça deixou a cama para impedi-la, porém era tarde. Sem deixar de encarar a neta, Sue atirou a xícara ao chão.
― Ao inferno com sua caridade ― sem mais palavras Sue deu as costas à baronesa e deixou o quarto com Nero a latir em seus calcanhares.
― Mamãe, o que está acontecendo? ― indagou Embry sem se mover.
Isabella gostaria de acalmá-lo, mas não podia. Para não assustá-lo mais, sorriu e disse:
― Não ligue para ela, querido... Sue está velha e teatral. Vou ver se ficará bem e já volto. Não saia dessa cama. Promete?
Embry assentiu, deixando a sua mãe livre para correr porta afora. Antes que chegasse à escada ouviu o baque surdo de um corpo que rolou degrau abaixo seguido do grito das criadas. Isabella sabia o que veria, porém precisou parar ao lado de Nero e olhar do alto da escada para ter a confirmação. Talvez pela potência do veneno, talvez pela queda. Não importava... Sue Wood estava morta.
Lamentável, porém o único sentimento que levou Isabella a estremecer foi o profundo alívio.
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Edward despertou sentindo a presença ao seu lado. Ao abrir os olhos, respirou com alívio ao ver o filho, não Irina Ulley, uma criada tão obsessiva quanto Laurent Hunt. Temor infundado, pois ambos estavam fora de sua vida definitivamente. Entretanto, logo seu alívio cedeu lugar à consternação ao perceber receio nos olhos infantis.
Antes de interrogá-lo, Edward olhou em volta. Estavam sós. Sem atinar a razão, sentiu seu coração enregelar.
― Onde está sua mãe?
― Todos estão cuidando da senhora que caiu da escada ― disse Embry, sem se mover.
― Qual senhora caiu? ― Tentando não se alarmar, Edward permaneceu deitado; era a posição menos incômoda.
― Uma que trabalhava na cozinha... Ela estava no quarto com minha mãe, que tinha de tomar o chá. Eu não poderia... Então a senhora o tomou e saiu correndo. Ela estava brava e minha mãe foi atrás dela... E, ela caiu...
O relato confuso do menino para Edward soou com coerência alarmante. Ainda que doesse, voltou a se sentar.
― Quando foi isso?
― Há algumas horas, senhor ― disse Embry, mirando o peito enfaixado. ― Isso dói?
― Sim, dói muito ― Edward respondeu de modo paciente, porém não queria falar de si. ― E como está sua mãe?
― Edward?! ― foi com renovado alívio que o barão ouviu a voz repreensiva de sua esposa. ― Deite-se imediatamente.
― O que aconteceu? ― indagou depois de obedecê-la. Gostaria de rebelar-se, mas a verdade é que não tinha forças. ― O que Sue Wood fez?
Assumindo o lugar do filho, Isabella cobriu o marido, escolhendo as palavras.
― Sue tentou me fazer dormir depois que eu bebesse o chá que me serviu ― disse, mirando Embry de modo sugestivo.
O barão lhe seguiu o olhar, então voltou a encarar a baronesa e assentiu, deixando-a livre para que prosseguisse. A narrativa editada não foi melhor do que a de Embry, então para Edward bastou ver que sua esposa estava incólume, ainda que se consternasse.
― Não sabe como eu gostaria de poder ajudá-la ― falou ao lhe capturar a mão pousada em seu peito. ― Odeio o fato de estar preso a essa cama!
― Sei de todas essas coisas ― Isabella soou apaziguadora. ― Mas não há nada mais a ser feito. Jacob, com a ajuda de seus cunhados, está cuidando do destino de Sue Wood... Ela deve deixar essa casa ainda no final dessa tarde.
Não importava o que sua esposa dissesse, deveria ser ele o responsável. Contudo, restava conformar-se com a limitação importa. Todas elas na verdade, pois se estivessem sozinhos, ele pediria um beijo ou um abraço mesmo leve, somente para sentir sua mulher. Para consolá-la mesmo que não fosse preciso.
― Pois está indo tarde ― disse por fim, aborrecido.
― Bem... Não poderei ficar ― ela anunciou, sustentando o intenso olhar do marido. ― Vim para ver como Embry estava se comportando. Avisei-o de que não pode cansá-lo. Agora que o viu, acho que deveria deixá-lo dormir.
― Acabo de acordar ― Edward observou seriamente. ― Deixe-o.
Não ocultando sua relutância, Isabella assentiu e saiu. A mirar a porta, Edward considerou que se não fosse a dor e a subsequente falta de ar, dar-se-ia alta e a seguiria. Como não poderia, Edward quis crer ser suficiente deixar que o filho ficasse ao seu lado, como se ele fosse um porto seguro que o protegeria do mal.
Não poderia fazê-lo, mas estava claro que a força divina que o salvou durante o duelo ainda agia em sua vida. Por meios tortos e desfechos lúgubres, cada coisa ia para seu devido lugar.
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